Pretendentes da Sempre Noiva: breve análise das frustradas negociações nupciais da princesa Isabel Luísa

Única filha resultante do polêmico casamento entre o regente D. Pedro e sua antiga cunhada, Maria Francisca de Saboia, Isabel Luísa Josefa de Bragança naturalmente atraiu as atenções do mercado matrimonial europeu desde o seu nascimento em janeiro de 1669. O fato que, nos anos seguintes, a rainha Maria Francisca mostrou-se impossibilitada de gerar um herdeiro homem para a Coroa portuguesa só potencializou a ponderação de vários reinos acerca do destino nupcial de Isabel Luísa, jurada como herdeira presuntiva do trono português pelas Cortes reunidas em 1674. Apesar dos expressos desejos de alguns partidos na corte para que a ocasião fosse aproveitada para promover uma união conciliatória entre a herdeira do trono e Carlos II, rei de Espanha (1), a regência nunca deu uma maior consideração a essa ideia, principalmente depois do suposto envolvimento do antigo representante espanhol em uma conspiração que almejava a volta do deposto rei D. Afonso VI de seu exílio nos Açores. Isso abriria espaço para as ambições de Luís XIV de França, que era o padrinho de Isabel Luísa.

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Princesa Isabel Luísa

Em 1676, o Rei Sol já procurava ativamente casar seu primogênito, o delfim, com a princesa herdeira, essencialmente planejando que o reino português fosse o dote da noiva. A perspectiva da transformação de Portugal em uma virtual província francesa aterrorizaria tanto os espanhóis que muito em breve o representante da Coroa espanhola na corte, o abade Maserati, assegurou a alguns conselheiros de Estado que a Espanha não impediria a concretização de qualquer arranjo feito em ducados menos ameaçadores, como a Baviera, Toscana e Saboia. Ora, o último tratava-se exatamente da região de origem da família da rainha Maria Francisca, que a partir de então se dedicaria juntamente com a irmã Maria Joana, regente de Saboia como mãe do jovem duque Vítor Amadeu, para que o enlace dos primos não só viesse à luz, mas também pudesse ser considerado seriamente como uma alternativa ao trono espanhol após a morte do doente rei Carlos II.

O planejamento secreto das duas irmãs, contudo, não seria a única possibilidade matrimonial que o regente D. Pedro consideraria para sua filha. Várias hipóteses nupciais seriam pensadas para Isabel Luísa, embora grande parte delas não fossem consideradas tão prováveis já de saída, como no caso das conversas envolvendo meninos da Casa alemã de Wittelsbach (2), ou então a que disse respeito ao príncipe de Roche-sur-Yvon. Bem mais sérias seriam as negociações para casar Isabel Luísa ou com Eduardo, príncipe de Parma como herdeiro do duque Rainúncio, ou com Fernando, grão-príncipe da Toscana como herdeiro do grão-duque Cosimo. D. Pedro se inclinaria para aceitar essa proposta, visando principalmente beneficiar-se da influência do grão-duque Médicis frente à cúria romana, até que o próprio pai do presuntivo noivo discretamente retirou a proposta, temendo as consequências políticas de ambicionar a mão de uma noiva ainda desejada tanto por Espanha quanto por França.

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Fernando, grão-príncipe da Toscana

Eventualmente, a escolha portuguesa ficou entre os três ducados menos ameaçadores nomeados anos antes pelo abade Maserati. Sem muita demora, o duque de Baviera seria descartado por sua ligação íntima com o Sacro Império Romano Germânico, o que poderia arrastar Portugal para campanhas militares indesejadas. Entre Parma e Saboia, pareceu de início que o primeiro ganharia o cobiçado enlace português – ou pelo menos essa era a preferência do influente padre jesuíta Antônio Vieira. De acordo com esse importante religioso do período, um casamento com um duque enfermiço e filho único não era tão vantajoso quanto uma união com um príncipe que não só tinha sangue legítimo da realeza portuguesa devido à sua descendência direta de D. Manuel I, mas também tinha a possibilidade de passar imediatamente a Portugal para viver com a noiva.

Entretanto, seria o objetivo planejado longamente entre a rainha Maria Francisca com sua irmã, a duquesa viúva Maria Joana, que prevaleceria apesar de todas as vantagens enumeradas por Vieira. Em fevereiro de 1679, foi comunicada publicamente a assinatura do tratado de casamento entre Isabel Luísa, princesa herdeira de Portugal, e Vítor Amadeu, duque de Saboia. Em agosto, ocorreu a ratificação do documento, tornando em tese o matrimônio inevitável. Contudo, após o embaixador português chegar à capital do ducado, começaram a correr rumores que o duque não só estava bastante doente, mas como também poderia ser incapaz de ter filhos. Embora não seja possível saber o quanto exatamente da doença de Vítor Amadeu é verdade e o que é derivado da resistência de portugueses e saboianos quanto ao casamento, além da ameaça militar francesa nas fronteiras do ducado, o fato é que o duque sequer estava em Lisboa para a sua festa de casamento presencial com Isabel Luísa meses depois, para a grande desilusão da corte portuguesa.

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Vítor Amadeu, duque de Saboia

Com o fim do compromisso nupcial da princesa em Saboia, ocorreram novas conversas nupciais envolvendo o príncipe de Parma. Contudo, a morte de D. Afonso VI e da rainha Maria Francisca nos meses finais de 1683 determinou novas preocupações dinásticas para o agora D. Pedro II de Portugal. Embora tenham ocorrido negociações para um casamento duplo dele com a filha do duque de Parma e de sua filha com o príncipe, nada ficou por fim acertado. Em 1687, o rei contrairia núpcias com Maria Sofia de Neuburgo, tendo com ela rapidamente um filho homem. Não sendo mais a herdeira presuntiva do trono, Isabel Luísa tinha agora a prerrogativa de escolher aceitar ou não um casamento, o que faria ao negar uma nova proposta do grão-duque de Toscana. Em agosto de 1690, ainda uma donzela na corte portuguesa, Isabel Luísa adoeceria com varíola, e pioraria até falecer no dia 21 de outubro. Tendo morrido com pouco mais de 20 anos, ela jamais pode realizar o compromisso de Estado que lhe retiraria a alcunha que, ainda hoje, a faz célebre.

 

(1) A Guerra da Restauração entre a destituída dinastia de Habsburgo e a recém-aclamada Casa de Bragança terminara formalmente apenas um ano antes do nascimento de Isabel Luísa.

