Maria Francisca de Saboia – parte I

Em 21 de junho de 1646, nascia em Paris a segunda filha de Carlos Amadeu, duque de Nemours, de Aumale e Genevois, e Isabel de Bourbon-Vendôme, descendente por via ilegítima de Henrique IV de França, chamada de Maria Francisca Isabel (1). Horas depois, viria ao mundo seu irmão gêmeo, José, que era o primeiro herdeiro homem do duque. O casal já tinha antes do nascimento duplo uma menina, Maria Joana, e viria a ter mais dois filhos depois de Isabel e José: Francisco e Carlos Amadeu. Tragicamente, apenas as meninas sobreviveriam à infância, e ficariam órfãs de pai logo em 1652, na sequência de um duelo dele com o duque de Beaufort, seu próprio cunhado.  Enviuvada, Isabel de Bourbon-Vendôme retirou-se para o convento de Fontevrault levando as filhas consigo. Elas tinham apenas oito e seis anos de idade. Lá, Maria Joana e Maria Francisca receberiam sua educação inicial por parte das religiosas que lá viviam. Anos depois, quando a duquesa sentia sua saúde declinar, levou as filhas já núbeis para Paris, onde as deixou ao cargo do avô materno, o duque de Vendôme, pouco antes de falecer em 1664. Poucos meses depois, contudo, este também morreria, deixando as netas temporariamente recolhidas em variados conventos enquanto se acertavam os detalhes das núpcias delas.

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Isabel de Bourbon-Vendôme, mãe de Maria Francisca

Aparentada com reis franceses, incluindo Luís XIV, o soberano na época das negociações, e, juntamente com a irmã, possuidora de um dote valioso, a inteligente Maria Francisca despertava há anos o interesse do mercado matrimonial europeu. Ainda enquanto a mãe dela vivia, houvera conversas sérias sobre um casamento com o duque de Saboia, e a duquesa viúva chegara a viajar para a corte do pretendente com as filhas, mas no final nenhum acordo foi feito. Em 1662, a primogênita Maria Joana se uniria ao duque de Lorena, e pouco depois, ao duque de Saboia. Pensou-se na época em núpcias de Maria Francisca com o conde de Vaudemont, mas nada acabou sendo acertado. Depois da morte da Isabel, a responsabilidade de conseguir um matrimônio para a segunda filha ficou com um primo de seu pai, César d’Estrées, bispo de Laon. Foi quando apareceu a possibilidade de casar a jovem Maria Francisca com D. Afonso VI de Portugal.

Tendo o poder efetivo há pouco tempo, o rei enfrentava dificuldades para efetuar núpcias, uma vez que a Casa de Bragança tinha legitimidade duvidosa enquanto dinastia reinante. Em 1652, enquanto D. João IV e o príncipe herdeiro D. Teodósio estavam vivos, tentou-se um contrato nupcial da deficiente criança com a filha do príncipe de Parma, mas as conversas não foram adiante. Anos depois, num contexto bélico entre Espanha e França, tentou-se uma união com Ana Maria, a filha do duque de Orléans, mas após muita demora a própria noiva – que estaria apaixonada por outro homem – optou por não seguir adiante no projeto matrimonial português. Seria quando o nome de Maria Francisca seria proposto pelo bispo de Laon ao responsável português em França para negociar as núpcias com Orléans, o marquês de Sande. Embora o acordo do matrimônio entre Maria Francisca e Afonso tenha ocorrido relativamente rápido, dois anos quase completos se passariam na discussão de minúcias em relação ao contrato nupcial até que, em fevereiro de 1666, um tratado efetivo fosse assinado. Em fins de junho, ocorreu o matrimônio por procuração, tornando Maria Francisca rainha de Portugal. Pouco depois, ela partiria em direção a Lisboa. Informados de um plano espanhol para sequestrar a rainha, sua comitiva francesa atrasou a partida em alguns dias, mas acabou por enfrentar uma série de calmarias e tempestades antes de, por fim, chegar à Portugal em dois de agosto.

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Maria Francisca de Saboia

Amplamente saudada pela artilharia portuguesa após o desembarque, Maria Francisca foi saudada por grande parte da nobreza e do povo. Seria em Alcântara o primeiro encontro da rainha com seu marido, e seria lá também onde receberiam as bênçãos solenes matrimoniais pelo bispo de Targa. Apesar disso, D. Afonso VI não partilharia o leito com a esposa até depois da entrada formal de ambos em Lisboa, que aconteceu no dia 29. Pouco depois, Maria Francisca escreveria a uma amiga em França que eles haviam consumado o casamento, e, para sua felicidade ser completa, apenas lhe faltava um filho. O embaixador de França em Portugal também deixaria seu testemunho que D. Afonso VI passava horas junto à esposa nos aposentos dela. Pouco depois, houve notícia de uma gestação, embora isso se provasse em pouco tempo apenas um boato. Aparentemente, deficiente ou não, o rei teria sucesso em engravidar de forma bem-sucedida sua rainha muito em breve, como desejado, mesmo que sua falha educação formal e eventual comportamento esdrúxulo provocassem comentários em certos círculos da corte. Neste contexto, como explicar, então, as supostas queixas de Maria Francisca quanto à total inabilidade sexual de seu marido, feitas depois ao seu confessor?

(1) No original francês, Marie-Françoise-Élisabeth.

Luísa de Gusmão – parte IV

Quando se tornou rei de Portugal, em seis de novembro de 1656, D. Afonso VI estava a menos de um ano de completar quatorze anos de idade; tradicionalmente, essa era a idade legal que marcava o início da maioridade. Em princípio, portanto, Luísa de Gusmão teria uma regência curta, e a instabilidade inevitável gerada em tais períodos poderia ser facilmente dominada após o próximo aniversário do rei, quando ele mesmo assumiria as rédeas do poder. Tudo isso, porém, eram apenas pressupostos teóricos, vista a frágil saúde do monarca, além de sua instabilidade mental.

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D. Afonso VI

Desse modo, é plenamente possível que a viúva de D. João IV já se preparasse desde o início de sua regência para uma grande permanência no cargo, como de fato o foi. Escolhendo ministros para governarem sob sua liderança, D. Luísa encarregou-se de uma nova fase da guerra contra Espanha, quando as tropas portuguesas voltaram à ofensiva. O primeiro ano desta etapa marcaria, entretanto, um fracasso militar no longo cerco de Badajoz, onde, embora tendo uma vitória técnica, as tropas de D. Afonso foram destroçadas. O evento, aliás, marcou o início de uma espécie de paralisia na guerra. Enquanto os Habsburgo agora poderiam se dedicar a recuperar Portugal com o fim da revolta na Catalunha em 1653, agora tinham uma ausência crônica de soldados e recursos; os Bragança, por outro lado, estavam politicamente isolados na Europa, fracassando em obter um tratado com a França mediante o proposto casamento de Luís XIV com a infanta D. Catarina. O rei francês acabaria se casando em 1660 com a infanta Maria Teresa.

