Maria Sofia de Neuburgo – parte I

Nascida em um palácio localizado no ducado de Juliers, a poucos quilômetros da cidade imperial de Dusseldorf, a princesa Maria Sofia Isabel de Neuburgo veio ao mundo em seis de agosto de 1666, sendo uma das diversas filhas de Felipe, conde de Neuburgo, com sua esposa Isabel de Hesse-Darmstadt. Uma vez que esse fértil casal geraria nada menos do que 17 crianças sobreviventes durante sua longa união, as meninas daquela geração do ramo secundário da antiga Casa Wittelsbach seriam cobiçadas pelo mercado matrimonial europeu por sua presumida capacidade de gerar herdeiros. Em 1676, de fato, a primogênita do casal, Leonor, seria casada com Leopoldo, Sacro Imperador Romano Germânico, que não conseguira ter um filho homem em seus matrimônios anteriores; posteriormente, três irmãs suas se casariam respectivamente com Carlos II, rei de Espanha, Eduardo, príncipe de Parma e Jaime, príncipe de Polônia, cujas Casas tinham linhas de sucessão instáveis.

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O pai de Maria Sofia, o conde Felipe de Neuburgo

Quando Maria Sofia tinha 17 anos, morreria em Portugal a rainha Maria Francisca de Saboia, esposa do rei D. Pedro II. Embora o monarca tivesse tido vários casos extraconjugais em seus vários anos de casamento, o falecimento de Maria Francisca o deixou em prolongada tristeza. Nem o fato que a sobrevivência da recente dinastia de Bragança encontrava-se ameaçada pela frágil figura da princesa D. Isabel, que ainda sequer se casara, pôde convencer D. Pedro II a acelerar o processo para ter novas núpcias. Apenas em reunião do Conselho Real ocorrida em janeiro de 1685 foi que o monarca seria convencido, em nome da felicidade do reino, a casar-se de novo.

De início, a pressão sobre o rei era forte para que a aliança francesa fosse renovada (1). A principal candidata nesse sentido era a mademoiselle de Blois, filha legitimada do rei francês com sua antiga favorita, a marquesa de Montespan. Também seria proposta uma união com a mais madura mademoiselle de Lillebonne, uma princesa de Lorena, mas nenhuma dessas ideias iria realmente adiante. Enquanto isso, a facção pró-francesa da corte encontrava resistência em alguns nobres que defendiam uma reaproximação política com a Casa Habsburgo, principalmente vendo-se já no horizonte a intervenção política francesa após a morte do doente Carlos II de Espanha (2). Embora essa facção pró-Habsburgo tivesse pouco apoio na corte portuguesa propriamente dita, seus membros utilizaram-se da manipulação da opinião pública exterior ao paço real para vender os perigos que existiam em fortificar a aliança com a monarquia francesa.

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Mademoiselle de Blois, uma das esposas pensadas para D. Pedro II de Portugal

Procurando fugir da influência de França, então, a diplomacia portuguesa passou a procurar em semi-sigilo noivas para D. Pedro II nas diversas cortes imperiais. Na impossibilidade de casar o rei com uma Habsburgo de idade apropriada, ficou decidido definitivamente em meados de 1687 acertar um contrato matrimonial com Maria Sofia, a presumida fértil filha do conde de Neuburgo, que também, aliás, procurava resistir às influências políticas francesas, que ambicionavam anexar o pequeno território. D. Pedro II garantiria rapidamente à futura esposa as rendas e privilégios apropriados, após o qual o embaixador português foi autorizado a pedir a mão da princesa em casamento em nome do rei. Em cinco de  julho de 1687, quando já contava com quase 21 anos de idade, Maria Sofia deixou para sempre o castelo onde fora criada, iniciando seu percurso até Portugal.

Acompanhada por um séquito que contava aproximadamente com 350 pessoas, Maria Sofia percorreu o Reno até chegar à Holanda, onde seria recepcionada pelo príncipe de Orange e diversos nobres ingleses, incluindo um filho ilegítimo do rei Carlos II de Inglaterra, que era casado com a irmã mais velha de D. Pedro II de Portugal. Conduzida por eles, embarcou com sua comitiva nos naus de guerra que a levariam pela maior parte do caminho até Lisboa. Durante a viagem de sua noiva, D. Pedro II perdoaria alguns criminosos presos nas cadeias da capital, como era de costume em tais datas comemorativas, enquanto seu favorito e grande arquiteto das negociações diplomáticas com Neuburgo, o conde de Vilar Maior, distribuiria joias às damas da corte e dinheiro aos criados, demonstrando a generosidade do monarca.

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Pedro II de Portugal

No final de julho, Maria Sofia passaria para um iate inglês, onde seria conduzida em seu percurso pelo rio Tejo e onde testemunharia a salva de tiros dos navios portugueses quando sua frota passou em frente à igreja de São Paulo. Apenas em 11 de setembro, entretanto, Maria Sofia chegaria com a frota no porto de Ribeira. Quase que de imediato, subiram a bordo para recepcioná-la o conde de Santa Cruz, o conde de Vale de Reis, o conde de Ericeira e seu filho. Este faria um discurso em cinco línguas diferentes à nova rainha, ao qual Maria Sofia responderia individualmente sem hesitar, o que é uma prova da cuidadosa educação que apreendera em sua juventude. Como já haviam sido nomeados de antemão os oficiais da rainha, também subiriam a bordo a camareira-mor, o mordomo-mor e o estribeiro-mor antes que chegasse o rico bergantim de ouro e cetim que transportava D. Pedro II.

