Maria Sofia de Neuburgo – parte II

Quem o monarca viu quando foi recepcionado por sua nova consorte na câmara do navio? Vestida em rico tecido branco incrustado com diamantes, Maria Sofia era loira de pele alvíssima, correspondendo assim aos padrões de beleza da época. Não há motivos, então, para crer que o rei tenha desgostado de sua escolha marital enquanto ocorria a cerimônia formal de casamento na capela real, pouco tempo após o desembarque. e nem durante as riquíssimas festas em comemoração e a consumação rápida do casamento que se seguiu. Tímida e devota, Maria Sofia trazia consigo a promessa de produção rápida de herdeiros para a necessitada dinastia de Bragança – e de fato, os entregaria com sua disciplina característica. Em 30 de agosto de 1688, exatamente um ano após sua entrada em Lisboa, a rainha daria à luz o príncipe D. João. O novo herdeiro da Coroa portuguesa seria celebrado com festas que durariam três dias; entretanto, o príncipe era notoriamente debilitado desde seu nascimento. Sua morte, ocorrida apenas dezoito dias após o parto de Maria Sofia, foi creditada pelo conde de Povolide como tendo ocorrido devido à forma como as damas alemãs da rainha haviam cuidado dele.

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Maria Sofia de Neuburgo

Provando sua fertilidade, em breve a rainha engravidaria novamente. Tendo-se em vista a morte precoce do última criança, contudo, tomaram-se precauções extras. Quando Maria Sofia entrou em trabalho de parto, nas primeiras horas da manhã do dia 22 de outubro de 1689, o duque de Cadaval enviou pedidos de prece a todos os conventos de Portugal pelo sucesso do nascimento. Além disso, quatro médicos atenderiam Maria Sofia durante o processo, e quando nasceu um menino poucas horas depois, foi lhe dado mel para prevenir certos males. As costumeiras salvas de artilharia foram vetadas no palácio real para não perturbar o recém-nascido, mas este novo príncipe D. João parecia ser mais robusto do que o falecido irmão mais velho. Quando ele foi batizado no novembro seguinte, sua meia-irmã D. Isabel já estava retida no paço do conde de Aveiras após adoecer com varíola. Sempre com saúde frágil, ela jamais se restabeleceria desta doença, falecendo logo no ano seguinte. A inquietação do casal régio com essa nova fragilidade na linha de sucessão portuguesa, porém, seria sanada em maio de 1691, quando nasceria o infante D. Francisco, nomeado com o tradicional título de duque de Beja. À essa altura, porém, já se iniciavam as tensões maritais entre D. Pedro II e Maria Sofia. O rei recaíra em suas costumeiras infidelidades.

Em contraste com a tranquilidade, e mesmo amor mútuo, que caracterizara o casamento com Maria Francisca de Saboia, a união de D. Pedro II com Maria Sofia de Neuburgo foi consideravelmente complicada, sendo bem mais fria e distante. Parte das dificuldades pode ser atribuída à personalidade da segunda rainha, considerada difícil para os padrões do século XVII. Em contraste com Maria Francisca, que costumava fechar os olhos às infidelidades do marido, Maria Sofia tinha tantos ciúmes do rei que o questionava frequentemente a respeito, causando-lhe aberto mau humor com a consorte. Em adição a isso, D. Pedro II censurava severamente certos hábitos de Maria Sofia, que gostava de jogar e de beber vinho, além de negar muitos de seus pedidos.

Em carta escrita a seu pai, Maria Sofia queixava-se abertamente da negligência de seu marido em Portugal e de seu fracasso em estreitar as relações diplomáticas entre seu reino e Neuburgo. Ao contrário do que seria de se esperar, D. Pedro II nunca mandou uma embaixada oficial, mesmo tendo diversas ocasiões para isso, o que indignava uma rainha bem consciente da nobre genealogia da Casa Wittelsbach. Em atitude oposta à que costumava ser dada às rainhas da Europa Central, D. Pedro II também não dava a Maria Sofia qualquer participação em seus negócios políticos, parecendo enxergá-la simplesmente como um meio para gerar filhos para a dinastia de Bragança. O comportamento do monarca mortificava ainda mais a rainha uma vez que ela tudo faria para agradar D. Pedro II, que em retorno só lhe daria profundos desgostos, incluindo diversos casos extraconjugais com damas de seu próprio séquito e mulheres do povo comum.

