Isabel de França – parte II

Atraente e inteligente, a rainha aparentemente tinha o amor do povo e de seu marido, muito embora Olivares procurasse estimular o que ele chamava de “ardores da pueril sensualidade” de Felipe IV, e, assim, afastar o perigo de uma maior influência de Isabel ao dividir os afetos do jovem rei. A rainha mesma era suspeita de não manter inteiramente seus votos de matrimônio. Em maio de 1622, quando um pequeno incêndio começou no meio da encenação de uma peça do conde de Villamediana, o próprio autor conduziu a rainha para segurança com uma proximidade que despertou suspeitas da corte. Pouco depois, ele foi assassinado, num crime que bem pode ter sido ordenado por Felipe IV em pessoa.

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Isabel de França

De qualquer forma, estes casos extraconjugais não atrapalhavam o casal real em continuar tentando produzir um herdeiro do trono. Em novembro de 1623, nasceria outra filha, seguida por outra menina dois anos depois; entretanto, as infantas Margarida Maria e Maria Eugênia também viveriam pouco. No ano seguinte, uma nova gravidez terminaria num parto prematuro, e em outubro de 1627 viria à luz Isabel Maria, mais uma filha de curta vida. A despeito das frequentes tragédias familiares, porém, o rei não abdicaria de suas várias amantes, e em abril de 1629 uma delas – a atriz Maria Calderón – teve o único filho ilegítimo que Felipe IV reconheceria como seu, chamado de João. Este nascimento colocaria, como era natural no período, grande pressão sobre Isabel, grávida na época; em outubro ela finalmente daria à luz o tão esperado menino, nomeado com o incomum nome de Baltasar.

A década de 1630 testemunharia mais nascimentos reais; em 1634, um menino – Francisco – que viveu pouco, seguido em 1636 por Maria Ana, que também teve falecimento precoce. Em 10 de setembro de 1638, nasceria uma menina que sobreviveu, a infanta Maria Teresa. Apenas cinco dias antes, nascera em França o primeiro filho sobrevivente do irmão de Isabel, Luís XIII, e Ana de Áustria, irmã de Felipe IV; provavelmente uma união entre as duas crianças já então foi considerada pelas Coroas. Nos anos seguintes, a rainha Isabel teria no mínimo dois partos prematuros, e não haveria mais crianças de seu casamento com Felipe IV.

Paralelamente ao processo de fim de sua importância reprodutiva, a rainha Isabel crescia em importância política. De acordo com a mentalidade da época, a produção de dois herdeiros vivos deve ter contribuído para aumentar a confiança do rei na capacidade governamental da consorte, embora também seja certamente provável que a doença progressiva do valido Olivares, junto com seus fracassos recentes em política externa e econômica, tenha ajudado neste processo. De fato, além de forçar a partida de Olivares da corte, ela pôde ser regente de Espanha enquanto seu marido lidava com a revolta catalã no início da década de 1640, mostrando de fato aptidão superior à do marido para lidar com questões burocráticas.

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Felipe IV de Espanha

O excesso de trabalho, contudo, piorou a frágil saúde de Isabel, que já sofria anteriormente de problemas no estômago. Em outubro de 1644, ela ficaria retida à cama. Sangrias foram realizadas, mas o estado da rainha apenas se agravava, e contra os desejos iniciais dela, seu marido foi chamado. Quando Felipe IV chegou à Madri, porém, o corpo de sua esposa já esfriava. Pouco antes de sua morte aos 41 anos de idade, Isabel de França despediu-se do príncipe Baltasar e da infanta Maria Teresa. Com medo de qualquer possível contágio, ela não teria deixado que eles se aproximassem, dizendo: “Rainhas havia muitas para Espanha, mas príncipes muito poucos”.

Suas palavras eram proféticas. Pouco mais de dois anos depois que a rainha foi sepultada vestida em um hábito da ordem de São Francisco, seu filho Baltasar padeceu subitamente. Felipe IV, além de ver o Portugal dos Bragança sair cada vez mais de seu alcance, ainda se encontrava sem herdeiro varão. Para procurar resolver tal questão, ele casou-se contra a vontade com a antiga prometida do príncipe, sua sobrinha Mariana de Áustria, em 1649, numa união que eventualmente lhe traria satisfação e outro príncipe: o futuro Carlos II. Seria com este deformado rei, contudo, que a dinastia dos Habsburgo espanhóis conheceria o seu fim e seria substituída pelo ramo da Casa Bourbon descendente da rainha Isabel por meio de sua filha Maria Teresa, rainha de França.

Para saber mais:

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2012.

CANTÓ, Pilar Perez et all. Rainhas de Portugal e Espanha – Margarida de Áustria e Isabel de Bourbon. Temas e Debates, 2015.

Leonor de Viseu – parte III

A partir da separação do marido, D. Leonor passou a dedicar-se basicamente a uma vida de oração e contemplação, além de cuidados com seu único e adorado filho, o príncipe D. Afonso, e eventuais visitas à corte. Em 29 de novembro de 1490, o herdeiro do trono se casou com sua antiga prometida, Isabel de Aragão. Após grandes festas em Évora, o novo casal foi se estabelecer em Santarém em julho seguinte, sendo acompanhados na viagem pelo rei e pela rainha. Em meio aos entretenimentos, o herdeiro do trono português desafiou o fidalgo D. João de Meneses para uma corrida. Foi quando ocorreu a tragédia: em meio à disputa, o cavalo de D. Afonso tropeçou e caiu, derrubando o príncipe e caindo sobre ele, deixando-o inconsciente. Seu estado foi piorando gradativamente até 13 de julho, quando finalmente morreu, deixando seus pais inconsoláveis e uma jovem viúva arrasada.

