Luísa de Gusmão – parte IV

Quando se tornou rei de Portugal, em seis de novembro de 1656, D. Afonso VI estava a menos de um ano de completar quatorze anos de idade; tradicionalmente, essa era a idade legal que marcava o início da maioridade. Em princípio, portanto, Luísa de Gusmão teria uma regência curta, e a instabilidade inevitável gerada em tais períodos poderia ser facilmente dominada após o próximo aniversário do rei, quando ele mesmo assumiria as rédeas do poder. Tudo isso, porém, eram apenas pressupostos teóricos, vista a frágil saúde do monarca, além de sua instabilidade mental.

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D. Afonso VI

Desse modo, é plenamente possível que a viúva de D. João IV já se preparasse desde o início de sua regência para uma grande permanência no cargo, como de fato o foi. Escolhendo ministros para governarem sob sua liderança, D. Luísa encarregou-se de uma nova fase da guerra contra Espanha, quando as tropas portuguesas voltaram à ofensiva. O primeiro ano desta etapa marcaria, entretanto, um fracasso militar no longo cerco de Badajoz, onde, embora tendo uma vitória técnica, as tropas de D. Afonso foram destroçadas. O evento, aliás, marcou o início de uma espécie de paralisia na guerra. Enquanto os Habsburgo agora poderiam se dedicar a recuperar Portugal com o fim da revolta na Catalunha em 1653, agora tinham uma ausência crônica de soldados e recursos; os Bragança, por outro lado, estavam politicamente isolados na Europa, fracassando em obter um tratado com a França mediante o proposto casamento de Luís XIV com a infanta D. Catarina. O rei francês acabaria se casando em 1660 com a infanta Maria Teresa.

Após o fim das negociações com França, a regente voltou-se para a mais amigável Inglaterra, com a qual Portugal já assinara um tratado em 1654. De fato, é possível que as negociações francesas tenham sido muito mais uma jogada diplomática portuguesa para atrapalhar o casamento de Luís XIV com a prima espanhola do que uma proposta com intenções verdadeiras. Neste sentido, o começo das conversas visando um matrimônio entre Carlos II e D. Catarina podem ter se iniciado ainda antes da morte de D. João IV. A Restauração Inglesa em inícios de 1660, entretanto, tornou o acerto mais interessante e vantajoso para Portugal, que aceitaria pagar um exorbitante dote e ceder duas colônias à Inglaterra em troca de apoio militar contra Espanha.

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Catarina, rainha de Inglaterra

Em 1662, tendo a paz assegurada com o reino francês, o comando espanhol voltou à ofensiva. João de Áustria, filho ilegítimo de Felipe IV, lideraria uma tropa de milhares de homens para tomar a região do Alentejo, chegando a dominar a cidade de Évora por um curto período até ser forçado a abandonar o local após a grande vitória anglo-portuguesa na batalha de Ameixial. O mesmo ano conheceria o fim da regência de D. Luísa, que se retiraria para um convento após pressão por parte de D. Afonso VI, juntamente com o favorito real, o conde de Castelo Melhor e, a partir do golpe, Secretário de Estado do Reino de Portugal. O ano seguinte testemunharia o recuo definitivo das tropas lideradas por João de Áustria, embora este revés tenha sido compensado no ano seguinte pela ocupação de Vila Viçosa por exércitos do novo comandante dos Habsburgo, o marquês de Caracena.

A campanha do exército português para retomar Vila Viçosa, em 1665, eventualmente levaria à esmagadora vitória na batalha de Montes Claros. Depois disso, Espanha viu-se impossibilitada de tentar uma nova invasão, e ambos os lados começariam as negociações que levariam, em 1668, à assinatura do Tratado de Lisboa, que reconheceria por fim a legitimidade da dinastia de Bragança em Portugal e poria fim definitivo à guerra. A essa altura, porém, Luísa de Gusmão já estava morta, sendo vítima de falha pulmonar. Sepultada em Xabregas, ela eventualmente seria transferida para o Panteão dos Bragança, em Lisboa. Ao falecer em 27 de fevereiro de 1666, ela não testemunhou a anulação do breve casamento de seu primogênito D. Afonso com Maria Francisca de Saboia, o segundo casamento desta com o cunhado, D. Pedro, e o posterior exílio do filho mais velho até o fim da vida.

