Pretendentes da Sempre Noiva: breve análise das frustradas negociações nupciais da princesa Isabel Luísa

Única filha resultante do polêmico casamento entre o regente D. Pedro e sua antiga cunhada, Maria Francisca de Saboia, Isabel Luísa Josefa de Bragança naturalmente atraiu as atenções do mercado matrimonial europeu desde o seu nascimento em janeiro de 1669. O fato que, nos anos seguintes, a rainha Maria Francisca mostrou-se impossibilitada de gerar um herdeiro homem para a Coroa portuguesa só potencializou a ponderação de vários reinos acerca do destino nupcial de Isabel Luísa, jurada como herdeira presuntiva do trono português pelas Cortes reunidas em 1674. Apesar dos expressos desejos de alguns partidos na corte para que a ocasião fosse aproveitada para promover uma união conciliatória entre a herdeira do trono e Carlos II, rei de Espanha (1), a regência nunca deu uma maior consideração a essa ideia, principalmente depois do suposto envolvimento do antigo representante espanhol em uma conspiração que almejava a volta do deposto rei D. Afonso VI de seu exílio nos Açores. Isso abriria espaço para as ambições de Luís XIV de França, que era o padrinho de Isabel Luísa.

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Princesa Isabel Luísa

Em 1676, o Rei Sol já procurava ativamente casar seu primogênito, o delfim, com a princesa herdeira, essencialmente planejando que o reino português fosse o dote da noiva. A perspectiva da transformação de Portugal em uma virtual província francesa aterrorizaria tanto os espanhóis que muito em breve o representante da Coroa espanhola na corte, o abade Maserati, assegurou a alguns conselheiros de Estado que a Espanha não impediria a concretização de qualquer arranjo feito em ducados menos ameaçadores, como a Baviera, Toscana e Saboia. Ora, o último tratava-se exatamente da região de origem da família da rainha Maria Francisca, que a partir de então se dedicaria juntamente com a irmã Maria Joana, regente de Saboia como mãe do jovem duque Vítor Amadeu, para que o enlace dos primos não só viesse à luz, mas também pudesse ser considerado seriamente como uma alternativa ao trono espanhol após a morte do doente rei Carlos II.

O planejamento secreto das duas irmãs, contudo, não seria a única possibilidade matrimonial que o regente D. Pedro consideraria para sua filha. Várias hipóteses nupciais seriam pensadas para Isabel Luísa, embora grande parte delas não fossem consideradas tão prováveis já de saída, como no caso das conversas envolvendo meninos da Casa alemã de Wittelsbach (2), ou então a que disse respeito ao príncipe de Roche-sur-Yvon. Bem mais sérias seriam as negociações para casar Isabel Luísa ou com Eduardo, príncipe de Parma como herdeiro do duque Rainúncio, ou com Fernando, grão-príncipe da Toscana como herdeiro do grão-duque Cosimo. D. Pedro se inclinaria para aceitar essa proposta, visando principalmente beneficiar-se da influência do grão-duque Médicis frente à cúria romana, até que o próprio pai do presuntivo noivo discretamente retirou a proposta, temendo as consequências políticas de ambicionar a mão de uma noiva ainda desejada tanto por Espanha quanto por França.

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Fernando, grão-príncipe da Toscana

Eventualmente, a escolha portuguesa ficou entre os três ducados menos ameaçadores nomeados anos antes pelo abade Maserati. Sem muita demora, o duque de Baviera seria descartado por sua ligação íntima com o Sacro Império Romano Germânico, o que poderia arrastar Portugal para campanhas militares indesejadas. Entre Parma e Saboia, pareceu de início que o primeiro ganharia o cobiçado enlace português – ou pelo menos essa era a preferência do influente padre jesuíta Antônio Vieira. De acordo com esse importante religioso do período, um casamento com um duque enfermiço e filho único não era tão vantajoso quanto uma união com um príncipe que não só tinha sangue legítimo da realeza portuguesa devido à sua descendência direta de D. Manuel I, mas também tinha a possibilidade de passar imediatamente a Portugal para viver com a noiva.

Entretanto, seria o objetivo planejado longamente entre a rainha Maria Francisca com sua irmã, a duquesa viúva Maria Joana, que prevaleceria apesar de todas as vantagens enumeradas por Vieira. Em fevereiro de 1679, foi comunicada publicamente a assinatura do tratado de casamento entre Isabel Luísa, princesa herdeira de Portugal, e Vítor Amadeu, duque de Saboia. Em agosto, ocorreu a ratificação do documento, tornando em tese o matrimônio inevitável. Contudo, após o embaixador português chegar à capital do ducado, começaram a correr rumores que o duque não só estava bastante doente, mas como também poderia ser incapaz de ter filhos. Embora não seja possível saber o quanto exatamente da doença de Vítor Amadeu é verdade e o que é derivado da resistência de portugueses e saboianos quanto ao casamento, além da ameaça militar francesa nas fronteiras do ducado, o fato é que o duque sequer estava em Lisboa para a sua festa de casamento presencial com Isabel Luísa meses depois, para a grande desilusão da corte portuguesa.

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Vítor Amadeu, duque de Saboia

Com o fim do compromisso nupcial da princesa em Saboia, ocorreram novas conversas nupciais envolvendo o príncipe de Parma. Contudo, a morte de D. Afonso VI e da rainha Maria Francisca nos meses finais de 1683 determinou novas preocupações dinásticas para o agora D. Pedro II de Portugal. Embora tenham ocorrido negociações para um casamento duplo dele com a filha do duque de Parma e de sua filha com o príncipe, nada ficou por fim acertado. Em 1687, o rei contrairia núpcias com Maria Sofia de Neuburgo, tendo com ela rapidamente um filho homem. Não sendo mais a herdeira presuntiva do trono, Isabel Luísa tinha agora a prerrogativa de escolher aceitar ou não um casamento, o que faria ao negar uma nova proposta do grão-duque de Toscana. Em agosto de 1690, ainda uma donzela na corte portuguesa, Isabel Luísa adoeceria com varíola, e pioraria até falecer no dia 21 de outubro. Tendo morrido com pouco mais de 20 anos, ela jamais pode realizar o compromisso de Estado que lhe retiraria a alcunha que, ainda hoje, a faz célebre.

 

(1) A Guerra da Restauração entre a destituída dinastia de Habsburgo e a recém-aclamada Casa de Bragança terminara formalmente apenas um ano antes do nascimento de Isabel Luísa.

(2) Curiosamente, esta seria a família de origem da segunda consorte de D. Pedro.

Para saber mais:

CHAVES, Luís. D. Pedro II. Empresa Nacional de Publicidade, 1959.

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

MARCOS, David Mantín. “O projeto matrimonial de Isabel Francisca Josefa de Bragança e Vítor Amadeu II de Saboia (1675-1682): estratégias familiares e geopolítica”. In: Análise Social. 212, XLIX (3º), 2014.