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D. João V de Portugal

Apesar das dificuldades do relacionamento pessoal do casal, porém, os filhos seriam gerados regularmente. Em março de 1695, nasceu D. Antônio, que viria a ser o irmão predileto do futuro D. João V, seguido logo no ano seguinte pela primeira filha de Maria Sofia, D. Teresa. A rainha teria mais dois filhos, D. Manuel e D. Francisca, antes de falecer devido a uma febre em quatro de agosto de 1699, apenas dois dias antes de seu aniversário de 33 anos. sendo sepultada no majestoso monastério de São Vicente com todas as honras apropriadas. Seu marido, D. Pedro II, morreria ainda viúvo em dezembro de 1706, provavelmente de uma doença do fígado. Nenhum dos dois, portanto, viveria para ver o casamento do herdeiro D. João com sua prima materna Maria Ana de Áustria, e a ascensão política de Portugal durante este rico reinado.

 

Para saber mais:

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

SILVA, Maria Beatriz Nizza de. D. João V. Círculo de Leitores, 2012.

 

 

Isabel de França – parte II

Atraente e inteligente, a rainha aparentemente tinha o amor do povo e de seu marido, muito embora Olivares procurasse estimular o que ele chamava de “ardores da pueril sensualidade” de Felipe IV, e, assim, afastar o perigo de uma maior influência de Isabel ao dividir os afetos do jovem rei. A rainha mesma era suspeita de não manter inteiramente seus votos de matrimônio. Em maio de 1622, quando um pequeno incêndio começou no meio da encenação de uma peça do conde de Villamediana, o próprio autor conduziu a rainha para segurança com uma proximidade que despertou suspeitas da corte. Pouco depois, ele foi assassinado, num crime que bem pode ter sido ordenado por Felipe IV em pessoa.

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Isabel de França

De qualquer forma, estes casos extraconjugais não atrapalhavam o casal real em continuar tentando produzir um herdeiro do trono. Em novembro de 1623, nasceria outra filha, seguida por outra menina dois anos depois; entretanto, as infantas Margarida Maria e Maria Eugênia também viveriam pouco. No ano seguinte, uma nova gravidez terminaria num parto prematuro, e em outubro de 1627 viria à luz Isabel Maria, mais uma filha de curta vida. A despeito das frequentes tragédias familiares, porém, o rei não abdicaria de suas várias amantes, e em abril de 1629 uma delas – a atriz Maria Calderón – teve o único filho ilegítimo que Felipe IV reconheceria como seu, chamado de João. Este nascimento colocaria, como era natural no período, grande pressão sobre Isabel, grávida na época; em outubro ela finalmente daria à luz o tão esperado menino, nomeado com o incomum nome de Baltasar.

A década de 1630 testemunharia mais nascimentos reais; em 1634, um menino – Francisco – que viveu pouco, seguido em 1636 por Maria Ana, que também teve falecimento precoce. Em 10 de setembro de 1638, nasceria uma menina que sobreviveu, a infanta Maria Teresa. Apenas cinco dias antes, nascera em França o primeiro filho sobrevivente do irmão de Isabel, Luís XIII, e Ana de Áustria, irmã de Felipe IV; provavelmente uma união entre as duas crianças já então foi considerada pelas Coroas. Nos anos seguintes, a rainha Isabel teria no mínimo dois partos prematuros, e não haveria mais crianças de seu casamento com Felipe IV.

Paralelamente ao processo de fim de sua importância reprodutiva, a rainha Isabel crescia em importância política. De acordo com a mentalidade da época, a produção de dois herdeiros vivos deve ter contribuído para aumentar a confiança do rei na capacidade governamental da consorte, embora também seja certamente provável que a doença progressiva do valido Olivares, junto com seus fracassos recentes em política externa e econômica, tenha ajudado neste processo. De fato, além de forçar a partida de Olivares da corte, ela pôde ser regente de Espanha enquanto seu marido lidava com a revolta catalã no início da década de 1640, mostrando de fato aptidão superior à do marido para lidar com questões burocráticas.

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Felipe IV de Espanha

O excesso de trabalho, contudo, piorou a frágil saúde de Isabel, que já sofria anteriormente de problemas no estômago. Em outubro de 1644, ela ficaria retida à cama. Sangrias foram realizadas, mas o estado da rainha apenas se agravava, e contra os desejos iniciais dela, seu marido foi chamado. Quando Felipe IV chegou à Madri, porém, o corpo de sua esposa já esfriava. Pouco antes de sua morte aos 41 anos de idade, Isabel de França despediu-se do príncipe Baltasar e da infanta Maria Teresa. Com medo de qualquer possível contágio, ela não teria deixado que eles se aproximassem, dizendo: “Rainhas havia muitas para Espanha, mas príncipes muito poucos”.