Após o fim das negociações com França, a regente voltou-se para a mais amigável Inglaterra, com a qual Portugal já assinara um tratado em 1654. De fato, é possível que as negociações francesas tenham sido muito mais uma jogada diplomática portuguesa para atrapalhar o casamento de Luís XIV com a prima espanhola do que uma proposta com intenções verdadeiras. Neste sentido, o começo das conversas visando um matrimônio entre Carlos II e D. Catarina podem ter se iniciado ainda antes da morte de D. João IV. A Restauração Inglesa em inícios de 1660, entretanto, tornou o acerto mais interessante e vantajoso para Portugal, que aceitaria pagar um exorbitante dote e ceder duas colônias à Inglaterra em troca de apoio militar contra Espanha.

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Catarina, rainha de Inglaterra

Em 1662, tendo a paz assegurada com o reino francês, o comando espanhol voltou à ofensiva. João de Áustria, filho ilegítimo de Felipe IV, lideraria uma tropa de milhares de homens para tomar a região do Alentejo, chegando a dominar a cidade de Évora por um curto período até ser forçado a abandonar o local após a grande vitória anglo-portuguesa na batalha de Ameixial. O mesmo ano conheceria o fim da regência de D. Luísa, que se retiraria para um convento após pressão por parte de D. Afonso VI, juntamente com o favorito real, o conde de Castelo Melhor e, a partir do golpe, Secretário de Estado do Reino de Portugal. O ano seguinte testemunharia o recuo definitivo das tropas lideradas por João de Áustria, embora este revés tenha sido compensado no ano seguinte pela ocupação de Vila Viçosa por exércitos do novo comandante dos Habsburgo, o marquês de Caracena.

A campanha do exército português para retomar Vila Viçosa, em 1665, eventualmente levaria à esmagadora vitória na batalha de Montes Claros. Depois disso, Espanha viu-se impossibilitada de tentar uma nova invasão, e ambos os lados começariam as negociações que levariam, em 1668, à assinatura do Tratado de Lisboa, que reconheceria por fim a legitimidade da dinastia de Bragança em Portugal e poria fim definitivo à guerra. A essa altura, porém, Luísa de Gusmão já estava morta, sendo vítima de falha pulmonar. Sepultada em Xabregas, ela eventualmente seria transferida para o Panteão dos Bragança, em Lisboa. Ao falecer em 27 de fevereiro de 1666, ela não testemunhou a anulação do breve casamento de seu primogênito D. Afonso com Maria Francisca de Saboia, o segundo casamento desta com o cunhado, D. Pedro, e o posterior exílio do filho mais velho até o fim da vida.

Para saber mais:

http://asaventurasdemark.blogspot.com.br/2013/08/d-luisa-de-gusmao.html

http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2014/04/mulheres-na-historia-lxvii-margarida-de_3.html

https://guerradarestauracao.wordpress.com

COSTA, Leonor Freire; CUNHA, Mafalda Soares da. D. João IV. Círculo de Leitores, 2012.

COSTA, Fernando Dores. A Guerra da Restauração – 1641-1668. Lisboa: Livros Horizonte, 2004.

LIVERMORE, Harold V. A New History of Portugal. Glasgow: Cambridge University Press, 1966.

Luísa de Gusmão – parte III

Embora seja improvável que Luísa de Gusmão tenha realmente pronunciado a sentença pela qual é mais conhecida para incentivar seu marido a aceitar a Coroa antes rainha por um dia do que duquesa por uma vida” -, Felipe IV certamente a tomou rapidamente como a consorte rebelada de um rei traidor, assim como seu valido Olivares. Furioso com a rebelião, este inclusive ordenaria ao irmão de Luísa, o duque de Medina Sidônia, que destruísse todos os registros dela dos livros da Casa, de maneira que não restasse nem rastro de sua memória. Da mesma forma, o pagamento do dote da duquesa de Bragança, ainda incompleto, deveria ser suspenso.

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Conde-duque de Olivares

Apesar de toda a cólera e troca incessante de responsabilidades pela revolta portuguesa que dominaria a corte Habsburgo nas semanas seguintes, a sobrevivência da nova dinastia era considerada improvável. O golpe que depusera a duquesa de Mântua, libertada por D. João IV em pouco tempo, era visto como a obra de poucos homens; logo, teria apoio insuficiente para aguentar por muito tempo. De fato, as várias deserções ocorridas nos primeiros meses deram suporte a tal ideia, assim como uma tentativa de assassinato sofrida pelo rei em agosto de 1641. Apesar disso, Espanha não pôde de fato capitalizar na fragilidade do inimigo e responder adequadamente, devido ao fato de suas forças militares, além de estarem divididas pela Europa, enfrentarem uma revolta particularmente engajada em Catalunha. Apenas nos primeiros meses de 1643 tropas Habsburgo seriam capazes de invadir Portugal, entrando no território pela região do Alentejo.

A situação enfrentada pela nova dinastia de Bragança, contudo, era menos frágil do que o visto pelo depreciativo julgamento do governo Habsburgo. D. João IV partiria para liderar seus exércitos contra os invasores e, assim, incentivar seus vassalos a acompanhá-lo, deixando a regência nas mãos de sua austera e religiosa esposa, grávida na época; em 21 de agosto ela daria à luz ao infante D. Afonso. O rei não estava presente ao parto, embora tenha visitado secretamente sua esposa e o bebê poucos dias depois. Seria aproximadamente neste período que uma amante desconhecida de D. João engravidaria, dando à luz uma menina em fins de abril do ano seguinte, que foi chamada de Maria. Apenas um mês depois deste nascimento, ocorreria a batalha de Montijo em Espanha, que teve um resultado indefinido ou, segundo Fernando Dores Costa, mesmo uma derrota portuguesa, mas foi tão massivamente louvada pela dinastia de Bragança que, até hoje, é considerada por alguns uma grande vitória de D. João IV. Embora tenha tido grande ressonância nas cortes europeias, porém, suas consequências militares foram quase nulas.

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O infante D. Afonso retratado em 1653

Dali por diante, a guerra caracterizou-se por eventuais escaramuças entre as tropas espanholas e portuguesas, causadas por ofensivas do último, até que, em 1647, D. João IV optou por uma mudança militar em relação a uma atitude meramente defensiva, o que descontentaria muitos, incluindo o bélico príncipe D. Teodósio, que seria eventualmente nomeado capitão-general do reino. Enfraquecida, Espanha também optaria por uma diminuição em suas atividades contra o reino vizinho. 1647 também marcaria uma grave doença do infante D. Afonso – possivelmente meningoencefalite – que o deixaria com o lado esquerdo de seu corpo paralisado, além de dificuldades na fala. Talvez foi temendo pela morte daquele que era o herdeiro alternativo ao trono que o casal real apressou-se em gerar outro filho; já em 26 de abril do ano seguinte nasceria o caçula de D. Luísa, o infante D. Pedro.

Depois de seu último parto, a rainha viveria anos tranquilos no Paço da Ribeira até 1653, que parece ter sido um dos piores anos de sua vida, assim como de seu marido. Em maio, morreu de tuberculose o talentoso príncipe D. Teodósio, numa perda lamentada por muitos no reino, uma vez que deixava como herdeiro do trono seu irmão D. Afonso, tido como incapaz devido às sequelas da doença de 1647; em novembro, faleceria a infanta D. Joana. Em novembro de 1656, por problemas nos rins, morreria o rei D. João IV. D. Luísa se tornaria, então, não apenas uma viúva, mas também a regente do reino até a maioridade de seu filho.

