Pretendentes da Sempre Noiva: breve análise das frustradas negociações nupciais da princesa Isabel Luísa

Única filha resultante do polêmico casamento entre o regente D. Pedro e sua antiga cunhada, Maria Francisca de Saboia, Isabel Luísa Josefa de Bragança naturalmente atraiu as atenções do mercado matrimonial europeu desde o seu nascimento em janeiro de 1669. O fato que, nos anos seguintes, a rainha Maria Francisca mostrou-se impossibilitada de gerar um herdeiro homem para a Coroa portuguesa só potencializou a ponderação de vários reinos acerca do destino nupcial de Isabel Luísa, jurada como herdeira presuntiva do trono português pelas Cortes reunidas em 1674. Apesar dos expressos desejos de alguns partidos na corte para que a ocasião fosse aproveitada para promover uma união conciliatória entre a herdeira do trono e Carlos II, rei de Espanha (1), a regência nunca deu uma maior consideração a essa ideia, principalmente depois do suposto envolvimento do antigo representante espanhol em uma conspiração que almejava a volta do deposto rei D. Afonso VI de seu exílio nos Açores. Isso abriria espaço para as ambições de Luís XIV de França, que era o padrinho de Isabel Luísa.

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Princesa Isabel Luísa

Em 1676, o Rei Sol já procurava ativamente casar seu primogênito, o delfim, com a princesa herdeira, essencialmente planejando que o reino português fosse o dote da noiva. A perspectiva da transformação de Portugal em uma virtual província francesa aterrorizaria tanto os espanhóis que muito em breve o representante da Coroa espanhola na corte, o abade Maserati, assegurou a alguns conselheiros de Estado que a Espanha não impediria a concretização de qualquer arranjo feito em ducados menos ameaçadores, como a Baviera, Toscana e Saboia. Ora, o último tratava-se exatamente da região de origem da família da rainha Maria Francisca, que a partir de então se dedicaria juntamente com a irmã Maria Joana, regente de Saboia como mãe do jovem duque Vítor Amadeu, para que o enlace dos primos não só viesse à luz, mas também pudesse ser considerado seriamente como uma alternativa ao trono espanhol após a morte do doente rei Carlos II.

O planejamento secreto das duas irmãs, contudo, não seria a única possibilidade matrimonial que o regente D. Pedro consideraria para sua filha. Várias hipóteses nupciais seriam pensadas para Isabel Luísa, embora grande parte delas não fossem consideradas tão prováveis já de saída, como no caso das conversas envolvendo meninos da Casa alemã de Wittelsbach (2), ou então a que disse respeito ao príncipe de Roche-sur-Yvon. Bem mais sérias seriam as negociações para casar Isabel Luísa ou com Eduardo, príncipe de Parma como herdeiro do duque Rainúncio, ou com Fernando, grão-príncipe da Toscana como herdeiro do grão-duque Cosimo. D. Pedro se inclinaria para aceitar essa proposta, visando principalmente beneficiar-se da influência do grão-duque Médicis frente à cúria romana, até que o próprio pai do presuntivo noivo discretamente retirou a proposta, temendo as consequências políticas de ambicionar a mão de uma noiva ainda desejada tanto por Espanha quanto por França.

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Fernando, grão-príncipe da Toscana

Eventualmente, a escolha portuguesa ficou entre os três ducados menos ameaçadores nomeados anos antes pelo abade Maserati. Sem muita demora, o duque de Baviera seria descartado por sua ligação íntima com o Sacro Império Romano Germânico, o que poderia arrastar Portugal para campanhas militares indesejadas. Entre Parma e Saboia, pareceu de início que o primeiro ganharia o cobiçado enlace português – ou pelo menos essa era a preferência do influente padre jesuíta Antônio Vieira. De acordo com esse importante religioso do período, um casamento com um duque enfermiço e filho único não era tão vantajoso quanto uma união com um príncipe que não só tinha sangue legítimo da realeza portuguesa devido à sua descendência direta de D. Manuel I, mas também tinha a possibilidade de passar imediatamente a Portugal para viver com a noiva.

Entretanto, seria o objetivo planejado longamente entre a rainha Maria Francisca com sua irmã, a duquesa viúva Maria Joana, que prevaleceria apesar de todas as vantagens enumeradas por Vieira. Em fevereiro de 1679, foi comunicada publicamente a assinatura do tratado de casamento entre Isabel Luísa, princesa herdeira de Portugal, e Vítor Amadeu, duque de Saboia. Em agosto, ocorreu a ratificação do documento, tornando em tese o matrimônio inevitável. Contudo, após o embaixador português chegar à capital do ducado, começaram a correr rumores que o duque não só estava bastante doente, mas como também poderia ser incapaz de ter filhos. Embora não seja possível saber o quanto exatamente da doença de Vítor Amadeu é verdade e o que é derivado da resistência de portugueses e saboianos quanto ao casamento, além da ameaça militar francesa nas fronteiras do ducado, o fato é que o duque sequer estava em Lisboa para a sua festa de casamento presencial com Isabel Luísa meses depois, para a grande desilusão da corte portuguesa.

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Vítor Amadeu, duque de Saboia

Com o fim do compromisso nupcial da princesa em Saboia, ocorreram novas conversas nupciais envolvendo o príncipe de Parma. Contudo, a morte de D. Afonso VI e da rainha Maria Francisca nos meses finais de 1683 determinou novas preocupações dinásticas para o agora D. Pedro II de Portugal. Embora tenham ocorrido negociações para um casamento duplo dele com a filha do duque de Parma e de sua filha com o príncipe, nada ficou por fim acertado. Em 1687, o rei contrairia núpcias com Maria Sofia de Neuburgo, tendo com ela rapidamente um filho homem. Não sendo mais a herdeira presuntiva do trono, Isabel Luísa tinha agora a prerrogativa de escolher aceitar ou não um casamento, o que faria ao negar uma nova proposta do grão-duque de Toscana. Em agosto de 1690, ainda uma donzela na corte portuguesa, Isabel Luísa adoeceria com varíola, e pioraria até falecer no dia 21 de outubro. Tendo morrido com pouco mais de 20 anos, ela jamais pode realizar o compromisso de Estado que lhe retiraria a alcunha que, ainda hoje, a faz célebre.

 

(1) A Guerra da Restauração entre a destituída dinastia de Habsburgo e a recém-aclamada Casa de Bragança terminara formalmente apenas um ano antes do nascimento de Isabel Luísa.

(2) Curiosamente, esta seria a família de origem da segunda consorte de D. Pedro.

Para saber mais:

CHAVES, Luís. D. Pedro II. Empresa Nacional de Publicidade, 1959.

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

MARCOS, David Mantín. “O projeto matrimonial de Isabel Francisca Josefa de Bragança e Vítor Amadeu II de Saboia (1675-1682): estratégias familiares e geopolítica”. In: Análise Social. 212, XLIX (3º), 2014.

