Pretendentes da Sempre Noiva: breve análise das frustradas negociações nupciais da princesa Isabel Luísa

Única filha resultante do polêmico casamento entre o regente D. Pedro e sua antiga cunhada, Maria Francisca de Saboia, Isabel Luísa Josefa de Bragança naturalmente atraiu as atenções do mercado matrimonial europeu desde o seu nascimento em janeiro de 1669. O fato que, nos anos seguintes, a rainha Maria Francisca mostrou-se impossibilitada de gerar um herdeiro homem para a Coroa portuguesa só potencializou a ponderação de vários reinos acerca do destino nupcial de Isabel Luísa, jurada como herdeira presuntiva do trono português pelas Cortes reunidas em 1674. Apesar dos expressos desejos de alguns partidos na corte para que a ocasião fosse aproveitada para promover uma união conciliatória entre a herdeira do trono e Carlos II, rei de Espanha (1), a regência nunca deu uma maior consideração a essa ideia, principalmente depois do suposto envolvimento do antigo representante espanhol em uma conspiração que almejava a volta do deposto rei D. Afonso VI de seu exílio nos Açores. Isso abriria espaço para as ambições de Luís XIV de França, que era o padrinho de Isabel Luísa.

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Princesa Isabel Luísa

Em 1676, o Rei Sol já procurava ativamente casar seu primogênito, o delfim, com a princesa herdeira, essencialmente planejando que o reino português fosse o dote da noiva. A perspectiva da transformação de Portugal em uma virtual província francesa aterrorizaria tanto os espanhóis que muito em breve o representante da Coroa espanhola na corte, o abade Maserati, assegurou a alguns conselheiros de Estado que a Espanha não impediria a concretização de qualquer arranjo feito em ducados menos ameaçadores, como a Baviera, Toscana e Saboia. Ora, o último tratava-se exatamente da região de origem da família da rainha Maria Francisca, que a partir de então se dedicaria juntamente com a irmã Maria Joana, regente de Saboia como mãe do jovem duque Vítor Amadeu, para que o enlace dos primos não só viesse à luz, mas também pudesse ser considerado seriamente como uma alternativa ao trono espanhol após a morte do doente rei Carlos II.

O planejamento secreto das duas irmãs, contudo, não seria a única possibilidade matrimonial que o regente D. Pedro consideraria para sua filha. Várias hipóteses nupciais seriam pensadas para Isabel Luísa, embora grande parte delas não fossem consideradas tão prováveis já de saída, como no caso das conversas envolvendo meninos da Casa alemã de Wittelsbach (2), ou então a que disse respeito ao príncipe de Roche-sur-Yvon. Bem mais sérias seriam as negociações para casar Isabel Luísa ou com Eduardo, príncipe de Parma como herdeiro do duque Rainúncio, ou com Fernando, grão-príncipe da Toscana como herdeiro do grão-duque Cosimo. D. Pedro se inclinaria para aceitar essa proposta, visando principalmente beneficiar-se da influência do grão-duque Médicis frente à cúria romana, até que o próprio pai do presuntivo noivo discretamente retirou a proposta, temendo as consequências políticas de ambicionar a mão de uma noiva ainda desejada tanto por Espanha quanto por França.

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Fernando, grão-príncipe da Toscana

Eventualmente, a escolha portuguesa ficou entre os três ducados menos ameaçadores nomeados anos antes pelo abade Maserati. Sem muita demora, o duque de Baviera seria descartado por sua ligação íntima com o Sacro Império Romano Germânico, o que poderia arrastar Portugal para campanhas militares indesejadas. Entre Parma e Saboia, pareceu de início que o primeiro ganharia o cobiçado enlace português – ou pelo menos essa era a preferência do influente padre jesuíta Antônio Vieira. De acordo com esse importante religioso do período, um casamento com um duque enfermiço e filho único não era tão vantajoso quanto uma união com um príncipe que não só tinha sangue legítimo da realeza portuguesa devido à sua descendência direta de D. Manuel I, mas também tinha a possibilidade de passar imediatamente a Portugal para viver com a noiva.

