Leonor de Aragão – parte I

Nascida em 1º de março de 1402, Leonor de Aragão foi a quinta criança (segunda menina) de Fernando I de Aragão e sua esposa, a condessa castelhana Leonor de Albuquerque. Seu pai fora o segundo filho de uma infanta de Aragão; quando seus tios morreram sem descendência, ele reivindicou sua herança em 1412. Fernando continuaria, contudo, a exercer a regência de Castela, que iniciara juntamente com sua cunhada, a rainha viúva Catarina de Lancaster, após a morte de seu irmão Henrique III em 1406, até sua própria morte prematura em 1416. Ele seria sucedido em Aragão pelo filho primogênito Afonso, que em 1420 casaria a irmã Maria com o jovem rei castelhano João II.

A irmã mais nova de Afonso, Leonor, também seria uma peça no jogo dinástico dos Trastámara para espalhar a descendência de Fernando I pelos tronos ibéricos, e, assim, ajudar a expandir a influência política da Casa. Esta ambição do ramo aragonês dos Trastámara conversava perfeitamente com a resistência da recém-instaurada dinastia portuguesa dos Avis em casar seus membros em Castela – ao menos enquanto a princesa Joana vivesse. Mas não deixavam de existir alternativas a um possível casamento aragonês: é bem possível, por exemplo, que influenciado por sua consorte, D. João I visse com simpatia uma possível união inglesa para seu herdeiro D. Duarte.

Leonor, condessa de Albuquerque
Leonor, condessa de Albuquerque

Por outro lado, as núpcias do herdeiro do trono português precisavam ser negociadas com cuidado. Nesse sentido, a existência de três outros filhos homens do rei – D. Pedro, D. Henrique e D. Fernando – tornavam essas longas negociações não apenas necessárias, mas plenamente possíveis. As primeiras negociações ocorreriam pouco depois da maioridade de D. Duarte, ocorrida em 1409, com a aragonesa Casa de Urgell; os choques de interesses desta com os do novo rei, Fernando I, acabaram destroçando a família, que acabou arruinada. A putativa noiva acabaria num convento. Depois disso, as próximas negociações matrimoniais registradas de D. Duarte ocorreram apenas em 1422, quando D. João I entrou em contato com condessa de Albuquerque para negociar um possível casamento entre seu herdeiro e a filha ainda solteira dela, Leonor.

A esta altura, contudo, os dois ramos da Casa de Trastámara haviam se tornado ferrenhos adversários, e João II de Castela proibiu a condessa de Albuquerque, sua vassala, de liberar a filha para as núpcias portuguesas. Os próximos anos foram uma verdadeira queda de braço entre Aragão e Castela pela posse da infanta Leonor, até que em 1427, finalmente, ela foi liberada para voltar ao seu reino de origem. Por todo o ano, as negociações continuariam, agora tornadas mais urgentes pela posse aragonesa da infanta. Em fevereiro de 1428, grandes festas aconteceriam na cidade de Valhadolid para a despedida de Leonor, depois das quais ela se dirigiria para a fronteira com Portugal.

Leonor de Aragão
Leonor de Aragão

Inicialmente, a cerimônia nupcial ocorreria em Évora, mas devido ao surto de peste que lá havia, foi transferida a mando de D. João I para Coimbra – o que muito enfureceu D. Duarte, que já gastara muito nos preparativos naquela cidade. Não estando disposto a enfrentar o humor do herdeiro, o rei acabou mandando o terceiro filho, D. Henrique, em seu lugar para atuar como mestre-de-cerimônias. A união oficial ocorreu por fim no dia 22 de setembro; antes mesmo disso, contudo, D. Duarte, que estava hospedado no mesmo paço de Leonor, a visitava duas ou três vezes por dia em seus aposentos. Embora o infante D. Henrique tenha assegurado ao pai que ambos não haviam chegado às intimidades, deve-se lembrar que o noivo era um homem enérgico de 37 anos; apesar de ter tendência à depressão, que o abateu pela primeira vez após a morte de sua mãe Philippa em 1415, dificilmente ainda era virgem, como já foi defendido anteriormente por alguns autores. De qualquer forma, os primeiros encontros entre ambos pareceram ser agradáveis; pouco mais de um ano após o casamento, nasceria o primeiro filho, batizado em homenagem ao avô.