(2) Curiosamente, esta seria a família de origem da segunda consorte de D. Pedro.

Para saber mais:

CHAVES, Luís. D. Pedro II. Empresa Nacional de Publicidade, 1959.

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

MARCOS, David Mantín. “O projeto matrimonial de Isabel Francisca Josefa de Bragança e Vítor Amadeu II de Saboia (1675-1682): estratégias familiares e geopolítica”. In: Análise Social. 212, XLIX (3º), 2014.

Maria Sofia de Neuburgo – parte I

Nascida em um palácio localizado no ducado de Juliers, a poucos quilômetros da cidade imperial de Dusseldorf, a princesa Maria Sofia Isabel de Neuburgo veio ao mundo em seis de agosto de 1666, sendo uma das diversas filhas de Felipe, conde de Neuburgo, com sua esposa Isabel de Hesse-Darmstadt. Uma vez que esse fértil casal geraria nada menos do que 17 crianças sobreviventes durante sua longa união, as meninas daquela geração do ramo secundário da antiga Casa Wittelsbach seriam cobiçadas pelo mercado matrimonial europeu por sua presumida capacidade de gerar herdeiros. Em 1676, de fato, a primogênita do casal, Leonor, seria casada com Leopoldo, Sacro Imperador Romano Germânico, que não conseguira ter um filho homem em seus matrimônios anteriores; posteriormente, três irmãs suas se casariam respectivamente com Carlos II, rei de Espanha, Eduardo, príncipe de Parma e Jaime, príncipe de Polônia, cujas Casas tinham linhas de sucessão instáveis.

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O pai de Maria Sofia, o conde Felipe de Neuburgo

Quando Maria Sofia tinha 17 anos, morreria em Portugal a rainha Maria Francisca de Saboia, esposa do rei D. Pedro II. Embora o monarca tivesse tido vários casos extraconjugais em seus vários anos de casamento, o falecimento de Maria Francisca o deixou em prolongada tristeza. Nem o fato que a sobrevivência da recente dinastia de Bragança encontrava-se ameaçada pela frágil figura da princesa D. Isabel, que ainda sequer se casara, pôde convencer D. Pedro II a acelerar o processo para ter novas núpcias. Apenas em reunião do Conselho Real ocorrida em janeiro de 1685 foi que o monarca seria convencido, em nome da felicidade do reino, a casar-se de novo.

De início, a pressão sobre o rei era forte para que a aliança francesa fosse renovada (1). A principal candidata nesse sentido era a mademoiselle de Blois, filha legitimada do rei francês com sua antiga favorita, a marquesa de Montespan. Também seria proposta uma união com a mais madura mademoiselle de Lillebonne, uma princesa de Lorena, mas nenhuma dessas ideias iria realmente adiante. Enquanto isso, a facção pró-francesa da corte encontrava resistência em alguns nobres que defendiam uma reaproximação política com a Casa Habsburgo, principalmente vendo-se já no horizonte a intervenção política francesa após a morte do doente Carlos II de Espanha (2). Embora essa facção pró-Habsburgo tivesse pouco apoio na corte portuguesa propriamente dita, seus membros utilizaram-se da manipulação da opinião pública exterior ao paço real para vender os perigos que existiam em fortificar a aliança com a monarquia francesa.

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Mademoiselle de Blois, uma das esposas pensadas para D. Pedro II de Portugal

Procurando fugir da influência de França, então, a diplomacia portuguesa passou a procurar em semi-sigilo noivas para D. Pedro II nas diversas cortes imperiais. Na impossibilidade de casar o rei com uma Habsburgo de idade apropriada, ficou decidido definitivamente em meados de 1687 acertar um contrato matrimonial com Maria Sofia, a presumida fértil filha do conde de Neuburgo, que também, aliás, procurava resistir às influências políticas francesas, que ambicionavam anexar o pequeno território. D. Pedro II garantiria rapidamente à futura esposa as rendas e privilégios apropriados, após o qual o embaixador português foi autorizado a pedir a mão da princesa em casamento em nome do rei. Em cinco de  julho de 1687, quando já contava com quase 21 anos de idade, Maria Sofia deixou para sempre o castelo onde fora criada, iniciando seu percurso até Portugal.

Acompanhada por um séquito que contava aproximadamente com 350 pessoas, Maria Sofia percorreu o Reno até chegar à Holanda, onde seria recepcionada pelo príncipe de Orange e diversos nobres ingleses, incluindo um filho ilegítimo do rei Carlos II de Inglaterra, que era casado com a irmã mais velha de D. Pedro II de Portugal. Conduzida por eles, embarcou com sua comitiva nos naus de guerra que a levariam pela maior parte do caminho até Lisboa. Durante a viagem de sua noiva, D. Pedro II perdoaria alguns criminosos presos nas cadeias da capital, como era de costume em tais datas comemorativas, enquanto seu favorito e grande arquiteto das negociações diplomáticas com Neuburgo, o conde de Vilar Maior, distribuiria joias às damas da corte e dinheiro aos criados, demonstrando a generosidade do monarca.

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Pedro II de Portugal

No final de julho, Maria Sofia passaria para um iate inglês, onde seria conduzida em seu percurso pelo rio Tejo e onde testemunharia a salva de tiros dos navios portugueses quando sua frota passou em frente à igreja de São Paulo. Apenas em 11 de setembro, entretanto, Maria Sofia chegaria com a frota no porto de Ribeira. Quase que de imediato, subiram a bordo para recepcioná-la o conde de Santa Cruz, o conde de Vale de Reis, o conde de Ericeira e seu filho. Este faria um discurso em cinco línguas diferentes à nova rainha, ao qual Maria Sofia responderia individualmente sem hesitar, o que é uma prova da cuidadosa educação que apreendera em sua juventude. Como já haviam sido nomeados de antemão os oficiais da rainha, também subiriam a bordo a camareira-mor, o mordomo-mor e o estribeiro-mor antes que chegasse o rico bergantim de ouro e cetim que transportava D. Pedro II.

 

(1) Por via materna, Francisca Maria de Saboia havia sido descendente ilegítima de Henrique IV de França, o que a fazia uma aparentada do presente rei Luís XIV.

(2) Os franceses defendiam que a ausência de pagamento do dote da infanta Maria Teresa quando de seu casamento com Luís XIV, em 1660, tornara inválida a renúncia formal de seus direitos ao trono espanhol. Como ela falecera em 1683, sua pretensão passaria ao primogênito, o delfim Luís de França.

