A rainha do Piedoso: Margarida de Áustria – parte II

Depois de obter o consentimento da religiosa Margarida, que estaria mais interessada numa vida conventual, o contrato nupcial foi assinado em setembro de 1598, com um dote sendo combinado em 100.000 escudos, além de mais 50.000 escudos em joias, fornecidas pelo próprio rei. Poucas semanas depois, a noiva pôs-se a caminho de Espanha, já estudando a língua com a qual se comunicaria com o futuro marido (1). Enquanto sua comitiva passava pela cidade de Vilach, soube-se do falecimento de Felipe II; a partir desse momento, Margarida era tecnicamente a rainha de Espanha, e alguns serviçais passaram a dirigir-se a ela com tal título. Ela, contudo, manifestou a intenção de apenas passar a utilizá-lo depois de seu casamento oficial com o agora Felipe III. Apenas em 11 de abril do ano seguinte, contudo, ambos teriam o primeiro encontro em Valência. De acordo com o cronista Cabrera de Córdoba, antes mesmo o rei vira Margarida secretamente entre outros elementos de sua comitiva e mostrara-se contente por ter uma prometida bela e graciosa. Margarida, por sua vez, escreveria ao irmão Fernando que gostara do alourado rei depois de superar sua vergonha inicial.

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Felipe III de Espanha/II de Portugal

O matrimônio ocorreria por fim no dia 18, numa luxuosa cerimônia onde a rainha trajava um vestido de ouro, prata e pedras preciosas. As festas se seguiriam por uma semana, com direito a um torneio que custaria 30.000 ducados. Somente em maio o casal real partiria da cidade, iniciando um périplo por Espanha que só terminaria dez meses depois. Nesta altura, um laço afetivo significativo já surgira entre Felipe e Margarida; com exceção de uma filha ilegítima atribuída ao rei pelo núncio Camilo Caetano, não há traços reais de infidelidade por parte do monarca – o que refletia, aliás, a tendência de seu pai na maturidade (2). Apesar disso, seria apenas em finais de 1600 que a tão esperada gravidez da rainha ocorreria, percebida quando a consorte começou a passar mal durante a mudança da corte espanhola para Valladolid. Apesar de toda a insistência do valido (3) Francisco Gómez de Sandoval y Rojas, o duque de Lerma, Margarida não aceitou se mudar para o palácio de Mendoza-Cobos para dar à luz, preferindo fazê-lo na residência do conde de Benavente, apesar desta ser teoricamente menos confortável. Talvez a disputa crescente de Margarida com Lerma pela influência perante o rei tenha tido mais influência nesta questão do que o precedente da morte da princesa Maria de Portugal de parto no palácio indicado; afinal, o duque já tentara mudar o confessor austríaco da rainha por um jesuíta castelhano, e, além disso, era suspeito de verificar a correspondência da consorte.

De qualquer maneira, quando Margarida deu à luz no dia 22 de setembro, o rei estava ao seu lado, apoiando-a durante o trabalho de parto; era uma saudável menina, batizada em outubro com o nome de Ana Maurícia (4). Seria o duque de Lerma quem teria a honra de transportar a primogênita real até a igreja, e seria a sua esposa a madrinha da menina. Mesmo com todas as celebrações, a urgência por um príncipe continuava presente, principalmente depois que uma nova gestação da rainha deu origem à outra menina. Nascida em 1 de fevereiro de 1603, a infanta foi batizada em homenagem à bisavó paterna, a doente imperatriz viúva Maria de Áustria, que exercera considerável influência sobre Felipe III. A menina, contudo, não era robusta como a irmã mais velha, e faleceria pouco mais de um mês após o nascimento.

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Margarida de Áustria

Depois de dois consecutivos fracassos de Margarida para dar um herdeiro homem ao marido, sua rivalidade com Lerma ficou exposta no episódio da prisão da aia de infanta Ana, a marquesa do Valle. Depois que ela foi encarcerada numa fortaleza e processada juntamente com uma dama de companhia da rainha, os papéis da marquesa revelaram que ela era antiga informante do duque, mas passara para o lado da rainha. Provavelmente temeroso com as possíveis revelações de sua antiga aliada, Lerma apertou a vigilância dos aposentos de Margarida, determinando um novo protocolo. Agora, qualquer coisa entregue à rainha, mesmo comida, deveria passar primeiro pela camareira-mor, D. Catarina de Sandoval, condessa de Lemos e irmã do duque; além disso, apenas o mordomo-mor – entre os quais estava o próprio Lerma -, a camareira-mor a as damas de companhia poderiam ter acesso à área privada dos aposentos reais.