 

(1) Por via materna, Francisca Maria de Saboia havia sido descendente ilegítima de Henrique IV de França, o que a fazia uma aparentada do presente rei Luís XIV.

(2) Os franceses defendiam que a ausência de pagamento do dote da infanta Maria Teresa quando de seu casamento com Luís XIV, em 1660, tornara inválida a renúncia formal de seus direitos ao trono espanhol. Como ela falecera em 1683, sua pretensão passaria ao primogênito, o delfim Luís de França.

 

Luísa de Gusmão – parte IV

Quando se tornou rei de Portugal, em seis de novembro de 1656, D. Afonso VI estava a menos de um ano de completar quatorze anos de idade; tradicionalmente, essa era a idade legal que marcava o início da maioridade. Em princípio, portanto, Luísa de Gusmão teria uma regência curta, e a instabilidade inevitável gerada em tais períodos poderia ser facilmente dominada após o próximo aniversário do rei, quando ele mesmo assumiria as rédeas do poder. Tudo isso, porém, eram apenas pressupostos teóricos, vista a frágil saúde do monarca, além de sua instabilidade mental.

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D. Afonso VI

Desse modo, é plenamente possível que a viúva de D. João IV já se preparasse desde o início de sua regência para uma grande permanência no cargo, como de fato o foi. Escolhendo ministros para governarem sob sua liderança, D. Luísa encarregou-se de uma nova fase da guerra contra Espanha, quando as tropas portuguesas voltaram à ofensiva. O primeiro ano desta etapa marcaria, entretanto, um fracasso militar no longo cerco de Badajoz, onde, embora tendo uma vitória técnica, as tropas de D. Afonso foram destroçadas. O evento, aliás, marcou o início de uma espécie de paralisia na guerra. Enquanto os Habsburgo agora poderiam se dedicar a recuperar Portugal com o fim da revolta na Catalunha em 1653, agora tinham uma ausência crônica de soldados e recursos; os Bragança, por outro lado, estavam politicamente isolados na Europa, fracassando em obter um tratado com a França mediante o proposto casamento de Luís XIV com a infanta D. Catarina. O rei francês acabaria se casando em 1660 com a infanta Maria Teresa.

Após o fim das negociações com França, a regente voltou-se para a mais amigável Inglaterra, com a qual Portugal já assinara um tratado em 1654. De fato, é possível que as negociações francesas tenham sido muito mais uma jogada diplomática portuguesa para atrapalhar o casamento de Luís XIV com a prima espanhola do que uma proposta com intenções verdadeiras. Neste sentido, o começo das conversas visando um matrimônio entre Carlos II e D. Catarina podem ter se iniciado ainda antes da morte de D. João IV. A Restauração Inglesa em inícios de 1660, entretanto, tornou o acerto mais interessante e vantajoso para Portugal, que aceitaria pagar um exorbitante dote e ceder duas colônias à Inglaterra em troca de apoio militar contra Espanha.

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Catarina, rainha de Inglaterra

Em 1662, tendo a paz assegurada com o reino francês, o comando espanhol voltou à ofensiva. João de Áustria, filho ilegítimo de Felipe IV, lideraria uma tropa de milhares de homens para tomar a região do Alentejo, chegando a dominar a cidade de Évora por um curto período até ser forçado a abandonar o local após a grande vitória anglo-portuguesa na batalha de Ameixial. O mesmo ano conheceria o fim da regência de D. Luísa, que se retiraria para um convento após pressão por parte de D. Afonso VI, juntamente com o favorito real, o conde de Castelo Melhor e, a partir do golpe, Secretário de Estado do Reino de Portugal. O ano seguinte testemunharia o recuo definitivo das tropas lideradas por João de Áustria, embora este revés tenha sido compensado no ano seguinte pela ocupação de Vila Viçosa por exércitos do novo comandante dos Habsburgo, o marquês de Caracena.

A campanha do exército português para retomar Vila Viçosa, em 1665, eventualmente levaria à esmagadora vitória na batalha de Montes Claros. Depois disso, Espanha viu-se impossibilitada de tentar uma nova invasão, e ambos os lados começariam as negociações que levariam, em 1668, à assinatura do Tratado de Lisboa, que reconheceria por fim a legitimidade da dinastia de Bragança em Portugal e poria fim definitivo à guerra. A essa altura, porém, Luísa de Gusmão já estava morta, sendo vítima de falha pulmonar. Sepultada em Xabregas, ela eventualmente seria transferida para o Panteão dos Bragança, em Lisboa. Ao falecer em 27 de fevereiro de 1666, ela não testemunhou a anulação do breve casamento de seu primogênito D. Afonso com Maria Francisca de Saboia, o segundo casamento desta com o cunhado, D. Pedro, e o posterior exílio do filho mais velho até o fim da vida.

Para saber mais:

http://asaventurasdemark.blogspot.com.br/2013/08/d-luisa-de-gusmao.html

http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2014/04/mulheres-na-historia-lxvii-margarida-de_3.html

https://guerradarestauracao.wordpress.com

COSTA, Leonor Freire; CUNHA, Mafalda Soares da. D. João IV. Círculo de Leitores, 2012.

COSTA, Fernando Dores. A Guerra da Restauração – 1641-1668. Lisboa: Livros Horizonte, 2004.