Luísa de Gusmão – parte II

Depois dos sete dias de festividades em comemoração ao matrimônio do duque, o Paço de Vila Viçosa voltou ao seu cotidiano habitual, e a nova duquesa assumiu suas novas funções. A principal, é claro, constituía na produção de filhos e filhas para o seu marido. D. João, contudo, fosse o quanto dedicado à composição de música sacra fosse, não parece ter se limitado seus desejos carnais ao leito conjugal. Em flagrante contraste com seu pai – e, na verdade, com toda a sua ascendência brigantina -, D. João produziria descendência ilegítima. Nos primeiros meses de seu matrimônio com D. Luísa, a esposa de André Mendes Lobo, rico lavrador e fiel servidor da Casa de Bragança, concebeu sua segunda filha. De acordo com rumores da época, reproduzidos por Felgueiras Gayo, a pequena Maria seria filha de D. Leonor com o duque, assim como a sua irmã mais velha D. Ângela. Toda a família seria muito beneficiada pela forte proximidade com D. João, principalmente as meninas, que efetuariam mais tarde casamentos vantajosos. Além disso, o duque de Bragança tinha frequentes ligações ilícitas com atrizes que trabalhavam em companhias de comédias, casos que eram do pleno conhecimento de sua negligenciada esposa.

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D. Teodósio retratado numa gravura do século XVII

O matrimônio, então, teve um começo atribulado. Mesmo assim, D. Luísa daria à luz ao primeiro filho do casal, Teodósio, em oito de fevereiro de 1634, pouco mais de um ano após o casamento de presente com D. João. A partir daí, vendo a produção regular de crianças, pode-se presumir que a desatenção do duque com sua esposa ficou relegada ao passado: logo no ano seguinte, nasceria Ana, que teve curta vida, seguida no mesmo ano por Joana. Em 1637, a duquesa teria um aborto, mas em 25 de novembro de 1638 teve outra menina, Catarina. D. Luísa teria outro aborto antes de ter mais um menino, Manuel, em setembro de 1640, mas ele viveu pouco.

Paralelamente ao trabalho reprodutivo da duquesa, D. João contemporizava perante as evidentes tentativas do conde-duque de Olivares para que ele participasse mais da política da monarquia hispânica. Enfrentando dificuldades financeiras decorrentes da Guerra dos Trinta Anos, o governo dos Habsburgo espanhóis planejava repartir entre todos os seus reinos ibéricos o custo humano e financeiro da política imperial de Castela. Tal ideia enfrentou evidente resistência da alta nobreza portuguesa, que combateu com afinco o planejado programa fiscal. Então, em 1634, a duquesa de Mântua foi nomeada como vice-rainha, substituindo o conde de Basto.

Primeira filha de Carlos, duque de Saboia, com a infanta Catarina, filha de Felipe II de Espanha, Margarida era parente próxima de Felipe IV. Aconselhada por apoiadores da política espanhola, a duquesa aquiesceu às exigências de Olivares, que foram ficando progressivamente mais duras em relação a Portugal. Nesta conjuntura, ocorreu uma sequência de más colheitas, degradando as condições de vida da população, que acabaria por se rebelar em Évora em 1637. Conhecido como Revolta do Manelinho ou Manuelinho, em referência a seu suposto líder popular, o movimento espalhou-se rapidamente, chegando a atingir Lisboa. Como governador-geral das armas, D. João foi chamado a Madri e ordenado a suprimir o movimento com força militar; contudo, ele dilataria tanto os preparativos que seria a mera ameaça dos exércitos castelhanos nas fronteiras portuguesas que acabaria por dar fim à revolta. Devido à liderança nominal do duque de Bragança destas tropas, porém, Felipe IV convenceu-se que D. João o servia fielmente. O monarca até mesmo teria considerado nomeá-lo como o novo vice-rei de Portugal, em substituição à sua prima Margarida.

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Margarida, duquesa de Mântua

Enquanto isso, a pressão no reino aumentava cada vez mais. Insatisfeitos com o governo Habsburgo, ao qual acusavam de quebrar o acordo efetuado em Tomar em 1581, parte da aristocracia portuguesa acabaria por iniciar preparativos para o golpe contra a Coroa após receber instruções de Espanha para enviar tropas para lutar na campanha contra a revoltosa Catalunha. Depois de muito hesitar, D. João concordou em 17 ou 18 de novembro de 1640 com a sua aclamação como o herdeiro legítimo do trono de Portugal. Foi planejado que a ação que deporia a soberania política Habsburgo ocorreria no dia 1 de dezembro, enquanto o duque aguardava com segurança em Vila Viçosa.

A insurreição ocorreu praticamente sem incidentes, excetuando-se a morte do secretário de Estado e genro de Margarida, Miguel Vasconcelos, que foi atirado pela janela do palácio. As notícias do sucesso chegariam ao conhecimento de D. João no dia seguinte, mas seria apenas no dia 4 que ele seguiu para Lisboa, reunindo-se com os governadores interinos no Paço da Ribeira em meio à concentração da população ao redor. Tantas teriam sido “as vozes alegres do povo”, segundo Ericeira, que o duque teve que aparecer numa das janelas, onde foi aclamado. Agora D. João era o rei de Portugal, e D. Luísa era sua rainha.

Luísa de Gusmão – parte I

Nascida em 13 de outubro de 1613, Luísa Maria Francisca de Gusmão foi a primogênita do casamento entre João Manuel Pérez de Gusmão, duque de Medina Sidônia, com Joana Gomes de Sandoval e Cerdas, filha do duque de Lerma, favorito de Felipe III. Desde sua infância, era evidente que um matrimônio prestigioso a aguardava; não apenas devido ao fato que era a filha mais velha, mas também porque os Medina Sidônia pertenciam à alta nobreza espanhola, sendo quase tão influentes quanto a Casa reinante.

Pensando no fato que Luísa era descendente direta de vários reis de Portugal por via paterna e materna, se poderia concluir hoje que núpcias neste sentido foram consideradas para ela desde cedo. Aparentemente, contudo, este não foi o caso; na verdade, o duque de Medina Sidônia não parecia ter tanta pressa para casar sua filha, visto que Luísa ultrapassou bastante a média de idade de casamento na aristocracia. Talvez isso tenha se devido a possíveis planos que o conde-duque de Olivares, o favorito do novo monarca, alimentava em relação a um hipotético casamento da jovem com o duque de Bragança, D. João, quase dez anos mais velho.

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D. João retratado em 1628

Se Luísa estava demorando a ser casada por seu pai, o mesmo poderia ser dito até fins do ano de 1630 em relação a D. João. Embora parte da tranquilidade do duque D. Teodósio quanto às núpcias do herdeiro possa ser atribuída ao fato que ele tivera outros dois filhos varões com sua esposa espanhola, é defendido por grande parte da historiografia sobre o tema que as negociações envolvendo filhas dos duques de Parma, Saboia, Mântua e Modena foram inviabilizadas por agentes de Felipe IV ou de seu favorito Olivares, com a intenção de impedir alianças matrimoniais possivelmente danosas aos Habsburgo. Entretanto, como apontam as autoras de uma recente biografia de D. João IV, as negociações feitas a mando de D. Teodósio foram discretíssimas, exatamente para evitar que Madri tomasse conhecimento das intenções da Casa de Bragança, o que fragiliza a ideia que o rei ou o valido interferiram na questão do casamento de D. João.

