Indicações de livros sobre história portuguesa

Após alguns pedidos, decidi fazer a lista abaixo, que contém variadas indicações de livros sobre história portuguesa que conheci durante a minha trajetória acadêmica até agora – ou seja, enquanto confeccionava a monografia (2015) e a dissertação (2016-17). Em adição, foram acrescentados alguns dos livros que conheci enquanto pesquisava exclusivamente para o blog Casa de Bragança. Todos estão organizados cronologicamente por tema dinástico. Então, serão apresentados sucessivamente os livros que tratam do período abarcado pela dinastia de Borgonha, pela dinastia de Avis, pela dinastia de Habsburgo e pela dinastia de Bragança. Atenção ao fato que livros sobre membros destas Casas podem ser citados em outros temas dinásticos devido à questão cronológica. Note-se também que a lista não é exaustiva na listagem bibliográfica do tema. A maior presença de livros sobre os Avis deve-se do fato que trabalhei com esta dinastia durante a monografia e a dissertação.

1) Dinastia de Borgonha

MATTOSO, José. D. Afonso Henriques. Lisboa: Temas e Debates, 2007.

PIZARRO, José. D. Dinis. Lisboa: Círculo de Leitores, 2005.

VENTURA, Leontina. D. Afonso III. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006.

PIMENTA, Cristina. D. Pedro I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2005.

BALEIRAS, Isabel de Pina. Uma rainha inesperada: Leonor Teles. Lisboa: Temas e Debates, 2013.

GOMES, Rita Costa. D. Fernando. Círculo de Leitores, 2005.

SERRANO, César Oliveira. Beatriz de Portugal – La pugna dinástica Avís-Trastámara. Santiago de Compostela: Instituto de Estudios Gallegos, 2005.

SARAIVA, Antônio José. O Crepúsculo da Idade Média em Portugal. Lisboa: Gradiva, 1988.

2) Dinastia de Avis

SERRANO, Joana Bouza. As Avis – As Grandes Rainhas que Partilharam o Trono de Portugal na Segunda Dinastia. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009.

COELHO, Maria Helena da Cruz. D. João I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2012.

DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Círculo de Leitores, 2005.

FREITAS, Isabel Vaz de. D. Isabel de Coimbra – Insigne Rainha (1432-1455). Disponível em: http://repositorio.uportu.pt/jspui/bitstream/11328/974/1/D.%20Isabel%20de%20Coimbra.pdf .

FONSECA, Luís Adão de. D. João II. Círculo de Leitores, 2012.

DELURUE, Maria Luisa; OLIVEIRA, Maria Manuela. D. João II – um rei emblemático. Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000.

BRAGA, Paulo Drumond. O Príncipe D. Afonso, filho de D. João II – uma vida entre a guerra e a paz. Lisboa: Edições Colibri, 2008.

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 – Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

BRAGA, Paulo Drumond. D. João III. Lisboa: Hugin Editores, 2002.

BUESCU, Ana Isabel. Catarina de Áustria, Infanta de Tordesilhas, Rainha de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2007.

BUESCU, Ana Isabel. Imagens do Príncipe – Discurso normativo e representação (1525-49). Lisboa: Edições Cosmos, 1996.

CUNHA, Mafalda Soares da. A Casa de Bragança – 1560 – 1640 – Práticas senhoriais e redes clientelares. Lisboa: Editorial Estampa, 2000.

VELLOSO, José Maria de Queiroz. D. Sebastião (1554-1578). Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1935.

BAÑOS-GARCIA, Antonio Villacorta. Don Sebastián, rei de Portugal. Barcelona: Editorial Ariel, 2001.

CRUZ, Maria do Rosário de Sampaio Themudo Barata de Azevedo. As regências na menoridade de D. Sebastião – Elementos para uma história estrutural. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1992.

HERMANN, Jacqueline. No Reino do Desejado: a construção do sebastianismo em Portugal, séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

JOHNSON, Harold. Dois Estudos Polémicos. Tucson: Fenestra Books, 2004.

POLÓNIA, Amélia. D. Henrique. Círculo de Leitores, 2005.

COSTA, Alberto de Sousa. Dona Catarina, Duquesa de Bragança – Rainha de Portugal à face do Direito. Lisboa: Fundação da Casa de Bragança, 1958.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo. Fontes de Direito Para A História da Sucessão de Portugal. Coimbra: Coimbra Editora, 1960.

3) Dinastia de Habsburgo

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

BOUZA, Fernando. Imagen y Propaganda – Capítulos de Historia Cultural del Reinado de Felipe II. Madrid: Ediciones Akal, 1998.

DÍEZ, Ruth Betegón. Isabel Clara Eugenia – Infanta de España e soberana de Flandes. Barcelona: Plaza Janés, 2004.

SCHAUB, Jean-Frédéric. Portugal na Monarquia Hispânica (1580-1640). Lisboa: Livros Horizonte, 2001.

HABSBURGO-LORENA, Catalina de. Las Austrias – Matrimonio y razón de Estado en la monarquia española. Madrid: La Esfera de los Libros, 2005.

CANTÓ, Pilar Perez et all. Rainhas de Portugal e Espanha – Margarida de Áustria e Isabel de Bourbon. Temas e Debates, 2015.

4) Dinastia de Bragança

COSTA, Fernando Dores. A Guerra da Restauração – 1641-1668. Lisboa: Livros Horizonte, 2004.

COSTA, Leonor Freire; CUNHA, Mafalda Soares da. D. João IV. Círculo de Leitores, 2012.

LOPES, Maria Antónia; RAVIOLA, Blythe Alice (orgs). Portugal e o Piemonte: A Casa Real Portuguesa e os Sabóias. Nove Séculos de Relações Dinásticas e Destinos Políticos (XII-XX). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

SILVA, Maria Beatriz Nizza de. D. João V. Círculo de Leitores, 2012.