Infanta Isabel de Aragão
Infanta Isabel de Aragão

Sem nenhum filho legítimo restante e impossibilitado de qualquer forma de produzir algum com D. Leonor devido à saúde frágil desta, D. João II começou a planejar a legitimação de D. Jorge, seu filho ilegítimo com Ana de Mendonça. Isso provocou a resistência acirrada da rainha. Segundo o costume, os sucessores de direito de D. João II eram os filhos de seu falecido tio D. Fernando, os irmãos da rainha; depois do assassinato jurídico de D. Diego, duque de Viseu, era agora D. Manuel, duque de Beja, que ocupava tal posição. Para evitar este evento, o rei procuraria Roma para legitimar o bastardo, pedido que lhe foi negado por influência desestabilizadora dos Reis Católicos, já de posse da filha Isabel, que para lá retornara depois da morte do marido. Sem escolha e adoecendo cada vez mais, D. João II acabou cedendo e nomeando D. Manuel como seu sucessor no trono. Morreu pouco depois com apenas 40 anos.

Quando ascendeu à Coroa em 1495, o irmão mais novo de D. Leonor já tinha 26 anos, mas ainda não se casara. Neste panorama, a própria rainha era a sua herdeira caso ele falecesse prematuramente, embora ela manifestasse o desejo de abdicar do juramento como sucessora da Coroa em nome de sua irmã D. Isabel, viúva do duque de Bragança, que tinha filhos homens sobreviventes. Pouco tempo depois, de qualquer forma, ficou acertado que D. Manuel se casaria com a antiga nora de Leonor, a infanta Isabel, que acabaria tendo um menino pouco antes de sua falecimento por complicações em seu único parto, em 1498.

Após a morte da primeira esposa e pouco tempo antes do falecimento de D. Miguel, o rei casou-se pela segunda vez com Maria de Aragão, quarta filha dos Reis Católicos, com quem teria ampla descendência. Neste panorama, D. Leonor perdeu gradativamente sua importância sucessória, e passou a dedicar-se cada vez mais à caridade, doando parte de sua imensa fortuna para construir a Santa Casa de Misericórdia e o Hospital Real de Todos os Santos, considerado o melhor da época, além de vários conventos. Em um deles, ela viveria seus últimos anos praticamente como uma freira, falecendo já durante o reinado do sobrinho, D. João III, em 17 de novembro de 1525.

Para saber mais:

FONSECA, Luís Adão de. D. João II.  Círculo de Leitores, 2012.

DELURUE, Maria Luisa; OLIVEIRA, Maria Manuela. D. João II – um rei emblemático. Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000.

Leonor de Viseu – parte II

Nas negociações posteriores para a paz com Castela, D. Afonso V abdicou da esposa Joana, que se recolheu para um convento. Os herdeiros dos tronos foram, neste sentido, utilizados como barganha para assegurar o bom comportamento das partes; quando a infanta Isabel, primogênita dos Reis Católicos, foi enviada para a vila fronteiriça de Moura, encontrou lá o jovem D. Afonso, de apenas cinco anos, único filho legítimo do rei, que fora separado de sua mãe D. Leonor alguns meses antes. Ambos foram criados juntos sobre a guarda de D. Beatriz, duquesa de Viseu. Rapidamente, se efetuaria a negociação de um futuro casamento entre eles.

D. João II de Portugal
D. João II de Portugal

A esta altura, o príncipe D. João já se tornara novamente rei com a morte de D. Afonso V em 28 de agosto de 1481. Com sua ascensão definitiva ao trono, as tensões políticas em Portugal cresceram. Honrado, rígido e avesso às intrigas palacianas, o novo rei era tido em pouca conta pelas poderosas famílias nobres que dominavam Portugal, como os Bragança e os Viseu, seus próprios parentes, que ficaram descontentes com o fortalecimento excessivo da autoridade real patrocinada por D. João II. Visando subordinar tais súditos excessivamente poderosos, o rei determinou que um novo juramento de vassalagem, a ser feito em Évora, que incluiria agora um reconhecimento tácito dos nobres à soberania do rei português. O primeiro que faria o juramento perante o restante da nobreza convocada seria exatamente D. Fernando, terceiro duque de Bragança, como esperado do chefe da maior Casa do reino de Portugal. Mas D. Fernando, em conselho régio, hesitou e protestou consideravelmente antes de assinar o compromisso, possivelmente porque os termos de obediência foram considerados pela nobreza presente como sendo prejudiciais às honras e privilégios que detinham há gerações. Ele seria apoiado nisso pelo seu cunhado, o duque de Viseu.

Suspeitando de uma conspiração contra ele, D. João II impôs o exame das contas ducais dos envolvidos na questão por corregedores, que eventualmente descobriram correspondência incriminatória entre o duque de Bragança e os reis de Espanha, Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Após um curto julgamento, o duque de Bragança foi executado em Évora. O duque de Viseu, parente direto do monarca português pelo casamento deste com sua irmã, também não foi poupado e logo seria assassinado pessoalmente pelo rei com golpes de punhal, aniquilando assim o último foco de resistência perante seu governo centralizador. Os Bragança restantes tiveram seus bens confiscados pela Casa real e fugiram em exílio para a Espanha.