Seja como for, D. Teodósio faleceu em novembro de 1630 sem ver o primogênito casado. Quase que de imediato, o novo duque acionou contatos familiares em Espanha para negociar um matrimônio favorável aos interesses de Felipe IV, e rapidamente ouviu falar da primogênita da poderosa Casa de Medina Sidônia, com a qual um antepassado seu, D. Jaime, já havia se consorciado mais de um século antes. O rei espanhol, por sua lado, julgava que um casamento entre ela e o duque de Bragança estabeleceria firmemente D. João em sua órbita de influência sem necessitar de um casamento desde com alguma parenta Habsburgo, enquanto o duque de Bragança estava interessado em se beneficiar ao agradar seu monarca e o valido deste ao aceder aos seus interesses.

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Luísa de Gusmão em sua juventude

Além de todas as motivações políticas, contudo, devemos considerar a importância dos atributos físicos da formosa Luísa para firmar a decisão do mulherengo D. João em se casar com ela; com quase 18 anos, ela seria descrita como tendo grandes olhos negros e “entremadas partes”. Em pouco tempo, o contrato nupcial seria acertado, com amplas mercês sendo concedidas à Casa de Bragança, e, depois que uma licença papal devido ao parentesco dos noivos foi concedida, Luísa tornou-se a nova duquesa por um casamento por procuração. Pouco depois, ela iniciou sua viagem para o novo lar.

A rainha do Piedoso: Margarida de Áustria – parte I

Nascida no dia de Natal em 1584, Margarida de Áustria era mais uma das muitas meninas que vieram do casamento entre Carlos II, arquiduque de Áustria – terceiro filho de Fernando I, Sacro Imperador Romano e irmão mais novo de Carlos V -, com sua sobrinha Maria Ana de Bavária. Quando Margarida ainda era uma criança, seu pai faleceu, deixando a esposa grávida e mais doze filhos e filhas, incluindo seu herdeiro, Fernando II, que somente tinha doze anos quando sucedeu ao pai. A morte do arquiduque, contudo, não diminuiu o valor de Margarida e suas irmãs no mercado matrimonial europeu; afinal, elas ainda eram primas do Sacro Imperador Romano Rodolfo II, além de pertencentes à poderosa Casa de Habsburgo. Inclusive, quando as negociações para casar a jovem Margarida com o herdeiro do trono espanhol começaram, sua irmã mais velha Ana já era casada com o rei de Polônia, Sigismundo III; depois da morte desta, outra irmã, Constança, a seguiria como rainha.

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Felipe II de Espanha

Em verdade, não importava tanto qual das filhas ainda solteiras da arquiduquesa viúva Maria Ana seria a futura rainha de Espanha; afinal, não era como se Felipe II tivesse muitas opções de Casas para casar seu filho. Portugal, que por tanto tempo procurara noivos em Espanha, estava agora fora do jogo, tanto pela disputa dinástica ainda fresca entre os Bragança e os Habsburgo (1) quanto por uma questão financeira de rendimentos, considerada desvantajosa comparada com, por exemplo, Casas italianas ou mesmo castelhanas. Inglaterra, liderada por Isabel I, também não apresentava noivas viáveis, assim como Escócia e França, cujos monarcas não tinham filhas legítimas. Entre os principados italianos, contudo, uma boa opção teórica estava em Saboia; pouco antes do nascimento de Margarida, entretanto, ali fora casada a filha mais nova de Felipe II, a infanta Catarina Micaela. Em contraste, o ramo austríaco dos Habsburgo trazia consigo, além do ideal de fortalecimento dinástico, uma promessa de fertilidade: a mãe de Margarida tivera nada menos do que quinze crianças, das quais boa parte sobrevivera. Num tempo em que os antecedentes familiares eram julgados como fundamentais para prever a capacidade reprodutiva da esposa, Margarida e suas irmãs estavam muito bem situadas.

De fato, ao menos desde 1593 a ideia já passava pela cabeça de Felipe II, uma vez que foi aproximadamente nesta época que negociações da Casa de Bragança para o matrimônio do duque, D. Teodósio, com uma das irmãs de Fernando II foram interrompidas pelo rei espanhol, que anteriormente apoiara a união. O que num primeiro olhar parece uma discordância matrimonial superficial entre Felipe II e a duquesa viúva, D. Catarina, ganha toda uma nova dimensão ao observar-se que, caso o jovem duque tivesse atingido o intento, ele seria em poucos anos o cunhado do rei de Espanha e Portugal. Nesta época, retratos de três das irmãs – Catarina, Gregória e Margarida – chegaram à corte de Felipe II para inspeção; em 1595, o embaixador de Veneza já falava em um casamento do príncipe Felipe com uma das jovens, embora sem especificar qual delas. Como, então, Margarida acabou como a consorte escolhida?

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Maria Ana de Bavária

Em sua biografia de D. Felipe II, a historiadora Fernanda Olival fornece algumas narrativas sobre a questão. Segundo o cronista Gil Dávila, por exemplo, teria sido perguntado ao príncipe qual das donzelas era a mais bonita, ao qual ele respondera que esse julgamento cabia à Sua Majestade; Felipe II, então, selecionou Catarina, a mais velha. Já outra história conta que a escolha teria sido feita primeiramente pela infanta Isabel, irmã mais velha do príncipe, que optou pela mais nova, Margarida. Estes textos, contudo, ignoram que a primeira escolha do rei fora Gregória, com ou sem a anuência do filho (2), muito embora aparentemente esta arquiduquesa fosse considerada deformada. De qualquer maneira, Gregória morreu em setembro de 1597. Quase que de imediato, suas irmãs Leonor e Margarida foram colocadas à disposição de Felipe II para substituí-la. A mãe delas, Maria Ana, estaria tão ansiosa para não perder a oportunidade de encaminhar melhor a vida dos filhos que inclusive se mostrava receptiva à ideia de mandar as duas jovens para a corte de Felipe II para que lá fosse feita a escolha. Embora isso não ocorresse, eventualmente a mais bela das irmãs – Margarida – seria selecionada.

(1) Crise Sucessória Portuguesa de 1580.

(2) Embora Olival argumente que a escolha por Gregória apenas ocorreu devido ao falecimento precoce de Catarina, o fato é que esta arquiduquesa morreu ainda solteira dois anos depois da irmã mais nova, em 1599. Isto aponta para uma escolha mais pessoal do rei (talvez guiado pelos retratos enviados anteriormente) ou, o que parece mais provável, para uma escolha precoce da família em enviá-la para a vida religiosa, como ocorreria mais tarde com sua frágil irmã Leonor.