Catarina de Áustria – parte I

Filha póstuma de Joana de Castela e Felipe, duque de Borgonha, a infanta Catarina nasceu em 14 de janeiro de 1507. Esta última gestação da rainha foi, de fato, dramática: depois de uma estadia algo forçada em Inglaterra, onde o bebê foi concebido, uma fragilizada Joana foi para Castela, apenas para testemunhar a virtual guerra entre seu marido Felipe e seu pai Fernando para controlá-la e, assim, exercer a dignidade real numa Castela dominada pela peste e pela fome. Inesperadamente, em 25 de setembro de 1506, Felipe faleceu, provavelmente de febre tifoide, embora a possibilidade de envenenamento não possa ser eliminada.  Em estado de choque, sua viúva ia com frequência à sepultura beijar os pés do cadáver, o que apenas realçava ao público seu desequilíbrio psicológico, causado provavelmente ou por depressão crônica ou por esquizofrenia. Finalmente, em dezembro, Joana ordenou que se retirasse o caixão do mosteiro onde se encontrava e levou-o consigo em sua comitiva até Granada, onde pretendia enterrar seu marido junto à sua mãe, Isabel I de Castela. Estando com a gravidez muita avançada, contudo, a rainha teve que se deter na humilde casa de um clérigo em Torquemada. Lá, ela deu à luz uma menina saudável, batizada em homenagem à sua irmã mais nova, a princesa viúva de Gales.

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Joana e Felipe em seu conflituoso matrimônio, conforme representado na série Isabel (2011-14)

Por meses, a rainha permaneceu em Torquemada com sua filha recém-nascida e outro filho, o infante D. Fernando, enquanto a peste e a fome se espalhavam cada vez mais. Os boatos diziam que ela fora convencida que seu marido ressuscitaria em breve, mas em abril ela finalmente continuou seu caminho até Granada. Em agosto, o próprio rei Fernando foi encontrar-se com sua filha, revendo-a na província de Burgos em 29 de agosto de 1507, para emoção de ambos. Passariam semanas juntos, participando inclusive das cerimônias religiosas pelo primeiro ano de morte de Felipe. Em breve, contudo, a percepção da instabilidade de sua filha, juntamente com a ameaça da vinda do imperador Maximiliano para Castela, a fim de servir como regente do primogênito de Joana, Carlos, precipitou a decisão de Fernando em transferir a corte da filha para Tordesilhas. Joana, entretanto, resistia a qualquer mudança e ainda encontrava-se em Arcos quando 1507 se tornou 1508, com o corpo de Felipe ainda insepulto. Em julho, Fernando II de Aragão, em tese regente de Castela pelos termos do testamento de sua esposa, ordenou que seu neto homônimo fosse retirado da mãe e levado até ele. A rainha resistiu inicialmente, mas acabou cedendo, para seu grande abatimento. Seria apenas em fevereiro de 1509, porém, que a rainha Joana e a pequena Catarina, acompanhadas pelo rei Fernando, se dirigiram até Tordesilhas.

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Fernando II de Aragão

A multidão que os recepcionou e observou uma mulher bela, mas enfraquecida, entrar na bem murada vila régia de Tordesilhas, residência de monarcas de Castela banhada pelo rio Douro, dificilmente poderia prever que seria ali que a rainha passaria a esmagadora parte dos próximos 46 anos como prisioneira (1), enquanto seu pai e seu filho usurpavam seu poder ao aproveitar-se de sua fragilidade psicológica. Durante os primeiros 16 anos, sua caçula seria uma companheira constante. Apegada à filha até o ponto da obsessão após a partida de seu filho Fernando, a rainha ordenou que a menina dormisse num quarto adjacente aos seus próprios aposentos, localizados num canto isolado do palácio. Além disso, Joana exigia que todas as janelas ficassem permanentemente fechadas. Foi, então, no silêncio e no escuro que a pequena Catarina se desenvolveu.

(1) Com exceção do período entre 1533-34, quando a rainha teve que ser retirada de Tordesilhas pela ameaça crescente da peste.

Leonor de Áustria – parte I

Nascida em 15 de novembro de 1498, a arquiduquesa Leonor era a primogênita da infanta Joana de Castela e de Felipe, duque de Borgonha e herdeiro de Áustria por via de seu pai, o Sacro Imperador Romano Maximiliano I. O matrimônio deles, ocorrido em outubro de 1496, fazia parte de uma aliança maior entre os Trastâmara e os Habsburgo contra o poder francês no continente; para cimentar ainda melhor o acordo entre as Casas, o irmão de Joana, o príncipe João, também se casaria com a irmã de Felipe, Margarida. Apesar de ambas as uniões serem inicialmente bem-sucedidas do ponto de vista amoroso, as núpcias planejadas por Fernando II de Aragão para fortalecer sua dinastia acabaram, ironicamente, por entregar a Espanha aos Habsburgo. Pouco menos de um ano após o casamento de sua irmã Joana com o duque de Borgonha, o príncipe João faleceu, provavelmente de tuberculose, e sua filha com Margarida de Áustria seria natimorta pouco tempo depois. A herança espanhola passaria, então, para a filha mais velha dos Reis Católicos, Isabel, recém-casada com o rei português D. Manuel I. Em agosto seguinte, entretanto, ela também faleceria após o parto de D. Miguel, que foi o herdeiro de Aragão, Castela e Portugal até sua morte precoce em julho de 1500.

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Rainha Joana de Castela (circa 1500)

Pouco tempo depois da pequena Leonor ganhar um irmão, portanto, Joana de Castela tornou-se a herdeira improvável dos reinos de seus pais. Seu ambicioso marido rapidamente procurou aumentar seu próprio poder com a nova posição dela, principalmente depois que a morte de Isabel I em 1504 tornou Joana a nova rainha reinante de Castela. Felipe usaria a depressão da consorte, causada em grande parte pela constante infidelidade dele, para espalhar boatos sobre a suposta loucura dela e, assim, procurar fortalecer sua autoridade. Estas manobras políticas não o impediam em absoluto de procurar carnalmente a esposa, contudo, e quando ele morreu subitamente em setembro de 1506, Joana estava grávida pela sexta vez.

Enquanto sua mãe era controlada politicamente e, finalmente, aprisionada em Tordesilhas por seu próprio pai, que procurava manter o poder construído em décadas de reinado conjunto com Isabel I, Leonor crescia junto à maioria de seus irmãos e irmãs em Borgonha, aos cuidados de sua tia Margarida. Durante esta extrema juventude, seu casamento já era uma moeda de troca, com negociações neste sentido ocorrendo com Henrique VII de Inglaterra em nome de seu filho e herdeiro homônimo. Ambos chegariam a ficar noivos, mesmo que o príncipe tivesse sido prometido anteriormente à tia de Leonor, a infanta Catarina. Quando o rei inglês faleceu em 1509, contudo, a arquiduquesa tinha apenas dez anos de idade, e Henrique VIII preferiu casar-se com Catarina, que já era bem mais madura fisicamente e, logo, capaz de gerar filhos. Alguns anos mais tarde, quando o rei francês Luís XII enviuvou, também ocorreriam negociações nupciais envolvendo Leonor, mesmo que este monarca fosse quase quarenta anos mais velho do que a putativa noiva. Novamente, contudo, a juventude da arquiduquesa pareceu ter entrado no caminho para a concretização deste arranjo. Luís XII preferiu se casar com Maria Tudor, a irmã de 18 anos do rei Henrique VIII, em outubro de 1514. Outras negociações frustradas também ocorreriam com o rei de Polônia, Sigismundo, antes que Leonor supostamente tivesse um caso amoroso com Frederico II, Eleitor Palatino.

