Pretendentes da Sempre Noiva: breve análise das frustradas negociações nupciais da princesa Isabel Luísa

Única filha resultante do polêmico casamento entre o regente D. Pedro e sua antiga cunhada, Maria Francisca de Saboia, Isabel Luísa Josefa de Bragança naturalmente atraiu as atenções do mercado matrimonial europeu desde o seu nascimento em janeiro de 1669. O fato que, nos anos seguintes, a rainha Maria Francisca mostrou-se impossibilitada de gerar um herdeiro homem para a Coroa portuguesa só potencializou a ponderação de vários reinos acerca do destino nupcial de Isabel Luísa, jurada como herdeira presuntiva do trono português pelas Cortes reunidas em 1674. Apesar dos expressos desejos de alguns partidos na corte para que a ocasião fosse aproveitada para promover uma união conciliatória entre a herdeira do trono e Carlos II, rei de Espanha (1), a regência nunca deu uma maior consideração a essa ideia, principalmente depois do suposto envolvimento do antigo representante espanhol em uma conspiração que almejava a volta do deposto rei D. Afonso VI de seu exílio nos Açores. Isso abriria espaço para as ambições de Luís XIV de França, que era o padrinho de Isabel Luísa.

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Princesa Isabel Luísa

Em 1676, o Rei Sol já procurava ativamente casar seu primogênito, o delfim, com a princesa herdeira, essencialmente planejando que o reino português fosse o dote da noiva. A perspectiva da transformação de Portugal em uma virtual província francesa aterrorizaria tanto os espanhóis que muito em breve o representante da Coroa espanhola na corte, o abade Maserati, assegurou a alguns conselheiros de Estado que a Espanha não impediria a concretização de qualquer arranjo feito em ducados menos ameaçadores, como a Baviera, Toscana e Saboia. Ora, o último tratava-se exatamente da região de origem da família da rainha Maria Francisca, que a partir de então se dedicaria juntamente com a irmã Maria Joana, regente de Saboia como mãe do jovem duque Vítor Amadeu, para que o enlace dos primos não só viesse à luz, mas também pudesse ser considerado seriamente como uma alternativa ao trono espanhol após a morte do doente rei Carlos II.

O planejamento secreto das duas irmãs, contudo, não seria a única possibilidade matrimonial que o regente D. Pedro consideraria para sua filha. Várias hipóteses nupciais seriam pensadas para Isabel Luísa, embora grande parte delas não fossem consideradas tão prováveis já de saída, como no caso das conversas envolvendo meninos da Casa alemã de Wittelsbach (2), ou então a que disse respeito ao príncipe de Roche-sur-Yvon. Bem mais sérias seriam as negociações para casar Isabel Luísa ou com Eduardo, príncipe de Parma como herdeiro do duque Rainúncio, ou com Fernando, grão-príncipe da Toscana como herdeiro do grão-duque Cosimo. D. Pedro se inclinaria para aceitar essa proposta, visando principalmente beneficiar-se da influência do grão-duque Médicis frente à cúria romana, até que o próprio pai do presuntivo noivo discretamente retirou a proposta, temendo as consequências políticas de ambicionar a mão de uma noiva ainda desejada tanto por Espanha quanto por França.

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Fernando, grão-príncipe da Toscana

Eventualmente, a escolha portuguesa ficou entre os três ducados menos ameaçadores nomeados anos antes pelo abade Maserati. Sem muita demora, o duque de Baviera seria descartado por sua ligação íntima com o Sacro Império Romano Germânico, o que poderia arrastar Portugal para campanhas militares indesejadas. Entre Parma e Saboia, pareceu de início que o primeiro ganharia o cobiçado enlace português – ou pelo menos essa era a preferência do influente padre jesuíta Antônio Vieira. De acordo com esse importante religioso do período, um casamento com um duque enfermiço e filho único não era tão vantajoso quanto uma união com um príncipe que não só tinha sangue legítimo da realeza portuguesa devido à sua descendência direta de D. Manuel I, mas também tinha a possibilidade de passar imediatamente a Portugal para viver com a noiva.

Entretanto, seria o objetivo planejado longamente entre a rainha Maria Francisca com sua irmã, a duquesa viúva Maria Joana, que prevaleceria apesar de todas as vantagens enumeradas por Vieira. Em fevereiro de 1679, foi comunicada publicamente a assinatura do tratado de casamento entre Isabel Luísa, princesa herdeira de Portugal, e Vítor Amadeu, duque de Saboia. Em agosto, ocorreu a ratificação do documento, tornando em tese o matrimônio inevitável. Contudo, após o embaixador português chegar à capital do ducado, começaram a correr rumores que o duque não só estava bastante doente, mas como também poderia ser incapaz de ter filhos. Embora não seja possível saber o quanto exatamente da doença de Vítor Amadeu é verdade e o que é derivado da resistência de portugueses e saboianos quanto ao casamento, além da ameaça militar francesa nas fronteiras do ducado, o fato é que o duque sequer estava em Lisboa para a sua festa de casamento presencial com Isabel Luísa meses depois, para a grande desilusão da corte portuguesa.

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Vítor Amadeu, duque de Saboia

Com o fim do compromisso nupcial da princesa em Saboia, ocorreram novas conversas nupciais envolvendo o príncipe de Parma. Contudo, a morte de D. Afonso VI e da rainha Maria Francisca nos meses finais de 1683 determinou novas preocupações dinásticas para o agora D. Pedro II de Portugal. Embora tenham ocorrido negociações para um casamento duplo dele com a filha do duque de Parma e de sua filha com o príncipe, nada ficou por fim acertado. Em 1687, o rei contrairia núpcias com Maria Sofia de Neuburgo, tendo com ela rapidamente um filho homem. Não sendo mais a herdeira presuntiva do trono, Isabel Luísa tinha agora a prerrogativa de escolher aceitar ou não um casamento, o que faria ao negar uma nova proposta do grão-duque de Toscana. Em agosto de 1690, ainda uma donzela na corte portuguesa, Isabel Luísa adoeceria com varíola, e pioraria até falecer no dia 21 de outubro. Tendo morrido com pouco mais de 20 anos, ela jamais pode realizar o compromisso de Estado que lhe retiraria a alcunha que, ainda hoje, a faz célebre.

 

(1) A Guerra da Restauração entre a destituída dinastia de Habsburgo e a recém-aclamada Casa de Bragança terminara formalmente apenas um ano antes do nascimento de Isabel Luísa.

(2) Curiosamente, esta seria a família de origem da segunda consorte de D. Pedro.

Para saber mais:

CHAVES, Luís. D. Pedro II. Empresa Nacional de Publicidade, 1959.

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

MARCOS, David Mantín. “O projeto matrimonial de Isabel Francisca Josefa de Bragança e Vítor Amadeu II de Saboia (1675-1682): estratégias familiares e geopolítica”. In: Análise Social. 212, XLIX (3º), 2014.

Isabel de França – parte II

Atraente e inteligente, a rainha aparentemente tinha o amor do povo e de seu marido, muito embora Olivares procurasse estimular o que ele chamava de “ardores da pueril sensualidade” de Felipe IV, e, assim, afastar o perigo de uma maior influência de Isabel ao dividir os afetos do jovem rei. A rainha mesma era suspeita de não manter inteiramente seus votos de matrimônio. Em maio de 1622, quando um pequeno incêndio começou no meio da encenação de uma peça do conde de Villamediana, o próprio autor conduziu a rainha para segurança com uma proximidade que despertou suspeitas da corte. Pouco depois, ele foi assassinado, num crime que bem pode ter sido ordenado por Felipe IV em pessoa.

