Leonor Teles de Menezes – parte V

Em plena guerra, D. Leonor ficou grávida, e em julho de 1382 deu à luz um menino que não viveu muito. Pouco depois, cansado dos danos que o exército inglês estava causando em território português, o progressivamente doente D. Fernando aceitou em segredo a proposta castelhana de paz. No mesmo ano, outro tratado seria assinado na vila de Badajoz, e D. Beatriz foi prometida ao seu quarto noivo: desta vez, o secundogênito do rei de Castela, João I, filho de Henrique de Trastámara. Reféns também seriam trocados entre as duas partes para assegurar a paz. Em setembro de 1382, os furiosos ingleses partiriam.

João I de Castela
João I de Castela

No mesmo mês da partida impetuosa dos ingleses, a rainha de Castela morreu após complicações no parto de sua única filha. Vendo sua morte se aproximar, D. Fernando propôs que D. Beatriz, se casasse agora com o rei viúvo João I, numa negociação em que D. Leonor teve especial participação, uma vez que o rei português já se encontrava tão doente que não conseguia mais sair de sua câmara. Diferentemente dos outros tratados de núpcias de D. Beatriz com noivos castelhanos, contudo, o documento assinalava especialmente que apenas um filho legítimo de D. Fernando ou então um filho legítimo de D. Beatriz poderia herdar o trono português, mas não a própria princesa; aliás, uma cláusula ressaltava que quaisquer filhos ou filhas que D. Beatriz tivesse seriam criados pela regente de Portugal, D. Leonor. Isso deixava bem claro que este quinto noivado da herdeira tinha o projeto de apenas servir para gerar infantes e infantas suplementares para Portugal, e não unificar ambos os reinos. Só se pode especular os motivos desta mudança em relação aos quatro noivados anteriores, mas provavelmente o estado de saúde cada vez mais crítico do rei, junto com o fato que D. João I já tinha dois herdeiros homens para Castela, enquanto D. Fernando por enquanto apenas D. Beatriz para herdar o reino português, tenham sido preponderantes.

João I de Castela não ficou satisfeito com o tratado, mas o aceitou. Após D. Beatriz renunciar aos quatro esponsais anteriores e a dispensa papal para seu casamento com rei de Castela com ter sido providenciada, o casal se uniu no dia 14 de maio de 1383. A noiva tinha dez anos; o noivo, 24. Enquanto isso, a saúde de D. Fernando piorava cada vez mais na vila de Almada enquanto a última gravidez de D. Leonor avançava; em setembro, ela deu à luz a uma menina que viveu pouco. A situação de D. Beatriz como herdeira foi confirmada. Em 22 de outubro de 1383, D. Fernando morreu. D. Leonor tornou-se regente, enquanto seu genro, ignorando seu contrato nupcial, avançou para tomar a Coroa. Murmúrios de descontentamento, entretanto, rapidamente se ergueriam, tomando a forma de franca revolta em questão de poucos meses. Em 1384, a guerra civil explodiria definitivamente naquela que seria a crise sucessória portuguesa de 1383-85, que marcaria a ascensão da dinastia de Avis. Forçada a abdicar da regência, D. Leonor exilou-se em Castela, morrendo pouco depois em um mosteiro em Tordesilhas.

Para saber mais:

BALEIRAS, Isabel de Pina. Uma rainha inesperada: Leonor Teles. Lisboa: Temas e Debates, 2013.

GOMES, Rita Costa. D. Fernando. Círculo de Leitores, 2005.

Leonor Teles de Menezes – parte IV

Por volta de 1377 ou inícios de 1378, D. Fernando sofreu uma misteriosa tentativa de envenenamento. Embora sobrevivesse, sua saúde ficou bastante fragilizada, o que o levou a escrever um testamento. Nele, reiterava seu desejo que sua única filha legítima, D. Beatriz, o sucedesse no trono após sua morte; se ele falecesse antes que a princesa atingisse a maioridade, a rainha D. Leonor deveria ser a tutora e regente até a consumação do casamento de D. Beatriz com o duque de Benavente ou quando ela atingisse 12 anos. Além disso, o rei excluiu da linha sucessória todos os meio-irmãos, filhos de Inês de Castro, já exilados a esta altura; isso mostrava claramente o quão fundo a disputa entre a rainha e os parentes do marido chegara. O único que ainda mantinha razoáveis relações com Leonor era D. João, o Mestre de Avis, que era filho de uma amante de D. Pedro I de Portugal.

