Urraca de Castela – parte II

Uma doença lenta e crônica, a lepra ainda era algo endêmica no século XIII e condenava suas vítimas a uma vida de isolamento do restante da sociedade. Segundo Júlio Dantas, o príncipe Afonso não necessariamente foi acometido de lepra, mas sim de uma “dermatose vulgar de aspecto lepróide” (1923, pps 1-4). A hipótese do autor faz sentido se for considerado que o futuro rei não se afastou da corte portuguesa, e que as fontes de época não fazem nenhuma menção quanto à doença de D. Afonso.

Por outro lado, existem registros anteriores de nobres com a doença que continuaram a conviver entre seu estrato social, como o famoso rei Balduíno IV de Jerusalém. Além disso, deve ser considerado que a dinastia portuguesa de Borgonha ainda não estava firmada o suficiente no reino para poder suportar o baque duplo de um rei e um herdeiro doentes com o mesmo mal, como defendem Machado e Serrão (1978, p. 123). Qualquer que fosse a doença de D. Afonso, porém, ela existia: o aspecto flácido e corpulento de seu corpo limitaria suas funções régias ao por vezes impedir que liderasse exércitos. A moléstia, contudo, não o impediu de produzir herdeiros.

D. Sancho II de Portugal
D. Sancho II de Portugal

Em 1206, a infanta Urraca por fim se casou com o herdeiro D. Afonso, que se tornou rei após a morte do pai, em 1211. Pouco se sabe a respeito de sua vida depois que passou a viver em Portugal. Ela não se provou tão fértil quanto a falecida rainha Dulce, tendo apenas três filhos e uma filha que sobreviveram à infância: D. Sancho (1209 – 1248) e D. Afonso (1210 – 1279), que seriam sucessivamente reis de Portugal, Leonor (c. 1211 – 1231), rainha de Dinamarca, e D. Fernando (1217 – 1246), senhor de Septa. Uma quinta criança, D. João, viveu pouco (SERRÃO, 1978, p. 399). Seu marido provavelmente teve filhos bastardos, mas isso não prejudicou a posição da rainha; em um testamento datado de 1214, D. Afonso II declarou que Urraca deveria ser a regente em nome de D. Sancho no caso de seu falecimento prematuro. Todavia,  a rainha morreria em fins de 1220, com apenas 33 anos de idade. Pouco menos de dois depois, o rei também faleceria, provavelmente enfraquecido por sua longa doença. Todos os seus filhos legítimos ainda eram menores de idade.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal

Urraca de Castela – parte I

Segunda filha (quinta criança sobrevivente) de Afonso VIII de Castela e Leonor de Inglaterra, sendo neta por via materna de Leonor de Aquitânia, uma das mulheres mais influentes da Europa no século XII, a infanta Urraca nasceu em data indefinida entre 1186 e 1187. Desde cedo, foi procurado para ela uma união de alta estirpe: primeiramente, ocorreram negociações para um matrimônio com Luís VIII de França, postas de lado em favor de um novo projeto de união com o herdeiro português D. Afonso. O rei francês mais tarde se casaria com a irmã mais nova de Urraca, a infanta Branca.

D. Afonso II de Portugal
D. Afonso II de Portugal

Quando as negociações matrimoniais entre Castela e Portugal tiveram o seu início, tanto a noiva quanto o prospectivo noivo – apenas um ano mais velho – já estavam se aproximando dos 20 anos;  passando em muito, portanto, a idade tradicional de casamento na Idade Média. Ela era estabelecida aos 14 anos, quando, segundo Isidoro de Sevilha, iniciava-se a fase conhecida como adulescentia, marcada não só pela chegada à idade da razão, mas também pelo início da capacidade de procriar (VILAR, 2005, pps. 37-38). Mas, por que, então, a demora? No caso de Urraca, sua condição de filha mais velha ainda donzela do rei de Castela a tornava uma peça valiosa para a política ibérica, principalmente num contexto em que o reino de Castela tornava-se cada vez mais importante; como muitos outros personagens importantes, então, suas negociações matrimoniais levaram certo tempo.

Urraca de Castela
Urraca de Castela

No caso de Portugal, o rei D. Sancho I não parece ter tido pressa em casar os filhos varões (em especial seu herdeiro), seguindo uma tendência das famílias nobres medievais em matrimoniar tardiamente os homens, muito embora não as mulheres (BARTON, 1997, pps. 53-54). Existia a necessidade, porém, de reforçar o relacionamento com os outros reinos peninsulares, dos quais Castela progressivamente emergia como o mais influente. Um casamento entre D. Afonso e a infanta Urraca seria, nesse sentido, especialmente interessante para Portugal. Existia, contudo, um problema: o príncipe português provavelmente tinha lepra.