Suas palavras eram proféticas. Pouco mais de dois anos depois que a rainha foi sepultada vestida em um hábito da ordem de São Francisco, seu filho Baltasar padeceu subitamente. Felipe IV, além de ver o Portugal dos Bragança sair cada vez mais de seu alcance, ainda se encontrava sem herdeiro varão. Para procurar resolver tal questão, ele casou-se contra a vontade com a antiga prometida do príncipe, sua sobrinha Mariana de Áustria, em 1649, numa união que eventualmente lhe traria satisfação e outro príncipe: o futuro Carlos II. Seria com este deformado rei, contudo, que a dinastia dos Habsburgo espanhóis conheceria o seu fim e seria substituída pelo ramo da Casa Bourbon descendente da rainha Isabel por meio de sua filha Maria Teresa, rainha de França.

Para saber mais:

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2012.

CANTÓ, Pilar Perez et all. Rainhas de Portugal e Espanha – Margarida de Áustria e Isabel de Bourbon. Temas e Debates, 2015.

Leonor de Viseu – parte III

A partir da separação do marido, D. Leonor passou a dedicar-se basicamente a uma vida de oração e contemplação, além de cuidados com seu único e adorado filho, o príncipe D. Afonso, e eventuais visitas à corte. Em 29 de novembro de 1490, o herdeiro do trono se casou com sua antiga prometida, Isabel de Aragão. Após grandes festas em Évora, o novo casal foi se estabelecer em Santarém em julho seguinte, sendo acompanhados na viagem pelo rei e pela rainha. Em meio aos entretenimentos, o herdeiro do trono português desafiou o fidalgo D. João de Meneses para uma corrida. Foi quando ocorreu a tragédia: em meio à disputa, o cavalo de D. Afonso tropeçou e caiu, derrubando o príncipe e caindo sobre ele, deixando-o inconsciente. Seu estado foi piorando gradativamente até 13 de julho, quando finalmente morreu, deixando seus pais inconsoláveis e uma jovem viúva arrasada.

Infanta Isabel de Aragão
Infanta Isabel de Aragão

Sem nenhum filho legítimo restante e impossibilitado de qualquer forma de produzir algum com D. Leonor devido à saúde frágil desta, D. João II começou a planejar a legitimação de D. Jorge, seu filho ilegítimo com Ana de Mendonça. Isso provocou a resistência acirrada da rainha. Segundo o costume, os sucessores de direito de D. João II eram os filhos de seu falecido tio D. Fernando, os irmãos da rainha; depois do assassinato jurídico de D. Diego, duque de Viseu, era agora D. Manuel, duque de Beja, que ocupava tal posição. Para evitar este evento, o rei procuraria Roma para legitimar o bastardo, pedido que lhe foi negado por influência desestabilizadora dos Reis Católicos, já de posse da filha Isabel, que para lá retornara depois da morte do marido. Sem escolha e adoecendo cada vez mais, D. João II acabou cedendo e nomeando D. Manuel como seu sucessor no trono. Morreu pouco depois com apenas 40 anos.

Quando ascendeu à Coroa em 1495, o irmão mais novo de D. Leonor já tinha 26 anos, mas ainda não se casara. Neste panorama, a própria rainha era a sua herdeira caso ele falecesse prematuramente, embora ela manifestasse o desejo de abdicar do juramento como sucessora da Coroa em nome de sua irmã D. Isabel, viúva do duque de Bragança, que tinha filhos homens sobreviventes. Pouco tempo depois, de qualquer forma, ficou acertado que D. Manuel se casaria com a antiga nora de Leonor, a infanta Isabel, que acabaria tendo um menino pouco antes de sua falecimento por complicações em seu único parto, em 1498.

Após a morte da primeira esposa e pouco tempo antes do falecimento de D. Miguel, o rei casou-se pela segunda vez com Maria de Aragão, quarta filha dos Reis Católicos, com quem teria ampla descendência. Neste panorama, D. Leonor perdeu gradativamente sua importância sucessória, e passou a dedicar-se cada vez mais à caridade, doando parte de sua imensa fortuna para construir a Santa Casa de Misericórdia e o Hospital Real de Todos os Santos, considerado o melhor da época, além de vários conventos. Em um deles, ela viveria seus últimos anos praticamente como uma freira, falecendo já durante o reinado do sobrinho, D. João III, em 17 de novembro de 1525.