Para saber mais:

http://asaventurasdemark.blogspot.com.br/2013/08/d-luisa-de-gusmao.html

http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2014/04/mulheres-na-historia-lxvii-margarida-de_3.html

https://guerradarestauracao.wordpress.com

COSTA, Leonor Freire; CUNHA, Mafalda Soares da. D. João IV. Círculo de Leitores, 2012.

COSTA, Fernando Dores. A Guerra da Restauração – 1641-1668. Lisboa: Livros Horizonte, 2004.

LIVERMORE, Harold V. A New History of Portugal. Glasgow: Cambridge University Press, 1966.

Luísa de Gusmão – parte III

Embora seja improvável que Luísa de Gusmão tenha realmente pronunciado a sentença pela qual é mais conhecida para incentivar seu marido a aceitar a Coroa antes rainha por um dia do que duquesa por uma vida” -, Felipe IV certamente a tomou rapidamente como a consorte rebelada de um rei traidor, assim como seu valido Olivares. Furioso com a rebelião, este inclusive ordenaria ao irmão de Luísa, o duque de Medina Sidônia, que destruísse todos os registros dela dos livros da Casa, de maneira que não restasse nem rastro de sua memória. Da mesma forma, o pagamento do dote da duquesa de Bragança, ainda incompleto, deveria ser suspenso.

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Conde-duque de Olivares

Apesar de toda a cólera e troca incessante de responsabilidades pela revolta portuguesa que dominaria a corte Habsburgo nas semanas seguintes, a sobrevivência da nova dinastia era considerada improvável. O golpe que depusera a duquesa de Mântua, libertada por D. João IV em pouco tempo, era visto como a obra de poucos homens; logo, teria apoio insuficiente para aguentar por muito tempo. De fato, as várias deserções ocorridas nos primeiros meses deram suporte a tal ideia, assim como uma tentativa de assassinato sofrida pelo rei em agosto de 1641. Apesar disso, Espanha não pôde de fato capitalizar na fragilidade do inimigo e responder adequadamente, devido ao fato de suas forças militares, além de estarem divididas pela Europa, enfrentarem uma revolta particularmente engajada em Catalunha. Apenas nos primeiros meses de 1643 tropas Habsburgo seriam capazes de invadir Portugal, entrando no território pela região do Alentejo.

A situação enfrentada pela nova dinastia de Bragança, contudo, era menos frágil do que o visto pelo depreciativo julgamento do governo Habsburgo. D. João IV partiria para liderar seus exércitos contra os invasores e, assim, incentivar seus vassalos a acompanhá-lo, deixando a regência nas mãos de sua austera e religiosa esposa, grávida na época; em 21 de agosto ela daria à luz ao infante D. Afonso. O rei não estava presente ao parto, embora tenha visitado secretamente sua esposa e o bebê poucos dias depois. Seria aproximadamente neste período que uma amante desconhecida de D. João engravidaria, dando à luz uma menina em fins de abril do ano seguinte, que foi chamada de Maria. Apenas um mês depois deste nascimento, ocorreria a batalha de Montijo em Espanha, que teve um resultado indefinido ou, segundo Fernando Dores Costa, mesmo uma derrota portuguesa, mas foi tão massivamente louvada pela dinastia de Bragança que, até hoje, é considerada por alguns uma grande vitória de D. João IV. Embora tenha tido grande ressonância nas cortes europeias, porém, suas consequências militares foram quase nulas.