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Isabel de França

De qualquer forma, estes casos extraconjugais não atrapalhavam o casal real em continuar tentando produzir um herdeiro do trono. Em novembro de 1623, nasceria outra filha, seguida por outra menina dois anos depois; entretanto, as infantas Margarida Maria e Maria Eugênia também viveriam pouco. No ano seguinte, uma nova gravidez terminaria num parto prematuro, e em outubro de 1627 viria à luz Isabel Maria, mais uma filha de curta vida. A despeito das frequentes tragédias familiares, porém, o rei não abdicaria de suas várias amantes, e em abril de 1629 uma delas – a atriz Maria Calderón – teve o único filho ilegítimo que Felipe IV reconheceria como seu, chamado de João. Este nascimento colocaria, como era natural no período, grande pressão sobre Isabel, grávida na época; em outubro ela finalmente daria à luz o tão esperado menino, nomeado com o incomum nome de Baltasar.

A década de 1630 testemunharia mais nascimentos reais; em 1634, um menino – Francisco – que viveu pouco, seguido em 1636 por Maria Ana, que também teve falecimento precoce. Em 10 de setembro de 1638, nasceria uma menina que sobreviveu, a infanta Maria Teresa. Apenas cinco dias antes, nascera em França o primeiro filho sobrevivente do irmão de Isabel, Luís XIII, e Ana de Áustria, irmã de Felipe IV; provavelmente uma união entre as duas crianças já então foi considerada pelas Coroas. Nos anos seguintes, a rainha Isabel teria no mínimo dois partos prematuros, e não haveria mais crianças de seu casamento com Felipe IV.

Paralelamente ao processo de fim de sua importância reprodutiva, a rainha Isabel crescia em importância política. De acordo com a mentalidade da época, a produção de dois herdeiros vivos deve ter contribuído para aumentar a confiança do rei na capacidade governamental da consorte, embora também seja certamente provável que a doença progressiva do valido Olivares, junto com seus fracassos recentes em política externa e econômica, tenha ajudado neste processo. De fato, além de forçar a partida de Olivares da corte, ela pôde ser regente de Espanha enquanto seu marido lidava com a revolta catalã no início da década de 1640, mostrando de fato aptidão superior à do marido para lidar com questões burocráticas.

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Felipe IV de Espanha

O excesso de trabalho, contudo, piorou a frágil saúde de Isabel, que já sofria anteriormente de problemas no estômago. Em outubro de 1644, ela ficaria retida à cama. Sangrias foram realizadas, mas o estado da rainha apenas se agravava, e contra os desejos iniciais dela, seu marido foi chamado. Quando Felipe IV chegou à Madri, porém, o corpo de sua esposa já esfriava. Pouco antes de sua morte aos 41 anos de idade, Isabel de França despediu-se do príncipe Baltasar e da infanta Maria Teresa. Com medo de qualquer possível contágio, ela não teria deixado que eles se aproximassem, dizendo: “Rainhas havia muitas para Espanha, mas príncipes muito poucos”.

Suas palavras eram proféticas. Pouco mais de dois anos depois que a rainha foi sepultada vestida em um hábito da ordem de São Francisco, seu filho Baltasar padeceu subitamente. Felipe IV, além de ver o Portugal dos Bragança sair cada vez mais de seu alcance, ainda se encontrava sem herdeiro varão. Para procurar resolver tal questão, ele casou-se contra a vontade com a antiga prometida do príncipe, sua sobrinha Mariana de Áustria, em 1649, numa união que eventualmente lhe traria satisfação e outro príncipe: o futuro Carlos II. Seria com este deformado rei, contudo, que a dinastia dos Habsburgo espanhóis conheceria o seu fim e seria substituída pelo ramo da Casa Bourbon descendente da rainha Isabel por meio de sua filha Maria Teresa, rainha de França.

Para saber mais:

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2012.

CANTÓ, Pilar Perez et all. Rainhas de Portugal e Espanha – Margarida de Áustria e Isabel de Bourbon. Temas e Debates, 2015.

Isabel de França – parte I

Nascida em 22 de novembro de 1602 no castelo de Fontainebleau, Isabel de França foi a segunda criança (primogênita mulher) do casamento entre o rei Henrique IV e sua segunda esposa, Maria de Médicis. Sendo a filha legítima mais velha do monarca, ela recebeu o título honorífico de Madame Royale, sendo oficialmente desde cedo a dama mais importante da corte francesa depois da rainha. Tendo uma fértil mãe, Isabel cresceria com vários irmãos e irmãs, alguns dos quais desempenhariam importante papel na história europeia do século XVII – como seu irmão mais velho Luís, melhor conhecido como o pai do Rei Sol (1), e sua irmã caçula Henrietta, célebre por seu papel na Guerra Civil Inglesa. A jovem princesa também teria vários irmãos ilegítimos, frutos dos diversos casos extraconjugais paternos.

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A família de Isabel (c. 1607)

Em maio de 1610, quando Isabel ainda não completara oito anos de idade, Henrique IV sucumbiu a mais uma tentativa de assassinato, morrendo apenas um dia após a coroação de Maria de Médicis; em poucas horas, ela seria elevada à condição de regente do jovem rei Luís XIII, e continuaria no cargo até a maioridade do filho em 1617. Neste ano, porém, tanto o jovem monarca quanto sua irmã Isabel já estariam envolvidos em acertos nupciais com a Casa de Habsburgo. De fato, desde 1602 as Coroas de França e Espanha procuravam acertar uma aliança política-militar, a ser efetuada através de contratos nupciais, mas a frequente disputa pela hegemonia da Europa frequentemente atrapalhava tais negociações. A morte do popular rei francês, contudo, possibilitou que a Espanha fizesse sua jogada para procurar neutralizar a rival, propondo um enlace duplo: a ideia era que Luís XIII fosse casado com a infanta Ana e Isabel se unisse ao príncipe Felipe.

Embora as capitulações matrimoniais tenham sido confirmadas em agosto de 1612 e os casamentos fossem previstos para ocorrer logo no ano seguinte, as núpcias apenas seriam efetuadas realmente em outubro de 1615, após o qual as princesas foram devidamente trocadas na fronteira de Bidasoa e seguiram para seus novos reinos. Por que tal atraso ocorreu? Embora, claro, a idade dos jovens em questão com certeza tenha tido impacto no adiamento (2), não se pode subestimar o poder da oposição interna em Espanha em relação às uniões. Ao final, contudo, a razão de Estado acabou por se impor e os casamentos de presente ocorreram. Semanas depois, Isabel fez sua entrada em Madri, guiada por uma comitiva que continha o futuro conde-duque de Olivares e era liderada pelo próprio duque de Lerma, valido de Felipe III.

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A troca das princesas

O novo casal era, na verdade, composto por duas crianças, que tinham a maturidade física cuidadosamente observada à procura do melhor e mais seguro momento para a consumação, ocorrida apenas em fins de 1620, quando Isabel já se transformara numa bela mulher de expressivos olhos negros. A atração do príncipe era evidente, e rapidamente sua esposa estaria grávida, com a primeira filha de ambos nascendo já em agosto de 1621; a infanta Maria Margarida, porém, morreria com poucos dias. Nesta altura, Felipe já ascendera como rei de Espanha e Portugal com o falecimento precoce de seu pai homônimo. No início de seu governo, o novo rei estava às beiras de completar 16 anos, e em sua inexperiência governamental se apoiou fortemente no favorito Olivares, que se tornou também seu valido. Olivares, que aprendera bem as lições das disputas entre seu antecessor e Margarida de Áustria, restringiu o papel da rainha Isabel ao que ele acreditava ser o dever natural das rainhas: parir. E isso ela faria com regularidade nas duas décadas seguintes, embora seu papel mais importante perante o rei – fornecer um herdeiro para Espanha – acabasse tragicamente não sendo cumprido.

