Pretendentes da Sempre Noiva: breve análise das frustradas negociações nupciais da princesa Isabel Luísa

Única filha resultante do polêmico casamento entre o regente D. Pedro e sua antiga cunhada, Maria Francisca de Saboia, Isabel Luísa Josefa de Bragança naturalmente atraiu as atenções do mercado matrimonial europeu desde o seu nascimento em janeiro de 1669. O fato que, nos anos seguintes, a rainha Maria Francisca mostrou-se impossibilitada de gerar um herdeiro homem para a Coroa portuguesa só potencializou a ponderação de vários reinos acerca do destino nupcial de Isabel Luísa, jurada como herdeira presuntiva do trono português pelas Cortes reunidas em 1674. Apesar dos expressos desejos de alguns partidos na corte para que a ocasião fosse aproveitada para promover uma união conciliatória entre a herdeira do trono e Carlos II, rei de Espanha (1), a regência nunca deu uma maior consideração a essa ideia, principalmente depois do suposto envolvimento do antigo representante espanhol em uma conspiração que almejava a volta do deposto rei D. Afonso VI de seu exílio nos Açores. Isso abriria espaço para as ambições de Luís XIV de França, que era o padrinho de Isabel Luísa.

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Princesa Isabel Luísa

Em 1676, o Rei Sol já procurava ativamente casar seu primogênito, o delfim, com a princesa herdeira, essencialmente planejando que o reino português fosse o dote da noiva. A perspectiva da transformação de Portugal em uma virtual província francesa aterrorizaria tanto os espanhóis que muito em breve o representante da Coroa espanhola na corte, o abade Maserati, assegurou a alguns conselheiros de Estado que a Espanha não impediria a concretização de qualquer arranjo feito em ducados menos ameaçadores, como a Baviera, Toscana e Saboia. Ora, o último tratava-se exatamente da região de origem da família da rainha Maria Francisca, que a partir de então se dedicaria juntamente com a irmã Maria Joana, regente de Saboia como mãe do jovem duque Vítor Amadeu, para que o enlace dos primos não só viesse à luz, mas também pudesse ser considerado seriamente como uma alternativa ao trono espanhol após a morte do doente rei Carlos II.

O planejamento secreto das duas irmãs, contudo, não seria a única possibilidade matrimonial que o regente D. Pedro consideraria para sua filha. Várias hipóteses nupciais seriam pensadas para Isabel Luísa, embora grande parte delas não fossem consideradas tão prováveis já de saída, como no caso das conversas envolvendo meninos da Casa alemã de Wittelsbach (2), ou então a que disse respeito ao príncipe de Roche-sur-Yvon. Bem mais sérias seriam as negociações para casar Isabel Luísa ou com Eduardo, príncipe de Parma como herdeiro do duque Rainúncio, ou com Fernando, grão-príncipe da Toscana como herdeiro do grão-duque Cosimo. D. Pedro se inclinaria para aceitar essa proposta, visando principalmente beneficiar-se da influência do grão-duque Médicis frente à cúria romana, até que o próprio pai do presuntivo noivo discretamente retirou a proposta, temendo as consequências políticas de ambicionar a mão de uma noiva ainda desejada tanto por Espanha quanto por França.

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Fernando, grão-príncipe da Toscana

Eventualmente, a escolha portuguesa ficou entre os três ducados menos ameaçadores nomeados anos antes pelo abade Maserati. Sem muita demora, o duque de Baviera seria descartado por sua ligação íntima com o Sacro Império Romano Germânico, o que poderia arrastar Portugal para campanhas militares indesejadas. Entre Parma e Saboia, pareceu de início que o primeiro ganharia o cobiçado enlace português – ou pelo menos essa era a preferência do influente padre jesuíta Antônio Vieira. De acordo com esse importante religioso do período, um casamento com um duque enfermiço e filho único não era tão vantajoso quanto uma união com um príncipe que não só tinha sangue legítimo da realeza portuguesa devido à sua descendência direta de D. Manuel I, mas também tinha a possibilidade de passar imediatamente a Portugal para viver com a noiva.

Entretanto, seria o objetivo planejado longamente entre a rainha Maria Francisca com sua irmã, a duquesa viúva Maria Joana, que prevaleceria apesar de todas as vantagens enumeradas por Vieira. Em fevereiro de 1679, foi comunicada publicamente a assinatura do tratado de casamento entre Isabel Luísa, princesa herdeira de Portugal, e Vítor Amadeu, duque de Saboia. Em agosto, ocorreu a ratificação do documento, tornando em tese o matrimônio inevitável. Contudo, após o embaixador português chegar à capital do ducado, começaram a correr rumores que o duque não só estava bastante doente, mas como também poderia ser incapaz de ter filhos. Embora não seja possível saber o quanto exatamente da doença de Vítor Amadeu é verdade e o que é derivado da resistência de portugueses e saboianos quanto ao casamento, além da ameaça militar francesa nas fronteiras do ducado, o fato é que o duque sequer estava em Lisboa para a sua festa de casamento presencial com Isabel Luísa meses depois, para a grande desilusão da corte portuguesa.

