Maria Sofia de Neuburgo – parte II

Quem o monarca viu quando foi recepcionado por sua nova consorte na câmara do navio? Vestida em rico tecido branco incrustado com diamantes, Maria Sofia era loira de pele alvíssima, correspondendo assim aos padrões de beleza da época. Não há motivos, então, para crer que o rei tenha desgostado de sua escolha marital enquanto ocorria a cerimônia formal de casamento na capela real, pouco tempo após o desembarque. e nem durante as riquíssimas festas em comemoração e a consumação rápida do casamento que se seguiu. Tímida e devota, Maria Sofia trazia consigo a promessa de produção rápida de herdeiros para a necessitada dinastia de Bragança – e de fato, os entregaria com sua disciplina característica. Em 30 de agosto de 1688, exatamente um ano após sua entrada em Lisboa, a rainha daria à luz o príncipe D. João. O novo herdeiro da Coroa portuguesa seria celebrado com festas que durariam três dias; entretanto, o príncipe era notoriamente debilitado desde seu nascimento. Sua morte, ocorrida apenas dezoito dias após o parto de Maria Sofia, foi creditada pelo conde de Povolide como tendo ocorrido devido à forma como as damas alemãs da rainha haviam cuidado dele.

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Maria Sofia de Neuburgo

Provando sua fertilidade, em breve a rainha engravidaria novamente. Tendo-se em vista a morte precoce do última criança, contudo, tomaram-se precauções extras. Quando Maria Sofia entrou em trabalho de parto, nas primeiras horas da manhã do dia 22 de outubro de 1689, o duque de Cadaval enviou pedidos de prece a todos os conventos de Portugal pelo sucesso do nascimento. Além disso, quatro médicos atenderiam Maria Sofia durante o processo, e quando nasceu um menino poucas horas depois, foi lhe dado mel para prevenir certos males. As costumeiras salvas de artilharia foram vetadas no palácio real para não perturbar o recém-nascido, mas este novo príncipe D. João parecia ser mais robusto do que o falecido irmão mais velho. Quando ele foi batizado no novembro seguinte, sua meia-irmã D. Isabel já estava retida no paço do conde de Aveiras após adoecer com varíola. Sempre com saúde frágil, ela jamais se restabeleceria desta doença, falecendo logo no ano seguinte. A inquietação do casal régio com essa nova fragilidade na linha de sucessão portuguesa, porém, seria sanada em maio de 1691, quando nasceria o infante D. Francisco, nomeado com o tradicional título de duque de Beja. À essa altura, porém, já se iniciavam as tensões maritais entre D. Pedro II e Maria Sofia. O rei recaíra em suas costumeiras infidelidades.

Em contraste com a tranquilidade, e mesmo amor mútuo, que caracterizara o casamento com Maria Francisca de Saboia, a união de D. Pedro II com Maria Sofia de Neuburgo foi consideravelmente complicada, sendo bem mais fria e distante. Parte das dificuldades pode ser atribuída à personalidade da segunda rainha, considerada difícil para os padrões do século XVII. Em contraste com Maria Francisca, que costumava fechar os olhos às infidelidades do marido, Maria Sofia tinha tantos ciúmes do rei que o questionava frequentemente a respeito, causando-lhe aberto mau humor com a consorte. Em adição a isso, D. Pedro II censurava severamente certos hábitos de Maria Sofia, que gostava de jogar e de beber vinho, além de negar muitos de seus pedidos.

Em carta escrita a seu pai, Maria Sofia queixava-se abertamente da negligência de seu marido em Portugal e de seu fracasso em estreitar as relações diplomáticas entre seu reino e Neuburgo. Ao contrário do que seria de se esperar, D. Pedro II nunca mandou uma embaixada oficial, mesmo tendo diversas ocasiões para isso, o que indignava uma rainha bem consciente da nobre genealogia da Casa Wittelsbach. Em atitude oposta à que costumava ser dada às rainhas da Europa Central, D. Pedro II também não dava a Maria Sofia qualquer participação em seus negócios políticos, parecendo enxergá-la simplesmente como um meio para gerar filhos para a dinastia de Bragança. O comportamento do monarca mortificava ainda mais a rainha uma vez que ela tudo faria para agradar D. Pedro II, que em retorno só lhe daria profundos desgostos, incluindo diversos casos extraconjugais com damas de seu próprio séquito e mulheres do povo comum.