LIVERMORE, Harold V. A New History of Portugal. Glasgow: Cambridge University Press, 1966.

Isabel de França – parte I

Nascida em 22 de novembro de 1602 no castelo de Fontainebleau, Isabel de França foi a segunda criança (primogênita mulher) do casamento entre o rei Henrique IV e sua segunda esposa, Maria de Médicis. Sendo a filha legítima mais velha do monarca, ela recebeu o título honorífico de Madame Royale, sendo oficialmente desde cedo a dama mais importante da corte francesa depois da rainha. Tendo uma fértil mãe, Isabel cresceria com vários irmãos e irmãs, alguns dos quais desempenhariam importante papel na história europeia do século XVII – como seu irmão mais velho Luís, melhor conhecido como o pai do Rei Sol (1), e sua irmã caçula Henrietta, célebre por seu papel na Guerra Civil Inglesa. A jovem princesa também teria vários irmãos ilegítimos, frutos dos diversos casos extraconjugais paternos.

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A família de Isabel (c. 1607)

Em maio de 1610, quando Isabel ainda não completara oito anos de idade, Henrique IV sucumbiu a mais uma tentativa de assassinato, morrendo apenas um dia após a coroação de Maria de Médicis; em poucas horas, ela seria elevada à condição de regente do jovem rei Luís XIII, e continuaria no cargo até a maioridade do filho em 1617. Neste ano, porém, tanto o jovem monarca quanto sua irmã Isabel já estariam envolvidos em acertos nupciais com a Casa de Habsburgo. De fato, desde 1602 as Coroas de França e Espanha procuravam acertar uma aliança política-militar, a ser efetuada através de contratos nupciais, mas a frequente disputa pela hegemonia da Europa frequentemente atrapalhava tais negociações. A morte do popular rei francês, contudo, possibilitou que a Espanha fizesse sua jogada para procurar neutralizar a rival, propondo um enlace duplo: a ideia era que Luís XIII fosse casado com a infanta Ana e Isabel se unisse ao príncipe Felipe.

Embora as capitulações matrimoniais tenham sido confirmadas em agosto de 1612 e os casamentos fossem previstos para ocorrer logo no ano seguinte, as núpcias apenas seriam efetuadas realmente em outubro de 1615, após o qual as princesas foram devidamente trocadas na fronteira de Bidasoa e seguiram para seus novos reinos. Por que tal atraso ocorreu? Embora, claro, a idade dos jovens em questão com certeza tenha tido impacto no adiamento (2), não se pode subestimar o poder da oposição interna em Espanha em relação às uniões. Ao final, contudo, a razão de Estado acabou por se impor e os casamentos de presente ocorreram. Semanas depois, Isabel fez sua entrada em Madri, guiada por uma comitiva que continha o futuro conde-duque de Olivares e era liderada pelo próprio duque de Lerma, valido de Felipe III.

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A troca das princesas

O novo casal era, na verdade, composto por duas crianças, que tinham a maturidade física cuidadosamente observada à procura do melhor e mais seguro momento para a consumação, ocorrida apenas em fins de 1620, quando Isabel já se transformara numa bela mulher de expressivos olhos negros. A atração do príncipe era evidente, e rapidamente sua esposa estaria grávida, com a primeira filha de ambos nascendo já em agosto de 1621; a infanta Maria Margarida, porém, morreria com poucos dias. Nesta altura, Felipe já ascendera como rei de Espanha e Portugal com o falecimento precoce de seu pai homônimo. No início de seu governo, o novo rei estava às beiras de completar 16 anos, e em sua inexperiência governamental se apoiou fortemente no favorito Olivares, que se tornou também seu valido. Olivares, que aprendera bem as lições das disputas entre seu antecessor e Margarida de Áustria, restringiu o papel da rainha Isabel ao que ele acreditava ser o dever natural das rainhas: parir. E isso ela faria com regularidade nas duas décadas seguintes, embora seu papel mais importante perante o rei – fornecer um herdeiro para Espanha – acabasse tragicamente não sendo cumprido.

(1) Luís XIV.

(2) Durante a maior parte de 1613, Luís XIII e Ana de Áustria tinham 11 anos, Isabel tinha 10 e Felipe 8.

A rainha do Piedoso: Margarida de Áustria – parte I

Nascida no dia de Natal em 1584, Margarida de Áustria era mais uma das muitas meninas que vieram do casamento entre Carlos II, arquiduque de Áustria – terceiro filho de Fernando I, Sacro Imperador Romano e irmão mais novo de Carlos V -, com sua sobrinha Maria Ana de Bavária. Quando Margarida ainda era uma criança, seu pai faleceu, deixando a esposa grávida e mais doze filhos e filhas, incluindo seu herdeiro, Fernando II, que somente tinha doze anos quando sucedeu ao pai. A morte do arquiduque, contudo, não diminuiu o valor de Margarida e suas irmãs no mercado matrimonial europeu; afinal, elas ainda eram primas do Sacro Imperador Romano Rodolfo II, além de pertencentes à poderosa Casa de Habsburgo. Inclusive, quando as negociações para casar a jovem Margarida com o herdeiro do trono espanhol começaram, sua irmã mais velha Ana já era casada com o rei de Polônia, Sigismundo III; depois da morte desta, outra irmã, Constança, a seguiria como rainha.