Neste cenário compreensivelmente angustiante, Margarida ficou grávida pela terceira vez. No dia 8 de abril de 1605, uma Sexta-Feira Santa, num parto rápido no cair da noite, nasceu o tão esperado menino, causando grandes festas e a libertação comemorativa de presos na cidade. Embora fosse esperado por muitos que o herdeiro fosse chamado de Fernando ou Carlos, a criança foi batizada em maio com o mesmo nome do pai. Novamente, foi Lerma quem o conduziu à Igreja, embora o padrinho fosse o príncipe de Saboia e a irmã mais velha do menino, que ainda não tinha sequer quatro anos de idade. Mesmo com o nascimento do herdeiro, contudo, Margarida estava infeliz e fazendo comentários sobre como preferia estar num convento a ser rainha. Não à toa, foi nesta época que Lerma atingiria o auge de seu poder como valido, embora a volta da corte para Madri marcasse um afastamento temporário do cargo – embora não de seus privilégios e rendas.

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Infanta Ana, a primogênita do casal real

Logo no ano seguinte, nasceria outra criança, batizada com o mesmo nome de sua falecida irmã. Em 1607, nasceria outro menino, Carlos, e em 1609 viria à luz o infante Fernando. No ano seguinte, nasceria uma infanta batizada em homenagem à própria rainha, seguida pouco mais de um ano depois pelo caçula Afonso. Cerca de duas semanas após este último parto, a rainha Margarida faleceria com apenas 26 anos, vítima de uma infecção pós-parto. O rei ficou arrasado com a morte da amada esposa, e se referiria a ela como “santa” até sua própria morte em 1621.

(1) Anteriormente, Margarida sabia apenas seu nativo alemão e latim.

(2) Felipe II só tivera casos extraconjugais registrados durante sua juventude, num período que abarca as núpcias com Maria de Portugal e Maria de Inglaterra. Durante as uniões com Isabel de Valois e Ana de Áustria não parece ter existido quaisquer amantes.

(3) Favorito real responsável pelo governo.

(4) Ana pela sua avó paterna e Maurícia por ter nascido no dia de São Maurício.

Para saber mais:

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

A imperatriz portuguesa: Leonor de Avis

Terceira filha (sexta criança) do casamento do rei D. Duarte com sua esposa aragonesa, a infanta D. Leonor nasceu em 18 de setembro de 1434. Embora tivesse duas irmãs mais velhas – D. Felipa e D. Maria – ambas morreriam ainda crianças; Leonor ficaria, portanto, como a filha mais velha sobrevivente do rei, o que poderia futuramente elevar seu valor no mercado matrimonial da nobreza medieval. Contudo, a morte prematura de D. Duarte em 1438 e a ascensão ao trono do irmão mais velho da infanta complicou consideravelmente a situação. D. Afonso V, o novo monarca, era uma criança de apenas seis anos; uma regência seria necessária. Inicialmente, sua mãe e homônima ocuparia o cargo, mas sofreria grandes pressões dos nobres partidários do duque de Coimbra, irmão do falecido rei. Após alguns meses de tensão política, a rainha viúva seria obrigada a capitular e se exilar em Castela, efetivamente abandonando todos os filhos e filhas restantes ao cargo do cunhado – incluindo D. Leonor, doente na época.

Pedro, agora o novo regente, entregaria a infanta mais velha aos cuidados de D. Guiomar de Castro, futura condessa de Atouguia. Seria lá que D. Leonor cresceria e amadureceria, só deixando a companhia de D. Guiomar em 1445, quando, após a morte da mãe, ela e as duas irmãs ainda vivas – D. Catarina e D. Joana – ganhariam residência própria na corte. Pouco depois, seu matrimônio começaria a ser arranjado por intermédio de sua tia paterna D. Isabel, duquesa da Borgonha, e seu tio materno, o rei de Aragão, que inclusive providenciaria a pintura de retratos da infanta para serem enviados aos putativos noivos, o rei da França e o imperador da Alemanha. Teria sido durante essa época que D. Leonor, já com 16 anos, teria tido um romance com o irmão do futuro conde de Portalegre, o fidalgo D. João de Menezes. Após participar da comitiva que levou a infanta para o futuro marido, Frederico III, ele teria em seu desgosto juntado uma ordem religiosa, tornando-se um frei.

D. Leonor
D. Leonor

A escolha do imperador para ser o marido da primogênita sobrevivente de D. Duarte foi um movimento político do regente, o duque de Coimbra, que, juntamente com sua irmã, a duquesa de Borgonha, participava das negociações nupciais. Naturalmente hostil à casa reinante de Aragão devido à privação dos direitos de sua própria esposa, a condessa de Urgell, D. Pedro desejava uma aliança que enfraquecesse os aragoneses, como um casamento com o Sacro Império ou com a França. Para D. Isabel, promover um casamento francês para infanta era crucial para restabelecer as relações borgonhesas com este reino após as crescentes vitórias militares do último na Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra, antigo aliado de Borgonha.