Isabel de França – parte II

Atraente e inteligente, a rainha aparentemente tinha o amor do povo e de seu marido, muito embora Olivares procurasse estimular o que ele chamava de “ardores da pueril sensualidade” de Felipe IV, e, assim, afastar o perigo de uma maior influência de Isabel ao dividir os afetos do jovem rei. A rainha mesma era suspeita de não manter inteiramente seus votos de matrimônio. Em maio de 1622, quando um pequeno incêndio começou no meio da encenação de uma peça do conde de Villamediana, o próprio autor conduziu a rainha para segurança com uma proximidade que despertou suspeitas da corte. Pouco depois, ele foi assassinado, num crime que bem pode ter sido ordenado por Felipe IV em pessoa.

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Isabel de França

De qualquer forma, estes casos extraconjugais não atrapalhavam o casal real em continuar tentando produzir um herdeiro do trono. Em novembro de 1623, nasceria outra filha, seguida por outra menina dois anos depois; entretanto, as infantas Margarida Maria e Maria Eugênia também viveriam pouco. No ano seguinte, uma nova gravidez terminaria num parto prematuro, e em outubro de 1627 viria à luz Isabel Maria, mais uma filha de curta vida. A despeito das frequentes tragédias familiares, porém, o rei não abdicaria de suas várias amantes, e em abril de 1629 uma delas – a atriz Maria Calderón – teve o único filho ilegítimo que Felipe IV reconheceria como seu, chamado de João. Este nascimento colocaria, como era natural no período, grande pressão sobre Isabel, grávida na época; em outubro ela finalmente daria à luz o tão esperado menino, nomeado com o incomum nome de Baltasar.

A década de 1630 testemunharia mais nascimentos reais; em 1634, um menino – Francisco – que viveu pouco, seguido em 1636 por Maria Ana, que também teve falecimento precoce. Em 10 de setembro de 1638, nasceria uma menina que sobreviveu, a infanta Maria Teresa. Apenas cinco dias antes, nascera em França o primeiro filho sobrevivente do irmão de Isabel, Luís XIII, e Ana de Áustria, irmã de Felipe IV; provavelmente uma união entre as duas crianças já então foi considerada pelas Coroas. Nos anos seguintes, a rainha Isabel teria no mínimo dois partos prematuros, e não haveria mais crianças de seu casamento com Felipe IV.

Paralelamente ao processo de fim de sua importância reprodutiva, a rainha Isabel crescia em importância política. De acordo com a mentalidade da época, a produção de dois herdeiros vivos deve ter contribuído para aumentar a confiança do rei na capacidade governamental da consorte, embora também seja certamente provável que a doença progressiva do valido Olivares, junto com seus fracassos recentes em política externa e econômica, tenha ajudado neste processo. De fato, além de forçar a partida de Olivares da corte, ela pôde ser regente de Espanha enquanto seu marido lidava com a revolta catalã no início da década de 1640, mostrando de fato aptidão superior à do marido para lidar com questões burocráticas.

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Felipe IV de Espanha

O excesso de trabalho, contudo, piorou a frágil saúde de Isabel, que já sofria anteriormente de problemas no estômago. Em outubro de 1644, ela ficaria retida à cama. Sangrias foram realizadas, mas o estado da rainha apenas se agravava, e contra os desejos iniciais dela, seu marido foi chamado. Quando Felipe IV chegou à Madri, porém, o corpo de sua esposa já esfriava. Pouco antes de sua morte aos 41 anos de idade, Isabel de França despediu-se do príncipe Baltasar e da infanta Maria Teresa. Com medo de qualquer possível contágio, ela não teria deixado que eles se aproximassem, dizendo: “Rainhas havia muitas para Espanha, mas príncipes muito poucos”.

Suas palavras eram proféticas. Pouco mais de dois anos depois que a rainha foi sepultada vestida em um hábito da ordem de São Francisco, seu filho Baltasar padeceu subitamente. Felipe IV, além de ver o Portugal dos Bragança sair cada vez mais de seu alcance, ainda se encontrava sem herdeiro varão. Para procurar resolver tal questão, ele casou-se contra a vontade com a antiga prometida do príncipe, sua sobrinha Mariana de Áustria, em 1649, numa união que eventualmente lhe traria satisfação e outro príncipe: o futuro Carlos II. Seria com este deformado rei, contudo, que a dinastia dos Habsburgo espanhóis conheceria o seu fim e seria substituída pelo ramo da Casa Bourbon descendente da rainha Isabel por meio de sua filha Maria Teresa, rainha de França.

Para saber mais:

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2012.

CANTÓ, Pilar Perez et all. Rainhas de Portugal e Espanha – Margarida de Áustria e Isabel de Bourbon. Temas e Debates, 2015.

A rainha espanhola de França: Ana de Áustria

Nascida em 22 de setembro de 1601, Ana de Áustria (1) foi a primogênita do rei espanhol Felipe III e sua consorte Margarida, do ramo austríaco da família Habsburgo; até o nascimento de um irmão em 1605, ela seria a herdeira presuntiva dos tronos de Espanha e Portugal. Tendo uma vida familiar bastante íntima para os padrões da realeza do século XVII, ela era muito próxima à mãe, tendo herdado dela a forte religiosidade. A morte da rainha Margarida pouco depois de um parto em 1611 foi, portanto, um forte baque para a menina, que a partir daí se tornaria uma espécie de figura materna para os irmãos mais novos, além de tecnicamente a dama mais importante da corte que cercava Felipe III.

Aproximadamente na época em que o luto mais estrito começou a ser aliviado, em 1613, já haviam começado negociações mais sérias para um casamento entre a infanta e o jovem rei de França, Luís XIII, assim como uma união entre o herdeiro espanhol e Madame Royale (2), assegurando assim uma forte aliança política-militar entre ambos os reinos. Em realidade, a ideia inicial das primeiras núpcias datava quase que dos nascimentos de Ana e Luís, ocorridos com apenas cinco dias de diferença; astrólogos da época interpretaram a coincidência como um sinal de um elo já existente entre ambos. Apesar do Conselho de Estado espanhol discutir as implicações de tal matrimônio desde cedo, os enlaces só se tornaram oficiais e públicos em abril de 1612, depois que o embaixador francês pediu a mão de Ana em casamento em nome de Luís XIII, e a infanta passou a ser tratada já como rainha.

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Luís XIII de França

Um grande dote de 500.000 coroas, mais valiosas joias, foi acertado nos meses seguintes, e Ana renunciaria formalmente aos seus direitos sucessórios à Coroa de Espanha, embora segundo o contrato nupcial eles pudessem ser recuperados se ela enviuvasse sem ter tido filhos. Finalmente, em outubro de 1615, os casamentos foram celebrados, e no mês seguinte Ana e Isabel foram trocadas na fronteira de Bidasoa, após o qual seguiram para encontrar seus respectivos maridos. E como era a nova rainha de França? Sem ter o afamado maxilar da família tão pronunciado, ela era considerada bela em sua juventude, atraindo admiradores com sua aparência clara e loira; apesar disso, Luís XIII não ficou impressionado.