Catarina de Áustria – parte VI

A pouca idade de D. Sebastião tornava inevitável que uma regência fosse necessária por alguns anos; como mãe do jovem monarca, D. Joana seria a candidata mais evidente, mas já não se encontrava em Portugal havia muito. Viúva, o destino da princesa dependia novamente dos desejos de seu pai, o poderoso Carlos V, e a vontade dele era que Joana voltasse para Espanha para servir como regente na ausência de seu irmão Felipe, que em breve se casaria com a rainha Maria de Inglaterra. A decisão do imperador causou mal estar na corte portuguesa; pelo lado político, D. João III via frustrados seus próprios planos em casar o irmão D. Luís com a soberana inglesa e sua irmã caçula D. Maria com o príncipe Felipe, e pelo lado sentimental, os monarcas exprimiram sua preocupação em deixar praticamente órfã uma criança tão pequena. De qualquer maneira, a princesa Joana partiu em maio de 1554.

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D. Sebastião enquanto criança

Os anos seguintes trariam mais perdas à rainha D. Catarina: em abril de 1555, faleceu em Tordesilhas a mãe que ela jamais vira novamente em 30 anos, a doente rainha Joana. Em novembro de 1555, morreu seu cunhado, o infante D. Luís, que tinha com Catarina uma relação algo tensa desde as negociações frustradas de matrimônio com sua sobrinha anos antes. Em fevereiro de 1558, falecia sua irmã mais velha e antecessora no posto de rainha de Portugal, Leonor. Em outubro do mesmo ano, morreu outra irmã, Maria, seguida logo no mês seguinte pelo desaparecimento de seu irmão mais amado, Carlos V, com quem Catarina procurara manter uma correspondência constante desde o primeiro encontro de ambos em 1516.

A morte mais importante do ponto de vista político e pessoal, entretanto, já ocorrera em 11 de junho de 1557; após um agravamento súbito de uma doença antiga, faleceu D. João III em Lisboa. Do ponto de vista puramente governamental, o desaparecimento não significou em princípio uma mudança imediata; afinal, a doença do rei, visível desde 1550, apenas tornara mais visível o protagonismo da rainha. A quebra dos escudos do falecido monarca em 14 de junho, contudo, tornou inevitável a tensão – quem seria o regente do jovem D. Sebastião? Pelo costume, o posto pertencia ao parente homem mais próximo do monarca, no caso o infante cardeal D. Henrique, último dos filhos de D. Manuel I que ainda vivia. Regências femininas, embora não uma novidade na história portuguesa – basta lembrar o precedente imediato de Leonor de Aragão, consorte de D. Duarte e mãe de D. Afonso V – não costumavam conseguir o apoio político necessário para serem bem sucedidas. Na reunião do conselho régio que se seguiu imediatamente à quebra dos escudos, a rainha, que já partilhava do governo há vários anos, apresentou uns apontamentos de D. João III que supostamente indicavam o desejo real que D. Catarina assumisse a regência, curadoria e tutoria de D. Sebastião. Após ser pedido para assistir a cunhada na função, D. Henrique concordou.

Em breve, contudo, a princesa Joana, ainda regente em Espanha na ausência do irmão, reivindicou seu direito de sangue de assumir a regência do filho. Era de tal modo forte sua intenção que seu pai, Carlos V, teve que escrever uma carta bastante incisiva, deixando claro que a posição pertencia à sua irmã Catarina. A intenção do imperador era conseguir dela um compromisso no sentido de garantir a sucessão do filho da infanta D. Maria no caso de morte de D. Sebastião; afinal, como ele escreveu ao filho Felipe, “o Príncipe (Carlos) é tanto seu neto como o Rei”. Apesar da concordância de Catarina, a pragmática que reconhecia este direito jamais foi publicada devido ao sentimento anti castelhano presente na corte portuguesa, juntamente com certa impopularidade da regente, inclusive entre seus súditos de nascimento mais baixo.

(c) The Bowes Museum; Supplied by The Public Catalogue Foundation
D. Catarina em sua época como regente do neto

Esta tensão no relacionamento entre Catarina e algumas grandes Casas, nomeadamente os Aveiro e os Bragança, ganhou seu principal símbolo na noite de 3 de setembro de 1554. D. Teodósio, duque de Bragança, era viúvo desde o ano anterior e manifestou o desejo de voltar a se casar com D. Beatriz de Lencastre, sobrinha de D. João, duque de Aveiro. D. Catarina vetou tal matrimônio. Além do procurar evitar uma união mais íntima entre duas Casas tão poderosas, o movimento muito provavelmente visava proteger o dote devido à sua sobrinha homônima, segunda filha do falecido infante D. Duarte, que em breve se uniria ao herdeiro do duque de Bragança. Apesar da proibição, entretanto, D. Teodósio foi em frente e casou-se com D. Beatriz. Isso causou uma imediata reação da regente, que expulsou tanto ele quanto o duque de Aveiro da corte. Sua autoridade, porém, já fora minada.

E é neste contexto que ocorreu a primeira tentativa de renúncia de D. Catarina em nome de D. Henrique, que acabou aceitando-a após tentar convencer a cunhada a continuar no cargo. Embora este evento seja interpretado por muitos historiadores como uma tentativa bem-sucedida de D. Catarina de desestabilizar politicamente o infante cardeal, não é realmente impossível que a regente tenha considerado, diante das dificuldades políticas, abandonar a corte e ir para um convento, como fizera seu irmão anos antes. Independente da intenção, contudo, a reação da corte foi massiva pela continuidade de D. Catarina no cargo. Apesar de tudo, D. Henrique não era propriamente um nome que despertava entusiasmo.

Catarina de Áustria – parte I

Filha póstuma de Joana de Castela e Felipe, duque de Borgonha, a infanta Catarina nasceu em 14 de janeiro de 1507. Esta última gestação da rainha foi, de fato, dramática: depois de uma estadia algo forçada em Inglaterra, onde o bebê foi concebido, uma fragilizada Joana foi para Castela, apenas para testemunhar a virtual guerra entre seu marido Felipe e seu pai Fernando para controlá-la e, assim, exercer a dignidade real numa Castela dominada pela peste e pela fome. Inesperadamente, em 25 de setembro de 1506, Felipe faleceu, provavelmente de febre tifoide, embora a possibilidade de envenenamento não possa ser eliminada.  Em estado de choque, sua viúva ia com frequência à sepultura beijar os pés do cadáver, o que apenas realçava ao público seu desequilíbrio psicológico, causado provavelmente ou por depressão crônica ou por esquizofrenia. Finalmente, em dezembro, Joana ordenou que se retirasse o caixão do mosteiro onde se encontrava e levou-o consigo em sua comitiva até Granada, onde pretendia enterrar seu marido junto à sua mãe, Isabel I de Castela. Estando com a gravidez muita avançada, contudo, a rainha teve que se deter na humilde casa de um clérigo em Torquemada. Lá, ela deu à luz uma menina saudável, batizada em homenagem à sua irmã mais nova, a princesa viúva de Gales.

