Maria Sofia de Neuburgo – parte II

Quem o monarca viu quando foi recepcionado por sua nova consorte na câmara do navio? Vestida em rico tecido branco incrustado com diamantes, Maria Sofia era loira de pele alvíssima, correspondendo assim aos padrões de beleza da época. Não há motivos, então, para crer que o rei tenha desgostado de sua escolha marital enquanto ocorria a cerimônia formal de casamento na capela real, pouco tempo após o desembarque. e nem durante as riquíssimas festas em comemoração e a consumação rápida do casamento que se seguiu. Tímida e devota, Maria Sofia trazia consigo a promessa de produção rápida de herdeiros para a necessitada dinastia de Bragança – e de fato, os entregaria com sua disciplina característica. Em 30 de agosto de 1688, exatamente um ano após sua entrada em Lisboa, a rainha daria à luz o príncipe D. João. O novo herdeiro da Coroa portuguesa seria celebrado com festas que durariam três dias; entretanto, o príncipe era notoriamente debilitado desde seu nascimento. Sua morte, ocorrida apenas dezoito dias após o parto de Maria Sofia, foi creditada pelo conde de Povolide como tendo ocorrido devido à forma como as damas alemãs da rainha haviam cuidado dele.

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Maria Sofia de Neuburgo

Provando sua fertilidade, em breve a rainha engravidaria novamente. Tendo-se em vista a morte precoce do última criança, contudo, tomaram-se precauções extras. Quando Maria Sofia entrou em trabalho de parto, nas primeiras horas da manhã do dia 22 de outubro de 1689, o duque de Cadaval enviou pedidos de prece a todos os conventos de Portugal pelo sucesso do nascimento. Além disso, quatro médicos atenderiam Maria Sofia durante o processo, e quando nasceu um menino poucas horas depois, foi lhe dado mel para prevenir certos males. As costumeiras salvas de artilharia foram vetadas no palácio real para não perturbar o recém-nascido, mas este novo príncipe D. João parecia ser mais robusto do que o falecido irmão mais velho. Quando ele foi batizado no novembro seguinte, sua meia-irmã D. Isabel já estava retida no paço do conde de Aveiras após adoecer com varíola. Sempre com saúde frágil, ela jamais se restabeleceria desta doença, falecendo logo no ano seguinte. A inquietação do casal régio com essa nova fragilidade na linha de sucessão portuguesa, porém, seria sanada em maio de 1691, quando nasceria o infante D. Francisco, nomeado com o tradicional título de duque de Beja. À essa altura, porém, já se iniciavam as tensões maritais entre D. Pedro II e Maria Sofia. O rei recaíra em suas costumeiras infidelidades.

Em contraste com a tranquilidade, e mesmo amor mútuo, que caracterizara o casamento com Maria Francisca de Saboia, a união de D. Pedro II com Maria Sofia de Neuburgo foi consideravelmente complicada, sendo bem mais fria e distante. Parte das dificuldades pode ser atribuída à personalidade da segunda rainha, considerada difícil para os padrões do século XVII. Em contraste com Maria Francisca, que costumava fechar os olhos às infidelidades do marido, Maria Sofia tinha tantos ciúmes do rei que o questionava frequentemente a respeito, causando-lhe aberto mau humor com a consorte. Em adição a isso, D. Pedro II censurava severamente certos hábitos de Maria Sofia, que gostava de jogar e de beber vinho, além de negar muitos de seus pedidos.

Em carta escrita a seu pai, Maria Sofia queixava-se abertamente da negligência de seu marido em Portugal e de seu fracasso em estreitar as relações diplomáticas entre seu reino e Neuburgo. Ao contrário do que seria de se esperar, D. Pedro II nunca mandou uma embaixada oficial, mesmo tendo diversas ocasiões para isso, o que indignava uma rainha bem consciente da nobre genealogia da Casa Wittelsbach. Em atitude oposta à que costumava ser dada às rainhas da Europa Central, D. Pedro II também não dava a Maria Sofia qualquer participação em seus negócios políticos, parecendo enxergá-la simplesmente como um meio para gerar filhos para a dinastia de Bragança. O comportamento do monarca mortificava ainda mais a rainha uma vez que ela tudo faria para agradar D. Pedro II, que em retorno só lhe daria profundos desgostos, incluindo diversos casos extraconjugais com damas de seu próprio séquito e mulheres do povo comum.

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D. João V de Portugal

Apesar das dificuldades do relacionamento pessoal do casal, porém, os filhos seriam gerados regularmente. Em março de 1695, nasceu D. Antônio, que viria a ser o irmão predileto do futuro D. João V, seguido logo no ano seguinte pela primeira filha de Maria Sofia, D. Teresa. A rainha teria mais dois filhos, D. Manuel e D. Francisca, antes de falecer devido a uma febre em quatro de agosto de 1699, apenas dois dias antes de seu aniversário de 33 anos. sendo sepultada no majestoso monastério de São Vicente com todas as honras apropriadas. Seu marido, D. Pedro II, morreria ainda viúvo em dezembro de 1706, provavelmente de uma doença do fígado. Nenhum dos dois, portanto, viveria para ver o casamento do herdeiro D. João com sua prima materna Maria Ana de Áustria, e a ascensão política de Portugal durante este rico reinado.

 

Para saber mais:

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

SILVA, Maria Beatriz Nizza de. D. João V. Círculo de Leitores, 2012.

 

 

Isabel de França – parte II

Atraente e inteligente, a rainha aparentemente tinha o amor do povo e de seu marido, muito embora Olivares procurasse estimular o que ele chamava de “ardores da pueril sensualidade” de Felipe IV, e, assim, afastar o perigo de uma maior influência de Isabel ao dividir os afetos do jovem rei. A rainha mesma era suspeita de não manter inteiramente seus votos de matrimônio. Em maio de 1622, quando um pequeno incêndio começou no meio da encenação de uma peça do conde de Villamediana, o próprio autor conduziu a rainha para segurança com uma proximidade que despertou suspeitas da corte. Pouco depois, ele foi assassinado, num crime que bem pode ter sido ordenado por Felipe IV em pessoa.

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Isabel de França

De qualquer forma, estes casos extraconjugais não atrapalhavam o casal real em continuar tentando produzir um herdeiro do trono. Em novembro de 1623, nasceria outra filha, seguida por outra menina dois anos depois; entretanto, as infantas Margarida Maria e Maria Eugênia também viveriam pouco. No ano seguinte, uma nova gravidez terminaria num parto prematuro, e em outubro de 1627 viria à luz Isabel Maria, mais uma filha de curta vida. A despeito das frequentes tragédias familiares, porém, o rei não abdicaria de suas várias amantes, e em abril de 1629 uma delas – a atriz Maria Calderón – teve o único filho ilegítimo que Felipe IV reconheceria como seu, chamado de João. Este nascimento colocaria, como era natural no período, grande pressão sobre Isabel, grávida na época; em outubro ela finalmente daria à luz o tão esperado menino, nomeado com o incomum nome de Baltasar.

A década de 1630 testemunharia mais nascimentos reais; em 1634, um menino – Francisco – que viveu pouco, seguido em 1636 por Maria Ana, que também teve falecimento precoce. Em 10 de setembro de 1638, nasceria uma menina que sobreviveu, a infanta Maria Teresa. Apenas cinco dias antes, nascera em França o primeiro filho sobrevivente do irmão de Isabel, Luís XIII, e Ana de Áustria, irmã de Felipe IV; provavelmente uma união entre as duas crianças já então foi considerada pelas Coroas. Nos anos seguintes, a rainha Isabel teria no mínimo dois partos prematuros, e não haveria mais crianças de seu casamento com Felipe IV.

