Pretendentes da Sempre Noiva: breve análise das frustradas negociações nupciais da princesa Isabel Luísa

Única filha resultante do polêmico casamento entre o regente D. Pedro e sua antiga cunhada, Maria Francisca de Saboia, Isabel Luísa Josefa de Bragança naturalmente atraiu as atenções do mercado matrimonial europeu desde o seu nascimento em janeiro de 1669. O fato que, nos anos seguintes, a rainha Maria Francisca mostrou-se impossibilitada de gerar um herdeiro homem para a Coroa portuguesa só potencializou a ponderação de vários reinos acerca do destino nupcial de Isabel Luísa, jurada como herdeira presuntiva do trono português pelas Cortes reunidas em 1674. Apesar dos expressos desejos de alguns partidos na corte para que a ocasião fosse aproveitada para promover uma união conciliatória entre a herdeira do trono e Carlos II, rei de Espanha (1), a regência nunca deu uma maior consideração a essa ideia, principalmente depois do suposto envolvimento do antigo representante espanhol em uma conspiração que almejava a volta do deposto rei D. Afonso VI de seu exílio nos Açores. Isso abriria espaço para as ambições de Luís XIV de França, que era o padrinho de Isabel Luísa.

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Princesa Isabel Luísa

Em 1676, o Rei Sol já procurava ativamente casar seu primogênito, o delfim, com a princesa herdeira, essencialmente planejando que o reino português fosse o dote da noiva. A perspectiva da transformação de Portugal em uma virtual província francesa aterrorizaria tanto os espanhóis que muito em breve o representante da Coroa espanhola na corte, o abade Maserati, assegurou a alguns conselheiros de Estado que a Espanha não impediria a concretização de qualquer arranjo feito em ducados menos ameaçadores, como a Baviera, Toscana e Saboia. Ora, o último tratava-se exatamente da região de origem da família da rainha Maria Francisca, que a partir de então se dedicaria juntamente com a irmã Maria Joana, regente de Saboia como mãe do jovem duque Vítor Amadeu, para que o enlace dos primos não só viesse à luz, mas também pudesse ser considerado seriamente como uma alternativa ao trono espanhol após a morte do doente rei Carlos II.

O planejamento secreto das duas irmãs, contudo, não seria a única possibilidade matrimonial que o regente D. Pedro consideraria para sua filha. Várias hipóteses nupciais seriam pensadas para Isabel Luísa, embora grande parte delas não fossem consideradas tão prováveis já de saída, como no caso das conversas envolvendo meninos da Casa alemã de Wittelsbach (2), ou então a que disse respeito ao príncipe de Roche-sur-Yvon. Bem mais sérias seriam as negociações para casar Isabel Luísa ou com Eduardo, príncipe de Parma como herdeiro do duque Rainúncio, ou com Fernando, grão-príncipe da Toscana como herdeiro do grão-duque Cosimo. D. Pedro se inclinaria para aceitar essa proposta, visando principalmente beneficiar-se da influência do grão-duque Médicis frente à cúria romana, até que o próprio pai do presuntivo noivo discretamente retirou a proposta, temendo as consequências políticas de ambicionar a mão de uma noiva ainda desejada tanto por Espanha quanto por França.

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Fernando, grão-príncipe da Toscana

Eventualmente, a escolha portuguesa ficou entre os três ducados menos ameaçadores nomeados anos antes pelo abade Maserati. Sem muita demora, o duque de Baviera seria descartado por sua ligação íntima com o Sacro Império Romano Germânico, o que poderia arrastar Portugal para campanhas militares indesejadas. Entre Parma e Saboia, pareceu de início que o primeiro ganharia o cobiçado enlace português – ou pelo menos essa era a preferência do influente padre jesuíta Antônio Vieira. De acordo com esse importante religioso do período, um casamento com um duque enfermiço e filho único não era tão vantajoso quanto uma união com um príncipe que não só tinha sangue legítimo da realeza portuguesa devido à sua descendência direta de D. Manuel I, mas também tinha a possibilidade de passar imediatamente a Portugal para viver com a noiva.

Entretanto, seria o objetivo planejado longamente entre a rainha Maria Francisca com sua irmã, a duquesa viúva Maria Joana, que prevaleceria apesar de todas as vantagens enumeradas por Vieira. Em fevereiro de 1679, foi comunicada publicamente a assinatura do tratado de casamento entre Isabel Luísa, princesa herdeira de Portugal, e Vítor Amadeu, duque de Saboia. Em agosto, ocorreu a ratificação do documento, tornando em tese o matrimônio inevitável. Contudo, após o embaixador português chegar à capital do ducado, começaram a correr rumores que o duque não só estava bastante doente, mas como também poderia ser incapaz de ter filhos. Embora não seja possível saber o quanto exatamente da doença de Vítor Amadeu é verdade e o que é derivado da resistência de portugueses e saboianos quanto ao casamento, além da ameaça militar francesa nas fronteiras do ducado, o fato é que o duque sequer estava em Lisboa para a sua festa de casamento presencial com Isabel Luísa meses depois, para a grande desilusão da corte portuguesa.

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Vítor Amadeu, duque de Saboia

Com o fim do compromisso nupcial da princesa em Saboia, ocorreram novas conversas nupciais envolvendo o príncipe de Parma. Contudo, a morte de D. Afonso VI e da rainha Maria Francisca nos meses finais de 1683 determinou novas preocupações dinásticas para o agora D. Pedro II de Portugal. Embora tenham ocorrido negociações para um casamento duplo dele com a filha do duque de Parma e de sua filha com o príncipe, nada ficou por fim acertado. Em 1687, o rei contrairia núpcias com Maria Sofia de Neuburgo, tendo com ela rapidamente um filho homem. Não sendo mais a herdeira presuntiva do trono, Isabel Luísa tinha agora a prerrogativa de escolher aceitar ou não um casamento, o que faria ao negar uma nova proposta do grão-duque de Toscana. Em agosto de 1690, ainda uma donzela na corte portuguesa, Isabel Luísa adoeceria com varíola, e pioraria até falecer no dia 21 de outubro. Tendo morrido com pouco mais de 20 anos, ela jamais pode realizar o compromisso de Estado que lhe retiraria a alcunha que, ainda hoje, a faz célebre.

 

(1) A Guerra da Restauração entre a destituída dinastia de Habsburgo e a recém-aclamada Casa de Bragança terminara formalmente apenas um ano antes do nascimento de Isabel Luísa.

(2) Curiosamente, esta seria a família de origem da segunda consorte de D. Pedro.

Para saber mais:

CHAVES, Luís. D. Pedro II. Empresa Nacional de Publicidade, 1959.

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

MARCOS, David Mantín. “O projeto matrimonial de Isabel Francisca Josefa de Bragança e Vítor Amadeu II de Saboia (1675-1682): estratégias familiares e geopolítica”. In: Análise Social. 212, XLIX (3º), 2014.