D. Leonor de Viseu
D. Leonor de Viseu

Segundo o relato de uma fonte da época, quando a rainha D. Leonor tomou conhecimento da morte do irmão pelas mãos do marido, teve um ataque histérico e começou a gritar em desespero. Sabendo disso, D. João II ordenou-lhe que parasse, ou então seria acusada de conivência com a conjura. A esposa o obedeceu. Pouco antes, ela tivera um parto prematuro, com o bebê não sobrevivendo muito tempo após o nascimento; depois disso, foi recomendado que o casal não tentasse mais ter filhos, num contexto em que a amante do rei, Ana de Mendonça, dera à luz um menino saudável, batizado com o nome de Jorge, não muito tempo antes. Somando tudo, é bastante provável que após 1483, D. João II e D. Leonor tenham cessado a maioria de seus contatos conjugais, com a forte afeição que outrora os unira passando a ser apenas uma distante lembrança.

Joana de Castela, a ‘Beltraneja’ – parte II

Em princípio, Joana parecia ter ligeira vantagem no confronto. Além do apoio da alta nobreza castelhana, ela ainda contava com importantes membros do clero e algumas Casas de origem portuguesa, sem contar seu poderoso tio, o rei Afonso V, que em breve também oficializaria as negociações nupciais existentes há tempos e se tornaria seu marido em 25 de maio de 1475, seguindo uma invasão bem-sucedida das tropas portuguesas em Castela. Por seu lado, Isabel tinha o apoio de Aragão, de Casas castelhanas menores e de membros do clero, mas também tinha ao seu lado dois importantíssimos trunfos: a poderosa Casa de Medina-Sidônia e o suposto pai biológico de Joana, Beltrán de la Cueva.

Isabel I de Castela em sua maturidade
Isabel I de Castela em sua maturidade

Apesar de sua pouca idade, Joana foi considerada uma líder promissora nas primeiras Cortes que presidiu com seu marido pouco após o matrimônio. O apoio a Isabel, contudo, crescia, embora a guerra ainda estivesse indefinida até 1º de maio de 1476, quando ocorreu a batalha de Toro. Ali, as tropas portuguesas recuaram e debandaram perante as aragonesas, marcando uma grande derrota do partido de Joana, que então partiu para a cidade portuguesa de Abrantes para sua proteção. Provando ter uma grande visão política, Isabel aproveitou o momento da ausência da rival para convocar suas próprias Cortes, onde sua filha primogênita e homônima foi jurada como herdeira, simbolizando a legitimidade da própria Isabel; o nascimento de seu filho João em 1478 a fortaleceria ainda mais.

Depois de repelir os franceses, aliados de Portugal, e garantir o recuo de D. Afonso V e Joana, a Guerra de Sucessão Castelhana basicamente se limitou aos confrontos navais e breves revoltas internas contra o domínio crescente de Isabel, sufocadas com rapidez. Em fevereiro de 1479, Portugal sofreu mais um grave revés quando a dispensa papal que havia garantido o casamento de tio e sobrinha foi anulada, prejudicando em muito a pretensão de D. Afonso V. Sem escolha, o rei teve que concordar com um tratado de paz. Assinado na vila de Alcáçovas em 4 de setembro de 1479 e ratificado por ambos os lados no ano seguinte, ele consistiu basicamente na renúncia de D. Afonso V a qualquer direito ao trono castelhano, assim como a Joana, com quem não tivera filhos ou talvez sequer consumara o casamento.

Joana de Castela, dita a 'Beltraneja', interpretada por Carmen Sánchez na série Isabel (2011-14)
Joana de Castela, dita a ‘Beltraneja’, interpretada por Carmen Sánchez na série Isabel (2011-14)

Após ter renunciado oficialmente à sua pretensão como rainha de Castela e Portugal, o destino de Joana ficou entre duas alternativas oferecidas por Isabel: ou ela se casaria com seu filho João quando este atingisse a maioridade, ou então entraria para um convento e professaria votos de castidade. Joana escolheu a vida religiosa, se juntando ao convento de Santa Clara em Coimbra, embora se recusasse a professar os votos até o fim de sua vida. Até mesmo por isso, sua importância dinástica não padeceu de imediato, e ela recebeu propostas de casamentos até a sua velhice. Em 1504, após a morte de Isabel, Fernando II de Aragão tentou casar-se com ela para fazer frente à pretensão da filha e do genro ao trono castelhano, mas Joana se recusaria, preferindo continuar uma vida religiosa relativamente livre em Portugal, embora não ausente de orgulho. Afinal, quando ela morreu em Lisboa em 1530, ainda assinava como “La Reina”.

Para saber mais:

ELLIOT, J.H. “La unión de las coronas.” In: La España imperial. 1469-1716. Madrid: RBA Collecionables, 2006. (1ª edição 1963).

http://www.arqnet.pt/dicionario/joanad1.html

Joana de Castela, a ‘Beltraneja’ – parte I

Única filha oficialmente resultante do casamento entre Henrique IV de Castela e Joana de Portugal, a princesa Joana nasceu em fins de fevereiro de 1462. Pela via materna, ela era sobrinha do rei D. Afonso V; pela via paterna, ela era a herdeira presuntiva ao trono de Castela na ausência de irmãos homens. Contudo, ela nascera após sete anos de esterilidade matrimonial, quando já se considerava que Henrique IV era de fato impotente – como sua primeira esposa rejeitada, Blanche de Navarra, alegava, com um casamento de mais de uma década sem consumação para apoiá-la.