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Vítor Amadeu, duque de Saboia

Com o fim do compromisso nupcial da princesa em Saboia, ocorreram novas conversas nupciais envolvendo o príncipe de Parma. Contudo, a morte de D. Afonso VI e da rainha Maria Francisca nos meses finais de 1683 determinou novas preocupações dinásticas para o agora D. Pedro II de Portugal. Embora tenham ocorrido negociações para um casamento duplo dele com a filha do duque de Parma e de sua filha com o príncipe, nada ficou por fim acertado. Em 1687, o rei contrairia núpcias com Maria Sofia de Neuburgo, tendo com ela rapidamente um filho homem. Não sendo mais a herdeira presuntiva do trono, Isabel Luísa tinha agora a prerrogativa de escolher aceitar ou não um casamento, o que faria ao negar uma nova proposta do grão-duque de Toscana. Em agosto de 1690, ainda uma donzela na corte portuguesa, Isabel Luísa adoeceria com varíola, e pioraria até falecer no dia 21 de outubro. Tendo morrido com pouco mais de 20 anos, ela jamais pode realizar o compromisso de Estado que lhe retiraria a alcunha que, ainda hoje, a faz célebre.

 

(1) A Guerra da Restauração entre a destituída dinastia de Habsburgo e a recém-aclamada Casa de Bragança terminara formalmente apenas um ano antes do nascimento de Isabel Luísa.

(2) Curiosamente, esta seria a família de origem da segunda consorte de D. Pedro.

Para saber mais:

CHAVES, Luís. D. Pedro II. Empresa Nacional de Publicidade, 1959.

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

MARCOS, David Mantín. “O projeto matrimonial de Isabel Francisca Josefa de Bragança e Vítor Amadeu II de Saboia (1675-1682): estratégias familiares e geopolítica”. In: Análise Social. 212, XLIX (3º), 2014.

Luísa de Gusmão – parte IV

Quando se tornou rei de Portugal, em seis de novembro de 1656, D. Afonso VI estava a menos de um ano de completar quatorze anos de idade; tradicionalmente, essa era a idade legal que marcava o início da maioridade. Em princípio, portanto, Luísa de Gusmão teria uma regência curta, e a instabilidade inevitável gerada em tais períodos poderia ser facilmente dominada após o próximo aniversário do rei, quando ele mesmo assumiria as rédeas do poder. Tudo isso, porém, eram apenas pressupostos teóricos, vista a frágil saúde do monarca, além de sua instabilidade mental.

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D. Afonso VI

Desse modo, é plenamente possível que a viúva de D. João IV já se preparasse desde o início de sua regência para uma grande permanência no cargo, como de fato o foi. Escolhendo ministros para governarem sob sua liderança, D. Luísa encarregou-se de uma nova fase da guerra contra Espanha, quando as tropas portuguesas voltaram à ofensiva. O primeiro ano desta etapa marcaria, entretanto, um fracasso militar no longo cerco de Badajoz, onde, embora tendo uma vitória técnica, as tropas de D. Afonso foram destroçadas. O evento, aliás, marcou o início de uma espécie de paralisia na guerra. Enquanto os Habsburgo agora poderiam se dedicar a recuperar Portugal com o fim da revolta na Catalunha em 1653, agora tinham uma ausência crônica de soldados e recursos; os Bragança, por outro lado, estavam politicamente isolados na Europa, fracassando em obter um tratado com a França mediante o proposto casamento de Luís XIV com a infanta D. Catarina. O rei francês acabaria se casando em 1660 com a infanta Maria Teresa.

Após o fim das negociações com França, a regente voltou-se para a mais amigável Inglaterra, com a qual Portugal já assinara um tratado em 1654. De fato, é possível que as negociações francesas tenham sido muito mais uma jogada diplomática portuguesa para atrapalhar o casamento de Luís XIV com a prima espanhola do que uma proposta com intenções verdadeiras. Neste sentido, o começo das conversas visando um matrimônio entre Carlos II e D. Catarina podem ter se iniciado ainda antes da morte de D. João IV. A Restauração Inglesa em inícios de 1660, entretanto, tornou o acerto mais interessante e vantajoso para Portugal, que aceitaria pagar um exorbitante dote e ceder duas colônias à Inglaterra em troca de apoio militar contra Espanha.

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Catarina, rainha de Inglaterra

Em 1662, tendo a paz assegurada com o reino francês, o comando espanhol voltou à ofensiva. João de Áustria, filho ilegítimo de Felipe IV, lideraria uma tropa de milhares de homens para tomar a região do Alentejo, chegando a dominar a cidade de Évora por um curto período até ser forçado a abandonar o local após a grande vitória anglo-portuguesa na batalha de Ameixial. O mesmo ano conheceria o fim da regência de D. Luísa, que se retiraria para um convento após pressão por parte de D. Afonso VI, juntamente com o favorito real, o conde de Castelo Melhor e, a partir do golpe, Secretário de Estado do Reino de Portugal. O ano seguinte testemunharia o recuo definitivo das tropas lideradas por João de Áustria, embora este revés tenha sido compensado no ano seguinte pela ocupação de Vila Viçosa por exércitos do novo comandante dos Habsburgo, o marquês de Caracena.