Paralelamente ao processo de fim de sua importância reprodutiva, a rainha Isabel crescia em importância política. De acordo com a mentalidade da época, a produção de dois herdeiros vivos deve ter contribuído para aumentar a confiança do rei na capacidade governamental da consorte, embora também seja certamente provável que a doença progressiva do valido Olivares, junto com seus fracassos recentes em política externa e econômica, tenha ajudado neste processo. De fato, além de forçar a partida de Olivares da corte, ela pôde ser regente de Espanha enquanto seu marido lidava com a revolta catalã no início da década de 1640, mostrando de fato aptidão superior à do marido para lidar com questões burocráticas.

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Felipe IV de Espanha

O excesso de trabalho, contudo, piorou a frágil saúde de Isabel, que já sofria anteriormente de problemas no estômago. Em outubro de 1644, ela ficaria retida à cama. Sangrias foram realizadas, mas o estado da rainha apenas se agravava, e contra os desejos iniciais dela, seu marido foi chamado. Quando Felipe IV chegou à Madri, porém, o corpo de sua esposa já esfriava. Pouco antes de sua morte aos 41 anos de idade, Isabel de França despediu-se do príncipe Baltasar e da infanta Maria Teresa. Com medo de qualquer possível contágio, ela não teria deixado que eles se aproximassem, dizendo: “Rainhas havia muitas para Espanha, mas príncipes muito poucos”.

Suas palavras eram proféticas. Pouco mais de dois anos depois que a rainha foi sepultada vestida em um hábito da ordem de São Francisco, seu filho Baltasar padeceu subitamente. Felipe IV, além de ver o Portugal dos Bragança sair cada vez mais de seu alcance, ainda se encontrava sem herdeiro varão. Para procurar resolver tal questão, ele casou-se contra a vontade com a antiga prometida do príncipe, sua sobrinha Mariana de Áustria, em 1649, numa união que eventualmente lhe traria satisfação e outro príncipe: o futuro Carlos II. Seria com este deformado rei, contudo, que a dinastia dos Habsburgo espanhóis conheceria o seu fim e seria substituída pelo ramo da Casa Bourbon descendente da rainha Isabel por meio de sua filha Maria Teresa, rainha de França.

Para saber mais:

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2012.

CANTÓ, Pilar Perez et all. Rainhas de Portugal e Espanha – Margarida de Áustria e Isabel de Bourbon. Temas e Debates, 2015.

Isabel de França – parte I

Nascida em 22 de novembro de 1602 no castelo de Fontainebleau, Isabel de França foi a segunda criança (primogênita mulher) do casamento entre o rei Henrique IV e sua segunda esposa, Maria de Médicis. Sendo a filha legítima mais velha do monarca, ela recebeu o título honorífico de Madame Royale, sendo oficialmente desde cedo a dama mais importante da corte francesa depois da rainha. Tendo uma fértil mãe, Isabel cresceria com vários irmãos e irmãs, alguns dos quais desempenhariam importante papel na história europeia do século XVII – como seu irmão mais velho Luís, melhor conhecido como o pai do Rei Sol (1), e sua irmã caçula Henrietta, célebre por seu papel na Guerra Civil Inglesa. A jovem princesa também teria vários irmãos ilegítimos, frutos dos diversos casos extraconjugais paternos.

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A família de Isabel (c. 1607)

Em maio de 1610, quando Isabel ainda não completara oito anos de idade, Henrique IV sucumbiu a mais uma tentativa de assassinato, morrendo apenas um dia após a coroação de Maria de Médicis; em poucas horas, ela seria elevada à condição de regente do jovem rei Luís XIII, e continuaria no cargo até a maioridade do filho em 1617. Neste ano, porém, tanto o jovem monarca quanto sua irmã Isabel já estariam envolvidos em acertos nupciais com a Casa de Habsburgo. De fato, desde 1602 as Coroas de França e Espanha procuravam acertar uma aliança política-militar, a ser efetuada através de contratos nupciais, mas a frequente disputa pela hegemonia da Europa frequentemente atrapalhava tais negociações. A morte do popular rei francês, contudo, possibilitou que a Espanha fizesse sua jogada para procurar neutralizar a rival, propondo um enlace duplo: a ideia era que Luís XIII fosse casado com a infanta Ana e Isabel se unisse ao príncipe Felipe.

Embora as capitulações matrimoniais tenham sido confirmadas em agosto de 1612 e os casamentos fossem previstos para ocorrer logo no ano seguinte, as núpcias apenas seriam efetuadas realmente em outubro de 1615, após o qual as princesas foram devidamente trocadas na fronteira de Bidasoa e seguiram para seus novos reinos. Por que tal atraso ocorreu? Embora, claro, a idade dos jovens em questão com certeza tenha tido impacto no adiamento (2), não se pode subestimar o poder da oposição interna em Espanha em relação às uniões. Ao final, contudo, a razão de Estado acabou por se impor e os casamentos de presente ocorreram. Semanas depois, Isabel fez sua entrada em Madri, guiada por uma comitiva que continha o futuro conde-duque de Olivares e era liderada pelo próprio duque de Lerma, valido de Felipe III.

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A troca das princesas

O novo casal era, na verdade, composto por duas crianças, que tinham a maturidade física cuidadosamente observada à procura do melhor e mais seguro momento para a consumação, ocorrida apenas em fins de 1620, quando Isabel já se transformara numa bela mulher de expressivos olhos negros. A atração do príncipe era evidente, e rapidamente sua esposa estaria grávida, com a primeira filha de ambos nascendo já em agosto de 1621; a infanta Maria Margarida, porém, morreria com poucos dias. Nesta altura, Felipe já ascendera como rei de Espanha e Portugal com o falecimento precoce de seu pai homônimo. No início de seu governo, o novo rei estava às beiras de completar 16 anos, e em sua inexperiência governamental se apoiou fortemente no favorito Olivares, que se tornou também seu valido. Olivares, que aprendera bem as lições das disputas entre seu antecessor e Margarida de Áustria, restringiu o papel da rainha Isabel ao que ele acreditava ser o dever natural das rainhas: parir. E isso ela faria com regularidade nas duas décadas seguintes, embora seu papel mais importante perante o rei – fornecer um herdeiro para Espanha – acabasse tragicamente não sendo cumprido.

(1) Luís XIV.

(2) Durante a maior parte de 1613, Luís XIII e Ana de Áustria tinham 11 anos, Isabel tinha 10 e Felipe 8.

A rainha espanhola de França: Ana de Áustria

Nascida em 22 de setembro de 1601, Ana de Áustria (1) foi a primogênita do rei espanhol Felipe III e sua consorte Margarida, do ramo austríaco da família Habsburgo; até o nascimento de um irmão em 1605, ela seria a herdeira presuntiva dos tronos de Espanha e Portugal. Tendo uma vida familiar bastante íntima para os padrões da realeza do século XVII, ela era muito próxima à mãe, tendo herdado dela a forte religiosidade. A morte da rainha Margarida pouco depois de um parto em 1611 foi, portanto, um forte baque para a menina, que a partir daí se tornaria uma espécie de figura materna para os irmãos mais novos, além de tecnicamente a dama mais importante da corte que cercava Felipe III.