O Tratado de Windsor e a aliança anglo-portuguesa

Estabelecido em 09 de maio de 1386 entre os reinos de Portugal e Inglaterra, o tratado de Windsor estabeleceu um pacto de ajuda mútua entre ambos. Tendo sido reforçado pelo matrimônio do rei D. João I com a nobre inglesa Philippa de Lancaster, ele firmou o primeiro rei da dinastia de Avis definitivamente no trono, afastando a pretensão de sua sobrinha Beatriz, casada com o rei de Castela.

Representação da cerimônia de casamento de D. João I de Portugal e Philippa de Lancaster
Representação da cerimônia de casamento de D. João I de Portugal e Philippa de Lancaster

Anteriormente, em 1373, fora acertado um acordo de cooperação entre ambos os países, mas este não sobrevivera à morte do rei D. Fernando I de Portugal. Seria apenas com o tratado de 1386 que a aliança se consolidaria permanentemente, sendo portanto o tratado mais velho ainda em ativa em toda a história, mesmo considerando-se sua temporária anulação entre 1580 e 1640. Ela seria reforçada durante a Guerra de Restauração portuguesa (1643 e 1654), a Restauração Inglesa (1660 e 1661), a Guerra de Sucessão Espanhola (1703) e as Guerras Napoleônicas (1815), quando as tropas francesas foram detidas na Península Ibérica pelo duque de Wellington. Na Segunda Guerra Mundial (1943), Portugal forneceu apoio naval fundamental aos navios e aeronaves ingleses após ter permanecido neutra por parte do conflito. Durante a Guerra das Malvinas (1982), a aliança também foi usada pela Inglaterra para obter o apoio diplomático português contra a Argentina.

Também existiram negociações matrimoniais entre as duas monarquias, embora nem todas fossem bem-sucedidas. Em 1485, Ricardo III de Inglaterra e D. João II de Portugal iniciaram um projeto de matrimônio duplo: o rei inglês se casaria com a irmã do rei português, D. Joana, e este casaria a alegada sobrinha bastarda do inglês, Isabel de York, com seu primo D. Manoel, duque de Beja (futuro D. Manuel I de Portugal). Porém, com a morte de Ricardo III no mesmo ano, morto na batalha de Bosworth contra os exércitos do futuro Henrique VII de Inglaterra, nada ocorreria. Cerca de meio século depois, entre 1537 e 1540, começaram as negociações para um casamento entre Maria de Inglaterra (futura Maria I), filha mais velha sobrevivente de Henrique VIII, e o irmão de D. João III de Portugal, D. Luís. A ideia foi eventualmente abandonada, provavelmente por problemas com a delicada sucessão real inglesa e a hipótese de que o duque de Beja já tivesse se casado secretamente com a mãe de seu filho bastardo.

D. Luís, duque de Beja
D. Luís, duque de Beja

Finalmente, em 1661, foi assinado um contrato de casamento entre Carlos II de Inglaterra e Catarina de Portugal. Eles se uniriam no ano seguinte, mas a infanta portuguesa jamais seria coroada ou mesmo inteiramente aceita pela nobreza por seu catolicismo num reino fortemente protestante desde a dinastia Tudor. Com apenas três natimortos frutos do casamento, a coroa acabaria sendo herdado pelo irmão de Carlos, James II, cujo catolicismo e eventual nascimento de um herdeiro causariam a Revolução Gloriosa em 1688.

Isabel I de Castela – a rainha e a guerreira

A facção da nobreza liderada por Isabel, porém, não era forte o suficiente para depor o rei. Novamente, então, os dois lados chegaram a um acordo: Henrique IV nomearia Isabel como sua herdeira presuntiva, e Isabel não se casaria sem a permissão do irmão. Não muito tempo depois, porém, o rei estava tentando casar Isabel com D. Afonso V de Portugal, ao mesmo tempo em que negociava uma união entre sua suposta filha Joana e o herdeiro de D. Afonso, o príncipe D. João: assim, tia e sobrinha poderiam reinar consecutivamente tanto em Castela quanto Portugal.

Joana de Castela, dita
Joana de Castela, dita “a Beltraneja”

Isabel, porém, se recusou e começou a tentar paralelamente uma união com seu primo Fernando de Aragão, a quem já fora prometida por certo tempo em sua infância. Sendo a parte mais poderosa do acordo, ela pôde até mesmo impor condições algo humilhantes para Fernando e seu pai, o rei João II, que desesperados por uma união que tirasse Aragão da difícil condição financeira e política em que se encontrava, não tiveram como negociar realisticamente com a princesa (ELLIOT, 1963, p. 15). Finalmente, em outubro de 1469, Isabel fugiu secretamente da corte com a desculpa de visitar a tumba do irmão Afonso, enquanto Fernando disfarçava-se de servo em sua viagem por Castela rumo à cidade de Valladolid. Lá, Isabel o teria reconhecido à primeira vista sem erro em meio a um grupo de cavalheiros, exclamando “É ele, é ele!” (FRASER, 1992, p. 22). No mesmo dia, ambos se casaram com o auxílio de uma dispensa papal falsa, necessária devido ao seu parentesco próximo. Já no ano seguinte, nasceria a primeira filha do casal, batizada em homenagem à mãe.