(1) Luís XIV.

(2) Durante a maior parte de 1613, Luís XIII e Ana de Áustria tinham 11 anos, Isabel tinha 10 e Felipe 8.

A rainha espanhola de França: Ana de Áustria

Nascida em 22 de setembro de 1601, Ana de Áustria (1) foi a primogênita do rei espanhol Felipe III e sua consorte Margarida, do ramo austríaco da família Habsburgo; até o nascimento de um irmão em 1605, ela seria a herdeira presuntiva dos tronos de Espanha e Portugal. Tendo uma vida familiar bastante íntima para os padrões da realeza do século XVII, ela era muito próxima à mãe, tendo herdado dela a forte religiosidade. A morte da rainha Margarida pouco depois de um parto em 1611 foi, portanto, um forte baque para a menina, que a partir daí se tornaria uma espécie de figura materna para os irmãos mais novos, além de tecnicamente a dama mais importante da corte que cercava Felipe III.

Aproximadamente na época em que o luto mais estrito começou a ser aliviado, em 1613, já haviam começado negociações mais sérias para um casamento entre a infanta e o jovem rei de França, Luís XIII, assim como uma união entre o herdeiro espanhol e Madame Royale (2), assegurando assim uma forte aliança política-militar entre ambos os reinos. Em realidade, a ideia inicial das primeiras núpcias datava quase que dos nascimentos de Ana e Luís, ocorridos com apenas cinco dias de diferença; astrólogos da época interpretaram a coincidência como um sinal de um elo já existente entre ambos. Apesar do Conselho de Estado espanhol discutir as implicações de tal matrimônio desde cedo, os enlaces só se tornaram oficiais e públicos em abril de 1612, depois que o embaixador francês pediu a mão de Ana em casamento em nome de Luís XIII, e a infanta passou a ser tratada já como rainha.

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Luís XIII de França

Um grande dote de 500.000 coroas, mais valiosas joias, foi acertado nos meses seguintes, e Ana renunciaria formalmente aos seus direitos sucessórios à Coroa de Espanha, embora segundo o contrato nupcial eles pudessem ser recuperados se ela enviuvasse sem ter tido filhos. Finalmente, em outubro de 1615, os casamentos foram celebrados, e no mês seguinte Ana e Isabel foram trocadas na fronteira de Bidasoa, após o qual seguiram para encontrar seus respectivos maridos. E como era a nova rainha de França? Sem ter o afamado maxilar da família tão pronunciado, ela era considerada bela em sua juventude, atraindo admiradores com sua aparência clara e loira; apesar disso, Luís XIII não ficou impressionado.

Como ambos mal haviam completado 14 anos na época das núpcias, não necessariamente a consumação física foi imediata, embora a preocupação da Coroa francesa em assegurar a validade da união – e o dote de Ana – possa ter justificado o evento na época. De qualquer maneira, a mãe do rei, Maria de Médicis, continuou a se portar como a principal dama da corte. Como Luís XIII não dedicava muita atenção à esposa, os primeiros anos dela em França foram passados principalmente entre companhias espanholas. Apenas dois anos depois, na sequência de um golpe que retirou a influência governamental da regente Maria, foi que o casal real se aproximou. Influenciada pela retirada de suas damas de companhia espanholas e substituição delas por nobres francesas, Ana passou a seguir mais a etiqueta do reino onde se casara, o que pode ter servido para melhorar seu favor perante o rei.

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Uma jovem rainha Ana

Apenas em 1622, porém, foi que ela ficou grávida pela primeira vez, numa gestação que terminou espontaneamente ainda no início. Pouco depois, outra gravidez foi interrompida após uma queda da rainha. Mais dois abortos seriam registrados nos anos seguintes, embora a possibilidade que fossem gestações histéricas motivadas por ansiedade deva ser considerada. Os repetidos fracassos teriam desagrado imensamente o rei, que inclusive teria culpado a rainha pela segunda perda.

Neste contexto, a ascendência do cardeal Richelieu como principal conselheiro de Luís XIII causaria tensões. Nascido Armand Jean du Plessis em 1585, em Paris, ele avançou politicamente durante a regência de Maria de Médicis, tornando-se em poucos anos bastante influente, principalmente depois do seu cardinalato em abril de 1622, ocorrido pouco depois da morte do antigo favorito do rei, o duque de Luynes, que fora responsável pela aproximação de Luís e Ana anos antes. Em paralelo com o processo de centralização do poder real em França, Richelieu também defendia uma atitude de oposição ao grande poder da Casa Habsburgo na Europa – o que significava uma relação potencialmente difícil com Ana de Áustria.

De fato, os anos seguintes da consorte seriam marcados pela oposição política ao primeiro-ministro do rei, num cenário em que continuava estéril. Em 1635, França declarou guerra à Espanha, e não é improvável que Luís XIII estivesse considerando pedir uma anulação de suas núpcias, principalmente depois que recaíram sobre Ana suspeitas de colaboração com o inimigo em 1637; no caso, informações secretas teriam sido passadas a Felipe IV em uma correspondência pessoal da rainha francesa. A acusação teria partido do próprio Richelieu; embora Ana fosse eventualmente perdoada, sua relação com o rei seria danificada em caráter permanente. E foi neste clima que Ana de Áustria ficou grávida mais uma vez; em 5 de setembro de 1638, nasceu o futuro Luís XIV, poucas semanas antes que a rainha completasse 37 anos de idade. Como isso aconteceu? O pai era mesmo seu marido?

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A rainha grávida

Segundo a história tradicional propagada oficialmente pelos Bourbon, a concepção do herdeiro ocorrera depois que uma tempestade impedira Luís XIII de viajar, obrigando-o a dormir com sua esposa no Palácio do Louvre; nove meses depois, Ana de Áustria deu à luz um menino saudável, devidamente cognominado de “Dieudonne” (3). Contudo, provavelmente o milagre não deve ter ocorrido bem assim. Embora o histórico gestacional complicado da rainha, junto com a sua idade mais avançada, torne o evento improvável para o período, o fato é que um médico que acompanhava a saúde real de forma meticulosa anotara alguns anos antes que Ana e o rei costumavam ter relações sexuais ao menos duas vezes por semana.

Em agosto de 1637, um dos motivos pelos quais Luís foi convencido a perdoar Ana foi a crença nele incutida por Richelieu que as conspirações contra seu governo – lideradas algumas vezes por Gastão, duque de Orléans e irmão mais novo do monarca – apenas acabariam com o nascimento de um príncipe. Neste sentido, fosse o rei bissexual, homossexual ou apenas desinteressado por Ana, isto não importava no panorama dinástico do momento, que exigia que Luís XIII voltasse à sua rotina matrimonial de antes. Assim, o comparecimento frequente do rei à cama de Ana de Áustria torna desnecessária, além de perigosa, a utilização de outros homens para fecundar a rainha. De qualquer maneira, os candidatos mais célebres para o cargo, como por exemplo o futuro favorito Mazarin, sequer se encontravam em França quando a gravidez da consorte começou, e o jovem Luís compartilharia uma semelhança física em demasia com o irmão mais novo Felipe para que ambos fossem apenas meios-irmãos.

Seguindo o modelo familiar de sua infância em Espanha, a rainha Ana criou os filhos com proximidade pouco usual para o período. Poucos meses antes do quinto aniversário do primogênito, a frágil saúde de Luís XIII cedeu e ele faleceu, deixando como seus desejos finais a constituição de uma regência sem a presença de sua esposa. Ana, porém, tendo o Parlamento ao seu lado, descartou este pedido do testamento e tornou-se regente solo de Luís XIV, sendo oficialmente auxiliada pelo cardeal Mazarin. Nascido Giulio Raimondo em 1602, ele era um nobre italiano com longo histórico de serviços ao rei francês que se tornou pupilo de Richelieu, sucedendo-o como principal ministro após a morte deste em 1642. Caindo nas graças da rainha Ana, ele se tornaria o governante de fato do reino após a morte de Luís XIII, e em pouco tempo se mudaria para aposentos próximos ao da regente no Palais Royal. Em pouco tempo, começariam a circular rumores que ambos eram amantes, e até mesmo marido e mulher devido a uma união secreta.