Aproximadamente na época em que o luto mais estrito começou a ser aliviado, em 1613, já haviam começado negociações mais sérias para um casamento entre a infanta e o jovem rei de França, Luís XIII, assim como uma união entre o herdeiro espanhol e Madame Royale (2), assegurando assim uma forte aliança política-militar entre ambos os reinos. Em realidade, a ideia inicial das primeiras núpcias datava quase que dos nascimentos de Ana e Luís, ocorridos com apenas cinco dias de diferença; astrólogos da época interpretaram a coincidência como um sinal de um elo já existente entre ambos. Apesar do Conselho de Estado espanhol discutir as implicações de tal matrimônio desde cedo, os enlaces só se tornaram oficiais e públicos em abril de 1612, depois que o embaixador francês pediu a mão de Ana em casamento em nome de Luís XIII, e a infanta passou a ser tratada já como rainha.

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Luís XIII de França

Um grande dote de 500.000 coroas, mais valiosas joias, foi acertado nos meses seguintes, e Ana renunciaria formalmente aos seus direitos sucessórios à Coroa de Espanha, embora segundo o contrato nupcial eles pudessem ser recuperados se ela enviuvasse sem ter tido filhos. Finalmente, em outubro de 1615, os casamentos foram celebrados, e no mês seguinte Ana e Isabel foram trocadas na fronteira de Bidasoa, após o qual seguiram para encontrar seus respectivos maridos. E como era a nova rainha de França? Sem ter o afamado maxilar da família tão pronunciado, ela era considerada bela em sua juventude, atraindo admiradores com sua aparência clara e loira; apesar disso, Luís XIII não ficou impressionado.

Como ambos mal haviam completado 14 anos na época das núpcias, não necessariamente a consumação física foi imediata, embora a preocupação da Coroa francesa em assegurar a validade da união – e o dote de Ana – possa ter justificado o evento na época. De qualquer maneira, a mãe do rei, Maria de Médicis, continuou a se portar como a principal dama da corte. Como Luís XIII não dedicava muita atenção à esposa, os primeiros anos dela em França foram passados principalmente entre companhias espanholas. Apenas dois anos depois, na sequência de um golpe que retirou a influência governamental da regente Maria, foi que o casal real se aproximou. Influenciada pela retirada de suas damas de companhia espanholas e substituição delas por nobres francesas, Ana passou a seguir mais a etiqueta do reino onde se casara, o que pode ter servido para melhorar seu favor perante o rei.

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Uma jovem rainha Ana

Apenas em 1622, porém, foi que ela ficou grávida pela primeira vez, numa gestação que terminou espontaneamente ainda no início. Pouco depois, outra gravidez foi interrompida após uma queda da rainha. Mais dois abortos seriam registrados nos anos seguintes, embora a possibilidade que fossem gestações histéricas motivadas por ansiedade deva ser considerada. Os repetidos fracassos teriam desagrado imensamente o rei, que inclusive teria culpado a rainha pela segunda perda.

Neste contexto, a ascendência do cardeal Richelieu como principal conselheiro de Luís XIII causaria tensões. Nascido Armand Jean du Plessis em 1585, em Paris, ele avançou politicamente durante a regência de Maria de Médicis, tornando-se em poucos anos bastante influente, principalmente depois do seu cardinalato em abril de 1622, ocorrido pouco depois da morte do antigo favorito do rei, o duque de Luynes, que fora responsável pela aproximação de Luís e Ana anos antes. Em paralelo com o processo de centralização do poder real em França, Richelieu também defendia uma atitude de oposição ao grande poder da Casa Habsburgo na Europa – o que significava uma relação potencialmente difícil com Ana de Áustria.

De fato, os anos seguintes da consorte seriam marcados pela oposição política ao primeiro-ministro do rei, num cenário em que continuava estéril. Em 1635, França declarou guerra à Espanha, e não é improvável que Luís XIII estivesse considerando pedir uma anulação de suas núpcias, principalmente depois que recaíram sobre Ana suspeitas de colaboração com o inimigo em 1637; no caso, informações secretas teriam sido passadas a Felipe IV em uma correspondência pessoal da rainha francesa. A acusação teria partido do próprio Richelieu; embora Ana fosse eventualmente perdoada, sua relação com o rei seria danificada em caráter permanente. E foi neste clima que Ana de Áustria ficou grávida mais uma vez; em 5 de setembro de 1638, nasceu o futuro Luís XIV, poucas semanas antes que a rainha completasse 37 anos de idade. Como isso aconteceu? O pai era mesmo seu marido?

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A rainha grávida

Segundo a história tradicional propagada oficialmente pelos Bourbon, a concepção do herdeiro ocorrera depois que uma tempestade impedira Luís XIII de viajar, obrigando-o a dormir com sua esposa no Palácio do Louvre; nove meses depois, Ana de Áustria deu à luz um menino saudável, devidamente cognominado de “Dieudonne” (3). Contudo, provavelmente o milagre não deve ter ocorrido bem assim. Embora o histórico gestacional complicado da rainha, junto com a sua idade mais avançada, torne o evento improvável para o período, o fato é que um médico que acompanhava a saúde real de forma meticulosa anotara alguns anos antes que Ana e o rei costumavam ter relações sexuais ao menos duas vezes por semana.

Em agosto de 1637, um dos motivos pelos quais Luís foi convencido a perdoar Ana foi a crença nele incutida por Richelieu que as conspirações contra seu governo – lideradas algumas vezes por Gastão, duque de Orléans e irmão mais novo do monarca – apenas acabariam com o nascimento de um príncipe. Neste sentido, fosse o rei bissexual, homossexual ou apenas desinteressado por Ana, isto não importava no panorama dinástico do momento, que exigia que Luís XIII voltasse à sua rotina matrimonial de antes. Assim, o comparecimento frequente do rei à cama de Ana de Áustria torna desnecessária, além de perigosa, a utilização de outros homens para fecundar a rainha. De qualquer maneira, os candidatos mais célebres para o cargo, como por exemplo o futuro favorito Mazarin, sequer se encontravam em França quando a gravidez da consorte começou, e o jovem Luís compartilharia uma semelhança física em demasia com o irmão mais novo Felipe para que ambos fossem apenas meios-irmãos.

Seguindo o modelo familiar de sua infância em Espanha, a rainha Ana criou os filhos com proximidade pouco usual para o período. Poucos meses antes do quinto aniversário do primogênito, a frágil saúde de Luís XIII cedeu e ele faleceu, deixando como seus desejos finais a constituição de uma regência sem a presença de sua esposa. Ana, porém, tendo o Parlamento ao seu lado, descartou este pedido do testamento e tornou-se regente solo de Luís XIV, sendo oficialmente auxiliada pelo cardeal Mazarin. Nascido Giulio Raimondo em 1602, ele era um nobre italiano com longo histórico de serviços ao rei francês que se tornou pupilo de Richelieu, sucedendo-o como principal ministro após a morte deste em 1642. Caindo nas graças da rainha Ana, ele se tornaria o governante de fato do reino após a morte de Luís XIII, e em pouco tempo se mudaria para aposentos próximos ao da regente no Palais Royal. Em pouco tempo, começariam a circular rumores que ambos eram amantes, e até mesmo marido e mulher devido a uma união secreta.