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Felipe II de Espanha

Em verdade, não importava tanto qual das filhas ainda solteiras da arquiduquesa viúva Maria Ana seria a futura rainha de Espanha; afinal, não era como se Felipe II tivesse muitas opções de Casas para casar seu filho. Portugal, que por tanto tempo procurara noivos em Espanha, estava agora fora do jogo, tanto pela disputa dinástica ainda fresca entre os Bragança e os Habsburgo (1) quanto por uma questão financeira de rendimentos, considerada desvantajosa comparada com, por exemplo, Casas italianas ou mesmo castelhanas. Inglaterra, liderada por Isabel I, também não apresentava noivas viáveis, assim como Escócia e França, cujos monarcas não tinham filhas legítimas. Entre os principados italianos, contudo, uma boa opção teórica estava em Saboia; pouco antes do nascimento de Margarida, entretanto, ali fora casada a filha mais nova de Felipe II, a infanta Catarina Micaela. Em contraste, o ramo austríaco dos Habsburgo trazia consigo, além do ideal de fortalecimento dinástico, uma promessa de fertilidade: a mãe de Margarida tivera nada menos do que quinze crianças, das quais boa parte sobrevivera. Num tempo em que os antecedentes familiares eram julgados como fundamentais para prever a capacidade reprodutiva da esposa, Margarida e suas irmãs estavam muito bem situadas.

De fato, ao menos desde 1593 a ideia já passava pela cabeça de Felipe II, uma vez que foi aproximadamente nesta época que negociações da Casa de Bragança para o matrimônio do duque, D. Teodósio, com uma das irmãs de Fernando II foram interrompidas pelo rei espanhol, que anteriormente apoiara a união. O que num primeiro olhar parece uma discordância matrimonial superficial entre Felipe II e a duquesa viúva, D. Catarina, ganha toda uma nova dimensão ao observar-se que, caso o jovem duque tivesse atingido o intento, ele seria em poucos anos o cunhado do rei de Espanha e Portugal. Nesta época, retratos de três das irmãs – Catarina, Gregória e Margarida – chegaram à corte de Felipe II para inspeção; em 1595, o embaixador de Veneza já falava em um casamento do príncipe Felipe com uma das jovens, embora sem especificar qual delas. Como, então, Margarida acabou como a consorte escolhida?

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Maria Ana de Bavária

Em sua biografia de D. Felipe II, a historiadora Fernanda Olival fornece algumas narrativas sobre a questão. Segundo o cronista Gil Dávila, por exemplo, teria sido perguntado ao príncipe qual das donzelas era a mais bonita, ao qual ele respondera que esse julgamento cabia à Sua Majestade; Felipe II, então, selecionou Catarina, a mais velha. Já outra história conta que a escolha teria sido feita primeiramente pela infanta Isabel, irmã mais velha do príncipe, que optou pela mais nova, Margarida. Estes textos, contudo, ignoram que a primeira escolha do rei fora Gregória, com ou sem a anuência do filho (2), muito embora aparentemente esta arquiduquesa fosse considerada deformada. De qualquer maneira, Gregória morreu em setembro de 1597. Quase que de imediato, suas irmãs Leonor e Margarida foram colocadas à disposição de Felipe II para substituí-la. A mãe delas, Maria Ana, estaria tão ansiosa para não perder a oportunidade de encaminhar melhor a vida dos filhos que inclusive se mostrava receptiva à ideia de mandar as duas jovens para a corte de Felipe II para que lá fosse feita a escolha. Embora isso não ocorresse, eventualmente a mais bela das irmãs – Margarida – seria selecionada.

(1) Crise Sucessória Portuguesa de 1580.

(2) Embora Olival argumente que a escolha por Gregória apenas ocorreu devido ao falecimento precoce de Catarina, o fato é que esta arquiduquesa morreu ainda solteira dois anos depois da irmã mais nova, em 1599. Isto aponta para uma escolha mais pessoal do rei (talvez guiado pelos retratos enviados anteriormente) ou, o que parece mais provável, para uma escolha precoce da família em enviá-la para a vida religiosa, como ocorreria mais tarde com sua frágil irmã Leonor.

Catarina de Áustria – parte VI

A pouca idade de D. Sebastião tornava inevitável que uma regência fosse necessária por alguns anos; como mãe do jovem monarca, D. Joana seria a candidata mais evidente, mas já não se encontrava em Portugal havia muito. Viúva, o destino da princesa dependia novamente dos desejos de seu pai, o poderoso Carlos V, e a vontade dele era que Joana voltasse para Espanha para servir como regente na ausência de seu irmão Felipe, que em breve se casaria com a rainha Maria de Inglaterra. A decisão do imperador causou mal estar na corte portuguesa; pelo lado político, D. João III via frustrados seus próprios planos em casar o irmão D. Luís com a soberana inglesa e sua irmã caçula D. Maria com o príncipe Felipe, e pelo lado sentimental, os monarcas exprimiram sua preocupação em deixar praticamente órfã uma criança tão pequena. De qualquer maneira, a princesa Joana partiu em maio de 1554.