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Cardeal Mazarin

O favor que Mazarin desfrutava perante a rainha, contudo, não era partilhado por grande parte dos nobres franceses, ou mesmo pela população em geral quando o cardeal começou a cobrar multas de quem construísse residências fora dos muros de Paris, em 1644. Quatro anos depois, para continuar pagando as despesas da longa guerra contra os Habsburgo espanhóis, Mazarin tentaria cobrar novos impostos, assim como limitar o poder dos deputados pela criação de novos departamentos de Estado. Quando o Parlamento se opôs a isso e apresentou uma série de propostas de reformas, Mazarin e a rainha ordenaram a prisão de seus líderes. E foi quando a população de Paris se revoltou, erguendo barricadas nas ruas e forçando a fuga de Ana e seu filho Luís da cidade.

Com tréguas, brutalidades e fugas de seus principais personagens, incluindo Mazarin, a guerra civil francesa conhecida como Fronda apenas terminaria quando Luís XIV alcançou a maioridade em 1652 e retornou à Paris, tendo sua mãe como grande influência em seu conselho real; em pouco tempo, ele também chamaria Mazarin de volta do exílio forçado. Apesar de toda a resistência, a autoridade real não apenas retornara intacta como, nos próximos anos, seria incrementada. Em 1660, um ano depois da paz com Espanha, o jovem rei se casaria com sua prima Maria Teresa, única filha sobrevivente do casamento do irmão de Ana de Áustria, Felipe IV, com a princesa francesa Isabel, numa celebrada união que no fim do século daria origem à Guerra de Sucessão Espanhola.

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A atriz June Temple como Ana de Áustria em Os Três Mosqueteiros (2011)

No mesmo ano do nascimento do primeiro filho do casal real, Mazarin faleceria. Pouco depois, Ana se afastaria da política e se refugiaria no convento de Val-de-Grâce, onde os primeiros sintomas do câncer se manifestariam dois anos depois. Ana de Áustria, a rainha espanhola de França, morreria em 20 de janeiro de 1666, ainda com sua fama controversa; em menos de dois séculos, Alexandre Dumas se serviria dela para tornar a consorte um personagem imortal da literatura no clássico Os Três Mosqueteiros.

(1) Embora tecnicamente uma infanta de Espanha, tendo nascido em Valladolid, Ana é conhecida até hoje como “de Áustria” devido à origem de sua Casa.

(2) Título honorífico pelo qual era conhecida a filha mais velha do rei francês. No caso, tratava-se de Isabel, a primogênita mulher legítima de Henrique IV.

(3) Literalmente, “dado por Deus”, mas muitas vezes traduzido como ”presente de Deus”.

Para saber mais:

http://www.biography.com/people/anne-of-austria-9185816

http://bjws.blogspot.com.br/2015/10/biography-queen-anne-of-austria-spain.html

http://www.sandragulland.com/the-conception-of-louis-xiv/

http://www.sandragulland.com/who-was-louis-xivs-father-the-question-that-never-goes-away/

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2006.

 

A rainha do Piedoso: Margarida de Áustria – parte II

Depois de obter o consentimento da religiosa Margarida, que estaria mais interessada numa vida conventual, o contrato nupcial foi assinado em setembro de 1598, com um dote sendo combinado em 100.000 escudos, além de mais 50.000 escudos em joias, fornecidas pelo próprio rei. Poucas semanas depois, a noiva pôs-se a caminho de Espanha, já estudando a língua com a qual se comunicaria com o futuro marido (1). Enquanto sua comitiva passava pela cidade de Vilach, soube-se do falecimento de Felipe II; a partir desse momento, Margarida era tecnicamente a rainha de Espanha, e alguns serviçais passaram a dirigir-se a ela com tal título. Ela, contudo, manifestou a intenção de apenas passar a utilizá-lo depois de seu casamento oficial com o agora Felipe III. Apenas em 11 de abril do ano seguinte, contudo, ambos teriam o primeiro encontro em Valência. De acordo com o cronista Cabrera de Córdoba, antes mesmo o rei vira Margarida secretamente entre outros elementos de sua comitiva e mostrara-se contente por ter uma prometida bela e graciosa. Margarida, por sua vez, escreveria ao irmão Fernando que gostara do alourado rei depois de superar sua vergonha inicial.

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Felipe III de Espanha/II de Portugal

O matrimônio ocorreria por fim no dia 18, numa luxuosa cerimônia onde a rainha trajava um vestido de ouro, prata e pedras preciosas. As festas se seguiriam por uma semana, com direito a um torneio que custaria 30.000 ducados. Somente em maio o casal real partiria da cidade, iniciando um périplo por Espanha que só terminaria dez meses depois. Nesta altura, um laço afetivo significativo já surgira entre Felipe e Margarida; com exceção de uma filha ilegítima atribuída ao rei pelo núncio Camilo Caetano, não há traços reais de infidelidade por parte do monarca – o que refletia, aliás, a tendência de seu pai na maturidade (2). Apesar disso, seria apenas em finais de 1600 que a tão esperada gravidez da rainha ocorreria, percebida quando a consorte começou a passar mal durante a mudança da corte espanhola para Valladolid. Apesar de toda a insistência do valido (3) Francisco Gómez de Sandoval y Rojas, o duque de Lerma, Margarida não aceitou se mudar para o palácio de Mendoza-Cobos para dar à luz, preferindo fazê-lo na residência do conde de Benavente, apesar desta ser teoricamente menos confortável. Talvez a disputa crescente de Margarida com Lerma pela influência perante o rei tenha tido mais influência nesta questão do que o precedente da morte da princesa Maria de Portugal de parto no palácio indicado; afinal, o duque já tentara mudar o confessor austríaco da rainha por um jesuíta castelhano, e, além disso, era suspeito de verificar a correspondência da consorte.

De qualquer maneira, quando Margarida deu à luz no dia 22 de setembro, o rei estava ao seu lado, apoiando-a durante o trabalho de parto; era uma saudável menina, batizada em outubro com o nome de Ana Maurícia (4). Seria o duque de Lerma quem teria a honra de transportar a primogênita real até a igreja, e seria a sua esposa a madrinha da menina. Mesmo com todas as celebrações, a urgência por um príncipe continuava presente, principalmente depois que uma nova gestação da rainha deu origem à outra menina. Nascida em 1 de fevereiro de 1603, a infanta foi batizada em homenagem à bisavó paterna, a doente imperatriz viúva Maria de Áustria, que exercera considerável influência sobre Felipe III. A menina, contudo, não era robusta como a irmã mais velha, e faleceria pouco mais de um mês após o nascimento.

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Margarida de Áustria

Depois de dois consecutivos fracassos de Margarida para dar um herdeiro homem ao marido, sua rivalidade com Lerma ficou exposta no episódio da prisão da aia de infanta Ana, a marquesa do Valle. Depois que ela foi encarcerada numa fortaleza e processada juntamente com uma dama de companhia da rainha, os papéis da marquesa revelaram que ela era antiga informante do duque, mas passara para o lado da rainha. Provavelmente temeroso com as possíveis revelações de sua antiga aliada, Lerma apertou a vigilância dos aposentos de Margarida, determinando um novo protocolo. Agora, qualquer coisa entregue à rainha, mesmo comida, deveria passar primeiro pela camareira-mor, D. Catarina de Sandoval, condessa de Lemos e irmã do duque; além disso, apenas o mordomo-mor – entre os quais estava o próprio Lerma -, a camareira-mor a as damas de companhia poderiam ter acesso à área privada dos aposentos reais.

