Luísa de Gusmão – parte II

Depois dos sete dias de festividades em comemoração ao matrimônio do duque, o Paço de Vila Viçosa voltou ao seu cotidiano habitual, e a nova duquesa assumiu suas novas funções. A principal, é claro, constituía na produção de filhos e filhas para o seu marido. D. João, contudo, fosse o quanto dedicado à composição de música sacra fosse, não parece ter se limitado seus desejos carnais ao leito conjugal. Em flagrante contraste com seu pai – e, na verdade, com toda a sua ascendência brigantina -, D. João produziria descendência ilegítima. Nos primeiros meses de seu matrimônio com D. Luísa, a esposa de André Mendes Lobo, rico lavrador e fiel servidor da Casa de Bragança, concebeu sua segunda filha. De acordo com rumores da época, reproduzidos por Felgueiras Gayo, a pequena Maria seria filha de D. Leonor com o duque, assim como a sua irmã mais velha D. Ângela. Toda a família seria muito beneficiada pela forte proximidade com D. João, principalmente as meninas, que efetuariam mais tarde casamentos vantajosos. Além disso, o duque de Bragança tinha frequentes ligações ilícitas com atrizes que trabalhavam em companhias de comédias, casos que eram do pleno conhecimento de sua negligenciada esposa.

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D. Teodósio retratado numa gravura do século XVII

O matrimônio, então, teve um começo atribulado. Mesmo assim, D. Luísa daria à luz ao primeiro filho do casal, Teodósio, em oito de fevereiro de 1634, pouco mais de um ano após o casamento de presente com D. João. A partir daí, vendo a produção regular de crianças, pode-se presumir que a desatenção do duque com sua esposa ficou relegada ao passado: logo no ano seguinte, nasceria Ana, que teve curta vida, seguida no mesmo ano por Joana. Em 1637, a duquesa teria um aborto, mas em 25 de novembro de 1638 teve outra menina, Catarina. D. Luísa teria outro aborto antes de ter mais um menino, Manuel, em setembro de 1640, mas ele viveu pouco.

Paralelamente ao trabalho reprodutivo da duquesa, D. João contemporizava perante as evidentes tentativas do conde-duque de Olivares para que ele participasse mais da política da monarquia hispânica. Enfrentando dificuldades financeiras decorrentes da Guerra dos Trinta Anos, o governo dos Habsburgo espanhóis planejava repartir entre todos os seus reinos ibéricos o custo humano e financeiro da política imperial de Castela. Tal ideia enfrentou evidente resistência da alta nobreza portuguesa, que combateu com afinco o planejado programa fiscal. Então, em 1634, a duquesa de Mântua foi nomeada como vice-rainha, substituindo o conde de Basto.

Primeira filha de Carlos, duque de Saboia, com a infanta Catarina, filha de Felipe II de Espanha, Margarida era parente próxima de Felipe IV. Aconselhada por apoiadores da política espanhola, a duquesa aquiesceu às exigências de Olivares, que foram ficando progressivamente mais duras em relação a Portugal. Nesta conjuntura, ocorreu uma sequência de más colheitas, degradando as condições de vida da população, que acabaria por se rebelar em Évora em 1637. Conhecido como Revolta do Manelinho ou Manuelinho, em referência a seu suposto líder popular, o movimento espalhou-se rapidamente, chegando a atingir Lisboa. Como governador-geral das armas, D. João foi chamado a Madri e ordenado a suprimir o movimento com força militar; contudo, ele dilataria tanto os preparativos que seria a mera ameaça dos exércitos castelhanos nas fronteiras portuguesas que acabaria por dar fim à revolta. Devido à liderança nominal do duque de Bragança destas tropas, porém, Felipe IV convenceu-se que D. João o servia fielmente. O monarca até mesmo teria considerado nomeá-lo como o novo vice-rei de Portugal, em substituição à sua prima Margarida.

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Margarida, duquesa de Mântua

Enquanto isso, a pressão no reino aumentava cada vez mais. Insatisfeitos com o governo Habsburgo, ao qual acusavam de quebrar o acordo efetuado em Tomar em 1581, parte da aristocracia portuguesa acabaria por iniciar preparativos para o golpe contra a Coroa após receber instruções de Espanha para enviar tropas para lutar na campanha contra a revoltosa Catalunha. Depois de muito hesitar, D. João concordou em 17 ou 18 de novembro de 1640 com a sua aclamação como o herdeiro legítimo do trono de Portugal. Foi planejado que a ação que deporia a soberania política Habsburgo ocorreria no dia 1 de dezembro, enquanto o duque aguardava com segurança em Vila Viçosa.

A insurreição ocorreu praticamente sem incidentes, excetuando-se a morte do secretário de Estado e genro de Margarida, Miguel Vasconcelos, que foi atirado pela janela do palácio. As notícias do sucesso chegariam ao conhecimento de D. João no dia seguinte, mas seria apenas no dia 4 que ele seguiu para Lisboa, reunindo-se com os governadores interinos no Paço da Ribeira em meio à concentração da população ao redor. Tantas teriam sido “as vozes alegres do povo”, segundo Ericeira, que o duque teve que aparecer numa das janelas, onde foi aclamado. Agora D. João era o rei de Portugal, e D. Luísa era sua rainha.