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Leonor na série ‘Carlos, Rey Emperador’, conforme interpretada por Marina Salas

O matrimônio dos dois, contudo, não interessava ao seu irmão Carlos, duque de Borgonha e rei de Espanha desde a morte de seu avô Fernando em 1516, que teria inclusive feito o casal jurar que não se unira secretamente antes de expulsar Frederico de sua corte. De qualquer forma, os irmãos seguiriam pouco depois para a Espanha, onde encontrariam sua mãe Joana pela primeira vez em vários anos. Lá, a doente rainha, já perturbada mentalmente após uma década de confinamento forçado, deu sua permissão solene para que o filho reinasse em seu lugar em Castela e Aragão. Mesmo assim, Joana não poderia deixar a sua prisão, ficando confinada em Tordesilhas até sua morte, apesar de Leonor ter procurado deixar seus aposentos confortáveis antes de partir novamente com Carlos. Eles seriam acompanhados mais tarde por sua irmã caçula Catarina, que deixara seus aposentos secretamente. Aquela seria a primeira tentativa de incorporar a jovem à vida social da corte, frustrada quando Joana, ao notar a ausência da filha de sua prisão pela primeira vez desde o nascimento da menina, declarou que não mais se alimentaria até que ela lhe fosse devolvida.

Isabel de Portugal, a ínclita duquesa

Nascida em 21 de fevereiro de 1397, D. Isabel foi a sexta criança a surgir do casamento entre o primeiro rei da dinastia de Avis, D. João I, e sua consorte, a inglesa Philippa de Lancaster, filha de João de Gaunt e neta de Eduardo III. Apesar de ter vindo à luz relativamente tarde na união, a infanta seria a única filha do casal real – uma irmã mais velha, Blanche, morrera na infância. D. Isabel teria, contudo, cinco saudáveis irmãos: D. Duarte, que se tornaria rei depois da morte do pai, D. Pedro, futuro regente do reino, D. Henrique, célebre por suas contribuições às Navegações Portuguesas, D. João, Condestável de Portugal e D. Fernando, o Infante Santo.

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Philippa, a mãe de D. Isabel

Nesta ilustre geração produzida por D. João I e Philippa de Lancaster, a única filha sobrevivente (1) brilharia como a joia da coroa. Possivelmente tendo herdado a beleza de sua avó materna, D. Isabel também se destacava pela inteligência, sendo educada junto com seus irmãos e tendo os mesmos tutores que eles enquanto aprendia matemática, latim, francês, inglês e italiano. Eles também caçavam juntos. Além disso, a jovem D. Isabel era autorizada, em notável contraste com a maioria das donzelas de sua época, a comparecer com os irmãos quando o pai os instruía sobre questões de Estado.

Dificilmente esta bonita e inteligente filha de rei passaria despercebida, e, de fato, não foi o que ocorreu: em 1415, negociações começariam para que D. Isabel se casasse com o rei Henrique V de Inglaterra, que pouco tempo antes subira ao trono. Na verdade, os dois jovens eram primos, uma vez que a mãe da infanta e o pai do monarca, Philippa e Henrique, eram irmãos, sendo ambos filhos de João de Gaunt e Blanche de Lancaster. Apesar disso, contudo, o casamento não era só para reaproximar a família, mas também para conseguir o apoio do reino de Portugal contra a França, com quem a Inglaterra já travava uma longa série de conflitos há vários anos (2). É de se imaginar que a rainha inglesa de Portugal fosse entusiasta do arranjo, mas Philippa não viveria para vê-lo, morrendo subitamente de peste no meio de um quentíssimo verão português. D. Isabel era muito próxima de sua mãe, e ficou arrasada, retirando-se da corte em luto. Neste sentido, o fracasso das negociações nupciais com Henrique V pode ser melhor entendido. Anos depois, ele acabaria se casando com a princesa francesa Catarina de Valois.

Durante os próximos 13 anos, a infanta permaneceria sem outras propostas matrimoniais, focando-se em música e livros e cuidando de suas propriedades legadas pela mãe. É de se pensar que talvez ela tenha recebido propostas menores de casamento, mas optou por preservar a situação privilegiada em que se encontrava: afinal, depois da morte de Philippa, era D. Isabel agora a mulher mais importante da corte portuguesa. Em 1428, quando já tinha 31 anos de idade, ela finalmente aceitou a proposta do Felipe, duque de Borgonha, cognominado como O Bom, após muitas negociações entre os embaixadores deste e o pai e irmãos de D. Isabel. Era muito prestigioso para Portugal se unir ao sofisticado ducado por casamento, e as comemorações ocorridas foram de acordo, durando oito semanas. Apenas depois a infanta partiu para se encontrar com o novo marido, mas a viagem foi difícil e duraria mais 11 semanas. Por fim, ela chegou na cidade de Sluys no dia de Natal. Após uma cerimônia formal de casamento em 7 de janeiro de 1430,  Isabel e Felipe consumaram a união.

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Isabel com seu marido

Ela já era a terceira esposa do duque de Borgonha. A primeira, Michelle de Valois, com quem Felipe fora comprometido ainda na infância, era filha de Carlos VI de França e morreu de doença em 1422. Dois anos depois, o duque voltou a se casar, desta vez com sua tia por casamento, Bonne de Artois, duquesa viúva de Nevers, que já tivera dois filhos homens nas núpcias anteriores. Apesar dela ser jovem, porém, o matrimônio durou apenas pouco mais de um ano antes da morte prematura de Bonne em 1425, deixando o duque novamente viúvo e ainda sem filhos legítimos, ainda que ele já tivesse gerado vários ilegítimos de variadas amantes.