Neste cenário compreensivelmente angustiante, Margarida ficou grávida pela terceira vez. No dia 8 de abril de 1605, uma Sexta-Feira Santa, num parto rápido no cair da noite, nasceu o tão esperado menino, causando grandes festas e a libertação comemorativa de presos na cidade. Embora fosse esperado por muitos que o herdeiro fosse chamado de Fernando ou Carlos, a criança foi batizada em maio com o mesmo nome do pai. Novamente, foi Lerma quem o conduziu à Igreja, embora o padrinho fosse o príncipe de Saboia e a irmã mais velha do menino, que ainda não tinha sequer quatro anos de idade. Mesmo com o nascimento do herdeiro, contudo, Margarida estava infeliz e fazendo comentários sobre como preferia estar num convento a ser rainha. Não à toa, foi nesta época que Lerma atingiria o auge de seu poder como valido, embora a volta da corte para Madri marcasse um afastamento temporário do cargo – embora não de seus privilégios e rendas.

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Infanta Ana, a primogênita do casal real

Logo no ano seguinte, nasceria outra criança, batizada com o mesmo nome de sua falecida irmã. Em 1607, nasceria outro menino, Carlos, e em 1609 viria à luz o infante Fernando. No ano seguinte, nasceria uma infanta batizada em homenagem à própria rainha, seguida pouco mais de um ano depois pelo caçula Afonso. Cerca de duas semanas após este último parto, a rainha Margarida faleceria com apenas 26 anos, vítima de uma infecção pós-parto. O rei ficou arrasado com a morte da amada esposa, e se referiria a ela como “santa” até sua própria morte em 1621.

(1) Anteriormente, Margarida sabia apenas seu nativo alemão e latim.

(2) Felipe II só tivera casos extraconjugais registrados durante sua juventude, num período que abarca as núpcias com Maria de Portugal e Maria de Inglaterra. Durante as uniões com Isabel de Valois e Ana de Áustria não parece ter existido quaisquer amantes.

(3) Favorito real responsável pelo governo.

(4) Ana pela sua avó paterna e Maurícia por ter nascido no dia de São Maurício.

Para saber mais:

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

A rainha do Piedoso: Margarida de Áustria – parte I

Nascida no dia de Natal em 1584, Margarida de Áustria era mais uma das muitas meninas que vieram do casamento entre Carlos II, arquiduque de Áustria – terceiro filho de Fernando I, Sacro Imperador Romano e irmão mais novo de Carlos V -, com sua sobrinha Maria Ana de Bavária. Quando Margarida ainda era uma criança, seu pai faleceu, deixando a esposa grávida e mais doze filhos e filhas, incluindo seu herdeiro, Fernando II, que somente tinha doze anos quando sucedeu ao pai. A morte do arquiduque, contudo, não diminuiu o valor de Margarida e suas irmãs no mercado matrimonial europeu; afinal, elas ainda eram primas do Sacro Imperador Romano Rodolfo II, além de pertencentes à poderosa Casa de Habsburgo. Inclusive, quando as negociações para casar a jovem Margarida com o herdeiro do trono espanhol começaram, sua irmã mais velha Ana já era casada com o rei de Polônia, Sigismundo III; depois da morte desta, outra irmã, Constança, a seguiria como rainha.

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Felipe II de Espanha

Em verdade, não importava tanto qual das filhas ainda solteiras da arquiduquesa viúva Maria Ana seria a futura rainha de Espanha; afinal, não era como se Felipe II tivesse muitas opções de Casas para casar seu filho. Portugal, que por tanto tempo procurara noivos em Espanha, estava agora fora do jogo, tanto pela disputa dinástica ainda fresca entre os Bragança e os Habsburgo (1) quanto por uma questão financeira de rendimentos, considerada desvantajosa comparada com, por exemplo, Casas italianas ou mesmo castelhanas. Inglaterra, liderada por Isabel I, também não apresentava noivas viáveis, assim como Escócia e França, cujos monarcas não tinham filhas legítimas. Entre os principados italianos, contudo, uma boa opção teórica estava em Saboia; pouco antes do nascimento de Margarida, entretanto, ali fora casada a filha mais nova de Felipe II, a infanta Catarina Micaela. Em contraste, o ramo austríaco dos Habsburgo trazia consigo, além do ideal de fortalecimento dinástico, uma promessa de fertilidade: a mãe de Margarida tivera nada menos do que quinze crianças, das quais boa parte sobrevivera. Num tempo em que os antecedentes familiares eram julgados como fundamentais para prever a capacidade reprodutiva da esposa, Margarida e suas irmãs estavam muito bem situadas.

De fato, ao menos desde 1593 a ideia já passava pela cabeça de Felipe II, uma vez que foi aproximadamente nesta época que negociações da Casa de Bragança para o matrimônio do duque, D. Teodósio, com uma das irmãs de Fernando II foram interrompidas pelo rei espanhol, que anteriormente apoiara a união. O que num primeiro olhar parece uma discordância matrimonial superficial entre Felipe II e a duquesa viúva, D. Catarina, ganha toda uma nova dimensão ao observar-se que, caso o jovem duque tivesse atingido o intento, ele seria em poucos anos o cunhado do rei de Espanha e Portugal. Nesta época, retratos de três das irmãs – Catarina, Gregória e Margarida – chegaram à corte de Felipe II para inspeção; em 1595, o embaixador de Veneza já falava em um casamento do príncipe Felipe com uma das jovens, embora sem especificar qual delas. Como, então, Margarida acabou como a consorte escolhida?

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Maria Ana de Bavária

Em sua biografia de D. Felipe II, a historiadora Fernanda Olival fornece algumas narrativas sobre a questão. Segundo o cronista Gil Dávila, por exemplo, teria sido perguntado ao príncipe qual das donzelas era a mais bonita, ao qual ele respondera que esse julgamento cabia à Sua Majestade; Felipe II, então, selecionou Catarina, a mais velha. Já outra história conta que a escolha teria sido feita primeiramente pela infanta Isabel, irmã mais velha do príncipe, que optou pela mais nova, Margarida. Estes textos, contudo, ignoram que a primeira escolha do rei fora Gregória, com ou sem a anuência do filho (2), muito embora aparentemente esta arquiduquesa fosse considerada deformada. De qualquer maneira, Gregória morreu em setembro de 1597. Quase que de imediato, suas irmãs Leonor e Margarida foram colocadas à disposição de Felipe II para substituí-la. A mãe delas, Maria Ana, estaria tão ansiosa para não perder a oportunidade de encaminhar melhor a vida dos filhos que inclusive se mostrava receptiva à ideia de mandar as duas jovens para a corte de Felipe II para que lá fosse feita a escolha. Embora isso não ocorresse, eventualmente a mais bela das irmãs – Margarida – seria selecionada.

(1) Crise Sucessória Portuguesa de 1580.

(2) Embora Olival argumente que a escolha por Gregória apenas ocorreu devido ao falecimento precoce de Catarina, o fato é que esta arquiduquesa morreu ainda solteira dois anos depois da irmã mais nova, em 1599. Isto aponta para uma escolha mais pessoal do rei (talvez guiado pelos retratos enviados anteriormente) ou, o que parece mais provável, para uma escolha precoce da família em enviá-la para a vida religiosa, como ocorreria mais tarde com sua frágil irmã Leonor.