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O infante D. Afonso retratado em 1653

Dali por diante, a guerra caracterizou-se por eventuais escaramuças entre as tropas espanholas e portuguesas, causadas por ofensivas do último, até que, em 1647, D. João IV optou por uma mudança militar em relação a uma atitude meramente defensiva, o que descontentaria muitos, incluindo o bélico príncipe D. Teodósio, que seria eventualmente nomeado capitão-general do reino. Enfraquecida, Espanha também optaria por uma diminuição em suas atividades contra o reino vizinho. 1647 também marcaria uma grave doença do infante D. Afonso – possivelmente meningoencefalite – que o deixaria com o lado esquerdo de seu corpo paralisado, além de dificuldades na fala. Talvez foi temendo pela morte daquele que era o herdeiro alternativo ao trono que o casal real apressou-se em gerar outro filho; já em 26 de abril do ano seguinte nasceria o caçula de D. Luísa, o infante D. Pedro.

Depois de seu último parto, a rainha viveria anos tranquilos no Paço da Ribeira até 1653, que parece ter sido um dos piores anos de sua vida, assim como de seu marido. Em maio, morreu de tuberculose o talentoso príncipe D. Teodósio, numa perda lamentada por muitos no reino, uma vez que deixava como herdeiro do trono seu irmão D. Afonso, tido como incapaz devido às sequelas da doença de 1647; em novembro, faleceria a infanta D. Joana. Em novembro de 1656, por problemas nos rins, morreria o rei D. João IV. D. Luísa se tornaria, então, não apenas uma viúva, mas também a regente do reino até a maioridade de seu filho.

Catarina de Áustria – parte VI

A pouca idade de D. Sebastião tornava inevitável que uma regência fosse necessária por alguns anos; como mãe do jovem monarca, D. Joana seria a candidata mais evidente, mas já não se encontrava em Portugal havia muito. Viúva, o destino da princesa dependia novamente dos desejos de seu pai, o poderoso Carlos V, e a vontade dele era que Joana voltasse para Espanha para servir como regente na ausência de seu irmão Felipe, que em breve se casaria com a rainha Maria de Inglaterra. A decisão do imperador causou mal estar na corte portuguesa; pelo lado político, D. João III via frustrados seus próprios planos em casar o irmão D. Luís com a soberana inglesa e sua irmã caçula D. Maria com o príncipe Felipe, e pelo lado sentimental, os monarcas exprimiram sua preocupação em deixar praticamente órfã uma criança tão pequena. De qualquer maneira, a princesa Joana partiu em maio de 1554.

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D. Sebastião enquanto criança

Os anos seguintes trariam mais perdas à rainha D. Catarina: em abril de 1555, faleceu em Tordesilhas a mãe que ela jamais vira novamente em 30 anos, a doente rainha Joana. Em novembro de 1555, morreu seu cunhado, o infante D. Luís, que tinha com Catarina uma relação algo tensa desde as negociações frustradas de matrimônio com sua sobrinha anos antes. Em fevereiro de 1558, falecia sua irmã mais velha e antecessora no posto de rainha de Portugal, Leonor. Em outubro do mesmo ano, morreu outra irmã, Maria, seguida logo no mês seguinte pelo desaparecimento de seu irmão mais amado, Carlos V, com quem Catarina procurara manter uma correspondência constante desde o primeiro encontro de ambos em 1516.

