Maria Sofia de Neuburgo – parte II

Quem o monarca viu quando foi recepcionado por sua nova consorte na câmara do navio? Vestida em rico tecido branco incrustado com diamantes, Maria Sofia era loira de pele alvíssima, correspondendo assim aos padrões de beleza da época. Não há motivos, então, para crer que o rei tenha desgostado de sua escolha marital enquanto ocorria a cerimônia formal de casamento na capela real, pouco tempo após o desembarque. e nem durante as riquíssimas festas em comemoração e a consumação rápida do casamento que se seguiu. Tímida e devota, Maria Sofia trazia consigo a promessa de produção rápida de herdeiros para a necessitada dinastia de Bragança – e de fato, os entregaria com sua disciplina característica. Em 30 de agosto de 1688, exatamente um ano após sua entrada em Lisboa, a rainha daria à luz o príncipe D. João. O novo herdeiro da Coroa portuguesa seria celebrado com festas que durariam três dias; entretanto, o príncipe era notoriamente debilitado desde seu nascimento. Sua morte, ocorrida apenas dezoito dias após o parto de Maria Sofia, foi creditada pelo conde de Povolide como tendo ocorrido devido à forma como as damas alemãs da rainha haviam cuidado dele.

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Maria Sofia de Neuburgo

Provando sua fertilidade, em breve a rainha engravidaria novamente. Tendo-se em vista a morte precoce do última criança, contudo, tomaram-se precauções extras. Quando Maria Sofia entrou em trabalho de parto, nas primeiras horas da manhã do dia 22 de outubro de 1689, o duque de Cadaval enviou pedidos de prece a todos os conventos de Portugal pelo sucesso do nascimento. Além disso, quatro médicos atenderiam Maria Sofia durante o processo, e quando nasceu um menino poucas horas depois, foi lhe dado mel para prevenir certos males. As costumeiras salvas de artilharia foram vetadas no palácio real para não perturbar o recém-nascido, mas este novo príncipe D. João parecia ser mais robusto do que o falecido irmão mais velho. Quando ele foi batizado no novembro seguinte, sua meia-irmã D. Isabel já estava retida no paço do conde de Aveiras após adoecer com varíola. Sempre com saúde frágil, ela jamais se restabeleceria desta doença, falecendo logo no ano seguinte. A inquietação do casal régio com essa nova fragilidade na linha de sucessão portuguesa, porém, seria sanada em maio de 1691, quando nasceria o infante D. Francisco, nomeado com o tradicional título de duque de Beja. À essa altura, porém, já se iniciavam as tensões maritais entre D. Pedro II e Maria Sofia. O rei recaíra em suas costumeiras infidelidades.

Em contraste com a tranquilidade, e mesmo amor mútuo, que caracterizara o casamento com Maria Francisca de Saboia, a união de D. Pedro II com Maria Sofia de Neuburgo foi consideravelmente complicada, sendo bem mais fria e distante. Parte das dificuldades pode ser atribuída à personalidade da segunda rainha, considerada difícil para os padrões do século XVII. Em contraste com Maria Francisca, que costumava fechar os olhos às infidelidades do marido, Maria Sofia tinha tantos ciúmes do rei que o questionava frequentemente a respeito, causando-lhe aberto mau humor com a consorte. Em adição a isso, D. Pedro II censurava severamente certos hábitos de Maria Sofia, que gostava de jogar e de beber vinho, além de negar muitos de seus pedidos.

Em carta escrita a seu pai, Maria Sofia queixava-se abertamente da negligência de seu marido em Portugal e de seu fracasso em estreitar as relações diplomáticas entre seu reino e Neuburgo. Ao contrário do que seria de se esperar, D. Pedro II nunca mandou uma embaixada oficial, mesmo tendo diversas ocasiões para isso, o que indignava uma rainha bem consciente da nobre genealogia da Casa Wittelsbach. Em atitude oposta à que costumava ser dada às rainhas da Europa Central, D. Pedro II também não dava a Maria Sofia qualquer participação em seus negócios políticos, parecendo enxergá-la simplesmente como um meio para gerar filhos para a dinastia de Bragança. O comportamento do monarca mortificava ainda mais a rainha uma vez que ela tudo faria para agradar D. Pedro II, que em retorno só lhe daria profundos desgostos, incluindo diversos casos extraconjugais com damas de seu próprio séquito e mulheres do povo comum.

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D. João V de Portugal

Apesar das dificuldades do relacionamento pessoal do casal, porém, os filhos seriam gerados regularmente. Em março de 1695, nasceu D. Antônio, que viria a ser o irmão predileto do futuro D. João V, seguido logo no ano seguinte pela primeira filha de Maria Sofia, D. Teresa. A rainha teria mais dois filhos, D. Manuel e D. Francisca, antes de falecer devido a uma febre em quatro de agosto de 1699, apenas dois dias antes de seu aniversário de 33 anos. sendo sepultada no majestoso monastério de São Vicente com todas as honras apropriadas. Seu marido, D. Pedro II, morreria ainda viúvo em dezembro de 1706, provavelmente de uma doença do fígado. Nenhum dos dois, portanto, viveria para ver o casamento do herdeiro D. João com sua prima materna Maria Ana de Áustria, e a ascensão política de Portugal durante este rico reinado.

 

Para saber mais:

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

SILVA, Maria Beatriz Nizza de. D. João V. Círculo de Leitores, 2012.

 

 

A rainha espanhola de França: Ana de Áustria

Nascida em 22 de setembro de 1601, Ana de Áustria (1) foi a primogênita do rei espanhol Felipe III e sua consorte Margarida, do ramo austríaco da família Habsburgo; até o nascimento de um irmão em 1605, ela seria a herdeira presuntiva dos tronos de Espanha e Portugal. Tendo uma vida familiar bastante íntima para os padrões da realeza do século XVII, ela era muito próxima à mãe, tendo herdado dela a forte religiosidade. A morte da rainha Margarida pouco depois de um parto em 1611 foi, portanto, um forte baque para a menina, que a partir daí se tornaria uma espécie de figura materna para os irmãos mais novos, além de tecnicamente a dama mais importante da corte que cercava Felipe III.