A estrela de Velásquez: Margarida Teresa de Habsburgo

Nascida em 12 de julho de 1651, a infanta Margarida Teresa foi a primogênita do casamento do rei Felipe IV de Espanha com Mariana de Áustria, que também era sua sobrinha. Margarida tinha uma meio-irmã mais velha, Maria Teresa, filha da falecida rainha Isabel de França, que seria a herdeira presuntiva do trono espanhol enquanto seu pai não tivesse um novo filho homem com a segunda esposa (1). Neste sentido, pode-se entender o motivo das negociações para casar Maria Teresa com o rei francês, Luís XIV, só engrenarem de verdade após o nascimento de um príncipe em 1657. Apesar disso, os direitos sucessórios da infanta foram oficialmente retirados, embora a validade de tal renúncia dependesse de um dote que jamais foi integralmente pago aos franceses. Assim, a união das coroas de Espanha e França era uma possibilidade real quando Felipe IV faleceu em setembro de 1665; de seus três meninos sobreviventes com Mariana de Áustria – Felipe, Fernando e Carlos -, apenas o último ainda vivia na época, e era uma criança bastante doente que só conseguiria andar aos oito anos de idade.

Neste cenário de crise, é fácil compreender o motivo pelo qual o matrimônio da segunda infanta foi cuidadosamente pensado desde muito cedo. Como forma de garantir uma alternativa genuinamente Habsburgo contra os possíveis pretendentes Bourbon ao trono de Espanha, Margarida Teresa ficou comprometida com o Sacro Imperador Romano, Leopoldo I, que era ao mesmo tempo seu tio materno e primo paterno, além de onze anos mais velho, o que impossibilitava qualquer consumação física enquanto as devidas dispensas papais não fossem providenciadas e a noiva fosse madura. Enquanto o primeiro ponto era relativamente fácil de ser arranjado, nada menos do que tempo poderia resolver o segundo; para acompanhar o crescimento de Margarida, a corte austríaca dependeria de constantes retratos enviados pelos espanhóis, executados pelo pintor Diego Velásquez.

Hoje considerado uma dos principais representantes artísticos da chamada Era Dourada Espanhola, Diego Rodríguez de Silva y Velásquez nascera em Andaluzia em 1599 e ainda jovem se destacara entre seus pares, tornando-se rapidamente um favorito de Felipe IV e o principal responsável pelos retratos de sua família. Quando Margarida nasceu em 1651, ele já estava mais do que consagrado na corte espanhola, e foi nesta posição que ele pintou o que é considerada sua maior obra: Las Meninas (2). Terminada em 1656, a pintura traz em seu centro a infanta Margarida – a esta altura com quatro ou cinco anos de idade -, cercada por suas damas de companhia. Também se encontram no primeiro plano da cena dois anões ricamente vestidos. Ao fundo, do lado direito, aparece uma mulher vestida como freira – possivelmente a governanta da infanta – acompanhada por um homem da corte. Ainda mais ao fundo, outro cavalheiro observa a cena. Não é evidente se ele está entrando ou saindo do aposento.

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Las Meninas

O diferencial do quadro, porém, está do lado esquerdo, onde aparece o próprio Velásquez, que fita o espectador enquanto parece retratar alguém; refletido num espelho ao seu lado, está o casal real, que seria então o assunto da obra em questão. Apesar disso, o ângulo da representação parece algo estranho, o que alimenta a controvérsia que a representada seria mesmo a infanta. Neste caso, qual seria o significado da presença de Felipe IV e Mariana de Áustria na pintura? As incessantes análises da obra mostram que esta e outras questões sobre Las Meninas ainda podem ser discutidas por muito tempo.

Velásquez ainda retrataria a infanta em outras ocasiões, como nas obras Margarida Teresa em Vestido Azul (1659) e Margarida Teresa em Vestido Rosa (1660), este terminado no mesmo ano da morte do pintor. Após poucos anos, Felipe IV também faleceria. Meses depois, ainda enlutada, Margarida viajaria para finalmente casar-se com o tio; as extravagantes comemorações posteriores durariam nada menos do que dois anos. De constituição frágil e aparência pouco atrativa, Leopoldo I era profundamente religioso e bastante culto, sendo fluente em várias línguas e interessado nas artes, principalmente música. Estes eram interesses que ele compartilhava com a jovem esposa, com quem manteve uma relação próxima e um casamento surpreendentemente feliz. Em pouco tempo, Margarida daria à luz seu primeiro filho, que não viveria muito. No mínimo mais três gestações se seguiriam, mas apenas uma filha – Maria Antônia – sobreviveria.

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Margarida Teresa em Vestido Azul

Apesar de sua graciosidade, representada tantas vezes por Velásquez, Margarida também tinha uma saúde frágil, uma infeliz herança de décadas de casamentos consanguíneos entre os Habsburgo. A série de gestações pela qual passou, possivelmente enquanto seu corpo ainda não estava maduro por completo para a maternidade, apenas piorou seu estado. De forma previsível, sua morte ocorreria pouco depois de um aborto ou parto prematuro em 12 de março de 1673. Faltavam poucos meses para que ela completasse 22 anos de idade. Arrasado, mas ainda sem um herdeiro, seu marido se casaria de novo alguns meses depois, mas este segundo matrimônio também não produziria meninos. Seria apenas nas terceiras núpcias de Leopoldo I que ele seria pai dos futuros imperadores José I e Carlos VI, este último pai da ilustre imperatriz Maria Teresa. Sua única filha com Margarida, contudo, teria uma vida breve e infeliz. Herdeira da pretensão de sua mãe ao trono de Espanha, Maria Antônia morreria ainda antes do doente tio Carlos II, cujo falecimento em 1700 seria o gatilho para a Guerra de Sucessão Espanhola.

(1) O único filho homem sobrevivente de Isabel de França com o rei fora Baltasar Carlos, que morrera alguns anos depois de sua mãe.

(2) Expressão de origem portuguesa que designa as acompanhantes reais.

Para saber mais:

http://viola.bz/short-life-of-princess-infanta-margarita/

http://www.habsburger.net/en/persons/habsburg/margarita-teresa-spain?language=en

http://www.sabercultural.com/template/obrasCelebres/AsMeninas.html

http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2013/06/as-meninas-de-diego-velasquez-analise.html

Catarina de Áustria – parte VII

Depois disso, a rainha permaneceria como regente por mais dois anos, até que em fins de 1563 ocorreu sua súbita e controversa renúncia após a vitória portuguesa sobre os mouros no cerco da praça de Mazagão. Num movimento bastante incompreensível diante da possibilidade de capitalizar para si o triunfo conquistado, D. Catarina convocou os Três Estados para anunciar sua decisão em ceder o poder para o cunhado. Todos foram tomados pela surpresa, incluindo D. Henrique. Afinal, apesar dela ter sido de fato criticada por sua demora em socorrer os portugueses durante o cerco, a regente ainda contava com apoio de vários e fiéis partidários. A decisão, contudo, era definitiva, e seria mesmo D. Henrique o novo regente, apesar do nome de D. Maria, duquesa de Viseu, ter circulado entre alguns círculos. D. Catarina ainda manteria a curadoria e a tutoria.

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Isabelle Adjani interpretando Margarida de Valois no filme A Rainha Margot (1994)

A partir daí, o poder da rainha viúva se manteria basicamente em procurar continuar influente perante o jovem neto e ajudá-lo em negociações matrimoniais. Principalmente no segundo caso, ela foi com frequência desafiada por D. Henrique. Durante a regência do último, encerrada em 1568, negociações com a França haviam começado para casar o rei português com a princesa Margarida, que era apenas um ano mais velha do que ele. Com o avanço do movimento protestante em França, porém, D. Sebastião mostrava-se reticente; a reputação dissoluta de Margarida também não auxiliou. No final, as conversas permaneceram indefinidas, e, como meio de tentar conter os confrontos religiosos franceses, ela foi casada com Henrique de Navarra em 1572.