Maria Sofia de Neuburgo – parte I

Nascida em um palácio localizado no ducado de Juliers, a poucos quilômetros da cidade imperial de Dusseldorf, a princesa Maria Sofia Isabel de Neuburgo veio ao mundo em seis de agosto de 1666, sendo uma das diversas filhas de Felipe, conde de Neuburgo, com sua esposa Isabel de Hesse-Darmstadt. Uma vez que esse fértil casal geraria nada menos do que 17 crianças sobreviventes durante sua longa união, as meninas daquela geração do ramo secundário da antiga Casa Wittelsbach seriam cobiçadas pelo mercado matrimonial europeu por sua presumida capacidade de gerar herdeiros. Em 1676, de fato, a primogênita do casal, Leonor, seria casada com Leopoldo, Sacro Imperador Romano Germânico, que não conseguira ter um filho homem em seus matrimônios anteriores; posteriormente, três irmãs suas se casariam respectivamente com Carlos II, rei de Espanha, Eduardo, príncipe de Parma e Jaime, príncipe de Polônia, cujas Casas tinham linhas de sucessão instáveis.

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O pai de Maria Sofia, o conde Felipe de Neuburgo

Quando Maria Sofia tinha 17 anos, morreria em Portugal a rainha Maria Francisca de Saboia, esposa do rei D. Pedro II. Embora o monarca tivesse tido vários casos extraconjugais em seus vários anos de casamento, o falecimento de Maria Francisca o deixou em prolongada tristeza. Nem o fato que a sobrevivência da recente dinastia de Bragança encontrava-se ameaçada pela frágil figura da princesa D. Isabel, que ainda sequer se casara, pôde convencer D. Pedro II a acelerar o processo para ter novas núpcias. Apenas em reunião do Conselho Real ocorrida em janeiro de 1685 foi que o monarca seria convencido, em nome da felicidade do reino, a casar-se de novo.

De início, a pressão sobre o rei era forte para que a aliança francesa fosse renovada (1). A principal candidata nesse sentido era a mademoiselle de Blois, filha legitimada do rei francês com sua antiga favorita, a marquesa de Montespan. Também seria proposta uma união com a mais madura mademoiselle de Lillebonne, uma princesa de Lorena, mas nenhuma dessas ideias iria realmente adiante. Enquanto isso, a facção pró-francesa da corte encontrava resistência em alguns nobres que defendiam uma reaproximação política com a Casa Habsburgo, principalmente vendo-se já no horizonte a intervenção política francesa após a morte do doente Carlos II de Espanha (2). Embora essa facção pró-Habsburgo tivesse pouco apoio na corte portuguesa propriamente dita, seus membros utilizaram-se da manipulação da opinião pública exterior ao paço real para vender os perigos que existiam em fortificar a aliança com a monarquia francesa.

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Mademoiselle de Blois, uma das esposas pensadas para D. Pedro II de Portugal

Procurando fugir da influência de França, então, a diplomacia portuguesa passou a procurar em semi-sigilo noivas para D. Pedro II nas diversas cortes imperiais. Na impossibilidade de casar o rei com uma Habsburgo de idade apropriada, ficou decidido definitivamente em meados de 1687 acertar um contrato matrimonial com Maria Sofia, a presumida fértil filha do conde de Neuburgo, que também, aliás, procurava resistir às influências políticas francesas, que ambicionavam anexar o pequeno território. D. Pedro II garantiria rapidamente à futura esposa as rendas e privilégios apropriados, após o qual o embaixador português foi autorizado a pedir a mão da princesa em casamento em nome do rei. Em cinco de  julho de 1687, quando já contava com quase 21 anos de idade, Maria Sofia deixou para sempre o castelo onde fora criada, iniciando seu percurso até Portugal.

Acompanhada por um séquito que contava aproximadamente com 350 pessoas, Maria Sofia percorreu o Reno até chegar à Holanda, onde seria recepcionada pelo príncipe de Orange e diversos nobres ingleses, incluindo um filho ilegítimo do rei Carlos II de Inglaterra, que era casado com a irmã mais velha de D. Pedro II de Portugal. Conduzida por eles, embarcou com sua comitiva nos naus de guerra que a levariam pela maior parte do caminho até Lisboa. Durante a viagem de sua noiva, D. Pedro II perdoaria alguns criminosos presos nas cadeias da capital, como era de costume em tais datas comemorativas, enquanto seu favorito e grande arquiteto das negociações diplomáticas com Neuburgo, o conde de Vilar Maior, distribuiria joias às damas da corte e dinheiro aos criados, demonstrando a generosidade do monarca.

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Pedro II de Portugal

No final de julho, Maria Sofia passaria para um iate inglês, onde seria conduzida em seu percurso pelo rio Tejo e onde testemunharia a salva de tiros dos navios portugueses quando sua frota passou em frente à igreja de São Paulo. Apenas em 11 de setembro, entretanto, Maria Sofia chegaria com a frota no porto de Ribeira. Quase que de imediato, subiram a bordo para recepcioná-la o conde de Santa Cruz, o conde de Vale de Reis, o conde de Ericeira e seu filho. Este faria um discurso em cinco línguas diferentes à nova rainha, ao qual Maria Sofia responderia individualmente sem hesitar, o que é uma prova da cuidadosa educação que apreendera em sua juventude. Como já haviam sido nomeados de antemão os oficiais da rainha, também subiriam a bordo a camareira-mor, o mordomo-mor e o estribeiro-mor antes que chegasse o rico bergantim de ouro e cetim que transportava D. Pedro II.

 

(1) Por via materna, Francisca Maria de Saboia havia sido descendente ilegítima de Henrique IV de França, o que a fazia uma aparentada do presente rei Luís XIV.

(2) Os franceses defendiam que a ausência de pagamento do dote da infanta Maria Teresa quando de seu casamento com Luís XIV, em 1660, tornara inválida a renúncia formal de seus direitos ao trono espanhol. Como ela falecera em 1683, sua pretensão passaria ao primogênito, o delfim Luís de França.

 

Luísa de Gusmão – parte III

Embora seja improvável que Luísa de Gusmão tenha realmente pronunciado a sentença pela qual é mais conhecida para incentivar seu marido a aceitar a Coroa antes rainha por um dia do que duquesa por uma vida” -, Felipe IV certamente a tomou rapidamente como a consorte rebelada de um rei traidor, assim como seu valido Olivares. Furioso com a rebelião, este inclusive ordenaria ao irmão de Luísa, o duque de Medina Sidônia, que destruísse todos os registros dela dos livros da Casa, de maneira que não restasse nem rastro de sua memória. Da mesma forma, o pagamento do dote da duquesa de Bragança, ainda incompleto, deveria ser suspenso.

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Conde-duque de Olivares

Apesar de toda a cólera e troca incessante de responsabilidades pela revolta portuguesa que dominaria a corte Habsburgo nas semanas seguintes, a sobrevivência da nova dinastia era considerada improvável. O golpe que depusera a duquesa de Mântua, libertada por D. João IV em pouco tempo, era visto como a obra de poucos homens; logo, teria apoio insuficiente para aguentar por muito tempo. De fato, as várias deserções ocorridas nos primeiros meses deram suporte a tal ideia, assim como uma tentativa de assassinato sofrida pelo rei em agosto de 1641. Apesar disso, Espanha não pôde de fato capitalizar na fragilidade do inimigo e responder adequadamente, devido ao fato de suas forças militares, além de estarem divididas pela Europa, enfrentarem uma revolta particularmente engajada em Catalunha. Apenas nos primeiros meses de 1643 tropas Habsburgo seriam capazes de invadir Portugal, entrando no território pela região do Alentejo.