 

Isabel de França – parte I

Nascida em 22 de novembro de 1602 no castelo de Fontainebleau, Isabel de França foi a segunda criança (primogênita mulher) do casamento entre o rei Henrique IV e sua segunda esposa, Maria de Médicis. Sendo a filha legítima mais velha do monarca, ela recebeu o título honorífico de Madame Royale, sendo oficialmente desde cedo a dama mais importante da corte francesa depois da rainha. Tendo uma fértil mãe, Isabel cresceria com vários irmãos e irmãs, alguns dos quais desempenhariam importante papel na história europeia do século XVII – como seu irmão mais velho Luís, melhor conhecido como o pai do Rei Sol (1), e sua irmã caçula Henrietta, célebre por seu papel na Guerra Civil Inglesa. A jovem princesa também teria vários irmãos ilegítimos, frutos dos diversos casos extraconjugais paternos.

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A família de Isabel (c. 1607)

Em maio de 1610, quando Isabel ainda não completara oito anos de idade, Henrique IV sucumbiu a mais uma tentativa de assassinato, morrendo apenas um dia após a coroação de Maria de Médicis; em poucas horas, ela seria elevada à condição de regente do jovem rei Luís XIII, e continuaria no cargo até a maioridade do filho em 1617. Neste ano, porém, tanto o jovem monarca quanto sua irmã Isabel já estariam envolvidos em acertos nupciais com a Casa de Habsburgo. De fato, desde 1602 as Coroas de França e Espanha procuravam acertar uma aliança política-militar, a ser efetuada através de contratos nupciais, mas a frequente disputa pela hegemonia da Europa frequentemente atrapalhava tais negociações. A morte do popular rei francês, contudo, possibilitou que a Espanha fizesse sua jogada para procurar neutralizar a rival, propondo um enlace duplo: a ideia era que Luís XIII fosse casado com a infanta Ana e Isabel se unisse ao príncipe Felipe.

Embora as capitulações matrimoniais tenham sido confirmadas em agosto de 1612 e os casamentos fossem previstos para ocorrer logo no ano seguinte, as núpcias apenas seriam efetuadas realmente em outubro de 1615, após o qual as princesas foram devidamente trocadas na fronteira de Bidasoa e seguiram para seus novos reinos. Por que tal atraso ocorreu? Embora, claro, a idade dos jovens em questão com certeza tenha tido impacto no adiamento (2), não se pode subestimar o poder da oposição interna em Espanha em relação às uniões. Ao final, contudo, a razão de Estado acabou por se impor e os casamentos de presente ocorreram. Semanas depois, Isabel fez sua entrada em Madri, guiada por uma comitiva que continha o futuro conde-duque de Olivares e era liderada pelo próprio duque de Lerma, valido de Felipe III.

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A troca das princesas

O novo casal era, na verdade, composto por duas crianças, que tinham a maturidade física cuidadosamente observada à procura do melhor e mais seguro momento para a consumação, ocorrida apenas em fins de 1620, quando Isabel já se transformara numa bela mulher de expressivos olhos negros. A atração do príncipe era evidente, e rapidamente sua esposa estaria grávida, com a primeira filha de ambos nascendo já em agosto de 1621; a infanta Maria Margarida, porém, morreria com poucos dias. Nesta altura, Felipe já ascendera como rei de Espanha e Portugal com o falecimento precoce de seu pai homônimo. No início de seu governo, o novo rei estava às beiras de completar 16 anos, e em sua inexperiência governamental se apoiou fortemente no favorito Olivares, que se tornou também seu valido. Olivares, que aprendera bem as lições das disputas entre seu antecessor e Margarida de Áustria, restringiu o papel da rainha Isabel ao que ele acreditava ser o dever natural das rainhas: parir. E isso ela faria com regularidade nas duas décadas seguintes, embora seu papel mais importante perante o rei – fornecer um herdeiro para Espanha – acabasse tragicamente não sendo cumprido.

(1) Luís XIV.

(2) Durante a maior parte de 1613, Luís XIII e Ana de Áustria tinham 11 anos, Isabel tinha 10 e Felipe 8.

Catarina de Áustria – parte VII

Depois disso, a rainha permaneceria como regente por mais dois anos, até que em fins de 1563 ocorreu sua súbita e controversa renúncia após a vitória portuguesa sobre os mouros no cerco da praça de Mazagão. Num movimento bastante incompreensível diante da possibilidade de capitalizar para si o triunfo conquistado, D. Catarina convocou os Três Estados para anunciar sua decisão em ceder o poder para o cunhado. Todos foram tomados pela surpresa, incluindo D. Henrique. Afinal, apesar dela ter sido de fato criticada por sua demora em socorrer os portugueses durante o cerco, a regente ainda contava com apoio de vários e fiéis partidários. A decisão, contudo, era definitiva, e seria mesmo D. Henrique o novo regente, apesar do nome de D. Maria, duquesa de Viseu, ter circulado entre alguns círculos. D. Catarina ainda manteria a curadoria e a tutoria.

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Isabelle Adjani interpretando Margarida de Valois no filme A Rainha Margot (1994)

A partir daí, o poder da rainha viúva se manteria basicamente em procurar continuar influente perante o jovem neto e ajudá-lo em negociações matrimoniais. Principalmente no segundo caso, ela foi com frequência desafiada por D. Henrique. Durante a regência do último, encerrada em 1568, negociações com a França haviam começado para casar o rei português com a princesa Margarida, que era apenas um ano mais velha do que ele. Com o avanço do movimento protestante em França, porém, D. Sebastião mostrava-se reticente; a reputação dissoluta de Margarida também não auxiliou. No final, as conversas permaneceram indefinidas, e, como meio de tentar conter os confrontos religiosos franceses, ela foi casada com Henrique de Navarra em 1572.

Neste contexto de naufrágio do projeto matrimonial francês, D. Catarina insistiria ainda mais na ideia de união entre D. Sebastião e a primogênita de Felipe II de Espanha, a infanta Isabel. Estas núpcias também eram, aliás, muitíssimo do agrado de D. Sebastião. Interpretando hoje a proposta sem levar em conta alguns eventos que não poderiam de fato ser previstos na época, o casamento não era realmente uma má ideia. Embora um casamento francês pudesse colaborar para tornar Portugal mais independente do ponto de vista político, manter o padrão matrimonial com Espanha talvez fosse, além de mais prático, conveniente; até aquele momento, afinal, a infanta Isabel era a herdeira da Coroa espanhola. Mesmo se o rei Felipe conseguisse produzir um herdeiro homem em seu quarto casamento, contudo, a menina ainda seria a filha mais velha do prestigioso monarca e sobrinha do Sacro Imperador Romano Maximiliano II. Em muitos sentidos, se tratavam de núpcias bastante vantajosas para os padrões do século XVI, embora a prospectiva noiva ainda fosse apenas uma criança.