Aproximadamente na época em que o luto mais estrito começou a ser aliviado, em 1613, já haviam começado negociações mais sérias para um casamento entre a infanta e o jovem rei de França, Luís XIII, assim como uma união entre o herdeiro espanhol e Madame Royale (2), assegurando assim uma forte aliança política-militar entre ambos os reinos. Em realidade, a ideia inicial das primeiras núpcias datava quase que dos nascimentos de Ana e Luís, ocorridos com apenas cinco dias de diferença; astrólogos da época interpretaram a coincidência como um sinal de um elo já existente entre ambos. Apesar do Conselho de Estado espanhol discutir as implicações de tal matrimônio desde cedo, os enlaces só se tornaram oficiais e públicos em abril de 1612, depois que o embaixador francês pediu a mão de Ana em casamento em nome de Luís XIII, e a infanta passou a ser tratada já como rainha.

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Luís XIII de França

Um grande dote de 500.000 coroas, mais valiosas joias, foi acertado nos meses seguintes, e Ana renunciaria formalmente aos seus direitos sucessórios à Coroa de Espanha, embora segundo o contrato nupcial eles pudessem ser recuperados se ela enviuvasse sem ter tido filhos. Finalmente, em outubro de 1615, os casamentos foram celebrados, e no mês seguinte Ana e Isabel foram trocadas na fronteira de Bidasoa, após o qual seguiram para encontrar seus respectivos maridos. E como era a nova rainha de França? Sem ter o afamado maxilar da família tão pronunciado, ela era considerada bela em sua juventude, atraindo admiradores com sua aparência clara e loira; apesar disso, Luís XIII não ficou impressionado.

Como ambos mal haviam completado 14 anos na época das núpcias, não necessariamente a consumação física foi imediata, embora a preocupação da Coroa francesa em assegurar a validade da união – e o dote de Ana – possa ter justificado o evento na época. De qualquer maneira, a mãe do rei, Maria de Médicis, continuou a se portar como a principal dama da corte. Como Luís XIII não dedicava muita atenção à esposa, os primeiros anos dela em França foram passados principalmente entre companhias espanholas. Apenas dois anos depois, na sequência de um golpe que retirou a influência governamental da regente Maria, foi que o casal real se aproximou. Influenciada pela retirada de suas damas de companhia espanholas e substituição delas por nobres francesas, Ana passou a seguir mais a etiqueta do reino onde se casara, o que pode ter servido para melhorar seu favor perante o rei.

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Uma jovem rainha Ana

Apenas em 1622, porém, foi que ela ficou grávida pela primeira vez, numa gestação que terminou espontaneamente ainda no início. Pouco depois, outra gravidez foi interrompida após uma queda da rainha. Mais dois abortos seriam registrados nos anos seguintes, embora a possibilidade que fossem gestações histéricas motivadas por ansiedade deva ser considerada. Os repetidos fracassos teriam desagrado imensamente o rei, que inclusive teria culpado a rainha pela segunda perda.

Neste contexto, a ascendência do cardeal Richelieu como principal conselheiro de Luís XIII causaria tensões. Nascido Armand Jean du Plessis em 1585, em Paris, ele avançou politicamente durante a regência de Maria de Médicis, tornando-se em poucos anos bastante influente, principalmente depois do seu cardinalato em abril de 1622, ocorrido pouco depois da morte do antigo favorito do rei, o duque de Luynes, que fora responsável pela aproximação de Luís e Ana anos antes. Em paralelo com o processo de centralização do poder real em França, Richelieu também defendia uma atitude de oposição ao grande poder da Casa Habsburgo na Europa – o que significava uma relação potencialmente difícil com Ana de Áustria.

De fato, os anos seguintes da consorte seriam marcados pela oposição política ao primeiro-ministro do rei, num cenário em que continuava estéril. Em 1635, França declarou guerra à Espanha, e não é improvável que Luís XIII estivesse considerando pedir uma anulação de suas núpcias, principalmente depois que recaíram sobre Ana suspeitas de colaboração com o inimigo em 1637; no caso, informações secretas teriam sido passadas a Felipe IV em uma correspondência pessoal da rainha francesa. A acusação teria partido do próprio Richelieu; embora Ana fosse eventualmente perdoada, sua relação com o rei seria danificada em caráter permanente. E foi neste clima que Ana de Áustria ficou grávida mais uma vez; em 5 de setembro de 1638, nasceu o futuro Luís XIV, poucas semanas antes que a rainha completasse 37 anos de idade. Como isso aconteceu? O pai era mesmo seu marido?

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A rainha grávida

Segundo a história tradicional propagada oficialmente pelos Bourbon, a concepção do herdeiro ocorrera depois que uma tempestade impedira Luís XIII de viajar, obrigando-o a dormir com sua esposa no Palácio do Louvre; nove meses depois, Ana de Áustria deu à luz um menino saudável, devidamente cognominado de “Dieudonne” (3). Contudo, provavelmente o milagre não deve ter ocorrido bem assim. Embora o histórico gestacional complicado da rainha, junto com a sua idade mais avançada, torne o evento improvável para o período, o fato é que um médico que acompanhava a saúde real de forma meticulosa anotara alguns anos antes que Ana e o rei costumavam ter relações sexuais ao menos duas vezes por semana.

Em agosto de 1637, um dos motivos pelos quais Luís foi convencido a perdoar Ana foi a crença nele incutida por Richelieu que as conspirações contra seu governo – lideradas algumas vezes por Gastão, duque de Orléans e irmão mais novo do monarca – apenas acabariam com o nascimento de um príncipe. Neste sentido, fosse o rei bissexual, homossexual ou apenas desinteressado por Ana, isto não importava no panorama dinástico do momento, que exigia que Luís XIII voltasse à sua rotina matrimonial de antes. Assim, o comparecimento frequente do rei à cama de Ana de Áustria torna desnecessária, além de perigosa, a utilização de outros homens para fecundar a rainha. De qualquer maneira, os candidatos mais célebres para o cargo, como por exemplo o futuro favorito Mazarin, sequer se encontravam em França quando a gravidez da consorte começou, e o jovem Luís compartilharia uma semelhança física em demasia com o irmão mais novo Felipe para que ambos fossem apenas meios-irmãos.