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Cardeal Mazarin

O favor que Mazarin desfrutava perante a rainha, contudo, não era partilhado por grande parte dos nobres franceses, ou mesmo pela população em geral quando o cardeal começou a cobrar multas de quem construísse residências fora dos muros de Paris, em 1644. Quatro anos depois, para continuar pagando as despesas da longa guerra contra os Habsburgo espanhóis, Mazarin tentaria cobrar novos impostos, assim como limitar o poder dos deputados pela criação de novos departamentos de Estado. Quando o Parlamento se opôs a isso e apresentou uma série de propostas de reformas, Mazarin e a rainha ordenaram a prisão de seus líderes. E foi quando a população de Paris se revoltou, erguendo barricadas nas ruas e forçando a fuga de Ana e seu filho Luís da cidade.

Com tréguas, brutalidades e fugas de seus principais personagens, incluindo Mazarin, a guerra civil francesa conhecida como Fronda apenas terminaria quando Luís XIV alcançou a maioridade em 1652 e retornou à Paris, tendo sua mãe como grande influência em seu conselho real; em pouco tempo, ele também chamaria Mazarin de volta do exílio forçado. Apesar de toda a resistência, a autoridade real não apenas retornara intacta como, nos próximos anos, seria incrementada. Em 1660, um ano depois da paz com Espanha, o jovem rei se casaria com sua prima Maria Teresa, única filha sobrevivente do casamento do irmão de Ana de Áustria, Felipe IV, com a princesa francesa Isabel, numa celebrada união que no fim do século daria origem à Guerra de Sucessão Espanhola.

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A atriz June Temple como Ana de Áustria em Os Três Mosqueteiros (2011)

No mesmo ano do nascimento do primeiro filho do casal real, Mazarin faleceria. Pouco depois, Ana se afastaria da política e se refugiaria no convento de Val-de-Grâce, onde os primeiros sintomas do câncer se manifestariam dois anos depois. Ana de Áustria, a rainha espanhola de França, morreria em 20 de janeiro de 1666, ainda com sua fama controversa; em menos de dois séculos, Alexandre Dumas se serviria dela para tornar a consorte um personagem imortal da literatura no clássico Os Três Mosqueteiros.

(1) Embora tecnicamente uma infanta de Espanha, tendo nascido em Valladolid, Ana é conhecida até hoje como “de Áustria” devido à origem de sua Casa.

(2) Título honorífico pelo qual era conhecida a filha mais velha do rei francês. No caso, tratava-se de Isabel, a primogênita mulher legítima de Henrique IV.

(3) Literalmente, “dado por Deus”, mas muitas vezes traduzido como ”presente de Deus”.

Para saber mais:

http://www.biography.com/people/anne-of-austria-9185816

http://bjws.blogspot.com.br/2015/10/biography-queen-anne-of-austria-spain.html

http://www.sandragulland.com/the-conception-of-louis-xiv/

http://www.sandragulland.com/who-was-louis-xivs-father-the-question-that-never-goes-away/

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2006.

 

A rainha do Piedoso: Margarida de Áustria – parte II

Depois de obter o consentimento da religiosa Margarida, que estaria mais interessada numa vida conventual, o contrato nupcial foi assinado em setembro de 1598, com um dote sendo combinado em 100.000 escudos, além de mais 50.000 escudos em joias, fornecidas pelo próprio rei. Poucas semanas depois, a noiva pôs-se a caminho de Espanha, já estudando a língua com a qual se comunicaria com o futuro marido (1). Enquanto sua comitiva passava pela cidade de Vilach, soube-se do falecimento de Felipe II; a partir desse momento, Margarida era tecnicamente a rainha de Espanha, e alguns serviçais passaram a dirigir-se a ela com tal título. Ela, contudo, manifestou a intenção de apenas passar a utilizá-lo depois de seu casamento oficial com o agora Felipe III. Apenas em 11 de abril do ano seguinte, contudo, ambos teriam o primeiro encontro em Valência. De acordo com o cronista Cabrera de Córdoba, antes mesmo o rei vira Margarida secretamente entre outros elementos de sua comitiva e mostrara-se contente por ter uma prometida bela e graciosa. Margarida, por sua vez, escreveria ao irmão Fernando que gostara do alourado rei depois de superar sua vergonha inicial.

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Felipe III de Espanha/II de Portugal

O matrimônio ocorreria por fim no dia 18, numa luxuosa cerimônia onde a rainha trajava um vestido de ouro, prata e pedras preciosas. As festas se seguiriam por uma semana, com direito a um torneio que custaria 30.000 ducados. Somente em maio o casal real partiria da cidade, iniciando um périplo por Espanha que só terminaria dez meses depois. Nesta altura, um laço afetivo significativo já surgira entre Felipe e Margarida; com exceção de uma filha ilegítima atribuída ao rei pelo núncio Camilo Caetano, não há traços reais de infidelidade por parte do monarca – o que refletia, aliás, a tendência de seu pai na maturidade (2). Apesar disso, seria apenas em finais de 1600 que a tão esperada gravidez da rainha ocorreria, percebida quando a consorte começou a passar mal durante a mudança da corte espanhola para Valladolid. Apesar de toda a insistência do valido (3) Francisco Gómez de Sandoval y Rojas, o duque de Lerma, Margarida não aceitou se mudar para o palácio de Mendoza-Cobos para dar à luz, preferindo fazê-lo na residência do conde de Benavente, apesar desta ser teoricamente menos confortável. Talvez a disputa crescente de Margarida com Lerma pela influência perante o rei tenha tido mais influência nesta questão do que o precedente da morte da princesa Maria de Portugal de parto no palácio indicado; afinal, o duque já tentara mudar o confessor austríaco da rainha por um jesuíta castelhano, e, além disso, era suspeito de verificar a correspondência da consorte.

De qualquer maneira, quando Margarida deu à luz no dia 22 de setembro, o rei estava ao seu lado, apoiando-a durante o trabalho de parto; era uma saudável menina, batizada em outubro com o nome de Ana Maurícia (4). Seria o duque de Lerma quem teria a honra de transportar a primogênita real até a igreja, e seria a sua esposa a madrinha da menina. Mesmo com todas as celebrações, a urgência por um príncipe continuava presente, principalmente depois que uma nova gestação da rainha deu origem à outra menina. Nascida em 1 de fevereiro de 1603, a infanta foi batizada em homenagem à bisavó paterna, a doente imperatriz viúva Maria de Áustria, que exercera considerável influência sobre Felipe III. A menina, contudo, não era robusta como a irmã mais velha, e faleceria pouco mais de um mês após o nascimento.

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Margarida de Áustria

Depois de dois consecutivos fracassos de Margarida para dar um herdeiro homem ao marido, sua rivalidade com Lerma ficou exposta no episódio da prisão da aia de infanta Ana, a marquesa do Valle. Depois que ela foi encarcerada numa fortaleza e processada juntamente com uma dama de companhia da rainha, os papéis da marquesa revelaram que ela era antiga informante do duque, mas passara para o lado da rainha. Provavelmente temeroso com as possíveis revelações de sua antiga aliada, Lerma apertou a vigilância dos aposentos de Margarida, determinando um novo protocolo. Agora, qualquer coisa entregue à rainha, mesmo comida, deveria passar primeiro pela camareira-mor, D. Catarina de Sandoval, condessa de Lemos e irmã do duque; além disso, apenas o mordomo-mor – entre os quais estava o próprio Lerma -, a camareira-mor a as damas de companhia poderiam ter acesso à área privada dos aposentos reais.