Como ambos mal haviam completado 14 anos na época das núpcias, não necessariamente a consumação física foi imediata, embora a preocupação da Coroa francesa em assegurar a validade da união – e o dote de Ana – possa ter justificado o evento na época. De qualquer maneira, a mãe do rei, Maria de Médicis, continuou a se portar como a principal dama da corte. Como Luís XIII não dedicava muita atenção à esposa, os primeiros anos dela em França foram passados principalmente entre companhias espanholas. Apenas dois anos depois, na sequência de um golpe que retirou a influência governamental da regente Maria, foi que o casal real se aproximou. Influenciada pela retirada de suas damas de companhia espanholas e substituição delas por nobres francesas, Ana passou a seguir mais a etiqueta do reino onde se casara, o que pode ter servido para melhorar seu favor perante o rei.

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Uma jovem rainha Ana

Apenas em 1622, porém, foi que ela ficou grávida pela primeira vez, numa gestação que terminou espontaneamente ainda no início. Pouco depois, outra gravidez foi interrompida após uma queda da rainha. Mais dois abortos seriam registrados nos anos seguintes, embora a possibilidade que fossem gestações histéricas motivadas por ansiedade deva ser considerada. Os repetidos fracassos teriam desagrado imensamente o rei, que inclusive teria culpado a rainha pela segunda perda.

Neste contexto, a ascendência do cardeal Richelieu como principal conselheiro de Luís XIII causaria tensões. Nascido Armand Jean du Plessis em 1585, em Paris, ele avançou politicamente durante a regência de Maria de Médicis, tornando-se em poucos anos bastante influente, principalmente depois do seu cardinalato em abril de 1622, ocorrido pouco depois da morte do antigo favorito do rei, o duque de Luynes, que fora responsável pela aproximação de Luís e Ana anos antes. Em paralelo com o processo de centralização do poder real em França, Richelieu também defendia uma atitude de oposição ao grande poder da Casa Habsburgo na Europa – o que significava uma relação potencialmente difícil com Ana de Áustria.

De fato, os anos seguintes da consorte seriam marcados pela oposição política ao primeiro-ministro do rei, num cenário em que continuava estéril. Em 1635, França declarou guerra à Espanha, e não é improvável que Luís XIII estivesse considerando pedir uma anulação de suas núpcias, principalmente depois que recaíram sobre Ana suspeitas de colaboração com o inimigo em 1637; no caso, informações secretas teriam sido passadas a Felipe IV em uma correspondência pessoal da rainha francesa. A acusação teria partido do próprio Richelieu; embora Ana fosse eventualmente perdoada, sua relação com o rei seria danificada em caráter permanente. E foi neste clima que Ana de Áustria ficou grávida mais uma vez; em 5 de setembro de 1638, nasceu o futuro Luís XIV, poucas semanas antes que a rainha completasse 37 anos de idade. Como isso aconteceu? O pai era mesmo seu marido?

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A rainha grávida

Segundo a história tradicional propagada oficialmente pelos Bourbon, a concepção do herdeiro ocorrera depois que uma tempestade impedira Luís XIII de viajar, obrigando-o a dormir com sua esposa no Palácio do Louvre; nove meses depois, Ana de Áustria deu à luz um menino saudável, devidamente cognominado de “Dieudonne” (3). Contudo, provavelmente o milagre não deve ter ocorrido bem assim. Embora o histórico gestacional complicado da rainha, junto com a sua idade mais avançada, torne o evento improvável para o período, o fato é que um médico que acompanhava a saúde real de forma meticulosa anotara alguns anos antes que Ana e o rei costumavam ter relações sexuais ao menos duas vezes por semana.

Em agosto de 1637, um dos motivos pelos quais Luís foi convencido a perdoar Ana foi a crença nele incutida por Richelieu que as conspirações contra seu governo – lideradas algumas vezes por Gastão, duque de Orléans e irmão mais novo do monarca – apenas acabariam com o nascimento de um príncipe. Neste sentido, fosse o rei bissexual, homossexual ou apenas desinteressado por Ana, isto não importava no panorama dinástico do momento, que exigia que Luís XIII voltasse à sua rotina matrimonial de antes. Assim, o comparecimento frequente do rei à cama de Ana de Áustria torna desnecessária, além de perigosa, a utilização de outros homens para fecundar a rainha. De qualquer maneira, os candidatos mais célebres para o cargo, como por exemplo o futuro favorito Mazarin, sequer se encontravam em França quando a gravidez da consorte começou, e o jovem Luís compartilharia uma semelhança física em demasia com o irmão mais novo Felipe para que ambos fossem apenas meios-irmãos.

Seguindo o modelo familiar de sua infância em Espanha, a rainha Ana criou os filhos com proximidade pouco usual para o período. Poucos meses antes do quinto aniversário do primogênito, a frágil saúde de Luís XIII cedeu e ele faleceu, deixando como seus desejos finais a constituição de uma regência sem a presença de sua esposa. Ana, porém, tendo o Parlamento ao seu lado, descartou este pedido do testamento e tornou-se regente solo de Luís XIV, sendo oficialmente auxiliada pelo cardeal Mazarin. Nascido Giulio Raimondo em 1602, ele era um nobre italiano com longo histórico de serviços ao rei francês que se tornou pupilo de Richelieu, sucedendo-o como principal ministro após a morte deste em 1642. Caindo nas graças da rainha Ana, ele se tornaria o governante de fato do reino após a morte de Luís XIII, e em pouco tempo se mudaria para aposentos próximos ao da regente no Palais Royal. Em pouco tempo, começariam a circular rumores que ambos eram amantes, e até mesmo marido e mulher devido a uma união secreta.

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Cardeal Mazarin

O favor que Mazarin desfrutava perante a rainha, contudo, não era partilhado por grande parte dos nobres franceses, ou mesmo pela população em geral quando o cardeal começou a cobrar multas de quem construísse residências fora dos muros de Paris, em 1644. Quatro anos depois, para continuar pagando as despesas da longa guerra contra os Habsburgo espanhóis, Mazarin tentaria cobrar novos impostos, assim como limitar o poder dos deputados pela criação de novos departamentos de Estado. Quando o Parlamento se opôs a isso e apresentou uma série de propostas de reformas, Mazarin e a rainha ordenaram a prisão de seus líderes. E foi quando a população de Paris se revoltou, erguendo barricadas nas ruas e forçando a fuga de Ana e seu filho Luís da cidade.

Com tréguas, brutalidades e fugas de seus principais personagens, incluindo Mazarin, a guerra civil francesa conhecida como Fronda apenas terminaria quando Luís XIV alcançou a maioridade em 1652 e retornou à Paris, tendo sua mãe como grande influência em seu conselho real; em pouco tempo, ele também chamaria Mazarin de volta do exílio forçado. Apesar de toda a resistência, a autoridade real não apenas retornara intacta como, nos próximos anos, seria incrementada. Em 1660, um ano depois da paz com Espanha, o jovem rei se casaria com sua prima Maria Teresa, única filha sobrevivente do casamento do irmão de Ana de Áustria, Felipe IV, com a princesa francesa Isabel, numa celebrada união que no fim do século daria origem à Guerra de Sucessão Espanhola.

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A atriz June Temple como Ana de Áustria em Os Três Mosqueteiros (2011)

No mesmo ano do nascimento do primeiro filho do casal real, Mazarin faleceria. Pouco depois, Ana se afastaria da política e se refugiaria no convento de Val-de-Grâce, onde os primeiros sintomas do câncer se manifestariam dois anos depois. Ana de Áustria, a rainha espanhola de França, morreria em 20 de janeiro de 1666, ainda com sua fama controversa; em menos de dois séculos, Alexandre Dumas se serviria dela para tornar a consorte um personagem imortal da literatura no clássico Os Três Mosqueteiros.