Seguindo o modelo familiar de sua infância em Espanha, a rainha Ana criou os filhos com proximidade pouco usual para o período. Poucos meses antes do quinto aniversário do primogênito, a frágil saúde de Luís XIII cedeu e ele faleceu, deixando como seus desejos finais a constituição de uma regência sem a presença de sua esposa. Ana, porém, tendo o Parlamento ao seu lado, descartou este pedido do testamento e tornou-se regente solo de Luís XIV, sendo oficialmente auxiliada pelo cardeal Mazarin. Nascido Giulio Raimondo em 1602, ele era um nobre italiano com longo histórico de serviços ao rei francês que se tornou pupilo de Richelieu, sucedendo-o como principal ministro após a morte deste em 1642. Caindo nas graças da rainha Ana, ele se tornaria o governante de fato do reino após a morte de Luís XIII, e em pouco tempo se mudaria para aposentos próximos ao da regente no Palais Royal. Em pouco tempo, começariam a circular rumores que ambos eram amantes, e até mesmo marido e mulher devido a uma união secreta.

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Cardeal Mazarin

O favor que Mazarin desfrutava perante a rainha, contudo, não era partilhado por grande parte dos nobres franceses, ou mesmo pela população em geral quando o cardeal começou a cobrar multas de quem construísse residências fora dos muros de Paris, em 1644. Quatro anos depois, para continuar pagando as despesas da longa guerra contra os Habsburgo espanhóis, Mazarin tentaria cobrar novos impostos, assim como limitar o poder dos deputados pela criação de novos departamentos de Estado. Quando o Parlamento se opôs a isso e apresentou uma série de propostas de reformas, Mazarin e a rainha ordenaram a prisão de seus líderes. E foi quando a população de Paris se revoltou, erguendo barricadas nas ruas e forçando a fuga de Ana e seu filho Luís da cidade.

Com tréguas, brutalidades e fugas de seus principais personagens, incluindo Mazarin, a guerra civil francesa conhecida como Fronda apenas terminaria quando Luís XIV alcançou a maioridade em 1652 e retornou à Paris, tendo sua mãe como grande influência em seu conselho real; em pouco tempo, ele também chamaria Mazarin de volta do exílio forçado. Apesar de toda a resistência, a autoridade real não apenas retornara intacta como, nos próximos anos, seria incrementada. Em 1660, um ano depois da paz com Espanha, o jovem rei se casaria com sua prima Maria Teresa, única filha sobrevivente do casamento do irmão de Ana de Áustria, Felipe IV, com a princesa francesa Isabel, numa celebrada união que no fim do século daria origem à Guerra de Sucessão Espanhola.

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A atriz June Temple como Ana de Áustria em Os Três Mosqueteiros (2011)

No mesmo ano do nascimento do primeiro filho do casal real, Mazarin faleceria. Pouco depois, Ana se afastaria da política e se refugiaria no convento de Val-de-Grâce, onde os primeiros sintomas do câncer se manifestariam dois anos depois. Ana de Áustria, a rainha espanhola de França, morreria em 20 de janeiro de 1666, ainda com sua fama controversa; em menos de dois séculos, Alexandre Dumas se serviria dela para tornar a consorte um personagem imortal da literatura no clássico Os Três Mosqueteiros.

(1) Embora tecnicamente uma infanta de Espanha, tendo nascido em Valladolid, Ana é conhecida até hoje como “de Áustria” devido à origem de sua Casa.

(2) Título honorífico pelo qual era conhecida a filha mais velha do rei francês. No caso, tratava-se de Isabel, a primogênita mulher legítima de Henrique IV.

(3) Literalmente, “dado por Deus”, mas muitas vezes traduzido como ”presente de Deus”.

Para saber mais:

http://www.biography.com/people/anne-of-austria-9185816

http://bjws.blogspot.com.br/2015/10/biography-queen-anne-of-austria-spain.html

http://www.sandragulland.com/the-conception-of-louis-xiv/

http://www.sandragulland.com/who-was-louis-xivs-father-the-question-that-never-goes-away/

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2006.

 

A rainha do Piedoso: Margarida de Áustria – parte II

Depois de obter o consentimento da religiosa Margarida, que estaria mais interessada numa vida conventual, o contrato nupcial foi assinado em setembro de 1598, com um dote sendo combinado em 100.000 escudos, além de mais 50.000 escudos em joias, fornecidas pelo próprio rei. Poucas semanas depois, a noiva pôs-se a caminho de Espanha, já estudando a língua com a qual se comunicaria com o futuro marido (1). Enquanto sua comitiva passava pela cidade de Vilach, soube-se do falecimento de Felipe II; a partir desse momento, Margarida era tecnicamente a rainha de Espanha, e alguns serviçais passaram a dirigir-se a ela com tal título. Ela, contudo, manifestou a intenção de apenas passar a utilizá-lo depois de seu casamento oficial com o agora Felipe III. Apenas em 11 de abril do ano seguinte, contudo, ambos teriam o primeiro encontro em Valência. De acordo com o cronista Cabrera de Córdoba, antes mesmo o rei vira Margarida secretamente entre outros elementos de sua comitiva e mostrara-se contente por ter uma prometida bela e graciosa. Margarida, por sua vez, escreveria ao irmão Fernando que gostara do alourado rei depois de superar sua vergonha inicial.

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Felipe III de Espanha/II de Portugal

O matrimônio ocorreria por fim no dia 18, numa luxuosa cerimônia onde a rainha trajava um vestido de ouro, prata e pedras preciosas. As festas se seguiriam por uma semana, com direito a um torneio que custaria 30.000 ducados. Somente em maio o casal real partiria da cidade, iniciando um périplo por Espanha que só terminaria dez meses depois. Nesta altura, um laço afetivo significativo já surgira entre Felipe e Margarida; com exceção de uma filha ilegítima atribuída ao rei pelo núncio Camilo Caetano, não há traços reais de infidelidade por parte do monarca – o que refletia, aliás, a tendência de seu pai na maturidade (2). Apesar disso, seria apenas em finais de 1600 que a tão esperada gravidez da rainha ocorreria, percebida quando a consorte começou a passar mal durante a mudança da corte espanhola para Valladolid. Apesar de toda a insistência do valido (3) Francisco Gómez de Sandoval y Rojas, o duque de Lerma, Margarida não aceitou se mudar para o palácio de Mendoza-Cobos para dar à luz, preferindo fazê-lo na residência do conde de Benavente, apesar desta ser teoricamente menos confortável. Talvez a disputa crescente de Margarida com Lerma pela influência perante o rei tenha tido mais influência nesta questão do que o precedente da morte da princesa Maria de Portugal de parto no palácio indicado; afinal, o duque já tentara mudar o confessor austríaco da rainha por um jesuíta castelhano, e, além disso, era suspeito de verificar a correspondência da consorte.