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Joana e Felipe em seu conflituoso matrimônio, conforme representado na série Isabel (2011-14)

Por meses, a rainha permaneceu em Torquemada com sua filha recém-nascida e outro filho, o infante D. Fernando, enquanto a peste e a fome se espalhavam cada vez mais. Os boatos diziam que ela fora convencida que seu marido ressuscitaria em breve, mas em abril ela finalmente continuou seu caminho até Granada. Em agosto, o próprio rei Fernando foi encontrar-se com sua filha, revendo-a na província de Burgos em 29 de agosto de 1507, para emoção de ambos. Passariam semanas juntos, participando inclusive das cerimônias religiosas pelo primeiro ano de morte de Felipe. Em breve, contudo, a percepção da instabilidade de sua filha, juntamente com a ameaça da vinda do imperador Maximiliano para Castela, a fim de servir como regente do primogênito de Joana, Carlos, precipitou a decisão de Fernando em transferir a corte da filha para Tordesilhas. Joana, entretanto, resistia a qualquer mudança e ainda encontrava-se em Arcos quando 1507 se tornou 1508, com o corpo de Felipe ainda insepulto. Em julho, Fernando II de Aragão, em tese regente de Castela pelos termos do testamento de sua esposa, ordenou que seu neto homônimo fosse retirado da mãe e levado até ele. A rainha resistiu inicialmente, mas acabou cedendo, para seu grande abatimento. Seria apenas em fevereiro de 1509, porém, que a rainha Joana e a pequena Catarina, acompanhadas pelo rei Fernando, se dirigiram até Tordesilhas.

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Fernando II de Aragão

A multidão que os recepcionou e observou uma mulher bela, mas enfraquecida, entrar na bem murada vila régia de Tordesilhas, residência de monarcas de Castela banhada pelo rio Douro, dificilmente poderia prever que seria ali que a rainha passaria a esmagadora parte dos próximos 46 anos como prisioneira (1), enquanto seu pai e seu filho usurpavam seu poder ao aproveitar-se de sua fragilidade psicológica. Durante os primeiros 16 anos, sua caçula seria uma companheira constante. Apegada à filha até o ponto da obsessão após a partida de seu filho Fernando, a rainha ordenou que a menina dormisse num quarto adjacente aos seus próprios aposentos, localizados num canto isolado do palácio. Além disso, Joana exigia que todas as janelas ficassem permanentemente fechadas. Foi, então, no silêncio e no escuro que a pequena Catarina se desenvolveu.

(1) Com exceção do período entre 1533-34, quando a rainha teve que ser retirada de Tordesilhas pela ameaça crescente da peste.

Isabel de Portugal, a ínclita duquesa

Nascida em 21 de fevereiro de 1397, D. Isabel foi a sexta criança a surgir do casamento entre o primeiro rei da dinastia de Avis, D. João I, e sua consorte, a inglesa Philippa de Lancaster, filha de João de Gaunt e neta de Eduardo III. Apesar de ter vindo à luz relativamente tarde na união, a infanta seria a única filha do casal real – uma irmã mais velha, Blanche, morrera na infância. D. Isabel teria, contudo, cinco saudáveis irmãos: D. Duarte, que se tornaria rei depois da morte do pai, D. Pedro, futuro regente do reino, D. Henrique, célebre por suas contribuições às Navegações Portuguesas, D. João, Condestável de Portugal e D. Fernando, o Infante Santo.

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Philippa, a mãe de D. Isabel

Nesta ilustre geração produzida por D. João I e Philippa de Lancaster, a única filha sobrevivente (1) brilharia como a joia da coroa. Possivelmente tendo herdado a beleza de sua avó materna, D. Isabel também se destacava pela inteligência, sendo educada junto com seus irmãos e tendo os mesmos tutores que eles enquanto aprendia matemática, latim, francês, inglês e italiano. Eles também caçavam juntos. Além disso, a jovem D. Isabel era autorizada, em notável contraste com a maioria das donzelas de sua época, a comparecer com os irmãos quando o pai os instruía sobre questões de Estado.

Dificilmente esta bonita e inteligente filha de rei passaria despercebida, e, de fato, não foi o que ocorreu: em 1415, negociações começariam para que D. Isabel se casasse com o rei Henrique V de Inglaterra, que pouco tempo antes subira ao trono. Na verdade, os dois jovens eram primos, uma vez que a mãe da infanta e o pai do monarca, Philippa e Henrique, eram irmãos, sendo ambos filhos de João de Gaunt e Blanche de Lancaster. Apesar disso, contudo, o casamento não era só para reaproximar a família, mas também para conseguir o apoio do reino de Portugal contra a França, com quem a Inglaterra já travava uma longa série de conflitos há vários anos (2). É de se imaginar que a rainha inglesa de Portugal fosse entusiasta do arranjo, mas Philippa não viveria para vê-lo, morrendo subitamente de peste no meio de um quentíssimo verão português. D. Isabel era muito próxima de sua mãe, e ficou arrasada, retirando-se da corte em luto. Neste sentido, o fracasso das negociações nupciais com Henrique V pode ser melhor entendido. Anos depois, ele acabaria se casando com a princesa francesa Catarina de Valois.

Durante os próximos 13 anos, a infanta permaneceria sem outras propostas matrimoniais, focando-se em música e livros e cuidando de suas propriedades legadas pela mãe. É de se pensar que talvez ela tenha recebido propostas menores de casamento, mas optou por preservar a situação privilegiada em que se encontrava: afinal, depois da morte de Philippa, era D. Isabel agora a mulher mais importante da corte portuguesa. Em 1428, quando já tinha 31 anos de idade, ela finalmente aceitou a proposta do Felipe, duque de Borgonha, cognominado como O Bom, após muitas negociações entre os embaixadores deste e o pai e irmãos de D. Isabel. Era muito prestigioso para Portugal se unir ao sofisticado ducado por casamento, e as comemorações ocorridas foram de acordo, durando oito semanas. Apenas depois a infanta partiu para se encontrar com o novo marido, mas a viagem foi difícil e duraria mais 11 semanas. Por fim, ela chegou na cidade de Sluys no dia de Natal. Após uma cerimônia formal de casamento em 7 de janeiro de 1430,  Isabel e Felipe consumaram a união.

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Isabel com seu marido

Ela já era a terceira esposa do duque de Borgonha. A primeira, Michelle de Valois, com quem Felipe fora comprometido ainda na infância, era filha de Carlos VI de França e morreu de doença em 1422. Dois anos depois, o duque voltou a se casar, desta vez com sua tia por casamento, Bonne de Artois, duquesa viúva de Nevers, que já tivera dois filhos homens nas núpcias anteriores. Apesar dela ser jovem, porém, o matrimônio durou apenas pouco mais de um ano antes da morte prematura de Bonne em 1425, deixando o duque novamente viúvo e ainda sem filhos legítimos, ainda que ele já tivesse gerado vários ilegítimos de variadas amantes.