(1) Embora tecnicamente uma infanta de Espanha, tendo nascido em Valladolid, Ana é conhecida até hoje como “de Áustria” devido à origem de sua Casa.

(2) Título honorífico pelo qual era conhecida a filha mais velha do rei francês. No caso, tratava-se de Isabel, a primogênita mulher legítima de Henrique IV.

(3) Literalmente, “dado por Deus”, mas muitas vezes traduzido como ”presente de Deus”.

Para saber mais:

http://www.biography.com/people/anne-of-austria-9185816

http://bjws.blogspot.com.br/2015/10/biography-queen-anne-of-austria-spain.html

http://www.sandragulland.com/the-conception-of-louis-xiv/

http://www.sandragulland.com/who-was-louis-xivs-father-the-question-that-never-goes-away/

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2006.

 

A estrela de Velásquez: Margarida Teresa de Habsburgo

Nascida em 12 de julho de 1651, a infanta Margarida Teresa foi a primogênita do casamento do rei Felipe IV de Espanha com Mariana de Áustria, que também era sua sobrinha. Margarida tinha uma meio-irmã mais velha, Maria Teresa, filha da falecida rainha Isabel de França, que seria a herdeira presuntiva do trono espanhol enquanto seu pai não tivesse um novo filho homem com a segunda esposa (1). Neste sentido, pode-se entender o motivo das negociações para casar Maria Teresa com o rei francês, Luís XIV, só engrenarem de verdade após o nascimento de um príncipe em 1657. Apesar disso, os direitos sucessórios da infanta foram oficialmente retirados, embora a validade de tal renúncia dependesse de um dote que jamais foi integralmente pago aos franceses. Assim, a união das coroas de Espanha e França era uma possibilidade real quando Felipe IV faleceu em setembro de 1665; de seus três meninos sobreviventes com Mariana de Áustria – Felipe, Fernando e Carlos -, apenas o último ainda vivia na época, e era uma criança bastante doente que só conseguiria andar aos oito anos de idade.

Neste cenário de crise, é fácil compreender o motivo pelo qual o matrimônio da segunda infanta foi cuidadosamente pensado desde muito cedo. Como forma de garantir uma alternativa genuinamente Habsburgo contra os possíveis pretendentes Bourbon ao trono de Espanha, Margarida Teresa ficou comprometida com o Sacro Imperador Romano, Leopoldo I, que era ao mesmo tempo seu tio materno e primo paterno, além de onze anos mais velho, o que impossibilitava qualquer consumação física enquanto as devidas dispensas papais não fossem providenciadas e a noiva fosse madura. Enquanto o primeiro ponto era relativamente fácil de ser arranjado, nada menos do que tempo poderia resolver o segundo; para acompanhar o crescimento de Margarida, a corte austríaca dependeria de constantes retratos enviados pelos espanhóis, executados pelo pintor Diego Velásquez.

Hoje considerado uma dos principais representantes artísticos da chamada Era Dourada Espanhola, Diego Rodríguez de Silva y Velásquez nascera em Andaluzia em 1599 e ainda jovem se destacara entre seus pares, tornando-se rapidamente um favorito de Felipe IV e o principal responsável pelos retratos de sua família. Quando Margarida nasceu em 1651, ele já estava mais do que consagrado na corte espanhola, e foi nesta posição que ele pintou o que é considerada sua maior obra: Las Meninas (2). Terminada em 1656, a pintura traz em seu centro a infanta Margarida – a esta altura com quatro ou cinco anos de idade -, cercada por suas damas de companhia. Também se encontram no primeiro plano da cena dois anões ricamente vestidos. Ao fundo, do lado direito, aparece uma mulher vestida como freira – possivelmente a governanta da infanta – acompanhada por um homem da corte. Ainda mais ao fundo, outro cavalheiro observa a cena. Não é evidente se ele está entrando ou saindo do aposento.

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Las Meninas

O diferencial do quadro, porém, está do lado esquerdo, onde aparece o próprio Velásquez, que fita o espectador enquanto parece retratar alguém; refletido num espelho ao seu lado, está o casal real, que seria então o assunto da obra em questão. Apesar disso, o ângulo da representação parece algo estranho, o que alimenta a controvérsia que a representada seria mesmo a infanta. Neste caso, qual seria o significado da presença de Felipe IV e Mariana de Áustria na pintura? As incessantes análises da obra mostram que esta e outras questões sobre Las Meninas ainda podem ser discutidas por muito tempo.

Velásquez ainda retrataria a infanta em outras ocasiões, como nas obras Margarida Teresa em Vestido Azul (1659) e Margarida Teresa em Vestido Rosa (1660), este terminado no mesmo ano da morte do pintor. Após poucos anos, Felipe IV também faleceria. Meses depois, ainda enlutada, Margarida viajaria para finalmente casar-se com o tio; as extravagantes comemorações posteriores durariam nada menos do que dois anos. De constituição frágil e aparência pouco atrativa, Leopoldo I era profundamente religioso e bastante culto, sendo fluente em várias línguas e interessado nas artes, principalmente música. Estes eram interesses que ele compartilhava com a jovem esposa, com quem manteve uma relação próxima e um casamento surpreendentemente feliz. Em pouco tempo, Margarida daria à luz seu primeiro filho, que não viveria muito. No mínimo mais três gestações se seguiriam, mas apenas uma filha – Maria Antônia – sobreviveria.

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Margarida Teresa em Vestido Azul

Apesar de sua graciosidade, representada tantas vezes por Velásquez, Margarida também tinha uma saúde frágil, uma infeliz herança de décadas de casamentos consanguíneos entre os Habsburgo. A série de gestações pela qual passou, possivelmente enquanto seu corpo ainda não estava maduro por completo para a maternidade, apenas piorou seu estado. De forma previsível, sua morte ocorreria pouco depois de um aborto ou parto prematuro em 12 de março de 1673. Faltavam poucos meses para que ela completasse 22 anos de idade. Arrasado, mas ainda sem um herdeiro, seu marido se casaria de novo alguns meses depois, mas este segundo matrimônio também não produziria meninos. Seria apenas nas terceiras núpcias de Leopoldo I que ele seria pai dos futuros imperadores José I e Carlos VI, este último pai da ilustre imperatriz Maria Teresa. Sua única filha com Margarida, contudo, teria uma vida breve e infeliz. Herdeira da pretensão de sua mãe ao trono de Espanha, Maria Antônia morreria ainda antes do doente tio Carlos II, cujo falecimento em 1700 seria o gatilho para a Guerra de Sucessão Espanhola.

(1) O único filho homem sobrevivente de Isabel de França com o rei fora Baltasar Carlos, que morrera alguns anos depois de sua mãe.

(2) Expressão de origem portuguesa que designa as acompanhantes reais.