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D. Sebastião enquanto criança

Os anos seguintes trariam mais perdas à rainha D. Catarina: em abril de 1555, faleceu em Tordesilhas a mãe que ela jamais vira novamente em 30 anos, a doente rainha Joana. Em novembro de 1555, morreu seu cunhado, o infante D. Luís, que tinha com Catarina uma relação algo tensa desde as negociações frustradas de matrimônio com sua sobrinha anos antes. Em fevereiro de 1558, falecia sua irmã mais velha e antecessora no posto de rainha de Portugal, Leonor. Em outubro do mesmo ano, morreu outra irmã, Maria, seguida logo no mês seguinte pelo desaparecimento de seu irmão mais amado, Carlos V, com quem Catarina procurara manter uma correspondência constante desde o primeiro encontro de ambos em 1516.

A morte mais importante do ponto de vista político e pessoal, entretanto, já ocorrera em 11 de junho de 1557; após um agravamento súbito de uma doença antiga, faleceu D. João III em Lisboa. Do ponto de vista puramente governamental, o desaparecimento não significou em princípio uma mudança imediata; afinal, a doença do rei, visível desde 1550, apenas tornara mais visível o protagonismo da rainha. A quebra dos escudos do falecido monarca em 14 de junho, contudo, tornou inevitável a tensão – quem seria o regente do jovem D. Sebastião? Pelo costume, o posto pertencia ao parente homem mais próximo do monarca, no caso o infante cardeal D. Henrique, último dos filhos de D. Manuel I que ainda vivia. Regências femininas, embora não uma novidade na história portuguesa – basta lembrar o precedente imediato de Leonor de Aragão, consorte de D. Duarte e mãe de D. Afonso V – não costumavam conseguir o apoio político necessário para serem bem sucedidas. Na reunião do conselho régio que se seguiu imediatamente à quebra dos escudos, a rainha, que já partilhava do governo há vários anos, apresentou uns apontamentos de D. João III que supostamente indicavam o desejo real que D. Catarina assumisse a regência, curadoria e tutoria de D. Sebastião. Após ser pedido para assistir a cunhada na função, D. Henrique concordou.

Em breve, contudo, a princesa Joana, ainda regente em Espanha na ausência do irmão, reivindicou seu direito de sangue de assumir a regência do filho. Era de tal modo forte sua intenção que seu pai, Carlos V, teve que escrever uma carta bastante incisiva, deixando claro que a posição pertencia à sua irmã Catarina. A intenção do imperador era conseguir dela um compromisso no sentido de garantir a sucessão do filho da infanta D. Maria no caso de morte de D. Sebastião; afinal, como ele escreveu ao filho Felipe, “o Príncipe (Carlos) é tanto seu neto como o Rei”. Apesar da concordância de Catarina, a pragmática que reconhecia este direito jamais foi publicada devido ao sentimento anti castelhano presente na corte portuguesa, juntamente com certa impopularidade da regente, inclusive entre seus súditos de nascimento mais baixo.

(c) The Bowes Museum; Supplied by The Public Catalogue Foundation
D. Catarina em sua época como regente do neto

Esta tensão no relacionamento entre Catarina e algumas grandes Casas, nomeadamente os Aveiro e os Bragança, ganhou seu principal símbolo na noite de 3 de setembro de 1554. D. Teodósio, duque de Bragança, era viúvo desde o ano anterior e manifestou o desejo de voltar a se casar com D. Beatriz de Lencastre, sobrinha de D. João, duque de Aveiro. D. Catarina vetou tal matrimônio. Além do procurar evitar uma união mais íntima entre duas Casas tão poderosas, o movimento muito provavelmente visava proteger o dote devido à sua sobrinha homônima, segunda filha do falecido infante D. Duarte, que em breve se uniria ao herdeiro do duque de Bragança. Apesar da proibição, entretanto, D. Teodósio foi em frente e casou-se com D. Beatriz. Isso causou uma imediata reação da regente, que expulsou tanto ele quanto o duque de Aveiro da corte. Sua autoridade, porém, já fora minada.

E é neste contexto que ocorreu a primeira tentativa de renúncia de D. Catarina em nome de D. Henrique, que acabou aceitando-a após tentar convencer a cunhada a continuar no cargo. Embora este evento seja interpretado por muitos historiadores como uma tentativa bem-sucedida de D. Catarina de desestabilizar politicamente o infante cardeal, não é realmente impossível que a regente tenha considerado, diante das dificuldades políticas, abandonar a corte e ir para um convento, como fizera seu irmão anos antes. Independente da intenção, contudo, a reação da corte foi massiva pela continuidade de D. Catarina no cargo. Apesar de tudo, D. Henrique não era propriamente um nome que despertava entusiasmo.

Catarina de Bragança, rainha da Inglaterra

Nascida em 25 de novembro de 1638, a infanta D. Catarina foi a terceira filha (quarta criança) do matrimônio entre D. João, duque de Bragança, e D. Luísa de Gusmão, uma dama da poderosa Casa espanhola de Medina-Sidônia.  Muito provavelmente nomeada em homenagem à avó paterna, a menina tinha apenas dois anos de idade quando seu pai foi aclamado como D. João IV de Portugal, acabando com a dinastia de Habsburgo e iniciando a de Bragança naquela que foi chamada Guerra de Restauração Portuguesa.

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D. Catarina num retrato pré-nupcial (c. 1660)

Criada com três irmãos – Teodósio, Afonso e Pedro – e uma irmã – Joana – a infanta passou a infância em meio a uma família unida e amorosa. Politicamente, contudo, o recém-independente Portugal estava isolado em sua guerra contra Espanha. O único país europeu que o apoiaria seria a antiga aliada Inglaterra, liderada por Carlos I, que lutava naquele tempo seu próprio confronto interno contra o Parlamento. Para reforçar mais a união, ambos os monarcas concordariam com uma união matrimonial entre o herdeiro inglês, também chamado Carlos, e a secundogênita Catarina, a ser realizada quando ambos tivessem a idade apropriada. A guerra civil inglesa e a posterior execução do rei, contudo, colocariam tais planos em suspenso.