Infanta Isabel de Aragão, primogênita de Isabel e Fernando
Infanta Isabel de Aragão, primogênita de Isabel e Fernando

O casamento secreto de Isabel de Castela e Fernando de Aragão precipitou o início da luta pela sucessão do trono castelhano. Henrique IV procurou restabelecer Joana como sua herdeira no lugar de Isabel, mas, quanto ele morreu em 1474, foi sua meia-irmã que subiu ao trono. Então, a princesa Joana tomou a iniciativa de propor uma união com D. Afonso V de Portugal, ciente de sua frágil posição após a morte de seu pai. O rei concordou e invadiu o reino castelhano com seus exércitos em 10 de maio de 1475 para se encontrar com sua sobrinha e noiva. Ambos se casaram em 25 de maio e foram proclamados soberanos conjuntos de Castela.

Assim, a sangrenta guerra teve início oficial, permanecendo indefinida até a batalha de Toro, em 1 de maio de 1476, onde as tropas portuguesas recuaram e debandaram. Provando ter uma grande visão política, Isabel aproveitou o momento para convocar as Cortes, onde sua filha primogênita foi jurada como herdeira, simbolizando a legitimidade da própria Isabel; o nascimento de seu filho João em 1478 a fortaleceria ainda mais. Depois de repelir os franceses, aliados de Portugal, e garantir o recuo de D. Afonso V e Joana, a guerra de sucessão castelhana basicamente se limitou aos confrontos navais e breves revoltas internas contra o domínio de Isabel, sufocadas com rapidez. Em fevereiro de 1479, Portugal sofreu mais um grave revés quando a dispensa papal que havia garantido o casamento de tio e sobrinha foi anulada, prejudicando em muito a pretensão de D. Afonso V. Sem escolha, o rei teve que concordar com um tratado de paz. Assinado na vila de Alcáçovas em 4 de setembro de 1479 e ratificado por ambos os lados no ano seguinte, ele consistiu basicamente na renúncia de D. Afonso V a qualquer direito ao trono castelhano, assim como Joana, que foi confinada a um convento. Portugal e Castela também dividiram suas áreas de influência no oceano Atlântico.

Isabel I de Castela – a infanta e a herdeira

Isabel I de Castela
Isabel I de Castela

Nascida em 22 de abril de 1451 na cidade castelhana de Medina del Campo, a futura rainha de uma Espanha unificada não era considerada uma herdeira. Ela era a primogênita do segundo casamento do rei João II de Castela com a nobre Isabel de Portugal, que tinha uma alta dose de sangue real português por sua dupla descendência de D. João I de Portugal: paternalmente pelo casamento do rei com Philippa de Lancaster, e maternalmente pelo filho ilegítimo de D. João I, o primeiro duque de Bragança. A jovem infanta tinha um irmão 26 anos mais velho, fruto do primeiro casamento do monarca castelhano com a já falecida Maria de Aragão. Preso num casamento estéril com a herdeira Blanche de Navarra, porém, o príncipe Henrique não tinha filhos, o que tornava sua jovem meia-irmã a segunda na linha sucessória. Em 1453, nasceu um menino para o casal real, Afonso, que assumiu então o lugar da irmã. Tragicamente, João II faleceu não muito tempo depois disso. Viúva, a rainha Isabel foi forçada a viver com suas crianças no pobre castelo de Arévalo, onde teriam uma vida difícil pelos próximos anos longe da corte castelhana.

Isabel de Portugal, rainha de Castela. Progressivamente instável após uma depressão pós-parto que se seguiu ao parto de sua primogênita, ela morreria abandonada em 1496.
Isabel de Portugal, rainha de Castela. Progressivamente instável após uma depressão que se seguiu ao parto de sua primogênita, ela morreria abandonada em 1496.