Joana de Portugal
Joana de Portugal

De qualquer forma, o rei pareceu reconhecer a jovem Joana como sua herdeira desde o seu nascimento, convocando inclusive seus meios-irmãos Isabel e Afonso para testemunhar o parto da rainha. Após o evento bem-sucedido, a primeira foi colocada na equipe de damas de honra que servia Joana de Portugal, enquanto Afonso, o antigo herdeiro presuntivo, começou sua educação oficial com um tutor. Não muito após o nascimento da princesa Joana, entretanto, começariam os rumores que ela não era a filha do rei, mas sim fruto de um relacionamento da rainha com o nobre Beltrán de la Cueva. O nascimento de duas crianças ilegítimas não muito depois, concebidas durante o caso que a rainha Joana teve com o sobrinho de um bispo, prejudicou em muito a posição da princesa; em primeiro lugar, porque o matrimônio de seus pais acabaria dissolvido em decorrência destes eventos escandalosos, e em segundo porque a conduta de sua mãe testemunhava diretamente contra a sua pretensa legitimidade. Agora, uma facção considerável da nobreza defendia que Joana, a Beltraneja (filha de Beltrán) não poderia suceder ao rei e defendiam os direitos do príncipe Afonso na rebelião que fatalmente se seguiu.

Após a Segunda Batalha de Olmedo, em 1467, Henrique IV e Afonso atingiram finalmente um consenso: o último sucederia ao rei se se casasse com a princesa Joana. Afonso, porém, não viveu muito tempo depois de ser reconhecido como o herdeiro do trono castelhano, sendo vítima da praga (ou do veneno, segundo rumores) logo no ano seguinte. Como herdeira de seu irmão, Isabel tornou-se a líder da causa rebelde. A facção da nobreza liderada por ela, porém, não era forte o suficiente para depor o rei. Novamente, então, os dois lados chegaram a um acordo: Henrique IV nomearia Isabel como sua herdeira presuntiva antes de Joana, mas Isabel não se casaria sem a permissão do irmão. Não muito tempo depois, contudo, o rei estava tentando casar Isabel com D. Afonso V de Portugal, ao mesmo tempo em que negociava uma união entre sua filha Joana e o herdeiro de D. Afonso, o príncipe D. João: assim, tia e sobrinha reinariam consecutivamente tanto em Castela quanto Portugal.

Henrique IV de Castela
Henrique IV de Castela

Neste contexto, o casamento secreto entre Isabel de Castela e o herdeiro Fernando de Aragão, já em 1469, precipitou o início da luta pela sucessão do trono castelhano, com Henrique IV procurando restabelecer Joana como sua herdeira. A esta altura, a princesa já tinha sete anos, e negociações matrimoniais para sua mão já haviam começado com alguns príncipes franceses, embora ainda sem um compromisso mais aparente quando, em 1474, Henrique IV faleceu. Quase que imediatamente, as pretensões opostas de tia e sobrinha se chocaram, e a Guerra de Sucessão Castelhana começou.

Isabel de Coimbra – parte II

Em abril de 1441, temendo a oposição do conde de Barcelos, antigo aliado da rainha D. Leonor, o duque de Coimbra realizou os votos iniciais dos esponsais do rei e de sua prima, que na época ainda não passavam de crianças. Anos depois, mais maduros, ambos seriam encaminhados para a união de fato. Parece extremamente provável que a consumação tenha sido adiada pelo regente até que sua filha estivesse fisicamente madura, diminuindo assim as chances de possíveis complicações no parto. Porém, mesmo depois da união oficial em 1447, o regente demorou a repassar as responsabilidades do governo para o rei, já um homem feito. Isso estimularia as intrigas da corte, chefiadas pelo outro tio do monarca, o recém-elevado duque de Bragança, que começava a desfrutar cada vez mais do favor de D. Afonso V. Neste conflito, a rainha assumiria o papel de mediadora – à semelhança de tantas consortes portuguesas antes dela – procurando evitar consequências trágicas na disputa entre os tios do rei.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

As fortes personalidades dos três homens envolvidos, contudo, dirigiram os eventos para uma rota de colisão. Apesar de se utilizar de palavras suaves para tentar convencer o marido a aceitar o pai de volta à corte, D. Isabel não conseguiu lutar contra as correntes cada vez mais contrárias ao seu pai, enquanto o duque de Coimbra, ao procurar garantir a sua honra, não protegeu a sua integridade física. Entrando em conflito com as forças reais na batalha de Alfarrobeira, em 20 de maio de 1449, D. Pedro morreu. Na sequência do conflito, seus filhos e filhas tiveram que partir para o exílio, e a própria rainha encontrou-se em perigo, com a anulação de seu casamento sendo considerada por uma facção considerável da nobreza, a fim de que D. Afonso V se unisse à uma donzela mais adequada. O rei, porém, recusou a possibilidade e continuou a tratar D. Isabel com toda a consideração adequada à sua posição.