Maria Sofia de Neuburgo – parte II

Quem o monarca viu quando foi recepcionado por sua nova consorte na câmara do navio? Vestida em rico tecido branco incrustado com diamantes, Maria Sofia era loira de pele alvíssima, correspondendo assim aos padrões de beleza da época. Não há motivos, então, para crer que o rei tenha desgostado de sua escolha marital enquanto ocorria a cerimônia formal de casamento na capela real, pouco tempo após o desembarque. e nem durante as riquíssimas festas em comemoração e a consumação rápida do casamento que se seguiu. Tímida e devota, Maria Sofia trazia consigo a promessa de produção rápida de herdeiros para a necessitada dinastia de Bragança – e de fato, os entregaria com sua disciplina característica. Em 30 de agosto de 1688, exatamente um ano após sua entrada em Lisboa, a rainha daria à luz o príncipe D. João. O novo herdeiro da Coroa portuguesa seria celebrado com festas que durariam três dias; entretanto, o príncipe era notoriamente debilitado desde seu nascimento. Sua morte, ocorrida apenas dezoito dias após o parto de Maria Sofia, foi creditada pelo conde de Povolide como tendo ocorrido devido à forma como as damas alemãs da rainha haviam cuidado dele.

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Maria Sofia de Neuburgo

Provando sua fertilidade, em breve a rainha engravidaria novamente. Tendo-se em vista a morte precoce do última criança, contudo, tomaram-se precauções extras. Quando Maria Sofia entrou em trabalho de parto, nas primeiras horas da manhã do dia 22 de outubro de 1689, o duque de Cadaval enviou pedidos de prece a todos os conventos de Portugal pelo sucesso do nascimento. Além disso, quatro médicos atenderiam Maria Sofia durante o processo, e quando nasceu um menino poucas horas depois, foi lhe dado mel para prevenir certos males. As costumeiras salvas de artilharia foram vetadas no palácio real para não perturbar o recém-nascido, mas este novo príncipe D. João parecia ser mais robusto do que o falecido irmão mais velho. Quando ele foi batizado no novembro seguinte, sua meia-irmã D. Isabel já estava retida no paço do conde de Aveiras após adoecer com varíola. Sempre com saúde frágil, ela jamais se restabeleceria desta doença, falecendo logo no ano seguinte. A inquietação do casal régio com essa nova fragilidade na linha de sucessão portuguesa, porém, seria sanada em maio de 1691, quando nasceria o infante D. Francisco, nomeado com o tradicional título de duque de Beja. À essa altura, porém, já se iniciavam as tensões maritais entre D. Pedro II e Maria Sofia. O rei recaíra em suas costumeiras infidelidades.

Em contraste com a tranquilidade, e mesmo amor mútuo, que caracterizara o casamento com Maria Francisca de Saboia, a união de D. Pedro II com Maria Sofia de Neuburgo foi consideravelmente complicada, sendo bem mais fria e distante. Parte das dificuldades pode ser atribuída à personalidade da segunda rainha, considerada difícil para os padrões do século XVII. Em contraste com Maria Francisca, que costumava fechar os olhos às infidelidades do marido, Maria Sofia tinha tantos ciúmes do rei que o questionava frequentemente a respeito, causando-lhe aberto mau humor com a consorte. Em adição a isso, D. Pedro II censurava severamente certos hábitos de Maria Sofia, que gostava de jogar e de beber vinho, além de negar muitos de seus pedidos.

Em carta escrita a seu pai, Maria Sofia queixava-se abertamente da negligência de seu marido em Portugal e de seu fracasso em estreitar as relações diplomáticas entre seu reino e Neuburgo. Ao contrário do que seria de se esperar, D. Pedro II nunca mandou uma embaixada oficial, mesmo tendo diversas ocasiões para isso, o que indignava uma rainha bem consciente da nobre genealogia da Casa Wittelsbach. Em atitude oposta à que costumava ser dada às rainhas da Europa Central, D. Pedro II também não dava a Maria Sofia qualquer participação em seus negócios políticos, parecendo enxergá-la simplesmente como um meio para gerar filhos para a dinastia de Bragança. O comportamento do monarca mortificava ainda mais a rainha uma vez que ela tudo faria para agradar D. Pedro II, que em retorno só lhe daria profundos desgostos, incluindo diversos casos extraconjugais com damas de seu próprio séquito e mulheres do povo comum.

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D. João V de Portugal

Apesar das dificuldades do relacionamento pessoal do casal, porém, os filhos seriam gerados regularmente. Em março de 1695, nasceu D. Antônio, que viria a ser o irmão predileto do futuro D. João V, seguido logo no ano seguinte pela primeira filha de Maria Sofia, D. Teresa. A rainha teria mais dois filhos, D. Manuel e D. Francisca, antes de falecer devido a uma febre em quatro de agosto de 1699, apenas dois dias antes de seu aniversário de 33 anos. sendo sepultada no majestoso monastério de São Vicente com todas as honras apropriadas. Seu marido, D. Pedro II, morreria ainda viúvo em dezembro de 1706, provavelmente de uma doença do fígado. Nenhum dos dois, portanto, viveria para ver o casamento do herdeiro D. João com sua prima materna Maria Ana de Áustria, e a ascensão política de Portugal durante este rico reinado.

 

Para saber mais:

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

SILVA, Maria Beatriz Nizza de. D. João V. Círculo de Leitores, 2012.

 

 

Maria Sofia de Neuburgo – parte I

Nascida em um palácio localizado no ducado de Juliers, a poucos quilômetros da cidade imperial de Dusseldorf, a princesa Maria Sofia Isabel de Neuburgo veio ao mundo em seis de agosto de 1666, sendo uma das diversas filhas de Felipe, conde de Neuburgo, com sua esposa Isabel de Hesse-Darmstadt. Uma vez que esse fértil casal geraria nada menos do que 17 crianças sobreviventes durante sua longa união, as meninas daquela geração do ramo secundário da antiga Casa Wittelsbach seriam cobiçadas pelo mercado matrimonial europeu por sua presumida capacidade de gerar herdeiros. Em 1676, de fato, a primogênita do casal, Leonor, seria casada com Leopoldo, Sacro Imperador Romano Germânico, que não conseguira ter um filho homem em seus matrimônios anteriores; posteriormente, três irmãs suas se casariam respectivamente com Carlos II, rei de Espanha, Eduardo, príncipe de Parma e Jaime, príncipe de Polônia, cujas Casas tinham linhas de sucessão instáveis.

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O pai de Maria Sofia, o conde Felipe de Neuburgo

Quando Maria Sofia tinha 17 anos, morreria em Portugal a rainha Maria Francisca de Saboia, esposa do rei D. Pedro II. Embora o monarca tivesse tido vários casos extraconjugais em seus vários anos de casamento, o falecimento de Maria Francisca o deixou em prolongada tristeza. Nem o fato que a sobrevivência da recente dinastia de Bragança encontrava-se ameaçada pela frágil figura da princesa D. Isabel, que ainda sequer se casara, pôde convencer D. Pedro II a acelerar o processo para ter novas núpcias. Apenas em reunião do Conselho Real ocorrida em janeiro de 1685 foi que o monarca seria convencido, em nome da felicidade do reino, a casar-se de novo.