O Mestre de Avis
O Mestre de Avis

Neste contexto, pode-se entender o crescente interesse do rei e da rainha em assegurar a posição de sua herdeira ao propor um novo e mais seguro matrimônio para ela: ao invés do duque de Benavente, o filho recém-nascido do rei de Castela. Esta manobra, que aparentemente prejudicava Portugal, veio dos próprios temores de D. Fernando em relação à morte. Ainda com sequelas do atentado contra a sua vida, ele procurava assegurar-se dos interesses sucessórios da única filha, e, neste sentido, um casamento com o herdeiro do trono castelhano era mais vantajoso do que com seu irmão ilegítimo. Evidentemente, a ideia agradava aos castelhanos, e foi aceita. Um casamento do herdeiro de Castela com a herdeira de Portugal, além de legitimar a nascente dinastia, ampliaria consideravelmente as fronteiras daquele reino, afinal. Um novo tratado foi logo assinado, e em inícios de 1380, D. Beatriz ficou formalmente noiva do príncipe castelhano.

Paralelamente, contudo, as amistosas relações não eram tão evidentes quanto pareciam, uma vez que em breve D. Fernando também negociava as núpcias de sua herdeira com o sobrinho do duque de Lancaster para firmar uma aliança contra Castela, cuja coroa João de Gaunt ainda ambicionava. Esta surpreendente duplicidade de Portugal pode ser atribuída tanto ao rancor do rei português contra o usurpador castelhano devido aos territórios que perdera em conflitos anteriores quanto à forte influência do favorito da rainha, o agente inglês João Fernandes de Andeiro, que também seria um suposto amante de D. Leonor. Em junho de 1381, as tropas inglesas desembarcaram em Portugal, juntamente com o irmão do duque de Lancaster, o conde de Cambridge, sua esposa, Isabel de Castela – também filha do assassinado Pedro I – e o prometido de D. Beatriz, o herdeiro Eduardo. Eles seriam recepcionados e hospedados por D. Fernando e D. Leonor, com quem também trocariam ricos presentes. Pouco depois deste auspicioso começo, as tropas combinadas de Inglaterra e França foram novamente à guerra contra Castela.

Leonor Teles de Menezes – parte III

A primeira criança de Leonor e D. Fernando, D. Beatriz, nasceu em 1º de março de 1373 ainda em meio a um movimento contra o recente casamento real. Segundo Fernão Lopes, cronista do período, o reino como um todo ficou indignado com as núpcias do monarca com uma mulher tão pouco adequada, que claramente o tinha enfeitiçado (LOPES, p. 210): devido ao fato do marido anterior dela ainda viver, a união sequer era legítima. Revoltas contra o matrimônio ocorriam até mesmo em Santarém, no lar da infância de Leonor. Por certo tempo, ainda segundo Lopes, ela até mesmo temeu ser abandonada por D. Fernando. O rei, contudo, reafirmou o casamento numa cerimônia pública na cidade do Porto, num mosteiro da Ordem do Hospital chefiado por Álvaro Gonçalves Pereira, homem da família influente na Península Ibérica e vassalo de confiança de D. Fernando. Além disso, Álvaro era parente por afinidade da rainha por meio da tia desta, Guiomar – poucos anos depois, inclusive, D. Leonor tomaria o filho deste, Nuno, como escudeiro. De qualquer forma, o fato que aquela união precisou ser justificada publicamente mostra bem claramente seu grau de fragilidade perante o público.