A campanha do exército português para retomar Vila Viçosa, em 1665, eventualmente levaria à esmagadora vitória na batalha de Montes Claros. Depois disso, Espanha viu-se impossibilitada de tentar uma nova invasão, e ambos os lados começariam as negociações que levariam, em 1668, à assinatura do Tratado de Lisboa, que reconheceria por fim a legitimidade da dinastia de Bragança em Portugal e poria fim definitivo à guerra. A essa altura, porém, Luísa de Gusmão já estava morta, sendo vítima de falha pulmonar. Sepultada em Xabregas, ela eventualmente seria transferida para o Panteão dos Bragança, em Lisboa. Ao falecer em 27 de fevereiro de 1666, ela não testemunhou a anulação do breve casamento de seu primogênito D. Afonso com Maria Francisca de Saboia, o segundo casamento desta com o cunhado, D. Pedro, e o posterior exílio do filho mais velho até o fim da vida.

Para saber mais:

http://asaventurasdemark.blogspot.com.br/2013/08/d-luisa-de-gusmao.html

http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2014/04/mulheres-na-historia-lxvii-margarida-de_3.html

https://guerradarestauracao.wordpress.com

COSTA, Leonor Freire; CUNHA, Mafalda Soares da. D. João IV. Círculo de Leitores, 2012.

COSTA, Fernando Dores. A Guerra da Restauração – 1641-1668. Lisboa: Livros Horizonte, 2004.

LIVERMORE, Harold V. A New History of Portugal. Glasgow: Cambridge University Press, 1966.

Luísa de Gusmão – parte III

Embora seja improvável que Luísa de Gusmão tenha realmente pronunciado a sentença pela qual é mais conhecida para incentivar seu marido a aceitar a Coroa antes rainha por um dia do que duquesa por uma vida” -, Felipe IV certamente a tomou rapidamente como a consorte rebelada de um rei traidor, assim como seu valido Olivares. Furioso com a rebelião, este inclusive ordenaria ao irmão de Luísa, o duque de Medina Sidônia, que destruísse todos os registros dela dos livros da Casa, de maneira que não restasse nem rastro de sua memória. Da mesma forma, o pagamento do dote da duquesa de Bragança, ainda incompleto, deveria ser suspenso.

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Conde-duque de Olivares

Apesar de toda a cólera e troca incessante de responsabilidades pela revolta portuguesa que dominaria a corte Habsburgo nas semanas seguintes, a sobrevivência da nova dinastia era considerada improvável. O golpe que depusera a duquesa de Mântua, libertada por D. João IV em pouco tempo, era visto como a obra de poucos homens; logo, teria apoio insuficiente para aguentar por muito tempo. De fato, as várias deserções ocorridas nos primeiros meses deram suporte a tal ideia, assim como uma tentativa de assassinato sofrida pelo rei em agosto de 1641. Apesar disso, Espanha não pôde de fato capitalizar na fragilidade do inimigo e responder adequadamente, devido ao fato de suas forças militares, além de estarem divididas pela Europa, enfrentarem uma revolta particularmente engajada em Catalunha. Apenas nos primeiros meses de 1643 tropas Habsburgo seriam capazes de invadir Portugal, entrando no território pela região do Alentejo.

A situação enfrentada pela nova dinastia de Bragança, contudo, era menos frágil do que o visto pelo depreciativo julgamento do governo Habsburgo. D. João IV partiria para liderar seus exércitos contra os invasores e, assim, incentivar seus vassalos a acompanhá-lo, deixando a regência nas mãos de sua austera e religiosa esposa, grávida na época; em 21 de agosto ela daria à luz ao infante D. Afonso. O rei não estava presente ao parto, embora tenha visitado secretamente sua esposa e o bebê poucos dias depois. Seria aproximadamente neste período que uma amante desconhecida de D. João engravidaria, dando à luz uma menina em fins de abril do ano seguinte, que foi chamada de Maria. Apenas um mês depois deste nascimento, ocorreria a batalha de Montijo em Espanha, que teve um resultado indefinido ou, segundo Fernando Dores Costa, mesmo uma derrota portuguesa, mas foi tão massivamente louvada pela dinastia de Bragança que, até hoje, é considerada por alguns uma grande vitória de D. João IV. Embora tenha tido grande ressonância nas cortes europeias, porém, suas consequências militares foram quase nulas.

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O infante D. Afonso retratado em 1653

Dali por diante, a guerra caracterizou-se por eventuais escaramuças entre as tropas espanholas e portuguesas, causadas por ofensivas do último, até que, em 1647, D. João IV optou por uma mudança militar em relação a uma atitude meramente defensiva, o que descontentaria muitos, incluindo o bélico príncipe D. Teodósio, que seria eventualmente nomeado capitão-general do reino. Enfraquecida, Espanha também optaria por uma diminuição em suas atividades contra o reino vizinho. 1647 também marcaria uma grave doença do infante D. Afonso – possivelmente meningoencefalite – que o deixaria com o lado esquerdo de seu corpo paralisado, além de dificuldades na fala. Talvez foi temendo pela morte daquele que era o herdeiro alternativo ao trono que o casal real apressou-se em gerar outro filho; já em 26 de abril do ano seguinte nasceria o caçula de D. Luísa, o infante D. Pedro.