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A infanta Isabel aos 13 anos de idade

De qualquer forma, mesmo se a misteriosa doença de D. Sebastião não fosse já um fator de complicação para negociações matrimoniais, as intenções do próprio rei se dirigiam cada vez mais para a guerra contra os infiéis em África. Até mesmo o pedido da mão da infanta Isabel a Felipe II inscreve-se no sentido de obtenção de ajuda militar para a guerra santa. Catarina se opunha ao projeto do neto de liderar pessoalmente esta empresa militar, mas D. Sebastião não dava ouvidos aos conselhos da avó, de quem se afastava cada vez mais. E foi aflita, cada vez mais doente e com dores. que ela recebeu a confirmação da intenção de seu neto de ir guerrear em África em 5 de fevereiro de 1578.

Em 10 de fevereiro, a rainha viúva passou várias horas em estado comatoso e recebeu a extrema unção. Sabendo do estado da avó, o rei foi ao paço dela, e lá já se encontrava quando D. Catarina recobrou a consciência. Reconhecendo-o, ela lhe deu sua benção. Antes de perder a fala, a rainha viúva teria mais uma vez implorado ao neto que não fosse à guerra. A morte, contudo, só viria no dia 12. Sem pompa, ela seria enterrada junto ao marido no mosteiro de Jerônimos. Depois de manter-se recluso por alguns dias em luto rigoroso, D. Sebastião voltou aos preparativos de sua empresa militar, que ocorreria finalmente alguns meses mais tarde. Com sua morte pouco menos de um mês depois de completar 71 anos de idade, Catarina de Áustria não viu a tão planejada união de todas as Coroas ibéricas por sua família, mas também foi poupada de testemunhar a extinção de sua linha e da Casa de Avis poucos meses depois.

Para saber mais:

Sobre a Revolta das Comunidades de Castela: http://www.tordesillas.net/webs/inicio.php?lang=por&id=105&cont=1

BRAGA, Paulo Drumond. D. João III. Lisboa: Hugin, 2002.

BUESCU, Ana Isabel. Catarina de Áustria, Infanta de Tordesilhas, Rainha de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2007.

PITTA, Larissa de Andrade. D. Catarina de Habsburgo e a política de casamentos dinásticos entre Portugal e Espanha (1540-1554). Monografia (bacharelado em História) – Instituto de História, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2014.

Catarina de Áustria – parte V

O casamento da primogênita sobrevivente dos monarcas de Portugal, D. Maria, com seu primo, o príncipe Felipe, herdeiro de Espanha, já era discutido desde que ambos eram crianças de colo. Nascidos com poucos meses de diferença, a união deles era de especial desejo de suas mães, Catarina e Isabel. A morte da última em 1539, apesar de tirar algo do ânimo do projeto, ainda não o impediu; mesmo flertando com outras opções de núpcias para o herdeiro, Carlos V ainda cobiçava mais o amplo dote que viria com D. Maria. Neste contexto, as negociações avançariam enquanto os jovens amadureciam. Em Portugal, contudo, a oposição a este projeto se avolumava. Entre as importantes figuras da corte que se mostravam contrárias, incluíam-se o conde de Vimioso e o marquês de Vila Real. Como alternativa, eles sugeriam o casamento da infanta com seu tio ainda solteiro, D. Luís, como forma de preservar a Casa de Avis no trono caso o pior ocorresse com a morte do doente príncipe D. João. O casal real, contudo, opôs-se, principalmente D. Catarina. Embora a historiografia tradicional costume ver tal insistência no casamento espanhol como prova que a rainha já planejava entregar o trono de Portugal à Casa de Habsburgo, não é de fato difícil compreender a vontade de uma mãe, criada em penúria e exílio, de possibilitar o melhor para sua filha. E, na mentalidade do período, isso significava conseguir para ela a melhor união possível.

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A princesa Maria pouco após o nascimento de seu filho, conforme representado na série Carlos, Rey Emperador

O contrato de casamento entre o príncipe e a infanta acabou sendo assinado em 1 de dezembro de 1542, e incluiu a previsão de outro matrimônio mais a frente entre o príncipe D. João e a irmã de Felipe, Joana. Depois de serem obtidas as devidas dispensas papais, o casamento por procuração ocorreu em maio de 1543, embora a agora princesa de Astúrias só tenha partido rumo ao seu novo lar em 10 de outubro. Apesar de ser descrita como bela em correspondências oficiais, D. Maria possuía o famoso maxilar da Casa de Habsburgo, o que junto com sua corpulência herdada do pai tornava sua aparência pouco graciosa para os padrões atuais. De qualquer forma, o príncipe Felipe mostrou-se ansioso para conhecer a esposa, disfarçando-se entre os nobres que acompanharam a infanta em sua entrada na cidade de Salamanca, onde se efetuou a segunda cerimônia de matrimônio em 13 de novembro. Pouco tempo após a consumação física da união, porém, ele pareceu perder a animação inicial em relação à D. Maria e iniciou seu longo caso com Isabel de Osório, uma beleza loira que servia como dama de companhia de sua irmã. Apesar disso, ele ainda seria capaz de engravidar a esposa, para a satisfação da rainha D. Catarina, tão ansiosa com o tema que fazia questão de saber a frequência das visitas conjugais de Felipe. Em 8 de julho de 1545, nasceu o bebê, batizado em homenagem ao avô paterno. O parto, contudo, fora difícil e demorado, e a princesa acabou morrendo alguns dias depois do nascimento do príncipe Carlos após sofrer uma série de hemorragias. O choque deste acontecimento pareceu ter atingido especialmente o rei português, que a partir daí passou a delegar cada vez mais responsabilidades à esposa, até o ponto que era D. Catarina a virtual governante do reino.