Neste contexto, a vida da rainha correu sério perigo até a descoberta de sua primeira gravidez logo no ano seguinte. O infante nasceria em 29 de janeiro de 1451, sendo batizado em homenagem ao bisavô e fundador da dinastia de Avis, D. João I. Em breve se seguiria mais uma gestação, que daria origem a infanta D. Joana. Depois destes sucessos, a rainha pediu ao rei – e foi atendida – que seu pai fosse devidamente sepultado no mosteiro da Batalha. Pouco depois, o herdeiro João faleceu; não muito tempo após, contudo, nasceu outro menino para o casal, que foi nomeado em homenagem ao irmão morto. Ele seria o futuro rei D. João II.

D. João II de Portugal
D. João II de Portugal

Alguns meses depois deste novo nascimento, D. Isabel ficou severamente doente, sofrendo de hemorragias. Pelo tempo, não se tratava de complicações no parto; problemas relacionados à um aborto ou um nascimento prematuro também não são prováveis, considerando-se que as crônicas nada mencionam a este respeito. Tendo em vista a rapidez da degeneração no estado da rainha, a hipótese de veneno parece ser confirmada. Se os responsáveis esperavam um novo casamento do rei, enganaram-se; apesar de lhe restar apenas um herdeiro homem vivo, D. Afonso V fez um voto de castidade em honra da falecida esposa. Décadas depois, porém, ele o romperia para casar-se com a sobrinha, a infanta Joana, no contexto da guerra de sucessão castelhana.

Para saber mais:

FREITAS, Isabel Vaz de. D. Isabel de Coimbra – Insigne Rainha (1432-1455). Disponível em: http://repositorio.uportu.pt/jspui/bitstream/11328/974/1/D.%20Isabel%20de%20Coimbra.pdf .

Isabel de Coimbra – parte I

Nascida em 1432, Isabel de Coimbra era a primeira filha mulher (terceira criança) do infante D. Pedro, secundogênito sobrevivente de D. João I de Portugal e irmão mais novo do herdeiro D. Duarte, e Isabel, condessa de Urgell. Pouco antes, nascera seu primo, o infante D. Afonso, que seguia diretamente seu pai D. Duarte na sucessão real; quase que de imediato, tanto o duque de Coimbra quanto seu irmão ilegítimo, o conde de Barcelos (1), manifestaram interesse quanto ao futuro matrimônio do infante. Enquanto D. Pedro propunha a filha D. Isabel como noiva, D. Afonso oferecia uma de suas netas, também chamada Isabel. Devido à extrema juventude de todas as crianças envolvidas, entretanto, a questão foi deixada em suspenso.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

A morte súbita do já rei D. Duarte poucos anos depois, ocorrida pouco depois da catastrófica derrota em Tânger, empurrou o reino para uma crise política; a regente por ele escolhida em seu testamento era sua esposa aragonesa, a rainha D. Leonor, embora por tradição o direito pertencesse ao seu irmão seguinte, D. Pedro. O conflito parecia inevitável. Para procurar diminuir a tensão, a regente revelou ao cunhado a suposta vontade do falecido monarca em casar seu herdeiro D. Afonso com a prima D. Isabel de Coimbra, que ela se propunha a realizar. A decisão pragmática da rainha viúva, que provavelmente tencionava anular um partido de oposição com a união proposta, em muito desagradou o conde de Barcelos.

De qualquer forma, o compromisso entre as duas partes não foi atingido, com D. Leonor tendo que abdicar da função de regente em nome de D. Pedro, que possuía muito mais apoio do que ela. Mesmo assim, porém, o projeto de casamento entre os primos foi mantido, com o novo regente apressando-se em garantir uma dispensa para a união em Roma. D. Leonor e seus parentes aragoneses, por outro lado, pressionavam contra. Eventualmente, a dispensa seria garantida, o que possibilitaria que D. Pedro pudesse, com segurança, forçar a rainha viúva para o exílio, acompanhada por seus partidários.

D. Isabel
D. Isabel

Enquanto estas reviravoltas políticas eram realizadas, D. Isabel era cuidadosamente educada do ducado de seu pai, contando com mestres educadores italianos e a leitura de clássicos, como era esperado para uma futura rainha. Aliás, a jovem infanta foi possivelmente educada junto ao noivo, o rei, que passara a ser criado pelo tio após o exílio de sua mãe. Eventualmente, D. Afonso V se apaixonaria pela discreta prima que, apesar de não ser considerada bela pelos padrões da época, era doce, prudente, honesta, virtuosa e inteligente; de fato, as descrições de D. Isabel nas crônicas do reinado de seu futuro marido aproximam-se bastante do ideal feminino da época. Por seu lado, D. Isabel não deve ter considerado difícil amar seu justo, culto e gentil prometido, mesmo que este não tivesse sido um dever imposto a dedicada filha do duque muitos anos antes, e teria uma sincera amizade com D. Afonso até o fim de sua vida.

(1) Título utilizado prioritariamente por D. Afonso antes de sua ascensão como duque de Bragança.