De qualquer maneira, quando Margarida deu à luz no dia 22 de setembro, o rei estava ao seu lado, apoiando-a durante o trabalho de parto; era uma saudável menina, batizada em outubro com o nome de Ana Maurícia (4). Seria o duque de Lerma quem teria a honra de transportar a primogênita real até a igreja, e seria a sua esposa a madrinha da menina. Mesmo com todas as celebrações, a urgência por um príncipe continuava presente, principalmente depois que uma nova gestação da rainha deu origem à outra menina. Nascida em 1 de fevereiro de 1603, a infanta foi batizada em homenagem à bisavó paterna, a doente imperatriz viúva Maria de Áustria, que exercera considerável influência sobre Felipe III. A menina, contudo, não era robusta como a irmã mais velha, e faleceria pouco mais de um mês após o nascimento.

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Margarida de Áustria

Depois de dois consecutivos fracassos de Margarida para dar um herdeiro homem ao marido, sua rivalidade com Lerma ficou exposta no episódio da prisão da aia de infanta Ana, a marquesa do Valle. Depois que ela foi encarcerada numa fortaleza e processada juntamente com uma dama de companhia da rainha, os papéis da marquesa revelaram que ela era antiga informante do duque, mas passara para o lado da rainha. Provavelmente temeroso com as possíveis revelações de sua antiga aliada, Lerma apertou a vigilância dos aposentos de Margarida, determinando um novo protocolo. Agora, qualquer coisa entregue à rainha, mesmo comida, deveria passar primeiro pela camareira-mor, D. Catarina de Sandoval, condessa de Lemos e irmã do duque; além disso, apenas o mordomo-mor – entre os quais estava o próprio Lerma -, a camareira-mor a as damas de companhia poderiam ter acesso à área privada dos aposentos reais.

Neste cenário compreensivelmente angustiante, Margarida ficou grávida pela terceira vez. No dia 8 de abril de 1605, uma Sexta-Feira Santa, num parto rápido no cair da noite, nasceu o tão esperado menino, causando grandes festas e a libertação comemorativa de presos na cidade. Embora fosse esperado por muitos que o herdeiro fosse chamado de Fernando ou Carlos, a criança foi batizada em maio com o mesmo nome do pai. Novamente, foi Lerma quem o conduziu à Igreja, embora o padrinho fosse o príncipe de Saboia e a irmã mais velha do menino, que ainda não tinha sequer quatro anos de idade. Mesmo com o nascimento do herdeiro, contudo, Margarida estava infeliz e fazendo comentários sobre como preferia estar num convento a ser rainha. Não à toa, foi nesta época que Lerma atingiria o auge de seu poder como valido, embora a volta da corte para Madri marcasse um afastamento temporário do cargo – embora não de seus privilégios e rendas.

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Infanta Ana, a primogênita do casal real

Logo no ano seguinte, nasceria outra criança, batizada com o mesmo nome de sua falecida irmã. Em 1607, nasceria outro menino, Carlos, e em 1609 viria à luz o infante Fernando. No ano seguinte, nasceria uma infanta batizada em homenagem à própria rainha, seguida pouco mais de um ano depois pelo caçula Afonso. Cerca de duas semanas após este último parto, a rainha Margarida faleceria com apenas 26 anos, vítima de uma infecção pós-parto. O rei ficou arrasado com a morte da amada esposa, e se referiria a ela como “santa” até sua própria morte em 1621.

(1) Anteriormente, Margarida sabia apenas seu nativo alemão e latim.

(2) Felipe II só tivera casos extraconjugais registrados durante sua juventude, num período que abarca as núpcias com Maria de Portugal e Maria de Inglaterra. Durante as uniões com Isabel de Valois e Ana de Áustria não parece ter existido quaisquer amantes.

(3) Favorito real responsável pelo governo.

(4) Ana pela sua avó paterna e Maurícia por ter nascido no dia de São Maurício.

Para saber mais:

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

Catarina de Áustria – parte I

Filha póstuma de Joana de Castela e Felipe, duque de Borgonha, a infanta Catarina nasceu em 14 de janeiro de 1507. Esta última gestação da rainha foi, de fato, dramática: depois de uma estadia algo forçada em Inglaterra, onde o bebê foi concebido, uma fragilizada Joana foi para Castela, apenas para testemunhar a virtual guerra entre seu marido Felipe e seu pai Fernando para controlá-la e, assim, exercer a dignidade real numa Castela dominada pela peste e pela fome. Inesperadamente, em 25 de setembro de 1506, Felipe faleceu, provavelmente de febre tifoide, embora a possibilidade de envenenamento não possa ser eliminada.  Em estado de choque, sua viúva ia com frequência à sepultura beijar os pés do cadáver, o que apenas realçava ao público seu desequilíbrio psicológico, causado provavelmente ou por depressão crônica ou por esquizofrenia. Finalmente, em dezembro, Joana ordenou que se retirasse o caixão do mosteiro onde se encontrava e levou-o consigo em sua comitiva até Granada, onde pretendia enterrar seu marido junto à sua mãe, Isabel I de Castela. Estando com a gravidez muita avançada, contudo, a rainha teve que se deter na humilde casa de um clérigo em Torquemada. Lá, ela deu à luz uma menina saudável, batizada em homenagem à sua irmã mais nova, a princesa viúva de Gales.