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D. João V de Portugal

Apesar das dificuldades do relacionamento pessoal do casal, porém, os filhos seriam gerados regularmente. Em março de 1695, nasceu D. Antônio, que viria a ser o irmão predileto do futuro D. João V, seguido logo no ano seguinte pela primeira filha de Maria Sofia, D. Teresa. A rainha teria mais dois filhos, D. Manuel e D. Francisca, antes de falecer devido a uma febre em quatro de agosto de 1699, apenas dois dias antes de seu aniversário de 33 anos. sendo sepultada no majestoso monastério de São Vicente com todas as honras apropriadas. Seu marido, D. Pedro II, morreria ainda viúvo em dezembro de 1706, provavelmente de uma doença do fígado. Nenhum dos dois, portanto, viveria para ver o casamento do herdeiro D. João com sua prima materna Maria Ana de Áustria, e a ascensão política de Portugal durante este rico reinado.

 

Para saber mais:

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

SILVA, Maria Beatriz Nizza de. D. João V. Círculo de Leitores, 2012.

 

 

Maria Sofia de Neuburgo – parte I

Nascida em um palácio localizado no ducado de Juliers, a poucos quilômetros da cidade imperial de Dusseldorf, a princesa Maria Sofia Isabel de Neuburgo veio ao mundo em seis de agosto de 1666, sendo uma das diversas filhas de Felipe, conde de Neuburgo, com sua esposa Isabel de Hesse-Darmstadt. Uma vez que esse fértil casal geraria nada menos do que 17 crianças sobreviventes durante sua longa união, as meninas daquela geração do ramo secundário da antiga Casa Wittelsbach seriam cobiçadas pelo mercado matrimonial europeu por sua presumida capacidade de gerar herdeiros. Em 1676, de fato, a primogênita do casal, Leonor, seria casada com Leopoldo, Sacro Imperador Romano Germânico, que não conseguira ter um filho homem em seus matrimônios anteriores; posteriormente, três irmãs suas se casariam respectivamente com Carlos II, rei de Espanha, Eduardo, príncipe de Parma e Jaime, príncipe de Polônia, cujas Casas tinham linhas de sucessão instáveis.

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O pai de Maria Sofia, o conde Felipe de Neuburgo

Quando Maria Sofia tinha 17 anos, morreria em Portugal a rainha Maria Francisca de Saboia, esposa do rei D. Pedro II. Embora o monarca tivesse tido vários casos extraconjugais em seus vários anos de casamento, o falecimento de Maria Francisca o deixou em prolongada tristeza. Nem o fato que a sobrevivência da recente dinastia de Bragança encontrava-se ameaçada pela frágil figura da princesa D. Isabel, que ainda sequer se casara, pôde convencer D. Pedro II a acelerar o processo para ter novas núpcias. Apenas em reunião do Conselho Real ocorrida em janeiro de 1685 foi que o monarca seria convencido, em nome da felicidade do reino, a casar-se de novo.

De início, a pressão sobre o rei era forte para que a aliança francesa fosse renovada (1). A principal candidata nesse sentido era a mademoiselle de Blois, filha legitimada do rei francês com sua antiga favorita, a marquesa de Montespan. Também seria proposta uma união com a mais madura mademoiselle de Lillebonne, uma princesa de Lorena, mas nenhuma dessas ideias iria realmente adiante. Enquanto isso, a facção pró-francesa da corte encontrava resistência em alguns nobres que defendiam uma reaproximação política com a Casa Habsburgo, principalmente vendo-se já no horizonte a intervenção política francesa após a morte do doente Carlos II de Espanha (2). Embora essa facção pró-Habsburgo tivesse pouco apoio na corte portuguesa propriamente dita, seus membros utilizaram-se da manipulação da opinião pública exterior ao paço real para vender os perigos que existiam em fortificar a aliança com a monarquia francesa.

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Mademoiselle de Blois, uma das esposas pensadas para D. Pedro II de Portugal

Procurando fugir da influência de França, então, a diplomacia portuguesa passou a procurar em semi-sigilo noivas para D. Pedro II nas diversas cortes imperiais. Na impossibilidade de casar o rei com uma Habsburgo de idade apropriada, ficou decidido definitivamente em meados de 1687 acertar um contrato matrimonial com Maria Sofia, a presumida fértil filha do conde de Neuburgo, que também, aliás, procurava resistir às influências políticas francesas, que ambicionavam anexar o pequeno território. D. Pedro II garantiria rapidamente à futura esposa as rendas e privilégios apropriados, após o qual o embaixador português foi autorizado a pedir a mão da princesa em casamento em nome do rei. Em cinco de  julho de 1687, quando já contava com quase 21 anos de idade, Maria Sofia deixou para sempre o castelo onde fora criada, iniciando seu percurso até Portugal.