Neste cenário compreensivelmente angustiante, Margarida ficou grávida pela terceira vez. No dia 8 de abril de 1605, uma Sexta-Feira Santa, num parto rápido no cair da noite, nasceu o tão esperado menino, causando grandes festas e a libertação comemorativa de presos na cidade. Embora fosse esperado por muitos que o herdeiro fosse chamado de Fernando ou Carlos, a criança foi batizada em maio com o mesmo nome do pai. Novamente, foi Lerma quem o conduziu à Igreja, embora o padrinho fosse o príncipe de Saboia e a irmã mais velha do menino, que ainda não tinha sequer quatro anos de idade. Mesmo com o nascimento do herdeiro, contudo, Margarida estava infeliz e fazendo comentários sobre como preferia estar num convento a ser rainha. Não à toa, foi nesta época que Lerma atingiria o auge de seu poder como valido, embora a volta da corte para Madri marcasse um afastamento temporário do cargo – embora não de seus privilégios e rendas.

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Infanta Ana, a primogênita do casal real

Logo no ano seguinte, nasceria outra criança, batizada com o mesmo nome de sua falecida irmã. Em 1607, nasceria outro menino, Carlos, e em 1609 viria à luz o infante Fernando. No ano seguinte, nasceria uma infanta batizada em homenagem à própria rainha, seguida pouco mais de um ano depois pelo caçula Afonso. Cerca de duas semanas após este último parto, a rainha Margarida faleceria com apenas 26 anos, vítima de uma infecção pós-parto. O rei ficou arrasado com a morte da amada esposa, e se referiria a ela como “santa” até sua própria morte em 1621.

(1) Anteriormente, Margarida sabia apenas seu nativo alemão e latim.

(2) Felipe II só tivera casos extraconjugais registrados durante sua juventude, num período que abarca as núpcias com Maria de Portugal e Maria de Inglaterra. Durante as uniões com Isabel de Valois e Ana de Áustria não parece ter existido quaisquer amantes.

(3) Favorito real responsável pelo governo.

(4) Ana pela sua avó paterna e Maurícia por ter nascido no dia de São Maurício.

Para saber mais:

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

A rainha do Piedoso: Margarida de Áustria – parte I

Nascida no dia de Natal em 1584, Margarida de Áustria era mais uma das muitas meninas que vieram do casamento entre Carlos II, arquiduque de Áustria – terceiro filho de Fernando I, Sacro Imperador Romano e irmão mais novo de Carlos V -, com sua sobrinha Maria Ana de Bavária. Quando Margarida ainda era uma criança, seu pai faleceu, deixando a esposa grávida e mais doze filhos e filhas, incluindo seu herdeiro, Fernando II, que somente tinha doze anos quando sucedeu ao pai. A morte do arquiduque, contudo, não diminuiu o valor de Margarida e suas irmãs no mercado matrimonial europeu; afinal, elas ainda eram primas do Sacro Imperador Romano Rodolfo II, além de pertencentes à poderosa Casa de Habsburgo. Inclusive, quando as negociações para casar a jovem Margarida com o herdeiro do trono espanhol começaram, sua irmã mais velha Ana já era casada com o rei de Polônia, Sigismundo III; depois da morte desta, outra irmã, Constança, a seguiria como rainha.

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Felipe II de Espanha

Em verdade, não importava tanto qual das filhas ainda solteiras da arquiduquesa viúva Maria Ana seria a futura rainha de Espanha; afinal, não era como se Felipe II tivesse muitas opções de Casas para casar seu filho. Portugal, que por tanto tempo procurara noivos em Espanha, estava agora fora do jogo, tanto pela disputa dinástica ainda fresca entre os Bragança e os Habsburgo (1) quanto por uma questão financeira de rendimentos, considerada desvantajosa comparada com, por exemplo, Casas italianas ou mesmo castelhanas. Inglaterra, liderada por Isabel I, também não apresentava noivas viáveis, assim como Escócia e França, cujos monarcas não tinham filhas legítimas. Entre os principados italianos, contudo, uma boa opção teórica estava em Saboia; pouco antes do nascimento de Margarida, entretanto, ali fora casada a filha mais nova de Felipe II, a infanta Catarina Micaela. Em contraste, o ramo austríaco dos Habsburgo trazia consigo, além do ideal de fortalecimento dinástico, uma promessa de fertilidade: a mãe de Margarida tivera nada menos do que quinze crianças, das quais boa parte sobrevivera. Num tempo em que os antecedentes familiares eram julgados como fundamentais para prever a capacidade reprodutiva da esposa, Margarida e suas irmãs estavam muito bem situadas.

De fato, ao menos desde 1593 a ideia já passava pela cabeça de Felipe II, uma vez que foi aproximadamente nesta época que negociações da Casa de Bragança para o matrimônio do duque, D. Teodósio, com uma das irmãs de Fernando II foram interrompidas pelo rei espanhol, que anteriormente apoiara a união. O que num primeiro olhar parece uma discordância matrimonial superficial entre Felipe II e a duquesa viúva, D. Catarina, ganha toda uma nova dimensão ao observar-se que, caso o jovem duque tivesse atingido o intento, ele seria em poucos anos o cunhado do rei de Espanha e Portugal. Nesta época, retratos de três das irmãs – Catarina, Gregória e Margarida – chegaram à corte de Felipe II para inspeção; em 1595, o embaixador de Veneza já falava em um casamento do príncipe Felipe com uma das jovens, embora sem especificar qual delas. Como, então, Margarida acabou como a consorte escolhida?

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Maria Ana de Bavária

Em sua biografia de D. Felipe II, a historiadora Fernanda Olival fornece algumas narrativas sobre a questão. Segundo o cronista Gil Dávila, por exemplo, teria sido perguntado ao príncipe qual das donzelas era a mais bonita, ao qual ele respondera que esse julgamento cabia à Sua Majestade; Felipe II, então, selecionou Catarina, a mais velha. Já outra história conta que a escolha teria sido feita primeiramente pela infanta Isabel, irmã mais velha do príncipe, que optou pela mais nova, Margarida. Estes textos, contudo, ignoram que a primeira escolha do rei fora Gregória, com ou sem a anuência do filho (2), muito embora aparentemente esta arquiduquesa fosse considerada deformada. De qualquer maneira, Gregória morreu em setembro de 1597. Quase que de imediato, suas irmãs Leonor e Margarida foram colocadas à disposição de Felipe II para substituí-la. A mãe delas, Maria Ana, estaria tão ansiosa para não perder a oportunidade de encaminhar melhor a vida dos filhos que inclusive se mostrava receptiva à ideia de mandar as duas jovens para a corte de Felipe II para que lá fosse feita a escolha. Embora isso não ocorresse, eventualmente a mais bela das irmãs – Margarida – seria selecionada.

(1) Crise Sucessória Portuguesa de 1580.

(2) Embora Olival argumente que a escolha por Gregória apenas ocorreu devido ao falecimento precoce de Catarina, o fato é que esta arquiduquesa morreu ainda solteira dois anos depois da irmã mais nova, em 1599. Isto aponta para uma escolha mais pessoal do rei (talvez guiado pelos retratos enviados anteriormente) ou, o que parece mais provável, para uma escolha precoce da família em enviá-la para a vida religiosa, como ocorreria mais tarde com sua frágil irmã Leonor.