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Joana e Felipe em seu conflituoso matrimônio, conforme representado na série Isabel (2011-14)

Por meses, a rainha permaneceu em Torquemada com sua filha recém-nascida e outro filho, o infante D. Fernando, enquanto a peste e a fome se espalhavam cada vez mais. Os boatos diziam que ela fora convencida que seu marido ressuscitaria em breve, mas em abril ela finalmente continuou seu caminho até Granada. Em agosto, o próprio rei Fernando foi encontrar-se com sua filha, revendo-a na província de Burgos em 29 de agosto de 1507, para emoção de ambos. Passariam semanas juntos, participando inclusive das cerimônias religiosas pelo primeiro ano de morte de Felipe. Em breve, contudo, a percepção da instabilidade de sua filha, juntamente com a ameaça da vinda do imperador Maximiliano para Castela, a fim de servir como regente do primogênito de Joana, Carlos, precipitou a decisão de Fernando em transferir a corte da filha para Tordesilhas. Joana, entretanto, resistia a qualquer mudança e ainda encontrava-se em Arcos quando 1507 se tornou 1508, com o corpo de Felipe ainda insepulto. Em julho, Fernando II de Aragão, em tese regente de Castela pelos termos do testamento de sua esposa, ordenou que seu neto homônimo fosse retirado da mãe e levado até ele. A rainha resistiu inicialmente, mas acabou cedendo, para seu grande abatimento. Seria apenas em fevereiro de 1509, porém, que a rainha Joana e a pequena Catarina, acompanhadas pelo rei Fernando, se dirigiram até Tordesilhas.

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Fernando II de Aragão

A multidão que os recepcionou e observou uma mulher bela, mas enfraquecida, entrar na bem murada vila régia de Tordesilhas, residência de monarcas de Castela banhada pelo rio Douro, dificilmente poderia prever que seria ali que a rainha passaria a esmagadora parte dos próximos 46 anos como prisioneira (1), enquanto seu pai e seu filho usurpavam seu poder ao aproveitar-se de sua fragilidade psicológica. Durante os primeiros 16 anos, sua caçula seria uma companheira constante. Apegada à filha até o ponto da obsessão após a partida de seu filho Fernando, a rainha ordenou que a menina dormisse num quarto adjacente aos seus próprios aposentos, localizados num canto isolado do palácio. Além disso, Joana exigia que todas as janelas ficassem permanentemente fechadas. Foi, então, no silêncio e no escuro que a pequena Catarina se desenvolveu.

(1) Com exceção do período entre 1533-34, quando a rainha teve que ser retirada de Tordesilhas pela ameaça crescente da peste.

Isabel de Aragão, a filha dos Reis Católicos – parte III

Em julho de 1491, a situação dinástica da Casa de Avis não poderia parecer melhor: bem fixado no trono português, D. João II não apenas possuía a alta nobreza sobre controle como também seu único filho com a rainha D. Leonor acabara de se casar com a primogênita dos Reis Católicos numa bem-engendrada ação diplomática. Além do mais, o jovem casal estava satisfeito com a companhia um do outro, com o apaixonado D. Afonso visitando constantemente Isabel em seus aposentos. As chances de concepção para um herdeiro ao trono de Portugal eram, portanto, elevadas. No dia fatídico, o monarca encontraria o filho exatamente nos aposentos de sua nora, onde ele estivera descansando após a caçada da véspera. O príncipe acabaria acompanhando o pai em uma cavalgada até o rio Tejo, onde desafiaria o fidalgo D. João de Meneses para uma competição. No meio do percurso, porém, o cavalo de D. Afonso tropeçou e o herdeiro caiu sob ele, permanecendo inconsciente mesmo após ter sido resgatado.

Temendo uma represália, D. João de Meneses fugiu de imediato da cena, enquanto o príncipe era levado para ser socorrido na casa de um pescador local, onde seria em breve reunido com a mãe e a esposa. Apesar de elas dizerem sobre ele “tantas lastimas, e palauras de tanta dor, e tristeza”, D. João II ordenar a vinda de médicos, procissões e missas serem prometidas e um nobre até se comprometer à ir caminhando até Jerusalém,  D. Afonso logo receberia a extrema-unção. Pouco depois, o duque de Beja chegaria para manifestar sua dor perante o rei. Agora, D. Manuel, irmão mais novo do executado duque de Viseu, era o próximo Avis legítimo na linha sucessória ao trono.

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O segundo casamento de Isabel com D. Manuel I, conforme representado na série Isabel (2011-14)

Presumivelmente em estado de choque, Isabel cortaria seus longos e belos cabelos em honra ao falecido marido antes de manifestar seu desejo de retornar para junto dos pais em Castela, como era seu direito de acordo com o contrato nupcial. Logo de início, ela anunciou que não mais se casaria, passando a ter uma rotina marcantemente religiosa e corporalmente punitiva. O fato que seus pais procuraram respeitar esta vontade está registrado nas negociações nupciais posteriores com D. Manuel após a sucessão deste ao trono, em outubro de 1495; em princípio, os Reis Católicos apenas ofereciam a infanta D. Maria, terceira filha do casal, para as núpcias reais. Os embaixadores portugueses, contudo, deixaram claro que a única proposta que D. Manoel aceitaria estava na princesa viúva Isabel. Se isso decorreu da posição sucessória dela, de sua maturidade física comparada à irmã ou mesmo de uma certa admiração pessoal do novo rei iniciada quando ambos se conheceram, ainda em 1490, é algo impossível de saber-se ao certo.

Eventualmente, D. Manuel atingiria seu objetivo e conseguiria um compromisso dos monarcas no sentido de desposar Isabel, apesar dela permanecer firme em sua resolução de apenas pisar novamente em solo português depois de todos os judeus terem sido de lá expulsos, de acordo com a política religiosa de seus pais. Mesmo com toda a arrecadação que estas comunidades forneciam ao reino, D. Manuel concordaria, o que poderia servir como testemunho da ansiedade dele em casar-se com Isabel.

A roda da fortuna, entrementes, ainda girava; poucos dias após o casamento de Isabel, João, o único irmão da rainha portuguesa, recém-casado com Margarida de Áustria, faleceu. A esposa permaneceu grávida, eventualmente dando à luz uma menina que também morreu pouco depois do parto. Com essa sequência de trágicos eventos, D. Isabel acabou tornando-se novamente a herdeira do trono de Castela, como já o fora antes do nascimento do irmão. A possibilidade de união peninsular ficaria ainda mais definitiva se Isabel, que acabara de se descobrir grávida de D. Manuel após poucos meses de matrimônio, pudesse dar à luz um menino: no caso, o infante também poderia legitimamente herdar Aragão, reino ainda regido pela antiga lei sálica, que, em princípio, era hesitante em admitir possíveis herdeiras na sucessão.