A morte mais importante do ponto de vista político e pessoal, entretanto, já ocorrera em 11 de junho de 1557; após um agravamento súbito de uma doença antiga, faleceu D. João III em Lisboa. Do ponto de vista puramente governamental, o desaparecimento não significou em princípio uma mudança imediata; afinal, a doença do rei, visível desde 1550, apenas tornara mais visível o protagonismo da rainha. A quebra dos escudos do falecido monarca em 14 de junho, contudo, tornou inevitável a tensão – quem seria o regente do jovem D. Sebastião? Pelo costume, o posto pertencia ao parente homem mais próximo do monarca, no caso o infante cardeal D. Henrique, último dos filhos de D. Manuel I que ainda vivia. Regências femininas, embora não uma novidade na história portuguesa – basta lembrar o precedente imediato de Leonor de Aragão, consorte de D. Duarte e mãe de D. Afonso V – não costumavam conseguir o apoio político necessário para serem bem sucedidas. Na reunião do conselho régio que se seguiu imediatamente à quebra dos escudos, a rainha, que já partilhava do governo há vários anos, apresentou uns apontamentos de D. João III que supostamente indicavam o desejo real que D. Catarina assumisse a regência, curadoria e tutoria de D. Sebastião. Após ser pedido para assistir a cunhada na função, D. Henrique concordou.

Em breve, contudo, a princesa Joana, ainda regente em Espanha na ausência do irmão, reivindicou seu direito de sangue de assumir a regência do filho. Era de tal modo forte sua intenção que seu pai, Carlos V, teve que escrever uma carta bastante incisiva, deixando claro que a posição pertencia à sua irmã Catarina. A intenção do imperador era conseguir dela um compromisso no sentido de garantir a sucessão do filho da infanta D. Maria no caso de morte de D. Sebastião; afinal, como ele escreveu ao filho Felipe, “o Príncipe (Carlos) é tanto seu neto como o Rei”. Apesar da concordância de Catarina, a pragmática que reconhecia este direito jamais foi publicada devido ao sentimento anti castelhano presente na corte portuguesa, juntamente com certa impopularidade da regente, inclusive entre seus súditos de nascimento mais baixo.

(c) The Bowes Museum; Supplied by The Public Catalogue Foundation
D. Catarina em sua época como regente do neto

Esta tensão no relacionamento entre Catarina e algumas grandes Casas, nomeadamente os Aveiro e os Bragança, ganhou seu principal símbolo na noite de 3 de setembro de 1554. D. Teodósio, duque de Bragança, era viúvo desde o ano anterior e manifestou o desejo de voltar a se casar com D. Beatriz de Lencastre, sobrinha de D. João, duque de Aveiro. D. Catarina vetou tal matrimônio. Além do procurar evitar uma união mais íntima entre duas Casas tão poderosas, o movimento muito provavelmente visava proteger o dote devido à sua sobrinha homônima, segunda filha do falecido infante D. Duarte, que em breve se uniria ao herdeiro do duque de Bragança. Apesar da proibição, entretanto, D. Teodósio foi em frente e casou-se com D. Beatriz. Isso causou uma imediata reação da regente, que expulsou tanto ele quanto o duque de Aveiro da corte. Sua autoridade, porém, já fora minada.

E é neste contexto que ocorreu a primeira tentativa de renúncia de D. Catarina em nome de D. Henrique, que acabou aceitando-a após tentar convencer a cunhada a continuar no cargo. Embora este evento seja interpretado por muitos historiadores como uma tentativa bem-sucedida de D. Catarina de desestabilizar politicamente o infante cardeal, não é realmente impossível que a regente tenha considerado, diante das dificuldades políticas, abandonar a corte e ir para um convento, como fizera seu irmão anos antes. Independente da intenção, contudo, a reação da corte foi massiva pela continuidade de D. Catarina no cargo. Apesar de tudo, D. Henrique não era propriamente um nome que despertava entusiasmo.