A estrela de Velásquez: Margarida Teresa de Habsburgo

Nascida em 12 de julho de 1651, a infanta Margarida Teresa foi a primogênita do casamento do rei Felipe IV de Espanha com Mariana de Áustria, que também era sua sobrinha. Margarida tinha uma meio-irmã mais velha, Maria Teresa, filha da falecida rainha Isabel de França, que seria a herdeira presuntiva do trono espanhol enquanto seu pai não tivesse um novo filho homem com a segunda esposa (1). Neste sentido, pode-se entender o motivo das negociações para casar Maria Teresa com o rei francês, Luís XIV, só engrenarem de verdade após o nascimento de um príncipe em 1657. Apesar disso, os direitos sucessórios da infanta foram oficialmente retirados, embora a validade de tal renúncia dependesse de um dote que jamais foi integralmente pago aos franceses. Assim, a união das coroas de Espanha e França era uma possibilidade real quando Felipe IV faleceu em setembro de 1665; de seus três meninos sobreviventes com Mariana de Áustria – Felipe, Fernando e Carlos -, apenas o último ainda vivia na época, e era uma criança bastante doente que só conseguiria andar aos oito anos de idade.

Neste cenário de crise, é fácil compreender o motivo pelo qual o matrimônio da segunda infanta foi cuidadosamente pensado desde muito cedo. Como forma de garantir uma alternativa genuinamente Habsburgo contra os possíveis pretendentes Bourbon ao trono de Espanha, Margarida Teresa ficou comprometida com o Sacro Imperador Romano, Leopoldo I, que era ao mesmo tempo seu tio materno e primo paterno, além de onze anos mais velho, o que impossibilitava qualquer consumação física enquanto as devidas dispensas papais não fossem providenciadas e a noiva fosse madura. Enquanto o primeiro ponto era relativamente fácil de ser arranjado, nada menos do que tempo poderia resolver o segundo; para acompanhar o crescimento de Margarida, a corte austríaca dependeria de constantes retratos enviados pelos espanhóis, executados pelo pintor Diego Velásquez.

Hoje considerado uma dos principais representantes artísticos da chamada Era Dourada Espanhola, Diego Rodríguez de Silva y Velásquez nascera em Andaluzia em 1599 e ainda jovem se destacara entre seus pares, tornando-se rapidamente um favorito de Felipe IV e o principal responsável pelos retratos de sua família. Quando Margarida nasceu em 1651, ele já estava mais do que consagrado na corte espanhola, e foi nesta posição que ele pintou o que é considerada sua maior obra: Las Meninas (2). Terminada em 1656, a pintura traz em seu centro a infanta Margarida – a esta altura com quatro ou cinco anos de idade -, cercada por suas damas de companhia. Também se encontram no primeiro plano da cena dois anões ricamente vestidos. Ao fundo, do lado direito, aparece uma mulher vestida como freira – possivelmente a governanta da infanta – acompanhada por um homem da corte. Ainda mais ao fundo, outro cavalheiro observa a cena. Não é evidente se ele está entrando ou saindo do aposento.

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Las Meninas

O diferencial do quadro, porém, está do lado esquerdo, onde aparece o próprio Velásquez, que fita o espectador enquanto parece retratar alguém; refletido num espelho ao seu lado, está o casal real, que seria então o assunto da obra em questão. Apesar disso, o ângulo da representação parece algo estranho, o que alimenta a controvérsia que a representada seria mesmo a infanta. Neste caso, qual seria o significado da presença de Felipe IV e Mariana de Áustria na pintura? As incessantes análises da obra mostram que esta e outras questões sobre Las Meninas ainda podem ser discutidas por muito tempo.

Velásquez ainda retrataria a infanta em outras ocasiões, como nas obras Margarida Teresa em Vestido Azul (1659) e Margarida Teresa em Vestido Rosa (1660), este terminado no mesmo ano da morte do pintor. Após poucos anos, Felipe IV também faleceria. Meses depois, ainda enlutada, Margarida viajaria para finalmente casar-se com o tio; as extravagantes comemorações posteriores durariam nada menos do que dois anos. De constituição frágil e aparência pouco atrativa, Leopoldo I era profundamente religioso e bastante culto, sendo fluente em várias línguas e interessado nas artes, principalmente música. Estes eram interesses que ele compartilhava com a jovem esposa, com quem manteve uma relação próxima e um casamento surpreendentemente feliz. Em pouco tempo, Margarida daria à luz seu primeiro filho, que não viveria muito. No mínimo mais três gestações se seguiriam, mas apenas uma filha – Maria Antônia – sobreviveria.

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Margarida Teresa em Vestido Azul

Apesar de sua graciosidade, representada tantas vezes por Velásquez, Margarida também tinha uma saúde frágil, uma infeliz herança de décadas de casamentos consanguíneos entre os Habsburgo. A série de gestações pela qual passou, possivelmente enquanto seu corpo ainda não estava maduro por completo para a maternidade, apenas piorou seu estado. De forma previsível, sua morte ocorreria pouco depois de um aborto ou parto prematuro em 12 de março de 1673. Faltavam poucos meses para que ela completasse 22 anos de idade. Arrasado, mas ainda sem um herdeiro, seu marido se casaria de novo alguns meses depois, mas este segundo matrimônio também não produziria meninos. Seria apenas nas terceiras núpcias de Leopoldo I que ele seria pai dos futuros imperadores José I e Carlos VI, este último pai da ilustre imperatriz Maria Teresa. Sua única filha com Margarida, contudo, teria uma vida breve e infeliz. Herdeira da pretensão de sua mãe ao trono de Espanha, Maria Antônia morreria ainda antes do doente tio Carlos II, cujo falecimento em 1700 seria o gatilho para a Guerra de Sucessão Espanhola.

(1) O único filho homem sobrevivente de Isabel de França com o rei fora Baltasar Carlos, que morrera alguns anos depois de sua mãe.

(2) Expressão de origem portuguesa que designa as acompanhantes reais.

Para saber mais:

http://viola.bz/short-life-of-princess-infanta-margarita/

http://www.habsburger.net/en/persons/habsburg/margarita-teresa-spain?language=en

http://www.sabercultural.com/template/obrasCelebres/AsMeninas.html

http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2013/06/as-meninas-de-diego-velasquez-analise.html

Catarina de Áustria – parte VII

Depois disso, a rainha permaneceria como regente por mais dois anos, até que em fins de 1563 ocorreu sua súbita e controversa renúncia após a vitória portuguesa sobre os mouros no cerco da praça de Mazagão. Num movimento bastante incompreensível diante da possibilidade de capitalizar para si o triunfo conquistado, D. Catarina convocou os Três Estados para anunciar sua decisão em ceder o poder para o cunhado. Todos foram tomados pela surpresa, incluindo D. Henrique. Afinal, apesar dela ter sido de fato criticada por sua demora em socorrer os portugueses durante o cerco, a regente ainda contava com apoio de vários e fiéis partidários. A decisão, contudo, era definitiva, e seria mesmo D. Henrique o novo regente, apesar do nome de D. Maria, duquesa de Viseu, ter circulado entre alguns círculos. D. Catarina ainda manteria a curadoria e a tutoria.

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Isabelle Adjani interpretando Margarida de Valois no filme A Rainha Margot (1994)

A partir daí, o poder da rainha viúva se manteria basicamente em procurar continuar influente perante o jovem neto e ajudá-lo em negociações matrimoniais. Principalmente no segundo caso, ela foi com frequência desafiada por D. Henrique. Durante a regência do último, encerrada em 1568, negociações com a França haviam começado para casar o rei português com a princesa Margarida, que era apenas um ano mais velha do que ele. Com o avanço do movimento protestante em França, porém, D. Sebastião mostrava-se reticente; a reputação dissoluta de Margarida também não auxiliou. No final, as conversas permaneceram indefinidas, e, como meio de tentar conter os confrontos religiosos franceses, ela foi casada com Henrique de Navarra em 1572.