Para saber mais:

FONSECA, Luís Adão de. D. João II.  Círculo de Leitores, 2012.

DELURUE, Maria Luisa; OLIVEIRA, Maria Manuela. D. João II – um rei emblemático. Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte III

Apesar de ter herdado de sua mãe a aparência loira e clara tão valorizada nas mulheres no período medieval, a rainha Philippa não era considerada bela ou com particulares encantos. Para piorar a situação, seu marido já tinha uma amante – Inês Pires – há alguns anos, com quem tivera dois filhos sobreviventes, D. Afonso e D. Beatriz.  Mesmo assim, superando os temores da corte, Philippa engravidou rapidamente. Em junho, diante de novo fracasso de sua campanha contra os castelhanos, o duque de Lancaster acertou com João I de Castela um matrimônio entre a jovem Catarina e o mais jovem ainda Henrique, como forma de unir as pretensões ao trono e encerrar definitivamente a guerra entre Castela e Inglaterra. Neste meio tempo, o rei de Portugal caiu gravemente doente durante o percurso até Coimbra. A rainha e o duque foram rapidamente visitá-lo, temendo o pior, uma vez que D. João I até já fizera um testamento. Em meio à tensão, Philippa abortou. Pouco depois, o rei melhorou de forma inesperada, podendo seguir com o resto da comitiva para a cidade de Porto.

Catarina de Lancaster
Catarina de Lancaster

Em provável consequência deste momento difícil, os recém-casados se aproximaram. Pouco depois, D. João I deixaria Inês Pires, que foi rapidamente encaminhada por Philippa para um convento, onde se tornaria futuramente a abadessa, enquanto seus filhos D. Afonso e D. Beatriz passaram a ser criados no paço real. De fato, D. João I não teria mais casos extraconjungais registrados. Não muito depois, Philippa daria à luz a princesa D. Blanche (n. 13/07/1388). Embora o bebê tenha morrido antes mesmo de completar um ano, rapidamente seria seguida por um irmão e herdeiro ao trono, o príncipe D. Afonso (n. 30/07/1389). Três infantes o seguiriam em rápida sucessão: D. Duarte (n. 31/10/1391), D. Pedro (n. 09/12/1392) e D. Henrique (n. 04/03/1494). A linha real portuguesa estava assegurada, mesmo que, assim como a irmã mais velha, o primogênito também falecesse ainda criança, deixando a herança para o irmão D. Duarte. Em 21 de fevereiro de 1397, o nascimento de herdeiros homens seria interrompido temporariamente pelo nascimento da infanta D. Isabel, única filha de Philippa que sobreviveria à infância.

D. Afonso
D. Afonso

Paralelamente à produção daquela que seria conhecida futuramente como a “Ínclita Geração”, a rainha providenciava com o marido os matrimônios da descendência ilegítima daquele.  Em 1401, D. Afonso casou-se com a altamente disputada filha e herdeira do Condestável do rei, D. Beatriz Pereira. Inicialmente, na verdade, o rei tentou um matrimônio entre ela e o herdeiro do trono D. Duarte, mas tal ideia foi recusada por Nuno Álvares Pereira, que não desejava que sua Casa terminasse anexada ao patrimônio real. Assim, as núpcias entre sua herdeira e o filho legitimado do rei acabaram negociadas como alternativa, ocorrendo finalmente em Lisboa na presença do rei e dos grandes nobres do reino. Pouco depois, o próprio D. Afonso acompanharia sua irmã à Inglaterra para o casamento desta com um algo relutante conde de Arundel, aparentado próximo da família real inglesa. Uma década depois, ficando viúva do primeiro marido, ela se casaria novamente com o conde de Huntington, sobrinho da rainha de Portugal por meio de sua irmã Isabel. Mais uma vez, o tratado de Windsor era confirmado por influência direta da esposa inglesa de D. João I.

A Crise de 1383-85 – parte III

A guerra civil portuguesa não apenas dividiu o reino de Portugal, mas também as famílias que nele habitavam. Para ficar apenas em um exemplo mais concreto: o irmão mais velho do condestável do Mestre de Avis, Nuno Álvares Pereira – ironicamente, o antigo escudeiro de D. Leonor – era um dos principais comandantes do lado do rei de Castela. Diferentemente do que se possa imaginar, as classes sociais não se confrontaram, mas sim se dividiram entre ambas as facções ou em nome do ideal patriótico representado pelo Mestre de Avis ou então em nome do direito da herdeira do trono D. Beatriz.