Isabel de Coimbra – parte I

Nascida em 1432, Isabel de Coimbra era a primeira filha mulher (terceira criança) do infante D. Pedro, secundogênito sobrevivente de D. João I de Portugal e irmão mais novo do herdeiro D. Duarte, e Isabel, condessa de Urgell. Pouco antes, nascera seu primo, o infante D. Afonso, que seguia diretamente seu pai D. Duarte na sucessão real; quase que de imediato, tanto o duque de Coimbra quanto seu irmão ilegítimo, o conde de Barcelos (1), manifestaram interesse quanto ao futuro matrimônio do infante. Enquanto D. Pedro propunha a filha D. Isabel como noiva, D. Afonso oferecia uma de suas netas, também chamada Isabel. Devido à extrema juventude de todas as crianças envolvidas, entretanto, a questão foi deixada em suspenso.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

A morte súbita do já rei D. Duarte poucos anos depois, ocorrida pouco depois da catastrófica derrota em Tânger, empurrou o reino para uma crise política; a regente por ele escolhida em seu testamento era sua esposa aragonesa, a rainha D. Leonor, embora por tradição o direito pertencesse ao seu irmão seguinte, D. Pedro. O conflito parecia inevitável. Para procurar diminuir a tensão, a regente revelou ao cunhado a suposta vontade do falecido monarca em casar seu herdeiro D. Afonso com a prima D. Isabel de Coimbra, que ela se propunha a realizar. A decisão pragmática da rainha viúva, que provavelmente tencionava anular um partido de oposição com a união proposta, em muito desagradou o conde de Barcelos.

De qualquer forma, o compromisso entre as duas partes não foi atingido, com D. Leonor tendo que abdicar da função de regente em nome de D. Pedro, que possuía muito mais apoio do que ela. Mesmo assim, porém, o projeto de casamento entre os primos foi mantido, com o novo regente apressando-se em garantir uma dispensa para a união em Roma. D. Leonor e seus parentes aragoneses, por outro lado, pressionavam contra. Eventualmente, a dispensa seria garantida, o que possibilitaria que D. Pedro pudesse, com segurança, forçar a rainha viúva para o exílio, acompanhada por seus partidários.

D. Isabel
D. Isabel

Enquanto estas reviravoltas políticas eram realizadas, D. Isabel era cuidadosamente educada do ducado de seu pai, contando com mestres educadores italianos e a leitura de clássicos, como era esperado para uma futura rainha. Aliás, a jovem infanta foi possivelmente educada junto ao noivo, o rei, que passara a ser criado pelo tio após o exílio de sua mãe. Eventualmente, D. Afonso V se apaixonaria pela discreta prima que, apesar de não ser considerada bela pelos padrões da época, era doce, prudente, honesta, virtuosa e inteligente; de fato, as descrições de D. Isabel nas crônicas do reinado de seu futuro marido aproximam-se bastante do ideal feminino da época. Por seu lado, D. Isabel não deve ter considerado difícil amar seu justo, culto e gentil prometido, mesmo que este não tivesse sido um dever imposto a dedicada filha do duque muitos anos antes, e teria uma sincera amizade com D. Afonso até o fim de sua vida.

(1) Título utilizado prioritariamente por D. Afonso antes de sua ascensão como duque de Bragança.

Leonor de Aragão – parte III

De fato, a guerra pareceu quase desde o começo um desastre consumado, e assim procedeu; nos confrontos com os muçulmanos, os portugueses saíram derrotados, e a retirada de volta ao reino foi um martírio de fome e sede. Além disso, o infante D. Fernando foi capturado, e o preço para o seu resgate era a devolução de Ceuta, conquistada décadas antes por D. João I. Atormentado pela prisão do irmão, D. Duarte tentou fugir com a família da peste que assolava Portugal, mas quando chegou à cidade de Tomar já estava doente, agonizando numa questão de dias. Novamente grávida, a rainha foi afastada dele, juntamente com as crianças do casal. Os irmãos do rei, incluindo o ilegítimo D. Afonso, apressaram-se a ir encontrá-lo quando se percebeu que o quadro de D. Duarte era fatal, mas não conseguiriam chegar a tempo. Ainda grávida, D. Leonor se tornaria uma viúva em 9 de setembro de 1438. O novo rei, D. Afonso V, era seu filho, e tinha apenas seis anos de idade.