Depois de seu último parto, a rainha viveria anos tranquilos no Paço da Ribeira até 1653, que parece ter sido um dos piores anos de sua vida, assim como de seu marido. Em maio, morreu de tuberculose o talentoso príncipe D. Teodósio, numa perda lamentada por muitos no reino, uma vez que deixava como herdeiro do trono seu irmão D. Afonso, tido como incapaz devido às sequelas da doença de 1647; em novembro, faleceria a infanta D. Joana. Em novembro de 1656, por problemas nos rins, morreria o rei D. João IV. D. Luísa se tornaria, então, não apenas uma viúva, mas também a regente do reino até a maioridade de seu filho.

Isabel de França – parte II

Atraente e inteligente, a rainha aparentemente tinha o amor do povo e de seu marido, muito embora Olivares procurasse estimular o que ele chamava de “ardores da pueril sensualidade” de Felipe IV, e, assim, afastar o perigo de uma maior influência de Isabel ao dividir os afetos do jovem rei. A rainha mesma era suspeita de não manter inteiramente seus votos de matrimônio. Em maio de 1622, quando um pequeno incêndio começou no meio da encenação de uma peça do conde de Villamediana, o próprio autor conduziu a rainha para segurança com uma proximidade que despertou suspeitas da corte. Pouco depois, ele foi assassinado, num crime que bem pode ter sido ordenado por Felipe IV em pessoa.

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Isabel de França

De qualquer forma, estes casos extraconjugais não atrapalhavam o casal real em continuar tentando produzir um herdeiro do trono. Em novembro de 1623, nasceria outra filha, seguida por outra menina dois anos depois; entretanto, as infantas Margarida Maria e Maria Eugênia também viveriam pouco. No ano seguinte, uma nova gravidez terminaria num parto prematuro, e em outubro de 1627 viria à luz Isabel Maria, mais uma filha de curta vida. A despeito das frequentes tragédias familiares, porém, o rei não abdicaria de suas várias amantes, e em abril de 1629 uma delas – a atriz Maria Calderón – teve o único filho ilegítimo que Felipe IV reconheceria como seu, chamado de João. Este nascimento colocaria, como era natural no período, grande pressão sobre Isabel, grávida na época; em outubro ela finalmente daria à luz o tão esperado menino, nomeado com o incomum nome de Baltasar.

A década de 1630 testemunharia mais nascimentos reais; em 1634, um menino – Francisco – que viveu pouco, seguido em 1636 por Maria Ana, que também teve falecimento precoce. Em 10 de setembro de 1638, nasceria uma menina que sobreviveu, a infanta Maria Teresa. Apenas cinco dias antes, nascera em França o primeiro filho sobrevivente do irmão de Isabel, Luís XIII, e Ana de Áustria, irmã de Felipe IV; provavelmente uma união entre as duas crianças já então foi considerada pelas Coroas. Nos anos seguintes, a rainha Isabel teria no mínimo dois partos prematuros, e não haveria mais crianças de seu casamento com Felipe IV.

Paralelamente ao processo de fim de sua importância reprodutiva, a rainha Isabel crescia em importância política. De acordo com a mentalidade da época, a produção de dois herdeiros vivos deve ter contribuído para aumentar a confiança do rei na capacidade governamental da consorte, embora também seja certamente provável que a doença progressiva do valido Olivares, junto com seus fracassos recentes em política externa e econômica, tenha ajudado neste processo. De fato, além de forçar a partida de Olivares da corte, ela pôde ser regente de Espanha enquanto seu marido lidava com a revolta catalã no início da década de 1640, mostrando de fato aptidão superior à do marido para lidar com questões burocráticas.

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Felipe IV de Espanha

O excesso de trabalho, contudo, piorou a frágil saúde de Isabel, que já sofria anteriormente de problemas no estômago. Em outubro de 1644, ela ficaria retida à cama. Sangrias foram realizadas, mas o estado da rainha apenas se agravava, e contra os desejos iniciais dela, seu marido foi chamado. Quando Felipe IV chegou à Madri, porém, o corpo de sua esposa já esfriava. Pouco antes de sua morte aos 41 anos de idade, Isabel de França despediu-se do príncipe Baltasar e da infanta Maria Teresa. Com medo de qualquer possível contágio, ela não teria deixado que eles se aproximassem, dizendo: “Rainhas havia muitas para Espanha, mas príncipes muito poucos”.

Suas palavras eram proféticas. Pouco mais de dois anos depois que a rainha foi sepultada vestida em um hábito da ordem de São Francisco, seu filho Baltasar padeceu subitamente. Felipe IV, além de ver o Portugal dos Bragança sair cada vez mais de seu alcance, ainda se encontrava sem herdeiro varão. Para procurar resolver tal questão, ele casou-se contra a vontade com a antiga prometida do príncipe, sua sobrinha Mariana de Áustria, em 1649, numa união que eventualmente lhe traria satisfação e outro príncipe: o futuro Carlos II. Seria com este deformado rei, contudo, que a dinastia dos Habsburgo espanhóis conheceria o seu fim e seria substituída pelo ramo da Casa Bourbon descendente da rainha Isabel por meio de sua filha Maria Teresa, rainha de França.

Para saber mais:

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2012.

CANTÓ, Pilar Perez et all. Rainhas de Portugal e Espanha – Margarida de Áustria e Isabel de Bourbon. Temas e Debates, 2015.