Entretanto, esta inclinação pró-francesa seria alterada por dois importantes fatores: em primeiro lugar, a crescente preponderância de Frederico III no cenário europeu, e em segundo lugar a chegada à maioridade de D. Afonso V em 1448. Nos turbulentos eventos que acompanharam este último evento, o duque de Coimbra perderia influência para D. Afonso, duque de Bragança e seu meio-irmão ilegítimo. Este tinha inclinações pró-aragonesas. Acontecia que o rei de Aragão da época procurava agradar Frederico III para assegurar suas possessões italianas; uma vez que o imperador cobiçava as riquezas representadas por um possível casamento com uma infanta da Casa de Avis, o rei aragonês passou a apoiar tais núpcias, que de qualquer forma prejudicavam os rivais franceses. Desta forma, D. Leonor perdeu a chance de ser rainha de França, mas ganhou a oportunidade de se tornar a primeira imperatriz portuguesa da história.

Frederico III
Frederico III

Após longas negociações, o casamento entre a infanta portuguesa D. Leonor e o Sacro Imperador Romano Frederico III foi por fim acertado, tendo sido estipulado um grande dote. Em fins de outubro de 1451, D. Leonor viajaria ao encontro do marido, chegando finalmente na cidade de Siena em meados de novembro. Lá, ela encontraria Frederico III pela primeira vez. Embora as impressões pessoais de cada um sejam obscuras, pode-se fazer um palpite bastante acertado baseando-se em opiniões contemporâneas; a noiva era considerada bela, distinta e culta, tendo inclusive conversado com o marido sem o auxílio de um intérprete, como seria comum. Por outro lado, ele era hesitante e um tanto frio emocionalmente. Apesar disso, contudo, ele ficou impressionado com D. Leonor. Após este primeiro encontro, Frederico a levaria até Roma, onde ambos se casariam oficialmente e seriam coroados conjuntamente pelo papa Nicolau V. Na verdade, seria a última vez que este tipo de cerimônia ocorreria na capital da cristandade.

Após o evento, ambos iriam para o sul, chegando em abril de 1452 para as celebrações nupciais oferecidas pelo tio de Leonor, o rei de Aragão, em seu reino de Nápoles. Lá, finalmente, ocorreria a consumação do consórcio entre a infanta, que ainda não completara 18 anos, e o imperador, que era quase vinte anos mais velho. Apesar dos receios iniciais dele quanto à capacidade de D. Leonor em dar à luz, a relação provou-se fértil; não muito tempo depois da união, nasceria o primeiro filho, Cristovão, seguido depois por outro menino, Maximiliano. Em breve, entretanto, as diferenças apareceriam. Os interesses de D. Leonor em dança e caça, por exemplo, não eram compartilhados por seu marido, que em breve mandaria embora as companhias portuguesas de sua esposa devido aos gastos que elas acarretavam. A relação esfriaria ainda mais com a culpabilização de Leonor pela morte de alguns filhos do casal – nomeadamente Cristovão, Helena e João – ainda na infância, alegadamente porque ela permitira que as crianças comessem a estranha comida de sua terra natal.

Pouco tempo após a morte de João, Leonor também faleceria em 3 de setembro de 1467. Faltavam apenas duas semanas para que ela completasse 33 anos de idade. Seu marido ainda viveria mais 36 anos, quando morreria em idade avançada após uma hemorragia causada pela amputação de um pé gangrenado. Apesar de contar com apenas um herdeiro homem, Frederico nunca se casara novamente após sua viuvez décadas antes. Ele seria sucedido no trono imperial pelo filho Maximiliano, que viria por sua vez a ser o avô paterno do célebre Carlos V.

Para saber mais:

HANREICH, A. “D. Leonor de Portugal, esposa do Imperador Frederico III (1436-1467)”. IN: Relações entre a Áustria e Portugal. Testemunhos Históricos e Culturais. Coimbra: Livraria Almedina, 1985.

SARAIVA, António. O crepúsculo da Idade Média em Portugal. Lisboa: Gradiva, 1990.

Leonor de Aragão – parte I

Nascida em 1º de março de 1402, Leonor de Aragão foi a quinta criança (segunda menina) de Fernando I de Aragão e sua esposa, a condessa castelhana Leonor de Albuquerque. Seu pai fora o segundo filho de uma infanta de Aragão; quando seus tios morreram sem descendência, ele reivindicou sua herança em 1412. Fernando continuaria, contudo, a exercer a regência de Castela, que iniciara juntamente com sua cunhada, a rainha viúva Catarina de Lancaster, após a morte de seu irmão Henrique III em 1406, até sua própria morte prematura em 1416. Ele seria sucedido em Aragão pelo filho primogênito Afonso, que em 1420 casaria a irmã Maria com o jovem rei castelhano João II.

A irmã mais nova de Afonso, Leonor, também seria uma peça no jogo dinástico dos Trastámara para espalhar a descendência de Fernando I pelos tronos ibéricos, e, assim, ajudar a expandir a influência política da Casa. Esta ambição do ramo aragonês dos Trastámara conversava perfeitamente com a resistência da recém-instaurada dinastia portuguesa dos Avis em casar seus membros em Castela – ao menos enquanto a princesa Joana vivesse. Mas não deixavam de existir alternativas a um possível casamento aragonês: é bem possível, por exemplo, que influenciado por sua consorte, D. João I visse com simpatia uma possível união inglesa para seu herdeiro D. Duarte.