Mas simplificaríamos demais a questão se colocarmos a culpa da impopularidade do matrimônio de D. Fernando e D. Leonor apenas sobre a última: segundo a interpretação de Maria José Pimenta Ferro (1983, p. 53), a revolta contra o casamento apenas teria sido uma de várias rebeliões populares contra medidas da Coroa geradas pelos gastos bélicos de D. Fernando num contexto internacional de contestações contra a nobreza. Desta forma, embora as núpcias do rei com Leonor Teles de Menezes provavelmente tenham descontentado alguns, por si só não ocasionou mais revolta do que a carestia de vida, os abusos dos grandes senhores ou a corrupção da corte portuguesa durante o reinado de D. Fernando. Apesar disso, porém, é interessante tomar nota da recusa do infante D. Dinis, meio-irmão de D. Fernando, em se curvar perante D. Leonor na cerimônia de beija-mão que se seguiu à cerimônia matrimonial; isto simbolizava claramente a antipatia dos filhos de Inês de Castro em relação à rainha. O confronto entre as duas facções parecia inevitável.

João de Gaunt, duque de Lancaster
João de Gaunt, duque de Lancaster

Em 1371, a curta paz nos reinos ibéricos chegou ao fim quando o nobre inglês João de Gaunt, recém-casado com a filha mais velha sobrevivente de Pedro I de Castela, Constança, reivindicou o trono daquele reino no nome da esposa. Para perseguir tal projeto, o duque de Lancaster necessitava do apoio de alguns vizinhos de Castela. D. Fernando aceitou prontamente a aliança, vendo uma aí uma oportunidade não só de estreitar os laços comerciais e militares entre Portugal e Inglaterra, como também de recuperar alguns territórios capturados por Castela no conflito anterior. Embora esta primeira investida fosse ser um fracasso devido ao atraso dos soldados ingleses, obrigando o rei português a aceitar outro tratado de paz com Castela, pouco tempo depois uma aliança perpétua com a Inglaterra de Eduardo III foi traçada no chamado Tratado de Westminster; este acordo seria o antecessor direto do célebre Tratado de Windsor, assinado poucos anos depois e ainda em vigor nos dias de hoje, constituindo-se na aliança mais antiga ainda em atividade.

Como parte do tratado de paz com Castela, a princesa D. Beatriz, ainda com três anos, foi prometida a um filho bastardo de Henrique II, D. Fradique, duque de Benavente, que mal completara seis anos. Seria apenas o primeiro noivo da herdeira de Portugal. Entretanto, a promessa de matrimônio entre ambos foi ofuscada pelo escândalo da morte da irmã da rainha, Maria, casada há pouco com o meio-irmão do rei, D João. Leonor já se mostrara hostil com ambos após saber do casamento, e boatos registrados pelo cronista Fernão Lopes dão a entender que a rainha, temendo pelo seu futuro após uma doença de seu marido, armou uma trama que levasse o popular infante a assassinar Maria – com quem Leonor há tempos não tinha boas relações – devido ao seu suposto adultério. De fato, após cometer o crime, D. João fugiria para Castela, se reunindo ao irmão D. Dinis, já exilado há alguns anos. Assim, as principais ameaças ao poder de D. Leonor se encontravam anuladas no momento em que a saúde de D. Fernando começava a declinar.

Leonor Teles de Menezes – parte II

Nesta época, D. Pedro I de Portugal já falecera, com seu primogênito o sucedendo no trono com apenas 22 anos de idade. Logo após a sua aclamação, D. Fernando teve que lidar com a crise que ocorria no reino vizinho de Castela: seu primo, Pedro I de Castela, fora aprisionado e assassinado por seu meio-irmão ilegítimo, Henrique de Trastámara, que se declarou rei. Em apoio às pretensões das filhas de seu primo, o monarca português foi à guerra contra o usurpador. Procurando garantir também o apoio do rei de Aragão, D. Fernando comprometeu-se formalmente com a filha deste, a infanta D. Leonor. Em 1370, uma embaixada, liderada por João Afonso Teles, foi enviada à Aragão para entregar ouro de ajuda militar no conflito e presentes para a noiva, além de levá-la para Portugal. Embora bem recebido por Pedro IV de Aragão, o embaixador não conseguiria cumprir seu objetivo; segundo o rei, sua filha não poderia partir sem que a dispensa papal para o matrimônio tivesse sido garantida. O mais provável, porém, é que o monarca não quisesse se comprometer rapidamente com o lado português do conflito, que não estava conseguindo subjugar Castela.