O amor secreto de Carlos V: Germaine de Foix

Nascida em data indefinida em 1488, Germaine de Foix era filha de João, conde de Étampes, visconde de Narbonne e terceiro filho da rainha Leonor de Navarra, com Maria de Orléans, irmã mais velha de Luís XII de França. Com tais credenciais nobiliárquicas, incluindo uma pequena pretensão ao trono de Navarra por intermédio de seu pai, ela desde cedo despertaria a atenção do mercado matrimonial europeu; de fato, já em 1505, o recém-enviuvado Fernando II de Aragão estava fazendo uma proposta à mão da jovem para o seu tio materno, o rei de França. Muito embora Germaine fosse, em realidade, sobrinha-neta do rei aragonês – quase quatro décadas mais velho do que ela –, as vantagens do casamento facilmente superavam as dificuldades de se conseguir uma dispensa papal. Além de uma aliança com França, a noiva ainda viria para Aragão com as posses nominais dos reinos de Nápoles e Jerusalém, sem contar a pretensão à Navarra. Essa aparente generosidade de Luís XII era, porém, envenenada; Nápoles já pertencia aos aragoneses, Jerusalém caíra há muito para os infiéis e Navarra seria herdada pelos filhos da prima de Germaine, a rainha Catarina, antes de recair sobre seu irmão mais novo ainda solteiro, Gastão.

Germaine de Foix
Germaine de Foix

De qualquer forma, a pretensão menor de Germaine ao trono de Navarra apenas adicionava um pouco mais de urgência para um casamento que, em realidade, tinha outro objetivo primário: a produção de um herdeiro homem para Aragão. Uma série inesperada de mortes entre a progênie de Fernando II de Aragão com Isabel I de Castela deixara o território espanhol para a terceira filha, Joana, casada desde 1496 com o ambicioso Felipe de Habsburgo, duque de Borgonha, com quem já tinha quatro crianças na época da morte da rainha Isabel em 1504. Rapidamente, Felipe e Fernando entrariam em confronto pelo controle político da nova rainha e, indiretamente, da maior parte da Península Ibérica. Neste sentido, o novo matrimônio do idoso rei era fundamental: se ele pudesse produzir um herdeiro com sua nova esposa, Aragão escaparia ao domínio dos Habsburgo, e talvez pudesse até mesmo ampliar sua influência na Europa devido ao dote e possíveis direitos sucessórios de Germaine.

Em 1506, o genro e rival de Fernando morreria depois de uma breve doença, mas a concepção de um príncipe para Aragão ainda era vital para evitar a dominação austríaca. Finalmente, em 3 de maio de 1509, nasceu um menino, nomeado João; a criança, contudo, faleceria em questão de horas. Germaine e Fernando não teriam mais filhos antes da morte dele em 1516. Apesar de Joana ainda estar viva a esta altura, ela foi mantida encarcerada por seu filho Carlos, que assumiria a herança dos avôs maternos. A rainha viúva, que tinha sob seu poder alguns territórios na Península Itálica, também os cedeu ao neto por afinidade. Nestas circunstâncias, é claro que o novo monarca estava disposto a cumprir os pedidos do falecido avô para que cuidasse de Germaine em sua viuvez.

Um jovem Carlos I de Espanha
Um jovem Carlos I de Espanha

Contando com apenas 15 anos na época do falecimento de seu avô, o jovem Carlos ainda era um tanto inexperiente política e sexualmente quando se encontrou com a fogosa Germaine nas imediações de Valladolid. Muito provavelmente a rainha viúva causou uma forte impressão no rei logo a princípio; diferente do que se poderia imaginar, se tratava de uma mulher que sequer completara 30 anos de idade, alegre e divertida mesmo em seu sofrimento recente, ainda que não fosse considerada propriamente bela – de fato, tinha uma tendência à obesidade. Quando Germaine quis saudar o monarca fazendo uma inclinação cerimonial, Carlos I de Espanha não permitiu, impedindo-a de saltar de sua mula. Em pouco tempo já eram amantes. Ela sairia da corte de Aragão e iria para Castela, onde Carlos organizaria vários banquetes em sua honra, tornando-a inclusive uma influente conselheira política enquanto ele negociava com Aragão para ser reconhecido oficialmente como rei.

Devido à sombra incestuosa que cobria ambos, contudo, o caso amoroso de Carlos e Germaine era extremamente discreto. Em 1518, a rainha viúva deu à luz uma filha, batizada como Isabel. O nascimento pareceu esfriar o romance, uma vez que pouco depois o rei já estava negociando um novo matrimônio para Germaine; desta vez, o marquês de Brandenburg, que juntamente com a esposa foi feito vice-rei em Valência. Já em 1525, entretanto, Germaine se encontrava viúva pela segunda vez. Carlos, que a esta altura negociava seriamente suas núpcias com a infanta portuguesa Isabel, apressou-se em casar Germaine pela terceira vez com o duque de Calábria.

Embora não pareçam ter retomado outra vez a ligação sexual, Germaine e Carlos manteriam boas relações até a morte desta em 1536. A filha deles, contudo, teve um destino menos evidente. Após ter passado uma infância discreta na corte castelhana, “a sereníssima Dona Isabel, infanta de Castela, filha da Majestade do Imperador” desapareceu dos registros históricos. Certamente ainda se encontrava viva na época da morte da mãe, uma vez que é mencionada como beneficiária no testamento de Germaine, mas seu destino certo é até hoje nebuloso – quase tanto quanto o relacionamento proibido, ardente e secreto de seus pais.