Leonor, condessa de Albuquerque
Leonor, condessa de Albuquerque

Por outro lado, as núpcias do herdeiro do trono português precisavam ser negociadas com cuidado. Nesse sentido, a existência de três outros filhos homens do rei – D. Pedro, D. Henrique e D. Fernando – tornavam essas longas negociações não apenas necessárias, mas plenamente possíveis. As primeiras negociações ocorreriam pouco depois da maioridade de D. Duarte, ocorrida em 1409, com a aragonesa Casa de Urgell; os choques de interesses desta com os do novo rei, Fernando I, acabaram destroçando a família, que acabou arruinada. A putativa noiva acabaria num convento. Depois disso, as próximas negociações matrimoniais registradas de D. Duarte ocorreram apenas em 1422, quando D. João I entrou em contato com condessa de Albuquerque para negociar um possível casamento entre seu herdeiro e a filha ainda solteira dela, Leonor.

A esta altura, contudo, os dois ramos da Casa de Trastámara haviam se tornado ferrenhos adversários, e João II de Castela proibiu a condessa de Albuquerque, sua vassala, de liberar a filha para as núpcias portuguesas. Os próximos anos foram uma verdadeira queda de braço entre Aragão e Castela pela posse da infanta Leonor, até que em 1427, finalmente, ela foi liberada para voltar ao seu reino de origem. Por todo o ano, as negociações continuariam, agora tornadas mais urgentes pela posse aragonesa da infanta. Em fevereiro de 1428, grandes festas aconteceriam na cidade de Valhadolid para a despedida de Leonor, depois das quais ela se dirigiria para a fronteira com Portugal.

Leonor de Aragão
Leonor de Aragão

Inicialmente, a cerimônia nupcial ocorreria em Évora, mas devido ao surto de peste que lá havia, foi transferida a mando de D. João I para Coimbra – o que muito enfureceu D. Duarte, que já gastara muito nos preparativos naquela cidade. Não estando disposto a enfrentar o humor do herdeiro, o rei acabou mandando o terceiro filho, D. Henrique, em seu lugar para atuar como mestre-de-cerimônias. A união oficial ocorreu por fim no dia 22 de setembro; antes mesmo disso, contudo, D. Duarte, que estava hospedado no mesmo paço de Leonor, a visitava duas ou três vezes por dia em seus aposentos. Embora o infante D. Henrique tenha assegurado ao pai que ambos não haviam chegado às intimidades, deve-se lembrar que o noivo era um homem enérgico de 37 anos; apesar de ter tendência à depressão, que o abateu pela primeira vez após a morte de sua mãe Philippa em 1415, dificilmente ainda era virgem, como já foi defendido anteriormente por alguns autores. De qualquer forma, os primeiros encontros entre ambos pareceram ser agradáveis; pouco mais de um ano após o casamento, nasceria o primeiro filho, batizado em homenagem ao avô.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte III

Apesar de ter herdado de sua mãe a aparência loira e clara tão valorizada nas mulheres no período medieval, a rainha Philippa não era considerada bela ou com particulares encantos. Para piorar a situação, seu marido já tinha uma amante – Inês Pires – há alguns anos, com quem tivera dois filhos sobreviventes, D. Afonso e D. Beatriz.  Mesmo assim, superando os temores da corte, Philippa engravidou rapidamente. Em junho, diante de novo fracasso de sua campanha contra os castelhanos, o duque de Lancaster acertou com João I de Castela um matrimônio entre a jovem Catarina e o mais jovem ainda Henrique, como forma de unir as pretensões ao trono e encerrar definitivamente a guerra entre Castela e Inglaterra. Neste meio tempo, o rei de Portugal caiu gravemente doente durante o percurso até Coimbra. A rainha e o duque foram rapidamente visitá-lo, temendo o pior, uma vez que D. João I até já fizera um testamento. Em meio à tensão, Philippa abortou. Pouco depois, o rei melhorou de forma inesperada, podendo seguir com o resto da comitiva para a cidade de Porto.

Catarina de Lancaster
Catarina de Lancaster

Em provável consequência deste momento difícil, os recém-casados se aproximaram. Pouco depois, D. João I deixaria Inês Pires, que foi rapidamente encaminhada por Philippa para um convento, onde se tornaria futuramente a abadessa, enquanto seus filhos D. Afonso e D. Beatriz passaram a ser criados no paço real. De fato, D. João I não teria mais casos extraconjungais registrados. Não muito depois, Philippa daria à luz a princesa D. Blanche (n. 13/07/1388). Embora o bebê tenha morrido antes mesmo de completar um ano, rapidamente seria seguida por um irmão e herdeiro ao trono, o príncipe D. Afonso (n. 30/07/1389). Três infantes o seguiriam em rápida sucessão: D. Duarte (n. 31/10/1391), D. Pedro (n. 09/12/1392) e D. Henrique (n. 04/03/1494). A linha real portuguesa estava assegurada, mesmo que, assim como a irmã mais velha, o primogênito também falecesse ainda criança, deixando a herança para o irmão D. Duarte. Em 21 de fevereiro de 1397, o nascimento de herdeiros homens seria interrompido temporariamente pelo nascimento da infanta D. Isabel, única filha de Philippa que sobreviveria à infância.