Após ter tido a regência cedida para si, João I de Castela rumou para cercar Lisboa por terra e mar, apenas para ter suas tropas dizimadas pela peste e ser forçado a retirar-se, levando sua rainha doente consigo, no início de setembro. Enquanto o rei gastava forças tentando submeter a capital, Nuno Álvares Pereira avançou pelo Alentejo e venceu em nove de abril a Batalha dos Atoleiros, onde estivera em desvantagem numérica. No mar, os navios portugueses atacavam as costas da Galícia, investindo contra as embarcações castelhanas onde estavam ancoradas. No ano seguinte, o Mestre de Avis superou as pretensões superiores dos infantes D. João e D. Dinis – vistos como excessivamente simpáticos ao monarca de Castela – e foi eleito rei de Portugal nas Cortes de Coimbra, reunidas em março.

Representação da batalha de Aljubarrota
Representação da batalha de Aljubarrota

Pouco depois, o agora D. João I de Portugal partiu para tomar algumas cidades que ainda resistiam. Foi bem-sucedido, mas pouco depois chegou a notícia de nova ofensiva castelhana a norte de Lisboa, que procurava conquistar Lisboa e cortar as linhas de abastecimento portuguesas. Após muitas discussões na reunião do conselho e a hesitação do rei de como proceder, Nuno Álvares Pereira retirou-se impulsivamente e partiu para enfrentar o inimigo na famosa batalha de Aljubarrota, em 14 de agosto de 1385. Novamente em inferioridade numérica, apesar de ter um expressivo auxílio de tropas inglesas, os portugueses atacaram com tanto ímpeto que João I de Castela fugiu às pressas para embarcar de volta para o seu reino. Depois da vitória avassaladora, que ficaria marcada como um dos eventos mais marcantes da história de Portugal, as cidades que ainda se aliavam ao rei castelhano renderam-se.

Leonor Teles de Menezes – parte III

A primeira criança de Leonor e D. Fernando, D. Beatriz, nasceu em 1º de março de 1373 ainda em meio a um movimento contra o recente casamento real. Segundo Fernão Lopes, cronista do período, o reino como um todo ficou indignado com as núpcias do monarca com uma mulher tão pouco adequada, que claramente o tinha enfeitiçado (LOPES, p. 210): devido ao fato do marido anterior dela ainda viver, a união sequer era legítima. Revoltas contra o matrimônio ocorriam até mesmo em Santarém, no lar da infância de Leonor. Por certo tempo, ainda segundo Lopes, ela até mesmo temeu ser abandonada por D. Fernando. O rei, contudo, reafirmou o casamento numa cerimônia pública na cidade do Porto, num mosteiro da Ordem do Hospital chefiado por Álvaro Gonçalves Pereira, homem da família influente na Península Ibérica e vassalo de confiança de D. Fernando. Além disso, Álvaro era parente por afinidade da rainha por meio da tia desta, Guiomar – poucos anos depois, inclusive, D. Leonor tomaria o filho deste, Nuno, como escudeiro. De qualquer forma, o fato que aquela união precisou ser justificada publicamente mostra bem claramente seu grau de fragilidade perante o público.

Mas simplificaríamos demais a questão se colocarmos a culpa da impopularidade do matrimônio de D. Fernando e D. Leonor apenas sobre a última: segundo a interpretação de Maria José Pimenta Ferro (1983, p. 53), a revolta contra o casamento apenas teria sido uma de várias rebeliões populares contra medidas da Coroa geradas pelos gastos bélicos de D. Fernando num contexto internacional de contestações contra a nobreza. Desta forma, embora as núpcias do rei com Leonor Teles de Menezes provavelmente tenham descontentado alguns, por si só não ocasionou mais revolta do que a carestia de vida, os abusos dos grandes senhores ou a corrupção da corte portuguesa durante o reinado de D. Fernando. Apesar disso, porém, é interessante tomar nota da recusa do infante D. Dinis, meio-irmão de D. Fernando, em se curvar perante D. Leonor na cerimônia de beija-mão que se seguiu à cerimônia matrimonial; isto simbolizava claramente a antipatia dos filhos de Inês de Castro em relação à rainha. O confronto entre as duas facções parecia inevitável.