Entretanto, seria o objetivo planejado longamente entre a rainha Maria Francisca com sua irmã, a duquesa viúva Maria Joana, que prevaleceria apesar de todas as vantagens enumeradas por Vieira. Em fevereiro de 1679, foi comunicada publicamente a assinatura do tratado de casamento entre Isabel Luísa, princesa herdeira de Portugal, e Vítor Amadeu, duque de Saboia. Em agosto, ocorreu a ratificação do documento, tornando em tese o matrimônio inevitável. Contudo, após o embaixador português chegar à capital do ducado, começaram a correr rumores que o duque não só estava bastante doente, mas como também poderia ser incapaz de ter filhos. Embora não seja possível saber o quanto exatamente da doença de Vítor Amadeu é verdade e o que é derivado da resistência de portugueses e saboianos quanto ao casamento, além da ameaça militar francesa nas fronteiras do ducado, o fato é que o duque sequer estava em Lisboa para a sua festa de casamento presencial com Isabel Luísa meses depois, para a grande desilusão da corte portuguesa.

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Vítor Amadeu, duque de Saboia

Com o fim do compromisso nupcial da princesa em Saboia, ocorreram novas conversas nupciais envolvendo o príncipe de Parma. Contudo, a morte de D. Afonso VI e da rainha Maria Francisca nos meses finais de 1683 determinou novas preocupações dinásticas para o agora D. Pedro II de Portugal. Embora tenham ocorrido negociações para um casamento duplo dele com a filha do duque de Parma e de sua filha com o príncipe, nada ficou por fim acertado. Em 1687, o rei contrairia núpcias com Maria Sofia de Neuburgo, tendo com ela rapidamente um filho homem. Não sendo mais a herdeira presuntiva do trono, Isabel Luísa tinha agora a prerrogativa de escolher aceitar ou não um casamento, o que faria ao negar uma nova proposta do grão-duque de Toscana. Em agosto de 1690, ainda uma donzela na corte portuguesa, Isabel Luísa adoeceria com varíola, e pioraria até falecer no dia 21 de outubro. Tendo morrido com pouco mais de 20 anos, ela jamais pode realizar o compromisso de Estado que lhe retiraria a alcunha que, ainda hoje, a faz célebre.

 

(1) A Guerra da Restauração entre a destituída dinastia de Habsburgo e a recém-aclamada Casa de Bragança terminara formalmente apenas um ano antes do nascimento de Isabel Luísa.

(2) Curiosamente, esta seria a família de origem da segunda consorte de D. Pedro.

Para saber mais:

CHAVES, Luís. D. Pedro II. Empresa Nacional de Publicidade, 1959.

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

MARCOS, David Mantín. “O projeto matrimonial de Isabel Francisca Josefa de Bragança e Vítor Amadeu II de Saboia (1675-1682): estratégias familiares e geopolítica”. In: Análise Social. 212, XLIX (3º), 2014.

Maria Francisca de Saboia – parte III

Um grupo formado por três autoridades eclesiásticas, quatro desembargadores e quatro cônegos julgaria se o pedido de anulação de Maria Francisca procedia. Para provar a suposta impotência completa do marido, a rainha lançaria mão de nada menos do que 55 testemunhas, das quais no mínimo 14 seriam mulheres entre 15 e 30 anos de idade que supostamente teriam, em algum momento no passado, se deitado com D. Afonso VI; enquanto isso, o rei não tinha nenhuma testemunha a seu favor. Segundo seus depoimentos, a maioria das depoentes femininas teria sido abordada indiretamente e levadas ao paço real por criados. Entretanto, nada ocorria quando elas ficavam prostradas nuas no leito com o rei. Uma delas, Jacinta Monteiro, descreveria como “o membro viril ora derramava semente extravas, sem que nunca nas três noites e três dias o pudesse fazer intravas” – querendo dizer, é claro, que não ocorrera penetração. Ela inclusive diria que deixara o paço ainda como uma donzela.

Outra testemunha, Joana Tomázia, comentaria como a virilidade do rei era diferente dos demais homens que ela já conhecera, descrevendo como quando D. Afonso VI “derramou semente, ficou como o de uma criança, e muito desigual quando estava erecto, por ser muito mais delgado na raiz do que na extremidade”. Outra mulher, Catarina Henriques, que teria partilhado a cama com o monarca por anos, testemunharia como os testículos do rei eram desiguais, dizendo que era “um maior e outro muito mais pequeno”. Outras testemunhas chegariam ao ponto de descrever o sêmen do rei, como Jerónima Pereira, que se espantara com o cheiro do líquido, e Teresa de Jesus, que ficara impressionada com sua quantidade e cor amarelada. Joana de Saldanha, por sua vez, diria que Sua Majestade era muito cansado para o ato, e ele mesmo dizia explicitamente que não podia efetuá-lo porque era um velho – mesmo tendo apenas 24 anos de idade na época. Durante tudo isso, a rainha Maria Francisca não teve sua alegação de virgindade verificada por um exame físico sequer uma vez.