Neste contexto de naufrágio do projeto matrimonial francês, D. Catarina insistiria ainda mais na ideia de união entre D. Sebastião e a primogênita de Felipe II de Espanha, a infanta Isabel. Estas núpcias também eram, aliás, muitíssimo do agrado de D. Sebastião. Interpretando hoje a proposta sem levar em conta alguns eventos que não poderiam de fato ser previstos na época, o casamento não era realmente uma má ideia. Embora um casamento francês pudesse colaborar para tornar Portugal mais independente do ponto de vista político, manter o padrão matrimonial com Espanha talvez fosse, além de mais prático, conveniente; até aquele momento, afinal, a infanta Isabel era a herdeira da Coroa espanhola. Mesmo se o rei Felipe conseguisse produzir um herdeiro homem em seu quarto casamento, contudo, a menina ainda seria a filha mais velha do prestigioso monarca e sobrinha do Sacro Imperador Romano Maximiliano II. Em muitos sentidos, se tratavam de núpcias bastante vantajosas para os padrões do século XVI, embora a prospectiva noiva ainda fosse apenas uma criança.

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A infanta Isabel aos 13 anos de idade

De qualquer forma, mesmo se a misteriosa doença de D. Sebastião não fosse já um fator de complicação para negociações matrimoniais, as intenções do próprio rei se dirigiam cada vez mais para a guerra contra os infiéis em África. Até mesmo o pedido da mão da infanta Isabel a Felipe II inscreve-se no sentido de obtenção de ajuda militar para a guerra santa. Catarina se opunha ao projeto do neto de liderar pessoalmente esta empresa militar, mas D. Sebastião não dava ouvidos aos conselhos da avó, de quem se afastava cada vez mais. E foi aflita, cada vez mais doente e com dores. que ela recebeu a confirmação da intenção de seu neto de ir guerrear em África em 5 de fevereiro de 1578.

Em 10 de fevereiro, a rainha viúva passou várias horas em estado comatoso e recebeu a extrema unção. Sabendo do estado da avó, o rei foi ao paço dela, e lá já se encontrava quando D. Catarina recobrou a consciência. Reconhecendo-o, ela lhe deu sua benção. Antes de perder a fala, a rainha viúva teria mais uma vez implorado ao neto que não fosse à guerra. A morte, contudo, só viria no dia 12. Sem pompa, ela seria enterrada junto ao marido no mosteiro de Jerônimos. Depois de manter-se recluso por alguns dias em luto rigoroso, D. Sebastião voltou aos preparativos de sua empresa militar, que ocorreria finalmente alguns meses mais tarde. Com sua morte pouco menos de um mês depois de completar 71 anos de idade, Catarina de Áustria não viu a tão planejada união de todas as Coroas ibéricas por sua família, mas também foi poupada de testemunhar a extinção de sua linha e da Casa de Avis poucos meses depois.

Para saber mais:

Sobre a Revolta das Comunidades de Castela: http://www.tordesillas.net/webs/inicio.php?lang=por&id=105&cont=1

BRAGA, Paulo Drumond. D. João III. Lisboa: Hugin, 2002.

BUESCU, Ana Isabel. Catarina de Áustria, Infanta de Tordesilhas, Rainha de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2007.

PITTA, Larissa de Andrade. D. Catarina de Habsburgo e a política de casamentos dinásticos entre Portugal e Espanha (1540-1554). Monografia (bacharelado em História) – Instituto de História, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2014.

Catarina de Áustria – parte V

O casamento da primogênita sobrevivente dos monarcas de Portugal, D. Maria, com seu primo, o príncipe Felipe, herdeiro de Espanha, já era discutido desde que ambos eram crianças de colo. Nascidos com poucos meses de diferença, a união deles era de especial desejo de suas mães, Catarina e Isabel. A morte da última em 1539, apesar de tirar algo do ânimo do projeto, ainda não o impediu; mesmo flertando com outras opções de núpcias para o herdeiro, Carlos V ainda cobiçava mais o amplo dote que viria com D. Maria. Neste contexto, as negociações avançariam enquanto os jovens amadureciam. Em Portugal, contudo, a oposição a este projeto se avolumava. Entre as importantes figuras da corte que se mostravam contrárias, incluíam-se o conde de Vimioso e o marquês de Vila Real. Como alternativa, eles sugeriam o casamento da infanta com seu tio ainda solteiro, D. Luís, como forma de preservar a Casa de Avis no trono caso o pior ocorresse com a morte do doente príncipe D. João. O casal real, contudo, opôs-se, principalmente D. Catarina. Embora a historiografia tradicional costume ver tal insistência no casamento espanhol como prova que a rainha já planejava entregar o trono de Portugal à Casa de Habsburgo, não é de fato difícil compreender a vontade de uma mãe, criada em penúria e exílio, de possibilitar o melhor para sua filha. E, na mentalidade do período, isso significava conseguir para ela a melhor união possível.

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A princesa Maria pouco após o nascimento de seu filho, conforme representado na série Carlos, Rey Emperador

O contrato de casamento entre o príncipe e a infanta acabou sendo assinado em 1 de dezembro de 1542, e incluiu a previsão de outro matrimônio mais a frente entre o príncipe D. João e a irmã de Felipe, Joana. Depois de serem obtidas as devidas dispensas papais, o casamento por procuração ocorreu em maio de 1543, embora a agora princesa de Astúrias só tenha partido rumo ao seu novo lar em 10 de outubro. Apesar de ser descrita como bela em correspondências oficiais, D. Maria possuía o famoso maxilar da Casa de Habsburgo, o que junto com sua corpulência herdada do pai tornava sua aparência pouco graciosa para os padrões atuais. De qualquer forma, o príncipe Felipe mostrou-se ansioso para conhecer a esposa, disfarçando-se entre os nobres que acompanharam a infanta em sua entrada na cidade de Salamanca, onde se efetuou a segunda cerimônia de matrimônio em 13 de novembro. Pouco tempo após a consumação física da união, porém, ele pareceu perder a animação inicial em relação à D. Maria e iniciou seu longo caso com Isabel de Osório, uma beleza loira que servia como dama de companhia de sua irmã. Apesar disso, ele ainda seria capaz de engravidar a esposa, para a satisfação da rainha D. Catarina, tão ansiosa com o tema que fazia questão de saber a frequência das visitas conjugais de Felipe. Em 8 de julho de 1545, nasceu o bebê, batizado em homenagem ao avô paterno. O parto, contudo, fora difícil e demorado, e a princesa acabou morrendo alguns dias depois do nascimento do príncipe Carlos após sofrer uma série de hemorragias. O choque deste acontecimento pareceu ter atingido especialmente o rei português, que a partir daí passou a delegar cada vez mais responsabilidades à esposa, até o ponto que era D. Catarina a virtual governante do reino.