Para saber mais:

http://viola.bz/short-life-of-princess-infanta-margarita/

http://www.habsburger.net/en/persons/habsburg/margarita-teresa-spain?language=en

http://www.sabercultural.com/template/obrasCelebres/AsMeninas.html

http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2013/06/as-meninas-de-diego-velasquez-analise.html

D. Fernando, o Infante Santo

Nona criança (quinto filho sobrevivente) do casamento entre D. João I de Portugal e a dama inglesa Philippa de Lancaster, o infante D. Fernando nasceu em 29 de setembro de 1402. Na época de sua concepção, a rainha já estava com quase 42 anos de idade; era, de fato, uma gestação tardia para os padrões da época, que inspiraria maiores cuidados em circunstâncias normais. Mas esta gravidez de Philippa, contudo, já começou difícil, com sintomas que incluíam fraqueza e febre. Para preservar a vida da consorte real, os médicos recomendaram que a gestação fosse interrompida, e o próprio rei teria se oferecido para dar à Philippa a bebida abortiva. A religiosa rainha, porém, recusou-se a beber, manifestando sua fé na sabedoria de Deus, após o que D. João I atirou o líquido ao chão. Meses depois, viria à luz o último rebento do casal.

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D. João I de Portugal

De saúde frágil desde a infância, o infante foi criado em grande parte junto à mãe, de quem se tornaria bastante próximo. Apesar disso, ele ainda recebeu a mesma educação cuidadosa dos demais irmãos, sendo instruído em diversas línguas e em técnicas militares, além de participar dos conselhos de Estado de seu pai. Quando ele tinha doze anos de idade, sua amada mãe Philippa faleceu subitamente, vítima da peste. Pouco depois, o pai e os irmãos enlutados partiriam para a conquista de Ceuta, da qual D. Fernando era jovem demais para participar. Ao invés disso, ele ficou no reino aos cuidados da irmã D. Isabel, futura duquesa de Borgonha, juntamente com outro irmão, D. João, que ainda não tinha quinze anos.

Sendo o último da larga descendência de D. João I e Philippa, era natural que D. Fernando fosse encaminhado eventualmente para a carreira clerical, até mesmo considerando-se que os rendimentos cedidos a ele por seu pai eram escassos para um infante. Realmente, depois que D. João I faleceu em 1434 e foi sucedido por D. Duarte, este apontou o irmão caçula como o novo administrador da Ordem de Avis. Tudo parecia caminhar na direção de uma carreira eclesiástica para o caridoso infante até que ele recusou o posto de cardeal oferecido pelo papa Eugênio IV. Em realidade, conforme D. Fernando explicou para D. Duarte, ele gostaria de viajar e fazer fortuna a serviço de um rei estrangeiro – provavelmente, como sugere a Chronica escrita por Ruy de Pina, a intenção do infante era servir ao seu tio materno, Henrique IV de Inglaterra.

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D. Fernando

Seu real irmão, contudo, tinha outros planos imediatos. Herdeiro dos anseios guerreiros de seu pai, D. Duarte pretendia combater os infiéis em África; para a realização dos planos, contava com grande incentivo do irmão D. Henrique, embora os outros irmãos recomendassem cautela. D. Fernando se uniu à expedição com cavaleiros da Ordem de Avis, que pretendiam lutar sob um estandarte contendo a imagem do santo do dia de nascimento do infante, São Miguel. Eles partiram em agosto de 1437, chegando para sitiar Tânger no mesmo mês. A cidade, entretanto, era bem fortificada e tinha uma defesa organizada demais para ceder com facilidade aos portugueses; de fato, isso não ocorreria. A guerra foi um desastre, com os soldados sofrendo com fome e sede na retirada forçada que se seguiu. Para que todos pudessem retornar seguros em seus navios, porém, os muçulmanos exigiram uma troca de reféns, e D. Fernando se ofereceu para ficar entre os inimigos, sendo feito prisioneiro em meados de outubro.

De início, as condições da hospedagem do infante entre os inimigos eram bastante confortáveis. D. Fernando ficou na mansão do próprio governador de Tânger e foi autorizado a ter serviçais e criados particulares, incluindo um cozinheiro, enquanto o filho mais velho de seu captor ficava como garantia entre as tropas portuguesas. Além disso, todos os portugueses retidos eram autorizados a assistir a missa diariamente. A situação era vista por ambos os lados como sendo um arranjo provisório, uma vez que o rei português parecia disposto a pagar o resgate do irmão, embora não tanto a devolver a colônia de Ceuta, como exigiam os muçulmanos. Rapidamente, a situação começou a se degenerar, começando quando, após a liberação das tropas portuguesas, D. Henrique recusou-se a liberar o primogênito do governador e começou a elaborar estratégias para ter D. Fernando de volta sem ter que ceder Ceuta. D. Duarte o acompanhava nesta indecisão em ceder o território, convocando as Cortes para debater a questão em janeiro de 1438.

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D. Duarte

Apesar de ter sido contrário à expedição, o infante D. Pedro pressionou para que seu irmão fosse devolvido, no que foi acompanhado por D. João e o clero. A nobreza, contudo, discordava, e conseguiu dissolver a reunião sem uma decisão final quanto ao destino de D. Fernando, mesmo após leitura pública de cartas deste pedindo a devolução de Ceuta e sua libertação do cativeiro. Finalmente, em junho, após uma reunião privada entre o rei e D. Henrique, ficou decidido que nada seria pago ou devolvido aos muçulmanos; o infante capturado seria mesmo libertado por outros meios.

O repúdio do acordo feito surpreendeu – e enfureceu – os dirigentes de Tânger, que imediatamente endureceram a prisão de D. Fernando. Transferido para Fez, ele passou a habitar uma masmorra escura e, eventualmente, passou a ser contido por correntes. Sua alimentação também passou a ser irregular enquanto várias tentativas frustradas para libertá-lo eram feitas por agentes portugueses. Em agosto de 1438, D. Duarte faleceu, vítima da peste como sua mãe. O regente em nome de seu herdeiro de seis anos, o infante D. Pedro, passou então a negociar a libertação de D. Fernando, mas esbarrou numa disputa interna entre os dirigentes de Tânger pela guarda do valioso refém, cujo resgate ficava cada vez mais caro – e também passou a incluir a liberação de reféns muçulmanos. As negociações, então, tornaram-se cada vez mais difíceis entre as duas partes. Aproximadamente em meados de 1442, D. Fernando foi separado de seus companheiros e passou a ficar numa pequena cela, onde era constantemente vigiado. Apenas seu médico podia visitar o deprimido infante, que não desejava mais ouvir notícias de sua família.

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Tumba do infante no mosteiro da Batalha

A partir de maio de 1443, D. Fernando passou a ficar cada vez mais doente, piorando drasticamente no começo de junho e falecendo no dia 5, depois de ter tido uma visão da Virgem Maria, São Miguel e São João. Seu corpo seria embalsamado e exposto por quatro dias nas muralhas da cidade. Um culto popular em torno da figura do infante se espalharia rapidamente em Portugal e vários milagres seriam atribuídos a ele, principalmente depois que seu caixão foi recuperado em 1472 ou 1473, na sequência da conquista de Tânger pelo seu sobrinho D. Afonso V, que invocaria a memória de D. Fernando em seus discursos perante as tropas. Contudo, apesar da fama posterior de seu suposto martírio por Portugal ser espalhada pelas Lusíadas, ele nunca foi canonizado pela Igreja Católica.

Para saber mais:

http://thefreelancehistorywriter.com/2013/04/23/ferdinand-the-saint-prince-of-portugal/

COELHO, Maria Helena da Cruz. D. João I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2012.

DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Círculo de Leitores, 2005.