Neste ponto, Isabel de Portugal cumpriu sua tarefa para o marido de maneira exemplar, mesmo que tivesse se casado relativamente tarde para a época; poucos meses após a união, ela já estava grávida. Em 30 de dezembro de 1431, ela deu à luz ao seu primeiro menino, que chamou de Antônio. Já no outono seguinte, ela se encontrava grávida novamente, emulando a famosa fertilidade de sua mãe Philippa. A boa relação do casal ducal, incluindo a confiança que Felipe depositava em Isabel, não significava que ambos estivessem alinhados politicamente; ao contrário. Enquanto o marido tendia a fortalecer seus laços com o vizinho francês, a esposa o incentivava a colaborar com a Inglaterra.

Embora tal diferença de opinião fosse causar discordância entre ambos durante o matrimônio, não diminuiu as responsabilidades governamentais confiadas à Isabel; em janeiro de 1432, quando o duque teve que ir para Dijon, a duquesa recebeu dele a autoridade para governar os territórios em sua ausência. Ainda na ausência de Felipe, o primogênito Antônio, sempre doente, faleceu. Isabel ficou arrasada, mas já em 23 de abril teve um segundo menino, que chamou de José. Mesmo com todos os cuidados, ele também faleceria jovem. Felipe finalmente retornou durante o inverno, quando Isabel engravidou pela terceira e última vez, dando à luz em 10 de novembro de 1433 ao único filho que sobreviveria. Tratava-se de Carlos, o Temerário.

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Carlos, o filho de Isabel e Felipe, circa 1460

Além das tarefas governamentais, a duquesa também se ocupava de assuntos financeiros, sendo responsável por propor um novo sistema monetário para o ducado, influenciado pelos modelos inglês e francês. Em junho de 1433, o duque Felipe partiu para o sul para guerrear contra os franceses e deixou o governo novamente sobre controle de sua esposa. Ele retornaria apenas em abril do ano seguinte. Ao ver como Isabel cuidara eficientemente de tudo, Felipe não lhe retirou o poder, ao contrário do que seria de costume. Desta forma, Isabel permaneceu como uma figura poderosa nas políticas do ducado de Borgonha. Durante as negociações triplas de paz entre Borgonha, França e Inglaterra, em 1435, foi dela o papel preponderante, a ponto do rei Carlos VII lhe conceder uma polpuda renda anual em agradecimento aos “seus serviços na reunião e negociação da paz”. Em 1439, as relações positivas com a França seriam confirmadas com o casamento entre o filho de Isabel, Carlos, e uma das filhas do rei francês, Catarina. Um acordo comercial com a Inglaterra também foi alcançado, embora a desejada paz ainda não ocorresse. De qualquer forma, a atuação diplomática da duquesa de Borgonha, que serviu como intermediária entre Henrique VI de Inglaterra e Carlos VII de França, foi louvada.

A partir de 1443, quando a expansão borgonhesa efetuada pelo duque Felipe se confirmou com a aquisição do território de Luxemburgo, a duquesa Isabel, com posses e rendimentos muito aumentados em relação à época de seu casamento, começou a tornar-se a líder de facto de Borgonha. Foi ela quem arranjou o matrimônio da sobrinha do marido, Maria de Guelders, com o rei escocês Jaime II, efetuado em 1449. Depois, ela começou a negociar com o duque de York a mão da filha deste, Ana, para o seu filho enviuvado desde 1446. Felipe, contudo, queria que o jovem Carlos se casasse com uma prima, Isabel de Bourbon, e interrompeu as negociações da esposa ao providenciar uma rápida e secreta união entre os dois em 30 de outubro de 1454. A duquesa ficaria furiosa com o marido e, inicialmente, até mesmo se recusaria a reconhecer a posição da nova nora. Com a disputa com o duque, que caíra sob a influência da poderosa família De Croy, Isabel perdeu parte de seu poder, já desgastado anteriormente devido ao início do processo de centralização das políticas borgonhesas e à criação de vários órgãos administrativos no ducado, e teve que retirar-se para sua propriedade em La-Motte-au-Bois, onde continuou se dedicando ao seu trabalho de caridade.

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Isabel, duquesa de Borgonha, circa 1450

As boas relações entre Isabel e Felipe só seriam retomadas inteiramente após um derrame deste em junho de 1458, quando ela passaria a cuidar pessoalmente da saúde dele, o que se manteria até a morte de Felipe em 1467. A influência de Isabel foi restaurada e ela voltou a trabalhar ativamente na diplomacia, deixando o filho Carlos para cuidar dos assuntos administrativos e militares. Em 1465, este ficou viúvo novamente, e Isabel aproveitou a oportunidade para negociar um matrimônio com a irmã do rei inglês Eduardo VI, Margarida, que foi alcançado e realizou-se em julho de 1468.

A partir de 1471, Isabel começou a ficar cada vez mais doente e passou a preparar-se para a morte, presenteando ordens religiosas e parentes mais chegados, como a nora Margarida e sua única neta, Maria, fruto do segundo matrimônio de Carlos com Isabel de Bourbon. Em outubro, ela já não conseguia comer, mas seria apenas em 17 de dezembro que Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha, faleceria nos braços do filho Carlos. Tinha 74 anos de idade. Ela foi enterrada com o marido em Chartreuse de Champmol, em Dijon. Carlos, o único herdeiro do casal, não teria filhos com sua esposa inglesa, sendo sucedido no comando do ducado pela filha Maria, que por sua vez se casaria com Maximiliano de Áustria e teria com ele dois filhos, Felipe e Margarida, antes de sua trágica morte em 1482. Por meio do matrimônio de sua neta, então, Isabel seria a trisavó póstuma de Carlos V, Sacro Imperador Romano, que dominaria grande parte da Europa na primeira metade do século XVI.

(1) Outra infanta chamada Blanche, esta mais jovem do que D. Isabel, morreria com poucas semanas de vida.

(2) Mais conhecida como A Guerra dos Cem Anos.

Para saber mais:

http://thefreelancehistorywriter.com/2013/01/16/isabel-of-portugal-duchess-of-burgundy/

PARISOTO, Felipe. D. Isabel de Portugal, ínclita duquesa de Borgonha (1430-1471), diplomata europeia do século XV. Contributo para uma bibliografia crítica. Disponível em: https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/18532

 

Isabel de Aragão, a filha dos Reis Católicos – parte I

Nascida em 02 de outubro de 1470, Isabel de Aragão era a filha primogênita da infanta Isabel, meia-irmã do rei Henrique IV de Castela, e do príncipe Fernando, herdeiro do reino vizinho como filho de João II de Aragão. O próprio casamento de seus pais já ocorrera cercado de polêmica: sua mãe, líder de uma facção contrária aos direitos sucessórios da pretensa princesa Joana, tivera que fugir secretamente da corte para se encontrar com o prometido, que viajara disfarçado como servo até Valladolid, e assim evitar que Henrique IV a forçasse a algum compromisso matrimonial. Sendo primos de segundo grau, ambos necessitariam de uma dispensa papal para se unirem legalmente, mas a suposta bula que foi apresentada era assinada pelo papa Pio II, falecido cinco anos antes do casamento deles, muito embora o papa da época fosse Sisto VI.