D. Fernando
D. Fernando

De fato, a guerra estava tecnicamente empatada, e quando delegados do papa Gregório XI vieram à Península Ibérica para propor a paz, D. Fernando e Henrique II prontamente a aceitaram. Como parte do acordo de paz de 1371, o rei português teve que abandonar Leonor de Aragão e comprometer-se com a filha do monarca castelhano – outra infanta chamada Leonor. Quando Pedro IV de Aragão soube de tal traição, ordenou que o ouro trazido para uma ajuda que nem se concretizara fosse imediatamente retirado da guarda de um tesoureiro português e colocado no tesouro aragonês. Isso em muito desagradaria D. Fernando, danificando em consequência as relações entre Portugal e Aragão.

A esta altura, a terceira Leonor, sobrinha de João Afonso Teles, estava casada há alguns anos com João Lourenço da Cunha. Sua irmã Maria, porém, já era uma viúva, sendo uma dama de companhia da meia-irmã do rei, D. Beatriz; ocasionalmente Leonor a visitava. Em uma dessas temporadas na corte, a jovem senhora de Pombeiro atraiu a atenção do rei D. Fernando. Provavelmente a atração real foi correspondida, uma vez que Leonor prolongou tanto sua estada na corte portuguesa que seu marido teve que ordenar que ela retornasse. A esta altura, contudo, D. Fernando já estava tão apaixonado que ordenou à Maria que fingisse uma doença para que Leonor pudesse permanecer na corte. Alarmada com a insistência do rei, Maria procurou o auxílio do tio, que, temendo um escândalo que prejudicasse a família Teles de Menezes e as relações de Portugal com Castela, tentou sem sucesso convencer o rei a devolver Leonor para João Lourenço da Cunha. D. Fernando, porém, que talvez nunca tivesse levado realmente a sério o compromisso matrimonial com Castela, estava decidido em seu propósito com Leonor: entre abril e agosto de 1371, um divórcio entre ela e João foi prontamente arranjado. Humilhado, o marido se retirou do reino. Em breve, sua antiga esposa e o rei se casariam numa cerimônia com poucas testemunhas, consumando o relacionamento apenas após a cerimônia. Em pouco tempo, a nova rainha estava grávida.

Leonor Teles de Menezes – parte I

Nascida por volta de 1350 na província portuguesa de Trás-os-Montes, Leonor Teles de Menezes foi a filha caçula de Martim Afonso Teles de Menezes, um descendente ilegítimo do rei D. Sancho I de Portugal, e Aldonça de Vasconcelos. Seu avô materno, João Mendes de Vasconcelos, foi um membro importante da nobreza portuguesa, servindo como alcaide-mor das vilas de Miranda do Corvo e de Estremoz; além disso, ele foi uma das testemunhas convocadas por D. Pedro I de Portugal para jurar seu casamento secreto com Inês de Castro. Seu pai, contudo, após servir por alguns anos a Coroa de Castela, seria o próprio mordomo-mor da rainha D. Maria de Portugal – talvez até mesmo seu amante – durante o conturbado casamento desta com Afonso XI.

