D. Fernando, o Infante Santo

Nona criança (quinto filho sobrevivente) do casamento entre D. João I de Portugal e a dama inglesa Philippa de Lancaster, o infante D. Fernando nasceu em 29 de setembro de 1402. Na época de sua concepção, a rainha já estava com quase 42 anos de idade; era, de fato, uma gestação tardia para os padrões da época, que inspiraria maiores cuidados em circunstâncias normais. Mas esta gravidez de Philippa, contudo, já começou difícil, com sintomas que incluíam fraqueza e febre. Para preservar a vida da consorte real, os médicos recomendaram que a gestação fosse interrompida, e o próprio rei teria se oferecido para dar à Philippa a bebida abortiva. A religiosa rainha, porém, recusou-se a beber, manifestando sua fé na sabedoria de Deus, após o que D. João I atirou o líquido ao chão. Meses depois, viria à luz o último rebento do casal.

200px-Anoniem_-_Koning_Johan_I_van_Portugal_(1450-1500)_-_Lissabon_Museu_Nacional_de_Arte_Antiga_19-10-2010_16-12-61
D. João I de Portugal

De saúde frágil desde a infância, o infante foi criado em grande parte junto à mãe, de quem se tornaria bastante próximo. Apesar disso, ele ainda recebeu a mesma educação cuidadosa dos demais irmãos, sendo instruído em diversas línguas e em técnicas militares, além de participar dos conselhos de Estado de seu pai. Quando ele tinha doze anos de idade, sua amada mãe Philippa faleceu subitamente, vítima da peste. Pouco depois, o pai e os irmãos enlutados partiriam para a conquista de Ceuta, da qual D. Fernando era jovem demais para participar. Ao invés disso, ele ficou no reino aos cuidados da irmã D. Isabel, futura duquesa de Borgonha, juntamente com outro irmão, D. João, que ainda não tinha quinze anos.

Sendo o último da larga descendência de D. João I e Philippa, era natural que D. Fernando fosse encaminhado eventualmente para a carreira clerical, até mesmo considerando-se que os rendimentos cedidos a ele por seu pai eram escassos para um infante. Realmente, depois que D. João I faleceu em 1434 e foi sucedido por D. Duarte, este apontou o irmão caçula como o novo administrador da Ordem de Avis. Tudo parecia caminhar na direção de uma carreira eclesiástica para o caridoso infante até que ele recusou o posto de cardeal oferecido pelo papa Eugênio IV. Em realidade, conforme D. Fernando explicou para D. Duarte, ele gostaria de viajar e fazer fortuna a serviço de um rei estrangeiro – provavelmente, como sugere a Chronica escrita por Ruy de Pina, a intenção do infante era servir ao seu tio materno, Henrique IV de Inglaterra.

Ferdinand_the_Saint_(St._Vincent_Panels)
D. Fernando

Seu real irmão, contudo, tinha outros planos imediatos. Herdeiro dos anseios guerreiros de seu pai, D. Duarte pretendia combater os infiéis em África; para a realização dos planos, contava com grande incentivo do irmão D. Henrique, embora os outros irmãos recomendassem cautela. D. Fernando se uniu à expedição com cavaleiros da Ordem de Avis, que pretendiam lutar sob um estandarte contendo a imagem do santo do dia de nascimento do infante, São Miguel. Eles partiram em agosto de 1437, chegando para sitiar Tânger no mesmo mês. A cidade, entretanto, era bem fortificada e tinha uma defesa organizada demais para ceder com facilidade aos portugueses; de fato, isso não ocorreria. A guerra foi um desastre, com os soldados sofrendo com fome e sede na retirada forçada que se seguiu. Para que todos pudessem retornar seguros em seus navios, porém, os muçulmanos exigiram uma troca de reféns, e D. Fernando se ofereceu para ficar entre os inimigos, sendo feito prisioneiro em meados de outubro.

De início, as condições da hospedagem do infante entre os inimigos eram bastante confortáveis. D. Fernando ficou na mansão do próprio governador de Tânger e foi autorizado a ter serviçais e criados particulares, incluindo um cozinheiro, enquanto o filho mais velho de seu captor ficava como garantia entre as tropas portuguesas. Além disso, todos os portugueses retidos eram autorizados a assistir a missa diariamente. A situação era vista por ambos os lados como sendo um arranjo provisório, uma vez que o rei português parecia disposto a pagar o resgate do irmão, embora não tanto a devolver a colônia de Ceuta, como exigiam os muçulmanos. Rapidamente, a situação começou a se degenerar, começando quando, após a liberação das tropas portuguesas, D. Henrique recusou-se a liberar o primogênito do governador e começou a elaborar estratégias para ter D. Fernando de volta sem ter que ceder Ceuta. D. Duarte o acompanhava nesta indecisão em ceder o território, convocando as Cortes para debater a questão em janeiro de 1438.

Duarte_I
D. Duarte

Apesar de ter sido contrário à expedição, o infante D. Pedro pressionou para que seu irmão fosse devolvido, no que foi acompanhado por D. João e o clero. A nobreza, contudo, discordava, e conseguiu dissolver a reunião sem uma decisão final quanto ao destino de D. Fernando, mesmo após leitura pública de cartas deste pedindo a devolução de Ceuta e sua libertação do cativeiro. Finalmente, em junho, após uma reunião privada entre o rei e D. Henrique, ficou decidido que nada seria pago ou devolvido aos muçulmanos; o infante capturado seria mesmo libertado por outros meios.