Neste ponto, Isabel de Portugal cumpriu sua tarefa para o marido de maneira exemplar, mesmo que tivesse se casado relativamente tarde para a época; poucos meses após a união, ela já estava grávida. Em 30 de dezembro de 1431, ela deu à luz ao seu primeiro menino, que chamou de Antônio. Já no outono seguinte, ela se encontrava grávida novamente, emulando a famosa fertilidade de sua mãe Philippa. A boa relação do casal ducal, incluindo a confiança que Felipe depositava em Isabel, não significava que ambos estivessem alinhados politicamente; ao contrário. Enquanto o marido tendia a fortalecer seus laços com o vizinho francês, a esposa o incentivava a colaborar com a Inglaterra.

Embora tal diferença de opinião fosse causar discordância entre ambos durante o matrimônio, não diminuiu as responsabilidades governamentais confiadas à Isabel; em janeiro de 1432, quando o duque teve que ir para Dijon, a duquesa recebeu dele a autoridade para governar os territórios em sua ausência. Ainda na ausência de Felipe, o primogênito Antônio, sempre doente, faleceu. Isabel ficou arrasada, mas já em 23 de abril teve um segundo menino, que chamou de José. Mesmo com todos os cuidados, ele também faleceria jovem. Felipe finalmente retornou durante o inverno, quando Isabel engravidou pela terceira e última vez, dando à luz em 10 de novembro de 1433 ao único filho que sobreviveria. Tratava-se de Carlos, o Temerário.

CarlosOTemerário Rogier van der Weyden circa 1460
Carlos, o filho de Isabel e Felipe, circa 1460

Além das tarefas governamentais, a duquesa também se ocupava de assuntos financeiros, sendo responsável por propor um novo sistema monetário para o ducado, influenciado pelos modelos inglês e francês. Em junho de 1433, o duque Felipe partiu para o sul para guerrear contra os franceses e deixou o governo novamente sobre controle de sua esposa. Ele retornaria apenas em abril do ano seguinte. Ao ver como Isabel cuidara eficientemente de tudo, Felipe não lhe retirou o poder, ao contrário do que seria de costume. Desta forma, Isabel permaneceu como uma figura poderosa nas políticas do ducado de Borgonha. Durante as negociações triplas de paz entre Borgonha, França e Inglaterra, em 1435, foi dela o papel preponderante, a ponto do rei Carlos VII lhe conceder uma polpuda renda anual em agradecimento aos “seus serviços na reunião e negociação da paz”. Em 1439, as relações positivas com a França seriam confirmadas com o casamento entre o filho de Isabel, Carlos, e uma das filhas do rei francês, Catarina. Um acordo comercial com a Inglaterra também foi alcançado, embora a desejada paz ainda não ocorresse. De qualquer forma, a atuação diplomática da duquesa de Borgonha, que serviu como intermediária entre Henrique VI de Inglaterra e Carlos VII de França, foi louvada.

A partir de 1443, quando a expansão borgonhesa efetuada pelo duque Felipe se confirmou com a aquisição do território de Luxemburgo, a duquesa Isabel, com posses e rendimentos muito aumentados em relação à época de seu casamento, começou a tornar-se a líder de facto de Borgonha. Foi ela quem arranjou o matrimônio da sobrinha do marido, Maria de Guelders, com o rei escocês Jaime II, efetuado em 1449. Depois, ela começou a negociar com o duque de York a mão da filha deste, Ana, para o seu filho enviuvado desde 1446. Felipe, contudo, queria que o jovem Carlos se casasse com uma prima, Isabel de Bourbon, e interrompeu as negociações da esposa ao providenciar uma rápida e secreta união entre os dois em 30 de outubro de 1454. A duquesa ficaria furiosa com o marido e, inicialmente, até mesmo se recusaria a reconhecer a posição da nova nora. Com a disputa com o duque, que caíra sob a influência da poderosa família De Croy, Isabel perdeu parte de seu poder, já desgastado anteriormente devido ao início do processo de centralização das políticas borgonhesas e à criação de vários órgãos administrativos no ducado, e teve que retirar-se para sua propriedade em La-Motte-au-Bois, onde continuou se dedicando ao seu trabalho de caridade.

IsabeldePortugalporRogier van der Weyden circa1450
Isabel, duquesa de Borgonha, circa 1450

As boas relações entre Isabel e Felipe só seriam retomadas inteiramente após um derrame deste em junho de 1458, quando ela passaria a cuidar pessoalmente da saúde dele, o que se manteria até a morte de Felipe em 1467. A influência de Isabel foi restaurada e ela voltou a trabalhar ativamente na diplomacia, deixando o filho Carlos para cuidar dos assuntos administrativos e militares. Em 1465, este ficou viúvo novamente, e Isabel aproveitou a oportunidade para negociar um matrimônio com a irmã do rei inglês Eduardo VI, Margarida, que foi alcançado e realizou-se em julho de 1468.

A partir de 1471, Isabel começou a ficar cada vez mais doente e passou a preparar-se para a morte, presenteando ordens religiosas e parentes mais chegados, como a nora Margarida e sua única neta, Maria, fruto do segundo matrimônio de Carlos com Isabel de Bourbon. Em outubro, ela já não conseguia comer, mas seria apenas em 17 de dezembro que Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha, faleceria nos braços do filho Carlos. Tinha 74 anos de idade. Ela foi enterrada com o marido em Chartreuse de Champmol, em Dijon. Carlos, o único herdeiro do casal, não teria filhos com sua esposa inglesa, sendo sucedido no comando do ducado pela filha Maria, que por sua vez se casaria com Maximiliano de Áustria e teria com ele dois filhos, Felipe e Margarida, antes de sua trágica morte em 1482. Por meio do matrimônio de sua neta, então, Isabel seria a trisavó póstuma de Carlos V, Sacro Imperador Romano, que dominaria grande parte da Europa na primeira metade do século XVI.

(1) Outra infanta chamada Blanche, esta mais jovem do que D. Isabel, morreria com poucas semanas de vida.

(2) Mais conhecida como A Guerra dos Cem Anos.