D. Maria de Portugal, rainha de Castela
D. Maria de Portugal, rainha de Castela

O serviço de Martim Afonso Teles de Menezes terminaria bruscamente com seu assassinato em inícios de 1356 por homens do filho de sua senhora, o rei Pedro I de Castela, seguindo uma revolta desta. Sua viúva, Aldonça, sozinha agora com três crianças, possivelmente foi viver com eles junto aos tios paternos, João Afonso Teles, outro influente membro da corte portuguesa, e Guiomar Pacheco, em Santarém. Pouco tempo depois, a mãe de Leonor também morreria, deixando Leonor, a irmã Maria e o primogênito João para serem criados por Guiomar, que era uma aparentada por via ilegítima da realeza castelhana. Vendo todas as ligações com as casas reais ibéricas que a família de Leonor desfrutava, portanto, seria algo surpreendente se ela não tivesse convivido por algum tempo com o herdeiro do trono português D. Fernando, conforme defendido por Alberto Armando Martins (2011). Afinal, o príncipe era apenas cinco anos mais velho, e desde jovem pernoitava em Santarém durante as caçadas que tanto apreciava.

Isto não quer dizer, é claro, que qualquer proposta de matrimônio entre ambos estivesse sendo perseguida pelos Teles de Menezes e os Pacheco. Muito embora Leonor fosse consideravelmente bem nascida para os padrões da aristocracia ibérica, que valorizava mesmo as linhas de descendência ilegítimas, isto não significava que ela poderia ser a esposa do futuro rei português. De qualquer forma, seu primeiro marido seria bastante influente: tratava-se de João Lourenço da Cunha, senhor do Pombeiro e vassalo do infante D. João, filho de D. Pedro I e Inês de Castro. Eles teriam dois filhos juntos: uma menina que faleceu ainda na infância e um menino chamado Álvaro.

Inês de Castro – parte III

Aproximadamente na época de seu suposto matrimônio, Pedro e Inês passaram a viver em Coimbra no Paço de Santa Clara, construído pela avó do rei, a Rainha Santa. Enquanto isso, na corte portuguesa, a nobreza pressionava cada vez o rei D. Afonso IV para que afastasse definitivamente aquelas influências galegas e cada vez mais pró-castelhanas da convivência de seu herdeiro. Uma vez que a intransigência da recusa de D. Pedro para afastar-se daquela que ele alegava que era sua esposa legítima era absoluta, o monarca teve que ordenar a morte de Inês. Em 07 de janeiro de 1355, três nobres – Diogo Alves Pacheco, Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves – aproveitaram a ausência do príncipe numa excursão de caça e prenderam Inês, executando-a por decapitação quase imediatamente. Segundo algumas versões da história, o próprio rei estava com eles, e Inês teria tentando comovê-lo ao exibir seu filho mais novo perante seus olhos; desta forma, a criança teria testemunhado a inevitável morte de sua mãe.

Inês (ao fundo) tentando comover o rei D. Afonso IV ao exibir seus filhos diante dele no filme Inês de Portugal (1997). No caso, o filme tomou uma liberdade poética ao envelhecer bastante o segundo, que ainda era um bebê na época da execução da mãe
Inês (ao fundo) tentando comover o rei D. Afonso IV ao exibir seus filhos diante dele no filme Inês de Portugal (1997). No caso, o filme tomou uma liberdade poética ao envelhecer bastante o segundo, que ainda era um bebê na época da execução da mãe

Quando foi informado do acontecido, a consternação de D. Pedro transbordou imediatamente para a revolta contra o pai, e ele começou a assaltar militarmente várias cidades ao norte do reino. Apenas a intervenção de sua mãe, a rainha D. Beatriz, conseguiu reconciliar pai e filho alguns meses depois. De qualquer forma, D. Afonso IV morreria em menos de dois anos, tornando Pedro rei de Portugal. Imediatamente, ele prosseguiu a vingança pelo assassinato de Inês: negociou com o rei de Castela – e seu sobrinho – para que os assassinos de sua esposa fossem devidamente extraditados de volta para Portugal em troca de alguns prisioneiros castelhanos retidos no reino. Apenas Diogo Alves Pacheco conseguiria fugir e, assim, ser poupado do destino dos outros dois: é dito que, enquanto o monarca assistia, ambos tiveram seus corações arrancados pelo carrasco.