O repúdio do acordo feito surpreendeu – e enfureceu – os dirigentes de Tânger, que imediatamente endureceram a prisão de D. Fernando. Transferido para Fez, ele passou a habitar uma masmorra escura e, eventualmente, passou a ser contido por correntes. Sua alimentação também passou a ser irregular enquanto várias tentativas frustradas para libertá-lo eram feitas por agentes portugueses. Em agosto de 1438, D. Duarte faleceu, vítima da peste como sua mãe. O regente em nome de seu herdeiro de seis anos, o infante D. Pedro, passou então a negociar a libertação de D. Fernando, mas esbarrou numa disputa interna entre os dirigentes de Tânger pela guarda do valioso refém, cujo resgate ficava cada vez mais caro – e também passou a incluir a liberação de reféns muçulmanos. As negociações, então, tornaram-se cada vez mais difíceis entre as duas partes. Aproximadamente em meados de 1442, D. Fernando foi separado de seus companheiros e passou a ficar numa pequena cela, onde era constantemente vigiado. Apenas seu médico podia visitar o deprimido infante, que não desejava mais ouvir notícias de sua família.

Túmulo D. Fernando
Tumba do infante no mosteiro da Batalha

A partir de maio de 1443, D. Fernando passou a ficar cada vez mais doente, piorando drasticamente no começo de junho e falecendo no dia 5, depois de ter tido uma visão da Virgem Maria, São Miguel e São João. Seu corpo seria embalsamado e exposto por quatro dias nas muralhas da cidade. Um culto popular em torno da figura do infante se espalharia rapidamente em Portugal e vários milagres seriam atribuídos a ele, principalmente depois que seu caixão foi recuperado em 1472 ou 1473, na sequência da conquista de Tânger pelo seu sobrinho D. Afonso V, que invocaria a memória de D. Fernando em seus discursos perante as tropas. Contudo, apesar da fama posterior de seu suposto martírio por Portugal ser espalhada pelas Lusíadas, ele nunca foi canonizado pela Igreja Católica.

Para saber mais:

http://thefreelancehistorywriter.com/2013/04/23/ferdinand-the-saint-prince-of-portugal/

COELHO, Maria Helena da Cruz. D. João I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2012.

DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Círculo de Leitores, 2005.

 

Leonor de Áustria – parte III

Na época de seu casamento com Leonor, D. Manuel I considerara uma união futura do príncipe com a princesa Renata, filha de Luís XII de França, mas as negociações acabaram por falhar. Perto de sua morte, o rei voltou a tratar de um duplo enlace que era muito de seu agrado: no projeto, sua filha D. Isabel se casaria com o imperador Carlos V e seu filho D. João se uniria à irmã do imperador, Catarina, ainda retida em Tordesilhas com sua mãe Joana. O falecimento súbito do monarca português pareceu alterar toda a situação, uma vez que agora parecia que o novo rei se casaria com sua madrasta, por quem, segundo uma fonte inglesa, se encontrava loucamente apaixonado.

Um pedido de dispensa papal inclusive estaria sendo procurado após o imperador Carlos V concordar com o casamento dos dois e, segundo um boato, D. Leonor já estaria grávida. Apesar de tudo isso, contudo, a rainha viúva retornou para junto do irmão em meados de junho de 1523, deixando para trás a única filha, D. Maria. Os motivos parecem condenados a permanecer envolvidos em mistério. As supostas núpcias seriam só um mexerico gerado por uma corte ansiosa, ou então um dos noivos desistiu do enlace, talvez por motivos religiosos? Não é possível saber ao certo. De qualquer maneira, D. João III acabaria por se casar com Catarina de Áustria, a irmã mais nova de Carlos V por tanto tempo presa com sua mãe instável, em 1525, e cuidaria da irmã caçula D. Maria com carinho paternal até sua morte.

catarinadeáustriacarlosreyemperador
Catarina de Áustria, irmã mais nova de Leonor e esposa de D. João III, conforme interpretada por Guiomar Puerta na série Carlos, Rey Emperador

Pouco depois de sua volta à Espanha, Leonor ficou comprometida com o duque de Bourbon como parte de um arranjo de seu irmão para lutar contra o rei de França. Em 1525, contudo, tudo seria alterado com a esmagadora vitória imperial em Pavia. Feito prisioneiro, Francisco I teve que fazer amplas concessões no Tratado de Madri, assinado em 1526, onde ele cedeu muitos territórios e pretensões, além de concordar em enviar dois de seus filhos para ficarem como reféns na Espanha, a fim de garantir o cumprimento dos termos. Além disso, Carlos V propôs que o monarca viúvo voltasse a se casar com sua irmã também viúva, Leonor. Sem escolha, Francisco I aceitou.

leonordeáustria
Leonor em retrato feito quando era rainha de França

Após deixar a Espanha com seus futuros enteados, Leonor encontrou o rei francês na fronteira antes de ser coroada em Saint-Denis em 31 de maio de 1531. Francisco ignorava a esposa na maior parte do tempo, preferindo a companhia de amantes, especialmente Ana de Pisseleu d’Heilly, a duquesa de Étampes. O casal real não teria filhos antes da morte de Francisco em 1547, embora Leonor tenha cuidado das filhas sobreviventes do primeiro casamento do marido com Cláudia de Valois, as princesas Madalena, futura rainha de Escócia, e Margarida, futura duquesa de Saboia.