Enquanto isso, a irmã mais velha de Catarina, Joana, faleceria. Com isso, a infanta tornou-se a primogênita mulher sobrevivente, com seu valor no mercado matrimonial europeu subindo de acordo. Em consequência, novos candidatos apareceriam para cortejar sua mão, como João de Áustria, irmão ilegítimo de Felipe IV de Espanha, e o próprio rei francês Luís XIV. Entretanto, a mãe de Catarina, Luísa de Gusmão, regente desde a morte do marido em 1656, prosseguiu com negociações secretas com o herdeiro exilado de Carlos I, que ganharam nova força com a Restauração Inglesa em 1660. Endividado, o recém-proclamado Carlos II tinha todas as razões para casar-se com uma infanta que trazia consigo um vantajoso dote, mesmo que ela fosse católica. Finalmente, em 23 de junho de 1661, o contrato nupcial foi assinado. Pouco depois, Catarina começou a viagem para o país do futuro marido.

Em 20 de maio, Carlos finalmente encontraria a noiva em Portsmouth. No dia seguinte, ambos seriam casados em duas cerimônias distintas – uma católica, secreta, e outra protestante, pública. Embora Catarina não fosse exatamente belíssima, ela agradou ao rei, que considerou o matrimônio muito de seu agrado, conforme escreveu à sua irmã Henrietta. Há razões, portanto, para acreditar-se que o casamento foi consumado quase que de imediato. Catarina apaixonou-se pelo marido, que respeitaria até o fim de sua vida.

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Carlos II da Inglaterra

Porém, ela não era exatamente uma rainha popular. Além de ser católica num país protestante, o que a impediria de ser coroada, ela já tinha 23 anos de idade na época de seu matrimônio. A própria Catarina achou que a união com o rei inglês não ocorreria devido à sua idade, e partiu numa peregrinação de agradecimento em Lisboa quando o casamento foi confirmado. Mesmo assim, a religiosa infanta, que passara grande parte da juventude num convento, não possuía charme suficiente para reter o promíscuo esposo apenas em sua cama. Durante seu reinado de 25 anos, Carlos teria várias amantes e pelo menos 20 filhos; tragicamente, nenhum deles seria legítimo. Catarina ficaria grávida três vezes, mas todas as gestações acabaram prematuramente. Em 1663, durante uma doença grave, ela alucinaria que dera à luz, e seu marido a consolaria, garantindo que ambos tinham três filhos.

Na ausência de herdeiros legítimos de Carlos, seu sucessor natural era o irmão católico, James. Isso colocava a rainha Catarina numa posição bastante delicada. Sendo a esposa do rei, ela tinha óbvia influência cultural; seria seu desejo de prosseguir com o hábito português de tomar chá de tarde, típico entre a nobreza local, que acabaria instaurando o hábito geral na Inglaterra. Politicamente, contudo, ela possuía uma estrutura frágil. Os ataques a ela eram tão frequentes que o próprio rei tinha que intervir para proteger a rainha, resistindo a todas as tentativas para que ambos se divorciassem quando ficou claro, após um aborto ocorrido em junho de 1669, que eles não teriam nenhuma criança. Anos depois, Catarina seria implicada até mesmo numa tentativa de envenenamento do rei. Mesmo que não fosse fiel, portanto, Carlos II a honrava, insistindo que todas as suas amantes agissem em conformidade com a posição da rainha.

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Barbara Villiers, a mais famosa das amantes de Carlos II

O rei faleceu em 6 de fevereiro de 1685, convertendo-se ao catolicismo no leito de morte. Como o novo monarca, James II, era católico, a rainha viúva teve pela primeira vez liberdade para praticar sua fé livremente. A Revolução Gloriosa de 1688, contudo, complicaria a situação, uma vez que restaurou o anglicanismo. Inicialmente em bons termos com a rainha Maria II e o rei Guilherme III, Catarina perdeu o favor após uma série de desentendimentos. Ela retornaria para Portugal em março de 1699, onde acabaria como regente sucessivamente para o sobrinho e o irmão antes de sua própria morte em 31 de dezembro de 1705.

Para saber mais:

https://saintssistersandsluts.wordpress.com/2012/08/30/catherine-of-braganza-queen-of-england/

http://www.marryingcultures.eu/research/catherine-braganza

http://www.queensroyalsurreys.org.uk/queen_of_reg/catherine.html

http://www.britannica.com/biography/Catherine-of-Braganza

http://www.tea.co.uk/catherine-of-braganza

 

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte IV

Depois de D. Isabel, a rainha ainda teria mais três crianças: outra D. Blanche (n. 11/04/1398), que também faleceria jovem, D. João (n. 13/01/1400) e D. Fernando, o Infante Santo (n. 29/09/1402), este último quando Philippa já estava com 42 anos de idade. Esta última gestação, aliás, como a primeira gravidez da rainha, começou com preocupações; na época da nova concepção, a rainha encontrava-se bastante doente, fraca e febril. Foi recomendado pelos médicos que um aborto fosse induzido para conservar sua vida, e D. João I até mesmo se dispôs a dar a ela pessoalmente a bebida que interromperia a gravidez. Philippa, contudo, se recusaria, expondo sua fé e confiança na sabedoria de Deus. Meses depois, ela teria um “muy bõo e seguro parto”. Rapidamente, o caçula se tornaria o favorito da mãe.