Para saber mais:

http://thefreelancehistorywriter.com/2013/01/16/isabel-of-portugal-duchess-of-burgundy/

PARISOTO, Felipe. D. Isabel de Portugal, ínclita duquesa de Borgonha (1430-1471), diplomata europeia do século XV. Contributo para uma bibliografia crítica. Disponível em: https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/18532

 

Maria de Aragão – parte I

Terceira filha (quarta criança) nascida do matrimônio entre Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, a infanta Maria veio ao mundo em 29 de junho de 1482. Este parto da rainha, contudo, provou-se bastante problemático num tempo onde ainda não eram habituais medidas hoje comuns de higienação na vida cotidiana, quanto mais numa situação delicada como um nascimento gemelar. Como consequência, o irmão ou irmã de Maria faleceu pouco após o parto, e a mãe das crianças ficou com a saúde abalada, inclusive chegando, segundo a série Isabel, a receber a extrema unção. Ultimamente, ela sobreviveria, mas quatro anos separariam Maria daquela que seria sua última irmã, a infanta Catarina.

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Isabel I de Castela

Interessantemente, os primeiros planos de matrimônio de Maria envolveriam também sua irmã mais nova. Enquanto ambas recebiam, assim como suas duas irmãs mais velhas, as infantas Isabel e Joana, a excelente educação doméstica e intelectual fornecida por seus tutores, escolhidos a dedo pela rainha, Isabel e Fernando já faziam planos para utilizar Maria e Catarina para influenciar as políticas de dois reinos do Norte; enquanto a caçula seguiria com seu planejado casamento com o herdeiro da Inglaterra, o príncipe Artur, a intenção dos Reis Católicos era unir Maria ao rei dos escoceses, James, ainda solteiro mesmo após anos de compromisso com a princesa inglesa Cecily. Mesmo que James fosse pouco menos de dez anos mais velho do que Maria, o planejamento dos monarcas provavelmente ainda tinha um ar bastante agradável para as irmãs, que poderiam estar perto uma da outra enquanto mantinham a paz entre os turbulentos vizinhos, e quem sabe até mesmo visitar uma a outra com frequência.

Infelizmente, este plano matrimonial um tanto humano para o século XVI acabou não se cumprindo. Enquanto as outras irmãs se casavam sucessivamente com o herdeiro de Portugal e o duque de Borgonha, Maria era mantida sem compromissos nupciais sérios enquanto a viagem de Catarina para a Inglaterra era planejada. As desventuras da primogênita Isabel, contudo, mudariam com rapidez o destino de Maria. Após alguns meses de feliz casamento com D. Afonso, a jovem ficaria viúva após um trágico acidente de cavalo envolvendo o marido, e retornaria para Castela, jurando que não mais se casaria. Poucos anos depois, o novo rei de Portugal, D. Manuel, enviou embaixadores ao vizinho para negociar um casamento que fortalecesse a linha sucessória portuguesa. Apesar de sua aparente frágil posição nas negociações, a possibilidade de uma nova ligação com as riquezas coloniais portuguesas mantiveram os Reis Católicos em suspense quando D. Manuel insistiu em casar-se não com a noiva oferecida por estes, a infanta Maria, mas sim com a princesa viúva de Portugal.

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Uma jovem infanta Maria

De início, os monarcas hesitaram, ainda procurando respeitar os desejos da filha de levar uma vida casta e religiosa, mas o rei português manteve-se firme em sua decisão. Se tal insistência decorreu da posição sucessória de Isabel em Castela e Aragão, de sua maturidade física comparada à irmã mais nova ou mesmo de certa admiração pessoal do novo monarca iniciada quando ambos se conheceram em Portugal, ainda em 1490, é algo impossível de saber-se com certeza, mas o fato é que os Reis Católicos acabaram cedendo. A princesa viúva também aceitou a proposta após um compromisso de D. Manuel no sentido de prosseguir a política espanhola de expulsão de todos os judeus, e em 1497 ambos se uniriam, poucos dias antes da morte do único irmão de Isabel, o príncipe João.  A morte da filha póstuma deste no parto poucos meses depois significou que a grávida Isabel era agora a herdeira novamente, e D. Manuel o futuro rei de Aragão, Castela e Portugal.

Novamente, entretanto, o aparente não se cumpriria: a própria Isabel faleceria no parto em agosto de 1498, na cidade aragonesa de Zaragoza, onde ela e o marido haviam sido convocados para serem jurados como os herdeiros de Aragão. Agora, o máximo que D. Manuel poderia ambicionar em relação ao vizinho era uma possível regência em nome do filho D. Miguel, também frustrada quando da morte prematura deste em 1500. Antes mesmo disto, porém, os Reis Católicos já negociavam uma nova forma de manter firmes os laços com o rico Portugal. A nova herdeira de Espanha era a instável infanta Joana, casada com o ambicioso duque de Borgonha, de modo que a única filha disponível era a já madura Maria.

A imperatriz portuguesa: Leonor de Avis

Terceira filha (sexta criança) do casamento do rei D. Duarte com sua esposa aragonesa, a infanta D. Leonor nasceu em 18 de setembro de 1434. Embora tivesse duas irmãs mais velhas – D. Felipa e D. Maria – ambas morreriam ainda crianças; Leonor ficaria, portanto, como a filha mais velha sobrevivente do rei, o que poderia futuramente elevar seu valor no mercado matrimonial da nobreza medieval. Contudo, a morte prematura de D. Duarte em 1438 e a ascensão ao trono do irmão mais velho da infanta complicou consideravelmente a situação. D. Afonso V, o novo monarca, era uma criança de apenas seis anos; uma regência seria necessária. Inicialmente, sua mãe e homônima ocuparia o cargo, mas sofreria grandes pressões dos nobres partidários do duque de Coimbra, irmão do falecido rei. Após alguns meses de tensão política, a rainha viúva seria obrigada a capitular e se exilar em Castela, efetivamente abandonando todos os filhos e filhas restantes ao cargo do cunhado – incluindo D. Leonor, doente na época.

Pedro, agora o novo regente, entregaria a infanta mais velha aos cuidados de D. Guiomar de Castro, futura condessa de Atouguia. Seria lá que D. Leonor cresceria e amadureceria, só deixando a companhia de D. Guiomar em 1445, quando, após a morte da mãe, ela e as duas irmãs ainda vivas – D. Catarina e D. Joana – ganhariam residência própria na corte. Pouco depois, seu matrimônio começaria a ser arranjado por intermédio de sua tia paterna D. Isabel, duquesa da Borgonha, e seu tio materno, o rei de Aragão, que inclusive providenciaria a pintura de retratos da infanta para serem enviados aos putativos noivos, o rei da França e o imperador da Alemanha. Teria sido durante essa época que D. Leonor, já com 16 anos, teria tido um romance com o irmão do futuro conde de Portalegre, o fidalgo D. João de Menezes. Após participar da comitiva que levou a infanta para o futuro marido, Frederico III, ele teria em seu desgosto juntado uma ordem religiosa, tornando-se um frei.