Após esta segunda viuvez, Leonor foi viver primeiro em Brussels e depois em Espanha, onde ficou com sua irmã Maria na cidade de Jarandilla de la Vera, perto do monastério onde o irmão passou a viver após sua abdicação em 1555. Em 1558, após a morte de D. João III, sua filha D. Maria saiu de Portugal em direção à cidade de Badajoz, onde encontraria sua mãe pela primeira vez em quase trinta anos. Após algumas semanas juntas, a infanta retornaria ao reino de origem, frustrando o desejo de sua mãe para que fosse viver com ela em Espanha. Pouco depois, Leonor, rainha viúva de França e Portugal, faleceria aos 59 anos de idade, antecipando-se ao irmão Carlos e à irmã Maria por poucos meses.

Para saber mais:

http://www.examiner.com/article/historical-profile-eleanor-of-austria

http://www.mujeresenlahistoria.com/2015/09/la-hermana-fiel-leonor-de-habsburgo.html

BRAGA, Paulo Drumond. D. João III. Lisboa: Hugin Editores, 2002.

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

O Saque de Roma (1527)

Em fins de abril de 1527, Isabel de Portugal, irmã de D. João III e esposa de Carlos V, se encontrava no fim da gestação de sua primeira criança com o imperador e rei de Espanha. Um parto no século XVI costumava ser um evento cuidadosamente preparado; temendo a morte, tão comum em nascimentos do período, grande parte das mães inclusive providenciava seu testamento, para caso o pior viesse de fato a ocorrer imediatamente ou pouco tempo após ela dar à luz.

carloseisabel
Álvaro Cervantes e Blanca Suárez como Carlos V e Isabel de Portugal na série Carlos, Rey Emperador

O marido de Isabel, contudo, provavelmente não se encontrava perto dela em Espanha neste momento difícil. No comando de extensos territórios, não poderia se esperar honestamente que Carlos V pudesse se deter por algumas semanas num só lugar à espera do parto da imperatriz, mesmo em tempos de paz. No caso do primeiro nascimento, contudo, talvez tivesse sido mais provável, mas os exércitos imperiais já se encontravam à beira de outro conflito aberto com as tropas francesas na Itália.

As guerras entre Francisco I e Carlos V já ocorriam desde o início da década de 1520, datando aproximadamente da derrota do primeiro perante o segundo na eleição para Sacro Imperador Romano. Neste sentido, a derrota dos franceses nas primeiras hostilidades preocupou o papado e a República de Veneza, que já procuravam afastar Carlos V dos assuntos italianos. Pouco depois de retornar à França após a esmagadora vitória imperial em Pavia, Francisco I renunciou ao seu tratado de paz com Carlos V e juntou-se a eles, assim como Florença, Milão e uma muito hesitante Inglaterra. Eventualmente, uma aliança anti-Habsburgo – chamada Liga de Cognac – foi formada.

Francis1-1
Francisco I de França

Apesar de ter como objetivo estratégico a diminuição do poder do imperador em Itália, os exércitos do rei francês não foram de muita utilidade no início do conflito. A primeira grande batalha ocorreu em junho de 1526, na Lombardia, onde as forças imperiais tentaram sitiar o castelo do duque de Milão, Francisco Sforza. Tendo como principais comandantes Antonio de Leyva e Alfonso del Guasto, além de serem reforçados pelo maior adversário interno do rei francês, o rebelde duque de Bourbon, o exército imperial não pode ser detido pelas tropas combinadas dos estados papais, Milão e Veneza, mesmo depois da chegada do reforço de mais soldados. Derrotados em Milão em fins de julho, só restou à Liga retirar-se do território e tentar tomar a vizinha Cremona. Mesmo sendo bem-sucedidos neste ponto, o sítio anterior permitiu a Carlos V agrupar mais exércitos vindos da Espanha e dos estados alemães. No começo de 1527, eles já estavam ameaçando militarmente a própria Roma.

Quando o exército do duque de Bourbon chegou à capital da cristandade, no início de maio, as tropas, com poucos suprimentos, já haviam se rebelado e entrado em franca rebelião. Sua indisciplina já se manifestara anteriormente com o saque das cidades de Acquapendente e San Lorenzo alle Grotte, mas a autoridade do duque de Bourbon ainda as mantinha sob controle. A morte do duque durante o cerco de Roma, contudo, acabou com isso. Sem uma restrição considerável, o exército invadiu a cidade depois de derrotar as parcas tropas que a defendiam e instaurou o inferno; o sucessor de Bourbon no comando, Phillibert de Châlon, foi incapaz de deter os soldados depois do massacre dos últimos soldados da Guarda Suíça.

800px-Sack_of_Rome_of_1527_by_Johannes_Lingelbach_17th_century
O saque de Roma em 1527, por Johannes Lingelbach

Grande parte do exército, composto em sua maioria alemã por seguidores de Lutero, enxergava o papa Clemente VII como o próprio anticristo, e, na impossibilidade de invadir o refúgio dele no Castelo São Angelo, nos arredores da cidade, degradaram Roma. Na ausência do papa, religiosos foram os principais alvos:  igrejas seriam depredadas, padres e monges assassinados e freiras estupradas. A destruição artística também seria imensa, com pinturas valiosas destruídas e estátuas clássicas quebradas. O incalculável valor dos livros da Biblioteca do Vaticano só seria poupado porque o comandante Phillibert, talvez num movimento estratégico, instalou seu quartel general ali depois que entrou na cidade. Pouco depois, um inimigo pessoal do papa, cardeal Pompeo Colonna, seguiu as tropas invasoras para dentro da cidade. Apesar de manter seu apoio ao imperador Carlos V, Pompeo apiedou-se das condições miseráveis dos cidadãos romanos e abrigou muitos deles em seu palácio.