A situação enfrentada pela nova dinastia de Bragança, contudo, era menos frágil do que o visto pelo depreciativo julgamento do governo Habsburgo. D. João IV partiria para liderar seus exércitos contra os invasores e, assim, incentivar seus vassalos a acompanhá-lo, deixando a regência nas mãos de sua austera e religiosa esposa, grávida na época; em 21 de agosto ela daria à luz ao infante D. Afonso. O rei não estava presente ao parto, embora tenha visitado secretamente sua esposa e o bebê poucos dias depois. Seria aproximadamente neste período que uma amante desconhecida de D. João engravidaria, dando à luz uma menina em fins de abril do ano seguinte, que foi chamada de Maria. Apenas um mês depois deste nascimento, ocorreria a batalha de Montijo em Espanha, que teve um resultado indefinido ou, segundo Fernando Dores Costa, mesmo uma derrota portuguesa, mas foi tão massivamente louvada pela dinastia de Bragança que, até hoje, é considerada por alguns uma grande vitória de D. João IV. Embora tenha tido grande ressonância nas cortes europeias, porém, suas consequências militares foram quase nulas.

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O infante D. Afonso retratado em 1653

Dali por diante, a guerra caracterizou-se por eventuais escaramuças entre as tropas espanholas e portuguesas, causadas por ofensivas do último, até que, em 1647, D. João IV optou por uma mudança militar em relação a uma atitude meramente defensiva, o que descontentaria muitos, incluindo o bélico príncipe D. Teodósio, que seria eventualmente nomeado capitão-general do reino. Enfraquecida, Espanha também optaria por uma diminuição em suas atividades contra o reino vizinho. 1647 também marcaria uma grave doença do infante D. Afonso – possivelmente meningoencefalite – que o deixaria com o lado esquerdo de seu corpo paralisado, além de dificuldades na fala. Talvez foi temendo pela morte daquele que era o herdeiro alternativo ao trono que o casal real apressou-se em gerar outro filho; já em 26 de abril do ano seguinte nasceria o caçula de D. Luísa, o infante D. Pedro.

Depois de seu último parto, a rainha viveria anos tranquilos no Paço da Ribeira até 1653, que parece ter sido um dos piores anos de sua vida, assim como de seu marido. Em maio, morreu de tuberculose o talentoso príncipe D. Teodósio, numa perda lamentada por muitos no reino, uma vez que deixava como herdeiro do trono seu irmão D. Afonso, tido como incapaz devido às sequelas da doença de 1647; em novembro, faleceria a infanta D. Joana. Em novembro de 1656, por problemas nos rins, morreria o rei D. João IV. D. Luísa se tornaria, então, não apenas uma viúva, mas também a regente do reino até a maioridade de seu filho.

Luísa de Gusmão – parte II

Depois dos sete dias de festividades em comemoração ao matrimônio do duque, o Paço de Vila Viçosa voltou ao seu cotidiano habitual, e a nova duquesa assumiu suas novas funções. A principal, é claro, constituía na produção de filhos e filhas para o seu marido. D. João, contudo, fosse o quanto dedicado à composição de música sacra fosse, não parece ter se limitado seus desejos carnais ao leito conjugal. Em flagrante contraste com seu pai – e, na verdade, com toda a sua ascendência brigantina -, D. João produziria descendência ilegítima. Nos primeiros meses de seu matrimônio com D. Luísa, a esposa de André Mendes Lobo, rico lavrador e fiel servidor da Casa de Bragança, concebeu sua segunda filha. De acordo com rumores da época, reproduzidos por Felgueiras Gayo, a pequena Maria seria filha de D. Leonor com o duque, assim como a sua irmã mais velha D. Ângela. Toda a família seria muito beneficiada pela forte proximidade com D. João, principalmente as meninas, que efetuariam mais tarde casamentos vantajosos. Além disso, o duque de Bragança tinha frequentes ligações ilícitas com atrizes que trabalhavam em companhias de comédias, casos que eram do pleno conhecimento de sua negligenciada esposa.

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D. Teodósio retratado numa gravura do século XVII

O matrimônio, então, teve um começo atribulado. Mesmo assim, D. Luísa daria à luz ao primeiro filho do casal, Teodósio, em oito de fevereiro de 1634, pouco mais de um ano após o casamento de presente com D. João. A partir daí, vendo a produção regular de crianças, pode-se presumir que a desatenção do duque com sua esposa ficou relegada ao passado: logo no ano seguinte, nasceria Ana, que teve curta vida, seguida no mesmo ano por Joana. Em 1637, a duquesa teria um aborto, mas em 25 de novembro de 1638 teve outra menina, Catarina. D. Luísa teria outro aborto antes de ter mais um menino, Manuel, em setembro de 1640, mas ele viveu pouco.

Paralelamente ao trabalho reprodutivo da duquesa, D. João contemporizava perante as evidentes tentativas do conde-duque de Olivares para que ele participasse mais da política da monarquia hispânica. Enfrentando dificuldades financeiras decorrentes da Guerra dos Trinta Anos, o governo dos Habsburgo espanhóis planejava repartir entre todos os seus reinos ibéricos o custo humano e financeiro da política imperial de Castela. Tal ideia enfrentou evidente resistência da alta nobreza portuguesa, que combateu com afinco o planejado programa fiscal. Então, em 1634, a duquesa de Mântua foi nomeada como vice-rainha, substituindo o conde de Basto.

Primeira filha de Carlos, duque de Saboia, com a infanta Catarina, filha de Felipe II de Espanha, Margarida era parente próxima de Felipe IV. Aconselhada por apoiadores da política espanhola, a duquesa aquiesceu às exigências de Olivares, que foram ficando progressivamente mais duras em relação a Portugal. Nesta conjuntura, ocorreu uma sequência de más colheitas, degradando as condições de vida da população, que acabaria por se rebelar em Évora em 1637. Conhecido como Revolta do Manelinho ou Manuelinho, em referência a seu suposto líder popular, o movimento espalhou-se rapidamente, chegando a atingir Lisboa. Como governador-geral das armas, D. João foi chamado a Madri e ordenado a suprimir o movimento com força militar; contudo, ele dilataria tanto os preparativos que seria a mera ameaça dos exércitos castelhanos nas fronteiras portuguesas que acabaria por dar fim à revolta. Devido à liderança nominal do duque de Bragança destas tropas, porém, Felipe IV convenceu-se que D. João o servia fielmente. O monarca até mesmo teria considerado nomeá-lo como o novo vice-rei de Portugal, em substituição à sua prima Margarida.

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Margarida, duquesa de Mântua

Enquanto isso, a pressão no reino aumentava cada vez mais. Insatisfeitos com o governo Habsburgo, ao qual acusavam de quebrar o acordo efetuado em Tomar em 1581, parte da aristocracia portuguesa acabaria por iniciar preparativos para o golpe contra a Coroa após receber instruções de Espanha para enviar tropas para lutar na campanha contra a revoltosa Catalunha. Depois de muito hesitar, D. João concordou em 17 ou 18 de novembro de 1640 com a sua aclamação como o herdeiro legítimo do trono de Portugal. Foi planejado que a ação que deporia a soberania política Habsburgo ocorreria no dia 1 de dezembro, enquanto o duque aguardava com segurança em Vila Viçosa.