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Isabel I de Castela

Embora a consumação física imediata do contrato nupcial entre seus pais anulasse maiores perigos da pequena infanta ser considerada ilegítima, o fato é que o nascimento de Isabel aprofundou as tensões entre sua mãe e seu tio, que ainda procurava restabelecer sua dita filha como herdeira do trono castelhano. Quando, em 1474, Henrique IV faleceu, a guerra civil estourou. Apoiando a sobrinha e noiva, D. Afonso V de Portugal invadiu Castela em maio de 1475 e, com Joana, proclamou-se soberano legítimo de Castela, pretensão igualmente defendida por Fernando de Aragão. A Guerra de Sucessão Castelhana, porém, permaneceria indefinida até a batalha de Toro, em 1º de maio de 1476, onde as tropas portuguesas debandaram. Provando ter uma grande visão política, Isabel aproveitou o momento para convocar as Cortes, onde sua filha e homônima foi jurada como herdeira presuntiva. A verdadeira consolidação da posição da rainha Isabel, contudo, ocorreria apenas em fins de junho de 1478, quando ela daria à luz ao príncipe João, que assumiria a partir daí a posição da irmã mais velha.

Mesmo que tenha perdido a proeminência sucessória, Isabel ainda foi uma peça importante nas negociações de paz entre Castela e Portugal. Durante a duração das chamadas Terçarias de Moura, a infanta foi criada sob os auspícios de D. Beatriz, duquesa de Viseu, servindo simbolicamente como uma garantia do bom comportamento político dos Reis Católicos, que por sua vez procuravam garantir a neutralização da Beltraneja – que, aliás, compartilharia da vigilância feita à infanta. O lado espanhol também não deixaria de estabelecer condições próprias, requisitando um dos filhos da duquesa de Viseu para ser criado em seu território. Como D. Diego, o mais velho, encontrava-se doente, seu irmão D. Manoel o substituiu como refém. O único filho do rei de Portugal, D. Afonso, também teria seu papel a desempenhar nas negociações.

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Fernando II de Aragão

Como elemento de troca diplomática muito bem estabelecido no início da era moderna europeia, os arranjos nupciais também eram parte fundamental em tratados de paz entre os reinos. Além de poder aquietar as disputas dinásticas por uma simples união familiar, um casamento também poderia literalmente unificar as pretensões opostas que motivaram a beligerância. No caso da infanta Isabel, que possuía apenas um irmão criança para herdar as possessões dos pais, um matrimônio com o herdeiro do trono português, embora não necessariamente unificasse os domínios, ainda prometia muitas vantagens diplomáticas. Esta foi uma das razões pela qual a união foi perseguida desde o início da negociação do Tratado de Alcáçovas em 1479, muito embora os Reis Católicos fizessem esforços posteriores para trocar a primogênita pela segunda filha, a infanta Joana, nascida em 1479; de fato, a própria entrega da infanta Isabel teve algumas dificuldades impostas. Eventualmente, contudo, a menina seria entregue, unindo-se ao príncipe D. Afonso na vigilância da duquesa de Viseu. Ela já tinha quase 10 anos; ele apenas completara 5.

Leonor de Viseu – parte III

A partir da separação do marido, D. Leonor passou a dedicar-se basicamente a uma vida de oração e contemplação, além de cuidados com seu único e adorado filho, o príncipe D. Afonso, e eventuais visitas à corte. Em 29 de novembro de 1490, o herdeiro do trono se casou com sua antiga prometida, Isabel de Aragão. Após grandes festas em Évora, o novo casal foi se estabelecer em Santarém em julho seguinte, sendo acompanhados na viagem pelo rei e pela rainha. Em meio aos entretenimentos, o herdeiro do trono português desafiou o fidalgo D. João de Meneses para uma corrida. Foi quando ocorreu a tragédia: em meio à disputa, o cavalo de D. Afonso tropeçou e caiu, derrubando o príncipe e caindo sobre ele, deixando-o inconsciente. Seu estado foi piorando gradativamente até 13 de julho, quando finalmente morreu, deixando seus pais inconsoláveis e uma jovem viúva arrasada.

Infanta Isabel de Aragão
Infanta Isabel de Aragão

Sem nenhum filho legítimo restante e impossibilitado de qualquer forma de produzir algum com D. Leonor devido à saúde frágil desta, D. João II começou a planejar a legitimação de D. Jorge, seu filho ilegítimo com Ana de Mendonça. Isso provocou a resistência acirrada da rainha. Segundo o costume, os sucessores de direito de D. João II eram os filhos de seu falecido tio D. Fernando, os irmãos da rainha; depois do assassinato jurídico de D. Diego, duque de Viseu, era agora D. Manuel, duque de Beja, que ocupava tal posição. Para evitar este evento, o rei procuraria Roma para legitimar o bastardo, pedido que lhe foi negado por influência desestabilizadora dos Reis Católicos, já de posse da filha Isabel, que para lá retornara depois da morte do marido. Sem escolha e adoecendo cada vez mais, D. João II acabou cedendo e nomeando D. Manuel como seu sucessor no trono. Morreu pouco depois com apenas 40 anos.

Quando ascendeu à Coroa em 1495, o irmão mais novo de D. Leonor já tinha 26 anos, mas ainda não se casara. Neste panorama, a própria rainha era a sua herdeira caso ele falecesse prematuramente, embora ela manifestasse o desejo de abdicar do juramento como sucessora da Coroa em nome de sua irmã D. Isabel, viúva do duque de Bragança, que tinha filhos homens sobreviventes. Pouco tempo depois, de qualquer forma, ficou acertado que D. Manuel se casaria com a antiga nora de Leonor, a infanta Isabel, que acabaria tendo um menino pouco antes de sua falecimento por complicações em seu único parto, em 1498.

Após a morte da primeira esposa e pouco tempo antes do falecimento de D. Miguel, o rei casou-se pela segunda vez com Maria de Aragão, quarta filha dos Reis Católicos, com quem teria ampla descendência. Neste panorama, D. Leonor perdeu gradativamente sua importância sucessória, e passou a dedicar-se cada vez mais à caridade, doando parte de sua imensa fortuna para construir a Santa Casa de Misericórdia e o Hospital Real de Todos os Santos, considerado o melhor da época, além de vários conventos. Em um deles, ela viveria seus últimos anos praticamente como uma freira, falecendo já durante o reinado do sobrinho, D. João III, em 17 de novembro de 1525.

Para saber mais:

FONSECA, Luís Adão de. D. João II.  Círculo de Leitores, 2012.

DELURUE, Maria Luisa; OLIVEIRA, Maria Manuela. D. João II – um rei emblemático. Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000.