Acompanhada por um séquito que contava aproximadamente com 350 pessoas, Maria Sofia percorreu o Reno até chegar à Holanda, onde seria recepcionada pelo príncipe de Orange e diversos nobres ingleses, incluindo um filho ilegítimo do rei Carlos II de Inglaterra, que era casado com a irmã mais velha de D. Pedro II de Portugal. Conduzida por eles, embarcou com sua comitiva nos naus de guerra que a levariam pela maior parte do caminho até Lisboa. Durante a viagem de sua noiva, D. Pedro II perdoaria alguns criminosos presos nas cadeias da capital, como era de costume em tais datas comemorativas, enquanto seu favorito e grande arquiteto das negociações diplomáticas com Neuburgo, o conde de Vilar Maior, distribuiria joias às damas da corte e dinheiro aos criados, demonstrando a generosidade do monarca.

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Pedro II de Portugal

No final de julho, Maria Sofia passaria para um iate inglês, onde seria conduzida em seu percurso pelo rio Tejo e onde testemunharia a salva de tiros dos navios portugueses quando sua frota passou em frente à igreja de São Paulo. Apenas em 11 de setembro, entretanto, Maria Sofia chegaria com a frota no porto de Ribeira. Quase que de imediato, subiram a bordo para recepcioná-la o conde de Santa Cruz, o conde de Vale de Reis, o conde de Ericeira e seu filho. Este faria um discurso em cinco línguas diferentes à nova rainha, ao qual Maria Sofia responderia individualmente sem hesitar, o que é uma prova da cuidadosa educação que apreendera em sua juventude. Como já haviam sido nomeados de antemão os oficiais da rainha, também subiriam a bordo a camareira-mor, o mordomo-mor e o estribeiro-mor antes que chegasse o rico bergantim de ouro e cetim que transportava D. Pedro II.

 

(1) Por via materna, Francisca Maria de Saboia havia sido descendente ilegítima de Henrique IV de França, o que a fazia uma aparentada do presente rei Luís XIV.

(2) Os franceses defendiam que a ausência de pagamento do dote da infanta Maria Teresa quando de seu casamento com Luís XIV, em 1660, tornara inválida a renúncia formal de seus direitos ao trono espanhol. Como ela falecera em 1683, sua pretensão passaria ao primogênito, o delfim Luís de França.

 

Isabel de França – parte I

Nascida em 22 de novembro de 1602 no castelo de Fontainebleau, Isabel de França foi a segunda criança (primogênita mulher) do casamento entre o rei Henrique IV e sua segunda esposa, Maria de Médicis. Sendo a filha legítima mais velha do monarca, ela recebeu o título honorífico de Madame Royale, sendo oficialmente desde cedo a dama mais importante da corte francesa depois da rainha. Tendo uma fértil mãe, Isabel cresceria com vários irmãos e irmãs, alguns dos quais desempenhariam importante papel na história europeia do século XVII – como seu irmão mais velho Luís, melhor conhecido como o pai do Rei Sol (1), e sua irmã caçula Henrietta, célebre por seu papel na Guerra Civil Inglesa. A jovem princesa também teria vários irmãos ilegítimos, frutos dos diversos casos extraconjugais paternos.

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A família de Isabel (c. 1607)

Em maio de 1610, quando Isabel ainda não completara oito anos de idade, Henrique IV sucumbiu a mais uma tentativa de assassinato, morrendo apenas um dia após a coroação de Maria de Médicis; em poucas horas, ela seria elevada à condição de regente do jovem rei Luís XIII, e continuaria no cargo até a maioridade do filho em 1617. Neste ano, porém, tanto o jovem monarca quanto sua irmã Isabel já estariam envolvidos em acertos nupciais com a Casa de Habsburgo. De fato, desde 1602 as Coroas de França e Espanha procuravam acertar uma aliança política-militar, a ser efetuada através de contratos nupciais, mas a frequente disputa pela hegemonia da Europa frequentemente atrapalhava tais negociações. A morte do popular rei francês, contudo, possibilitou que a Espanha fizesse sua jogada para procurar neutralizar a rival, propondo um enlace duplo: a ideia era que Luís XIII fosse casado com a infanta Ana e Isabel se unisse ao príncipe Felipe.