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D. Miguel, príncipe de Portugal, Castela e Aragão, herdeiro das Coroas ibéricas durante sua curta vida. Na série Isabel, assim como na vida real, ele permaneceu sob a guarda de seus avôs maternos, os Reis Católicos, desde a morte de sua mãe

No mesmo ano, como forma de conter as crescentes ambições do duque de Borgonha, marido da infanta Joana, ao trono castelhano, D. Isabel e D. Manuel foram convocados pelas Cortes castelhanas e aragonesas a prestar juramento como herdeiros. A gravidez avançada da rainha era vista com animação pelos nobres e por Fernando, rei de Aragão, que esperava poder legar seu reino a um herdeiro direto homem. De fato, em 23 de agosto de 1498, na cidade aragonesa de Zaragoza, nasceu um saudável menino, D. Miguel. Contudo, enfraquecida com o parto e os constantes jejuns religiosos, feitos desde o falecimento de D. Afonso, Isabel morreu pouco depois nos braços de D. Manuel I. Tinha apenas 27 anos de idade. Viúvo e só contando com um herdeiro homem, o rei de Portugal se casaria novamente anos depois com a noiva antes rejeitada, a infanta Maria, que teria o eventual sucessor ao trono, D. João III.

Para saber mais:

http://obaudahistoria.blogspot.com.br/2013/02/o-tratado-das-tercarias-de-moura.html

BRAGA, Paulo Drumond. O Príncipe D. Afonso, filho de D. João II – uma vida entre a guerra e a paz. Lisboa: Edições Colibri, 2008.

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 – Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

Inês de Castro – parte II

Deve-se tomar cuidado, porém, para não tomar retrospectivamente a paixão absoluta e algo obsessiva de D. Pedro por Inês. Casado aos vinte anos por interesse e não por amor (PIMENTA, 2011, p. 168), o príncipe ruivo de olhos negros teria muitas amantes, entre elas Beatriz Dias, Teresa Lourenço, e, se for acreditado nas suspeitas levantadas posteriormente, Afonso Madeira (LOPES, 1986, p. 39). De fato, Inês era apenas uma favorita real bastante beneficiada durante o casamento do príncipe com Constança, principalmente se for observado o fato que a esposa gerava uma criança praticamente atrás da outra (Luís em 1340, Maria em 1343 e Fernando em 1345), e a concubina permanecia estéril.

Heitor Lourenço e Cristina Homem de Mello como os amantes Pedro e Inês no filme Inês de Portugal (1997)
Heitor Lourenço e Cristina Homem de Mello como os amantes Pedro e Inês no filme Inês de Portugal (1997)

Tudo mudaria, contudo, após a morte da princesa em 13 de novembro de 1345, cerca de duas semanas após o nascimento do último filho; logo no ano seguinte, Inês daria à luz seu primeiro filho, Afonso, que apesar de viver pouco, iniciaria uma lista de quatro crianças (Beatriz aproximadamente em 1347, João em 1349 e Dinis em 1354). Nestas circunstâncias, a influência de Inês sobre o príncipe cresceu, assim como a de seus irmãos, que já detinham anteriormente uma amizade com o herdeiro. O rei, que já temia tal ingerência, passou a multiplicar seus esforços para conseguir um novo matrimônio para o filho, principalmente porque após o falecimento precoce de D. Luís, existia apenas um infante, D. Fernando, para separar Portugal de outra possível crise sucessória. Havia um problema, entretanto: D. Pedro insistia que já era casado com Inês.

A extensa discussão sobre se tal matrimônio realmente ocorreu, ou quanto sua validade do ponto de vista dinástico, permanece até hoje. Existem autores, como Barbosa (1728), Figueiredo (1785) e Araújo (1852), entre muitos outros, que tomam o casamento como certo, localizando-o inclusive como tendo ocorrido na cidade de Bragança provavelmente em 1353, quando D. Afonso IV esforçava-se para retirar Inês da convivência do filho. Antônio Caetano de Sousa (1946), contudo, chama a atenção para o fato que tais autores insistem na ocorrência do casamento, mas não em sua legitimidade – sem a qual as núpcias seriam nulas. De fato, o século XIX é em sua maioria curiosamente reticente na abordagem do fato, como mostra Chagas: “A dar crédito a declarações posteriores D. Pedro terá casado com ela. Se for assim, D. Pedro a ninguém o declarou (…) as pessoas presentes à leitura de todos estes documentos ouviram em silêncio, e o acceitaram tudo quanto o Rei lhes quis fazer acreditar” (CHAGAS, 1867-1874, pp. 173 e 187).

No século XX, a tendência maior é ou duvidar que as núpcias sequer ocorreram, como mostram as abordagens de Peres (1929) Vasconcelos (1928) e Martins (1972) ou então uma adotar um tratamento intermediário da questão, como fazem Sousa (1946), Brásio (1961), Serrão (1978) e Marques (1987): enquanto o julgamento dos dois primeiros pende a favor de uma união morganática, os dois últimos escolhem não pender definitivamente para nenhum lado, mas apenas apontar os fortes indícios que o suposto matrimônio tem muitos pontos obscuros. Num livro mais recente sobre o rei, Pimenta (2011, p. 192) cita um ensinamento de São Paulo para dar seu veredito definitivo sobre a polêmica: “Se alguém, transbordando de paixão, acha que não conseguirá respeitar a noiva, e que as coisas devem seguir o seu curso, faça o que quiser. Não peca; que se casem.”

As filhas do Venturoso – parte I

O rei de Portugal, D. Manuel I, casou-se em segundas núpcias com Maria de Aragão, irmã mais nova da falecida esposa, em 1501. Embora tivesse a função de preservar a aliança tão estimada entre os reinos ibéricos, a chance de uma união na geração seguinte fora perdida: pouco menos de um ano antes, o único herdeiro do rei português e da antiga herdeira de Espanha, a princesa Isabel , falecera ainda antes de completar dois anos. A herança espanhola, então, passara para a infanta Joana, já casada com o duque de Borgonha e mãe de duas crianças.

De certa forma, o matrimônio de D. Manuel e D. Maria parecia algo inevitável, uma vez que ela era uma das poucas donzelas ainda disponíveis em sua geração, e a única no raio de influência diplomática portuguesa. Felizmente, ele também parecia promissor para questões de progênie: afinal, Maria era filha de uma rainha que gerara pelo menos seis crianças, cinco das quais sobreviveram à infância. Tratava-se de um índice excelente para o século XV entre as famílias aristocráticas, onde a média geral era apenas de duas crianças sobreviventes para cinco nascimentos (FRASER, 1992, p. 98). A rainha portuguesa, porém, superaria todas as expectativas, parindo dez crianças; destas, oito chegariam à idade adulta. Entre elas, estavam D. Isabel e D. Beatriz.