As infantas esquecidas: Isabel e Catarina de Habsburgo

Quando Felipe II de Espanha casou-se, pela terceira vez, com a princesa francesa Isabel de Valois – em 22 de junho de 1559, como parte de um novo tratado de paz com o reino vizinho – provavelmente ele não esperava que a nova esposa tivesse tanta dificuldade em gerar filhos homens. Afinal, numa época em que os exemplos ancestrais eram bastante importantes para definir a questão da fertilidade de uma mulher, Isabel era filha de ninguém menos do que Catarina de Médicis, que gerara sete crianças que haviam sobrevivido até a idade adulta. Neste sentido, os dez anos de casamento entre Catarina e Henrique II até o nascimento do filho primogênito talvez tenham contribuído para assegurar ao rei espanhol que tudo o que a sua jovem esposa necessitava era tempo.

De fato, depois da morte de três bebês, Isabel deu à luz a uma menina saudável em 12 de agosto de 1566. Nomeada em homenagem à célebre bisavó paterna, a nova infanta foi desde cedo a alegria do rei, que teria inclusive declarado que o nascimento dela o deixara mais feliz do que se tivesse tido um segundo filho homem. Logo no ano seguinte, em 10 de outubro, nasceria outra menina, provavelmente batizada em homenagem à mãe da rainha de Espanha. A vinda de um infante parecia uma questão de tempo quando, meses após o nascimento da infanta Catarina, Isabel concebeu mais uma vez. Entretanto, a tragédia atacaria o seio da família real espanhola naquele momento: o herdeiro de Felipe II, o príncipe Carlos, morreria de forma suspeita após ter conspirado contra o pai; sua madrasta, com quem ele teria sido bastante ligado em vida, teria um aborto pouco tempo depois, morrendo em decorrência das complicações. Numa questão de semanas, portanto, o rei de Espanha perdeu o herdeiro e a esposa, e agora a pequena infanta era a herdeira de um império onde o sol sempre brilhava.

A infanta Isabel aos 13 anos de idade
A infanta Isabel aos 13 anos de idade

Mesmo depois que Felipe II se casasse, pela quarta vez, com a arquiduquesa austríaca Ana, filha de sua irmã Maria, e produzisse mais cinco crianças – das quais apenas seu sucessor, Felipe III, sobreviveria à idade adulta – a infanta Isabel sempre seria sua favorita, muito possivelmente por ter herdado a sua sagacidade política. De aparência delicada e beleza italiana herdada da avó materna, a rainha viúva de França, a infanta Isabel era considerada, em sua juventude, mais bonita do que a irmã mais nova, a animada infanta Catarina; segundo registros de embaixadores da época, a primogênita era “belle comme le beau jour” e “di rara e suprema beleza”, enquanto a caçula, embora menos favorecida em formosura, era “piu alegra, piu giovale”. Ambas foram criadas em grande medida por sua tia Joana, viúva do príncipe D. João e mãe do rei português, D. Sebastião, e pela duquesa de Alba.

Desde cedo, as infantas foram treinadas para o matrimônio, inevitável para as filhas de um homem tão influente como Felipe II, tendo variados tutores e recebendo aulas de dança, música e desenho – talentos, aliás, que haviam herdado da falecida mãe. O principal pretendente da irmã mais velha era seu primo D. Sebastião, muito embora ele fosse mais de dez anos mais velho do que Isabel. Apesar de ele ter sido amplamente incentivado por sua avó e tutora, D. Catarina, a esperar pelo amadurecimento físico da infanta, o fato é que o próprio Felipe II não levava a sério os propósitos matrimoniais de D. Sebastião; segundo o historiador Queiroz Velloso, o monarca espanhol não comprometeria a primogênita a um contrato do qual o rei português, conhecido por sua misoginia em todas as cortes europeias, depois pudesse procurar escapar por motivos variados. Ao invés disso, Isabel foi prometida a outro primo, o excêntrico herdeiro Rodolfo, futuro Imperador Sacro Romano. Depois de mais de vinte anos de compromisso, contudo, o noivo decidiu que não se casaria com a infanta espanhola, mantendo-se ao invés disso solteiro até sua morte.

A infanta Catarina com aproximadamente 15 anos de idade
A infanta Catarina com aproximadamente 15 anos de idade

Então, enquanto a irmã mais nova Catarina se casaria em 1584 com o duque de Saboia, Isabel seria mantida solteira por vários anos. Vivendo na corte espanhola, ela ajudaria a criar o irmão sobrevivente e auxiliaria o pai nas questões políticas do império. Isabel era, de fato, presença constante nos Conselhos de Estado e a única autorizada a traduzir os documentos de origem italiana de seu pai para a língua espanhola. Na ausência de uma rainha, portanto, a infanta Isabel assumiu o papel da dama mais importante da corte de Espanha. Esta situação se manteria até 1598, quando o já idoso Felipe II resolveu matrimoniar a primogênita com outro primo seu, o arquiduque Alberto – irmão mais novo de Rodolfo – para que ambos juntos pudessem governar os revoltosos Países Baixos em nome da Coroa espanhola. Pouco antes do casamento, o rei morreria.

Para que quaisquer filhos nascidos da união com a infanta Isabel fossem considerados legítimos, o arquiduque Alberto teve que ser liberado de seus antigos votos eclesiásticos. Contudo, a união permaneceria estéril até a morte dele em 1621; apesar disso, o governo conjunto do dois é considerado como sendo a Era Dourada dos Países Baixos, que possibilitou paz e estabilidade após várias décadas de guerra. Após a morte de Alberto, Isabel continuaria como regente em nome do sobrinho, Felipe IV de Espanha, posição que somente deixaria de ocupar após sua própria morte em 1633.

A essa altura, contudo, a irmã de quem fora tão próxima na infância, Catarina, já falecera há muito. Inteligente e arrogante, a infanta fora de início impopular no ducado do marido, uma vez que era julgada como sendo uma agente de interesses espanhóis. Rapidamente, contudo, sua influência positiva em Saboia e no duque Carlos foi registrada. Durante as ausências dele durante campanhas militares, Catarina seria uma regente respeitada, ajudando também a estimular a vida cultural do ducado enquanto tinha várias crianças, entre elas o sucessor do marido. Em 1597, ela morreria pouco depois de um aborto, assim como sua mãe tanto tempo antes.

De fato, assim como a rainha Isabel de Valois, ambas as filhas, as infantas esquecidas de Espanha, seriam afundadas pela maré da História ao serem esmagadas pela influência e fama tão próxima do homem mais poderoso da segunda metade do século XVI: o homem que assinava suas carinhosas cartas às filhas como “seu bom pai”.

Para saber mais:

DANTAS, Júlio. “As filhas do Demônio”. IN: Eterno feminino. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1929.

http://www.mujeresenlahistoria.com/2011/02/la-hija-fiel-isabel-clara-eugenia-1566.html

http://internationalmonarchism.blogspot.com.br/2008/10/forgotten-infantas-isabella-clara.html