De início, a pressão sobre o rei era forte para que a aliança francesa fosse renovada (1). A principal candidata nesse sentido era a mademoiselle de Blois, filha legitimada do rei francês com sua antiga favorita, a marquesa de Montespan. Também seria proposta uma união com a mais madura mademoiselle de Lillebonne, uma princesa de Lorena, mas nenhuma dessas ideias iria realmente adiante. Enquanto isso, a facção pró-francesa da corte encontrava resistência em alguns nobres que defendiam uma reaproximação política com a Casa Habsburgo, principalmente vendo-se já no horizonte a intervenção política francesa após a morte do doente Carlos II de Espanha (2). Embora essa facção pró-Habsburgo tivesse pouco apoio na corte portuguesa propriamente dita, seus membros utilizaram-se da manipulação da opinião pública exterior ao paço real para vender os perigos que existiam em fortificar a aliança com a monarquia francesa.

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Mademoiselle de Blois, uma das esposas pensadas para D. Pedro II de Portugal

Procurando fugir da influência de França, então, a diplomacia portuguesa passou a procurar em semi-sigilo noivas para D. Pedro II nas diversas cortes imperiais. Na impossibilidade de casar o rei com uma Habsburgo de idade apropriada, ficou decidido definitivamente em meados de 1687 acertar um contrato matrimonial com Maria Sofia, a presumida fértil filha do conde de Neuburgo, que também, aliás, procurava resistir às influências políticas francesas, que ambicionavam anexar o pequeno território. D. Pedro II garantiria rapidamente à futura esposa as rendas e privilégios apropriados, após o qual o embaixador português foi autorizado a pedir a mão da princesa em casamento em nome do rei. Em cinco de  julho de 1687, quando já contava com quase 21 anos de idade, Maria Sofia deixou para sempre o castelo onde fora criada, iniciando seu percurso até Portugal.

Acompanhada por um séquito que contava aproximadamente com 350 pessoas, Maria Sofia percorreu o Reno até chegar à Holanda, onde seria recepcionada pelo príncipe de Orange e diversos nobres ingleses, incluindo um filho ilegítimo do rei Carlos II de Inglaterra, que era casado com a irmã mais velha de D. Pedro II de Portugal. Conduzida por eles, embarcou com sua comitiva nos naus de guerra que a levariam pela maior parte do caminho até Lisboa. Durante a viagem de sua noiva, D. Pedro II perdoaria alguns criminosos presos nas cadeias da capital, como era de costume em tais datas comemorativas, enquanto seu favorito e grande arquiteto das negociações diplomáticas com Neuburgo, o conde de Vilar Maior, distribuiria joias às damas da corte e dinheiro aos criados, demonstrando a generosidade do monarca.

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Pedro II de Portugal

No final de julho, Maria Sofia passaria para um iate inglês, onde seria conduzida em seu percurso pelo rio Tejo e onde testemunharia a salva de tiros dos navios portugueses quando sua frota passou em frente à igreja de São Paulo. Apenas em 11 de setembro, entretanto, Maria Sofia chegaria com a frota no porto de Ribeira. Quase que de imediato, subiram a bordo para recepcioná-la o conde de Santa Cruz, o conde de Vale de Reis, o conde de Ericeira e seu filho. Este faria um discurso em cinco línguas diferentes à nova rainha, ao qual Maria Sofia responderia individualmente sem hesitar, o que é uma prova da cuidadosa educação que apreendera em sua juventude. Como já haviam sido nomeados de antemão os oficiais da rainha, também subiriam a bordo a camareira-mor, o mordomo-mor e o estribeiro-mor antes que chegasse o rico bergantim de ouro e cetim que transportava D. Pedro II.

 

(1) Por via materna, Francisca Maria de Saboia havia sido descendente ilegítima de Henrique IV de França, o que a fazia uma aparentada do presente rei Luís XIV.

(2) Os franceses defendiam que a ausência de pagamento do dote da infanta Maria Teresa quando de seu casamento com Luís XIV, em 1660, tornara inválida a renúncia formal de seus direitos ao trono espanhol. Como ela falecera em 1683, sua pretensão passaria ao primogênito, o delfim Luís de França.

 

Maria Francisca de Saboia – parte II

Talvez possamos explicar melhor a mudança de comportamento de Maria Francisca em relação a D. Afonso VI se forem considerados os atritos da rainha com Luís de Vasconcelos e Sousa, o conde de Castelo Melhor e o nobre mais influente perante o monarca, a ponto de existir uma facção que tramava sua queda do poder – liderada, aliás, pelo irmão de D. Afonso VI, o infante D. Pedro, duque de Beja. Em primeiro lugar, Maria Francisca viu suas esperanças de participar do Conselho de Estado frustradas pelo favorito, que não desejava que ela intervisse na governo.

Pouco depois, a consorte acabou por  se unir à conspiração francesa que desejava derrubar o conde para impedir que a paz com Espanha fosse efetuada, enfraquecendo esta e, assim, beneficiando os interesses de Luís XIV nos conflituosos Países Baixos. Paralelamente, é bastante possível que Maria Francisca fosse se cansando cada vez mais rápido de D. Afonso VI, seu comportamento bizarro e suas amantes; este parece ser um motivo racional para explicar como acabou se dando tão rapidamente a fusão do plano que queria tirar o conde de Castelo Melhor do poder e outro, mais novo em sua elaboração, que consistia em depor o obtuso rei.

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D. Afonso VI de Portugal

Contudo, podemos também considerar a importância crescente da atração que provavelmente se desenvolveu desde então entre D. Pedro, duque de Beja e irmão do rei, e a rainha Maria Francisca. Claro que temos em mente a lógica utilizada por Isabel Mendes Drumond Braga e pensamos que certamente houve um componente de interesse de ambos os lados no que em breve se constituiu em uma aliança marital – casando-se com o futuro regente ou possivelmente rei de Portugal, se a frágil saúde de D. Afonso VI falhasse, ela garantia sua posição e protegia-se contra o possível exílio junto ao monarca deposto, além de poder a vir ser uma regente incontestável para seu filho, como o fora sua sogra Luísa de Gusmão; pelo lado dele, tal matrimônio preservaria a importante aliança francesa.