Seu último filho vivo era o frágil príncipe D. João. Constantemente febril, ele demorara tanto a falar que se pensara por algum tempo que era surdo-mudo. Ao se desenvolver, porém, o príncipe demonstrou ser altamente inteligente, apesar de ter um temperamento difícil, em grande parte decorrente dos cuidados sufocantes a que era submetido. Apenas um ano antes de seu casamento com Joana de Áustria, por exemplo, ele ainda dormia junto à mãe nos aposentos dela, apesar de tradicionalmente já ter direito aos seus próprios aposentos. Mesmo com todas as preocupações com a saúde do príncipe, contudo, as questões sucessórias de Portugal não permitiriam que nova união com Espanha fosse adiada, e ela ocorreu em 11 de janeiro de 1552, apesar da infanta Joana só se reunir ao marido em dezembro – provavelmente por estratégia paterna, que, aliás, usara de novo os bens de sua reclusa mãe para pagar o dote de uma Habsburgo. Depois do encontro, porém, a paixão tomou conta do jovem príncipe D. João, que exercia seus direitos conjugais em toda oportunidade. Não demorou para a princesa engravidar, e para a alegria do reino a gestação transcorreu normalmente mesmo após o príncipe ficar bastante doente em outubro de 1553. Separada do marido por intervenção da rainha D. Catarina, Joana não testemunhou ou mesmo soube – oficialmente, ao menos – do colapso de D. João em seus aposentos em 2 de janeiro de 1554, seguida por sua morte no mesmo dia.

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Joana de Áustria

Apesar do sofrimento inimaginável ao ver partir o último de seus filhos, o casal real de tudo fez para que a nora não soubesse do falecimento. Ao visitá-la, retiravam as vestes de luto e proibiam a todos que as usassem enquanto serviam Joana, embora a princesa chorasse em privado. No dia 19 de janeiro, começaram as dores do parto, que foi acompanhado de perto por D. Catarina. Do lado oposto ao marido nos aposentos de Joana, ela pegava na mão da princesa e confortava-a entre contrações, até que na manhã do dia 20 de janeiro nasceu um menino saudável, para imenso júbilo da corte e da multidão reunida do lado de fora do paço da Ribeira. Em agradecimento à dádiva, a criança recebeu o nome do santo do dia: Sebastião. Três anos depois, quando D. João III faleceu, seria a rainha D. Catarina a regente deste pequeno menino que herdava o trono português.

Catarina de Áustria – parte IV

Após ser conduzida pelo duque de Medina Sidônia e pelo bispo de Siguenza, entre outros nobres da aristocracia castelhana, Catarina foi recebida na vila portuguesa de Elvas pelos infantes D. Luís e D. Fernando, seus cunhados, além do duque de Bragança. Encontrando-se com a nova rainha em meados de fevereiro de 1525, os três beijaram de imediato a mão dela em sinal de respeito, conforme ordenara o irmão em suas instruções detalhadas. Mas quem eles e os populares que saudavam com alegria a consorte viram exatamente sobre o cavalo? A imagem mais famosa de Catarina, onde ela aparece já depois de anos de trágicas experiências, não nos devem enganar para as possibilidades – na juventude, a rainha provavelmente era bela. De cabelos claros e graciosa, era dito inclusive que ela se parecia com o falecido pai Felipe, duque de Borgonha, cognominado O Belo. Considerando-se que sua mãe Joana fora a mais bonita das filhas da Isabel I de Castela, é pelo menos aceitável presumir que a beleza de Catarina pudesse rivalizar com a de sua irmã mais velha Leonor; por outro lado, o silêncio dos cronistas do período sobre a aparência da irmã caçula do imperador pode indicar que, em realidade, ela não se destacava neste quesito.

De qualquer forma, o primeiro encontro oficial do casal – já que não é improvável que o rei tivesse se disfarçado entre os demais nobres para testemunhar a entrega da esposa em Elvas, como faria seu sobrinho Felipe anos depois – pareceu já peculiarmente íntimo, com ambos se abraçando antes de D. João III conduzir Catarina pela mão até o estrado. Nada indica, contudo, uma atração física imediata, como aconteceria logo no ano seguinte no primeiro encontro entre Carlos V e D. Isabel. No dia seguinte, uma segunda cerimônia de casamento entre ambos ocorreu na igreja de São Francisco, mas outro dia se passaria antes que, nas palavras do cronista Gaspar Correia, o rei “houve dela a primeira noite”.

Com a consumação do matrimônio, Catarina de Áustria assumia sua mais importante função como rainha: gerar e parir crianças, preferencialmente meninos, que pudessem no futuro continuar a dinastia de Avis. Como filha da fértil rainha Joana e sobrinha da impressionante Maria de Aragão, as possibilidades de Catarina pareciam realmente ótimas numa época em que se acreditava que a mulher era a principal responsável pelo sucesso, ou fracasso, das gestações. Em pouco tempo, a promessa de fertilidade foi cumprida. A rainha daria à luz seu primeiro filho, o príncipe D. Afonso, em 24 de fevereiro de 1526, pouco mais de um ano após o casamento; o bebê, contudo, era pouco saudável, e morreria em junho. Apesar de toda a tristeza, isso não era realmente nada incomum numa era de alta mortalidade infantil; o importante era que a mulher fosse fértil. Logo no ano seguinte, Catarina provou mais uma vez que o era ao ficar grávida novamente.

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A infanta D. Maria na série Carlos, Rey Emperador, interpretada por Itxaso Arana

De acordo com o espírito do início da época moderna em Portugal, esperava-se um novo menino para o casal real, mas quem nasceu em 15 de outubro de 1527 foi uma saudável menina, D. Maria. De qualquer maneira, ocorreriam grandes festas comemorando o evento, embora um varão possivelmente já fosse aguardado com alguma ansiedade. Em 29 de abril de 1529, a rainha teve outra menina, D. Isabel. Ela, contudo, não partilhava da mesma boa saúde de sua irmã mais velha, falecendo em 23 de julho pelo mesmo “postema da cabeça que lhe veo a furo” que vitimara seu irmão. Em 31 de março ou 7 de abril do ano seguinte, viria prematuramente à luz mais uma menina, D. Beatriz. Também de pouca saúde, ela faleceria no primeiro dia de agosto de 1531, vítima de repetidas convulsões. Poucos meses depois, em 1 de novembro, depois de um parto difícil, nasceria o tão esperado menino. A chegada de D. Manuel foi amplamente comemorada, inclusive por seu poderoso tio materno, que deu uma grande festa em Bruxelas em honra ao novo príncipe. Em 25 de maio de 1533, nasceria outro menino, o infante D. Felipe, seguido em 16 de abril de 1535 por mais um varão, D. Dinis. A sucessão portuguesa pareceu assegurada por felizes meses.