Embora as capitulações matrimoniais tenham sido confirmadas em agosto de 1612 e os casamentos fossem previstos para ocorrer logo no ano seguinte, as núpcias apenas seriam efetuadas realmente em outubro de 1615, após o qual as princesas foram devidamente trocadas na fronteira de Bidasoa e seguiram para seus novos reinos. Por que tal atraso ocorreu? Embora, claro, a idade dos jovens em questão com certeza tenha tido impacto no adiamento (2), não se pode subestimar o poder da oposição interna em Espanha em relação às uniões. Ao final, contudo, a razão de Estado acabou por se impor e os casamentos de presente ocorreram. Semanas depois, Isabel fez sua entrada em Madri, guiada por uma comitiva que continha o futuro conde-duque de Olivares e era liderada pelo próprio duque de Lerma, valido de Felipe III.

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A troca das princesas

O novo casal era, na verdade, composto por duas crianças, que tinham a maturidade física cuidadosamente observada à procura do melhor e mais seguro momento para a consumação, ocorrida apenas em fins de 1620, quando Isabel já se transformara numa bela mulher de expressivos olhos negros. A atração do príncipe era evidente, e rapidamente sua esposa estaria grávida, com a primeira filha de ambos nascendo já em agosto de 1621; a infanta Maria Margarida, porém, morreria com poucos dias. Nesta altura, Felipe já ascendera como rei de Espanha e Portugal com o falecimento precoce de seu pai homônimo. No início de seu governo, o novo rei estava às beiras de completar 16 anos, e em sua inexperiência governamental se apoiou fortemente no favorito Olivares, que se tornou também seu valido. Olivares, que aprendera bem as lições das disputas entre seu antecessor e Margarida de Áustria, restringiu o papel da rainha Isabel ao que ele acreditava ser o dever natural das rainhas: parir. E isso ela faria com regularidade nas duas décadas seguintes, embora seu papel mais importante perante o rei – fornecer um herdeiro para Espanha – acabasse tragicamente não sendo cumprido.

(1) Luís XIV.

(2) Durante a maior parte de 1613, Luís XIII e Ana de Áustria tinham 11 anos, Isabel tinha 10 e Felipe 8.

Isabel de Coimbra – parte I

Nascida em 1432, Isabel de Coimbra era a primeira filha mulher (terceira criança) do infante D. Pedro, secundogênito sobrevivente de D. João I de Portugal e irmão mais novo do herdeiro D. Duarte, e Isabel, condessa de Urgell. Pouco antes, nascera seu primo, o infante D. Afonso, que seguia diretamente seu pai D. Duarte na sucessão real; quase que de imediato, tanto o duque de Coimbra quanto seu irmão ilegítimo, o conde de Barcelos (1), manifestaram interesse quanto ao futuro matrimônio do infante. Enquanto D. Pedro propunha a filha D. Isabel como noiva, D. Afonso oferecia uma de suas netas, também chamada Isabel. Devido à extrema juventude de todas as crianças envolvidas, entretanto, a questão foi deixada em suspenso.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

A morte súbita do já rei D. Duarte poucos anos depois, ocorrida pouco depois da catastrófica derrota em Tânger, empurrou o reino para uma crise política; a regente por ele escolhida em seu testamento era sua esposa aragonesa, a rainha D. Leonor, embora por tradição o direito pertencesse ao seu irmão seguinte, D. Pedro. O conflito parecia inevitável. Para procurar diminuir a tensão, a regente revelou ao cunhado a suposta vontade do falecido monarca em casar seu herdeiro D. Afonso com a prima D. Isabel de Coimbra, que ela se propunha a realizar. A decisão pragmática da rainha viúva, que provavelmente tencionava anular um partido de oposição com a união proposta, em muito desagradou o conde de Barcelos.

De qualquer forma, o compromisso entre as duas partes não foi atingido, com D. Leonor tendo que abdicar da função de regente em nome de D. Pedro, que possuía muito mais apoio do que ela. Mesmo assim, porém, o projeto de casamento entre os primos foi mantido, com o novo regente apressando-se em garantir uma dispensa para a união em Roma. D. Leonor e seus parentes aragoneses, por outro lado, pressionavam contra. Eventualmente, a dispensa seria garantida, o que possibilitaria que D. Pedro pudesse, com segurança, forçar a rainha viúva para o exílio, acompanhada por seus partidários.

D. Isabel
D. Isabel

Enquanto estas reviravoltas políticas eram realizadas, D. Isabel era cuidadosamente educada do ducado de seu pai, contando com mestres educadores italianos e a leitura de clássicos, como era esperado para uma futura rainha. Aliás, a jovem infanta foi possivelmente educada junto ao noivo, o rei, que passara a ser criado pelo tio após o exílio de sua mãe. Eventualmente, D. Afonso V se apaixonaria pela discreta prima que, apesar de não ser considerada bela pelos padrões da época, era doce, prudente, honesta, virtuosa e inteligente; de fato, as descrições de D. Isabel nas crônicas do reinado de seu futuro marido aproximam-se bastante do ideal feminino da época. Por seu lado, D. Isabel não deve ter considerado difícil amar seu justo, culto e gentil prometido, mesmo que este não tivesse sido um dever imposto a dedicada filha do duque muitos anos antes, e teria uma sincera amizade com D. Afonso até o fim de sua vida.