A insurreição ocorreu praticamente sem incidentes, excetuando-se a morte do secretário de Estado e genro de Margarida, Miguel Vasconcelos, que foi atirado pela janela do palácio. As notícias do sucesso chegariam ao conhecimento de D. João no dia seguinte, mas seria apenas no dia 4 que ele seguiu para Lisboa, reunindo-se com os governadores interinos no Paço da Ribeira em meio à concentração da população ao redor. Tantas teriam sido “as vozes alegres do povo”, segundo Ericeira, que o duque teve que aparecer numa das janelas, onde foi aclamado. Agora D. João era o rei de Portugal, e D. Luísa era sua rainha.

Luísa de Gusmão – parte I

Nascida em 13 de outubro de 1613, Luísa Maria Francisca de Gusmão foi a primogênita do casamento entre João Manuel Pérez de Gusmão, duque de Medina Sidônia, com Joana Gomes de Sandoval e Cerdas, filha do duque de Lerma, favorito de Felipe III. Desde sua infância, era evidente que um matrimônio prestigioso a aguardava; não apenas devido ao fato que era a filha mais velha, mas também porque os Medina Sidônia pertenciam à alta nobreza espanhola, sendo quase tão influentes quanto a Casa reinante.

Pensando no fato que Luísa era descendente direta de vários reis de Portugal por via paterna e materna, se poderia concluir hoje que núpcias neste sentido foram consideradas para ela desde cedo. Aparentemente, contudo, este não foi o caso; na verdade, o duque de Medina Sidônia não parecia ter tanta pressa para casar sua filha, visto que Luísa ultrapassou bastante a média de idade de casamento na aristocracia. Talvez isso tenha se devido a possíveis planos que o conde-duque de Olivares, o favorito do novo monarca, alimentava em relação a um hipotético casamento da jovem com o duque de Bragança, D. João, quase dez anos mais velho.

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D. João retratado em 1628

Se Luísa estava demorando a ser casada por seu pai, o mesmo poderia ser dito até fins do ano de 1630 em relação a D. João. Embora parte da tranquilidade do duque D. Teodósio quanto às núpcias do herdeiro possa ser atribuída ao fato que ele tivera outros dois filhos varões com sua esposa espanhola, é defendido por grande parte da historiografia sobre o tema que as negociações envolvendo filhas dos duques de Parma, Saboia, Mântua e Modena foram inviabilizadas por agentes de Felipe IV ou de seu favorito Olivares, com a intenção de impedir alianças matrimoniais possivelmente danosas aos Habsburgo. Entretanto, como apontam as autoras de uma recente biografia de D. João IV, as negociações feitas a mando de D. Teodósio foram discretíssimas, exatamente para evitar que Madri tomasse conhecimento das intenções da Casa de Bragança, o que fragiliza a ideia que o rei ou o valido interferiram na questão do casamento de D. João.

Seja como for, D. Teodósio faleceu em novembro de 1630 sem ver o primogênito casado. Quase que de imediato, o novo duque acionou contatos familiares em Espanha para negociar um matrimônio favorável aos interesses de Felipe IV, e rapidamente ouviu falar da primogênita da poderosa Casa de Medina Sidônia, com a qual um antepassado seu, D. Jaime, já havia se consorciado mais de um século antes. O rei espanhol, por sua lado, julgava que um casamento entre ela e o duque de Bragança estabeleceria firmemente D. João em sua órbita de influência sem necessitar de um casamento desde com alguma parenta Habsburgo, enquanto o duque de Bragança estava interessado em se beneficiar ao agradar seu monarca e o valido deste ao aceder aos seus interesses.

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Luísa de Gusmão em sua juventude

Além de todas as motivações políticas, contudo, devemos considerar a importância dos atributos físicos da formosa Luísa para firmar a decisão do mulherengo D. João em se casar com ela; com quase 18 anos, ela seria descrita como tendo grandes olhos negros e “entremadas partes”. Em pouco tempo, o contrato nupcial seria acertado, com amplas mercês sendo concedidas à Casa de Bragança, e, depois que uma licença papal devido ao parentesco dos noivos foi concedida, Luísa tornou-se a nova duquesa por um casamento por procuração. Pouco depois, ela iniciou sua viagem para o novo lar.

Isabel de França – parte I

Nascida em 22 de novembro de 1602 no castelo de Fontainebleau, Isabel de França foi a segunda criança (primogênita mulher) do casamento entre o rei Henrique IV e sua segunda esposa, Maria de Médicis. Sendo a filha legítima mais velha do monarca, ela recebeu o título honorífico de Madame Royale, sendo oficialmente desde cedo a dama mais importante da corte francesa depois da rainha. Tendo uma fértil mãe, Isabel cresceria com vários irmãos e irmãs, alguns dos quais desempenhariam importante papel na história europeia do século XVII – como seu irmão mais velho Luís, melhor conhecido como o pai do Rei Sol (1), e sua irmã caçula Henrietta, célebre por seu papel na Guerra Civil Inglesa. A jovem princesa também teria vários irmãos ilegítimos, frutos dos diversos casos extraconjugais paternos.

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A família de Isabel (c. 1607)

Em maio de 1610, quando Isabel ainda não completara oito anos de idade, Henrique IV sucumbiu a mais uma tentativa de assassinato, morrendo apenas um dia após a coroação de Maria de Médicis; em poucas horas, ela seria elevada à condição de regente do jovem rei Luís XIII, e continuaria no cargo até a maioridade do filho em 1617. Neste ano, porém, tanto o jovem monarca quanto sua irmã Isabel já estariam envolvidos em acertos nupciais com a Casa de Habsburgo. De fato, desde 1602 as Coroas de França e Espanha procuravam acertar uma aliança política-militar, a ser efetuada através de contratos nupciais, mas a frequente disputa pela hegemonia da Europa frequentemente atrapalhava tais negociações. A morte do popular rei francês, contudo, possibilitou que a Espanha fizesse sua jogada para procurar neutralizar a rival, propondo um enlace duplo: a ideia era que Luís XIII fosse casado com a infanta Ana e Isabel se unisse ao príncipe Felipe.

Embora as capitulações matrimoniais tenham sido confirmadas em agosto de 1612 e os casamentos fossem previstos para ocorrer logo no ano seguinte, as núpcias apenas seriam efetuadas realmente em outubro de 1615, após o qual as princesas foram devidamente trocadas na fronteira de Bidasoa e seguiram para seus novos reinos. Por que tal atraso ocorreu? Embora, claro, a idade dos jovens em questão com certeza tenha tido impacto no adiamento (2), não se pode subestimar o poder da oposição interna em Espanha em relação às uniões. Ao final, contudo, a razão de Estado acabou por se impor e os casamentos de presente ocorreram. Semanas depois, Isabel fez sua entrada em Madri, guiada por uma comitiva que continha o futuro conde-duque de Olivares e era liderada pelo próprio duque de Lerma, valido de Felipe III.