Neste contexto de naufrágio do projeto matrimonial francês, D. Catarina insistiria ainda mais na ideia de união entre D. Sebastião e a primogênita de Felipe II de Espanha, a infanta Isabel. Estas núpcias também eram, aliás, muitíssimo do agrado de D. Sebastião. Interpretando hoje a proposta sem levar em conta alguns eventos que não poderiam de fato ser previstos na época, o casamento não era realmente uma má ideia. Embora um casamento francês pudesse colaborar para tornar Portugal mais independente do ponto de vista político, manter o padrão matrimonial com Espanha talvez fosse, além de mais prático, conveniente; até aquele momento, afinal, a infanta Isabel era a herdeira da Coroa espanhola. Mesmo se o rei Felipe conseguisse produzir um herdeiro homem em seu quarto casamento, contudo, a menina ainda seria a filha mais velha do prestigioso monarca e sobrinha do Sacro Imperador Romano Maximiliano II. Em muitos sentidos, se tratavam de núpcias bastante vantajosas para os padrões do século XVI, embora a prospectiva noiva ainda fosse apenas uma criança.

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A infanta Isabel aos 13 anos de idade

De qualquer forma, mesmo se a misteriosa doença de D. Sebastião não fosse já um fator de complicação para negociações matrimoniais, as intenções do próprio rei se dirigiam cada vez mais para a guerra contra os infiéis em África. Até mesmo o pedido da mão da infanta Isabel a Felipe II inscreve-se no sentido de obtenção de ajuda militar para a guerra santa. Catarina se opunha ao projeto do neto de liderar pessoalmente esta empresa militar, mas D. Sebastião não dava ouvidos aos conselhos da avó, de quem se afastava cada vez mais. E foi aflita, cada vez mais doente e com dores. que ela recebeu a confirmação da intenção de seu neto de ir guerrear em África em 5 de fevereiro de 1578.

Em 10 de fevereiro, a rainha viúva passou várias horas em estado comatoso e recebeu a extrema unção. Sabendo do estado da avó, o rei foi ao paço dela, e lá já se encontrava quando D. Catarina recobrou a consciência. Reconhecendo-o, ela lhe deu sua benção. Antes de perder a fala, a rainha viúva teria mais uma vez implorado ao neto que não fosse à guerra. A morte, contudo, só viria no dia 12. Sem pompa, ela seria enterrada junto ao marido no mosteiro de Jerônimos. Depois de manter-se recluso por alguns dias em luto rigoroso, D. Sebastião voltou aos preparativos de sua empresa militar, que ocorreria finalmente alguns meses mais tarde. Com sua morte pouco menos de um mês depois de completar 71 anos de idade, Catarina de Áustria não viu a tão planejada união de todas as Coroas ibéricas por sua família, mas também foi poupada de testemunhar a extinção de sua linha e da Casa de Avis poucos meses depois.

Para saber mais:

Sobre a Revolta das Comunidades de Castela: http://www.tordesillas.net/webs/inicio.php?lang=por&id=105&cont=1

BRAGA, Paulo Drumond. D. João III. Lisboa: Hugin, 2002.

BUESCU, Ana Isabel. Catarina de Áustria, Infanta de Tordesilhas, Rainha de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2007.

PITTA, Larissa de Andrade. D. Catarina de Habsburgo e a política de casamentos dinásticos entre Portugal e Espanha (1540-1554). Monografia (bacharelado em História) – Instituto de História, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2014.

Catarina de Áustria – parte VI

A pouca idade de D. Sebastião tornava inevitável que uma regência fosse necessária por alguns anos; como mãe do jovem monarca, D. Joana seria a candidata mais evidente, mas já não se encontrava em Portugal havia muito. Viúva, o destino da princesa dependia novamente dos desejos de seu pai, o poderoso Carlos V, e a vontade dele era que Joana voltasse para Espanha para servir como regente na ausência de seu irmão Felipe, que em breve se casaria com a rainha Maria de Inglaterra. A decisão do imperador causou mal estar na corte portuguesa; pelo lado político, D. João III via frustrados seus próprios planos em casar o irmão D. Luís com a soberana inglesa e sua irmã caçula D. Maria com o príncipe Felipe, e pelo lado sentimental, os monarcas exprimiram sua preocupação em deixar praticamente órfã uma criança tão pequena. De qualquer maneira, a princesa Joana partiu em maio de 1554.

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D. Sebastião enquanto criança

Os anos seguintes trariam mais perdas à rainha D. Catarina: em abril de 1555, faleceu em Tordesilhas a mãe que ela jamais vira novamente em 30 anos, a doente rainha Joana. Em novembro de 1555, morreu seu cunhado, o infante D. Luís, que tinha com Catarina uma relação algo tensa desde as negociações frustradas de matrimônio com sua sobrinha anos antes. Em fevereiro de 1558, falecia sua irmã mais velha e antecessora no posto de rainha de Portugal, Leonor. Em outubro do mesmo ano, morreu outra irmã, Maria, seguida logo no mês seguinte pelo desaparecimento de seu irmão mais amado, Carlos V, com quem Catarina procurara manter uma correspondência constante desde o primeiro encontro de ambos em 1516.

A morte mais importante do ponto de vista político e pessoal, entretanto, já ocorrera em 11 de junho de 1557; após um agravamento súbito de uma doença antiga, faleceu D. João III em Lisboa. Do ponto de vista puramente governamental, o desaparecimento não significou em princípio uma mudança imediata; afinal, a doença do rei, visível desde 1550, apenas tornara mais visível o protagonismo da rainha. A quebra dos escudos do falecido monarca em 14 de junho, contudo, tornou inevitável a tensão – quem seria o regente do jovem D. Sebastião? Pelo costume, o posto pertencia ao parente homem mais próximo do monarca, no caso o infante cardeal D. Henrique, último dos filhos de D. Manuel I que ainda vivia. Regências femininas, embora não uma novidade na história portuguesa – basta lembrar o precedente imediato de Leonor de Aragão, consorte de D. Duarte e mãe de D. Afonso V – não costumavam conseguir o apoio político necessário para serem bem sucedidas. Na reunião do conselho régio que se seguiu imediatamente à quebra dos escudos, a rainha, que já partilhava do governo há vários anos, apresentou uns apontamentos de D. João III que supostamente indicavam o desejo real que D. Catarina assumisse a regência, curadoria e tutoria de D. Sebastião. Após ser pedido para assistir a cunhada na função, D. Henrique concordou.

Em breve, contudo, a princesa Joana, ainda regente em Espanha na ausência do irmão, reivindicou seu direito de sangue de assumir a regência do filho. Era de tal modo forte sua intenção que seu pai, Carlos V, teve que escrever uma carta bastante incisiva, deixando claro que a posição pertencia à sua irmã Catarina. A intenção do imperador era conseguir dela um compromisso no sentido de garantir a sucessão do filho da infanta D. Maria no caso de morte de D. Sebastião; afinal, como ele escreveu ao filho Felipe, “o Príncipe (Carlos) é tanto seu neto como o Rei”. Apesar da concordância de Catarina, a pragmática que reconhecia este direito jamais foi publicada devido ao sentimento anti castelhano presente na corte portuguesa, juntamente com certa impopularidade da regente, inclusive entre seus súditos de nascimento mais baixo.