D. Leonor
D. Leonor

A escolha do imperador para ser o marido da primogênita sobrevivente de D. Duarte foi um movimento político do regente, o duque de Coimbra, que, juntamente com sua irmã, a duquesa de Borgonha, participava das negociações nupciais. Naturalmente hostil à casa reinante de Aragão devido à privação dos direitos de sua própria esposa, a condessa de Urgell, D. Pedro desejava uma aliança que enfraquecesse os aragoneses, como um casamento com o Sacro Império ou com a França. Para D. Isabel, promover um casamento francês para infanta era crucial para restabelecer as relações borgonhesas com este reino após as crescentes vitórias militares do último na Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra, antigo aliado de Borgonha.

Entretanto, esta inclinação pró-francesa seria alterada por dois importantes fatores: em primeiro lugar, a crescente preponderância de Frederico III no cenário europeu, e em segundo lugar a chegada à maioridade de D. Afonso V em 1448. Nos turbulentos eventos que acompanharam este último evento, o duque de Coimbra perderia influência para D. Afonso, duque de Bragança e seu meio-irmão ilegítimo. Este tinha inclinações pró-aragonesas. Acontecia que o rei de Aragão da época procurava agradar Frederico III para assegurar suas possessões italianas; uma vez que o imperador cobiçava as riquezas representadas por um possível casamento com uma infanta da Casa de Avis, o rei aragonês passou a apoiar tais núpcias, que de qualquer forma prejudicavam os rivais franceses. Desta forma, D. Leonor perdeu a chance de ser rainha de França, mas ganhou a oportunidade de se tornar a primeira imperatriz portuguesa da história.

Frederico III
Frederico III

Após longas negociações, o casamento entre a infanta portuguesa D. Leonor e o Sacro Imperador Romano Frederico III foi por fim acertado, tendo sido estipulado um grande dote. Em fins de outubro de 1451, D. Leonor viajaria ao encontro do marido, chegando finalmente na cidade de Siena em meados de novembro. Lá, ela encontraria Frederico III pela primeira vez. Embora as impressões pessoais de cada um sejam obscuras, pode-se fazer um palpite bastante acertado baseando-se em opiniões contemporâneas; a noiva era considerada bela, distinta e culta, tendo inclusive conversado com o marido sem o auxílio de um intérprete, como seria comum. Por outro lado, ele era hesitante e um tanto frio emocionalmente. Apesar disso, contudo, ele ficou impressionado com D. Leonor. Após este primeiro encontro, Frederico a levaria até Roma, onde ambos se casariam oficialmente e seriam coroados conjuntamente pelo papa Nicolau V. Na verdade, seria a última vez que este tipo de cerimônia ocorreria na capital da cristandade.

Após o evento, ambos iriam para o sul, chegando em abril de 1452 para as celebrações nupciais oferecidas pelo tio de Leonor, o rei de Aragão, em seu reino de Nápoles. Lá, finalmente, ocorreria a consumação do consórcio entre a infanta, que ainda não completara 18 anos, e o imperador, que era quase vinte anos mais velho. Apesar dos receios iniciais dele quanto à capacidade de D. Leonor em dar à luz, a relação provou-se fértil; não muito tempo depois da união, nasceria o primeiro filho, Cristovão, seguido depois por outro menino, Maximiliano. Em breve, entretanto, as diferenças apareceriam. Os interesses de D. Leonor em dança e caça, por exemplo, não eram compartilhados por seu marido, que em breve mandaria embora as companhias portuguesas de sua esposa devido aos gastos que elas acarretavam. A relação esfriaria ainda mais com a culpabilização de Leonor pela morte de alguns filhos do casal – nomeadamente Cristovão, Helena e João – ainda na infância, alegadamente porque ela permitira que as crianças comessem a estranha comida de sua terra natal.

Pouco tempo após a morte de João, Leonor também faleceria em 3 de setembro de 1467. Faltavam apenas duas semanas para que ela completasse 33 anos de idade. Seu marido ainda viveria mais 36 anos, quando morreria em idade avançada após uma hemorragia causada pela amputação de um pé gangrenado. Apesar de contar com apenas um herdeiro homem, Frederico nunca se casara novamente após sua viuvez décadas antes. Ele seria sucedido no trono imperial pelo filho Maximiliano, que viria por sua vez a ser o avô paterno do célebre Carlos V.

Para saber mais:

HANREICH, A. “D. Leonor de Portugal, esposa do Imperador Frederico III (1436-1467)”. IN: Relações entre a Áustria e Portugal. Testemunhos Históricos e Culturais. Coimbra: Livraria Almedina, 1985.

SARAIVA, António. O crepúsculo da Idade Média em Portugal. Lisboa: Gradiva, 1990.

Leonor de Aragão – parte III

De fato, a guerra pareceu quase desde o começo um desastre consumado, e assim procedeu; nos confrontos com os muçulmanos, os portugueses saíram derrotados, e a retirada de volta ao reino foi um martírio de fome e sede. Além disso, o infante D. Fernando foi capturado, e o preço para o seu resgate era a devolução de Ceuta, conquistada décadas antes por D. João I. Atormentado pela prisão do irmão, D. Duarte tentou fugir com a família da peste que assolava Portugal, mas quando chegou à cidade de Tomar já estava doente, agonizando numa questão de dias. Novamente grávida, a rainha foi afastada dele, juntamente com as crianças do casal. Os irmãos do rei, incluindo o ilegítimo D. Afonso, apressaram-se a ir encontrá-lo quando se percebeu que o quadro de D. Duarte era fatal, mas não conseguiriam chegar a tempo. Ainda grávida, D. Leonor se tornaria uma viúva em 9 de setembro de 1438. O novo rei, D. Afonso V, era seu filho, e tinha apenas seis anos de idade.