João de Gaunt, duque de Lancaster
João de Gaunt, duque de Lancaster

Em 1371, a curta paz nos reinos ibéricos chegou ao fim quando o nobre inglês João de Gaunt, recém-casado com a filha mais velha sobrevivente de Pedro I de Castela, Constança, reivindicou o trono daquele reino no nome da esposa. Para perseguir tal projeto, o duque de Lancaster necessitava do apoio de alguns vizinhos de Castela. D. Fernando aceitou prontamente a aliança, vendo uma aí uma oportunidade não só de estreitar os laços comerciais e militares entre Portugal e Inglaterra, como também de recuperar alguns territórios capturados por Castela no conflito anterior. Embora esta primeira investida fosse ser um fracasso devido ao atraso dos soldados ingleses, obrigando o rei português a aceitar outro tratado de paz com Castela, pouco tempo depois uma aliança perpétua com a Inglaterra de Eduardo III foi traçada no chamado Tratado de Westminster; este acordo seria o antecessor direto do célebre Tratado de Windsor, assinado poucos anos depois e ainda em vigor nos dias de hoje, constituindo-se na aliança mais antiga ainda em atividade.

Como parte do tratado de paz com Castela, a princesa D. Beatriz, ainda com três anos, foi prometida a um filho bastardo de Henrique II, D. Fradique, duque de Benavente, que mal completara seis anos. Seria apenas o primeiro noivo da herdeira de Portugal. Entretanto, a promessa de matrimônio entre ambos foi ofuscada pelo escândalo da morte da irmã da rainha, Maria, casada há pouco com o meio-irmão do rei, D João. Leonor já se mostrara hostil com ambos após saber do casamento, e boatos registrados pelo cronista Fernão Lopes dão a entender que a rainha, temendo pelo seu futuro após uma doença de seu marido, armou uma trama que levasse o popular infante a assassinar Maria – com quem Leonor há tempos não tinha boas relações – devido ao seu suposto adultério. De fato, após cometer o crime, D. João fugiria para Castela, se reunindo ao irmão D. Dinis, já exilado há alguns anos. Assim, as principais ameaças ao poder de D. Leonor se encontravam anuladas no momento em que a saúde de D. Fernando começava a declinar.

Isabel de Aragão, a Rainha Santa – parte IV

Em 1299, o rei nomearia D. Isabel como a principal executora de seu testamento, além de possível regente do Portugal, antes de partir numa campanha contra uma nova revolta de seu irmão mais novo. Nos anos seguintes, contudo, a aliança com Aragão e com o irmão favorito de D. Isabel, o rei Jaime II, perdeu importância com a ascendência cada vez maior da união Portugal-Castela, fazendo cair o capital político da rainha.  Depois, portanto, que o herdeiro D. Afonso se uniu a sua mãe contra a legitimação de seus primos ilegítimos, filhos de seu tio homônimo, D. Dinis virou-se contra a rainha. Logo após, o príncipe e o rei começaram a se chocar politicamente com cada vez maior frequência, com D. Isabel apoiando tão visivelmente o filho que D. Dinis acabou desterrando-a da corte e a destituindo-a de todas as suas rendas.

D. Afonso IV de Portugal
D. Afonso IV de Portugal

Enquanto isso, ressentido pelo favorecimento indevido que o pai dava a um filho ilegítimo, Afonso Sanches, e temeroso que este meio-irmão pudesse ser a escolha de D. Dinis para sucedê-lo no trono, além de estimulado ao confronto por nobres descontentes pela política de controle de poder senhorial exercida por D. Dinis, D. Afonso retirou-se do reino com sua esposa e solicitou publicamente que lhe fosse dado o governo de justiça do reino. O pedido foi negado. Provavelmente vendo nisso uma confirmação de que seria deserdado em benefício do irmão bastardo, D. Afonso iniciou o confronto contra D. Dinis, cercando e conquistando algumas cidades. Em 1323, apenas a intervenção da própria rainha D. Isabel teria impedido um confronto direto entre pai e filho; segundo a lenda, ela teria se posicionado em uma mula em meio aos exércitos das duas partes. Já no ano seguinte, ambos os lados exaustos entrariam em concórdia, e a paz retornaria. A relação entre D. Dinis e D. Isabel, porém, nunca foi mais a mesma. Quando ele morreu em 1325, seria enterrado no convento de São Dinis, em Odivelas. A rainha, simbolicamente, seria enterrada após seu falecimento no convento de Santa Clara, em Coimbra, para onde se retirara em sua viuvez.