D. Fernando, caçula de Philippa, conhecido como o Infante Santo
D. Fernando, caçula de Philippa, conhecido como o Infante Santo

Em adição a ser uma das consortes mais importantes da história portuguesa em termos políticos, Philippa também ditaria os termos do comportamento e modelo de vida das rainhas seguintes. Estabelecendo formalmente uma corte bastante religiosa em Portugal, a virtuosa esposa de D. João I preocupava-se, em princípio, apenas com a criação de sua progênie enquanto o rei governava e pacificava as fronteiras. Neste sentido, sua influência política ocorreu apenas de maneira indireta ao intermediar contatos entre seu reino de adoção e a Inglaterra, como no caso já abordado do casamento de D. Beatriz. A morte de João de Gaunt em 1399 em nada alterou a importância dinástica de Philippa, uma vez que pouco depois seu próprio irmão deporia Ricardo II e se tornaria Henrique IV de Inglaterra. Além disso, ela beneficiou a fraca economia portuguesa ao incentivar seu marido e filhos para ir rumo à conquista do importante ponto comercial de Ceuta.

D. Duarte, secundogênito homem de Philippa e sucessor de seu pai no trono de Portugal
D. Duarte, secundogênito homem de Philippa e sucessor de seu pai no trono de Portugal

Pouco antes do embarque, entretanto, a rainha ficou seriamente doente. Era a peste, que desde o início do ano de 1415 atacava em Lisboa e no Porto. Enfraquecida por seus constantes jejuns e vigílias, Philippa foi presa fácil para a moléstia, e em pouco tempo já se encontrava à beira da morte. Para sua própria proteção, D. João I foi afastado dela, mas nada deteve a aproximação dos três infantes mais velhos, que compartilharam dos últimos momentos da mãe; seriam inclusive presenteados por ela com preciosas espadas. Depois, a rainha comungou e recebeu a extrema-unção, morrendo pouco depois com um sorriso nos lábios. Tinha 53 anos. Mesmo em luto, seu marido e seus filhos prosseguiriam com os planos de Philippa e iriam conquistar Ceuta, dando o pontapé inicial naquelas que seriam as Grandes Navegações.

Para saber mais:

COELHO, Maria Helena da Cruz. D. João I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2012.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte I

Nascida em 31 de março de 1360, Philippa de Lancaster foi a primogênita de João de Gaunt, quarto filho homem do rei Eduardo III da Inglaterra e sua rainha Philippa de Hainault, com sua prima de 3º grau e esposa, a grande herdeira Blanche de Lancaster. A princesa era, portanto, descendente por ambos os lados da alta nobreza inglesa, fruto de um luxuoso matrimônio realizado em 1359 sob importantes auspícios políticos; apesar disso, contudo, diferentemente de muitas núpcias aristocratas do período, é dito que o duque e a duquesa de Lancaster tiveram um casamento feliz até a morte de Blanche em setembro de 1369, pouco depois do falecimento da avó e homônima de Philippa. Vítima da peste, a duquesa deixaria para trás um viúvo em profundo luto e três crianças sobreviventes das sete que dera à luz – Philippa, sua irmã Isabel (n. 1364, f. 1426) e o caçula Henrique (n. 1367, f. 1413). Após alguns anos de viuvez, João de Gaunt se casaria pela segunda vez com outra herdeira, a infanta castelhana Constança, com quem teria Catarina (n. 1373, f. 1418).

Blanche de Lancaster
Blanche de Lancaster

Paralelamente, contudo, o duque de Lancaster tinha um caso de longa data com Catarina Swynford, cunhada do famoso poeta Geoffrey Chaucer, com que ele tinha uma forte amizade e a quem encomendaria aquela que seria a primeira obra célebre de Chaucer, O Livro da Duquesa, provavelmente feito em homenagem à mãe de Philippa. O relacionamento extraconjugal de ambos, que começaria ainda durante a viuvez de João de Gaunt, entrando pelo matrimônio deste com Constança e culminando num casamento em 1396 e legitimação dos quatro filhos do casal, provocaria uma profunda vergonha em Philippa, potencializada pelo fato que a amante do pai era também sua governanta. Geoffrey Chaucer também seria um de seus tutores, participando daquela que seria uma educação notável para uma mulher no século XIV; além de bem versada em poesia, filosofia e teologia, Philippa também conhecia os escritores clássicos.

João de Gaunt
João de Gaunt

Como um dos principais comandantes militares ingleses, o duque de Lancaster passou significativa parte da década de 1370 liderando as tropas contra os franceses, naquela série de conflitos entre os dois reinos que futuramente seria conhecida como a Guerra dos Cem Anos. Antes de partir, porém, ele instalou a família no castelo de Tutbury, localizado no condado de Staffordshire. E foi naquele lugar que Philippa amadureceria como mulher e se prepararia para o casamento, inevitável para uma donzela em sua posição; assim, teve lições sobre heráldica e etiqueta de corte, além de conviver com os vários trovadores bancados por sua madrasta Constança. Logo os primeiros pretendentes apareceriam para os filhos de Blanche de Lancaster: enquanto a secundogênita Isabel se casaria com o conde de Huntingdon, o jovem Henrique ficaria prometido à jovem herdeira Maria de Bohun. Philippa, porém, não entrou em nenhum compromisso formal, apesar de conversas neste sentido terem ocorrido com o rei de França e o duque de Luxemburgo. Aparentemente, um destino mais solene fora reservado para ela.