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A troca das princesas

O novo casal era, na verdade, composto por duas crianças, que tinham a maturidade física cuidadosamente observada à procura do melhor e mais seguro momento para a consumação, ocorrida apenas em fins de 1620, quando Isabel já se transformara numa bela mulher de expressivos olhos negros. A atração do príncipe era evidente, e rapidamente sua esposa estaria grávida, com a primeira filha de ambos nascendo já em agosto de 1621; a infanta Maria Margarida, porém, morreria com poucos dias. Nesta altura, Felipe já ascendera como rei de Espanha e Portugal com o falecimento precoce de seu pai homônimo. No início de seu governo, o novo rei estava às beiras de completar 16 anos, e em sua inexperiência governamental se apoiou fortemente no favorito Olivares, que se tornou também seu valido. Olivares, que aprendera bem as lições das disputas entre seu antecessor e Margarida de Áustria, restringiu o papel da rainha Isabel ao que ele acreditava ser o dever natural das rainhas: parir. E isso ela faria com regularidade nas duas décadas seguintes, embora seu papel mais importante perante o rei – fornecer um herdeiro para Espanha – acabasse tragicamente não sendo cumprido.

(1) Luís XIV.

(2) Durante a maior parte de 1613, Luís XIII e Ana de Áustria tinham 11 anos, Isabel tinha 10 e Felipe 8.

A rainha espanhola de França: Ana de Áustria

Nascida em 22 de setembro de 1601, Ana de Áustria (1) foi a primogênita do rei espanhol Felipe III e sua consorte Margarida, do ramo austríaco da família Habsburgo; até o nascimento de um irmão em 1605, ela seria a herdeira presuntiva dos tronos de Espanha e Portugal. Tendo uma vida familiar bastante íntima para os padrões da realeza do século XVII, ela era muito próxima à mãe, tendo herdado dela a forte religiosidade. A morte da rainha Margarida pouco depois de um parto em 1611 foi, portanto, um forte baque para a menina, que a partir daí se tornaria uma espécie de figura materna para os irmãos mais novos, além de tecnicamente a dama mais importante da corte que cercava Felipe III.

Aproximadamente na época em que o luto mais estrito começou a ser aliviado, em 1613, já haviam começado negociações mais sérias para um casamento entre a infanta e o jovem rei de França, Luís XIII, assim como uma união entre o herdeiro espanhol e Madame Royale (2), assegurando assim uma forte aliança política-militar entre ambos os reinos. Em realidade, a ideia inicial das primeiras núpcias datava quase que dos nascimentos de Ana e Luís, ocorridos com apenas cinco dias de diferença; astrólogos da época interpretaram a coincidência como um sinal de um elo já existente entre ambos. Apesar do Conselho de Estado espanhol discutir as implicações de tal matrimônio desde cedo, os enlaces só se tornaram oficiais e públicos em abril de 1612, depois que o embaixador francês pediu a mão de Ana em casamento em nome de Luís XIII, e a infanta passou a ser tratada já como rainha.

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Luís XIII de França

Um grande dote de 500.000 coroas, mais valiosas joias, foi acertado nos meses seguintes, e Ana renunciaria formalmente aos seus direitos sucessórios à Coroa de Espanha, embora segundo o contrato nupcial eles pudessem ser recuperados se ela enviuvasse sem ter tido filhos. Finalmente, em outubro de 1615, os casamentos foram celebrados, e no mês seguinte Ana e Isabel foram trocadas na fronteira de Bidasoa, após o qual seguiram para encontrar seus respectivos maridos. E como era a nova rainha de França? Sem ter o afamado maxilar da família tão pronunciado, ela era considerada bela em sua juventude, atraindo admiradores com sua aparência clara e loira; apesar disso, Luís XIII não ficou impressionado.

Como ambos mal haviam completado 14 anos na época das núpcias, não necessariamente a consumação física foi imediata, embora a preocupação da Coroa francesa em assegurar a validade da união – e o dote de Ana – possa ter justificado o evento na época. De qualquer maneira, a mãe do rei, Maria de Médicis, continuou a se portar como a principal dama da corte. Como Luís XIII não dedicava muita atenção à esposa, os primeiros anos dela em França foram passados principalmente entre companhias espanholas. Apenas dois anos depois, na sequência de um golpe que retirou a influência governamental da regente Maria, foi que o casal real se aproximou. Influenciada pela retirada de suas damas de companhia espanholas e substituição delas por nobres francesas, Ana passou a seguir mais a etiqueta do reino onde se casara, o que pode ter servido para melhorar seu favor perante o rei.

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Uma jovem rainha Ana

Apenas em 1622, porém, foi que ela ficou grávida pela primeira vez, numa gestação que terminou espontaneamente ainda no início. Pouco depois, outra gravidez foi interrompida após uma queda da rainha. Mais dois abortos seriam registrados nos anos seguintes, embora a possibilidade que fossem gestações histéricas motivadas por ansiedade deva ser considerada. Os repetidos fracassos teriam desagrado imensamente o rei, que inclusive teria culpado a rainha pela segunda perda.

Neste contexto, a ascendência do cardeal Richelieu como principal conselheiro de Luís XIII causaria tensões. Nascido Armand Jean du Plessis em 1585, em Paris, ele avançou politicamente durante a regência de Maria de Médicis, tornando-se em poucos anos bastante influente, principalmente depois do seu cardinalato em abril de 1622, ocorrido pouco depois da morte do antigo favorito do rei, o duque de Luynes, que fora responsável pela aproximação de Luís e Ana anos antes. Em paralelo com o processo de centralização do poder real em França, Richelieu também defendia uma atitude de oposição ao grande poder da Casa Habsburgo na Europa – o que significava uma relação potencialmente difícil com Ana de Áustria.

De fato, os anos seguintes da consorte seriam marcados pela oposição política ao primeiro-ministro do rei, num cenário em que continuava estéril. Em 1635, França declarou guerra à Espanha, e não é improvável que Luís XIII estivesse considerando pedir uma anulação de suas núpcias, principalmente depois que recaíram sobre Ana suspeitas de colaboração com o inimigo em 1637; no caso, informações secretas teriam sido passadas a Felipe IV em uma correspondência pessoal da rainha francesa. A acusação teria partido do próprio Richelieu; embora Ana fosse eventualmente perdoada, sua relação com o rei seria danificada em caráter permanente. E foi neste clima que Ana de Áustria ficou grávida mais uma vez; em 5 de setembro de 1638, nasceu o futuro Luís XIV, poucas semanas antes que a rainha completasse 37 anos de idade. Como isso aconteceu? O pai era mesmo seu marido?

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A rainha grávida

Segundo a história tradicional propagada oficialmente pelos Bourbon, a concepção do herdeiro ocorrera depois que uma tempestade impedira Luís XIII de viajar, obrigando-o a dormir com sua esposa no Palácio do Louvre; nove meses depois, Ana de Áustria deu à luz um menino saudável, devidamente cognominado de “Dieudonne” (3). Contudo, provavelmente o milagre não deve ter ocorrido bem assim. Embora o histórico gestacional complicado da rainha, junto com a sua idade mais avançada, torne o evento improvável para o período, o fato é que um médico que acompanhava a saúde real de forma meticulosa anotara alguns anos antes que Ana e o rei costumavam ter relações sexuais ao menos duas vezes por semana.