 

Leonor de Áustria – parte III

Na época de seu casamento com Leonor, D. Manuel I considerara uma união futura do príncipe com a princesa Renata, filha de Luís XII de França, mas as negociações acabaram por falhar. Perto de sua morte, o rei voltou a tratar de um duplo enlace que era muito de seu agrado: no projeto, sua filha D. Isabel se casaria com o imperador Carlos V e seu filho D. João se uniria à irmã do imperador, Catarina, ainda retida em Tordesilhas com sua mãe Joana. O falecimento súbito do monarca português pareceu alterar toda a situação, uma vez que agora parecia que o novo rei se casaria com sua madrasta, por quem, segundo uma fonte inglesa, se encontrava loucamente apaixonado.

Um pedido de dispensa papal inclusive estaria sendo procurado após o imperador Carlos V concordar com o casamento dos dois e, segundo um boato, D. Leonor já estaria grávida. Apesar de tudo isso, contudo, a rainha viúva retornou para junto do irmão em meados de junho de 1523, deixando para trás a única filha, D. Maria. Os motivos parecem condenados a permanecer envolvidos em mistério. As supostas núpcias seriam só um mexerico gerado por uma corte ansiosa, ou então um dos noivos desistiu do enlace, talvez por motivos religiosos? Não é possível saber ao certo. De qualquer maneira, D. João III acabaria por se casar com Catarina de Áustria, a irmã mais nova de Carlos V por tanto tempo presa com sua mãe instável, em 1525, e cuidaria da irmã caçula D. Maria com carinho paternal até sua morte.

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Catarina de Áustria, irmã mais nova de Leonor e esposa de D. João III, conforme interpretada por Guiomar Puerta na série Carlos, Rey Emperador

Pouco depois de sua volta à Espanha, Leonor ficou comprometida com o duque de Bourbon como parte de um arranjo de seu irmão para lutar contra o rei de França. Em 1525, contudo, tudo seria alterado com a esmagadora vitória imperial em Pavia. Feito prisioneiro, Francisco I teve que fazer amplas concessões no Tratado de Madri, assinado em 1526, onde ele cedeu muitos territórios e pretensões, além de concordar em enviar dois de seus filhos para ficarem como reféns na Espanha, a fim de garantir o cumprimento dos termos. Além disso, Carlos V propôs que o monarca viúvo voltasse a se casar com sua irmã também viúva, Leonor. Sem escolha, Francisco I aceitou.

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Leonor em retrato feito quando era rainha de França

Após deixar a Espanha com seus futuros enteados, Leonor encontrou o rei francês na fronteira antes de ser coroada em Saint-Denis em 31 de maio de 1531. Francisco ignorava a esposa na maior parte do tempo, preferindo a companhia de amantes, especialmente Ana de Pisseleu d’Heilly, a duquesa de Étampes. O casal real não teria filhos antes da morte de Francisco em 1547, embora Leonor tenha cuidado das filhas sobreviventes do primeiro casamento do marido com Cláudia de Valois, as princesas Madalena, futura rainha de Escócia, e Margarida, futura duquesa de Saboia.

Após esta segunda viuvez, Leonor foi viver primeiro em Brussels e depois em Espanha, onde ficou com sua irmã Maria na cidade de Jarandilla de la Vera, perto do monastério onde o irmão passou a viver após sua abdicação em 1555. Em 1558, após a morte de D. João III, sua filha D. Maria saiu de Portugal em direção à cidade de Badajoz, onde encontraria sua mãe pela primeira vez em quase trinta anos. Após algumas semanas juntas, a infanta retornaria ao reino de origem, frustrando o desejo de sua mãe para que fosse viver com ela em Espanha. Pouco depois, Leonor, rainha viúva de França e Portugal, faleceria aos 59 anos de idade, antecipando-se ao irmão Carlos e à irmã Maria por poucos meses.

Para saber mais:

http://www.examiner.com/article/historical-profile-eleanor-of-austria

http://www.mujeresenlahistoria.com/2015/09/la-hermana-fiel-leonor-de-habsburgo.html

BRAGA, Paulo Drumond. D. João III. Lisboa: Hugin Editores, 2002.

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

O Saque de Roma (1527)

Em fins de abril de 1527, Isabel de Portugal, irmã de D. João III e esposa de Carlos V, se encontrava no fim da gestação de sua primeira criança com o imperador e rei de Espanha. Um parto no século XVI costumava ser um evento cuidadosamente preparado; temendo a morte, tão comum em nascimentos do período, grande parte das mães inclusive providenciava seu testamento, para caso o pior viesse de fato a ocorrer imediatamente ou pouco tempo após ela dar à luz.

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Álvaro Cervantes e Blanca Suárez como Carlos V e Isabel de Portugal na série Carlos, Rey Emperador

O marido de Isabel, contudo, provavelmente não se encontrava perto dela em Espanha neste momento difícil. No comando de extensos territórios, não poderia se esperar honestamente que Carlos V pudesse se deter por algumas semanas num só lugar à espera do parto da imperatriz, mesmo em tempos de paz. No caso do primeiro nascimento, contudo, talvez tivesse sido mais provável, mas os exércitos imperiais já se encontravam à beira de outro conflito aberto com as tropas francesas na Itália.

As guerras entre Francisco I e Carlos V já ocorriam desde o início da década de 1520, datando aproximadamente da derrota do primeiro perante o segundo na eleição para Sacro Imperador Romano. Neste sentido, a derrota dos franceses nas primeiras hostilidades preocupou o papado e a República de Veneza, que já procuravam afastar Carlos V dos assuntos italianos. Pouco depois de retornar à França após a esmagadora vitória imperial em Pavia, Francisco I renunciou ao seu tratado de paz com Carlos V e juntou-se a eles, assim como Florença, Milão e uma muito hesitante Inglaterra. Eventualmente, uma aliança anti-Habsburgo – chamada Liga de Cognac – foi formada.

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Francisco I de França

Apesar de ter como objetivo estratégico a diminuição do poder do imperador em Itália, os exércitos do rei francês não foram de muita utilidade no início do conflito. A primeira grande batalha ocorreu em junho de 1526, na Lombardia, onde as forças imperiais tentaram sitiar o castelo do duque de Milão, Francisco Sforza. Tendo como principais comandantes Antonio de Leyva e Alfonso del Guasto, além de serem reforçados pelo maior adversário interno do rei francês, o rebelde duque de Bourbon, o exército imperial não pode ser detido pelas tropas combinadas dos estados papais, Milão e Veneza, mesmo depois da chegada do reforço de mais soldados. Derrotados em Milão em fins de julho, só restou à Liga retirar-se do território e tentar tomar a vizinha Cremona. Mesmo sendo bem-sucedidos neste ponto, o sítio anterior permitiu a Carlos V agrupar mais exércitos vindos da Espanha e dos estados alemães. No começo de 1527, eles já estavam ameaçando militarmente a própria Roma.

Quando o exército do duque de Bourbon chegou à capital da cristandade, no início de maio, as tropas, com poucos suprimentos, já haviam se rebelado e entrado em franca rebelião. Sua indisciplina já se manifestara anteriormente com o saque das cidades de Acquapendente e San Lorenzo alle Grotte, mas a autoridade do duque de Bourbon ainda as mantinha sob controle. A morte do duque durante o cerco de Roma, contudo, acabou com isso. Sem uma restrição considerável, o exército invadiu a cidade depois de derrotar as parcas tropas que a defendiam e instaurou o inferno; o sucessor de Bourbon no comando, Phillibert de Châlon, foi incapaz de deter os soldados depois do massacre dos últimos soldados da Guarda Suíça.