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O duque de Beja, futuro D. Pedro II de Portugal

Em 24 de março, a anulação foi anunciada como sendo de direito. D. Afonso VI foi então exilado numa ilha em Açores, deixando o governo a cargo de seu irmão mais novo, enquanto Maria Francisca ficou livre para se casar novamente após a aprovação pública do procedimento de anulação por parte do papa, que só foi oficialmente liberada em dezembro; a essa altura, porém, ela já estava na reta final de sua primeira gravidez. Ela e D. Pedro haviam se casado em uma cerimônia apressada em dois de abril de 1668, numa união que, embora requisitada pelas Cortes, não provocou muito entusiasmo, e Maria Francisca daria à luz a uma menina – nomeada Isabel Luísa numa provável homenagem conjunta às respectivas mães do casal – em seis de janeiro de 1669. Essa infanta seria jurada herdeira do trono em 1674 e educada pessoalmente por sua mãe, que, apesar de toda a sua dedicação, ainda precisava gerar um menino para o marido; certamente, tentativas neste sentido existiram.

Poucos meses após o nascimento da primogênita, parece que Maria Francisca teve um aborto espontâneo no início da gestação. No ano seguinte, ocorreu uma suspeita de gravidez, que parece ou não ter sido confirmada como real ou também terminado logo em seu início. Em fins de 1670, finalmente, a rainha sofreu seu último aborto quando se dirigira para confrontar o marido com uma suposta amante em Salvaterra. Não houveram mais crianças para se juntar a Isabel Luísa. Eventualmente conhecida como A Sempre Noiva, ela teve aproximadamente 15 pretendentes à sua mão durante variados momentos da vida, sendo os mais notáveis o primogênito do grão-duque da Toscana, o herdeiro de Parma, o delfim francês, o rei de Espanha e o duque de Saboia, este um primo com o qual Isabel Luísa ficaria comprometida. Hesitações por parte de ambos os lados e uma longa doença do duque, porém, impediram um acerto nupcial definitivo.

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Princesa Isabel Luísa

A princesa herdeira jamais se casaria, o que afligiria sua mãe até sua morte precoce em 27 de dezembro de 1683, aos 37 anos, curiosamente poucos meses após D. Afonso VI. Mesmo que seu decaimento por sífilis possa ter sido possibilitado pela transmissão feita por seu marido, o testamento da rainha é amoroso em relação ao agora D. Pedro II de uma maneira pouco habitual para a época, contendo sentenças como “sempre desejei quanto coube na humana fragilidade servir e agradar a el rei meu senhor e marido e porque Sua Majestade é fiel e verdadeira testemunha do muito que sempre o amei”. O caixão contendo o corpo de Maria Francisca de Saboia eventualmente seria depositado no Convento do Santo Crucifixo das Religiosas Francesas. Sua única filha, Isabel Luísa, faleceria após adoecer com varíola em 1690, enquanto seu segundo marido se casaria novamente em 1687 com Maria Sofia de Neuburgo, tendo com ela sete filhos – incluindo seu eventual sucessor, D. João V.

 

Para saber mais:

http://www.sabado.pt/vida/detalhe/os-escandalos-dos-reis-d-afonso-vi-o-impotente-1643-1683

BORGES, Alexandre. “O monarca arruaceiro – Dom Afonso VI”. In: Histórias Secretas de Reis Portugueses. Casa das Letras: Alfragide, 2012.

BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. “D. Maria Francisca Isabel de Sabóia (1646-1683), Rainha de Portugal”. In: LOPES, Maria Antónia; RAVIOLA, Blythe Alice (orgs). Portugal e o Piemonte: A Casa Real Portuguesa e os Sabóias. Nove Séculos de Relações Dinásticas e Destinos Políticos (XII-XX). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.