D. Afonso V de Portugal
D. Afonso V de Portugal

Depois dos funerais de D. Duarte e da proclamação de seu filho mais velho, D. Afonso, como novo rei de Portugal, o testamento do falecido foi finalmente aberto. Não é sabido exatamente quando o fez, mas provavelmente, devido às suas disposições, foi já perto de sua morte. De qualquer forma, o documento era incendiário; declarava, já de início, que a rainha D. Leonor deveria ser a tutora, curadora e regente dos filhos do casal, incluindo o herdeiro D. Afonso. Além disso, uma determinada quantia era deixada para a negociação da libertação do infante D. Fernando, seu irmão mais novo. Se isso não fosse suficiente, o falecido rei determinava que a colônia de Ceuta fosse cedida de volta aos infiéis como preço pela volta de D. Fernando.

Ambas as questões tinha ferrenhos oponentes. No tocante à segunda, porém, a procrastinação logo se mostrou ser uma arma valiosa. A negociação pela volta do infante foi tão postergada que o mesmo acabaria por morrer ainda em possessão dos inimigos no ano de 1443, cinco anos após a falecimento do rei D. Duarte.  Agora, quanto à regência a situação era mais difícil. Seria a quinta regência pela qual passaria o reino, a terceira chefiada por uma mulher. Considerando-se os antecedentes – Teresa Henriques, expulsa do reino pelo próprio filho, e Leonor Teles, expulsa para o reino do genro – as perspectivas de Leonor de Aragão não pareciam boas.

Alguns meses depois da morte do marido, D. Leonor deu à luz a última filha deles, a infanta D. Joana, futura rainha de Castela. Neste momento, ela já assumira a regência, confirmada pelas Cortes de Torres Novas de 1438, mas as resistências contra ela era muitas. Seu sexo, sua inexperiência política e seu nascimento e criação em Aragão faziam com que sua escolha para regente, na verdade, fosse um mero respeito às vontades do falecido rei D. Duarte enquanto outros candidatos, como o infante D. Pedro, iam reunindo aliados entre a nobreza. A cidade de Lisboa, contudo, rapidamente se rebelou após a escolha das Cortes, e sua insatisfação só foi contida por tropas do irmão de Leonor, o conde de Barcelona.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

A situação marcou a fim da vantagem da rainha. Mesmo apoiada pelo irmão ilegítimo de D. Duarte, D. Afonso, e fazendo múltiplas concessões a D. Pedro na criação de D. Afonso V, ela perdera a vantagem que a vontade póstuma do marido lhe fornecera. Eventualmente, as Cortes de Lisboa escolheram D. Pedro, duque de Coimbra, como o novo regente. A rainha viúva conspiraria até o ano seguinte para recuperar a regência do cunhado, mas sem sucesso; em dezembro de 1440, D. Pedro a forçaria a partir de volta para Castela, onde ela morreria em 1445.

Para saber mais:

DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Círculo de Leitores, 2005.

A Crise de 1383-85 – parte II

O motivo do homicídio do favorito de D. Leonor desperta discussão até hoje. Em sua biografia da rainha (2013), Isabel de Pina Baleiras apresenta as várias justificativas de diversos autores.  Segundo o cronista Fernão Lopes, por exemplo, ao assassinar o amante da rainha, o Mestre de Avis apenas estaria seguindo orientações de um plano que já existia no tempo que seu meio-irmão D. Fernando ainda vivia; neste sentido, de acordo com o historiador José Mattoso, a morte do favorito teria sido uma forma do Mestre mostrar sua fidelidade póstuma ao rei. Por outro lado, segundo os estudiosos Horácio Ferreira Alves e Peter Russel, o grande poder político que o conde de Ourém dispunha em várias cortes europeias o tornava um forte apoio de D. Leonor; ao destruí-lo, a rainha viúva perderia seu principal apoio e liberaria o centro do governo para outras facções, como a dos filhos de Inês de Castro ou, como parecia mais provável diante das circunstâncias, o próprio Mestre de Avis.