Isabel de Portugal, primogênita mulher de D. Manuel I e Maria de Aragão
Isabel de Portugal, primogênita mulher de D. Manuel I e Maria de Aragão

Nascida em 24 de outubro de 1503, a infanta D. Isabel era a segunda criança da união entre D. Manuel I e D. Maria. Batizada em homenagem à sua ilustre avó materna e sua homônima, a primeira esposa do rei português, desde praticamente o nascimento ela foi um prêmio matrimonial valioso. O nascimento de um segundo irmão homem em 1506 não diminuiria seu potencial entre as cortes europeias.

Em 1521, seu pai faleceria, quatro anos depois de sua mãe. O novo rei, D. João III, ainda não se casara, apesar das negociações intermitentes com Espanha. Foi proposto então um enlace duplo entre primos: o novo monarca se uniria com a infanta Catarina, e sua irmã mais nova se casaria com o próprio rei de Espanha, Carlos V. De fato, esta segunda união era bastante vantajosa para este reino do prospectivo marido. Além de D. Isabel ter um dote esplêndido, fruto das riquezas das Índias, que em muito beneficiariam as finanças espanholas, o rei-imperador necessitava de uma regente confiável para governar o reino durante suas longas ausências – e D. Isabel era a inteligente filha de uma infanta castelhana, além de neta da célebre rainha homônima (TRACY, 2002, p. 114). Além disso, D. Isabel já tinha 23 anos e poderia gerar filhos; a pretendente alternativa de Carlos V, a princesa Mary Tudor, era só uma criança.

Carlos V
Carlos V

O acordo foi rapidamente fechado – já em 1522, Carlos V requisitara ao reino de Portugal que uma das infantas fosse mantida solteira para casar-se com ele. Em 1524, ele retirou-se oficialmente do compromisso inglês, ficando noivo da infanta portuguesa no ano seguinte (FRASER, 1992, p. 147), pouco depois que sua irmã Catarina foi enviada para matrimoniar-se com D. João III. Em 1526, D. Isabel dirigiu-se à Espanha para unir-se a Carlos V.

Embora o casamento fosse meramente político, em pouco tempo ambos apaixonaram-se, em notável contraste com a relação desapaixonadamente cordial entre D. João III e Catarina de Áustria. Enquanto regia a Espanha de forma diligente e competente, Isabel teria cinco crianças: o herdeiro de Carlos V, o príncipe Felipe (n. 1527, f. 1598), a futura Imperatriz Sacra Romana, Maria (n. 1528, f. 1603), o infante Fernando (n. 1529, f. 1533), a futura Princesa de Portugal, Joana (n. 1535, f. 1573) e o infante João (n. e f. 1537). Foi por complicações neste último parto que a rainha faleceria. Arrasado, Carlos V passou a se vestir em luto fechado pelo resto de sua vida e não se casaria novamente, apesar do fato de ter apenas um herdeiro homem vivo tornasse isso algo urgente para os padrões da época.

Álvaro Cervantes e Blanca Suárez como Carlos V e Isabel de Portugal na série
Álvaro Cervantes e Blanca Suárez como Carlos V e Isabel de Portugal na série “Carlos, Rey Emperador”

A vida e candidatura de Catarina de Médicis ao trono português – parte II

Depois da noite de núpcias, Henrique não voltou a prestar muita atenção à esposa, uma vez que, apesar da pouca idade, já tinha variadas amantes, como a famosa Diana de Poitiers, uma dama cerca de 20 anos mais velha que detinha grande influência sobre o príncipe. Parenta distante de Catarina, Diana foi a responsável por garantir que Henrique não repudiasse a esposa pouco ameaçadora politicamente, mesmo depois que o falecimento de Clemente VII e a recusa de seu sucessor, Paulo III, em pagar o dote de Catarina tenha estremecido a aliança entre aquele reino e Roma. Em 1536, após a morte de seu irmão mais velho, Henrique tornou-se o herdeiro do trono. Como Catarina ainda não tinha filhos, a pressão da corte para anular o casamento cresceu consideravelmente.

Henrique II de França
Henrique II de França

Mais uma vez, a principal amante real interviu. Além de ensinar truques à Catarina para engravidar, garantiu que Henrique cumprisse seus deveres conjugais ao atiçá-lo sexualmente por algum tempo quando ele a visitava em seus aposentos, apenas para depois expulsá-lo para o quarto da esposa, localizado no andar de cima. Isso, e mais a orientação dos médicos, deram resultado: em 19 de janeiro de 1544, Catarina deu à luz um menino, batizado em homenagem ao rei Francisco. A anulação do casamento não ocorreria, e mais nove crianças se seguiriam. Após a morte de seu sogro em 1547, Catarina se tornaria rainha de França.

A maioria de seus filhos e filhas, contudo, era doente e não sobreviveu por muito tempo depois de atingir a idade adulta. Em 1559, após o falecimento de seu marido num insólito acidente de justa – depois do qual Catarina devidamente expulsou a antiga favorita Diana da corte – o primogênito deles subiu ao trono com a regência da mãe, sob uma atmosfera de crescente tensão religiosa no reino, mas morreria em pouco tempo. O segundo filho, durante o reino do qual ocorreria o Massacre de São Bartolomeu (por influência da rainha viúva, que procurava tirar Carlos IX da influência de seus adversários políticos, os Guise), também faleceria sem deixar descendentes. O terceiro filho também morreria sem deixar herdeiros, abrindo espaço para que um parente distante, o rei de Navarra, casado com a princesa Margarida, única das filhas de Catarina a ter sua própria saúde robusta, herdasse o trono francês. Ainda antes disso, porém, Catarina se candidataria à sucessão do trono português.

A base de sua pretensão era sua suposta descendência do primeiro casamento do quinto rei português, D. Afonso III, com Matilda, condessa de Bolonha; ela teria, portanto, precedência sobre todos os demais candidatos, como seu antigo genro Felipe II de Espanha. A prova que sua candidatura foi realmente séria é a quantidade de material jurídico disponível hoje sobre a questão; a exemplo dos outros pretendentes ao trono de Portugal, Catarina mandou preparar diversos pareceres jurídicos que supostamente provavam seu direito de se tornar rainha portuguesa por direito próprio (SERRÃO, 1960, pps. 81 e 82).