Vemos aqui, então, que apesar de precisar de uma noiva nascida em França, o duque de Beja não necessariamente precisava contrair o que poderia ser visto como um escandaloso matrimônio com a antiga esposa de seu irmão mais velho. Desta forma, apenas podemos acreditar que uma forte paixão, mesmo que pouco duradoura em sua intensidade, atingiu aos dois em algum ponto de 1667. Paixão não consumada, arriscamos dizer; além do demasiado risco em pôr tudo a perder se um adultério da rainha fosse descoberto, não era o momento de arriscar que Maria Francisca concebesse uma criança de legitimidade duvidosa para suceder ao trono português. De fato, em outubro o embaixador inglês daria como certa a virgindade da rainha.

Pouco depois, em novembro, a acusação de tentativa de envenenamento feita ao conde de Castelo Melhor por parte de D. Pedro foi bem sucedida em afastá-lo do centro do cenário político, deixando D. Afonso VI vulnerável frente aos conspiradores. Finalmente, no dia 22, o infante e seus partidários se apresentaram frente ao rei e solicitaram que este lhes entregasse o governo. Como o monarca resistiu, foi preso. Após convocar as Cortes, reunidas em janeiro seguinte, D. Pedro foi jurado regente de um irmão ao qual ainda jurava lealdade. Ainda antes, porém, Maria Francisca refugiou-se no Convento de Nossa Senhora da Esperança e pediu a anulação de seu casamento com D. Afonso VI com base na não consumação da união. O julgamento a respeito, ocorrido com rapidez pouco habitual, foi meticulosamente registrado em um dos documentos mais extraordinários do período: o Causa de nulidade de matrimónio entre a rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboya e o Rei D. Afonso VI, manuscrito hoje localizado na Torre do Tombo.

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Capa do registro do processo de anulação do matrimônio de Maria Francisca e D. Afonso VI

Maria Francisca de Saboia – parte I

Em 21 de junho de 1646, nascia em Paris a segunda filha de Carlos Amadeu, duque de Nemours, de Aumale e Genevois, e Isabel de Bourbon-Vendôme, descendente por via ilegítima de Henrique IV de França, chamada de Maria Francisca Isabel (1). Horas depois, viria ao mundo seu irmão gêmeo, José, que era o primeiro herdeiro homem do duque. O casal já tinha antes do nascimento duplo uma menina, Maria Joana, e viria a ter mais dois filhos depois de Isabel e José: Francisco e Carlos Amadeu. Tragicamente, apenas as meninas sobreviveriam à infância, e ficariam órfãs de pai logo em 1652, na sequência de um duelo dele com o duque de Beaufort, seu próprio cunhado.  Enviuvada, Isabel de Bourbon-Vendôme retirou-se para o convento de Fontevrault levando as filhas consigo. Elas tinham apenas oito e seis anos de idade. Lá, Maria Joana e Maria Francisca receberiam sua educação inicial por parte das religiosas que lá viviam. Anos depois, quando a duquesa sentia sua saúde declinar, levou as filhas já núbeis para Paris, onde as deixou ao cargo do avô materno, o duque de Vendôme, pouco antes de falecer em 1664. Poucos meses depois, contudo, este também morreria, deixando as netas temporariamente recolhidas em variados conventos enquanto se acertavam os detalhes das núpcias delas.

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Isabel de Bourbon-Vendôme, mãe de Maria Francisca

Aparentada com reis franceses, incluindo Luís XIV, o soberano na época das negociações, e, juntamente com a irmã, possuidora de um dote valioso, a inteligente Maria Francisca despertava há anos o interesse do mercado matrimonial europeu. Ainda enquanto a mãe dela vivia, houvera conversas sérias sobre um casamento com o duque de Saboia, e a duquesa viúva chegara a viajar para a corte do pretendente com as filhas, mas no final nenhum acordo foi feito. Em 1662, a primogênita Maria Joana se uniria ao duque de Lorena, e pouco depois, ao duque de Saboia. Pensou-se na época em núpcias de Maria Francisca com o conde de Vaudemont, mas nada acabou sendo acertado. Depois da morte da Isabel, a responsabilidade de conseguir um matrimônio para a segunda filha ficou com um primo de seu pai, César d’Estrées, bispo de Laon. Foi quando apareceu a possibilidade de casar a jovem Maria Francisca com D. Afonso VI de Portugal.

Tendo o poder efetivo há pouco tempo, o rei enfrentava dificuldades para efetuar núpcias, uma vez que a Casa de Bragança tinha legitimidade duvidosa enquanto dinastia reinante. Em 1652, enquanto D. João IV e o príncipe herdeiro D. Teodósio estavam vivos, tentou-se um contrato nupcial da deficiente criança com a filha do príncipe de Parma, mas as conversas não foram adiante. Anos depois, num contexto bélico entre Espanha e França, tentou-se uma união com Ana Maria, a filha do duque de Orléans, mas após muita demora a própria noiva – que estaria apaixonada por outro homem – optou por não seguir adiante no projeto matrimonial português. Seria quando o nome de Maria Francisca seria proposto pelo bispo de Laon ao responsável português em França para negociar as núpcias com Orléans, o marquês de Sande. Embora o acordo do matrimônio entre Maria Francisca e Afonso tenha ocorrido relativamente rápido, dois anos quase completos se passariam na discussão de minúcias em relação ao contrato nupcial até que, em fevereiro de 1666, um tratado efetivo fosse assinado. Em fins de junho, ocorreu o matrimônio por procuração, tornando Maria Francisca rainha de Portugal. Pouco depois, ela partiria em direção a Lisboa. Informados de um plano espanhol para sequestrar a rainha, sua comitiva francesa atrasou a partida em alguns dias, mas acabou por enfrentar uma série de calmarias e tempestades antes de, por fim, chegar à Portugal em dois de agosto.

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Maria Francisca de Saboia

Amplamente saudada pela artilharia portuguesa após o desembarque, Maria Francisca foi saudada por grande parte da nobreza e do povo. Seria em Alcântara o primeiro encontro da rainha com seu marido, e seria lá também onde receberiam as bênçãos solenes matrimoniais pelo bispo de Targa. Apesar disso, D. Afonso VI não partilharia o leito com a esposa até depois da entrada formal de ambos em Lisboa, que aconteceu no dia 29. Pouco depois, Maria Francisca escreveria a uma amiga em França que eles haviam consumado o casamento, e, para sua felicidade ser completa, apenas lhe faltava um filho. O embaixador de França em Portugal também deixaria seu testemunho que D. Afonso VI passava horas junto à esposa nos aposentos dela. Pouco depois, houve notícia de uma gestação, embora isso se provasse em pouco tempo apenas um boato. Aparentemente, deficiente ou não, o rei teria sucesso em engravidar de forma bem-sucedida sua rainha muito em breve, como desejado, mesmo que sua falha educação formal e eventual comportamento esdrúxulo provocassem comentários em certos círculos da corte. Neste contexto, como explicar, então, as supostas queixas de Maria Francisca quanto à total inabilidade sexual de seu marido, feitas depois ao seu confessor?

(1) No original francês, Marie-Françoise-Élisabeth.