D. Afonso V de Portugal
D. Afonso V de Portugal

Depois dos funerais de D. Duarte e da proclamação de seu filho mais velho, D. Afonso, como novo rei de Portugal, o testamento do falecido foi finalmente aberto. Não é sabido exatamente quando o fez, mas provavelmente, devido às suas disposições, foi já perto de sua morte. De qualquer forma, o documento era incendiário; declarava, já de início, que a rainha D. Leonor deveria ser a tutora, curadora e regente dos filhos do casal, incluindo o herdeiro D. Afonso. Além disso, uma determinada quantia era deixada para a negociação da libertação do infante D. Fernando, seu irmão mais novo. Se isso não fosse suficiente, o falecido rei determinava que a colônia de Ceuta fosse cedida de volta aos infiéis como preço pela volta de D. Fernando.

Ambas as questões tinha ferrenhos oponentes. No tocante à segunda, porém, a procrastinação logo se mostrou ser uma arma valiosa. A negociação pela volta do infante foi tão postergada que o mesmo acabaria por morrer ainda em possessão dos inimigos no ano de 1443, cinco anos após a falecimento do rei D. Duarte.  Agora, quanto à regência a situação era mais difícil. Seria a quinta regência pela qual passaria o reino, a terceira chefiada por uma mulher. Considerando-se os antecedentes – Teresa Henriques, expulsa do reino pelo próprio filho, e Leonor Teles, expulsa para o reino do genro – as perspectivas de Leonor de Aragão não pareciam boas.

Alguns meses depois da morte do marido, D. Leonor deu à luz a última filha deles, a infanta D. Joana, futura rainha de Castela. Neste momento, ela já assumira a regência, confirmada pelas Cortes de Torres Novas de 1438, mas as resistências contra ela era muitas. Seu sexo, sua inexperiência política e seu nascimento e criação em Aragão faziam com que sua escolha para regente, na verdade, fosse um mero respeito às vontades do falecido rei D. Duarte enquanto outros candidatos, como o infante D. Pedro, iam reunindo aliados entre a nobreza. A cidade de Lisboa, contudo, rapidamente se rebelou após a escolha das Cortes, e sua insatisfação só foi contida por tropas do irmão de Leonor, o conde de Barcelona.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

A situação marcou a fim da vantagem da rainha. Mesmo apoiada pelo irmão ilegítimo de D. Duarte, D. Afonso, e fazendo múltiplas concessões a D. Pedro na criação de D. Afonso V, ela perdera a vantagem que a vontade póstuma do marido lhe fornecera. Eventualmente, as Cortes de Lisboa escolheram D. Pedro, duque de Coimbra, como o novo regente. A rainha viúva conspiraria até o ano seguinte para recuperar a regência do cunhado, mas sem sucesso; em dezembro de 1440, D. Pedro a forçaria a partir de volta para Castela, onde ela morreria em 1445.

Para saber mais:

DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Círculo de Leitores, 2005.

Leonor de Aragão – parte I

Nascida em 1º de março de 1402, Leonor de Aragão foi a quinta criança (segunda menina) de Fernando I de Aragão e sua esposa, a condessa castelhana Leonor de Albuquerque. Seu pai fora o segundo filho de uma infanta de Aragão; quando seus tios morreram sem descendência, ele reivindicou sua herança em 1412. Fernando continuaria, contudo, a exercer a regência de Castela, que iniciara juntamente com sua cunhada, a rainha viúva Catarina de Lancaster, após a morte de seu irmão Henrique III em 1406, até sua própria morte prematura em 1416. Ele seria sucedido em Aragão pelo filho primogênito Afonso, que em 1420 casaria a irmã Maria com o jovem rei castelhano João II.

A irmã mais nova de Afonso, Leonor, também seria uma peça no jogo dinástico dos Trastámara para espalhar a descendência de Fernando I pelos tronos ibéricos, e, assim, ajudar a expandir a influência política da Casa. Esta ambição do ramo aragonês dos Trastámara conversava perfeitamente com a resistência da recém-instaurada dinastia portuguesa dos Avis em casar seus membros em Castela – ao menos enquanto a princesa Joana vivesse. Mas não deixavam de existir alternativas a um possível casamento aragonês: é bem possível, por exemplo, que influenciado por sua consorte, D. João I visse com simpatia uma possível união inglesa para seu herdeiro D. Duarte.

Leonor, condessa de Albuquerque
Leonor, condessa de Albuquerque

Por outro lado, as núpcias do herdeiro do trono português precisavam ser negociadas com cuidado. Nesse sentido, a existência de três outros filhos homens do rei – D. Pedro, D. Henrique e D. Fernando – tornavam essas longas negociações não apenas necessárias, mas plenamente possíveis. As primeiras negociações ocorreriam pouco depois da maioridade de D. Duarte, ocorrida em 1409, com a aragonesa Casa de Urgell; os choques de interesses desta com os do novo rei, Fernando I, acabaram destroçando a família, que acabou arruinada. A putativa noiva acabaria num convento. Depois disso, as próximas negociações matrimoniais registradas de D. Duarte ocorreram apenas em 1422, quando D. João I entrou em contato com condessa de Albuquerque para negociar um possível casamento entre seu herdeiro e a filha ainda solteira dela, Leonor.

A esta altura, contudo, os dois ramos da Casa de Trastámara haviam se tornado ferrenhos adversários, e João II de Castela proibiu a condessa de Albuquerque, sua vassala, de liberar a filha para as núpcias portuguesas. Os próximos anos foram uma verdadeira queda de braço entre Aragão e Castela pela posse da infanta Leonor, até que em 1427, finalmente, ela foi liberada para voltar ao seu reino de origem. Por todo o ano, as negociações continuariam, agora tornadas mais urgentes pela posse aragonesa da infanta. Em fevereiro de 1428, grandes festas aconteceriam na cidade de Valhadolid para a despedida de Leonor, depois das quais ela se dirigiria para a fronteira com Portugal.