(1) Título utilizado prioritariamente por D. Afonso antes de sua ascensão como duque de Bragança.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte III

Apesar de ter herdado de sua mãe a aparência loira e clara tão valorizada nas mulheres no período medieval, a rainha Philippa não era considerada bela ou com particulares encantos. Para piorar a situação, seu marido já tinha uma amante – Inês Pires – há alguns anos, com quem tivera dois filhos sobreviventes, D. Afonso e D. Beatriz.  Mesmo assim, superando os temores da corte, Philippa engravidou rapidamente. Em junho, diante de novo fracasso de sua campanha contra os castelhanos, o duque de Lancaster acertou com João I de Castela um matrimônio entre a jovem Catarina e o mais jovem ainda Henrique, como forma de unir as pretensões ao trono e encerrar definitivamente a guerra entre Castela e Inglaterra. Neste meio tempo, o rei de Portugal caiu gravemente doente durante o percurso até Coimbra. A rainha e o duque foram rapidamente visitá-lo, temendo o pior, uma vez que D. João I até já fizera um testamento. Em meio à tensão, Philippa abortou. Pouco depois, o rei melhorou de forma inesperada, podendo seguir com o resto da comitiva para a cidade de Porto.

Catarina de Lancaster
Catarina de Lancaster

Em provável consequência deste momento difícil, os recém-casados se aproximaram. Pouco depois, D. João I deixaria Inês Pires, que foi rapidamente encaminhada por Philippa para um convento, onde se tornaria futuramente a abadessa, enquanto seus filhos D. Afonso e D. Beatriz passaram a ser criados no paço real. De fato, D. João I não teria mais casos extraconjungais registrados. Não muito depois, Philippa daria à luz a princesa D. Blanche (n. 13/07/1388). Embora o bebê tenha morrido antes mesmo de completar um ano, rapidamente seria seguida por um irmão e herdeiro ao trono, o príncipe D. Afonso (n. 30/07/1389). Três infantes o seguiriam em rápida sucessão: D. Duarte (n. 31/10/1391), D. Pedro (n. 09/12/1392) e D. Henrique (n. 04/03/1494). A linha real portuguesa estava assegurada, mesmo que, assim como a irmã mais velha, o primogênito também falecesse ainda criança, deixando a herança para o irmão D. Duarte. Em 21 de fevereiro de 1397, o nascimento de herdeiros homens seria interrompido temporariamente pelo nascimento da infanta D. Isabel, única filha de Philippa que sobreviveria à infância.

D. Afonso
D. Afonso

Paralelamente à produção daquela que seria conhecida futuramente como a “Ínclita Geração”, a rainha providenciava com o marido os matrimônios da descendência ilegítima daquele.  Em 1401, D. Afonso casou-se com a altamente disputada filha e herdeira do Condestável do rei, D. Beatriz Pereira. Inicialmente, na verdade, o rei tentou um matrimônio entre ela e o herdeiro do trono D. Duarte, mas tal ideia foi recusada por Nuno Álvares Pereira, que não desejava que sua Casa terminasse anexada ao patrimônio real. Assim, as núpcias entre sua herdeira e o filho legitimado do rei acabaram negociadas como alternativa, ocorrendo finalmente em Lisboa na presença do rei e dos grandes nobres do reino. Pouco depois, o próprio D. Afonso acompanharia sua irmã à Inglaterra para o casamento desta com um algo relutante conde de Arundel, aparentado próximo da família real inglesa. Uma década depois, ficando viúva do primeiro marido, ela se casaria novamente com o conde de Huntington, sobrinho da rainha de Portugal por meio de sua irmã Isabel. Mais uma vez, o tratado de Windsor era confirmado por influência direta da esposa inglesa de D. João I.