Luísa de Gusmão – parte III

Embora seja improvável que Luísa de Gusmão tenha realmente pronunciado a sentença pela qual é mais conhecida para incentivar seu marido a aceitar a Coroa antes rainha por um dia do que duquesa por uma vida” -, Felipe IV certamente a tomou rapidamente como a consorte rebelada de um rei traidor, assim como seu valido Olivares. Furioso com a rebelião, este inclusive ordenaria ao irmão de Luísa, o duque de Medina Sidônia, que destruísse todos os registros dela dos livros da Casa, de maneira que não restasse nem rastro de sua memória. Da mesma forma, o pagamento do dote da duquesa de Bragança, ainda incompleto, deveria ser suspenso.

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Conde-duque de Olivares

Apesar de toda a cólera e troca incessante de responsabilidades pela revolta portuguesa que dominaria a corte Habsburgo nas semanas seguintes, a sobrevivência da nova dinastia era considerada improvável. O golpe que depusera a duquesa de Mântua, libertada por D. João IV em pouco tempo, era visto como a obra de poucos homens; logo, teria apoio insuficiente para aguentar por muito tempo. De fato, as várias deserções ocorridas nos primeiros meses deram suporte a tal ideia, assim como uma tentativa de assassinato sofrida pelo rei em agosto de 1641. Apesar disso, Espanha não pôde de fato capitalizar na fragilidade do inimigo e responder adequadamente, devido ao fato de suas forças militares, além de estarem divididas pela Europa, enfrentarem uma revolta particularmente engajada em Catalunha. Apenas nos primeiros meses de 1643 tropas Habsburgo seriam capazes de invadir Portugal, entrando no território pela região do Alentejo.

A situação enfrentada pela nova dinastia de Bragança, contudo, era menos frágil do que o visto pelo depreciativo julgamento do governo Habsburgo. D. João IV partiria para liderar seus exércitos contra os invasores e, assim, incentivar seus vassalos a acompanhá-lo, deixando a regência nas mãos de sua austera e religiosa esposa, grávida na época; em 21 de agosto ela daria à luz ao infante D. Afonso. O rei não estava presente ao parto, embora tenha visitado secretamente sua esposa e o bebê poucos dias depois. Seria aproximadamente neste período que uma amante desconhecida de D. João engravidaria, dando à luz uma menina em fins de abril do ano seguinte, que foi chamada de Maria. Apenas um mês depois deste nascimento, ocorreria a batalha de Montijo em Espanha, que teve um resultado indefinido ou, segundo Fernando Dores Costa, mesmo uma derrota portuguesa, mas foi tão massivamente louvada pela dinastia de Bragança que, até hoje, é considerada por alguns uma grande vitória de D. João IV. Embora tenha tido grande ressonância nas cortes europeias, porém, suas consequências militares foram quase nulas.

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O infante D. Afonso retratado em 1653

Dali por diante, a guerra caracterizou-se por eventuais escaramuças entre as tropas espanholas e portuguesas, causadas por ofensivas do último, até que, em 1647, D. João IV optou por uma mudança militar em relação a uma atitude meramente defensiva, o que descontentaria muitos, incluindo o bélico príncipe D. Teodósio, que seria eventualmente nomeado capitão-general do reino. Enfraquecida, Espanha também optaria por uma diminuição em suas atividades contra o reino vizinho. 1647 também marcaria uma grave doença do infante D. Afonso – possivelmente meningoencefalite – que o deixaria com o lado esquerdo de seu corpo paralisado, além de dificuldades na fala. Talvez foi temendo pela morte daquele que era o herdeiro alternativo ao trono que o casal real apressou-se em gerar outro filho; já em 26 de abril do ano seguinte nasceria o caçula de D. Luísa, o infante D. Pedro.

Depois de seu último parto, a rainha viveria anos tranquilos no Paço da Ribeira até 1653, que parece ter sido um dos piores anos de sua vida, assim como de seu marido. Em maio, morreu de tuberculose o talentoso príncipe D. Teodósio, numa perda lamentada por muitos no reino, uma vez que deixava como herdeiro do trono seu irmão D. Afonso, tido como incapaz devido às sequelas da doença de 1647; em novembro, faleceria a infanta D. Joana. Em novembro de 1656, por problemas nos rins, morreria o rei D. João IV. D. Luísa se tornaria, então, não apenas uma viúva, mas também a regente do reino até a maioridade de seu filho.

Luísa de Gusmão – parte I

Nascida em 13 de outubro de 1613, Luísa Maria Francisca de Gusmão foi a primogênita do casamento entre João Manuel Pérez de Gusmão, duque de Medina Sidônia, com Joana Gomes de Sandoval e Cerdas, filha do duque de Lerma, favorito de Felipe III. Desde sua infância, era evidente que um matrimônio prestigioso a aguardava; não apenas devido ao fato que era a filha mais velha, mas também porque os Medina Sidônia pertenciam à alta nobreza espanhola, sendo quase tão influentes quanto a Casa reinante.

Pensando no fato que Luísa era descendente direta de vários reis de Portugal por via paterna e materna, se poderia concluir hoje que núpcias neste sentido foram consideradas para ela desde cedo. Aparentemente, contudo, este não foi o caso; na verdade, o duque de Medina Sidônia não parecia ter tanta pressa para casar sua filha, visto que Luísa ultrapassou bastante a média de idade de casamento na aristocracia. Talvez isso tenha se devido a possíveis planos que o conde-duque de Olivares, o favorito do novo monarca, alimentava em relação a um hipotético casamento da jovem com o duque de Bragança, D. João, quase dez anos mais velho.

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D. João retratado em 1628

Se Luísa estava demorando a ser casada por seu pai, o mesmo poderia ser dito até fins do ano de 1630 em relação a D. João. Embora parte da tranquilidade do duque D. Teodósio quanto às núpcias do herdeiro possa ser atribuída ao fato que ele tivera outros dois filhos varões com sua esposa espanhola, é defendido por grande parte da historiografia sobre o tema que as negociações envolvendo filhas dos duques de Parma, Saboia, Mântua e Modena foram inviabilizadas por agentes de Felipe IV ou de seu favorito Olivares, com a intenção de impedir alianças matrimoniais possivelmente danosas aos Habsburgo. Entretanto, como apontam as autoras de uma recente biografia de D. João IV, as negociações feitas a mando de D. Teodósio foram discretíssimas, exatamente para evitar que Madri tomasse conhecimento das intenções da Casa de Bragança, o que fragiliza a ideia que o rei ou o valido interferiram na questão do casamento de D. João.

Seja como for, D. Teodósio faleceu em novembro de 1630 sem ver o primogênito casado. Quase que de imediato, o novo duque acionou contatos familiares em Espanha para negociar um matrimônio favorável aos interesses de Felipe IV, e rapidamente ouviu falar da primogênita da poderosa Casa de Medina Sidônia, com a qual um antepassado seu, D. Jaime, já havia se consorciado mais de um século antes. O rei espanhol, por sua lado, julgava que um casamento entre ela e o duque de Bragança estabeleceria firmemente D. João em sua órbita de influência sem necessitar de um casamento desde com alguma parenta Habsburgo, enquanto o duque de Bragança estava interessado em se beneficiar ao agradar seu monarca e o valido deste ao aceder aos seus interesses.