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O saque de Roma em 1527, por Johannes Lingelbach

Grande parte do exército, composto em sua maioria alemã por seguidores de Lutero, enxergava o papa Clemente VII como o próprio anticristo, e, na impossibilidade de invadir o refúgio dele no Castelo São Angelo, nos arredores da cidade, degradaram Roma. Na ausência do papa, religiosos foram os principais alvos:  igrejas seriam depredadas, padres e monges assassinados e freiras estupradas. A destruição artística também seria imensa, com pinturas valiosas destruídas e estátuas clássicas quebradas. O incalculável valor dos livros da Biblioteca do Vaticano só seria poupado porque o comandante Phillibert, talvez num movimento estratégico, instalou seu quartel general ali depois que entrou na cidade. Pouco depois, um inimigo pessoal do papa, cardeal Pompeo Colonna, seguiu as tropas invasoras para dentro da cidade. Apesar de manter seu apoio ao imperador Carlos V, Pompeo apiedou-se das condições miseráveis dos cidadãos romanos e abrigou muitos deles em seu palácio.

Finalmente, em 6 de junho, Clemente VII rendeu-se e concordou em pagar  400.000 ducados por sua libertação, além de ceder os territórios de Parma, Placenza, Modena e Civitavecchia ao imperador. Veneza também anexaria Cervia e Rovenna. No mínimo 6.000 romanos morreram no saque de Roma, com o total real provavelmente atingindo o dobro deste número. Fragilizado politicamente pela invasão, o papa teve que ceder às vontades de Carlos V até sua morte, incluindo negar os pedidos do rei inglês Henrique VIII para que ele anulasse seu primeiro matrimônio com a tia do imperador, Catarina de Aragão.  A recusa de Clemente VII eventualmente levaria este monarca a romper relações com Roma, o que possibilitaria a criação da Igreja Anglicana.

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Saque de Roma, por Francisco Javier Amérigo Aparicio

Apesar da estrondosa vitória, Carlos V ficaria profundamente constrangido com a falta de controle das tropas, que inclusive permaneceriam em Roma até o fim dos mantimentos e o começo de uma epidemia de peste em fevereiro do ano seguinte. É de se pensar que seu cunhado profundamente religioso, D. João III, tenha ficado consternado com as trágicas notícias, assim com sua esposa, Catarina de Áustria, irmã mais nova do imperador. O embaraço do próprio Carlos V, porém, logo seria amaciado pelo sucesso do parto da imperatriz Isabel: em 21 de maio, com ou sem a presença do imperador, nasceria o esperado herdeiro homem, Felipe. A Era Dourada do Império Espanhol, portanto, literalmente viria à luz em meio ao choque do assassinato e do massacre, o que não deixa de representar uma faceta menos conhecida do império onde o sol nunca se punha.

Para saber mais:

https://www.onwar.com/aced/chrono/c1500s/yr20/leagueofcognac1526.htm

http://www.historyofwar.org/articles/wars_second_hapsburg_valois.html

http://www.historyofinformation.com/expanded.php?id=3958

http://www.encyclopedia.com/topic/Sack_of_Rome.aspx

http://www.seattlecatholic.com/article_20040427.html

Isabel de Aragão, a filha dos Reis Católicos – parte I

Nascida em 02 de outubro de 1470, Isabel de Aragão era a filha primogênita da infanta Isabel, meia-irmã do rei Henrique IV de Castela, e do príncipe Fernando, herdeiro do reino vizinho como filho de João II de Aragão. O próprio casamento de seus pais já ocorrera cercado de polêmica: sua mãe, líder de uma facção contrária aos direitos sucessórios da pretensa princesa Joana, tivera que fugir secretamente da corte para se encontrar com o prometido, que viajara disfarçado como servo até Valladolid, e assim evitar que Henrique IV a forçasse a algum compromisso matrimonial. Sendo primos de segundo grau, ambos necessitariam de uma dispensa papal para se unirem legalmente, mas a suposta bula que foi apresentada era assinada pelo papa Pio II, falecido cinco anos antes do casamento deles, muito embora o papa da época fosse Sisto VI.

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Isabel I de Castela

Embora a consumação física imediata do contrato nupcial entre seus pais anulasse maiores perigos da pequena infanta ser considerada ilegítima, o fato é que o nascimento de Isabel aprofundou as tensões entre sua mãe e seu tio, que ainda procurava restabelecer sua dita filha como herdeira do trono castelhano. Quando, em 1474, Henrique IV faleceu, a guerra civil estourou. Apoiando a sobrinha e noiva, D. Afonso V de Portugal invadiu Castela em maio de 1475 e, com Joana, proclamou-se soberano legítimo de Castela, pretensão igualmente defendida por Fernando de Aragão. A Guerra de Sucessão Castelhana, porém, permaneceria indefinida até a batalha de Toro, em 1º de maio de 1476, onde as tropas portuguesas debandaram. Provando ter uma grande visão política, Isabel aproveitou o momento para convocar as Cortes, onde sua filha e homônima foi jurada como herdeira presuntiva. A verdadeira consolidação da posição da rainha Isabel, contudo, ocorreria apenas em fins de junho de 1478, quando ela daria à luz ao príncipe João, que assumiria a partir daí a posição da irmã mais velha.

Mesmo que tenha perdido a proeminência sucessória, Isabel ainda foi uma peça importante nas negociações de paz entre Castela e Portugal. Durante a duração das chamadas Terçarias de Moura, a infanta foi criada sob os auspícios de D. Beatriz, duquesa de Viseu, servindo simbolicamente como uma garantia do bom comportamento político dos Reis Católicos, que por sua vez procuravam garantir a neutralização da Beltraneja – que, aliás, compartilharia da vigilância feita à infanta. O lado espanhol também não deixaria de estabelecer condições próprias, requisitando um dos filhos da duquesa de Viseu para ser criado em seu território. Como D. Diego, o mais velho, encontrava-se doente, seu irmão D. Manoel o substituiu como refém. O único filho do rei de Portugal, D. Afonso, também teria seu papel a desempenhar nas negociações.

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Fernando II de Aragão

Como elemento de troca diplomática muito bem estabelecido no início da era moderna europeia, os arranjos nupciais também eram parte fundamental em tratados de paz entre os reinos. Além de poder aquietar as disputas dinásticas por uma simples união familiar, um casamento também poderia literalmente unificar as pretensões opostas que motivaram a beligerância. No caso da infanta Isabel, que possuía apenas um irmão criança para herdar as possessões dos pais, um matrimônio com o herdeiro do trono português, embora não necessariamente unificasse os domínios, ainda prometia muitas vantagens diplomáticas. Esta foi uma das razões pela qual a união foi perseguida desde o início da negociação do Tratado de Alcáçovas em 1479, muito embora os Reis Católicos fizessem esforços posteriores para trocar a primogênita pela segunda filha, a infanta Joana, nascida em 1479; de fato, a própria entrega da infanta Isabel teve algumas dificuldades impostas. Eventualmente, contudo, a menina seria entregue, unindo-se ao príncipe D. Afonso na vigilância da duquesa de Viseu. Ela já tinha quase 10 anos; ele apenas completara 5.