D. Afonso
D. Afonso

Paralelamente à produção daquela que seria conhecida futuramente como a “Ínclita Geração”, a rainha providenciava com o marido os matrimônios da descendência ilegítima daquele.  Em 1401, D. Afonso casou-se com a altamente disputada filha e herdeira do Condestável do rei, D. Beatriz Pereira. Inicialmente, na verdade, o rei tentou um matrimônio entre ela e o herdeiro do trono D. Duarte, mas tal ideia foi recusada por Nuno Álvares Pereira, que não desejava que sua Casa terminasse anexada ao patrimônio real. Assim, as núpcias entre sua herdeira e o filho legitimado do rei acabaram negociadas como alternativa, ocorrendo finalmente em Lisboa na presença do rei e dos grandes nobres do reino. Pouco depois, o próprio D. Afonso acompanharia sua irmã à Inglaterra para o casamento desta com um algo relutante conde de Arundel, aparentado próximo da família real inglesa. Uma década depois, ficando viúva do primeiro marido, ela se casaria novamente com o conde de Huntington, sobrinho da rainha de Portugal por meio de sua irmã Isabel. Mais uma vez, o tratado de Windsor era confirmado por influência direta da esposa inglesa de D. João I.

Leonor Teles de Menezes – parte IV

Por volta de 1377 ou inícios de 1378, D. Fernando sofreu uma misteriosa tentativa de envenenamento. Embora sobrevivesse, sua saúde ficou bastante fragilizada, o que o levou a escrever um testamento. Nele, reiterava seu desejo que sua única filha legítima, D. Beatriz, o sucedesse no trono após sua morte; se ele falecesse antes que a princesa atingisse a maioridade, a rainha D. Leonor deveria ser a tutora e regente até a consumação do casamento de D. Beatriz com o duque de Benavente ou quando ela atingisse 12 anos. Além disso, o rei excluiu da linha sucessória todos os meio-irmãos, filhos de Inês de Castro, já exilados a esta altura; isso mostrava claramente o quão fundo a disputa entre a rainha e os parentes do marido chegara. O único que ainda mantinha razoáveis relações com Leonor era D. João, o Mestre de Avis, que era filho de uma amante de D. Pedro I de Portugal.

O Mestre de Avis
O Mestre de Avis

Neste contexto, pode-se entender o crescente interesse do rei e da rainha em assegurar a posição de sua herdeira ao propor um novo e mais seguro matrimônio para ela: ao invés do duque de Benavente, o filho recém-nascido do rei de Castela. Esta manobra, que aparentemente prejudicava Portugal, veio dos próprios temores de D. Fernando em relação à morte. Ainda com sequelas do atentado contra a sua vida, ele procurava assegurar-se dos interesses sucessórios da única filha, e, neste sentido, um casamento com o herdeiro do trono castelhano era mais vantajoso do que com seu irmão ilegítimo. Evidentemente, a ideia agradava aos castelhanos, e foi aceita. Um casamento do herdeiro de Castela com a herdeira de Portugal, além de legitimar a nascente dinastia, ampliaria consideravelmente as fronteiras daquele reino, afinal. Um novo tratado foi logo assinado, e em inícios de 1380, D. Beatriz ficou formalmente noiva do príncipe castelhano.

Paralelamente, contudo, as amistosas relações não eram tão evidentes quanto pareciam, uma vez que em breve D. Fernando também negociava as núpcias de sua herdeira com o sobrinho do duque de Lancaster para firmar uma aliança contra Castela, cuja coroa João de Gaunt ainda ambicionava. Esta surpreendente duplicidade de Portugal pode ser atribuída tanto ao rancor do rei português contra o usurpador castelhano devido aos territórios que perdera em conflitos anteriores quanto à forte influência do favorito da rainha, o agente inglês João Fernandes de Andeiro, que também seria um suposto amante de D. Leonor. Em junho de 1381, as tropas inglesas desembarcaram em Portugal, juntamente com o irmão do duque de Lancaster, o conde de Cambridge, sua esposa, Isabel de Castela – também filha do assassinado Pedro I – e o prometido de D. Beatriz, o herdeiro Eduardo. Eles seriam recepcionados e hospedados por D. Fernando e D. Leonor, com quem também trocariam ricos presentes. Pouco depois deste auspicioso começo, as tropas combinadas de Inglaterra e França foram novamente à guerra contra Castela.