Seu último filho vivo era o frágil príncipe D. João. Constantemente febril, ele demorara tanto a falar que se pensara por algum tempo que era surdo-mudo. Ao se desenvolver, porém, o príncipe demonstrou ser altamente inteligente, apesar de ter um temperamento difícil, em grande parte decorrente dos cuidados sufocantes a que era submetido. Apenas um ano antes de seu casamento com Joana de Áustria, por exemplo, ele ainda dormia junto à mãe nos aposentos dela, apesar de tradicionalmente já ter direito aos seus próprios aposentos. Mesmo com todas as preocupações com a saúde do príncipe, contudo, as questões sucessórias de Portugal não permitiriam que nova união com Espanha fosse adiada, e ela ocorreu em 11 de janeiro de 1552, apesar da infanta Joana só se reunir ao marido em dezembro – provavelmente por estratégia paterna, que, aliás, usara de novo os bens de sua reclusa mãe para pagar o dote de uma Habsburgo. Depois do encontro, porém, a paixão tomou conta do jovem príncipe D. João, que exercia seus direitos conjugais em toda oportunidade. Não demorou para a princesa engravidar, e para a alegria do reino a gestação transcorreu normalmente mesmo após o príncipe ficar bastante doente em outubro de 1553. Separada do marido por intervenção da rainha D. Catarina, Joana não testemunhou ou mesmo soube – oficialmente, ao menos – do colapso de D. João em seus aposentos em 2 de janeiro de 1554, seguida por sua morte no mesmo dia.

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Joana de Áustria

Apesar do sofrimento inimaginável ao ver partir o último de seus filhos, o casal real de tudo fez para que a nora não soubesse do falecimento. Ao visitá-la, retiravam as vestes de luto e proibiam a todos que as usassem enquanto serviam Joana, embora a princesa chorasse em privado. No dia 19 de janeiro, começaram as dores do parto, que foi acompanhado de perto por D. Catarina. Do lado oposto ao marido nos aposentos de Joana, ela pegava na mão da princesa e confortava-a entre contrações, até que na manhã do dia 20 de janeiro nasceu um menino saudável, para imenso júbilo da corte e da multidão reunida do lado de fora do paço da Ribeira. Em agradecimento à dádiva, a criança recebeu o nome do santo do dia: Sebastião. Três anos depois, quando D. João III faleceu, seria a rainha D. Catarina a regente deste pequeno menino que herdava o trono português.

Catarina de Áustria – parte IV

Após ser conduzida pelo duque de Medina Sidônia e pelo bispo de Siguenza, entre outros nobres da aristocracia castelhana, Catarina foi recebida na vila portuguesa de Elvas pelos infantes D. Luís e D. Fernando, seus cunhados, além do duque de Bragança. Encontrando-se com a nova rainha em meados de fevereiro de 1525, os três beijaram de imediato a mão dela em sinal de respeito, conforme ordenara o irmão em suas instruções detalhadas. Mas quem eles e os populares que saudavam com alegria a consorte viram exatamente sobre o cavalo? A imagem mais famosa de Catarina, onde ela aparece já depois de anos de trágicas experiências, não nos devem enganar para as possibilidades – na juventude, a rainha provavelmente era bela. De cabelos claros e graciosa, era dito inclusive que ela se parecia com o falecido pai Felipe, duque de Borgonha, cognominado O Belo. Considerando-se que sua mãe Joana fora a mais bonita das filhas da Isabel I de Castela, é pelo menos aceitável presumir que a beleza de Catarina pudesse rivalizar com a de sua irmã mais velha Leonor; por outro lado, o silêncio dos cronistas do período sobre a aparência da irmã caçula do imperador pode indicar que, em realidade, ela não se destacava neste quesito.

De qualquer forma, o primeiro encontro oficial do casal – já que não é improvável que o rei tivesse se disfarçado entre os demais nobres para testemunhar a entrega da esposa em Elvas, como faria seu sobrinho Felipe anos depois – pareceu já peculiarmente íntimo, com ambos se abraçando antes de D. João III conduzir Catarina pela mão até o estrado. Nada indica, contudo, uma atração física imediata, como aconteceria logo no ano seguinte no primeiro encontro entre Carlos V e D. Isabel. No dia seguinte, uma segunda cerimônia de casamento entre ambos ocorreu na igreja de São Francisco, mas outro dia se passaria antes que, nas palavras do cronista Gaspar Correia, o rei “houve dela a primeira noite”.

Com a consumação do matrimônio, Catarina de Áustria assumia sua mais importante função como rainha: gerar e parir crianças, preferencialmente meninos, que pudessem no futuro continuar a dinastia de Avis. Como filha da fértil rainha Joana e sobrinha da impressionante Maria de Aragão, as possibilidades de Catarina pareciam realmente ótimas numa época em que se acreditava que a mulher era a principal responsável pelo sucesso, ou fracasso, das gestações. Em pouco tempo, a promessa de fertilidade foi cumprida. A rainha daria à luz seu primeiro filho, o príncipe D. Afonso, em 24 de fevereiro de 1526, pouco mais de um ano após o casamento; o bebê, contudo, era pouco saudável, e morreria em junho. Apesar de toda a tristeza, isso não era realmente nada incomum numa era de alta mortalidade infantil; o importante era que a mulher fosse fértil. Logo no ano seguinte, Catarina provou mais uma vez que o era ao ficar grávida novamente.

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A infanta D. Maria na série Carlos, Rey Emperador, interpretada por Itxaso Arana

De acordo com o espírito do início da época moderna em Portugal, esperava-se um novo menino para o casal real, mas quem nasceu em 15 de outubro de 1527 foi uma saudável menina, D. Maria. De qualquer maneira, ocorreriam grandes festas comemorando o evento, embora um varão possivelmente já fosse aguardado com alguma ansiedade. Em 29 de abril de 1529, a rainha teve outra menina, D. Isabel. Ela, contudo, não partilhava da mesma boa saúde de sua irmã mais velha, falecendo em 23 de julho pelo mesmo “postema da cabeça que lhe veo a furo” que vitimara seu irmão. Em 31 de março ou 7 de abril do ano seguinte, viria prematuramente à luz mais uma menina, D. Beatriz. Também de pouca saúde, ela faleceria no primeiro dia de agosto de 1531, vítima de repetidas convulsões. Poucos meses depois, em 1 de novembro, depois de um parto difícil, nasceria o tão esperado menino. A chegada de D. Manuel foi amplamente comemorada, inclusive por seu poderoso tio materno, que deu uma grande festa em Bruxelas em honra ao novo príncipe. Em 25 de maio de 1533, nasceria outro menino, o infante D. Felipe, seguido em 16 de abril de 1535 por mais um varão, D. Dinis. A sucessão portuguesa pareceu assegurada por felizes meses.

Em 1537, contudo, a tragédia novamente atacaria D. João III e D. Catarina: logo em 1 de janeiro, morreria D. Dinis, e em 14 de abril, faleceria o herdeiro do trono D. Manuel, ambos provavelmente vitimados por convulsões, assim como a falecida infanta D. Beatriz. Os monarcas ainda tinham, porém, D. Felipe e D. Maria, e a rainha estava grávida de mais uma criança; vindo à luz em 3 de junho, o menino foi chamado de João. Em 1539, pouco depois de ter nascido o infante D. Antônio em 9 de março, morreria D. Felipe. E, em 20 de janeiro de 1540, falecia o próprio D. Antônio. Das 9 crianças que tivera, Catarina agora só tinha 2 vivas junto a si.

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O príncipe D. João

Apesar do profundo impacto e tristeza inimaginável pela perda de tantas crianças, a rainha ainda tinha funções reprodutivas a cumprir para os padrões da aristocracia europeia; afinal, com apenas 33 anos, Catarina ainda poderia gerar mais alguns infantes e, assim, garantir que Portugal teria um herdeiro mesmo se o frágil príncipe D. João viesse a falecer, como tantos esperavam. Mas não haveria mais crianças do casamento entre D. João III e Catarina de Áustria. Em uma recente biografia da rainha, é especulado que ela pode ter tido uma obstrução tubária após o nascimento do último filho, motivo pelo qual seus esforços para engravidar novamente não tiveram sucesso. No início da década de 1540, ficou claro que a sucessão de Portugal equilibrava-se entre um príncipe frágil e uma robusta infanta. Neste contexto, o futuro matrimônio de D. Maria passou a ser um assunto de grande interesse.