Finalmente, em 6 de junho, Clemente VII rendeu-se e concordou em pagar  400.000 ducados por sua libertação, além de ceder os territórios de Parma, Placenza, Modena e Civitavecchia ao imperador. Veneza também anexaria Cervia e Rovenna. No mínimo 6.000 romanos morreram no saque de Roma, com o total real provavelmente atingindo o dobro deste número. Fragilizado politicamente pela invasão, o papa teve que ceder às vontades de Carlos V até sua morte, incluindo negar os pedidos do rei inglês Henrique VIII para que ele anulasse seu primeiro matrimônio com a tia do imperador, Catarina de Aragão.  A recusa de Clemente VII eventualmente levaria este monarca a romper relações com Roma, o que possibilitaria a criação da Igreja Anglicana.

El_Saco_de_Roma
Saque de Roma, por Francisco Javier Amérigo Aparicio

Apesar da estrondosa vitória, Carlos V ficaria profundamente constrangido com a falta de controle das tropas, que inclusive permaneceriam em Roma até o fim dos mantimentos e o começo de uma epidemia de peste em fevereiro do ano seguinte. É de se pensar que seu cunhado profundamente religioso, D. João III, tenha ficado consternado com as trágicas notícias, assim com sua esposa, Catarina de Áustria, irmã mais nova do imperador. O embaraço do próprio Carlos V, porém, logo seria amaciado pelo sucesso do parto da imperatriz Isabel: em 21 de maio, com ou sem a presença do imperador, nasceria o esperado herdeiro homem, Felipe. A Era Dourada do Império Espanhol, portanto, literalmente viria à luz em meio ao choque do assassinato e do massacre, o que não deixa de representar uma faceta menos conhecida do império onde o sol nunca se punha.

Para saber mais:

https://www.onwar.com/aced/chrono/c1500s/yr20/leagueofcognac1526.htm

http://www.historyofwar.org/articles/wars_second_hapsburg_valois.html

http://www.historyofinformation.com/expanded.php?id=3958

http://www.encyclopedia.com/topic/Sack_of_Rome.aspx

http://www.seattlecatholic.com/article_20040427.html

Isabel de Aragão, a filha dos Reis Católicos – parte I

Nascida em 02 de outubro de 1470, Isabel de Aragão era a filha primogênita da infanta Isabel, meia-irmã do rei Henrique IV de Castela, e do príncipe Fernando, herdeiro do reino vizinho como filho de João II de Aragão. O próprio casamento de seus pais já ocorrera cercado de polêmica: sua mãe, líder de uma facção contrária aos direitos sucessórios da pretensa princesa Joana, tivera que fugir secretamente da corte para se encontrar com o prometido, que viajara disfarçado como servo até Valladolid, e assim evitar que Henrique IV a forçasse a algum compromisso matrimonial. Sendo primos de segundo grau, ambos necessitariam de uma dispensa papal para se unirem legalmente, mas a suposta bula que foi apresentada era assinada pelo papa Pio II, falecido cinco anos antes do casamento deles, muito embora o papa da época fosse Sisto VI.

Isabel_la_Católica-2
Isabel I de Castela

Embora a consumação física imediata do contrato nupcial entre seus pais anulasse maiores perigos da pequena infanta ser considerada ilegítima, o fato é que o nascimento de Isabel aprofundou as tensões entre sua mãe e seu tio, que ainda procurava restabelecer sua dita filha como herdeira do trono castelhano. Quando, em 1474, Henrique IV faleceu, a guerra civil estourou. Apoiando a sobrinha e noiva, D. Afonso V de Portugal invadiu Castela em maio de 1475 e, com Joana, proclamou-se soberano legítimo de Castela, pretensão igualmente defendida por Fernando de Aragão. A Guerra de Sucessão Castelhana, porém, permaneceria indefinida até a batalha de Toro, em 1º de maio de 1476, onde as tropas portuguesas debandaram. Provando ter uma grande visão política, Isabel aproveitou o momento para convocar as Cortes, onde sua filha e homônima foi jurada como herdeira presuntiva. A verdadeira consolidação da posição da rainha Isabel, contudo, ocorreria apenas em fins de junho de 1478, quando ela daria à luz ao príncipe João, que assumiria a partir daí a posição da irmã mais velha.

Mesmo que tenha perdido a proeminência sucessória, Isabel ainda foi uma peça importante nas negociações de paz entre Castela e Portugal. Durante a duração das chamadas Terçarias de Moura, a infanta foi criada sob os auspícios de D. Beatriz, duquesa de Viseu, servindo simbolicamente como uma garantia do bom comportamento político dos Reis Católicos, que por sua vez procuravam garantir a neutralização da Beltraneja – que, aliás, compartilharia da vigilância feita à infanta. O lado espanhol também não deixaria de estabelecer condições próprias, requisitando um dos filhos da duquesa de Viseu para ser criado em seu território. Como D. Diego, o mais velho, encontrava-se doente, seu irmão D. Manoel o substituiu como refém. O único filho do rei de Portugal, D. Afonso, também teria seu papel a desempenhar nas negociações.

fernandodearagão
Fernando II de Aragão

Como elemento de troca diplomática muito bem estabelecido no início da era moderna europeia, os arranjos nupciais também eram parte fundamental em tratados de paz entre os reinos. Além de poder aquietar as disputas dinásticas por uma simples união familiar, um casamento também poderia literalmente unificar as pretensões opostas que motivaram a beligerância. No caso da infanta Isabel, que possuía apenas um irmão criança para herdar as possessões dos pais, um matrimônio com o herdeiro do trono português, embora não necessariamente unificasse os domínios, ainda prometia muitas vantagens diplomáticas. Esta foi uma das razões pela qual a união foi perseguida desde o início da negociação do Tratado de Alcáçovas em 1479, muito embora os Reis Católicos fizessem esforços posteriores para trocar a primogênita pela segunda filha, a infanta Joana, nascida em 1479; de fato, a própria entrega da infanta Isabel teve algumas dificuldades impostas. Eventualmente, contudo, a menina seria entregue, unindo-se ao príncipe D. Afonso na vigilância da duquesa de Viseu. Ela já tinha quase 10 anos; ele apenas completara 5.