Leonor de Aragão
Leonor de Aragão

Inicialmente, a cerimônia nupcial ocorreria em Évora, mas devido ao surto de peste que lá havia, foi transferida a mando de D. João I para Coimbra – o que muito enfureceu D. Duarte, que já gastara muito nos preparativos naquela cidade. Não estando disposto a enfrentar o humor do herdeiro, o rei acabou mandando o terceiro filho, D. Henrique, em seu lugar para atuar como mestre-de-cerimônias. A união oficial ocorreu por fim no dia 22 de setembro; antes mesmo disso, contudo, D. Duarte, que estava hospedado no mesmo paço de Leonor, a visitava duas ou três vezes por dia em seus aposentos. Embora o infante D. Henrique tenha assegurado ao pai que ambos não haviam chegado às intimidades, deve-se lembrar que o noivo era um homem enérgico de 37 anos; apesar de ter tendência à depressão, que o abateu pela primeira vez após a morte de sua mãe Philippa em 1415, dificilmente ainda era virgem, como já foi defendido anteriormente por alguns autores. De qualquer forma, os primeiros encontros entre ambos pareceram ser agradáveis; pouco mais de um ano após o casamento, nasceria o primeiro filho, batizado em homenagem ao avô.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte II

Em fins da década de 1370, João de Gaunt anunciou sua pretensão ao trono de Castela pelo direito de sua esposa, filha e herdeira do falecido Pedro I, e aliou-se a D. Fernando I de Portugal para guerrear contra o inimigo comum de ambos, o usurpador Henrique de Trastámara. Embora nem a pretensão nem a aliança tivessem os resultados esperados, na década de 1380 o duque de Lancaster viu uma nova oportunidade na crise sucessória portuguesa de 1383-85, onde a filha de D. Fernando I e esposa de João I de Castela, a princesa D. Beatriz, lutava pelos seus direitos sucessórios contra o tio ilegítimo, o Mestre de Avis. Em meio a um anti-castelhanismo crescente entre os portugueses, este seria aclamado em março de 1384 como D. João I de Portugal. No ano seguinte, a estrondosa vitória em Aljubarrota – com participação de tropas inglesas – efetivamente sepultou as chances de D. Beatriz ao trono português, ao mesmo tempo em que fortaleceu a proposta nupcial do duque de Lancaster ao novo rei.

Philippa de Lancaster
Philippa de Lancaster

Naquele momento, D. João I tinha à sua escolha duas donzelas, ambas filhas de João de Gaunt: Philippa e Catarina. Enquanto aparentemente a segunda era melhor opção, considerando-se que era a única filha da legítima herdeira castelhana, a infanta Constança, a escolha recairia sobre Philippa, que já tinha um irmão para assumir a herança de sua mãe; a princípio, isso seria um movimento desvantajoso por parte dos portugueses. Por outro lado, porém, Catarina carregava consigo a promessa e o peso da constante guerra; embora Portugal fosse aliado de Inglaterra contra Castela, o fato é que, após um escaramuçado conflito pela garantia da independência, D. João I preferiu estabilizar o reino com a nova dinastia de Avis. Philippa, então, foi a escolhida.

D. João I de Portugal
D. João I de Portugal

Após a liberação formal de seus votos religiosos pelo papa Bonifácio IX, o rei casou-se com a primogênita de João de Gaunt em 14 de fevereiro de 1387, numa cerimônia algo apressada pelo pai da noiva, uma vez que este queria que eles estivessem oficialmente aliados pelo sangue o mais rápido possível para então guerrear contra Castela; isto seria bastante dificultado se o casamento não ocorresse antes da Quaresma. Após a benção nupcial solene pelo bispo e um grande banquete de comemoração, os recém-casados foram ritualmente postos na cama para a consumação. Os noivos eram notavelmente maduros para a época; enquanto D. João I tinha quase 30, Philippa já alcançara os 27, sendo já vários anos mais velha do que sua mãe quando esta morrera. Muitos na corte portuguesa inclusive temiam que a nova rainha já tivesse passado da idade para conceber.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte I

Nascida em 31 de março de 1360, Philippa de Lancaster foi a primogênita de João de Gaunt, quarto filho homem do rei Eduardo III da Inglaterra e sua rainha Philippa de Hainault, com sua prima de 3º grau e esposa, a grande herdeira Blanche de Lancaster. A princesa era, portanto, descendente por ambos os lados da alta nobreza inglesa, fruto de um luxuoso matrimônio realizado em 1359 sob importantes auspícios políticos; apesar disso, contudo, diferentemente de muitas núpcias aristocratas do período, é dito que o duque e a duquesa de Lancaster tiveram um casamento feliz até a morte de Blanche em setembro de 1369, pouco depois do falecimento da avó e homônima de Philippa. Vítima da peste, a duquesa deixaria para trás um viúvo em profundo luto e três crianças sobreviventes das sete que dera à luz – Philippa, sua irmã Isabel (n. 1364, f. 1426) e o caçula Henrique (n. 1367, f. 1413). Após alguns anos de viuvez, João de Gaunt se casaria pela segunda vez com outra herdeira, a infanta castelhana Constança, com quem teria Catarina (n. 1373, f. 1418).

Blanche de Lancaster
Blanche de Lancaster

Paralelamente, contudo, o duque de Lancaster tinha um caso de longa data com Catarina Swynford, cunhada do famoso poeta Geoffrey Chaucer, com que ele tinha uma forte amizade e a quem encomendaria aquela que seria a primeira obra célebre de Chaucer, O Livro da Duquesa, provavelmente feito em homenagem à mãe de Philippa. O relacionamento extraconjugal de ambos, que começaria ainda durante a viuvez de João de Gaunt, entrando pelo matrimônio deste com Constança e culminando num casamento em 1396 e legitimação dos quatro filhos do casal, provocaria uma profunda vergonha em Philippa, potencializada pelo fato que a amante do pai era também sua governanta. Geoffrey Chaucer também seria um de seus tutores, participando daquela que seria uma educação notável para uma mulher no século XIV; além de bem versada em poesia, filosofia e teologia, Philippa também conhecia os escritores clássicos.

João de Gaunt
João de Gaunt

Como um dos principais comandantes militares ingleses, o duque de Lancaster passou significativa parte da década de 1370 liderando as tropas contra os franceses, naquela série de conflitos entre os dois reinos que futuramente seria conhecida como a Guerra dos Cem Anos. Antes de partir, porém, ele instalou a família no castelo de Tutbury, localizado no condado de Staffordshire. E foi naquele lugar que Philippa amadureceria como mulher e se prepararia para o casamento, inevitável para uma donzela em sua posição; assim, teve lições sobre heráldica e etiqueta de corte, além de conviver com os vários trovadores bancados por sua madrasta Constança. Logo os primeiros pretendentes apareceriam para os filhos de Blanche de Lancaster: enquanto a secundogênita Isabel se casaria com o conde de Huntingdon, o jovem Henrique ficaria prometido à jovem herdeira Maria de Bohun. Philippa, porém, não entrou em nenhum compromisso formal, apesar de conversas neste sentido terem ocorrido com o rei de França e o duque de Luxemburgo. Aparentemente, um destino mais solene fora reservado para ela.