Morte de João Fernandes de Andeiro, o conde de Ourém
Morte de João Fernandes de Andeiro, o conde de Ourém

De fato, foi o que ocorreu. Após a morte de Andeiro, a rainha deixou Lisboa e foi para a mais protegida vila de Alenquer, enquanto o Mestre ganhava mais influência nos assuntos governamentais, embora de início considerasse o exílio na Inglaterra para fugir da vingança de D. Leonor. A grande pressão popular e o medo de uma invasão castelhana, contudo, o fizeram ficar em Portugal. Foi nesta época, aproximadamente, que conversas sobre um possível matrimônio entre ele e D. Leonor vieram à tona como forma de gerar uma solução de compromisso entre ambas as partes; para evitar a guerra com Castela, ambos seriam regentes de Portugal até o herdeiro de D. Beatriz chegar à maioridade. Embora o Mestre tenha dado seu consentimento, D. Leonor recusaria a proposta.

Selo com as armas reais combinadas de Castela e Portugal
Selo com as armas reais combinadas de Castela e Portugal

Com o avanço progressivo das tropas castelhanas, consequências drásticas tornaram-se inevitáveis no governo português. Em 16 de dezembro de 1383, D. Leonor foi afastada da regência e o cunhado assumiu seu lugar numa ampla aclamação popular. Humilhada, a rainha viúva pediu ajuda ao genro para restaurar sua honra. Em 12 de janeiro de 1384, João I e D. Beatriz encontraram D. Leonor perto da vila de Santarém. Depois de um encontro emocionado da rainha viúva com a filha, o rei castelhano convenceu a sogra a renunciar oficialmente da regência em seu nome para lhe dar a autoridade necessária para submeter os revoltosos liderados pelo Mestre de Avis. Fragilizada, ela concordou, retirando-se depois para um convento em Castela. Munido do poder necessário, João I mandou fazer selos novos onde as armas de Portugal apareciam entrelaçadas com as de Castela, além de cunhar moedas próprias, que passaram a circular nas cidades que o apoiavam. A guerra civil se consumava.

A Crise de 1383-85 – parte I

Após a morte de D. Fernando, D. Leonor tornou-se regente conforme as disposições testamentárias do marido, adotando dali por diante o título de “rainha governadora e regedora de Portugal e Algarves”; assim, abandonava a fórmula tradicional das consortes portuguesas e adotava a dos reis. Talvez tal mudança tenha tido mesmo o objetivo de mostrar maior credibilidade num momento bastante delicado do ponto de vista político. Neste sentido, a rainha viúva esforçava-se para despertar a simpatia dos súditos com a sua perda recente e, assim, neutralizar a fama corrente de que teria sido uma adúltera.

D. Leonor
D. Leonor

De início, ela teve sucesso, conseguindo reunir a sua volta o apoio de importantes membros da nobreza, que concordaram em formar com ela um Conselho de Regência. Contudo, D. Leonor não abdicaria da presença de seu favorito João Fernandes de Andeiro, o que se provaria um ponto fundamental de desgaste em sua regência. Enquanto isso, em Castela, João I soube do falecimento do sogro e imediatamente se dispôs a ir até Portugal em armas para defender os direitos de sua esposa ao trono e ser com ela aclamado como monarca daquele reino; ao mesmo tempo, mandou prender possíveis rivais ao trono, como o exilado infante D. João. Tratava-se de um movimento de anexação, ao contrário do que pretendera o falecido D. Fernando.

D. João, o Mestre de Avis
D. João, o Mestre de Avis

Apesar do descontentamento da maioria, João I de Castela foi apoiado em sua ambição por alguns membros do conselho e talvez até secretamente pela rainha viúva, que poderia estar ansiosa para fortificar sua posição no governo. Seja quais fossem seus sentimentos pessoais a respeito, entretanto, D. Leonor preparou o reino português para a invasão, embora a desconfiança começasse a se tornar palpável. Ela ordenou que seu cunhado, o Mestre de Avis, se afastasse para suas terras para reunir soldados; ao invés disso, o meio-irmão de D. Fernando seria parte ativa do plano para assassinar o suposto amante da rainha, João Fernandes de Andeiro, numa série misteriosa de acontecimentos que culminaria no Mestre golpeando o favorito nos paços da rainha viúva, para o horror e pânico desta.