No mesmo ano do nascimento de seu meio-irmão Afonso, o príncipe Henrique conseguira a anulação de seu primeiro matrimônio com Blanche, alegando que era incapaz de consumar o casamento com ela; o fato, porém, que ele era capaz com muitas prostitutas locais indicava, na mentalidade da época, que a união era amaldiçoada. Dois anos depois, ele se casou novamente com Joana de Portugal. Em 1462, quando a rainha estava prestes a dar à luz, Henrique IV convocou seus meios-irmãos de volta à corte para testemunhar o nascimento da criança que tiraria Afonso da cobiçada posição de herdeiro presuntivo. Após o parto de uma menina saudável, Afonso começou sua educação oficial com um tutor enquanto sua irmã tornou-se uma das damas de companhia oficiais da rainha Joana. Nesta posição, além de ter acesso a uma vida mais confortável, Isabel também teve uma instrução mais constante e formal.

Joana de Portugal, rainha de Castela. Após os escândalos de seu casamento, ela se refugiaria em um convento, onde morreria em 1475.
Joana de Portugal, rainha de Castela. Após os escândalos de seu casamento, ela se refugiaria em um convento, onde morreria em 1475.

Nem Isabel nem Afonso, contudo, tinham contato direto com as agitações políticas do reino de Castela. Pouco depois do nascimento da princesa Joana, haviam começado rumores insistentes entre a nobreza já dissidente de que Joana não era filha do rei, mas sim do suposto amante da rainha, o influente aristocrata Beltrán de la Cueva. Tentando abafar os boatos, Henrique IV baniu a rainha Joana da corte. O nascimento de duas crianças ilegítimas pouco depois, porém, transformou as chamas do escândalo num verdadeiro incêndio: agora, uma facção considerável da nobreza defendia que Joana, a Beltraneja (filha de Beltrán) não poderia suceder ao rei e defendiam os direitos do príncipe Afonso. Após a Segunda Batalha de Olmedo, em 1467, Henrique IV e Afonso atingiram um acordo: o último sucederia ao rei se se casasse com a princesa Joana. Afonso, porém, não viveu muito tempo depois de ser reconhecido como o herdeiro do trono castelhano, sendo vítima da praga (ou do veneno, segundo rumores) logo no ano seguinte. Como herdeira de seu irmão, Isabel tornou-se a líder da causa rebelde.

Carlos V: o homem mais poderoso do século XVI

Carlos V no auge de seu poder
Carlos V no auge de seu poder

Carlos V, Sacro Imperador Romano e rei de Espanha, frequentemente nomeado por historiadores como sendo o homem mais poderoso da Europa no século XVI, foi o primogênito homem (segunda criança) fruto do casamento entre Joana de Aragão e Felipe, duque de Borgonha. Ele teria nascido nas cozinhas – ou nas latrinas – de um palácio de Flandres, onde sua obcecada mãe estivera escondida para vigiar seu pai mulherengo. Apesar de ser uma história bastante disseminada, com uma versão aparecendo inclusive na série Isabel, não há registros contemporâneos de tal evento peculiar.

Cena do nascimento do futuro Carlos V na série Isabel (2012-14)
Cena do nascimento do futuro Carlos V na série Isabel (2012-14)

Pouco antes, uma série de trágicas mortes entre sua família materna havia aproximado sua mãe Joana da cobiçada posição de herdeira de Espanha. Em 1497, o único irmão dela, João, morrera de tuberculose. Menos de dois meses depois, sua viúva, Margarida de Áustria, dera à luz uma menina natimorta. Logo no ano seguinte, a primogênita, Isabel, rainha de Portugal por seu casamento com D. Manuel I, falecera ao dar à luz àquele que poderia ser o herdeiro da Península Ibérica unificada, D. Miguel. Portanto, quando Carlos nasceu em 24 de fevereiro de 1500, a herança de Espanha estava sobre uma frágil criança de menos de dois anos, que de fato morreria pouco depois.

Assim, sua mãe entrou na linha direta para ser a terceira rainha reinante de Castela depois de sua avó Isabel e sua distante antepassada Urraca. Seu ambicioso pai, porém, aproveitando-se da instabilidade emocional de Joana, usurpou perigosamente seus poderes. Tentando impedir a anexação de Castela pelos Habsburgo depois da morte de Isabel I em 1504, seu avô Fernando iniciou uma disputa direta pelo poder com Felipe, que só terminou com um acordo entre as partes em 1506. A morte do duque de Borgonha em 1506, porém, causou uma insanidade temporária na rainha Joana, o que motivou Fernando a trancá-la no palácio de Tordesilhas e a governar em seu próprio nome até seu falecimento em 1516. Após isso, o jovem Carlos assumiu seu lugar como carcereiro.