Em agosto de 1637, um dos motivos pelos quais Luís foi convencido a perdoar Ana foi a crença nele incutida por Richelieu que as conspirações contra seu governo – lideradas algumas vezes por Gastão, duque de Orléans e irmão mais novo do monarca – apenas acabariam com o nascimento de um príncipe. Neste sentido, fosse o rei bissexual, homossexual ou apenas desinteressado por Ana, isto não importava no panorama dinástico do momento, que exigia que Luís XIII voltasse à sua rotina matrimonial de antes. Assim, o comparecimento frequente do rei à cama de Ana de Áustria torna desnecessária, além de perigosa, a utilização de outros homens para fecundar a rainha. De qualquer maneira, os candidatos mais célebres para o cargo, como por exemplo o futuro favorito Mazarin, sequer se encontravam em França quando a gravidez da consorte começou, e o jovem Luís compartilharia uma semelhança física em demasia com o irmão mais novo Felipe para que ambos fossem apenas meios-irmãos.

Seguindo o modelo familiar de sua infância em Espanha, a rainha Ana criou os filhos com proximidade pouco usual para o período. Poucos meses antes do quinto aniversário do primogênito, a frágil saúde de Luís XIII cedeu e ele faleceu, deixando como seus desejos finais a constituição de uma regência sem a presença de sua esposa. Ana, porém, tendo o Parlamento ao seu lado, descartou este pedido do testamento e tornou-se regente solo de Luís XIV, sendo oficialmente auxiliada pelo cardeal Mazarin. Nascido Giulio Raimondo em 1602, ele era um nobre italiano com longo histórico de serviços ao rei francês que se tornou pupilo de Richelieu, sucedendo-o como principal ministro após a morte deste em 1642. Caindo nas graças da rainha Ana, ele se tornaria o governante de fato do reino após a morte de Luís XIII, e em pouco tempo se mudaria para aposentos próximos ao da regente no Palais Royal. Em pouco tempo, começariam a circular rumores que ambos eram amantes, e até mesmo marido e mulher devido a uma união secreta.

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Cardeal Mazarin

O favor que Mazarin desfrutava perante a rainha, contudo, não era partilhado por grande parte dos nobres franceses, ou mesmo pela população em geral quando o cardeal começou a cobrar multas de quem construísse residências fora dos muros de Paris, em 1644. Quatro anos depois, para continuar pagando as despesas da longa guerra contra os Habsburgo espanhóis, Mazarin tentaria cobrar novos impostos, assim como limitar o poder dos deputados pela criação de novos departamentos de Estado. Quando o Parlamento se opôs a isso e apresentou uma série de propostas de reformas, Mazarin e a rainha ordenaram a prisão de seus líderes. E foi quando a população de Paris se revoltou, erguendo barricadas nas ruas e forçando a fuga de Ana e seu filho Luís da cidade.

Com tréguas, brutalidades e fugas de seus principais personagens, incluindo Mazarin, a guerra civil francesa conhecida como Fronda apenas terminaria quando Luís XIV alcançou a maioridade em 1652 e retornou à Paris, tendo sua mãe como grande influência em seu conselho real; em pouco tempo, ele também chamaria Mazarin de volta do exílio forçado. Apesar de toda a resistência, a autoridade real não apenas retornara intacta como, nos próximos anos, seria incrementada. Em 1660, um ano depois da paz com Espanha, o jovem rei se casaria com sua prima Maria Teresa, única filha sobrevivente do casamento do irmão de Ana de Áustria, Felipe IV, com a princesa francesa Isabel, numa celebrada união que no fim do século daria origem à Guerra de Sucessão Espanhola.

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A atriz June Temple como Ana de Áustria em Os Três Mosqueteiros (2011)

No mesmo ano do nascimento do primeiro filho do casal real, Mazarin faleceria. Pouco depois, Ana se afastaria da política e se refugiaria no convento de Val-de-Grâce, onde os primeiros sintomas do câncer se manifestariam dois anos depois. Ana de Áustria, a rainha espanhola de França, morreria em 20 de janeiro de 1666, ainda com sua fama controversa; em menos de dois séculos, Alexandre Dumas se serviria dela para tornar a consorte um personagem imortal da literatura no clássico Os Três Mosqueteiros.

(1) Embora tecnicamente uma infanta de Espanha, tendo nascido em Valladolid, Ana é conhecida até hoje como “de Áustria” devido à origem de sua Casa.

(2) Título honorífico pelo qual era conhecida a filha mais velha do rei francês. No caso, tratava-se de Isabel, a primogênita mulher legítima de Henrique IV.

(3) Literalmente, “dado por Deus”, mas muitas vezes traduzido como ”presente de Deus”.

Para saber mais:

http://www.biography.com/people/anne-of-austria-9185816

http://bjws.blogspot.com.br/2015/10/biography-queen-anne-of-austria-spain.html

http://www.sandragulland.com/the-conception-of-louis-xiv/

http://www.sandragulland.com/who-was-louis-xivs-father-the-question-that-never-goes-away/

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2006.

 

A rainha do Piedoso: Margarida de Áustria – parte II

Depois de obter o consentimento da religiosa Margarida, que estaria mais interessada numa vida conventual, o contrato nupcial foi assinado em setembro de 1598, com um dote sendo combinado em 100.000 escudos, além de mais 50.000 escudos em joias, fornecidas pelo próprio rei. Poucas semanas depois, a noiva pôs-se a caminho de Espanha, já estudando a língua com a qual se comunicaria com o futuro marido (1). Enquanto sua comitiva passava pela cidade de Vilach, soube-se do falecimento de Felipe II; a partir desse momento, Margarida era tecnicamente a rainha de Espanha, e alguns serviçais passaram a dirigir-se a ela com tal título. Ela, contudo, manifestou a intenção de apenas passar a utilizá-lo depois de seu casamento oficial com o agora Felipe III. Apenas em 11 de abril do ano seguinte, contudo, ambos teriam o primeiro encontro em Valência. De acordo com o cronista Cabrera de Córdoba, antes mesmo o rei vira Margarida secretamente entre outros elementos de sua comitiva e mostrara-se contente por ter uma prometida bela e graciosa. Margarida, por sua vez, escreveria ao irmão Fernando que gostara do alourado rei depois de superar sua vergonha inicial.

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Felipe III de Espanha/II de Portugal

O matrimônio ocorreria por fim no dia 18, numa luxuosa cerimônia onde a rainha trajava um vestido de ouro, prata e pedras preciosas. As festas se seguiriam por uma semana, com direito a um torneio que custaria 30.000 ducados. Somente em maio o casal real partiria da cidade, iniciando um périplo por Espanha que só terminaria dez meses depois. Nesta altura, um laço afetivo significativo já surgira entre Felipe e Margarida; com exceção de uma filha ilegítima atribuída ao rei pelo núncio Camilo Caetano, não há traços reais de infidelidade por parte do monarca – o que refletia, aliás, a tendência de seu pai na maturidade (2). Apesar disso, seria apenas em finais de 1600 que a tão esperada gravidez da rainha ocorreria, percebida quando a consorte começou a passar mal durante a mudança da corte espanhola para Valladolid. Apesar de toda a insistência do valido (3) Francisco Gómez de Sandoval y Rojas, o duque de Lerma, Margarida não aceitou se mudar para o palácio de Mendoza-Cobos para dar à luz, preferindo fazê-lo na residência do conde de Benavente, apesar desta ser teoricamente menos confortável. Talvez a disputa crescente de Margarida com Lerma pela influência perante o rei tenha tido mais influência nesta questão do que o precedente da morte da princesa Maria de Portugal de parto no palácio indicado; afinal, o duque já tentara mudar o confessor austríaco da rainha por um jesuíta castelhano, e, além disso, era suspeito de verificar a correspondência da consorte.