A rainha espanhola de França: Ana de Áustria

Nascida em 22 de setembro de 1601, Ana de Áustria (1) foi a primogênita do rei espanhol Felipe III e sua consorte Margarida, do ramo austríaco da família Habsburgo; até o nascimento de um irmão em 1605, ela seria a herdeira presuntiva dos tronos de Espanha e Portugal. Tendo uma vida familiar bastante íntima para os padrões da realeza do século XVII, ela era muito próxima à mãe, tendo herdado dela a forte religiosidade. A morte da rainha Margarida pouco depois de um parto em 1611 foi, portanto, um forte baque para a menina, que a partir daí se tornaria uma espécie de figura materna para os irmãos mais novos, além de tecnicamente a dama mais importante da corte que cercava Felipe III.

Aproximadamente na época em que o luto mais estrito começou a ser aliviado, em 1613, já haviam começado negociações mais sérias para um casamento entre a infanta e o jovem rei de França, Luís XIII, assim como uma união entre o herdeiro espanhol e Madame Royale (2), assegurando assim uma forte aliança política-militar entre ambos os reinos. Em realidade, a ideia inicial das primeiras núpcias datava quase que dos nascimentos de Ana e Luís, ocorridos com apenas cinco dias de diferença; astrólogos da época interpretaram a coincidência como um sinal de um elo já existente entre ambos. Apesar do Conselho de Estado espanhol discutir as implicações de tal matrimônio desde cedo, os enlaces só se tornaram oficiais e públicos em abril de 1612, depois que o embaixador francês pediu a mão de Ana em casamento em nome de Luís XIII, e a infanta passou a ser tratada já como rainha.

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Luís XIII de França

Um grande dote de 500.000 coroas, mais valiosas joias, foi acertado nos meses seguintes, e Ana renunciaria formalmente aos seus direitos sucessórios à Coroa de Espanha, embora segundo o contrato nupcial eles pudessem ser recuperados se ela enviuvasse sem ter tido filhos. Finalmente, em outubro de 1615, os casamentos foram celebrados, e no mês seguinte Ana e Isabel foram trocadas na fronteira de Bidasoa, após o qual seguiram para encontrar seus respectivos maridos. E como era a nova rainha de França? Sem ter o afamado maxilar da família tão pronunciado, ela era considerada bela em sua juventude, atraindo admiradores com sua aparência clara e loira; apesar disso, Luís XIII não ficou impressionado.

Como ambos mal haviam completado 14 anos na época das núpcias, não necessariamente a consumação física foi imediata, embora a preocupação da Coroa francesa em assegurar a validade da união – e o dote de Ana – possa ter justificado o evento na época. De qualquer maneira, a mãe do rei, Maria de Médicis, continuou a se portar como a principal dama da corte. Como Luís XIII não dedicava muita atenção à esposa, os primeiros anos dela em França foram passados principalmente entre companhias espanholas. Apenas dois anos depois, na sequência de um golpe que retirou a influência governamental da regente Maria, foi que o casal real se aproximou. Influenciada pela retirada de suas damas de companhia espanholas e substituição delas por nobres francesas, Ana passou a seguir mais a etiqueta do reino onde se casara, o que pode ter servido para melhorar seu favor perante o rei.

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Uma jovem rainha Ana

Apenas em 1622, porém, foi que ela ficou grávida pela primeira vez, numa gestação que terminou espontaneamente ainda no início. Pouco depois, outra gravidez foi interrompida após uma queda da rainha. Mais dois abortos seriam registrados nos anos seguintes, embora a possibilidade que fossem gestações histéricas motivadas por ansiedade deva ser considerada. Os repetidos fracassos teriam desagrado imensamente o rei, que inclusive teria culpado a rainha pela segunda perda.

Neste contexto, a ascendência do cardeal Richelieu como principal conselheiro de Luís XIII causaria tensões. Nascido Armand Jean du Plessis em 1585, em Paris, ele avançou politicamente durante a regência de Maria de Médicis, tornando-se em poucos anos bastante influente, principalmente depois do seu cardinalato em abril de 1622, ocorrido pouco depois da morte do antigo favorito do rei, o duque de Luynes, que fora responsável pela aproximação de Luís e Ana anos antes. Em paralelo com o processo de centralização do poder real em França, Richelieu também defendia uma atitude de oposição ao grande poder da Casa Habsburgo na Europa – o que significava uma relação potencialmente difícil com Ana de Áustria.

De fato, os anos seguintes da consorte seriam marcados pela oposição política ao primeiro-ministro do rei, num cenário em que continuava estéril. Em 1635, França declarou guerra à Espanha, e não é improvável que Luís XIII estivesse considerando pedir uma anulação de suas núpcias, principalmente depois que recaíram sobre Ana suspeitas de colaboração com o inimigo em 1637; no caso, informações secretas teriam sido passadas a Felipe IV em uma correspondência pessoal da rainha francesa. A acusação teria partido do próprio Richelieu; embora Ana fosse eventualmente perdoada, sua relação com o rei seria danificada em caráter permanente. E foi neste clima que Ana de Áustria ficou grávida mais uma vez; em 5 de setembro de 1638, nasceu o futuro Luís XIV, poucas semanas antes que a rainha completasse 37 anos de idade. Como isso aconteceu? O pai era mesmo seu marido?