Leonor de Viseu – parte I

Nascida em 2 de maio de 1458, no ducado do pai, o infante D. Fernando, Leonor de Viseu era a primogênita mulher (terceira filha) do casamento deste com sua prima distante, a infanta D. Beatriz. A ascendência dela era, logo, duplamente real, uma vez que seus progenitores eram igualmente descendentes de D. João I de Portugal.  Além disso, seu pai D. Fernando era também filho do rei D. Duarte e irmão do monarca reinante, D. Afonso V, além de tio do herdeiro D. João; em realidade, D. Leonor era pouco mais nova do que este, e ambos passariam grande parte da infância juntos, desenvolvendo uma grande amizade.

D. Afonso V de Portugal
D. Afonso V de Portugal

Neste panorama, um projeto nupcial começou a se desenhar, e o rei D. Afonso V entrou em conversas com o irmão mais novo para casarem os filhos, no que seria outro matrimônio intra-familiar na Casa de Avis. Na década de 1470, não existiam de fato muitas alternativas; as Casas dos demais infantes haviam-se reduzido demais em número, não tendo filhas da idade apropriada, e as relações de Portugal com os demais reinos ibéricos encontravam-se débeis, especialmente com Castela, a única que poderia disponibilizar uma princesa da idade certa, a herdeira Joana.

Assim sendo, o fato de D. João ter estima por sua futura esposa foi, em vários sentidos, um acaso, uma vez que isto estava longe de ocupar a prioridade na questão de casamentos políticos. Na verdade, no labirinto que era as relações entre a nobreza do período, o duque de Viseu casou, ao mesmo tempo, a filha mais velha com a Coroa, e a mais nova – D. Isabel – com aquela família que representava a resistência da aristocracia portuguesa ao centralismo régio, os Bragança. Pondo em termos simplistas, o casamento de D. João foi feito com o principal aliado da Casa real, que ao mesmo tempo flertava com o inimigo. De qualquer maneira, a união do príncipe se realizaria por fim no dia 22 de janeiro de 1470. Leonor tinha apenas 12 anos, e João 15. Pouco mais de cinco anos depois, nasceria o primeiro filho do casal, batizado em homenagem ao rei D. Afonso V, ocasionando festas e manifestações de alegria por todo o reino.

Isabel I de Castela
Isabel I de Castela

O príncipe D. João, contudo, não se encontrava presente ao nascimento do filho, ou mesmo para visitar sua esposa após o parto. Não por frieza aos eventos, mas sim pelo fato de estar liderando exércitos para guerrear contra Castela naquele momento; quando D. Afonso nasceu, em 18 de maio de 1475, seu avô já invadira o reino vizinho para defender os direitos ao trono de sua sobrinha – e futura esposa – Joana, suposta filha de Henrique IV. O príncipe João o acompanharia, deixando D. Leonor em gravidez avançada em Lisboa. Depois de testemunhar o casamento de seu pai com a rainha de Castela, João retornou a Portugal, onde atuou como regente na ausência de D. Afonso V. Pouco depois, contudo, o príncipe se dirigiu apressadamente para socorrer as tropas do pai, cercada pelos aragoneses.

Embora a atuação de D. João tenha sido eficiente, não impediu as tropas portuguesas de serem desbaratadas e derrotadas na batalha de Toro, que marcou a virada castelhana na guerra de sucessão. Após procurar pessoalmente um maior auxílio de França, aliada de Portugal na guerra, um desiludido rei abdicou em nome do príncipe D. João, escrevendo-lhe para que assumisse o trono. Inicialmente, o filho obedeceu e foi jurado monarca numa cerimônia privada, com D. Leonor como sua rainha. Pouco depois, contudo, quando D. Afonso V foi convencido a retornar a Portugal e reassumir o posto, o filho devidamente renunciou e retornou ao seu grau nobiliárquico anterior.

Joana de Castela, a ‘Beltraneja’ – parte II

Em princípio, Joana parecia ter ligeira vantagem no confronto. Além do apoio da alta nobreza castelhana, ela ainda contava com importantes membros do clero e algumas Casas de origem portuguesa, sem contar seu poderoso tio, o rei Afonso V, que em breve também oficializaria as negociações nupciais existentes há tempos e se tornaria seu marido em 25 de maio de 1475, seguindo uma invasão bem-sucedida das tropas portuguesas em Castela. Por seu lado, Isabel tinha o apoio de Aragão, de Casas castelhanas menores e de membros do clero, mas também tinha ao seu lado dois importantíssimos trunfos: a poderosa Casa de Medina-Sidônia e o suposto pai biológico de Joana, Beltrán de la Cueva.