De qualquer maneira, quando Margarida deu à luz no dia 22 de setembro, o rei estava ao seu lado, apoiando-a durante o trabalho de parto; era uma saudável menina, batizada em outubro com o nome de Ana Maurícia (4). Seria o duque de Lerma quem teria a honra de transportar a primogênita real até a igreja, e seria a sua esposa a madrinha da menina. Mesmo com todas as celebrações, a urgência por um príncipe continuava presente, principalmente depois que uma nova gestação da rainha deu origem à outra menina. Nascida em 1 de fevereiro de 1603, a infanta foi batizada em homenagem à bisavó paterna, a doente imperatriz viúva Maria de Áustria, que exercera considerável influência sobre Felipe III. A menina, contudo, não era robusta como a irmã mais velha, e faleceria pouco mais de um mês após o nascimento.

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Margarida de Áustria

Depois de dois consecutivos fracassos de Margarida para dar um herdeiro homem ao marido, sua rivalidade com Lerma ficou exposta no episódio da prisão da aia de infanta Ana, a marquesa do Valle. Depois que ela foi encarcerada numa fortaleza e processada juntamente com uma dama de companhia da rainha, os papéis da marquesa revelaram que ela era antiga informante do duque, mas passara para o lado da rainha. Provavelmente temeroso com as possíveis revelações de sua antiga aliada, Lerma apertou a vigilância dos aposentos de Margarida, determinando um novo protocolo. Agora, qualquer coisa entregue à rainha, mesmo comida, deveria passar primeiro pela camareira-mor, D. Catarina de Sandoval, condessa de Lemos e irmã do duque; além disso, apenas o mordomo-mor – entre os quais estava o próprio Lerma -, a camareira-mor a as damas de companhia poderiam ter acesso à área privada dos aposentos reais.

Neste cenário compreensivelmente angustiante, Margarida ficou grávida pela terceira vez. No dia 8 de abril de 1605, uma Sexta-Feira Santa, num parto rápido no cair da noite, nasceu o tão esperado menino, causando grandes festas e a libertação comemorativa de presos na cidade. Embora fosse esperado por muitos que o herdeiro fosse chamado de Fernando ou Carlos, a criança foi batizada em maio com o mesmo nome do pai. Novamente, foi Lerma quem o conduziu à Igreja, embora o padrinho fosse o príncipe de Saboia e a irmã mais velha do menino, que ainda não tinha sequer quatro anos de idade. Mesmo com o nascimento do herdeiro, contudo, Margarida estava infeliz e fazendo comentários sobre como preferia estar num convento a ser rainha. Não à toa, foi nesta época que Lerma atingiria o auge de seu poder como valido, embora a volta da corte para Madri marcasse um afastamento temporário do cargo – embora não de seus privilégios e rendas.

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Infanta Ana, a primogênita do casal real

Logo no ano seguinte, nasceria outra criança, batizada com o mesmo nome de sua falecida irmã. Em 1607, nasceria outro menino, Carlos, e em 1609 viria à luz o infante Fernando. No ano seguinte, nasceria uma infanta batizada em homenagem à própria rainha, seguida pouco mais de um ano depois pelo caçula Afonso. Cerca de duas semanas após este último parto, a rainha Margarida faleceria com apenas 26 anos, vítima de uma infecção pós-parto. O rei ficou arrasado com a morte da amada esposa, e se referiria a ela como “santa” até sua própria morte em 1621.

(1) Anteriormente, Margarida sabia apenas seu nativo alemão e latim.

(2) Felipe II só tivera casos extraconjugais registrados durante sua juventude, num período que abarca as núpcias com Maria de Portugal e Maria de Inglaterra. Durante as uniões com Isabel de Valois e Ana de Áustria não parece ter existido quaisquer amantes.

(3) Favorito real responsável pelo governo.

(4) Ana pela sua avó paterna e Maurícia por ter nascido no dia de São Maurício.

Para saber mais:

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

Catarina de Áustria – parte VI

A pouca idade de D. Sebastião tornava inevitável que uma regência fosse necessária por alguns anos; como mãe do jovem monarca, D. Joana seria a candidata mais evidente, mas já não se encontrava em Portugal havia muito. Viúva, o destino da princesa dependia novamente dos desejos de seu pai, o poderoso Carlos V, e a vontade dele era que Joana voltasse para Espanha para servir como regente na ausência de seu irmão Felipe, que em breve se casaria com a rainha Maria de Inglaterra. A decisão do imperador causou mal estar na corte portuguesa; pelo lado político, D. João III via frustrados seus próprios planos em casar o irmão D. Luís com a soberana inglesa e sua irmã caçula D. Maria com o príncipe Felipe, e pelo lado sentimental, os monarcas exprimiram sua preocupação em deixar praticamente órfã uma criança tão pequena. De qualquer maneira, a princesa Joana partiu em maio de 1554.

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D. Sebastião enquanto criança

Os anos seguintes trariam mais perdas à rainha D. Catarina: em abril de 1555, faleceu em Tordesilhas a mãe que ela jamais vira novamente em 30 anos, a doente rainha Joana. Em novembro de 1555, morreu seu cunhado, o infante D. Luís, que tinha com Catarina uma relação algo tensa desde as negociações frustradas de matrimônio com sua sobrinha anos antes. Em fevereiro de 1558, falecia sua irmã mais velha e antecessora no posto de rainha de Portugal, Leonor. Em outubro do mesmo ano, morreu outra irmã, Maria, seguida logo no mês seguinte pelo desaparecimento de seu irmão mais amado, Carlos V, com quem Catarina procurara manter uma correspondência constante desde o primeiro encontro de ambos em 1516.

A morte mais importante do ponto de vista político e pessoal, entretanto, já ocorrera em 11 de junho de 1557; após um agravamento súbito de uma doença antiga, faleceu D. João III em Lisboa. Do ponto de vista puramente governamental, o desaparecimento não significou em princípio uma mudança imediata; afinal, a doença do rei, visível desde 1550, apenas tornara mais visível o protagonismo da rainha. A quebra dos escudos do falecido monarca em 14 de junho, contudo, tornou inevitável a tensão – quem seria o regente do jovem D. Sebastião? Pelo costume, o posto pertencia ao parente homem mais próximo do monarca, no caso o infante cardeal D. Henrique, último dos filhos de D. Manuel I que ainda vivia. Regências femininas, embora não uma novidade na história portuguesa – basta lembrar o precedente imediato de Leonor de Aragão, consorte de D. Duarte e mãe de D. Afonso V – não costumavam conseguir o apoio político necessário para serem bem sucedidas. Na reunião do conselho régio que se seguiu imediatamente à quebra dos escudos, a rainha, que já partilhava do governo há vários anos, apresentou uns apontamentos de D. João III que supostamente indicavam o desejo real que D. Catarina assumisse a regência, curadoria e tutoria de D. Sebastião. Após ser pedido para assistir a cunhada na função, D. Henrique concordou.