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A rainha grávida

Segundo a história tradicional propagada oficialmente pelos Bourbon, a concepção do herdeiro ocorrera depois que uma tempestade impedira Luís XIII de viajar, obrigando-o a dormir com sua esposa no Palácio do Louvre; nove meses depois, Ana de Áustria deu à luz um menino saudável, devidamente cognominado de “Dieudonne” (3). Contudo, provavelmente o milagre não deve ter ocorrido bem assim. Embora o histórico gestacional complicado da rainha, junto com a sua idade mais avançada, torne o evento improvável para o período, o fato é que um médico que acompanhava a saúde real de forma meticulosa anotara alguns anos antes que Ana e o rei costumavam ter relações sexuais ao menos duas vezes por semana.

Em agosto de 1637, um dos motivos pelos quais Luís foi convencido a perdoar Ana foi a crença nele incutida por Richelieu que as conspirações contra seu governo – lideradas algumas vezes por Gastão, duque de Orléans e irmão mais novo do monarca – apenas acabariam com o nascimento de um príncipe. Neste sentido, fosse o rei bissexual, homossexual ou apenas desinteressado por Ana, isto não importava no panorama dinástico do momento, que exigia que Luís XIII voltasse à sua rotina matrimonial de antes. Assim, o comparecimento frequente do rei à cama de Ana de Áustria torna desnecessária, além de perigosa, a utilização de outros homens para fecundar a rainha. De qualquer maneira, os candidatos mais célebres para o cargo, como por exemplo o futuro favorito Mazarin, sequer se encontravam em França quando a gravidez da consorte começou, e o jovem Luís compartilharia uma semelhança física em demasia com o irmão mais novo Felipe para que ambos fossem apenas meios-irmãos.

Seguindo o modelo familiar de sua infância em Espanha, a rainha Ana criou os filhos com proximidade pouco usual para o período. Poucos meses antes do quinto aniversário do primogênito, a frágil saúde de Luís XIII cedeu e ele faleceu, deixando como seus desejos finais a constituição de uma regência sem a presença de sua esposa. Ana, porém, tendo o Parlamento ao seu lado, descartou este pedido do testamento e tornou-se regente solo de Luís XIV, sendo oficialmente auxiliada pelo cardeal Mazarin. Nascido Giulio Raimondo em 1602, ele era um nobre italiano com longo histórico de serviços ao rei francês que se tornou pupilo de Richelieu, sucedendo-o como principal ministro após a morte deste em 1642. Caindo nas graças da rainha Ana, ele se tornaria o governante de fato do reino após a morte de Luís XIII, e em pouco tempo se mudaria para aposentos próximos ao da regente no Palais Royal. Em pouco tempo, começariam a circular rumores que ambos eram amantes, e até mesmo marido e mulher devido a uma união secreta.

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Cardeal Mazarin

O favor que Mazarin desfrutava perante a rainha, contudo, não era partilhado por grande parte dos nobres franceses, ou mesmo pela população em geral quando o cardeal começou a cobrar multas de quem construísse residências fora dos muros de Paris, em 1644. Quatro anos depois, para continuar pagando as despesas da longa guerra contra os Habsburgo espanhóis, Mazarin tentaria cobrar novos impostos, assim como limitar o poder dos deputados pela criação de novos departamentos de Estado. Quando o Parlamento se opôs a isso e apresentou uma série de propostas de reformas, Mazarin e a rainha ordenaram a prisão de seus líderes. E foi quando a população de Paris se revoltou, erguendo barricadas nas ruas e forçando a fuga de Ana e seu filho Luís da cidade.

Com tréguas, brutalidades e fugas de seus principais personagens, incluindo Mazarin, a guerra civil francesa conhecida como Fronda apenas terminaria quando Luís XIV alcançou a maioridade em 1652 e retornou à Paris, tendo sua mãe como grande influência em seu conselho real; em pouco tempo, ele também chamaria Mazarin de volta do exílio forçado. Apesar de toda a resistência, a autoridade real não apenas retornara intacta como, nos próximos anos, seria incrementada. Em 1660, um ano depois da paz com Espanha, o jovem rei se casaria com sua prima Maria Teresa, única filha sobrevivente do casamento do irmão de Ana de Áustria, Felipe IV, com a princesa francesa Isabel, numa celebrada união que no fim do século daria origem à Guerra de Sucessão Espanhola.

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A atriz June Temple como Ana de Áustria em Os Três Mosqueteiros (2011)

No mesmo ano do nascimento do primeiro filho do casal real, Mazarin faleceria. Pouco depois, Ana se afastaria da política e se refugiaria no convento de Val-de-Grâce, onde os primeiros sintomas do câncer se manifestariam dois anos depois. Ana de Áustria, a rainha espanhola de França, morreria em 20 de janeiro de 1666, ainda com sua fama controversa; em menos de dois séculos, Alexandre Dumas se serviria dela para tornar a consorte um personagem imortal da literatura no clássico Os Três Mosqueteiros.

(1) Embora tecnicamente uma infanta de Espanha, tendo nascido em Valladolid, Ana é conhecida até hoje como “de Áustria” devido à origem de sua Casa.

(2) Título honorífico pelo qual era conhecida a filha mais velha do rei francês. No caso, tratava-se de Isabel, a primogênita mulher legítima de Henrique IV.

(3) Literalmente, “dado por Deus”, mas muitas vezes traduzido como ”presente de Deus”.