Rainha Joana de Castela
Rainha Joana de Castela

Aos 16 anos, o príncipe tinha uma educação primorosa. Além do nativo francês, ele também aprendera alemão, e mais tarde um razoável espanhol. Um de seus tutores, Adrian de Utrecht, se tornaria papa. Sua regente, Margarida de Áustria, tornou-se uma verdadeira figura materna na ausência de Joana. Em 1516, quando Carlos foi aclamado rei depois da morte de seu avô, ele visitou sua mãe para requisitar sua permissão solene para reinar em Espanha. Embora ela concordasse com todos os seus pedidos, permaneceria presa pelo resto da vida, uma vez que era a sua suposta insanidade que legitimava o reino de seu filho.

Sendo Sacro Imperador Romano por herança paterna e rei de Espanha por via materna, Carlos era o soberano de metade da Europa. De acordo com essa posição elevada, ocorreram diversas negociações para o seu casamento. Sua primeira noiva foi a princesa Maria de Inglaterra, filha de Henrique VII. Depois, ele teve um compromisso com duas das filhas de Francisco I de França que morreram jovens, e em seguida chegou a se comprometer formalmente com a herdeira de Henrique VIII de Inglaterra, outra princesa Maria, futura rainha Maria I. Em 1526, contudo, ele acabou se casando com sua prima Isabel de Portugal, num casamento ibérico amplamente desejado pelas Cortes castelhanas. Uma das mulheres mais belas e inteligentes do século XVI, Isabel era a primogênita mulher (segunda criança) do casamento de D. Manuel I e Maria de Aragão. Ela e Carlos teriam um filho e duas filhas: Felipe, futuro rei de Espanha, Maria, futura Sacra Imperatriz Romana, e Joana, futura Princesa de Portugal. Isabel morreria em 1539 depois de um parto prematuro, deixando Carlos V profundamente abalado e vestindo luto fechado pelo resto de sua vida. Ele também não se casaria novamente.

Isabel de Portugal
Isabel de Portugal

Como rei, Carlos foi amplamente vitorioso por grande parte de sua vida, vencendo inimigos tão variados como o papa Clemente VII, o rei francês Francisco I, o duque de Saxônia e Suleiman, o Magnífico, líder do Império Otomano, marcando assim profundamente a primeira metade do século XVI na Europa. Foi também durante seu reino que se definiu a conquista espanhola sobre grande parte das Índias Ocidentais. Em 1555, porém, desestabilizado politicamente pelas revoltas protestantes e bastante doente, aquele que já fora o homem mais poderoso de todos os reinos cristãos abdicou e se refugiou num mosteiro espanhol, dividindo o gigantesco império entre seu filho Felipe e seu irmão Fernando. Ele morreria em 1558.

Curiosidade: O lema presente ainda hoje na bandeira de Espanha, “Plus Ultra” (Mais Além em latim), era a divisa pessoal de Carlos V.

Detalhe da bandeira espanhola com o lema
Detalhe da bandeira espanhola com o lema “Plus Ultra”, a divisa pessoal de Carlos V

Vida e morte dos filhos de D. João III e Catarina de Áustria

“Por cada berço que se abria, fechava-se um túmulo”: é com esta frase que o estudioso Júlio Dantas resume o infeliz destino de D. João III e Catarina de Áustria no que se refere aos filhos. Mesmo que tenha sido uma união menos pautada pela paixão do que pelo respeito mútuo, tudo indicava a princípio que as núpcias do rei português com sua prima seriam férteis. Afinal, num tempo em que toda a responsabilidade deste campo estava centrada na esposa, poderia-se dizer que a infanta da casa dos Habsburgo tinha ótimos antecedentes. Ela era filha de Joana de Espanha que, mesmo supostamente louca, tivera seis crianças saudáveis; neta de Isabel de Castela, que dera à luz quatro rainhas e um príncipe; e, por último, sobrinha de Maria de Aragão, uma consorte portuguesa que tivera nada menos do que seis filhos homens. Não era esperado – nem desejado – que D. Catarina fosse menos bem-sucedida nesta questão.

D. Maria de Portugal
D. Maria de Portugal

De fato, o início foi promissor: um menino, D. Afonso, nasceu em 1526, pouco mais de um ano após o casamento, embora falecesse rapidamente. Isso não era, porém, incomum numa época de alta mortalidade infantil, nem colocava qualquer tipo de pressão sobre a rainha, que já provara, no final de contas, sua fertilidade, o que era amplamente considerado o mais importante. Já no ano seguinte, ela deu à luz uma menina saudável que sobreviveria, D. Maria, evento comemorado com festas por todo o reino. Seguiram-se mais duas meninas que morreriam na infância, D. Isabel e D. Beatriz, nascidas respectivamente em 1529 e 1530.