Em breve, contudo, a princesa Joana, ainda regente em Espanha na ausência do irmão, reivindicou seu direito de sangue de assumir a regência do filho. Era de tal modo forte sua intenção que seu pai, Carlos V, teve que escrever uma carta bastante incisiva, deixando claro que a posição pertencia à sua irmã Catarina. A intenção do imperador era conseguir dela um compromisso no sentido de garantir a sucessão do filho da infanta D. Maria no caso de morte de D. Sebastião; afinal, como ele escreveu ao filho Felipe, “o Príncipe (Carlos) é tanto seu neto como o Rei”. Apesar da concordância de Catarina, a pragmática que reconhecia este direito jamais foi publicada devido ao sentimento anti castelhano presente na corte portuguesa, juntamente com certa impopularidade da regente, inclusive entre seus súditos de nascimento mais baixo.

(c) The Bowes Museum; Supplied by The Public Catalogue Foundation
D. Catarina em sua época como regente do neto

Esta tensão no relacionamento entre Catarina e algumas grandes Casas, nomeadamente os Aveiro e os Bragança, ganhou seu principal símbolo na noite de 3 de setembro de 1554. D. Teodósio, duque de Bragança, era viúvo desde o ano anterior e manifestou o desejo de voltar a se casar com D. Beatriz de Lencastre, sobrinha de D. João, duque de Aveiro. D. Catarina vetou tal matrimônio. Além do procurar evitar uma união mais íntima entre duas Casas tão poderosas, o movimento muito provavelmente visava proteger o dote devido à sua sobrinha homônima, segunda filha do falecido infante D. Duarte, que em breve se uniria ao herdeiro do duque de Bragança. Apesar da proibição, entretanto, D. Teodósio foi em frente e casou-se com D. Beatriz. Isso causou uma imediata reação da regente, que expulsou tanto ele quanto o duque de Aveiro da corte. Sua autoridade, porém, já fora minada.

E é neste contexto que ocorreu a primeira tentativa de renúncia de D. Catarina em nome de D. Henrique, que acabou aceitando-a após tentar convencer a cunhada a continuar no cargo. Embora este evento seja interpretado por muitos historiadores como uma tentativa bem-sucedida de D. Catarina de desestabilizar politicamente o infante cardeal, não é realmente impossível que a regente tenha considerado, diante das dificuldades políticas, abandonar a corte e ir para um convento, como fizera seu irmão anos antes. Independente da intenção, contudo, a reação da corte foi massiva pela continuidade de D. Catarina no cargo. Apesar de tudo, D. Henrique não era propriamente um nome que despertava entusiasmo.

Catarina de Áustria – parte III

Mesmo que no final ela tivesse que retornar à companhia da mãe, o fato é que a vida da infanta Catarina melhorou muitíssimo após a tentativa de fuga frustrada engendrada pelo irmão. Apesar de ter continuado nos aposentos contíguos aos de sua mãe, ocorreram obras para melhorá-lo, que incluíram não só mais janelas como também uma escada que dava acesso ao exterior do palácio. Além disso, a infanta recebeu permissão para passear no campo eventualmente e conviver com mais jovens de sua idade. Carlos também enviava presentes e dinheiro à ela. Ambos, contudo, eram com grande frequência desviados, a ponto de Catarina pedir ao rei que apenas atendesse aos pedidos que ela mesma fazia. A infanta também recepcionaria um novo professor de dança, um português chamado Francisco Dias.

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Um jovem Carlos V

Entretanto, a importância política de Catarina apenas despertaria quando ela se tornou uma jovem casadoira em sequência da Revolta das Comunidades de Castela. Ocorrida entre 1520 e 1522, esta contenda entre a burguesia das cidades e Carlos V, que elevara os impostos e nomeara conselheiros estrangeiros quando se tornara monarca, mostrou ao recém-proclamado imperador que suas bases de poder em Castela não estavam tão fortificadas quanto poderia se imaginar. Afinal, uma das primeiras paradas dos rebeldes fora exatamente Tordesilhas, onde eles haviam declarado apoio à sua legítima soberana, a rainha Joana. Neste contexto, Carlos voltou seu olhar para a irmã solteira de quase 16 anos. Aquelas não seriam, porém, as primeiras negociações matrimoniais em que Catarina se veria envolvida. Ainda no contexto da negociação para sua eleição como Sacro Imperador Romano em junho de 1519, Carlos acertara o casamento da irmã com o sobrinho do eleito do Saxe em troca do apoio deste. Com a vitória assegurada, contudo, o compromisso foi esquecido e devidamente revogado por meio de uma declaração pública da própria infanta retida em Tordesilhas.

Durante a estadia dos revoltosos junto à sua mãe é que seria proposto pela primeira vez um casamento da infanta Catarina em Portugal. A intenção era conseguir o apoio de D. Manuel I ao movimento, o que acabaria não ocorrendo. Provavelmente o rei português jamais tivera intenção de aceitar a infanta em tais termos; afinal, ele era aliado com Carlos V por casamento, com D. Manuel I já tendo se unido com a irmã dele, Leonor, e tendo boas esperanças de casar o imperador com sua filha mais velha, D. Isabel. A morte do rei em dezembro de 1521, de qualquer forma, deixou estas questões matrimoniais em suspenso. O sucessor de D. Manuel I era seu filho, o príncipe D. João, ainda solteiro após a confusa conspiração, anos antes, que resultara no matrimônio de seu próprio pai com sua prometida Leonor.

Agora, acontecia da irmã mais velha do imperador ser uma viúva com direito a um grande dote. Por algum tempo, parte substancial da corte portuguesa, liderados por D. Jaime, duque de Bragança, defendeu a união do novo rei com a viúva de seu pai. A Câmara de Lisboa também era a favor do casamento, inclusive requerendo-o ao rei com uma linguagem inflamada. Apesar de todo este apoio às núpcias, elas não pareciam de fato destinadas a ocorrer, já que em maio de 1523 a rainha viúva retornou para junto do irmão em Castela, deixando para trás a filha D. Maria. Catarina fora a escolhida para casar-se com D. João III num arranjo nupcial duplo que também incluía a irmã do rei português, D. Isabel, que por fim se uniria a Carlos V.

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Catarina representada como sua santa homônima na época de seu casamento

Depois de longas negociações sobre o dote que seria devido à sexta filha de Joana de Castela, o casamento por procuração finalmente ocorreu em 10 de agosto de 1524 em Tordesilhas. Estavam presentes a infanta Catarina, Carlos V e os embaixadores portugueses, e talvez até mesmo a rainha Joana, embora isso seja algo improvável. A partida ocorreria em janeiro de 1525. A infanta não quis despedir-se da mãe, temendo o último encontro e inclusive desmaiando brevemente de emoção antes de finalmente deixar o palácio onde passara sua juventude. Esta fase da sua vida acabara, mas continuaria para a rainha Joana por longos anos, até que finalmente a morte chegasse em 1555.