Para saber mais:

http://www.biography.com/people/anne-of-austria-9185816

http://bjws.blogspot.com.br/2015/10/biography-queen-anne-of-austria-spain.html

http://www.sandragulland.com/the-conception-of-louis-xiv/

http://www.sandragulland.com/who-was-louis-xivs-father-the-question-that-never-goes-away/

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2006.

 

D. Antônio, prior do Crato

Filho ilegítimo de D. Luís, duque de Beja, segundo filho de D. Manuel I e D. Maria, e Violante Gomes, uma cristã-nova, D. Antônio nasceu em data desconhecida de 1531, em Lisboa. Criado desde pequeno pelo pai, ele começou seus estudos no Mosteiro de Penha Longa por volta dos oito anos de idade. Isso dava prosseguimento à uma certa tendência da família real portuguesa de fazer seus bastardos irem na direção de uma carreira religiosa.

Ser um eclesiástico, porém, não agradava a D. Antônio, que frequentemente saía para caçar ou pescar com os demais freis, para grande desgosto de D. Luís. Provavelmente auxiliado por seu irmão D. Henrique, ele providenciou a transferência do filho para o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde o comportamento indisciplinado, contudo, continuou. Uma nova transferência, por volta de 1551, para o mosteiro de Évora, a fim de receber as ordens de sub-diácono, indica o crescente interesse do cardeal D. Henrique, também arcebispo daquela cidade, na criação e educação de D. Antônio. De fato, a pedido de D. Luís, o próprio lhe forneceu as ordens em questão, pouco tempo antes do falecimento do duque de Beja e subsequente recusa de D. Antônio em prosseguir com a vida religiosa (HERMANN, 2011, pps. 3-12). Tendo recebido a modesta herança que lhe foi deixada pelo pai, D. Antônio iniciou então uma trajetória polêmica e conflituosa, que incluiu vários filhos bastardos.

D. Antônio, prior do Crato
D. Antônio, prior do Crato

Devemos ter em clara perspectiva esta recusa de Antônio para compreender a subsequente animosidade entre ele e seu tio D. Henrique, que atingiria níveis cruciais durante a crise sucessória posterior. Ela é, de fato, crucial para explicar o comportamento posterior do cardeal com D. Antônio, francamente incompreensível se a dimensão da decepção não for levada em consideração; a relação se deterioraria tão fortemente nos anos seguintes que, após D. Henrique, como regente, se recusar a lhe conceder um lugar na corte e uma renda correspondente a um filho de um infante, o prior do Crato ameaçou se recolher para a Espanha, bravata repetida e cumprida apenas dois anos depois, em 1566 (VELLOSO, 1935, pps. 71-72), muito embora retornasse após um acordo feito por intermédio de seu primo, Felipe II.

Características psicológicas de D. Sebastião

Rei de Portugal aos três anos de idade, D. Sebastião cresceu contrariando todas as previsões feitas pouco depois de seu nascimento pelo médico Fernando Abarca Maldonaro, que diziam que ele seria um príncipe belo e moreno, amante das mulheres e pai de muitos filhos (JOHNSON, 2004, p. 4). À medida que o príncipe tornava-se rei e amadurecia, porém, o horóscopo de D. Sebastião foi sendo desprovado ponto por ponto. Tendo herdado a ascendência Habsburgo tanto pelo príncipe D. João quanto pela princesa D. Joana, a criança era loira, pálida e de olhos azuis, com o maxilar característico da família.

Tendo um influente tio-avô como cardeal, era natural que D. Sebastião tivesse uma criação bastante religiosa, como era, aliás, típico na corte portuguesa. Esta característica dele era sempre citada por observadores. Ao mesmo tempo, o rei possuía personalidade forte e algo colérica, embora tivesse sensatez depois de acalmar. Também detestava cerimônias de corte, considerando-as “manifestações de soberba e pecado” (CRUZ, 2012, p. 118). Evitava as grandes cidades, preferindo o silêncio e tranquilidade do campo. Como passatempos, gostava de jogos de cartas e xadrez.

D. Sebastião
D. Sebastião

A mais notável discrepância entre a previsão e a realidade era, contudo, o comportamento do rei em relação às mulheres, Desde jovem, D. Sebastião demonstrava um notável distanciamento de quaisquer damas que não fossem a sua avó e regente, D. Catarina. Quando criança, ele costumava fugir e se esconder entre os seus acompanhantes sempre que encontrasse uma mulher. Mais tarde, ele se fez acompanhar por freis que tinham a função de manter sua pureza, e sua maturidade veio acompanhada por uma resistência peculiar à ideia de matrimônio. Embora diversas propostas com diversos reinos e ducados tenham sido negociadas, nenhuma era realmente perseguida.

A renúncia da regente

A habilidosa manobra de D. Catarina, em 1559, em sua ameaça de renúncia seguindo o polêmico casamento do duque de Bragança, desestabilizou a posição de D. Henrique e garantiu à rainha viúva mais alguns anos tranquilos no poder. Em 1562, porém, pouco depois da vitória portuguesa sobre os mouros no cerco da praça de Mazagão, ela subitamente renunciou, num evento até hoje incompreendido por historiadores. Num estranho movimento diante da possibilidade de capitalizar em seu favor o importante triunfo conquistado, Catarina de Áustria convocou os Três Estados para anunciar sua decisão de se retirar da regência.