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Luísa de Gusmão em sua juventude

Além de todas as motivações políticas, contudo, devemos considerar a importância dos atributos físicos da formosa Luísa para firmar a decisão do mulherengo D. João em se casar com ela; com quase 18 anos, ela seria descrita como tendo grandes olhos negros e “entremadas partes”. Em pouco tempo, o contrato nupcial seria acertado, com amplas mercês sendo concedidas à Casa de Bragança, e, depois que uma licença papal devido ao parentesco dos noivos foi concedida, Luísa tornou-se a nova duquesa por um casamento por procuração. Pouco depois, ela iniciou sua viagem para o novo lar.

Isabel de França – parte II

Atraente e inteligente, a rainha aparentemente tinha o amor do povo e de seu marido, muito embora Olivares procurasse estimular o que ele chamava de “ardores da pueril sensualidade” de Felipe IV, e, assim, afastar o perigo de uma maior influência de Isabel ao dividir os afetos do jovem rei. A rainha mesma era suspeita de não manter inteiramente seus votos de matrimônio. Em maio de 1622, quando um pequeno incêndio começou no meio da encenação de uma peça do conde de Villamediana, o próprio autor conduziu a rainha para segurança com uma proximidade que despertou suspeitas da corte. Pouco depois, ele foi assassinado, num crime que bem pode ter sido ordenado por Felipe IV em pessoa.

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Isabel de França

De qualquer forma, estes casos extraconjugais não atrapalhavam o casal real em continuar tentando produzir um herdeiro do trono. Em novembro de 1623, nasceria outra filha, seguida por outra menina dois anos depois; entretanto, as infantas Margarida Maria e Maria Eugênia também viveriam pouco. No ano seguinte, uma nova gravidez terminaria num parto prematuro, e em outubro de 1627 viria à luz Isabel Maria, mais uma filha de curta vida. A despeito das frequentes tragédias familiares, porém, o rei não abdicaria de suas várias amantes, e em abril de 1629 uma delas – a atriz Maria Calderón – teve o único filho ilegítimo que Felipe IV reconheceria como seu, chamado de João. Este nascimento colocaria, como era natural no período, grande pressão sobre Isabel, grávida na época; em outubro ela finalmente daria à luz o tão esperado menino, nomeado com o incomum nome de Baltasar.

A década de 1630 testemunharia mais nascimentos reais; em 1634, um menino – Francisco – que viveu pouco, seguido em 1636 por Maria Ana, que também teve falecimento precoce. Em 10 de setembro de 1638, nasceria uma menina que sobreviveu, a infanta Maria Teresa. Apenas cinco dias antes, nascera em França o primeiro filho sobrevivente do irmão de Isabel, Luís XIII, e Ana de Áustria, irmã de Felipe IV; provavelmente uma união entre as duas crianças já então foi considerada pelas Coroas. Nos anos seguintes, a rainha Isabel teria no mínimo dois partos prematuros, e não haveria mais crianças de seu casamento com Felipe IV.

Paralelamente ao processo de fim de sua importância reprodutiva, a rainha Isabel crescia em importância política. De acordo com a mentalidade da época, a produção de dois herdeiros vivos deve ter contribuído para aumentar a confiança do rei na capacidade governamental da consorte, embora também seja certamente provável que a doença progressiva do valido Olivares, junto com seus fracassos recentes em política externa e econômica, tenha ajudado neste processo. De fato, além de forçar a partida de Olivares da corte, ela pôde ser regente de Espanha enquanto seu marido lidava com a revolta catalã no início da década de 1640, mostrando de fato aptidão superior à do marido para lidar com questões burocráticas.

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Felipe IV de Espanha

O excesso de trabalho, contudo, piorou a frágil saúde de Isabel, que já sofria anteriormente de problemas no estômago. Em outubro de 1644, ela ficaria retida à cama. Sangrias foram realizadas, mas o estado da rainha apenas se agravava, e contra os desejos iniciais dela, seu marido foi chamado. Quando Felipe IV chegou à Madri, porém, o corpo de sua esposa já esfriava. Pouco antes de sua morte aos 41 anos de idade, Isabel de França despediu-se do príncipe Baltasar e da infanta Maria Teresa. Com medo de qualquer possível contágio, ela não teria deixado que eles se aproximassem, dizendo: “Rainhas havia muitas para Espanha, mas príncipes muito poucos”.

Suas palavras eram proféticas. Pouco mais de dois anos depois que a rainha foi sepultada vestida em um hábito da ordem de São Francisco, seu filho Baltasar padeceu subitamente. Felipe IV, além de ver o Portugal dos Bragança sair cada vez mais de seu alcance, ainda se encontrava sem herdeiro varão. Para procurar resolver tal questão, ele casou-se contra a vontade com a antiga prometida do príncipe, sua sobrinha Mariana de Áustria, em 1649, numa união que eventualmente lhe traria satisfação e outro príncipe: o futuro Carlos II. Seria com este deformado rei, contudo, que a dinastia dos Habsburgo espanhóis conheceria o seu fim e seria substituída pelo ramo da Casa Bourbon descendente da rainha Isabel por meio de sua filha Maria Teresa, rainha de França.

Para saber mais:

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2012.

CANTÓ, Pilar Perez et all. Rainhas de Portugal e Espanha – Margarida de Áustria e Isabel de Bourbon. Temas e Debates, 2015.

Isabel de França – parte I

Nascida em 22 de novembro de 1602 no castelo de Fontainebleau, Isabel de França foi a segunda criança (primogênita mulher) do casamento entre o rei Henrique IV e sua segunda esposa, Maria de Médicis. Sendo a filha legítima mais velha do monarca, ela recebeu o título honorífico de Madame Royale, sendo oficialmente desde cedo a dama mais importante da corte francesa depois da rainha. Tendo uma fértil mãe, Isabel cresceria com vários irmãos e irmãs, alguns dos quais desempenhariam importante papel na história europeia do século XVII – como seu irmão mais velho Luís, melhor conhecido como o pai do Rei Sol (1), e sua irmã caçula Henrietta, célebre por seu papel na Guerra Civil Inglesa. A jovem princesa também teria vários irmãos ilegítimos, frutos dos diversos casos extraconjugais paternos.