Em 1531, finalmente, ocorreu o evento desejado por todos: num parto difícil, a rainha deu à luz um menino “muy hermoso y muy grande”, batizado com o nome do falecido avô paterno, Manuel, gerando comemorações internacionais. Em 1533, outro menino nasceria da união, D. Felipe, seguido em 1535 pelo irmão D. Dinis. Com três herdeiros varões, a sucessão direta de D. João III parecia assegurada. Infelizmente, o mais novo viveria pouco tempo, falecendo em 1537. No mesmo ano, morreria o herdeiro do trono, D. Manuel. A tragédia foi amaciada pelo nascimento de um novo infante pouco depois: D. João. Em 1539, a rainha Catarina deu à luz outro menino, D. Antônio, que viveu poucos meses. Pouco depois, morreria o herdeiro D. Felipe sem ter ainda completado seis anos de idade.

D. João de Portugal
D. João de Portugal

Mesmo terrivelmente abalados pela sinistra sequência de mortes dos herdeiros do trono, o casal real não poderia desistir de continuar tentando. Afinal, a sucessão recaíra no frágil D. João, e não havia precedente em Portugal para que D. Maria pudesse se tornar rainha por direito próprio. Como D. Catarina ainda não completara 33 anos, era esperado que ela pudesse ter mais alguns filhos com D. João III. Infelizmente, porém, nove nascimentos tão próximos um do outro parecem de alguma forma ter impossibilitado a rainha portuguesa de engravidar novamente.

Não se sabe ao certo o motivo médico pelo qual sete dos nove filhos de D. João III e Catarina de Áustria morreram tão jovens. Embora alguns diagnósticos de época pareçam elucidativos o bastante para resolver a questão, como a epilepsia que teria matado D. Beatriz, D. Manuel, D. Dinis e D. Antônio, ainda restaria o motivo que teria levado tantos filhos do casal a terem exatamente a mesma doença, além de uma saúde frágil o bastante para padecer dela. Além disso, há os misteriosos sintomas registrados de D. Afonso e D. Isabel, que teriam nascido com uma “postema na cabeça que lhe veo a furo”. Conhecendo o parentesco próximo do casal, podemos concluir com certa segurança que os múltiplos casamentos intra-familiares de suas dinastias potencializaram certos problemas genéticos, dos quais eventualmente seriam vítimas os sete infantes e infantas. De qualquer forma, a questão continua esperando uma resolução adequada.

Você sabia?

A aliança anglo-portuguesa que possibilitou o casamento entre uma neta do rei inglês Eduardo III, Philippa de Lancaster, e D. João I de Portugal não se esgotou quando da união de ambos os nobres em questão. Na verdade, ela iniciou uma longa lista de negociações matrimoniais entre os reinos das ilhas britânicas e as monarquias da Península Ibérica. Entre os mais notáveis exemplos estão:

– Em 1388, a irmã mais nova de Philippa, Catarina, se casou com o rei de Castela, Henrique III, tendo com ele três filhos sobreviventes, incluindo o próximo rei, João II.

– Em 1450, o príncipe herdeiro de Aragão, Carlos, considerou um casamento com a princesa escocesa Isabel, recém-enviuvada do duque da Bretanha. A proposta causou oposição ferrenha da França e não foi adiante.

Carlos de Aragão
Carlos de Aragão

– Em 1468, houveram breves negociações para um casamento entre a irmã do rei de Castela, Isabel (futura Isabel I) e um dos irmãos do rei inglês Eduardo IV, provavelmente Ricardo, duque de Gloucester (futuro Ricardo III), mas parece que a proposta foi rapidamente deixada de lado.

Ricardo III da Inglaterra
Ricardo III da Inglaterra

– Em 1485, Ricardo III de Inglaterra e D. João II de Portugal iniciaram um projeto de matrimônio duplo: o rei inglês se casaria com a irmã do rei português, D. Joana, e este casaria a alegada sobrinha bastarda do inglês, Isabel de York (filha primogênita de Eduardo IV e futura rainha de Inglaterra como esposa de Henrique VII), com seu primo D. Manoel, duque de Beja (futuro D. Manuel I de Portugal). Porém, com a morte de Ricardo III no mesmo ano, morto na batalha de Bosworth contra os exércitos do futuro Henrique VII de Inglaterra, estes planos acabariam em nada.