Mesmo que de fato ela tenha sido criticada por sua demora em socorrer os portugueses durante o cerco mouro, a regente ainda contava com apoio de vários partidários, que hesitaram em acatar D. Henrique como o novo regente de D. Sebastião; a questão só foi concordada quando ele fez um juramento solene de entregar o poder ao sobrinho-neto quando este chegasse à maturidade, com a rainha viúva mantendo apenas a tutoria e curadoria do neto. Isso garantia que ela conservaria uma importante influência sobre o jovem rei. De qualquer forma, Mazagão teria efeito duradouro sobre D. Sebastião (HERMANN, 1998, p. 81), na medida em que a nova atmosfera belicista em Portugal, combinada com o caráter fortemente religioso de D. Sebastião, levaria a trágicos acontecimentos.

Cardeal Infante D. Henrique
Cardeal Infante D. Henrique

O polêmico segundo casamento do duque de Bragança

Em 1559, um ano após a morte de sua primeira esposa, D. Isabel, D. Teodósio, duque de Bragança, efetuou um contrato de segundas núpcias com D. Beatriz de Lencastre, sobrinha do duque de Aveiro, sem requerer licença para tal da rainha regente, como costumeiro entre a alta nobreza portuguesa. Um segundo matrimônio de D. Teodósio, porém, colocaria em risco o grandioso dote que se poderia esperar vindo do futuro casamento já planejado entre seu herdeiro D. João e a infanta D. Catarina, filha do falecido D. Duarte e neta de D. Manuel I. Vendo em risco o futuro de sua sobrinha favorita, o cardeal D. Henrique exerceu pressão contra as novas núpcias, juntamente com a regente, que viu no caso um desafio à sua autoridade, uma vez que já advertira o duque de Bragança anteriormente contra o projeto dessa nova união.

D. Teodósio, duque de Bragança
D. Teodósio, duque de Bragança

Já comprometido com o duque de Aveiro, do qual D. Beatriz era sobrinha, o duque de Bragança não voltou atrás e consumou a união, causando imediata reação de D. Catarina de Áustria, que expulsou temporariamente tanto ele quanto o duque de Aveiro da corte, além do pai da noiva, D. Luís (VELLOSO, 1935, pps. 46-47). Ao mesmo tempo, então, que D. Catarina tinha sua autoridade minada por atos rebeldes de importantes membros da alta nobreza, D. Henrique ascendeu como força política significativa tanto por sua forte atuação no caso do duque de Bragança quanto por suas negociações com Roma a propósito da construção de uma armada de defesa da costa portuguesa, nas quais ele se posiciona contra, tendo visto alguns termos do acordo como atentados à soberania portuguesa (POLÓNIA, 2005, pps. 143-145).

D. Beatriz de Lencastre
D. Beatriz de Lencastre

É precisamente neste contexto, portanto, que deve ser analisada a primeira tentativa de renúncia da rainha viúva. Apesar de primeiramente ter tentado impedir a cunhada de se retirar do governo, D. Henrique acaba aceitando a oferta esperada para que assumisse o cargo; como já mencionamos anteriormente, sua posição como parente homem mais próximo do rei o tornava, pela tradição portuguesa, o mais indicado para assumir a regência. Após a rainha ter divulgado a sua decisão de retirar-se do governo, porém, foi-lhe pedido para permanecesse, o que desestabilizou bastante a posição do cardeal. Concordamos com a opinião de Hermann quando ela, baseada em testemunhos de cronistas de época, considera que a tentativa foi proposital por parte de D. Catarina (1998, p. 80); ela, então, não planejou abdicar, mas apenas fortalecer-se politicamente com a perda de prestígio de D. Henrique, num estratagema para desfazer as intrigas do ambicioso cunhado.

Primeiros anos de regência de D. Catarina

Em termos políticos, os primeiros anos da regência da rainha viúva D. Catarina foram relativamente tranquilos, ao menos no campo internacional. Portugal não fora atingido pela bancarrota espanhola, continuando com crédito e sem graves problemas financeiros. Os territórios ultramarinos continuaram também sem grandes problemas, excetuando os persistentes ataques ingleses e franceses às linhas de navegação portuguesas. Além disso, as praças restantes do norte de África mantinham-se sem problemas significativos, e a presença portuguesa no Oriente se fortalecia mediante o Estado da Índia.

Em campo nacional, porém, a situação era menos estável. Muito embora tenha sido um período de fortalecimento do poder real, a política pró-castelhana supramencionada da rainha viúva causava fortes tensões em Portugal (POLÓNIA, 2005, pps. 141-143). Um exemplo marcante são as negociações entre a regente e seu irmão, o imperador Carlos V, para que o príncipe Carlos, filho da infanta Maria e do príncipe Felipe, fosse reconhecido oficialmente como herdeiro do trono português após D. Sebastião, preterindo assim D. Duarte, neto por linha masculina direta de D. Manuel I e, portanto, o herdeiro tradicional mais próximo do rei após D. Henrique, que era já um cardeal idoso. Embora a regente e seus conselheiros considerassem o príncipe espanhol o herdeiro do jovem rei português, um reconhecimento oficial nunca foi feito.

Príncipe Carlos
Príncipe Carlos