A Crise de 1383-85 – parte II

O motivo do homicídio do favorito de D. Leonor desperta discussão até hoje. Em sua biografia da rainha (2013), Isabel de Pina Baleiras apresenta as várias justificativas de diversos autores.  Segundo o cronista Fernão Lopes, por exemplo, ao assassinar o amante da rainha, o Mestre de Avis apenas estaria seguindo orientações de um plano que já existia no tempo que seu meio-irmão D. Fernando ainda vivia; neste sentido, de acordo com o historiador José Mattoso, a morte do favorito teria sido uma forma do Mestre mostrar sua fidelidade póstuma ao rei. Por outro lado, segundo os estudiosos Horácio Ferreira Alves e Peter Russel, o grande poder político que o conde de Ourém dispunha em várias cortes europeias o tornava um forte apoio de D. Leonor; ao destruí-lo, a rainha viúva perderia seu principal apoio e liberaria o centro do governo para outras facções, como a dos filhos de Inês de Castro ou, como parecia mais provável diante das circunstâncias, o próprio Mestre de Avis.

Morte de João Fernandes de Andeiro, o conde de Ourém
Morte de João Fernandes de Andeiro, o conde de Ourém

De fato, foi o que ocorreu. Após a morte de Andeiro, a rainha deixou Lisboa e foi para a mais protegida vila de Alenquer, enquanto o Mestre ganhava mais influência nos assuntos governamentais, embora de início considerasse o exílio na Inglaterra para fugir da vingança de D. Leonor. A grande pressão popular e o medo de uma invasão castelhana, contudo, o fizeram ficar em Portugal. Foi nesta época, aproximadamente, que conversas sobre um possível matrimônio entre ele e D. Leonor vieram à tona como forma de gerar uma solução de compromisso entre ambas as partes; para evitar a guerra com Castela, ambos seriam regentes de Portugal até o herdeiro de D. Beatriz chegar à maioridade. Embora o Mestre tenha dado seu consentimento, D. Leonor recusaria a proposta.

Selo com as armas reais combinadas de Castela e Portugal
Selo com as armas reais combinadas de Castela e Portugal

Com o avanço progressivo das tropas castelhanas, consequências drásticas tornaram-se inevitáveis no governo português. Em 16 de dezembro de 1383, D. Leonor foi afastada da regência e o cunhado assumiu seu lugar numa ampla aclamação popular. Humilhada, a rainha viúva pediu ajuda ao genro para restaurar sua honra. Em 12 de janeiro de 1384, João I e D. Beatriz encontraram D. Leonor perto da vila de Santarém. Depois de um encontro emocionado da rainha viúva com a filha, o rei castelhano convenceu a sogra a renunciar oficialmente da regência em seu nome para lhe dar a autoridade necessária para submeter os revoltosos liderados pelo Mestre de Avis. Fragilizada, ela concordou, retirando-se depois para um convento em Castela. Munido do poder necessário, João I mandou fazer selos novos onde as armas de Portugal apareciam entrelaçadas com as de Castela, além de cunhar moedas próprias, que passaram a circular nas cidades que o apoiavam. A guerra civil se consumava.

Leonor Teles de Menezes – parte IV

Por volta de 1377 ou inícios de 1378, D. Fernando sofreu uma misteriosa tentativa de envenenamento. Embora sobrevivesse, sua saúde ficou bastante fragilizada, o que o levou a escrever um testamento. Nele, reiterava seu desejo que sua única filha legítima, D. Beatriz, o sucedesse no trono após sua morte; se ele falecesse antes que a princesa atingisse a maioridade, a rainha D. Leonor deveria ser a tutora e regente até a consumação do casamento de D. Beatriz com o duque de Benavente ou quando ela atingisse 12 anos. Além disso, o rei excluiu da linha sucessória todos os meio-irmãos, filhos de Inês de Castro, já exilados a esta altura; isso mostrava claramente o quão fundo a disputa entre a rainha e os parentes do marido chegara. O único que ainda mantinha razoáveis relações com Leonor era D. João, o Mestre de Avis, que era filho de uma amante de D. Pedro I de Portugal.

O Mestre de Avis
O Mestre de Avis

Neste contexto, pode-se entender o crescente interesse do rei e da rainha em assegurar a posição de sua herdeira ao propor um novo e mais seguro matrimônio para ela: ao invés do duque de Benavente, o filho recém-nascido do rei de Castela. Esta manobra, que aparentemente prejudicava Portugal, veio dos próprios temores de D. Fernando em relação à morte. Ainda com sequelas do atentado contra a sua vida, ele procurava assegurar-se dos interesses sucessórios da única filha, e, neste sentido, um casamento com o herdeiro do trono castelhano era mais vantajoso do que com seu irmão ilegítimo. Evidentemente, a ideia agradava aos castelhanos, e foi aceita. Um casamento do herdeiro de Castela com a herdeira de Portugal, além de legitimar a nascente dinastia, ampliaria consideravelmente as fronteiras daquele reino, afinal. Um novo tratado foi logo assinado, e em inícios de 1380, D. Beatriz ficou formalmente noiva do príncipe castelhano.