Para saber mais:

HIERRO, María Pilar Queralt del. “Germaine de Foix, a paixão proibida do imperador”. IN: Rainhas na sombra: amantes e cortesãs que mudaram a História. Rio de Janeiro: Versal, 2015.

http://www.britannica.com/biography/Charles-V-Holy-Roman-emperor

A imperatriz portuguesa: Leonor de Avis

Terceira filha (sexta criança) do casamento do rei D. Duarte com sua esposa aragonesa, a infanta D. Leonor nasceu em 18 de setembro de 1434. Embora tivesse duas irmãs mais velhas – D. Felipa e D. Maria – ambas morreriam ainda crianças; Leonor ficaria, portanto, como a filha mais velha sobrevivente do rei, o que poderia futuramente elevar seu valor no mercado matrimonial da nobreza medieval. Contudo, a morte prematura de D. Duarte em 1438 e a ascensão ao trono do irmão mais velho da infanta complicou consideravelmente a situação. D. Afonso V, o novo monarca, era uma criança de apenas seis anos; uma regência seria necessária. Inicialmente, sua mãe e homônima ocuparia o cargo, mas sofreria grandes pressões dos nobres partidários do duque de Coimbra, irmão do falecido rei. Após alguns meses de tensão política, a rainha viúva seria obrigada a capitular e se exilar em Castela, efetivamente abandonando todos os filhos e filhas restantes ao cargo do cunhado – incluindo D. Leonor, doente na época.

Pedro, agora o novo regente, entregaria a infanta mais velha aos cuidados de D. Guiomar de Castro, futura condessa de Atouguia. Seria lá que D. Leonor cresceria e amadureceria, só deixando a companhia de D. Guiomar em 1445, quando, após a morte da mãe, ela e as duas irmãs ainda vivas – D. Catarina e D. Joana – ganhariam residência própria na corte. Pouco depois, seu matrimônio começaria a ser arranjado por intermédio de sua tia paterna D. Isabel, duquesa da Borgonha, e seu tio materno, o rei de Aragão, que inclusive providenciaria a pintura de retratos da infanta para serem enviados aos putativos noivos, o rei da França e o imperador da Alemanha. Teria sido durante essa época que D. Leonor, já com 16 anos, teria tido um romance com o irmão do futuro conde de Portalegre, o fidalgo D. João de Menezes. Após participar da comitiva que levou a infanta para o futuro marido, Frederico III, ele teria em seu desgosto juntado uma ordem religiosa, tornando-se um frei.

D. Leonor
D. Leonor

A escolha do imperador para ser o marido da primogênita sobrevivente de D. Duarte foi um movimento político do regente, o duque de Coimbra, que, juntamente com sua irmã, a duquesa de Borgonha, participava das negociações nupciais. Naturalmente hostil à casa reinante de Aragão devido à privação dos direitos de sua própria esposa, a condessa de Urgell, D. Pedro desejava uma aliança que enfraquecesse os aragoneses, como um casamento com o Sacro Império ou com a França. Para D. Isabel, promover um casamento francês para infanta era crucial para restabelecer as relações borgonhesas com este reino após as crescentes vitórias militares do último na Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra, antigo aliado de Borgonha.

Entretanto, esta inclinação pró-francesa seria alterada por dois importantes fatores: em primeiro lugar, a crescente preponderância de Frederico III no cenário europeu, e em segundo lugar a chegada à maioridade de D. Afonso V em 1448. Nos turbulentos eventos que acompanharam este último evento, o duque de Coimbra perderia influência para D. Afonso, duque de Bragança e seu meio-irmão ilegítimo. Este tinha inclinações pró-aragonesas. Acontecia que o rei de Aragão da época procurava agradar Frederico III para assegurar suas possessões italianas; uma vez que o imperador cobiçava as riquezas representadas por um possível casamento com uma infanta da Casa de Avis, o rei aragonês passou a apoiar tais núpcias, que de qualquer forma prejudicavam os rivais franceses. Desta forma, D. Leonor perdeu a chance de ser rainha de França, mas ganhou a oportunidade de se tornar a primeira imperatriz portuguesa da história.

Frederico III
Frederico III

Após longas negociações, o casamento entre a infanta portuguesa D. Leonor e o Sacro Imperador Romano Frederico III foi por fim acertado, tendo sido estipulado um grande dote. Em fins de outubro de 1451, D. Leonor viajaria ao encontro do marido, chegando finalmente na cidade de Siena em meados de novembro. Lá, ela encontraria Frederico III pela primeira vez. Embora as impressões pessoais de cada um sejam obscuras, pode-se fazer um palpite bastante acertado baseando-se em opiniões contemporâneas; a noiva era considerada bela, distinta e culta, tendo inclusive conversado com o marido sem o auxílio de um intérprete, como seria comum. Por outro lado, ele era hesitante e um tanto frio emocionalmente. Apesar disso, contudo, ele ficou impressionado com D. Leonor. Após este primeiro encontro, Frederico a levaria até Roma, onde ambos se casariam oficialmente e seriam coroados conjuntamente pelo papa Nicolau V. Na verdade, seria a última vez que este tipo de cerimônia ocorreria na capital da cristandade.

Após o evento, ambos iriam para o sul, chegando em abril de 1452 para as celebrações nupciais oferecidas pelo tio de Leonor, o rei de Aragão, em seu reino de Nápoles. Lá, finalmente, ocorreria a consumação do consórcio entre a infanta, que ainda não completara 18 anos, e o imperador, que era quase vinte anos mais velho. Apesar dos receios iniciais dele quanto à capacidade de D. Leonor em dar à luz, a relação provou-se fértil; não muito tempo depois da união, nasceria o primeiro filho, Cristovão, seguido depois por outro menino, Maximiliano. Em breve, entretanto, as diferenças apareceriam. Os interesses de D. Leonor em dança e caça, por exemplo, não eram compartilhados por seu marido, que em breve mandaria embora as companhias portuguesas de sua esposa devido aos gastos que elas acarretavam. A relação esfriaria ainda mais com a culpabilização de Leonor pela morte de alguns filhos do casal – nomeadamente Cristovão, Helena e João – ainda na infância, alegadamente porque ela permitira que as crianças comessem a estranha comida de sua terra natal.