Em 1537, contudo, a tragédia novamente atacaria D. João III e D. Catarina: logo em 1 de janeiro, morreria D. Dinis, e em 14 de abril, faleceria o herdeiro do trono D. Manuel, ambos provavelmente vitimados por convulsões, assim como a falecida infanta D. Beatriz. Os monarcas ainda tinham, porém, D. Felipe e D. Maria, e a rainha estava grávida de mais uma criança; vindo à luz em 3 de junho, o menino foi chamado de João. Em 1539, pouco depois de ter nascido o infante D. Antônio em 9 de março, morreria D. Felipe. E, em 20 de janeiro de 1540, falecia o próprio D. Antônio. Das 9 crianças que tivera, Catarina agora só tinha 2 vivas junto a si.

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O príncipe D. João

Apesar do profundo impacto e tristeza inimaginável pela perda de tantas crianças, a rainha ainda tinha funções reprodutivas a cumprir para os padrões da aristocracia europeia; afinal, com apenas 33 anos, Catarina ainda poderia gerar mais alguns infantes e, assim, garantir que Portugal teria um herdeiro mesmo se o frágil príncipe D. João viesse a falecer, como tantos esperavam. Mas não haveria mais crianças do casamento entre D. João III e Catarina de Áustria. Em uma recente biografia da rainha, é especulado que ela pode ter tido uma obstrução tubária após o nascimento do último filho, motivo pelo qual seus esforços para engravidar novamente não tiveram sucesso. No início da década de 1540, ficou claro que a sucessão de Portugal equilibrava-se entre um príncipe frágil e uma robusta infanta. Neste contexto, o futuro matrimônio de D. Maria passou a ser um assunto de grande interesse.

Maria de Aragão – parte I

Terceira filha (quarta criança) nascida do matrimônio entre Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, a infanta Maria veio ao mundo em 29 de junho de 1482. Este parto da rainha, contudo, provou-se bastante problemático num tempo onde ainda não eram habituais medidas hoje comuns de higienação na vida cotidiana, quanto mais numa situação delicada como um nascimento gemelar. Como consequência, o irmão ou irmã de Maria faleceu pouco após o parto, e a mãe das crianças ficou com a saúde abalada, inclusive chegando, segundo a série Isabel, a receber a extrema unção. Ultimamente, ela sobreviveria, mas quatro anos separariam Maria daquela que seria sua última irmã, a infanta Catarina.

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Isabel I de Castela

Interessantemente, os primeiros planos de matrimônio de Maria envolveriam também sua irmã mais nova. Enquanto ambas recebiam, assim como suas duas irmãs mais velhas, as infantas Isabel e Joana, a excelente educação doméstica e intelectual fornecida por seus tutores, escolhidos a dedo pela rainha, Isabel e Fernando já faziam planos para utilizar Maria e Catarina para influenciar as políticas de dois reinos do Norte; enquanto a caçula seguiria com seu planejado casamento com o herdeiro da Inglaterra, o príncipe Artur, a intenção dos Reis Católicos era unir Maria ao rei dos escoceses, James, ainda solteiro mesmo após anos de compromisso com a princesa inglesa Cecily. Mesmo que James fosse pouco menos de dez anos mais velho do que Maria, o planejamento dos monarcas provavelmente ainda tinha um ar bastante agradável para as irmãs, que poderiam estar perto uma da outra enquanto mantinham a paz entre os turbulentos vizinhos, e quem sabe até mesmo visitar uma a outra com frequência.

Infelizmente, este plano matrimonial um tanto humano para o século XVI acabou não se cumprindo. Enquanto as outras irmãs se casavam sucessivamente com o herdeiro de Portugal e o duque de Borgonha, Maria era mantida sem compromissos nupciais sérios enquanto a viagem de Catarina para a Inglaterra era planejada. As desventuras da primogênita Isabel, contudo, mudariam com rapidez o destino de Maria. Após alguns meses de feliz casamento com D. Afonso, a jovem ficaria viúva após um trágico acidente de cavalo envolvendo o marido, e retornaria para Castela, jurando que não mais se casaria. Poucos anos depois, o novo rei de Portugal, D. Manuel, enviou embaixadores ao vizinho para negociar um casamento que fortalecesse a linha sucessória portuguesa. Apesar de sua aparente frágil posição nas negociações, a possibilidade de uma nova ligação com as riquezas coloniais portuguesas mantiveram os Reis Católicos em suspense quando D. Manuel insistiu em casar-se não com a noiva oferecida por estes, a infanta Maria, mas sim com a princesa viúva de Portugal.

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Uma jovem infanta Maria

De início, os monarcas hesitaram, ainda procurando respeitar os desejos da filha de levar uma vida casta e religiosa, mas o rei português manteve-se firme em sua decisão. Se tal insistência decorreu da posição sucessória de Isabel em Castela e Aragão, de sua maturidade física comparada à irmã mais nova ou mesmo de certa admiração pessoal do novo monarca iniciada quando ambos se conheceram em Portugal, ainda em 1490, é algo impossível de saber-se com certeza, mas o fato é que os Reis Católicos acabaram cedendo. A princesa viúva também aceitou a proposta após um compromisso de D. Manuel no sentido de prosseguir a política espanhola de expulsão de todos os judeus, e em 1497 ambos se uniriam, poucos dias antes da morte do único irmão de Isabel, o príncipe João.  A morte da filha póstuma deste no parto poucos meses depois significou que a grávida Isabel era agora a herdeira novamente, e D. Manuel o futuro rei de Aragão, Castela e Portugal.

Novamente, entretanto, o aparente não se cumpriria: a própria Isabel faleceria no parto em agosto de 1498, na cidade aragonesa de Zaragoza, onde ela e o marido haviam sido convocados para serem jurados como os herdeiros de Aragão. Agora, o máximo que D. Manuel poderia ambicionar em relação ao vizinho era uma possível regência em nome do filho D. Miguel, também frustrada quando da morte prematura deste em 1500. Antes mesmo disto, porém, os Reis Católicos já negociavam uma nova forma de manter firmes os laços com o rico Portugal. A nova herdeira de Espanha era a instável infanta Joana, casada com o ambicioso duque de Borgonha, de modo que a única filha disponível era a já madura Maria.