Paralelamente, contudo, as amistosas relações não eram tão evidentes quanto pareciam, uma vez que em breve D. Fernando também negociava as núpcias de sua herdeira com o sobrinho do duque de Lancaster para firmar uma aliança contra Castela, cuja coroa João de Gaunt ainda ambicionava. Esta surpreendente duplicidade de Portugal pode ser atribuída tanto ao rancor do rei português contra o usurpador castelhano devido aos territórios que perdera em conflitos anteriores quanto à forte influência do favorito da rainha, o agente inglês João Fernandes de Andeiro, que também seria um suposto amante de D. Leonor. Em junho de 1381, as tropas inglesas desembarcaram em Portugal, juntamente com o irmão do duque de Lancaster, o conde de Cambridge, sua esposa, Isabel de Castela – também filha do assassinado Pedro I – e o prometido de D. Beatriz, o herdeiro Eduardo. Eles seriam recepcionados e hospedados por D. Fernando e D. Leonor, com quem também trocariam ricos presentes. Pouco depois deste auspicioso começo, as tropas combinadas de Inglaterra e França foram novamente à guerra contra Castela.

Beatriz de Castela – parte II

D. Afonso III e Beatriz de Castela se casaram em 20 de maio de 1253, com o pai dela virtualmente garantindo Algarves como parte do dote, muito embora também se comprometesse a devolver o território quando o primeiro herdeiro homem do casal tivesse sete anos de idade. De qualquer forma, a corte portuguesa considerou os termos do tratado humilhantes para o rei (FERNÁNDEZ, 1999, pps. 908-909). Logo em 1255, a condessa de Bolonha acusou o rei português de bigamia perante o papa Alexandre IV, que condenou D. Afonso III como adúltero e exigiu a devolução do dote de Matilda, convocando-o a comparecer em Roma para julgamento. A primeira esposa rejeitada, porém, morreria mais tarde naquele ano, deixando o processo em suspenso, embora Portugal ainda continuasse em interdito até 1262. Mas, depois da morte de Matilda, D. Afonso III não usaria mais o título de conde de Bolonha.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal

Embora Ventura (2006, p. 222) teorize que o fato de D. Afonso III “consumar o casamento mal ela (Beatriz) teve idade para casar e, de passados nove meses, ter a primeira filha, não revela grande estima pela sexualidade feminina”, o fato é que a menina passou seus primeiros anos na corte portuguesa apenas terminando sua educação e sendo orientada para o seu futuro papel como rainha e mãe dos herdeiros do trono português. A união só seria consumada carnalmente em 1258, quando Beatriz completou 14 anos; como visto anteriormente, esta era a idade tradicional de casamento na Idade Média, quando, segundo Isidoro de Sevilha, iniciava-se a fase conhecida como adulescentia, marcada não só pela chegada à idade da razão, mas também pelo início da capacidade de procriar (VILAR, 2005, pps. 37-38).

Menos de um ano depois, como já adiantado, nasceu a primeira filha do casal, a infanta D. Branca, que seria uma rica herdeira, e, mais tarde, uma relutante freira. Depois, mais seis filhos e filhas se seguiriam: D. Fernando (n. 1260, f. 1262); o herdeiro D. Dinis (n. 1261, f. 1325); D. Afonso (n. 1263, f. 1312), que seria senhor de Pontalegre por casamento com D. Violante, neta do falecido rei Fernando III de Castela; D. Sancha (n. 1264, f. 1302), que levou uma vida pouco documentada; D. Maria (n. 1264, f. 1304), também freira, e D. Vicente (n. 1268, f. em c. 1271).

Matilda, condessa de Bolonha – parte II

Ambicioso, o novo conde rapidamente ganhou prestígio na corte francesa, tanto por seus feitos militares quanto pela proteção do casal real. Em 1242, tentou voltar à Península Ibérica pela primeira vez em anos para combater os mouros, numa proposta de Cruzada louvada pelo papa Inocêncio IV, mas a crise política em seu reino de origem interrompeu tais planos. Em 1245, com o matrimônio do rei com a infame Mécia Lopes de Haro, a crise no reino português chegou a seu auge. Clero, nobreza e burguesia se uniram contra D. Sancho II e requisitaram a intervenção do papa, que nomeou o já conhecido conde de Bolonha como rei por direito ao decretar a deposição de D. Sancho II; ao mesmo tempo, Inocêncio IV contou com informações privilegiadas de D. Afonso para poder anular o casamento do rei com Mécia e, assim, acabar por uma potencialmente perigosa aliança entre Portugal e Castela devido ao parentesco da rainha com o soberano daquele reino. O sequestro de Mécia por aliados do conde depôs efetivamente D. Sancho II, que abdicou e fugiu. Seu irmão mais novo voltou ao reino e intitulou-se Protetor do Reino até a morte do primogênito dois anos depois, quando o conde pode ser aclamado como D. Afonso III de Portugal.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal

Enquanto isso, a desprezada condessa continuava em Bolonha, nunca tendo a permissão para viajar até o reino onde seu marido era agora o monarca, muito provavelmente devido ao fato que a união se provara estéril (SERRÃO, 1978, p. 139). Por essa razão, muitos historiadores não consideram Matilda como rainha de Portugal (VENTURA, 2006, p. 201). Em 1253, com a primeira esposa ainda viva, D. Afonso III se casou novamente com Beatriz, filha ilegítima do rei Afonso X de Castela. A furiosa esposa queixou-se ao novo papa, Alexandre IV, que colocou Portugal novamente sobre interdito até que o rei comparecesse à uma audiência em Roma para julgar o pedido de divórcio.

Em 1258, porém, Matilda morreria sem que a ação tivesse sido julgada. Como seus dois filhos tinham falecido antes dela, o condado foi herdado por sua prima Adelaide de Brabant, que foi sucedida por sua vez por seu filho. Roberto. A linhagem continuaria até o século XVI, quando terminaria em Catarina de Médicis. De forma um tanto estapafúrdia, a futura rainha de França tentaria herdar o trono de Portugal na crise sucessória de 1580, alegando exatamente ser a descendente do suposto filho de Matilda e D. Afonso III.

Matilda, condessa de Bolonha – parte I

Nascida aproximadamente em 1202, Matilda, condessa de Bolonha, foi a única filha fruto do controverso casamento de Ida, condessa de Bolonha, e Renaud, conde de Dammartin. Filha primogênita de Maria, condessa de Bolonha, e Mateus de Alsácia, a própria Ida nascera depois que sua mãe, uma freira, foi sequestrada por seu pai e forçada ao matrimônio. Compreensivelmente, a união acabara anulada, mas Ida continuou como a herdeira de seu pai, que continuou a comandar Bolonha depois que Maria retornou ao convento após dar à luz a sua segunda filha.

Quando Ida tinha cerca de 13 anos, seu pai morreu e ela o sucedeu no condado. Sobre a proteção de seu tio Felipe, conde de Flandres, ela não foi obrigada a se casar ainda em juventude extrema, como era comum no caso de tantas grandes herdeiras da época. Apenas em 1181, já com 20 anos, ela contrairia núpcias com Geraldo de Guelders, mas ficaria viúva em poucos meses. No ano seguinte, ela voltou a se casar com Berthold, duque de Zahringen, mas ele também morreria em pouco tempo. Depois de alguns anos de viuvez, ela, a exemplo de sua mãe, foi sequestrada e forçosamente casada com o conde de Dammartin, mesmo tendo sido cortejada na época por Arnaldo de Guînes. Com esse casamento, Bolonha saiu da esfera de influência de Flandres e tornava-se vassala do reino de França.

Matilda, condessa de Bolonha
Matilda, condessa de Bolonha

Ida morreria em 1216, sendo sucedida por Matilda no comando do condado. Novamente, seu matrimônio foi adiado pelo pai, o conde Renaud, ansioso por manter certa influência em Bolonha. Somente alguns anos depois a jovem condessa se casaria com um filho legitimado do rei francês, Felipe, conde de Clermont-en-Beauvois. Juntos, eles produziriam uma filha e um filho sobreviventes antes da morte de Felipe em 1234, talvez assassinado por sua esposa, que a esta altura teria se apaixonado por Florent de Hainaut (VENTURA, 2006, p. 56).  De qualquer forma, estes novos planos matrimoniais não deram em nada.

Com cerca de 33 anos, Matilda era agora uma viúva madura e consideravelmente bela para a idade, com uma fortuna considerável para escolher o marido que desejasse. Em maio de 1238, após negociações com a rainha de França, Branca de Castela, Matilda casou-se com o sobrinho desta, D. Afonso de Portugal, que era o segundo filho do rei D. Afonso II e Urraca de Castela. Como secundogênito, D. Afonso saíra em desvantagem na partilha da herança paterna em relação a seu irmão mais velho, o novo rei D. Sancho II, e concordou com a rica união com a condessa 10 anos mais velha, que em pouco tempo, contudo, se provaria sem amor.