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A família de Isabel (c. 1607)

Em maio de 1610, quando Isabel ainda não completara oito anos de idade, Henrique IV sucumbiu a mais uma tentativa de assassinato, morrendo apenas um dia após a coroação de Maria de Médicis; em poucas horas, ela seria elevada à condição de regente do jovem rei Luís XIII, e continuaria no cargo até a maioridade do filho em 1617. Neste ano, porém, tanto o jovem monarca quanto sua irmã Isabel já estariam envolvidos em acertos nupciais com a Casa de Habsburgo. De fato, desde 1602 as Coroas de França e Espanha procuravam acertar uma aliança política-militar, a ser efetuada através de contratos nupciais, mas a frequente disputa pela hegemonia da Europa frequentemente atrapalhava tais negociações. A morte do popular rei francês, contudo, possibilitou que a Espanha fizesse sua jogada para procurar neutralizar a rival, propondo um enlace duplo: a ideia era que Luís XIII fosse casado com a infanta Ana e Isabel se unisse ao príncipe Felipe.

Embora as capitulações matrimoniais tenham sido confirmadas em agosto de 1612 e os casamentos fossem previstos para ocorrer logo no ano seguinte, as núpcias apenas seriam efetuadas realmente em outubro de 1615, após o qual as princesas foram devidamente trocadas na fronteira de Bidasoa e seguiram para seus novos reinos. Por que tal atraso ocorreu? Embora, claro, a idade dos jovens em questão com certeza tenha tido impacto no adiamento (2), não se pode subestimar o poder da oposição interna em Espanha em relação às uniões. Ao final, contudo, a razão de Estado acabou por se impor e os casamentos de presente ocorreram. Semanas depois, Isabel fez sua entrada em Madri, guiada por uma comitiva que continha o futuro conde-duque de Olivares e era liderada pelo próprio duque de Lerma, valido de Felipe III.

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A troca das princesas

O novo casal era, na verdade, composto por duas crianças, que tinham a maturidade física cuidadosamente observada à procura do melhor e mais seguro momento para a consumação, ocorrida apenas em fins de 1620, quando Isabel já se transformara numa bela mulher de expressivos olhos negros. A atração do príncipe era evidente, e rapidamente sua esposa estaria grávida, com a primeira filha de ambos nascendo já em agosto de 1621; a infanta Maria Margarida, porém, morreria com poucos dias. Nesta altura, Felipe já ascendera como rei de Espanha e Portugal com o falecimento precoce de seu pai homônimo. No início de seu governo, o novo rei estava às beiras de completar 16 anos, e em sua inexperiência governamental se apoiou fortemente no favorito Olivares, que se tornou também seu valido. Olivares, que aprendera bem as lições das disputas entre seu antecessor e Margarida de Áustria, restringiu o papel da rainha Isabel ao que ele acreditava ser o dever natural das rainhas: parir. E isso ela faria com regularidade nas duas décadas seguintes, embora seu papel mais importante perante o rei – fornecer um herdeiro para Espanha – acabasse tragicamente não sendo cumprido.

(1) Luís XIV.

(2) Durante a maior parte de 1613, Luís XIII e Ana de Áustria tinham 11 anos, Isabel tinha 10 e Felipe 8.

A rainha espanhola de França: Ana de Áustria

Nascida em 22 de setembro de 1601, Ana de Áustria (1) foi a primogênita do rei espanhol Felipe III e sua consorte Margarida, do ramo austríaco da família Habsburgo; até o nascimento de um irmão em 1605, ela seria a herdeira presuntiva dos tronos de Espanha e Portugal. Tendo uma vida familiar bastante íntima para os padrões da realeza do século XVII, ela era muito próxima à mãe, tendo herdado dela a forte religiosidade. A morte da rainha Margarida pouco depois de um parto em 1611 foi, portanto, um forte baque para a menina, que a partir daí se tornaria uma espécie de figura materna para os irmãos mais novos, além de tecnicamente a dama mais importante da corte que cercava Felipe III.

Aproximadamente na época em que o luto mais estrito começou a ser aliviado, em 1613, já haviam começado negociações mais sérias para um casamento entre a infanta e o jovem rei de França, Luís XIII, assim como uma união entre o herdeiro espanhol e Madame Royale (2), assegurando assim uma forte aliança política-militar entre ambos os reinos. Em realidade, a ideia inicial das primeiras núpcias datava quase que dos nascimentos de Ana e Luís, ocorridos com apenas cinco dias de diferença; astrólogos da época interpretaram a coincidência como um sinal de um elo já existente entre ambos. Apesar do Conselho de Estado espanhol discutir as implicações de tal matrimônio desde cedo, os enlaces só se tornaram oficiais e públicos em abril de 1612, depois que o embaixador francês pediu a mão de Ana em casamento em nome de Luís XIII, e a infanta passou a ser tratada já como rainha.

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Luís XIII de França

Um grande dote de 500.000 coroas, mais valiosas joias, foi acertado nos meses seguintes, e Ana renunciaria formalmente aos seus direitos sucessórios à Coroa de Espanha, embora segundo o contrato nupcial eles pudessem ser recuperados se ela enviuvasse sem ter tido filhos. Finalmente, em outubro de 1615, os casamentos foram celebrados, e no mês seguinte Ana e Isabel foram trocadas na fronteira de Bidasoa, após o qual seguiram para encontrar seus respectivos maridos. E como era a nova rainha de França? Sem ter o afamado maxilar da família tão pronunciado, ela era considerada bela em sua juventude, atraindo admiradores com sua aparência clara e loira; apesar disso, Luís XIII não ficou impressionado.

Como ambos mal haviam completado 14 anos na época das núpcias, não necessariamente a consumação física foi imediata, embora a preocupação da Coroa francesa em assegurar a validade da união – e o dote de Ana – possa ter justificado o evento na época. De qualquer maneira, a mãe do rei, Maria de Médicis, continuou a se portar como a principal dama da corte. Como Luís XIII não dedicava muita atenção à esposa, os primeiros anos dela em França foram passados principalmente entre companhias espanholas. Apenas dois anos depois, na sequência de um golpe que retirou a influência governamental da regente Maria, foi que o casal real se aproximou. Influenciada pela retirada de suas damas de companhia espanholas e substituição delas por nobres francesas, Ana passou a seguir mais a etiqueta do reino onde se casara, o que pode ter servido para melhorar seu favor perante o rei.

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Uma jovem rainha Ana

Apenas em 1622, porém, foi que ela ficou grávida pela primeira vez, numa gestação que terminou espontaneamente ainda no início. Pouco depois, outra gravidez foi interrompida após uma queda da rainha. Mais dois abortos seriam registrados nos anos seguintes, embora a possibilidade que fossem gestações histéricas motivadas por ansiedade deva ser considerada. Os repetidos fracassos teriam desagrado imensamente o rei, que inclusive teria culpado a rainha pela segunda perda.

Neste contexto, a ascendência do cardeal Richelieu como principal conselheiro de Luís XIII causaria tensões. Nascido Armand Jean du Plessis em 1585, em Paris, ele avançou politicamente durante a regência de Maria de Médicis, tornando-se em poucos anos bastante influente, principalmente depois do seu cardinalato em abril de 1622, ocorrido pouco depois da morte do antigo favorito do rei, o duque de Luynes, que fora responsável pela aproximação de Luís e Ana anos antes. Em paralelo com o processo de centralização do poder real em França, Richelieu também defendia uma atitude de oposição ao grande poder da Casa Habsburgo na Europa – o que significava uma relação potencialmente difícil com Ana de Áustria.