Depois, D. Pedro I prosseguiu para legitimar Inês como sua rainha. Além de declarar publicamente o seu matrimônio com a ajuda de algumas duvidosas testemunhas, tornando desta forma seus filhos infantes de Portugal, ele ainda teria desenterrado o caixão da esposa, colocado seu cadáver no trono e ordenado então que os nobres prestassem homenagem à sua soberana. Em algumas versões da história, a obrigação iria tão longe até um beijo na mão apodrecida da rainha.

Aclamação póstuma de Inês de Castro
Aclamação póstuma de Inês de Castro

D. Pedro I reinaria por mais dez anos até sua própria morte em 1367, quando seria sucedido pelo filho que tivera com sua primeira esposa Constança, Fernando. Ele seria enterrado, contudo, junto à Inês. Seus caixões ainda hoje estão no mosteiro de Alcobaça, posicionados de frente um para o outro; assim, o rosto do amante seria a primeira visão que cada um teria quando ressuscitarem no Juízo Final. Teriam ficado, desta forma, juntos até o fim do mundo.

Inês de Castro – parte II

Deve-se tomar cuidado, porém, para não tomar retrospectivamente a paixão absoluta e algo obsessiva de D. Pedro por Inês. Casado aos vinte anos por interesse e não por amor (PIMENTA, 2011, p. 168), o príncipe ruivo de olhos negros teria muitas amantes, entre elas Beatriz Dias, Teresa Lourenço, e, se for acreditado nas suspeitas levantadas posteriormente, Afonso Madeira (LOPES, 1986, p. 39). De fato, Inês era apenas uma favorita real bastante beneficiada durante o casamento do príncipe com Constança, principalmente se for observado o fato que a esposa gerava uma criança praticamente atrás da outra (Luís em 1340, Maria em 1343 e Fernando em 1345), e a concubina permanecia estéril.

Heitor Lourenço e Cristina Homem de Mello como os amantes Pedro e Inês no filme Inês de Portugal (1997)
Heitor Lourenço e Cristina Homem de Mello como os amantes Pedro e Inês no filme Inês de Portugal (1997)

Tudo mudaria, contudo, após a morte da princesa em 13 de novembro de 1345, cerca de duas semanas após o nascimento do último filho; logo no ano seguinte, Inês daria à luz seu primeiro filho, Afonso, que apesar de viver pouco, iniciaria uma lista de quatro crianças (Beatriz aproximadamente em 1347, João em 1349 e Dinis em 1354). Nestas circunstâncias, a influência de Inês sobre o príncipe cresceu, assim como a de seus irmãos, que já detinham anteriormente uma amizade com o herdeiro. O rei, que já temia tal ingerência, passou a multiplicar seus esforços para conseguir um novo matrimônio para o filho, principalmente porque após o falecimento precoce de D. Luís, existia apenas um infante, D. Fernando, para separar Portugal de outra possível crise sucessória. Havia um problema, entretanto: D. Pedro insistia que já era casado com Inês.

A extensa discussão sobre se tal matrimônio realmente ocorreu, ou quanto sua validade do ponto de vista dinástico, permanece até hoje. Existem autores, como Barbosa (1728), Figueiredo (1785) e Araújo (1852), entre muitos outros, que tomam o casamento como certo, localizando-o inclusive como tendo ocorrido na cidade de Bragança provavelmente em 1353, quando D. Afonso IV esforçava-se para retirar Inês da convivência do filho. Antônio Caetano de Sousa (1946), contudo, chama a atenção para o fato que tais autores insistem na ocorrência do casamento, mas não em sua legitimidade – sem a qual as núpcias seriam nulas. De fato, o século XIX é em sua maioria curiosamente reticente na abordagem do fato, como mostra Chagas: “A dar crédito a declarações posteriores D. Pedro terá casado com ela. Se for assim, D. Pedro a ninguém o declarou (…) as pessoas presentes à leitura de todos estes documentos ouviram em silêncio, e o acceitaram tudo quanto o Rei lhes quis fazer acreditar” (CHAGAS, 1867-1874, pp. 173 e 187).