A Invencível Armada e a Invasão da Inglaterra – parte IV

Ao alvorecer do dia 8 de agosto, o duque de Medina Sidónia procurou reorganizar a frota, mas a Invencível Armada já se espalhara em pânico por boa parte da costa francesa, embora as chamas tenham de fato provocado pouco dano físico aos navios. Ao perder sua coesão, a frota espanhola perdera seu principal trunfo perante os ingleses, que daí por diante têm a vantagem definitiva na batalha. Ao decorrer da manhã, eles cercaram os galeões portugueses na altura da cidade francesa de Gravelines, tirando-os pouco a pouco de batalha ao atacá-los simultaneamente com dezenas de navios e centenas de tiros. Todos os navios acabam destruídos, com exceção do galeão São Mateus – cuja tripulação rendeu-se – e do galeão São Felipe – cuja tripulação abandonou o navio antes da captura.

Isabel I de Inglaterra recebendo suas vitoriosas tropas em Tilbury
Isabel I de Inglaterra recebendo suas vitoriosas tropas em Tilbury

Com a perda de sua principal força e com o restante da frota em frangalhos, não restou alternativa para o duque de Medina Sidónia senão ordenar o retorno à Espanha, sendo seguidos de perto pelos ingleses que, contudo, não tinham mais munição para atacá-los. Para evitar possíveis emboscadas no Canal da Mancha, o comandante optou por contornar a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda, retornando pelo Mar do Norte numa viagem relativamente tranquila até 26 de agosto, quando um grande temporal se abateu sobre a fragilizada Armada, dispensando-a novamente. Muitos navios desapareceram, presumivelmente tendo sido afundados durante a tormenta. Os poucos sobreviventes apenas alcançariam novamente a Península Ibérica no início de setembro.

Representação moderna do rei Felipe II de Espanha recebendo a notícia da derrota da Invencível Armada
Representação moderna do rei Felipe II de Espanha recebendo a notícia da derrota da Invencível Armada

A derrota da Invencível Armada marcaria o início da supremacia inglesa na Europa, numa era conhecida como sendo a Era Dourada no período Tudor. Além disso, o lento declínio do império espanhol, que já ameaçava colapsar sobre seu próprio peso, tornou-se irreversível, num processo que começaria mais claramente a partir da morte de Felipe II em 1598 e a ascensão de seu filho Felipe III. Quanto ao recém-anexado Portugal, a perda de centenas de soldados e da parte militarmente mais forte de sua marinha marcou-se como um momento difícil na recém-instaurada União Ibérica. Um ano depois, aproveitando-se da fraqueza espanhola, os ingleses apoiariam uma tentativa de invasão do prior de Crato, mas não conseguiram tomar Lisboa e seriam derrotadas. De qualquer forma, aquele seria o mais forte desafio à dominação filipina desde 1580, o que ajudou a fragilizar o domínio espanhol sobre Portugal desde o início da união de ambos.

Para saber mais:

http://torredahistoriaiberica.blogspot.com.br/2011/01/invencivel-armada-espanhola-1588.html

http://www.areamilitar.net/HISTbcr.aspx?N=102

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/historia/30471/hoje+na+historia+1588++invencivel+armada+espanhola+e+arrasada+pelos+ingleses.shtml

A Invencível Armada e a Invasão da Inglaterra – parte III

No dia 31 de julho, ocorreriam os primeiros tiros entre espanhóis e ingleses. Um galeão português, chamado de São João, atrasara-se em relação ao restante da frota e foi atacado por alguns navios ingleses. O São João acabaria sendo socorrido por outro galeão português, o São Mateus, mas não antes que algumas centenas de tiros fossem disparados. No mesmo dia, o navio castelhano San Salvador sofreria uma explosão a bordo que mataria boa parte de sua tripulação e o tornaria vulnerável à captura por parte dos ingleses.

Dois dias depois, ventos inesperados empurrariam a frota espanhola diretamente para cima dos navios ingleses, o que causou uma série de violentos confrontos. Em determinado momento, o galeão português São Martinho se viu sozinho para lutar com vários galeões ingleses. A superioridade da marinha portuguesa nesta batalha é bem evidenciada pelo fato que, sem ajuda, o São Martinho conseguiu evitar que qualquer navio inglês se aproximasse, embora os tiros do adversário tivessem aberto furos no casco.

Representação da batalha do galeão português São Martinho com os navios ingleses
Representação da batalha do galeão português São Martinho contra os navios ingleses

No dia 5 de agosto, a frota espanhola finalmente conseguiu ancorar em Calais enquanto os ingleses, a oeste, reabasteciam-se de pólvora. Lá, o duque de Medina Sidónia foi informado que o duque de Parma só estaria pronto para se juntar a eles duas semanas depois, uma vez que apenas fora informado da aproximação da Armada poucos dias antes. No final do mesmo dia, os ingleses lançaram um ataque com navios incendiários, semeando o terror e a desorganização entre a frota espanhola, que se dispersou. Era o início do fim.