– Em 1487, começaram as negociações de casamento entre Arthur, filho de Henrique VII e Isabel de York e herdeiro do trono inglês, e Catarina, filha caçula dos Reis Católicos, Isabel e Fernando. Em 1489, a aliança foi confirmada pelo tratado de Medina del Campo. Enquanto isso, o casal real espanhol também considerava um casamento entre a irmã mais velha de Catarina, Maria (futura rainha de Portugal como segunda esposa de D. Manuel I), e James IV de Escócia, mas este projeto não aconteceria de fato. Por outro lado, Catarina se casaria com Arthur em 1501, ficando viúva no mesmo ano, e se casaria novamente com o irmão de Arthur, o rei Henrique VIII, em 1509.

Catarina de Aragão
Catarina de Aragão

– Em data indefinida entre 1537 e 1540, começaram as negociações para um casamento entre Maria de Inglaterra (futura Maria I), única filha sobrevivente de Catarina e Henrique VIII, e o irmão de D. João III de Portugal, D. Luís, duque de Beja. A ideia foi eventualmente abandonada, provavelmente por resistência do pai de Maria ao pagamento do dote, além de problemas com a delicada sucessão real inglesa. A hipótese de que D. Luís também resistisse ao matrimônio por já ter secretamente se casado com a mãe de seu bastardo, D. Antônio, futuro postulante ao trono de Portugal na crise sucessória de 1580, é considerada por alguns historiadores. De qualquer forma, em 1554, Maria I se casaria com o futuro Felipe II de Espanha.

D. Luís, duque de Beja
D. Luís, duque de Beja

– Em 1661, foi assinado um contrato de casamento entre Carlos II de Inglaterra e Catarina de Portugal. Eles se uniriam no ano seguinte, mas a infanta portuguesa jamais seria coroada ou mesmo inteiramente aceita pela nobreza por seu catolicismo num reino fortemente protestante desde a dinastia Tudor. Com apenas três natimortos frutos do casamento, o reino acabaria sendo herdado pelo irmão de Carlos, James II, cujo catolicismo e eventual nascimento de um herdeiro causaria a Revolução Gloriosa em 1688.

– Em 1906, a neta e homônima da rainha Vitória do Reino Unido, sobrinha do rei Eduardo VII, se casou com o monarca espanhol Afonso XIII. Apesar de ter tido vários filhos, incluindo um herdeiro ao trono, este herdou o fatal gene da hemofilia do lado inglês da família, o que prejudicou gravemente as relações entre os monarcas espanhóis, além de contribuir para o temporário fim da monarquia na Espanha em 1931, quando a família real partiu para o exílio. O atual rei espanhol Felipe VI é seu bisneto.

D. Jaime, duque de Bragança

D. Jaime, quarto duque de Bragança, simbolizou o renascimento da casa após sua destruição pelas mãos de D. João II e desfrutou da amizade e amplos favores do novo rei D. Manuel I. Nascido em 1479, o jovem nobre testemunhou a execução do pai, D. Fernando, e viveu em exílio em Espanha por longos anos após o banimento da família de Portugal. Após a morte do irmão mais velho, ele tornou-se o herdeiro da casa de Bragança, uma honraria vazia enquanto esta permanecesse oficialmente extinta. Em 1498, porém, D. Manuel I perdoou a família e permitiu que ela retornasse à Portugal com todas as honras; além disso, nomeou o primo como herdeiro da coroa em caso de sua morte sem descendentes diretos. Em comemoração ao renascimento do ducado e para demonstrar seu recém-readquirido poder, D. Jaime ordenou a construção do Palácio de Vila Viçosa, que seria a sede oficial de todos os duques de Bragança e de suas famílias dali por diante.

Mesmo com toda a glória, porém, o duque continuou a ser um homem melancólico e perturbado, mesmo depois do luxuoso casamento por procuração com Leonor de Gusmão, filha do duque de Medina-Sidónia, uma poderosa família espanhola. Extremamente religioso, D. Jaime planejou cancelar o casamento com Leonor e fugir de Portugal para tornar-se frei, deixando o ducado para o irmão mais novo, D. Dinis. Antes, porém, escreveu uma carta explicando seus motivos para o rei D. Manuel I, que ao tomar conhecimento do fato alguns dias depois ordenou que o procurassem e o deterem onde estivesse. De fato, o duque foi encontrado no reino de Aragão pouco tempo depois e, submetendo-se à ordem real, retornou ao reino.