No século XX, a tendência maior é ou duvidar que as núpcias sequer ocorreram, como mostram as abordagens de Peres (1929) Vasconcelos (1928) e Martins (1972) ou então uma adotar um tratamento intermediário da questão, como fazem Sousa (1946), Brásio (1961), Serrão (1978) e Marques (1987): enquanto o julgamento dos dois primeiros pende a favor de uma união morganática, os dois últimos escolhem não pender definitivamente para nenhum lado, mas apenas apontar os fortes indícios que o suposto matrimônio tem muitos pontos obscuros. Num livro mais recente sobre o rei, Pimenta (2011, p. 192) cita um ensinamento de São Paulo para dar seu veredito definitivo sobre a polêmica: “Se alguém, transbordando de paixão, acha que não conseguirá respeitar a noiva, e que as coisas devem seguir o seu curso, faça o que quiser. Não peca; que se casem.”

Inês de Castro – parte I

Nascida em data indefinida em 1325, Inês de Castro era a filha do senhor de Lemos e Sarria, o galego Pedro Fernández de Castro, e sua amante portuguesa, Aldonça Lourenço de Valadares. Ambos tinham importantes laços com a nobreza portuguesa e castelhana, mesmo que por via ilegítima. Por exemplo, a avó materna de Inês era Violante Sánchez de Castela, senhora de Uzero por direito próprio e filha ilegítima de Sancho IV de Castela; em um parentesco mais distante, ela também descendia da própria irmã de D. Afonso I de Portugal, a infanta D. Sancha.

Com estas e outras ligações ainda mais íntimas com as Casas reais mais importantes da Península, não realmente surpreende que desde jovem Inês estivesse envolvida em questões importantes. Em 1340, ela foi escolhida para fazer parte do grupo das damas de companhia que acompanhariam Constança de Castela para seu casamento com o herdeiro do trono português, Pedro. O próprio arranjo deste casamento merece atenção. A filha primogênita do rei português, a infanta D. Maria, casara-se em 1328 com o rei castelhano Afonso XI. O matrimônio, porém, foi infeliz desde o princípio; desde antes das núpcias, o monarca tinha uma amante, Leonor de Guzmán, com a qual tinha uma relação apaixonada e intensa; no decorrer dos anos, a concubina real geraria dez filhos.  O casal acabaria eventualmente isolando a rainha Maria num convento.

Representação de Afonso XI numa iluminura do século XV
Representação de Afonso XI numa iluminura do século XV

Revoltado com tal tratamento fornecido à sua filha, o rei português ameaçaria guerrear contra Castela, mas acabaria não cumprindo tal intento, convencido por sua mãe, a Rainha Santa Isabel de Aragão, e sua esposa, Beatriz de Castela. Apesar disso, D. Afonso IV retaliaria em outro ponto bastante sensível nas relações entre os dois reinos: os arranjos matrimoniais. Em 1339, o rei português acertaria uma união entre seu filho e herdeiro Pedro com a filha do duque de Peñafiel, o maior inimigo do rei de Castela e, por consequência, o seu vassalo mais perigoso, rejeitando no processo a própria prima de Afonso XI, Blanche. O casamento presencial se realizaria logo no ano seguinte, quando Constança chegou a Portugal. Teria sido aproximadamente nesta época, segundo os cronistas, que o príncipe Pedro se apaixonou perdidamente pela dama de companhia muy fermosa de sua esposa.

Beatriz de Castela, a rainha do bravo rei – parte II

Desta forma, quando subiram ao trono em 1325 seguindo a morte do rei D. Dinis, o casal real ainda era bastante jovem. Mesmo assim, entretanto, D. Beatriz não conseguiu chegar nem perto do destaque historiográfico que sua sogra, D. Isabel, teria, embora tenha realizado feitos notáveis: além de seus diversos atos piedosos, incluindo a fundação de um hospital em 1329, Beatriz de Castela interviu na crise entre Portugal e Castela de 1336 juntamente com a Rainha Santa, impedindo um confronto entre seu marido e seu genro (e sobrinho) Afonso XI. Já no final do reinado de D. Afonso IV, ela teve uma participação fundamental para impedir o confronto entre seu marido e seu filho, o infante Pedro, na atmosfera turbulenta que se seguiu ao assassinato da amante dele – talvez esposa – a notória Inês de Castro. A inexistência de uma autoridade própria com certeza não teria tornado tais eventos possíveis.

