Maria Francisca de Saboia – parte III

Um grupo formado por três autoridades eclesiásticas, quatro desembargadores e quatro cônegos julgaria se o pedido de anulação de Maria Francisca procedia. Para provar a suposta impotência completa do marido, a rainha lançaria mão de nada menos do que 55 testemunhas, das quais no mínimo 14 seriam mulheres entre 15 e 30 anos de idade que supostamente teriam, em algum momento no passado, se deitado com D. Afonso VI; enquanto isso, o rei não tinha nenhuma testemunha a seu favor. Segundo seus depoimentos, a maioria das depoentes femininas teria sido abordada indiretamente e levadas ao paço real por criados. Entretanto, nada ocorria quando elas ficavam prostradas nuas no leito com o rei. Uma delas, Jacinta Monteiro, descreveria como “o membro viril ora derramava semente extravas, sem que nunca nas três noites e três dias o pudesse fazer intravas” – querendo dizer, é claro, que não ocorrera penetração. Ela inclusive diria que deixara o paço ainda como uma donzela.

Outra testemunha, Joana Tomázia, comentaria como a virilidade do rei era diferente dos demais homens que ela já conhecera, descrevendo como quando D. Afonso VI “derramou semente, ficou como o de uma criança, e muito desigual quando estava erecto, por ser muito mais delgado na raiz do que na extremidade”. Outra mulher, Catarina Henriques, que teria partilhado a cama com o monarca por anos, testemunharia como os testículos do rei eram desiguais, dizendo que era “um maior e outro muito mais pequeno”. Outras testemunhas chegariam ao ponto de descrever o sêmen do rei, como Jerónima Pereira, que se espantara com o cheiro do líquido, e Teresa de Jesus, que ficara impressionada com sua quantidade e cor amarelada. Joana de Saldanha, por sua vez, diria que Sua Majestade era muito cansado para o ato, e ele mesmo dizia explicitamente que não podia efetuá-lo porque era um velho – mesmo tendo apenas 24 anos de idade na época. Durante tudo isso, a rainha Maria Francisca não teve sua alegação de virgindade verificada por um exame físico sequer uma vez.

220px-D._Pedro_II,_Rei_de_Portugal
O duque de Beja, futuro D. Pedro II de Portugal

Em 24 de março, a anulação foi anunciada como sendo de direito. D. Afonso VI foi então exilado numa ilha em Açores, deixando o governo a cargo de seu irmão mais novo, enquanto Maria Francisca ficou livre para se casar novamente após a aprovação pública do procedimento de anulação por parte do papa, que só foi oficialmente liberada em dezembro; a essa altura, porém, ela já estava na reta final de sua primeira gravidez. Ela e D. Pedro haviam se casado em uma cerimônia apressada em dois de abril de 1668, numa união que, embora requisitada pelas Cortes, não provocou muito entusiasmo, e Maria Francisca daria à luz a uma menina – nomeada Isabel Luísa numa provável homenagem conjunta às respectivas mães do casal – em seis de janeiro de 1669. Essa infanta seria jurada herdeira do trono em 1674 e educada pessoalmente por sua mãe, que, apesar de toda a sua dedicação, ainda precisava gerar um menino para o marido; certamente, tentativas neste sentido existiram.

Poucos meses após o nascimento da primogênita, parece que Maria Francisca teve um aborto espontâneo no início da gestação. No ano seguinte, ocorreu uma suspeita de gravidez, que parece ou não ter sido confirmada como real ou também terminado logo em seu início. Em fins de 1670, finalmente, a rainha sofreu seu último aborto quando se dirigira para confrontar o marido com uma suposta amante em Salvaterra. Não houveram mais crianças para se juntar a Isabel Luísa. Eventualmente conhecida como A Sempre Noiva, ela teve aproximadamente 15 pretendentes à sua mão durante variados momentos da vida, sendo os mais notáveis o primogênito do grão-duque da Toscana, o herdeiro de Parma, o delfim francês, o rei de Espanha e o duque de Saboia, este um primo com o qual Isabel Luísa ficaria comprometida. Hesitações por parte de ambos os lados e uma longa doença do duque, porém, impediram um acerto nupcial definitivo.

Isabel,_Princesa_da_Beira
Princesa Isabel Luísa

A princesa herdeira jamais se casaria, o que afligiria sua mãe até sua morte precoce em 27 de dezembro de 1683, aos 37 anos, curiosamente poucos meses após D. Afonso VI. Mesmo que seu decaimento por sífilis possa ter sido possibilitado pela transmissão feita por seu marido, o testamento da rainha é amoroso em relação ao agora D. Pedro II de uma maneira pouco habitual para a época, contendo sentenças como “sempre desejei quanto coube na humana fragilidade servir e agradar a el rei meu senhor e marido e porque Sua Majestade é fiel e verdadeira testemunha do muito que sempre o amei”. O caixão contendo o corpo de Maria Francisca de Saboia eventualmente seria depositado no Convento do Santo Crucifixo das Religiosas Francesas. Sua única filha, Isabel Luísa, faleceria após adoecer com varíola em 1690, enquanto seu segundo marido se casaria novamente em 1687 com Maria Sofia de Neuburgo, tendo com ela sete filhos – incluindo seu eventual sucessor, D. João V.

 

Para saber mais:

http://www.sabado.pt/vida/detalhe/os-escandalos-dos-reis-d-afonso-vi-o-impotente-1643-1683

BORGES, Alexandre. “O monarca arruaceiro – Dom Afonso VI”. In: Histórias Secretas de Reis Portugueses. Casa das Letras: Alfragide, 2012.

BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. “D. Maria Francisca Isabel de Sabóia (1646-1683), Rainha de Portugal”. In: LOPES, Maria Antónia; RAVIOLA, Blythe Alice (orgs). Portugal e o Piemonte: A Casa Real Portuguesa e os Sabóias. Nove Séculos de Relações Dinásticas e Destinos Políticos (XII-XX). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.

Maria Francisca de Saboia – parte I

Em 21 de junho de 1646, nascia em Paris a segunda filha de Carlos Amadeu, duque de Nemours, de Aumale e Genevois, e Isabel de Bourbon-Vendôme, descendente por via ilegítima de Henrique IV de França, chamada de Maria Francisca Isabel (1). Horas depois, viria ao mundo seu irmão gêmeo, José, que era o primeiro herdeiro homem do duque. O casal já tinha antes do nascimento duplo uma menina, Maria Joana, e viria a ter mais dois filhos depois de Isabel e José: Francisco e Carlos Amadeu. Tragicamente, apenas as meninas sobreviveriam à infância, e ficariam órfãs de pai logo em 1652, na sequência de um duelo dele com o duque de Beaufort, seu próprio cunhado.  Enviuvada, Isabel de Bourbon-Vendôme retirou-se para o convento de Fontevrault levando as filhas consigo. Elas tinham apenas oito e seis anos de idade. Lá, Maria Joana e Maria Francisca receberiam sua educação inicial por parte das religiosas que lá viviam. Anos depois, quando a duquesa sentia sua saúde declinar, levou as filhas já núbeis para Paris, onde as deixou ao cargo do avô materno, o duque de Vendôme, pouco antes de falecer em 1664. Poucos meses depois, contudo, este também morreria, deixando as netas temporariamente recolhidas em variados conventos enquanto se acertavam os detalhes das núpcias delas.

Élisabeth_de_Vendôme,_duchesse_de_Nemours
Isabel de Bourbon-Vendôme, mãe de Maria Francisca

Aparentada com reis franceses, incluindo Luís XIV, o soberano na época das negociações, e, juntamente com a irmã, possuidora de um dote valioso, a inteligente Maria Francisca despertava há anos o interesse do mercado matrimonial europeu. Ainda enquanto a mãe dela vivia, houvera conversas sérias sobre um casamento com o duque de Saboia, e a duquesa viúva chegara a viajar para a corte do pretendente com as filhas, mas no final nenhum acordo foi feito. Em 1662, a primogênita Maria Joana se uniria ao duque de Lorena, e pouco depois, ao duque de Saboia. Pensou-se na época em núpcias de Maria Francisca com o conde de Vaudemont, mas nada acabou sendo acertado. Depois da morte da Isabel, a responsabilidade de conseguir um matrimônio para a segunda filha ficou com um primo de seu pai, César d’Estrées, bispo de Laon. Foi quando apareceu a possibilidade de casar a jovem Maria Francisca com D. Afonso VI de Portugal.

Tendo o poder efetivo há pouco tempo, o rei enfrentava dificuldades para efetuar núpcias, uma vez que a Casa de Bragança tinha legitimidade duvidosa enquanto dinastia reinante. Em 1652, enquanto D. João IV e o príncipe herdeiro D. Teodósio estavam vivos, tentou-se um contrato nupcial da deficiente criança com a filha do príncipe de Parma, mas as conversas não foram adiante. Anos depois, num contexto bélico entre Espanha e França, tentou-se uma união com Ana Maria, a filha do duque de Orléans, mas após muita demora a própria noiva – que estaria apaixonada por outro homem – optou por não seguir adiante no projeto matrimonial português. Seria quando o nome de Maria Francisca seria proposto pelo bispo de Laon ao responsável português em França para negociar as núpcias com Orléans, o marquês de Sande. Embora o acordo do matrimônio entre Maria Francisca e Afonso tenha ocorrido relativamente rápido, dois anos quase completos se passariam na discussão de minúcias em relação ao contrato nupcial até que, em fevereiro de 1666, um tratado efetivo fosse assinado. Em fins de junho, ocorreu o matrimônio por procuração, tornando Maria Francisca rainha de Portugal. Pouco depois, ela partiria em direção a Lisboa. Informados de um plano espanhol para sequestrar a rainha, sua comitiva francesa atrasou a partida em alguns dias, mas acabou por enfrentar uma série de calmarias e tempestades antes de, por fim, chegar à Portugal em dois de agosto.

Maria_Francisca_de_Saboia,_MNC
Maria Francisca de Saboia

Amplamente saudada pela artilharia portuguesa após o desembarque, Maria Francisca foi saudada por grande parte da nobreza e do povo. Seria em Alcântara o primeiro encontro da rainha com seu marido, e seria lá também onde receberiam as bênçãos solenes matrimoniais pelo bispo de Targa. Apesar disso, D. Afonso VI não partilharia o leito com a esposa até depois da entrada formal de ambos em Lisboa, que aconteceu no dia 29. Pouco depois, Maria Francisca escreveria a uma amiga em França que eles haviam consumado o casamento, e, para sua felicidade ser completa, apenas lhe faltava um filho. O embaixador de França em Portugal também deixaria seu testemunho que D. Afonso VI passava horas junto à esposa nos aposentos dela. Pouco depois, houve notícia de uma gestação, embora isso se provasse em pouco tempo apenas um boato. Aparentemente, deficiente ou não, o rei teria sucesso em engravidar de forma bem-sucedida sua rainha muito em breve, como desejado, mesmo que sua falha educação formal e eventual comportamento esdrúxulo provocassem comentários em certos círculos da corte. Neste contexto, como explicar, então, as supostas queixas de Maria Francisca quanto à total inabilidade sexual de seu marido, feitas depois ao seu confessor?

(1) No original francês, Marie-Françoise-Élisabeth.