Isabel de Aragão, a filha dos Reis Católicos – parte III

Em julho de 1491, a situação dinástica da Casa de Avis não poderia parecer melhor: bem fixado no trono português, D. João II não apenas possuía a alta nobreza sobre controle como também seu único filho com a rainha D. Leonor acabara de se casar com a primogênita dos Reis Católicos numa bem-engendrada ação diplomática. Além do mais, o jovem casal estava satisfeito com a companhia um do outro, com o apaixonado D. Afonso visitando constantemente Isabel em seus aposentos. As chances de concepção para um herdeiro ao trono de Portugal eram, portanto, elevadas. No dia fatídico, o monarca encontraria o filho exatamente nos aposentos de sua nora, onde ele estivera descansando após a caçada da véspera. O príncipe acabaria acompanhando o pai em uma cavalgada até o rio Tejo, onde desafiaria o fidalgo D. João de Meneses para uma competição. No meio do percurso, porém, o cavalo de D. Afonso tropeçou e o herdeiro caiu sob ele, permanecendo inconsciente mesmo após ter sido resgatado.

Temendo uma represália, D. João de Meneses fugiu de imediato da cena, enquanto o príncipe era levado para ser socorrido na casa de um pescador local, onde seria em breve reunido com a mãe e a esposa. Apesar de elas dizerem sobre ele “tantas lastimas, e palauras de tanta dor, e tristeza”, D. João II ordenar a vinda de médicos, procissões e missas serem prometidas e um nobre até se comprometer à ir caminhando até Jerusalém,  D. Afonso logo receberia a extrema-unção. Pouco depois, o duque de Beja chegaria para manifestar sua dor perante o rei. Agora, D. Manuel, irmão mais novo do executado duque de Viseu, era o próximo Avis legítimo na linha sucessória ao trono.

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O segundo casamento de Isabel com D. Manuel I, conforme representado na série Isabel (2011-14)

Presumivelmente em estado de choque, Isabel cortaria seus longos e belos cabelos em honra ao falecido marido antes de manifestar seu desejo de retornar para junto dos pais em Castela, como era seu direito de acordo com o contrato nupcial. Logo de início, ela anunciou que não mais se casaria, passando a ter uma rotina marcantemente religiosa e corporalmente punitiva. O fato que seus pais procuraram respeitar esta vontade está registrado nas negociações nupciais posteriores com D. Manuel após a sucessão deste ao trono, em outubro de 1495; em princípio, os Reis Católicos apenas ofereciam a infanta D. Maria, terceira filha do casal, para as núpcias reais. Os embaixadores portugueses, contudo, deixaram claro que a única proposta que D. Manoel aceitaria estava na princesa viúva Isabel. Se isso decorreu da posição sucessória dela, de sua maturidade física comparada à irmã ou mesmo de uma certa admiração pessoal do novo rei iniciada quando ambos se conheceram, ainda em 1490, é algo impossível de saber-se ao certo.

Eventualmente, D. Manuel atingiria seu objetivo e conseguiria um compromisso dos monarcas no sentido de desposar Isabel, apesar dela permanecer firme em sua resolução de apenas pisar novamente em solo português depois de todos os judeus terem sido de lá expulsos, de acordo com a política religiosa de seus pais. Mesmo com toda a arrecadação que estas comunidades forneciam ao reino, D. Manuel concordaria, o que poderia servir como testemunho da ansiedade dele em casar-se com Isabel.

A roda da fortuna, entrementes, ainda girava; poucos dias após o casamento de Isabel, João, o único irmão da rainha portuguesa, recém-casado com Margarida de Áustria, faleceu. A esposa permaneceu grávida, eventualmente dando à luz uma menina que também morreu pouco depois do parto. Com essa sequência de trágicos eventos, D. Isabel acabou tornando-se novamente a herdeira do trono de Castela, como já o fora antes do nascimento do irmão. A possibilidade de união peninsular ficaria ainda mais definitiva se Isabel, que acabara de se descobrir grávida de D. Manuel após poucos meses de matrimônio, pudesse dar à luz um menino: no caso, o infante também poderia legitimamente herdar Aragão, reino ainda regido pela antiga lei sálica, que, em princípio, era hesitante em admitir possíveis herdeiras na sucessão.

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D. Miguel, príncipe de Portugal, Castela e Aragão, herdeiro das Coroas ibéricas durante sua curta vida. Na série Isabel, assim como na vida real, ele permaneceu sob a guarda de seus avôs maternos, os Reis Católicos, desde a morte de sua mãe

No mesmo ano, como forma de conter as crescentes ambições do duque de Borgonha, marido da infanta Joana, ao trono castelhano, D. Isabel e D. Manuel foram convocados pelas Cortes castelhanas e aragonesas a prestar juramento como herdeiros. A gravidez avançada da rainha era vista com animação pelos nobres e por Fernando, rei de Aragão, que esperava poder legar seu reino a um herdeiro direto homem. De fato, em 23 de agosto de 1498, na cidade aragonesa de Zaragoza, nasceu um saudável menino, D. Miguel. Contudo, enfraquecida com o parto e os constantes jejuns religiosos, feitos desde o falecimento de D. Afonso, Isabel morreu pouco depois nos braços de D. Manuel I. Tinha apenas 27 anos de idade. Viúvo e só contando com um herdeiro homem, o rei de Portugal se casaria novamente anos depois com a noiva antes rejeitada, a infanta Maria, que teria o eventual sucessor ao trono, D. João III.

Para saber mais:

http://obaudahistoria.blogspot.com.br/2013/02/o-tratado-das-tercarias-de-moura.html

BRAGA, Paulo Drumond. O Príncipe D. Afonso, filho de D. João II – uma vida entre a guerra e a paz. Lisboa: Edições Colibri, 2008.

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 – Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

Isabel de Aragão, a filha dos Reis Católicos – parte II

Isabel ficaria em Moura por três anos. A partir da morte de D. Afonso V, o novo rei D. João II começou as negociações para desfazer as penosas terçarias, que impediam inclusive que os reis visitassem os herdeiros postos em virtual reclusão. Os Reis Católicos, contudo, não estavam politicamente interessados neste fim, uma vez que uma possível libertação da Beltraneja poderia colocar em xeque o recém-instaurado equilíbrio peninsular; neste sentido, as propostas de casamento que Joana continuava a receber, mesmo num convento, apenas contribuíam para deixar a situação mais tensa. A possibilidade da troca de noiva do príncipe D. Afonso – de Isabel para a segunda filha dos monarcas, também chamada Joana – agiria assim como um peso político compensatório, embora provavelmente a situação hostil que ia se abrindo em Portugal com as disputas entre a Casa real e os Bragança também tenha contribuído para tal tentativa.