Antes disso, contudo, em 1336 ela impediria mais uma vez o derramamento de sangue quando seu filho, ofendido pelos maus-tratos que o genro, o rei Afonso XI de Castela, infringira à sua filha D. Maria, marchou com suas tropas rumo ao reino vizinho. Após cavalgar em encontro a D. Afonso IV, D. Isabel conseguiu convencer o filho a reconsiderar; pouco depois, a doente rainha viúva morreria em sua cama, vítima de uma febre. Após séculos de milagres feitos por sua intervenção terem sido relatados, Isabel de Aragão foi beatificada em 1525. Um século depois, ela viraria oficialmente uma santa da Igreja Católica.

Santa Isabel, Rainha de Portugal
Santa Isabel, Rainha de Portugal

Urraca de Castela – parte II

Uma doença lenta e crônica, a lepra ainda era algo endêmica no século XIII e condenava suas vítimas a uma vida de isolamento do restante da sociedade. Segundo Júlio Dantas, o príncipe Afonso não necessariamente foi acometido de lepra, mas sim de uma “dermatose vulgar de aspecto lepróide” (1923, pps 1-4). A hipótese do autor faz sentido se for considerado que o futuro rei não se afastou da corte portuguesa, e que as fontes de época não fazem nenhuma menção quanto à doença de D. Afonso.

Por outro lado, existem registros anteriores de nobres com a doença que continuaram a conviver entre seu estrato social, como o famoso rei Balduíno IV de Jerusalém. Além disso, deve ser considerado que a dinastia portuguesa de Borgonha ainda não estava firmada o suficiente no reino para poder suportar o baque duplo de um rei e um herdeiro doentes com o mesmo mal, como defendem Machado e Serrão (1978, p. 123). Qualquer que fosse a doença de D. Afonso, porém, ela existia: o aspecto flácido e corpulento de seu corpo limitaria suas funções régias ao por vezes impedir que liderasse exércitos. A moléstia, contudo, não o impediu de produzir herdeiros.

D. Sancho II de Portugal
D. Sancho II de Portugal

Em 1206, a infanta Urraca por fim se casou com o herdeiro D. Afonso, que se tornou rei após a morte do pai, em 1211. Pouco se sabe a respeito de sua vida depois que passou a viver em Portugal. Ela não se provou tão fértil quanto a falecida rainha Dulce, tendo apenas três filhos e uma filha que sobreviveram à infância: D. Sancho (1209 – 1248) e D. Afonso (1210 – 1279), que seriam sucessivamente reis de Portugal, Leonor (c. 1211 – 1231), rainha de Dinamarca, e D. Fernando (1217 – 1246), senhor de Septa. Uma quinta criança, D. João, viveu pouco (SERRÃO, 1978, p. 399). Seu marido provavelmente teve filhos bastardos, mas isso não prejudicou a posição da rainha; em um testamento datado de 1214, D. Afonso II declarou que Urraca deveria ser a regente em nome de D. Sancho no caso de seu falecimento prematuro. Todavia,  a rainha morreria em fins de 1220, com apenas 33 anos de idade. Pouco menos de dois depois, o rei também faleceria, provavelmente enfraquecido por sua longa doença. Todos os seus filhos legítimos ainda eram menores de idade.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal

Urraca de Castela – parte I

Segunda filha (quinta criança sobrevivente) de Afonso VIII de Castela e Leonor de Inglaterra, sendo neta por via materna de Leonor de Aquitânia, uma das mulheres mais influentes da Europa no século XII, a infanta Urraca nasceu em data indefinida entre 1186 e 1187. Desde cedo, foi procurado para ela uma união de alta estirpe: primeiramente, ocorreram negociações para um matrimônio com Luís VIII de França, postas de lado em favor de um novo projeto de união com o herdeiro português D. Afonso. O rei francês mais tarde se casaria com a irmã mais nova de Urraca, a infanta Branca.

D. Afonso II de Portugal
D. Afonso II de Portugal

Quando as negociações matrimoniais entre Castela e Portugal tiveram o seu início, tanto a noiva quanto o prospectivo noivo – apenas um ano mais velho – já estavam se aproximando dos 20 anos;  passando em muito, portanto, a idade tradicional de casamento na Idade Média. Ela era estabelecida aos 14 anos, quando, segundo Isidoro de Sevilha, iniciava-se a fase conhecida como adulescentia, marcada não só pela chegada à idade da razão, mas também pelo início da capacidade de procriar (VILAR, 2005, pps. 37-38). Mas, por que, então, a demora? No caso de Urraca, sua condição de filha mais velha ainda donzela do rei de Castela a tornava uma peça valiosa para a política ibérica, principalmente num contexto em que o reino de Castela tornava-se cada vez mais importante; como muitos outros personagens importantes, então, suas negociações matrimoniais levaram certo tempo.