Isabel I de Castela em sua maturidade
Isabel I de Castela em sua maturidade

Apesar de sua pouca idade, Joana foi considerada uma líder promissora nas primeiras Cortes que presidiu com seu marido pouco após o matrimônio. O apoio a Isabel, contudo, crescia, embora a guerra ainda estivesse indefinida até 1º de maio de 1476, quando ocorreu a batalha de Toro. Ali, as tropas portuguesas recuaram e debandaram perante as aragonesas, marcando uma grande derrota do partido de Joana, que então partiu para a cidade portuguesa de Abrantes para sua proteção. Provando ter uma grande visão política, Isabel aproveitou o momento da ausência da rival para convocar suas próprias Cortes, onde sua filha primogênita e homônima foi jurada como herdeira, simbolizando a legitimidade da própria Isabel; o nascimento de seu filho João em 1478 a fortaleceria ainda mais.

Depois de repelir os franceses, aliados de Portugal, e garantir o recuo de D. Afonso V e Joana, a Guerra de Sucessão Castelhana basicamente se limitou aos confrontos navais e breves revoltas internas contra o domínio crescente de Isabel, sufocadas com rapidez. Em fevereiro de 1479, Portugal sofreu mais um grave revés quando a dispensa papal que havia garantido o casamento de tio e sobrinha foi anulada, prejudicando em muito a pretensão de D. Afonso V. Sem escolha, o rei teve que concordar com um tratado de paz. Assinado na vila de Alcáçovas em 4 de setembro de 1479 e ratificado por ambos os lados no ano seguinte, ele consistiu basicamente na renúncia de D. Afonso V a qualquer direito ao trono castelhano, assim como a Joana, com quem não tivera filhos ou talvez sequer consumara o casamento.

Joana de Castela, dita a 'Beltraneja', interpretada por Carmen Sánchez na série Isabel (2011-14)
Joana de Castela, dita a ‘Beltraneja’, interpretada por Carmen Sánchez na série Isabel (2011-14)

Após ter renunciado oficialmente à sua pretensão como rainha de Castela e Portugal, o destino de Joana ficou entre duas alternativas oferecidas por Isabel: ou ela se casaria com seu filho João quando este atingisse a maioridade, ou então entraria para um convento e professaria votos de castidade. Joana escolheu a vida religiosa, se juntando ao convento de Santa Clara em Coimbra, embora se recusasse a professar os votos até o fim de sua vida. Até mesmo por isso, sua importância dinástica não padeceu de imediato, e ela recebeu propostas de casamentos até a sua velhice. Em 1504, após a morte de Isabel, Fernando II de Aragão tentou casar-se com ela para fazer frente à pretensão da filha e do genro ao trono castelhano, mas Joana se recusaria, preferindo continuar uma vida religiosa relativamente livre em Portugal, embora não ausente de orgulho. Afinal, quando ela morreu em Lisboa em 1530, ainda assinava como “La Reina”.

Para saber mais:

ELLIOT, J.H. “La unión de las coronas.” In: La España imperial. 1469-1716. Madrid: RBA Collecionables, 2006. (1ª edição 1963).

http://www.arqnet.pt/dicionario/joanad1.html

Joana de Castela, a ‘Beltraneja’ – parte I

Única filha oficialmente resultante do casamento entre Henrique IV de Castela e Joana de Portugal, a princesa Joana nasceu em fins de fevereiro de 1462. Pela via materna, ela era sobrinha do rei D. Afonso V; pela via paterna, ela era a herdeira presuntiva ao trono de Castela na ausência de irmãos homens. Contudo, ela nascera após sete anos de esterilidade matrimonial, quando já se considerava que Henrique IV era de fato impotente – como sua primeira esposa rejeitada, Blanche de Navarra, alegava, com um casamento de mais de uma década sem consumação para apoiá-la.

Joana de Portugal
Joana de Portugal

De qualquer forma, o rei pareceu reconhecer a jovem Joana como sua herdeira desde o seu nascimento, convocando inclusive seus meios-irmãos Isabel e Afonso para testemunhar o parto da rainha. Após o evento bem-sucedido, a primeira foi colocada na equipe de damas de honra que servia Joana de Portugal, enquanto Afonso, o antigo herdeiro presuntivo, começou sua educação oficial com um tutor. Não muito após o nascimento da princesa Joana, entretanto, começariam os rumores que ela não era a filha do rei, mas sim fruto de um relacionamento da rainha com o nobre Beltrán de la Cueva. O nascimento de duas crianças ilegítimas não muito depois, concebidas durante o caso que a rainha Joana teve com o sobrinho de um bispo, prejudicou em muito a posição da princesa; em primeiro lugar, porque o matrimônio de seus pais acabaria dissolvido em decorrência destes eventos escandalosos, e em segundo porque a conduta de sua mãe testemunhava diretamente contra a sua pretensa legitimidade. Agora, uma facção considerável da nobreza defendia que Joana, a Beltraneja (filha de Beltrán) não poderia suceder ao rei e defendiam os direitos do príncipe Afonso na rebelião que fatalmente se seguiu.

Após a Segunda Batalha de Olmedo, em 1467, Henrique IV e Afonso atingiram finalmente um consenso: o último sucederia ao rei se se casasse com a princesa Joana. Afonso, porém, não viveu muito tempo depois de ser reconhecido como o herdeiro do trono castelhano, sendo vítima da praga (ou do veneno, segundo rumores) logo no ano seguinte. Como herdeira de seu irmão, Isabel tornou-se a líder da causa rebelde. A facção da nobreza liderada por ela, porém, não era forte o suficiente para depor o rei. Novamente, então, os dois lados chegaram a um acordo: Henrique IV nomearia Isabel como sua herdeira presuntiva antes de Joana, mas Isabel não se casaria sem a permissão do irmão. Não muito tempo depois, contudo, o rei estava tentando casar Isabel com D. Afonso V de Portugal, ao mesmo tempo em que negociava uma união entre sua filha Joana e o herdeiro de D. Afonso, o príncipe D. João: assim, tia e sobrinha reinariam consecutivamente tanto em Castela quanto Portugal.