Primeira página da "Declaration du droit de legitime succession", um dos pareceres jurídicos feitos para a rainha Catarina em sua disputa pelo reino português
Primeira página da “Declaration du droit de legitime succession”, um dos pareceres jurídicos feitos para a rainha Catarina em sua disputa pelo reino português

Dulce de Aragão

Quando o príncipe Sancho tornou-se rei em 1185 após a morte de D. Afonso I, ele tinha desde o começo uma rainha – Dulce de Aragão – e pelo menos três filhas já haviam nascido da união (MATTOSO, 2012, pps. 160-161). Mas quem era exatamente a esposa do segundo rei de Portugal?

D. Sancho I de Portugal
D. Sancho I de Portugal

Filha primogênita (segunda ou quarta criança) da rainha Petronilla de Aragão e seu consorte Raimundo, duque de Barcelona, além de irmã do futuro rei aragonês Afonso II, a infanta Dulce nasceu em data indefinida em 1160. Quando ela tinha aproximadamente nove anos, uma união com o herdeiro do trono português foi combinada; tal projeto de matrimônio visava unir ambos os reinos contra o expansionismo de Leão e Castela. O casamento foi consumado em 1174, quando a noiva tinha 14 anos e o príncipe Sancho quase 21. Assim, Aragão tornou-se o primeiro país ibérico a reconhecer Portugal como um reino próprio num momento em que este sofria perigo de ser reanexado por Castela.  E, como a rainha Mafalda morrera mais de dez anos antes, a jovem Dulce tornou-se tecnicamente a mulher mais importante da nascente corte portuguesa.

Apesar de ter propriedades em seu nome e, em 1192, talvez até mesmo ter governado por certo tempo em nome do marido doente, o fato é que o nome da rainha Dulce apenas aparece associado ao de seu marido e filhos, o que aponta para um certo apagamento político. Diferentemente de sua antecessora, porém, não existem quaisquer comentários sobre sua personalidade forte ou possíveis escândalos em seu matrimônio com o rei; na verdade, parece que D. Sancho I e a doce Dulce de Aragão tiveram um casamento estável por quase 25 anos. A falta de registro de amantes por parte do rei durante este período indicam que ele, assim como seu pai D. Afonso I, formou um laço emocional com sua esposa, mesmo que a união tivesse sido arranjada.

Dulce de Aragão
Dulce de Aragão

O casal real seria bastante fértil, gerando juntos no mínimo 11 filhos até a morte da rainha Dulce em 1198, provavelmente vítima da peste que assolava o reino português naquele momento. Entre os mais importantes estão a primogênita, D. Teresa (c. 1175 – 1250), que por certo tempo foi rainha de Leão antes de optar pela vida religiosa; D. Sancha (c. 1180 – 1229), que também se tornou religiosa e foi beatificada junto com a irmã mais velha em 1705; D. Afonso (1185 – 1223), que sucederia a seu pai no trono português; D. Pedro (1187 – 1258), que foi conde de Urgell e senhor das ilhas Beleares; D. Fernando (1188 – 1233), que foi conde de Flandres e Hainaut por matrimônio com a herdeira Joana; D. Mafalda (c. 1190 – 1256), que foi brevemente rainha de Castela e depois também seguiu vida religiosa, sendo beatificada em 1792; e, por último, D. Berengária (c. 1195 – 1221), que foi rainha de Dinamarca.

Depois do falecimento da esposa, D. Sancho I continuaria tendo filhos com sua amante Maria Aires até sua própria morte em 1212 (SERRÃO, 1978, pps. 398-399). Tantas crianças, porém, não impediriam uma crise política de grandes proporções no reino apenas duas gerações mais tarde.

O trágico romance de Pedro e Inês

Penúltimo rei da dinastia portuguesa de Borgonha, D. Pedro I foi o único filho sobrevivente de D. Afonso IV e Beatriz de Castela. Ele foi casado em 1339 com a castelhana Constança, filha do poderoso príncipe de Villena. Como dama de companhia de sua esposa, chegara também a bela donzela Inês de Castro. Pedro e ela se apaixonaram quase imediatamente, mantendo um tórrido romance ainda durante o matrimônio do herdeiro português com Constança, prejudicando ainda mais as frágeis relações de Portugal com Castela.

D. Pedro I de Portugal
D. Pedro I de Portugal

Constança morreria em 1345, poucas semanas após o nascimento de seu terceiro filho, o futuro D. Fernando I. D. Afonso IV procurou novas uniões favoráveis para D. Pedro, mas este não aceitaria outra esposa que não Inês, com a qual talvez já tivesse se casado secretamente. Temendo o escândalo e as prejudiciais consequências políticas, o rei baniu a influente amante da corte. Ela e D. Pedro, porém, continuaram a viver juntos, e o príncipe tornou os irmãos dela seus principais conselheiros políticos enquanto continuava a ter vários filhos com Inês. Antevendo uma possível guerra civil, D. Afonso IV ordenou a execução dela em 1355. Inês foi detida e decapitada num mosteiro onde se refugiara com suas crianças, uma das quais inclusive presenciou sua morte.

D. Pedro imediatamente se rebelou contra o pai, mas seria rapidamente derrotado. Logo em 1357, porém, com a morte de D. Afonso IV, ele ascendeu ao trono português, ordenando a prisão imediata dos assassinos de Inês, que foram executados publicamente ao terem seus corações arrancados. D. Pedro I também declarou publicamente seu casamento com Inês, tornando-a assim rainha de Portugal post mortem, além de tecnicamente legitimar seus filhos – a ausência de maiores provas deste matrimônio, porém, torna a questão duvidosa até hoje.

Inês de Castro
Inês de Castro

Mais tarde, os filhos de Inês de Castro seriam candidatos à sucessão portuguesa durante a crise de 1383-85, mas seriam derrotados por suas supostas lealdades castelhanas. Um filho bastardo de D. Pedro I, D. João, conseguiu reunir maior unanimidade em torno de sua pretensão e tornou-se rei, iniciando assim a dinastia de Avis.