De fato, os anos seguintes da consorte seriam marcados pela oposição política ao primeiro-ministro do rei, num cenário em que continuava estéril. Em 1635, França declarou guerra à Espanha, e não é improvável que Luís XIII estivesse considerando pedir uma anulação de suas núpcias, principalmente depois que recaíram sobre Ana suspeitas de colaboração com o inimigo em 1637; no caso, informações secretas teriam sido passadas a Felipe IV em uma correspondência pessoal da rainha francesa. A acusação teria partido do próprio Richelieu; embora Ana fosse eventualmente perdoada, sua relação com o rei seria danificada em caráter permanente. E foi neste clima que Ana de Áustria ficou grávida mais uma vez; em 5 de setembro de 1638, nasceu o futuro Luís XIV, poucas semanas antes que a rainha completasse 37 anos de idade. Como isso aconteceu? O pai era mesmo seu marido?

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A rainha grávida

Segundo a história tradicional propagada oficialmente pelos Bourbon, a concepção do herdeiro ocorrera depois que uma tempestade impedira Luís XIII de viajar, obrigando-o a dormir com sua esposa no Palácio do Louvre; nove meses depois, Ana de Áustria deu à luz um menino saudável, devidamente cognominado de “Dieudonne” (3). Contudo, provavelmente o milagre não deve ter ocorrido bem assim. Embora o histórico gestacional complicado da rainha, junto com a sua idade mais avançada, torne o evento improvável para o período, o fato é que um médico que acompanhava a saúde real de forma meticulosa anotara alguns anos antes que Ana e o rei costumavam ter relações sexuais ao menos duas vezes por semana.

Em agosto de 1637, um dos motivos pelos quais Luís foi convencido a perdoar Ana foi a crença nele incutida por Richelieu que as conspirações contra seu governo – lideradas algumas vezes por Gastão, duque de Orléans e irmão mais novo do monarca – apenas acabariam com o nascimento de um príncipe. Neste sentido, fosse o rei bissexual, homossexual ou apenas desinteressado por Ana, isto não importava no panorama dinástico do momento, que exigia que Luís XIII voltasse à sua rotina matrimonial de antes. Assim, o comparecimento frequente do rei à cama de Ana de Áustria torna desnecessária, além de perigosa, a utilização de outros homens para fecundar a rainha. De qualquer maneira, os candidatos mais célebres para o cargo, como por exemplo o futuro favorito Mazarin, sequer se encontravam em França quando a gravidez da consorte começou, e o jovem Luís compartilharia uma semelhança física em demasia com o irmão mais novo Felipe para que ambos fossem apenas meios-irmãos.

Seguindo o modelo familiar de sua infância em Espanha, a rainha Ana criou os filhos com proximidade pouco usual para o período. Poucos meses antes do quinto aniversário do primogênito, a frágil saúde de Luís XIII cedeu e ele faleceu, deixando como seus desejos finais a constituição de uma regência sem a presença de sua esposa. Ana, porém, tendo o Parlamento ao seu lado, descartou este pedido do testamento e tornou-se regente solo de Luís XIV, sendo oficialmente auxiliada pelo cardeal Mazarin. Nascido Giulio Raimondo em 1602, ele era um nobre italiano com longo histórico de serviços ao rei francês que se tornou pupilo de Richelieu, sucedendo-o como principal ministro após a morte deste em 1642. Caindo nas graças da rainha Ana, ele se tornaria o governante de fato do reino após a morte de Luís XIII, e em pouco tempo se mudaria para aposentos próximos ao da regente no Palais Royal. Em pouco tempo, começariam a circular rumores que ambos eram amantes, e até mesmo marido e mulher devido a uma união secreta.

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Cardeal Mazarin

O favor que Mazarin desfrutava perante a rainha, contudo, não era partilhado por grande parte dos nobres franceses, ou mesmo pela população em geral quando o cardeal começou a cobrar multas de quem construísse residências fora dos muros de Paris, em 1644. Quatro anos depois, para continuar pagando as despesas da longa guerra contra os Habsburgo espanhóis, Mazarin tentaria cobrar novos impostos, assim como limitar o poder dos deputados pela criação de novos departamentos de Estado. Quando o Parlamento se opôs a isso e apresentou uma série de propostas de reformas, Mazarin e a rainha ordenaram a prisão de seus líderes. E foi quando a população de Paris se revoltou, erguendo barricadas nas ruas e forçando a fuga de Ana e seu filho Luís da cidade.

Com tréguas, brutalidades e fugas de seus principais personagens, incluindo Mazarin, a guerra civil francesa conhecida como Fronda apenas terminaria quando Luís XIV alcançou a maioridade em 1652 e retornou à Paris, tendo sua mãe como grande influência em seu conselho real; em pouco tempo, ele também chamaria Mazarin de volta do exílio forçado. Apesar de toda a resistência, a autoridade real não apenas retornara intacta como, nos próximos anos, seria incrementada. Em 1660, um ano depois da paz com Espanha, o jovem rei se casaria com sua prima Maria Teresa, única filha sobrevivente do casamento do irmão de Ana de Áustria, Felipe IV, com a princesa francesa Isabel, numa celebrada união que no fim do século daria origem à Guerra de Sucessão Espanhola.

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A atriz June Temple como Ana de Áustria em Os Três Mosqueteiros (2011)

No mesmo ano do nascimento do primeiro filho do casal real, Mazarin faleceria. Pouco depois, Ana se afastaria da política e se refugiaria no convento de Val-de-Grâce, onde os primeiros sintomas do câncer se manifestariam dois anos depois. Ana de Áustria, a rainha espanhola de França, morreria em 20 de janeiro de 1666, ainda com sua fama controversa; em menos de dois séculos, Alexandre Dumas se serviria dela para tornar a consorte um personagem imortal da literatura no clássico Os Três Mosqueteiros.

(1) Embora tecnicamente uma infanta de Espanha, tendo nascido em Valladolid, Ana é conhecida até hoje como “de Áustria” devido à origem de sua Casa.

(2) Título honorífico pelo qual era conhecida a filha mais velha do rei francês. No caso, tratava-se de Isabel, a primogênita mulher legítima de Henrique IV.

(3) Literalmente, “dado por Deus”, mas muitas vezes traduzido como ”presente de Deus”.

Para saber mais:

http://www.biography.com/people/anne-of-austria-9185816

http://bjws.blogspot.com.br/2015/10/biography-queen-anne-of-austria-spain.html

http://www.sandragulland.com/the-conception-of-louis-xiv/

http://www.sandragulland.com/who-was-louis-xivs-father-the-question-that-never-goes-away/

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2006.