Henrique IV de Castela
Henrique IV de Castela

Neste contexto, o casamento secreto entre Isabel de Castela e o herdeiro Fernando de Aragão, já em 1469, precipitou o início da luta pela sucessão do trono castelhano, com Henrique IV procurando restabelecer Joana como sua herdeira. A esta altura, a princesa já tinha sete anos, e negociações matrimoniais para sua mão já haviam começado com alguns príncipes franceses, embora ainda sem um compromisso mais aparente quando, em 1474, Henrique IV faleceu. Quase que imediatamente, as pretensões opostas de tia e sobrinha se chocaram, e a Guerra de Sucessão Castelhana começou.

Isabel de Coimbra – parte II

Em abril de 1441, temendo a oposição do conde de Barcelos, antigo aliado da rainha D. Leonor, o duque de Coimbra realizou os votos iniciais dos esponsais do rei e de sua prima, que na época ainda não passavam de crianças. Anos depois, mais maduros, ambos seriam encaminhados para a união de fato. Parece extremamente provável que a consumação tenha sido adiada pelo regente até que sua filha estivesse fisicamente madura, diminuindo assim as chances de possíveis complicações no parto. Porém, mesmo depois da união oficial em 1447, o regente demorou a repassar as responsabilidades do governo para o rei, já um homem feito. Isso estimularia as intrigas da corte, chefiadas pelo outro tio do monarca, o recém-elevado duque de Bragança, que começava a desfrutar cada vez mais do favor de D. Afonso V. Neste conflito, a rainha assumiria o papel de mediadora – à semelhança de tantas consortes portuguesas antes dela – procurando evitar consequências trágicas na disputa entre os tios do rei.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

As fortes personalidades dos três homens envolvidos, contudo, dirigiram os eventos para uma rota de colisão. Apesar de se utilizar de palavras suaves para tentar convencer o marido a aceitar o pai de volta à corte, D. Isabel não conseguiu lutar contra as correntes cada vez mais contrárias ao seu pai, enquanto o duque de Coimbra, ao procurar garantir a sua honra, não protegeu a sua integridade física. Entrando em conflito com as forças reais na batalha de Alfarrobeira, em 20 de maio de 1449, D. Pedro morreu. Na sequência do conflito, seus filhos e filhas tiveram que partir para o exílio, e a própria rainha encontrou-se em perigo, com a anulação de seu casamento sendo considerada por uma facção considerável da nobreza, a fim de que D. Afonso V se unisse à uma donzela mais adequada. O rei, porém, recusou a possibilidade e continuou a tratar D. Isabel com toda a consideração adequada à sua posição.

Neste contexto, a vida da rainha correu sério perigo até a descoberta de sua primeira gravidez logo no ano seguinte. O infante nasceria em 29 de janeiro de 1451, sendo batizado em homenagem ao bisavô e fundador da dinastia de Avis, D. João I. Em breve se seguiria mais uma gestação, que daria origem a infanta D. Joana. Depois destes sucessos, a rainha pediu ao rei – e foi atendida – que seu pai fosse devidamente sepultado no mosteiro da Batalha. Pouco depois, o herdeiro João faleceu; não muito tempo após, contudo, nasceu outro menino para o casal, que foi nomeado em homenagem ao irmão morto. Ele seria o futuro rei D. João II.

D. João II de Portugal
D. João II de Portugal

Alguns meses depois deste novo nascimento, D. Isabel ficou severamente doente, sofrendo de hemorragias. Pelo tempo, não se tratava de complicações no parto; problemas relacionados à um aborto ou um nascimento prematuro também não são prováveis, considerando-se que as crônicas nada mencionam a este respeito. Tendo em vista a rapidez da degeneração no estado da rainha, a hipótese de veneno parece ser confirmada. Se os responsáveis esperavam um novo casamento do rei, enganaram-se; apesar de lhe restar apenas um herdeiro homem vivo, D. Afonso V fez um voto de castidade em honra da falecida esposa. Décadas depois, porém, ele o romperia para casar-se com a sobrinha, a infanta Joana, no contexto da guerra de sucessão castelhana.

Para saber mais:

FREITAS, Isabel Vaz de. D. Isabel de Coimbra – Insigne Rainha (1432-1455). Disponível em: http://repositorio.uportu.pt/jspui/bitstream/11328/974/1/D.%20Isabel%20de%20Coimbra.pdf .

Leonor de Aragão – parte III

De fato, a guerra pareceu quase desde o começo um desastre consumado, e assim procedeu; nos confrontos com os muçulmanos, os portugueses saíram derrotados, e a retirada de volta ao reino foi um martírio de fome e sede. Além disso, o infante D. Fernando foi capturado, e o preço para o seu resgate era a devolução de Ceuta, conquistada décadas antes por D. João I. Atormentado pela prisão do irmão, D. Duarte tentou fugir com a família da peste que assolava Portugal, mas quando chegou à cidade de Tomar já estava doente, agonizando numa questão de dias. Novamente grávida, a rainha foi afastada dele, juntamente com as crianças do casal. Os irmãos do rei, incluindo o ilegítimo D. Afonso, apressaram-se a ir encontrá-lo quando se percebeu que o quadro de D. Duarte era fatal, mas não conseguiriam chegar a tempo. Ainda grávida, D. Leonor se tornaria uma viúva em 9 de setembro de 1438. O novo rei, D. Afonso V, era seu filho, e tinha apenas seis anos de idade.