Beatriz de Castela – parte II

D. Afonso III e Beatriz de Castela se casaram em 20 de maio de 1253, com o pai dela virtualmente garantindo Algarves como parte do dote, muito embora também se comprometesse a devolver o território quando o primeiro herdeiro homem do casal tivesse sete anos de idade. De qualquer forma, a corte portuguesa considerou os termos do tratado humilhantes para o rei (FERNÁNDEZ, 1999, pps. 908-909). Logo em 1255, a condessa de Bolonha acusou o rei português de bigamia perante o papa Alexandre IV, que condenou D. Afonso III como adúltero e exigiu a devolução do dote de Matilda, convocando-o a comparecer em Roma para julgamento. A primeira esposa rejeitada, porém, morreria mais tarde naquele ano, deixando o processo em suspenso, embora Portugal ainda continuasse em interdito até 1262. Mas, depois da morte de Matilda, D. Afonso III não usaria mais o título de conde de Bolonha.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal

Embora Ventura (2006, p. 222) teorize que o fato de D. Afonso III “consumar o casamento mal ela (Beatriz) teve idade para casar e, de passados nove meses, ter a primeira filha, não revela grande estima pela sexualidade feminina”, o fato é que a menina passou seus primeiros anos na corte portuguesa apenas terminando sua educação e sendo orientada para o seu futuro papel como rainha e mãe dos herdeiros do trono português. A união só seria consumada carnalmente em 1258, quando Beatriz completou 14 anos; como visto anteriormente, esta era a idade tradicional de casamento na Idade Média, quando, segundo Isidoro de Sevilha, iniciava-se a fase conhecida como adulescentia, marcada não só pela chegada à idade da razão, mas também pelo início da capacidade de procriar (VILAR, 2005, pps. 37-38).

Menos de um ano depois, como já adiantado, nasceu a primeira filha do casal, a infanta D. Branca, que seria uma rica herdeira, e, mais tarde, uma relutante freira. Depois, mais seis filhos e filhas se seguiriam: D. Fernando (n. 1260, f. 1262); o herdeiro D. Dinis (n. 1261, f. 1325); D. Afonso (n. 1263, f. 1312), que seria senhor de Pontalegre por casamento com D. Violante, neta do falecido rei Fernando III de Castela; D. Sancha (n. 1264, f. 1302), que levou uma vida pouco documentada; D. Maria (n. 1264, f. 1304), também freira, e D. Vicente (n. 1268, f. em c. 1271).

Beatriz de Castela – parte I

Nascida entre 1242 e 1244, Beatriz foi a única filha sobrevivente do futuro rei Afonso X de Castela e sua amante Mayor Guillén de Gúzman. Sua situação como filha ilegítima não impediu seu pai, então príncipe, de beneficiá-la. Na verdade, seu ano aproximado de nascimento é conhecido apenas devido à doação de terras aos filhos que Afonso tivera com sua amante de longa data. Desde cedo, porém, a importância política da menina foi ascendente, visto que era a mais velha de todas as filhas que Afonso gerou – por cerca de 10 anos, inclusive, seria a única, até o nascimento de sua irmã legítima Berengária, nascida do matrimônio de seu pai com a infanta Violante de Aragão. E, numa época em que mulheres da nobreza eram usadas desde a infância para selar pactos políticos, o destino da primogênita real não poderia ser diferente. Apesar disso, contudo, dificilmente o noivo escolhido teria uma posição social tão elevada se não fossem questões políticas específicas da época.

Beatriz de Castela
Beatriz de Castela

O rei D. Afonso III, que ascendera ao trono após a deposição de seu irmão D. Sancho II, tinha um duplo problema. Primeiramente, embora fosse casado há quase 10 anos com Matilda, condessa de Bolonha, não tinha herdeiros. Isto era um ponto delicado para a legitimidade de seu reinado, uma vez que a base da conspiração armada pelo na época infante D. Afonso, juntamente com o papa Inocêncio IV, para derrubar o irmão estivera focada no fato que D. Sancho II supostamente tinha um casamento amaldiçoado, e, logo, estéril, com Mécia Lopes de Haro, o que prejudicava Portugal como um todo. Partindo deste ponto de vista, se torna evidente o motivo pelo qual Matilda nunca foi autorizada a viajar para o reino do marido mesmo antes de D. Afonso III declarar unilateralmente o divórcio. Em segundo lugar, o irmão mais velho deposto se exilara em Castela, de onde procurava organizar a retomada do trono. Era essencial que D. Afonso III forjasse uma aliança com Afonso X de Castela para anular a ameaça em seu início, uma vez que o rei castelhano estava inclinado a ajudar o primo.

De fato, em 1252 começaria a invasão castelhana em Portugal, que perdeu o recém-reconquistado território de Algarves, anexado pela primeira vez pelo avô de D. Afonso III e D. Sancho II. Como parte das negociações de paz, o rei castelhano ofereceu ao rei português a mão de sua filha Beatriz em casamento. Na época, ela muito provavelmente sequer atingira a puberdade, embora isto ainda fosse demorar alguns séculos para ser um pré-requisito para negociações matrimoniais. D. Afonso III, por sua vez, já era um homem de mais de 40 anos, que tinha várias amantes e filhos bastardos.