Pouco tempo após a morte de João, Leonor também faleceria em 3 de setembro de 1467. Faltavam apenas duas semanas para que ela completasse 33 anos de idade. Seu marido ainda viveria mais 36 anos, quando morreria em idade avançada após uma hemorragia causada pela amputação de um pé gangrenado. Apesar de contar com apenas um herdeiro homem, Frederico nunca se casara novamente após sua viuvez décadas antes. Ele seria sucedido no trono imperial pelo filho Maximiliano, que viria por sua vez a ser o avô paterno do célebre Carlos V.

Para saber mais:

HANREICH, A. “D. Leonor de Portugal, esposa do Imperador Frederico III (1436-1467)”. IN: Relações entre a Áustria e Portugal. Testemunhos Históricos e Culturais. Coimbra: Livraria Almedina, 1985.

SARAIVA, António. O crepúsculo da Idade Média em Portugal. Lisboa: Gradiva, 1990.

Leonor de Aragão – parte III

De fato, a guerra pareceu quase desde o começo um desastre consumado, e assim procedeu; nos confrontos com os muçulmanos, os portugueses saíram derrotados, e a retirada de volta ao reino foi um martírio de fome e sede. Além disso, o infante D. Fernando foi capturado, e o preço para o seu resgate era a devolução de Ceuta, conquistada décadas antes por D. João I. Atormentado pela prisão do irmão, D. Duarte tentou fugir com a família da peste que assolava Portugal, mas quando chegou à cidade de Tomar já estava doente, agonizando numa questão de dias. Novamente grávida, a rainha foi afastada dele, juntamente com as crianças do casal. Os irmãos do rei, incluindo o ilegítimo D. Afonso, apressaram-se a ir encontrá-lo quando se percebeu que o quadro de D. Duarte era fatal, mas não conseguiriam chegar a tempo. Ainda grávida, D. Leonor se tornaria uma viúva em 9 de setembro de 1438. O novo rei, D. Afonso V, era seu filho, e tinha apenas seis anos de idade.

D. Afonso V de Portugal
D. Afonso V de Portugal

Depois dos funerais de D. Duarte e da proclamação de seu filho mais velho, D. Afonso, como novo rei de Portugal, o testamento do falecido foi finalmente aberto. Não é sabido exatamente quando o fez, mas provavelmente, devido às suas disposições, foi já perto de sua morte. De qualquer forma, o documento era incendiário; declarava, já de início, que a rainha D. Leonor deveria ser a tutora, curadora e regente dos filhos do casal, incluindo o herdeiro D. Afonso. Além disso, uma determinada quantia era deixada para a negociação da libertação do infante D. Fernando, seu irmão mais novo. Se isso não fosse suficiente, o falecido rei determinava que a colônia de Ceuta fosse cedida de volta aos infiéis como preço pela volta de D. Fernando.

Ambas as questões tinha ferrenhos oponentes. No tocante à segunda, porém, a procrastinação logo se mostrou ser uma arma valiosa. A negociação pela volta do infante foi tão postergada que o mesmo acabaria por morrer ainda em possessão dos inimigos no ano de 1443, cinco anos após a falecimento do rei D. Duarte.  Agora, quanto à regência a situação era mais difícil. Seria a quinta regência pela qual passaria o reino, a terceira chefiada por uma mulher. Considerando-se os antecedentes – Teresa Henriques, expulsa do reino pelo próprio filho, e Leonor Teles, expulsa para o reino do genro – as perspectivas de Leonor de Aragão não pareciam boas.

Alguns meses depois da morte do marido, D. Leonor deu à luz a última filha deles, a infanta D. Joana, futura rainha de Castela. Neste momento, ela já assumira a regência, confirmada pelas Cortes de Torres Novas de 1438, mas as resistências contra ela era muitas. Seu sexo, sua inexperiência política e seu nascimento e criação em Aragão faziam com que sua escolha para regente, na verdade, fosse um mero respeito às vontades do falecido rei D. Duarte enquanto outros candidatos, como o infante D. Pedro, iam reunindo aliados entre a nobreza. A cidade de Lisboa, contudo, rapidamente se rebelou após a escolha das Cortes, e sua insatisfação só foi contida por tropas do irmão de Leonor, o conde de Barcelona.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

A situação marcou a fim da vantagem da rainha. Mesmo apoiada pelo irmão ilegítimo de D. Duarte, D. Afonso, e fazendo múltiplas concessões a D. Pedro na criação de D. Afonso V, ela perdera a vantagem que a vontade póstuma do marido lhe fornecera. Eventualmente, as Cortes de Lisboa escolheram D. Pedro, duque de Coimbra, como o novo regente. A rainha viúva conspiraria até o ano seguinte para recuperar a regência do cunhado, mas sem sucesso; em dezembro de 1440, D. Pedro a forçaria a partir de volta para Castela, onde ela morreria em 1445.

Para saber mais:

DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Círculo de Leitores, 2005.