D. Afonso V de Portugal
D. Afonso V de Portugal

Depois dos funerais de D. Duarte e da proclamação de seu filho mais velho, D. Afonso, como novo rei de Portugal, o testamento do falecido foi finalmente aberto. Não é sabido exatamente quando o fez, mas provavelmente, devido às suas disposições, foi já perto de sua morte. De qualquer forma, o documento era incendiário; declarava, já de início, que a rainha D. Leonor deveria ser a tutora, curadora e regente dos filhos do casal, incluindo o herdeiro D. Afonso. Além disso, uma determinada quantia era deixada para a negociação da libertação do infante D. Fernando, seu irmão mais novo. Se isso não fosse suficiente, o falecido rei determinava que a colônia de Ceuta fosse cedida de volta aos infiéis como preço pela volta de D. Fernando.

Ambas as questões tinha ferrenhos oponentes. No tocante à segunda, porém, a procrastinação logo se mostrou ser uma arma valiosa. A negociação pela volta do infante foi tão postergada que o mesmo acabaria por morrer ainda em possessão dos inimigos no ano de 1443, cinco anos após a falecimento do rei D. Duarte.  Agora, quanto à regência a situação era mais difícil. Seria a quinta regência pela qual passaria o reino, a terceira chefiada por uma mulher. Considerando-se os antecedentes – Teresa Henriques, expulsa do reino pelo próprio filho, e Leonor Teles, expulsa para o reino do genro – as perspectivas de Leonor de Aragão não pareciam boas.

Alguns meses depois da morte do marido, D. Leonor deu à luz a última filha deles, a infanta D. Joana, futura rainha de Castela. Neste momento, ela já assumira a regência, confirmada pelas Cortes de Torres Novas de 1438, mas as resistências contra ela era muitas. Seu sexo, sua inexperiência política e seu nascimento e criação em Aragão faziam com que sua escolha para regente, na verdade, fosse um mero respeito às vontades do falecido rei D. Duarte enquanto outros candidatos, como o infante D. Pedro, iam reunindo aliados entre a nobreza. A cidade de Lisboa, contudo, rapidamente se rebelou após a escolha das Cortes, e sua insatisfação só foi contida por tropas do irmão de Leonor, o conde de Barcelona.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

A situação marcou a fim da vantagem da rainha. Mesmo apoiada pelo irmão ilegítimo de D. Duarte, D. Afonso, e fazendo múltiplas concessões a D. Pedro na criação de D. Afonso V, ela perdera a vantagem que a vontade póstuma do marido lhe fornecera. Eventualmente, as Cortes de Lisboa escolheram D. Pedro, duque de Coimbra, como o novo regente. A rainha viúva conspiraria até o ano seguinte para recuperar a regência do cunhado, mas sem sucesso; em dezembro de 1440, D. Pedro a forçaria a partir de volta para Castela, onde ela morreria em 1445.

Para saber mais:

DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Círculo de Leitores, 2005.

A Crise de 1383-85 – parte III

A guerra civil portuguesa não apenas dividiu o reino de Portugal, mas também as famílias que nele habitavam. Para ficar apenas em um exemplo mais concreto: o irmão mais velho do condestável do Mestre de Avis, Nuno Álvares Pereira – ironicamente, o antigo escudeiro de D. Leonor – era um dos principais comandantes do lado do rei de Castela. Diferentemente do que se possa imaginar, as classes sociais não se confrontaram, mas sim se dividiram entre ambas as facções ou em nome do ideal patriótico representado pelo Mestre de Avis ou então em nome do direito da herdeira do trono D. Beatriz.

Após ter tido a regência cedida para si, João I de Castela rumou para cercar Lisboa por terra e mar, apenas para ter suas tropas dizimadas pela peste e ser forçado a retirar-se, levando sua rainha doente consigo, no início de setembro. Enquanto o rei gastava forças tentando submeter a capital, Nuno Álvares Pereira avançou pelo Alentejo e venceu em nove de abril a Batalha dos Atoleiros, onde estivera em desvantagem numérica. No mar, os navios portugueses atacavam as costas da Galícia, investindo contra as embarcações castelhanas onde estavam ancoradas. No ano seguinte, o Mestre de Avis superou as pretensões superiores dos infantes D. João e D. Dinis – vistos como excessivamente simpáticos ao monarca de Castela – e foi eleito rei de Portugal nas Cortes de Coimbra, reunidas em março.

Representação da batalha de Aljubarrota
Representação da batalha de Aljubarrota

Pouco depois, o agora D. João I de Portugal partiu para tomar algumas cidades que ainda resistiam. Foi bem-sucedido, mas pouco depois chegou a notícia de nova ofensiva castelhana a norte de Lisboa, que procurava conquistar Lisboa e cortar as linhas de abastecimento portuguesas. Após muitas discussões na reunião do conselho e a hesitação do rei de como proceder, Nuno Álvares Pereira retirou-se impulsivamente e partiu para enfrentar o inimigo na famosa batalha de Aljubarrota, em 14 de agosto de 1385. Novamente em inferioridade numérica, apesar de ter um expressivo auxílio de tropas inglesas, os portugueses atacaram com tanto ímpeto que João I de Castela fugiu às pressas para embarcar de volta para o seu reino. Depois da vitória avassaladora, que ficaria marcada como um dos eventos mais marcantes da história de Portugal, as cidades que ainda se aliavam ao rei castelhano renderam-se.