A vida e candidatura de Catarina de Médicis ao trono português – parte I

Um dos detalhes mais desconhecidos e estapafúrdios da história portuguesa é a candidatura da rainha francesa Catarina de Médicis ao trono português durante a crise sucessória de 1580. Esposa do falecido Henrique II e mãe dos reis Francisco II, Carlos IX e Henrique III, além da célebre Margarida, rainha de Navarra, a nobre de origem florentina defendeu seus direitos por certo tempo no caos político-jurídico que se seguiu à morte do rei Sebastião em Alcácer-Quibir. Mas quem era ela realmente?

A rainha Catarina (c. 1555)
A rainha Catarina (c. 1555)

Nascida em 13 de abril de 1519, ela era filha de Lourenço de Médicis, duque de Urbino e líder de facto de Florença, e Madalena de La Tour d’ Auvergne, segunda filha de João, conde de Auvergne e Bolonha. Era, portanto, descendente de uma das famílias mais antigas de França, embora suas fortunas já estivessem decaindo há algumas gerações. O casamento entre Lourenço e Madalena foi o resultado final de um pacto entre o rei francês Francisco I e o papa Leão X, posteriormente conhecida como Concordata de Bolonha (ALMEIDA, 2010, p. 27). Enquanto Francisco I se comprometeu a realçar a autoridade da Igreja no reino francês, voltando a entregar à autoridade romana as anatas das igrejas de França (tributo referente a um ano de rendimento), o papa concordava em apoiar a pretensão do rei ao trono de Nápoles.

Para selar o pacto, foi arranjado um casamento, como em muitas manobras políticas entre a nobreza, que foi prontamente aceito pelas partes envolvidas; o extremamente rico, mas ainda plebeu Lourenço, sobrinho de Leão X, foi honrado pela ligação com a realeza francesa (SOMERVILL, 2006, pps. 18-19) e a jovem Madalena e sua família, parentes distantes de Francisco I, foram beneficiados por uma ligação íntima com o próprio papa (KENT, 2004, p. 68).Os dois foram casados em 5 de maio de 1518 numa cerimônia luxuosa, como próprio do estatuto dos nubentes. Pouco mais de um ano depois, Madalena daria à luz a primeira filha do casal; de acordo com uma fonte contemporânea citada por Frieda, autora de uma biografia sobre Catarina de Médicis, seus pais ficaram “satisfeitos como se tivesse nascido um menino” (2006, p. 14). Em pouco tempo, contudo, a tragédia atacaria: em 28 de abril, a mãe morreria ou por complicações no parto ou pela praga que atacava a cidade naquele momento. Poucos dias depois, em 4 de maio, o pai também faleceria, vítima da sífilis.

Orfã, a menina herdou uma fortuna vastíssima, aumentada ainda mais poucos anos depois, quando sua tia por parte de mãe, que fora a herdeira do conde de Auvergne e Bolonha, morreu sem herdeiros direitos, o que tornou Catarina a nova condessa. Isso chamou a atenção do suserano destes condados, o rei Francisco I, que passou a insistir que Catarina fosse criada na corte francesa, provavelmente já com a intenção de casá-la com um de seus filhos e, assim, absorver a imensa fortuna da cobiçada herdeira. O tio-avô de Catarina, porém, planejava casá-la com seu sobrinho Hipólito, embora tenha morrido antes de atingir o intento. Em 1523, outro parente tornou-se papa com o nome de Clemente VII e, após superar uma grande revolta ao domínio dos Médicis em Florença, ocorrida entre 1527 e 1530 (KNECHT, 1998, p. 12), começou a negociar o matrimônio de Catarina. Após descartar uma verdadeira fila de pretendentes, como o rei escocês James V, Clemente concordou com o casamento de Catarina com o secundogênito de Francisco I, o príncipe Henrique. Os dois se uniram em 28 de outubro de 1533 numa extravagante festa na cidade francesa de Marselha. Ainda não tinham completado 15 anos de idade. Quando Catarina e Henrique se retiraram para o quarto para consumar o casamento, é dito que o próprio rei testemunhou a primeira noite do casal (KNECHT, 1998, p. 16), possivelmente para diminuir as chances de que o matrimônio pudesse ser anulado.