Leonor Teles de Menezes – parte V

Em plena guerra, D. Leonor ficou grávida, e em julho de 1382 deu à luz um menino que não viveu muito. Pouco depois, cansado dos danos que o exército inglês estava causando em território português, o progressivamente doente D. Fernando aceitou em segredo a proposta castelhana de paz. No mesmo ano, outro tratado seria assinado na vila de Badajoz, e D. Beatriz foi prometida ao seu quarto noivo: desta vez, o secundogênito do rei de Castela, João I, filho de Henrique de Trastámara. Reféns também seriam trocados entre as duas partes para assegurar a paz. Em setembro de 1382, os furiosos ingleses partiriam.

João I de Castela
João I de Castela

No mesmo mês da partida impetuosa dos ingleses, a rainha de Castela morreu após complicações no parto de sua única filha. Vendo sua morte se aproximar, D. Fernando propôs que D. Beatriz, se casasse agora com o rei viúvo João I, numa negociação em que D. Leonor teve especial participação, uma vez que o rei português já se encontrava tão doente que não conseguia mais sair de sua câmara. Diferentemente dos outros tratados de núpcias de D. Beatriz com noivos castelhanos, contudo, o documento assinalava especialmente que apenas um filho legítimo de D. Fernando ou então um filho legítimo de D. Beatriz poderia herdar o trono português, mas não a própria princesa; aliás, uma cláusula ressaltava que quaisquer filhos ou filhas que D. Beatriz tivesse seriam criados pela regente de Portugal, D. Leonor. Isso deixava bem claro que este quinto noivado da herdeira tinha o projeto de apenas servir para gerar infantes e infantas suplementares para Portugal, e não unificar ambos os reinos. Só se pode especular os motivos desta mudança em relação aos quatro noivados anteriores, mas provavelmente o estado de saúde cada vez mais crítico do rei, junto com o fato que D. João I já tinha dois herdeiros homens para Castela, enquanto D. Fernando por enquanto apenas D. Beatriz para herdar o reino português, tenham sido preponderantes.

João I de Castela não ficou satisfeito com o tratado, mas o aceitou. Após D. Beatriz renunciar aos quatro esponsais anteriores e a dispensa papal para seu casamento com rei de Castela com ter sido providenciada, o casal se uniu no dia 14 de maio de 1383. A noiva tinha dez anos; o noivo, 24. Enquanto isso, a saúde de D. Fernando piorava cada vez mais na vila de Almada enquanto a última gravidez de D. Leonor avançava; em setembro, ela deu à luz a uma menina que viveu pouco. A situação de D. Beatriz como herdeira foi confirmada. Em 22 de outubro de 1383, D. Fernando morreu. D. Leonor tornou-se regente, enquanto seu genro, ignorando seu contrato nupcial, avançou para tomar a Coroa. Murmúrios de descontentamento, entretanto, rapidamente se ergueriam, tomando a forma de franca revolta em questão de poucos meses. Em 1384, a guerra civil explodiria definitivamente naquela que seria a crise sucessória portuguesa de 1383-85, que marcaria a ascensão da dinastia de Avis. Forçada a abdicar da regência, D. Leonor exilou-se em Castela, morrendo pouco depois em um mosteiro em Tordesilhas.

Para saber mais:

BALEIRAS, Isabel de Pina. Uma rainha inesperada: Leonor Teles. Lisboa: Temas e Debates, 2013.

GOMES, Rita Costa. D. Fernando. Círculo de Leitores, 2005.