Urraca de Castela
Urraca de Castela

No caso de Portugal, o rei D. Sancho I não parece ter tido pressa em casar os filhos varões (em especial seu herdeiro), seguindo uma tendência das famílias nobres medievais em matrimoniar tardiamente os homens, muito embora não as mulheres (BARTON, 1997, pps. 53-54). Existia a necessidade, porém, de reforçar o relacionamento com os outros reinos peninsulares, dos quais Castela progressivamente emergia como o mais influente. Um casamento entre D. Afonso e a infanta Urraca seria, nesse sentido, especialmente interessante para Portugal. Existia, contudo, um problema: o príncipe português provavelmente tinha lepra.

Dulce de Aragão

Quando o príncipe Sancho tornou-se rei em 1185 após a morte de D. Afonso I, ele tinha desde o começo uma rainha – Dulce de Aragão – e pelo menos três filhas já haviam nascido da união (MATTOSO, 2012, pps. 160-161). Mas quem era exatamente a esposa do segundo rei de Portugal?

D. Sancho I de Portugal
D. Sancho I de Portugal

Filha primogênita (segunda ou quarta criança) da rainha Petronilla de Aragão e seu consorte Raimundo, duque de Barcelona, além de irmã do futuro rei aragonês Afonso II, a infanta Dulce nasceu em data indefinida em 1160. Quando ela tinha aproximadamente nove anos, uma união com o herdeiro do trono português foi combinada; tal projeto de matrimônio visava unir ambos os reinos contra o expansionismo de Leão e Castela. O casamento foi consumado em 1174, quando a noiva tinha 14 anos e o príncipe Sancho quase 21. Assim, Aragão tornou-se o primeiro país ibérico a reconhecer Portugal como um reino próprio num momento em que este sofria perigo de ser reanexado por Castela.  E, como a rainha Mafalda morrera mais de dez anos antes, a jovem Dulce tornou-se tecnicamente a mulher mais importante da nascente corte portuguesa.

Apesar de ter propriedades em seu nome e, em 1192, talvez até mesmo ter governado por certo tempo em nome do marido doente, o fato é que o nome da rainha Dulce apenas aparece associado ao de seu marido e filhos, o que aponta para um certo apagamento político. Diferentemente de sua antecessora, porém, não existem quaisquer comentários sobre sua personalidade forte ou possíveis escândalos em seu matrimônio com o rei; na verdade, parece que D. Sancho I e a doce Dulce de Aragão tiveram um casamento estável por quase 25 anos. A falta de registro de amantes por parte do rei durante este período indicam que ele, assim como seu pai D. Afonso I, formou um laço emocional com sua esposa, mesmo que a união tivesse sido arranjada.

Dulce de Aragão
Dulce de Aragão

O casal real seria bastante fértil, gerando juntos no mínimo 11 filhos até a morte da rainha Dulce em 1198, provavelmente vítima da peste que assolava o reino português naquele momento. Entre os mais importantes estão a primogênita, D. Teresa (c. 1175 – 1250), que por certo tempo foi rainha de Leão antes de optar pela vida religiosa; D. Sancha (c. 1180 – 1229), que também se tornou religiosa e foi beatificada junto com a irmã mais velha em 1705; D. Afonso (1185 – 1223), que sucederia a seu pai no trono português; D. Pedro (1187 – 1258), que foi conde de Urgell e senhor das ilhas Beleares; D. Fernando (1188 – 1233), que foi conde de Flandres e Hainaut por matrimônio com a herdeira Joana; D. Mafalda (c. 1190 – 1256), que foi brevemente rainha de Castela e depois também seguiu vida religiosa, sendo beatificada em 1792; e, por último, D. Berengária (c. 1195 – 1221), que foi rainha de Dinamarca.

Depois do falecimento da esposa, D. Sancho I continuaria tendo filhos com sua amante Maria Aires até sua própria morte em 1212 (SERRÃO, 1978, pps. 398-399). Tantas crianças, porém, não impediriam uma crise política de grandes proporções no reino apenas duas gerações mais tarde.