Pintura de 1822 que mostra Inês de Castro ajoelhando com seus filhos perante o rei D. Afonso IV
Pintura de 1822 que mostra Inês de Castro ajoelhando com seus filhos diante do rei D. Afonso IV

Ao contrário de outras rainhas, portanto, D. Beatriz não se limitou ao papel de consorte e mãe dos herdeiros do rei de Portugal, estando no centro de acontecimentos notáveis do século XIV e sendo uma figura política ativa. Parte desta força derivava-se de sua influência perante o rei D. Afonso IV. Embora ambos não tenham sido muito bem sucedidos do ponto de vista reprodutivo, produzindo sete crianças com apenas três sobrevivendo além da infância – D. Maria, futura rainha de Castela – n. 1313, f. 1357 -, D. Afonso – n. 1515, f. jovem -, D. Dinis – n. 1317, f. 1318 -, D. Pedro, futuro rei de Portugal – n. 1320, f. 1367 -, D. Isabel – n. 1324, f. 1326 -, D. João – n. 1326, f. 1327 – e D. Leonor, futura rainha de Aragão – n. 1328, f. 1348 – (SERRÃO, 1978, pps. 401-402), o fato é que o casal real tinha uma união nitidamente amorosa, questão provada pelo fato que D. Afonso IV foi o único rei da dinastia portuguesa de Borgonha que comprovadamente jamais teve uma amante até a sua morte em 1357.

Sua esposa morreria apenas dois anos depois. A posição de rainha de Portugal seria ocupada extraoficialmente pela controversa e já falecida Inês de Castro, numa decisão polêmica de D. Pedro I discutida pelos historiadores até hoje.

Beatriz de Castela, a rainha do bravo rei – parte I

Segunda filha mulher (sétima criança) de Sancho IV de Castela e sua consorte María de Molina, a infanta Beatriz foi a caçula do casal real, nascida na cidade de Toro em oito de março de 1293 exatamente dez anos após a primogênita do casal real, Isabel, que seria no futuro rainha de Aragão por um breve tempo por seu casamento com infante Jaime. A união, porém, jamais seria consumada, e após a morte do pai, Sancho IV, o novo rei repudiou o matrimônio com Isabel – e consequentemente a aliança com Portugal – ao optar por uma nova união com uma das filhas de Carlos II de Nápoles.

Dois anos depois, Portugal quebraria oficialmente a aliança com Aragão ao negociar um matrimônio duplo com Castela: o príncipe herdeiro Afonso se uniria com a infanta Beatriz enquanto sua irmã mais velha Constança se casaria com o herdeiro castelhano Fernando. Conforme relembra Sousa (2005, pps. 22-23), embora a doutrina eclesiástica determinasse o consentimento dos presuntivos noivos para a realização do matrimônio, de fato a vontade destes pouco importava num contexto de grande relevância política, o que fica particularmente evidente neste caso da troca de noivas entre Castela e Portugal:  quando as longas negociações pareciam definitivamente firmadas, D. Constança tinha apenas sete anos, sendo a infanta Beatriz ainda mais jovem, com três ou quatro anos de idade.

Beatriz de Castela
Beatriz de Castela

Além do acordo político, contudo, ainda era imprescindível um acordo religioso – devido aos vários matrimônios entre as dinastias de ambos os reinos, os proponentes noivos estavam abaixo do parentesco mínimo de 4º grau para que um matrimônio fosse considerado legítimo sem uma licença especial da Igreja. Mesmo antes, porém, a futura rainha já fora encaminhada para a refinada corte portuguesa provavelmente em 1298, muito embora o casamento em si só tenha ocorrido em 1309. Na época, D. Afonso tinha 18 anos, e D. Beatriz 15 ou 16.