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D. João II de Portugal

Em maio de 1483, a primogênita dos Reis Católicos foi finalmente devolvida aos embaixadores castelhanos, saindo de Portugal pouco depois. Fora decidido por fim que, se a infanta Isabel ainda se encontrasse solteira quando o herdeiro português completasse 14 anos, as núpcias originalmente combinadas entre ambos ocorreriam, ficando anuladas as negociações em relação à infanta Joana; como Isabel era quase cinco anos mais velha que D. Afonso, tal situação não parecia provável. Apesar disso, embora seus pais tivessem examinado muitas propostas nupciais para ela durante suas campanhas contra os muçulmanos do sul – Carlos VIII de França, Maximiliano de Áustria, Henrique VII de Inglaterra, entre outros – nenhuma das uniões acabou confirmada e, em 1488, D. João II pediu a mão de Isabel em nome do príncipe. Sobrecarregados pela guerra com Granada, os Reis Católicos não tiveram escolha a não ser conceder o pedido.

Em novembro de 1489, a nobreza portuguesa instalou-se na cidade de Évora como parte dos preparativos para o matrimônio, planejado para ocorrer já no ano seguinte. Depois de uma promessa secreta de D. João II no sentido que não permitiria que a Beltraneja deixasse o  convento onde se localizava, os Reis Católicos nomearam os procuradores para o casamento por procuração, ocorrido em 18 de abril. Seria apenas no novembro seguinte, entretanto, que Isabel reentrou em Portugal para a cerimônia presencial. Na fronteira, ela foi recebida pelos bispos de Évora e de Coimbra, os condes de Monsanto e Cantanhede e o primo de seu jovem marido, o duque de Beja.

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A infanta interpretada pela atriz  María Cantuel na série Isabel (2011-14)

No fim do mês, deu-se a entrada solene da nova princesa de Portugal em Évora, onde foi recebida com grandiosas festas que se prolongariam por semanas – de fato, os empréstimos do evento ainda estavam sendo pagos durante o início do reinado seguinte. Apesar de ser cinco anos mais jovem que a esposa, D. Afonso apressou-se a consumar as núpcias, procedimento que escandalizou alguns na religiosa corte dos Avis. A paixão do herdeiro continuava inalterada meses depois, em julho, quando o casal deslocou-se, juntamente com D. João II e D. Leonor, até Almeirim, onde acabaria por se desenrolar a maior tragédia de Isabel.

Isabel de Aragão, a filha dos Reis Católicos – parte I

Nascida em 02 de outubro de 1470, Isabel de Aragão era a filha primogênita da infanta Isabel, meia-irmã do rei Henrique IV de Castela, e do príncipe Fernando, herdeiro do reino vizinho como filho de João II de Aragão. O próprio casamento de seus pais já ocorrera cercado de polêmica: sua mãe, líder de uma facção contrária aos direitos sucessórios da pretensa princesa Joana, tivera que fugir secretamente da corte para se encontrar com o prometido, que viajara disfarçado como servo até Valladolid, e assim evitar que Henrique IV a forçasse a algum compromisso matrimonial. Sendo primos de segundo grau, ambos necessitariam de uma dispensa papal para se unirem legalmente, mas a suposta bula que foi apresentada era assinada pelo papa Pio II, falecido cinco anos antes do casamento deles, muito embora o papa da época fosse Sisto VI.

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Isabel I de Castela

Embora a consumação física imediata do contrato nupcial entre seus pais anulasse maiores perigos da pequena infanta ser considerada ilegítima, o fato é que o nascimento de Isabel aprofundou as tensões entre sua mãe e seu tio, que ainda procurava restabelecer sua dita filha como herdeira do trono castelhano. Quando, em 1474, Henrique IV faleceu, a guerra civil estourou. Apoiando a sobrinha e noiva, D. Afonso V de Portugal invadiu Castela em maio de 1475 e, com Joana, proclamou-se soberano legítimo de Castela, pretensão igualmente defendida por Fernando de Aragão. A Guerra de Sucessão Castelhana, porém, permaneceria indefinida até a batalha de Toro, em 1º de maio de 1476, onde as tropas portuguesas debandaram. Provando ter uma grande visão política, Isabel aproveitou o momento para convocar as Cortes, onde sua filha e homônima foi jurada como herdeira presuntiva. A verdadeira consolidação da posição da rainha Isabel, contudo, ocorreria apenas em fins de junho de 1478, quando ela daria à luz ao príncipe João, que assumiria a partir daí a posição da irmã mais velha.

Mesmo que tenha perdido a proeminência sucessória, Isabel ainda foi uma peça importante nas negociações de paz entre Castela e Portugal. Durante a duração das chamadas Terçarias de Moura, a infanta foi criada sob os auspícios de D. Beatriz, duquesa de Viseu, servindo simbolicamente como uma garantia do bom comportamento político dos Reis Católicos, que por sua vez procuravam garantir a neutralização da Beltraneja – que, aliás, compartilharia da vigilância feita à infanta. O lado espanhol também não deixaria de estabelecer condições próprias, requisitando um dos filhos da duquesa de Viseu para ser criado em seu território. Como D. Diego, o mais velho, encontrava-se doente, seu irmão D. Manoel o substituiu como refém. O único filho do rei de Portugal, D. Afonso, também teria seu papel a desempenhar nas negociações.

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Fernando II de Aragão

Como elemento de troca diplomática muito bem estabelecido no início da era moderna europeia, os arranjos nupciais também eram parte fundamental em tratados de paz entre os reinos. Além de poder aquietar as disputas dinásticas por uma simples união familiar, um casamento também poderia literalmente unificar as pretensões opostas que motivaram a beligerância. No caso da infanta Isabel, que possuía apenas um irmão criança para herdar as possessões dos pais, um matrimônio com o herdeiro do trono português, embora não necessariamente unificasse os domínios, ainda prometia muitas vantagens diplomáticas. Esta foi uma das razões pela qual a união foi perseguida desde o início da negociação do Tratado de Alcáçovas em 1479, muito embora os Reis Católicos fizessem esforços posteriores para trocar a primogênita pela segunda filha, a infanta Joana, nascida em 1479; de fato, a própria entrega da infanta Isabel teve algumas dificuldades impostas. Eventualmente, contudo, a menina seria entregue, unindo-se ao príncipe D. Afonso na vigilância da duquesa de Viseu. Ela já tinha quase 10 anos; ele apenas completara 5.