(c) The Bowes Museum; Supplied by The Public Catalogue Foundation
D. Catarina em sua época como regente do neto

Esta tensão no relacionamento entre Catarina e algumas grandes Casas, nomeadamente os Aveiro e os Bragança, ganhou seu principal símbolo na noite de 3 de setembro de 1554. D. Teodósio, duque de Bragança, era viúvo desde o ano anterior e manifestou o desejo de voltar a se casar com D. Beatriz de Lencastre, sobrinha de D. João, duque de Aveiro. D. Catarina vetou tal matrimônio. Além do procurar evitar uma união mais íntima entre duas Casas tão poderosas, o movimento muito provavelmente visava proteger o dote devido à sua sobrinha homônima, segunda filha do falecido infante D. Duarte, que em breve se uniria ao herdeiro do duque de Bragança. Apesar da proibição, entretanto, D. Teodósio foi em frente e casou-se com D. Beatriz. Isso causou uma imediata reação da regente, que expulsou tanto ele quanto o duque de Aveiro da corte. Sua autoridade, porém, já fora minada.

E é neste contexto que ocorreu a primeira tentativa de renúncia de D. Catarina em nome de D. Henrique, que acabou aceitando-a após tentar convencer a cunhada a continuar no cargo. Embora este evento seja interpretado por muitos historiadores como uma tentativa bem-sucedida de D. Catarina de desestabilizar politicamente o infante cardeal, não é realmente impossível que a regente tenha considerado, diante das dificuldades políticas, abandonar a corte e ir para um convento, como fizera seu irmão anos antes. Independente da intenção, contudo, a reação da corte foi massiva pela continuidade de D. Catarina no cargo. Apesar de tudo, D. Henrique não era propriamente um nome que despertava entusiasmo.

Catarina de Áustria – parte V

O casamento da primogênita sobrevivente dos monarcas de Portugal, D. Maria, com seu primo, o príncipe Felipe, herdeiro de Espanha, já era discutido desde que ambos eram crianças de colo. Nascidos com poucos meses de diferença, a união deles era de especial desejo de suas mães, Catarina e Isabel. A morte da última em 1539, apesar de tirar algo do ânimo do projeto, ainda não o impediu; mesmo flertando com outras opções de núpcias para o herdeiro, Carlos V ainda cobiçava mais o amplo dote que viria com D. Maria. Neste contexto, as negociações avançariam enquanto os jovens amadureciam. Em Portugal, contudo, a oposição a este projeto se avolumava. Entre as importantes figuras da corte que se mostravam contrárias, incluíam-se o conde de Vimioso e o marquês de Vila Real. Como alternativa, eles sugeriam o casamento da infanta com seu tio ainda solteiro, D. Luís, como forma de preservar a Casa de Avis no trono caso o pior ocorresse com a morte do doente príncipe D. João. O casal real, contudo, opôs-se, principalmente D. Catarina. Embora a historiografia tradicional costume ver tal insistência no casamento espanhol como prova que a rainha já planejava entregar o trono de Portugal à Casa de Habsburgo, não é de fato difícil compreender a vontade de uma mãe, criada em penúria e exílio, de possibilitar o melhor para sua filha. E, na mentalidade do período, isso significava conseguir para ela a melhor união possível.

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A princesa Maria pouco após o nascimento de seu filho, conforme representado na série Carlos, Rey Emperador

O contrato de casamento entre o príncipe e a infanta acabou sendo assinado em 1 de dezembro de 1542, e incluiu a previsão de outro matrimônio mais a frente entre o príncipe D. João e a irmã de Felipe, Joana. Depois de serem obtidas as devidas dispensas papais, o casamento por procuração ocorreu em maio de 1543, embora a agora princesa de Astúrias só tenha partido rumo ao seu novo lar em 10 de outubro. Apesar de ser descrita como bela em correspondências oficiais, D. Maria possuía o famoso maxilar da Casa de Habsburgo, o que junto com sua corpulência herdada do pai tornava sua aparência pouco graciosa para os padrões atuais. De qualquer forma, o príncipe Felipe mostrou-se ansioso para conhecer a esposa, disfarçando-se entre os nobres que acompanharam a infanta em sua entrada na cidade de Salamanca, onde se efetuou a segunda cerimônia de matrimônio em 13 de novembro. Pouco tempo após a consumação física da união, porém, ele pareceu perder a animação inicial em relação à D. Maria e iniciou seu longo caso com Isabel de Osório, uma beleza loira que servia como dama de companhia de sua irmã. Apesar disso, ele ainda seria capaz de engravidar a esposa, para a satisfação da rainha D. Catarina, tão ansiosa com o tema que fazia questão de saber a frequência das visitas conjugais de Felipe. Em 8 de julho de 1545, nasceu o bebê, batizado em homenagem ao avô paterno. O parto, contudo, fora difícil e demorado, e a princesa acabou morrendo alguns dias depois do nascimento do príncipe Carlos após sofrer uma série de hemorragias. O choque deste acontecimento pareceu ter atingido especialmente o rei português, que a partir daí passou a delegar cada vez mais responsabilidades à esposa, até o ponto que era D. Catarina a virtual governante do reino.

Seu último filho vivo era o frágil príncipe D. João. Constantemente febril, ele demorara tanto a falar que se pensara por algum tempo que era surdo-mudo. Ao se desenvolver, porém, o príncipe demonstrou ser altamente inteligente, apesar de ter um temperamento difícil, em grande parte decorrente dos cuidados sufocantes a que era submetido. Apenas um ano antes de seu casamento com Joana de Áustria, por exemplo, ele ainda dormia junto à mãe nos aposentos dela, apesar de tradicionalmente já ter direito aos seus próprios aposentos. Mesmo com todas as preocupações com a saúde do príncipe, contudo, as questões sucessórias de Portugal não permitiriam que nova união com Espanha fosse adiada, e ela ocorreu em 11 de janeiro de 1552, apesar da infanta Joana só se reunir ao marido em dezembro – provavelmente por estratégia paterna, que, aliás, usara de novo os bens de sua reclusa mãe para pagar o dote de uma Habsburgo. Depois do encontro, porém, a paixão tomou conta do jovem príncipe D. João, que exercia seus direitos conjugais em toda oportunidade. Não demorou para a princesa engravidar, e para a alegria do reino a gestação transcorreu normalmente mesmo após o príncipe ficar bastante doente em outubro de 1553. Separada do marido por intervenção da rainha D. Catarina, Joana não testemunhou ou mesmo soube – oficialmente, ao menos – do colapso de D. João em seus aposentos em 2 de janeiro de 1554, seguida por sua morte no mesmo dia.

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Joana de Áustria

Apesar do sofrimento inimaginável ao ver partir o último de seus filhos, o casal real de tudo fez para que a nora não soubesse do falecimento. Ao visitá-la, retiravam as vestes de luto e proibiam a todos que as usassem enquanto serviam Joana, embora a princesa chorasse em privado. No dia 19 de janeiro, começaram as dores do parto, que foi acompanhado de perto por D. Catarina. Do lado oposto ao marido nos aposentos de Joana, ela pegava na mão da princesa e confortava-a entre contrações, até que na manhã do dia 20 de janeiro nasceu um menino saudável, para imenso júbilo da corte e da multidão reunida do lado de fora do paço da Ribeira. Em agradecimento à dádiva, a criança recebeu o nome do santo do dia: Sebastião. Três anos depois, quando D. João III faleceu, seria a rainha D. Catarina a regente deste pequeno menino que herdava o trono português.