A união oficial com D. Leonor aconteceria em 1502. Logo no ano seguinte, ela daria à luz um filho, D. Teodósio, e ainda teria uma filha, D. Isabel. Mesmo com a felicidade familiar, contudo, o duque conservava seu caráter melancólico, o que o levou progressivamente a desconfiar da traição de sua risonha esposa com o jovem pajem de D. Teodósio. Depois de um rápido julgamento, ambos foram condenados à morte e prontamente executados pelo próprio duque em 1512. Notícias do escandaloso procedimento rapidamente chegaram aos ouvidos do rei, que exigiu explicações de D. Jaime. Este, para escapar da prisão certa, não compareceu à presença do soberano e fugiu. Eventualmente, beneficiado pelo favor que desfrutava com D. Manuel I, D. Jaime acabou perdoado mediante a conquista da cidade marroquina de Azamor, um grande feito militar que o tornaria um herói em Portugal.

Alguns anos depois, D. Jaime se casaria novamente com Joana de Mendonça e teria mais descendentes. Seu sucessor no ducado, porém, foi seu primogênito com D. Leonor, D. Teodósio. D. Jaime morreria em 1532, antes da efetuação do celebrado casamento de D. Isabel com o infante D. Duarte, filho caçula de D. Manuel I.

Palácio de Vila Viçosa, sede da casa de Bragança
Palácio de Vila Viçosa, sede da casa de Bragança

D. Manuel, duque de Beja

Após a morte de D. Diogo, duque de Viseu, assassinado pessoalmente pelo rei D. João II, seus títulos nobiliárquicos foram herdados por seu irmão mais novo, D. Manuel, embora o ducado tenha sido transferido de Viseu para Beja. Com as principais casas do reino dizimadas, então, D. João II pode consolidar plenamente seu poder, começando o processo que tornaria Portugal uma grande potência dos chamados Descobrimentos. Em seu reinado, não foi procurado um apoio real em grupos sociais contra outros; o foco foi apenas o poder real e o próprio rei, o que eventualmente seria designado como razão de Estado.

D. João II de Portugal
D. João II de Portugal

Não muito antes da consolidação do Tratado de Tordesilhas com a Espanha, o único filho legítimo do rei, D. Afonso, na época casado com a infanta Isabel, primogênita dos Reis Católicos, morreu numa queda de cavalo em 1491. Impossibilitado por pressões de aliados da rainha D. Leonor de legitimar seu filho bastardo, D. Jorge, D. João II foi obrigado a reconhecer o irmão dela – e último filho sobrevivente do irmão mais novo de D. Afonso V – como seu sucessor.Tratava-se exatamente de D. Manuel, duque de Beja.

D. Manuel I
D. Manuel I

Chamado de Venturoso por gerações posteriores, D. Manuel I realmente pode ser considerado afortunado em seu percurso até o trono português. Sendo o segundo filho sobrevivente do irmão mais novo de D. Afonso V, ele era apenas o terceiro na linha de sucessão à coroa portuguesa quando D. João II subiu ao trono, embora desconsiderando os supostos direitos de herança de D. Jorge. De qualquer forma, D. Manuel I prosseguiu com muitas das políticas de seu cunhado e antecessor na direção da expansão e estabelecimento do poderio português por uma parte considerável do mundo conhecido.

Além de dar continuidade aos Descobrimentos, ele realçou de sobremaneira a aliança com a vizinha Espanha ao se casar com não apenas uma, mas três infantas da casa reinante espanhola: primeiramente com Isabel, viúva do príncipe Afonso, depois com Maria, irmã mais nova de Isabel e por último com Eleanor, sobrinha das últimas, tendo maioria esmagadora de sua descendência legítima com a segunda esposa; nada menos do que seis filhos homens sobreviventes, além de três filhas habilitadas para o mercado matrimonial europeu. A sucessão do trono português parecia, portanto, assegurada.

Você sabia?

O casamento dos vencedores da guerra de sucessão castelhana provavelmente foi inválido desde o princípio. Sendo primos de segundo grau, Isabel e Fernando estavam dentro dos graus de consanguinidade proibidos para o matrimônio pela Igreja da época; assim sendo, necessitariam de uma dispensa papal para legitimar sua união. A suposta bula que foi apresentada, porém, era assinada pelo papa Pio II, falecido cinco anos antes do casamento deles, muito embora o papa da época fosse Sisto VI.

A falsificação, ainda hoje pouco comentada, foi engendrada com as forças combinadas dos principais aliados de Isabel: o rei de Aragão e pai de Fernando, João II, o próprio Fernando e o arcebispo de Toledo, além do cardeal aragonês Rodrigo Bórgia – futuro papa Alexandre VI. Foi este mesmo papa que, em 1494, forneceu ao par o título de Reis Católicos.

Fernando e Isabel
Fernando e Isabel