Matilda, condessa de Bolonha – parte II

Ambicioso, o novo conde rapidamente ganhou prestígio na corte francesa, tanto por seus feitos militares quanto pela proteção do casal real. Em 1242, tentou voltar à Península Ibérica pela primeira vez em anos para combater os mouros, numa proposta de Cruzada louvada pelo papa Inocêncio IV, mas a crise política em seu reino de origem interrompeu tais planos. Em 1245, com o matrimônio do rei com a infame Mécia Lopes de Haro, a crise no reino português chegou a seu auge. Clero, nobreza e burguesia se uniram contra D. Sancho II e requisitaram a intervenção do papa, que nomeou o já conhecido conde de Bolonha como rei por direito ao decretar a deposição de D. Sancho II; ao mesmo tempo, Inocêncio IV contou com informações privilegiadas de D. Afonso para poder anular o casamento do rei com Mécia e, assim, acabar por uma potencialmente perigosa aliança entre Portugal e Castela devido ao parentesco da rainha com o soberano daquele reino. O sequestro de Mécia por aliados do conde depôs efetivamente D. Sancho II, que abdicou e fugiu. Seu irmão mais novo voltou ao reino e intitulou-se Protetor do Reino até a morte do primogênito dois anos depois, quando o conde pode ser aclamado como D. Afonso III de Portugal.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal

Enquanto isso, a desprezada condessa continuava em Bolonha, nunca tendo a permissão para viajar até o reino onde seu marido era agora o monarca, muito provavelmente devido ao fato que a união se provara estéril (SERRÃO, 1978, p. 139). Por essa razão, muitos historiadores não consideram Matilda como rainha de Portugal (VENTURA, 2006, p. 201). Em 1253, com a primeira esposa ainda viva, D. Afonso III se casou novamente com Beatriz, filha ilegítima do rei Afonso X de Castela. A furiosa esposa queixou-se ao novo papa, Alexandre IV, que colocou Portugal novamente sobre interdito até que o rei comparecesse à uma audiência em Roma para julgar o pedido de divórcio.

Em 1258, porém, Matilda morreria sem que a ação tivesse sido julgada. Como seus dois filhos tinham falecido antes dela, o condado foi herdado por sua prima Adelaide de Brabant, que foi sucedida por sua vez por seu filho. Roberto. A linhagem continuaria até o século XVI, quando terminaria em Catarina de Médicis. De forma um tanto estapafúrdia, a futura rainha de França tentaria herdar o trono de Portugal na crise sucessória de 1580, alegando exatamente ser a descendente do suposto filho de Matilda e D. Afonso III.

Matilda, condessa de Bolonha – parte I

Nascida aproximadamente em 1202, Matilda, condessa de Bolonha, foi a única filha fruto do controverso casamento de Ida, condessa de Bolonha, e Renaud, conde de Dammartin. Filha primogênita de Maria, condessa de Bolonha, e Mateus de Alsácia, a própria Ida nascera depois que sua mãe, uma freira, foi sequestrada por seu pai e forçada ao matrimônio. Compreensivelmente, a união acabara anulada, mas Ida continuou como a herdeira de seu pai, que continuou a comandar Bolonha depois que Maria retornou ao convento após dar à luz a sua segunda filha.

Quando Ida tinha cerca de 13 anos, seu pai morreu e ela o sucedeu no condado. Sobre a proteção de seu tio Felipe, conde de Flandres, ela não foi obrigada a se casar ainda em juventude extrema, como era comum no caso de tantas grandes herdeiras da época. Apenas em 1181, já com 20 anos, ela contrairia núpcias com Geraldo de Guelders, mas ficaria viúva em poucos meses. No ano seguinte, ela voltou a se casar com Berthold, duque de Zahringen, mas ele também morreria em pouco tempo. Depois de alguns anos de viuvez, ela, a exemplo de sua mãe, foi sequestrada e forçosamente casada com o conde de Dammartin, mesmo tendo sido cortejada na época por Arnaldo de Guînes. Com esse casamento, Bolonha saiu da esfera de influência de Flandres e tornava-se vassala do reino de França.

Matilda, condessa de Bolonha
Matilda, condessa de Bolonha

Ida morreria em 1216, sendo sucedida por Matilda no comando do condado. Novamente, seu matrimônio foi adiado pelo pai, o conde Renaud, ansioso por manter certa influência em Bolonha. Somente alguns anos depois a jovem condessa se casaria com um filho legitimado do rei francês, Felipe, conde de Clermont-en-Beauvois. Juntos, eles produziriam uma filha e um filho sobreviventes antes da morte de Felipe em 1234, talvez assassinado por sua esposa, que a esta altura teria se apaixonado por Florent de Hainaut (VENTURA, 2006, p. 56).  De qualquer forma, estes novos planos matrimoniais não deram em nada.

Com cerca de 33 anos, Matilda era agora uma viúva madura e consideravelmente bela para a idade, com uma fortuna considerável para escolher o marido que desejasse. Em maio de 1238, após negociações com a rainha de França, Branca de Castela, Matilda casou-se com o sobrinho desta, D. Afonso de Portugal, que era o segundo filho do rei D. Afonso II e Urraca de Castela. Como secundogênito, D. Afonso saíra em desvantagem na partilha da herança paterna em relação a seu irmão mais velho, o novo rei D. Sancho II, e concordou com a rica união com a condessa 10 anos mais velha, que em pouco tempo, contudo, se provaria sem amor.