Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte IV

Depois de D. Isabel, a rainha ainda teria mais três crianças: outra D. Blanche (n. 11/04/1398), que também faleceria jovem, D. João (n. 13/01/1400) e D. Fernando, o Infante Santo (n. 29/09/1402), este último quando Philippa já estava com 42 anos de idade. Esta última gestação, aliás, como a primeira gravidez da rainha, começou com preocupações; na época da nova concepção, a rainha encontrava-se bastante doente, fraca e febril. Foi recomendado pelos médicos que um aborto fosse induzido para conservar sua vida, e D. João I até mesmo se dispôs a dar a ela pessoalmente a bebida que interromperia a gravidez. Philippa, contudo, se recusaria, expondo sua fé e confiança na sabedoria de Deus. Meses depois, ela teria um “muy bõo e seguro parto”. Rapidamente, o caçula se tornaria o favorito da mãe.

D. Fernando, caçula de Philippa, conhecido como o Infante Santo
D. Fernando, caçula de Philippa, conhecido como o Infante Santo

Em adição a ser uma das consortes mais importantes da história portuguesa em termos políticos, Philippa também ditaria os termos do comportamento e modelo de vida das rainhas seguintes. Estabelecendo formalmente uma corte bastante religiosa em Portugal, a virtuosa esposa de D. João I preocupava-se, em princípio, apenas com a criação de sua progênie enquanto o rei governava e pacificava as fronteiras. Neste sentido, sua influência política ocorreu apenas de maneira indireta ao intermediar contatos entre seu reino de adoção e a Inglaterra, como no caso já abordado do casamento de D. Beatriz. A morte de João de Gaunt em 1399 em nada alterou a importância dinástica de Philippa, uma vez que pouco depois seu próprio irmão deporia Ricardo II e se tornaria Henrique IV de Inglaterra. Além disso, ela beneficiou a fraca economia portuguesa ao incentivar seu marido e filhos para ir rumo à conquista do importante ponto comercial de Ceuta.

D. Duarte, secundogênito homem de Philippa e sucessor de seu pai no trono de Portugal
D. Duarte, secundogênito homem de Philippa e sucessor de seu pai no trono de Portugal

Pouco antes do embarque, entretanto, a rainha ficou seriamente doente. Era a peste, que desde o início do ano de 1415 atacava em Lisboa e no Porto. Enfraquecida por seus constantes jejuns e vigílias, Philippa foi presa fácil para a moléstia, e em pouco tempo já se encontrava à beira da morte. Para sua própria proteção, D. João I foi afastado dela, mas nada deteve a aproximação dos três infantes mais velhos, que compartilharam dos últimos momentos da mãe; seriam inclusive presenteados por ela com preciosas espadas. Depois, a rainha comungou e recebeu a extrema-unção, morrendo pouco depois com um sorriso nos lábios. Tinha 53 anos. Mesmo em luto, seu marido e seus filhos prosseguiriam com os planos de Philippa e iriam conquistar Ceuta, dando o pontapé inicial naquelas que seriam as Grandes Navegações.

Para saber mais:

COELHO, Maria Helena da Cruz. D. João I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2012.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte III

Apesar de ter herdado de sua mãe a aparência loira e clara tão valorizada nas mulheres no período medieval, a rainha Philippa não era considerada bela ou com particulares encantos. Para piorar a situação, seu marido já tinha uma amante – Inês Pires – há alguns anos, com quem tivera dois filhos sobreviventes, D. Afonso e D. Beatriz.  Mesmo assim, superando os temores da corte, Philippa engravidou rapidamente. Em junho, diante de novo fracasso de sua campanha contra os castelhanos, o duque de Lancaster acertou com João I de Castela um matrimônio entre a jovem Catarina e o mais jovem ainda Henrique, como forma de unir as pretensões ao trono e encerrar definitivamente a guerra entre Castela e Inglaterra. Neste meio tempo, o rei de Portugal caiu gravemente doente durante o percurso até Coimbra. A rainha e o duque foram rapidamente visitá-lo, temendo o pior, uma vez que D. João I até já fizera um testamento. Em meio à tensão, Philippa abortou. Pouco depois, o rei melhorou de forma inesperada, podendo seguir com o resto da comitiva para a cidade de Porto.

Catarina de Lancaster
Catarina de Lancaster

Em provável consequência deste momento difícil, os recém-casados se aproximaram. Pouco depois, D. João I deixaria Inês Pires, que foi rapidamente encaminhada por Philippa para um convento, onde se tornaria futuramente a abadessa, enquanto seus filhos D. Afonso e D. Beatriz passaram a ser criados no paço real. De fato, D. João I não teria mais casos extraconjungais registrados. Não muito depois, Philippa daria à luz a princesa D. Blanche (n. 13/07/1388). Embora o bebê tenha morrido antes mesmo de completar um ano, rapidamente seria seguida por um irmão e herdeiro ao trono, o príncipe D. Afonso (n. 30/07/1389). Três infantes o seguiriam em rápida sucessão: D. Duarte (n. 31/10/1391), D. Pedro (n. 09/12/1392) e D. Henrique (n. 04/03/1494). A linha real portuguesa estava assegurada, mesmo que, assim como a irmã mais velha, o primogênito também falecesse ainda criança, deixando a herança para o irmão D. Duarte. Em 21 de fevereiro de 1397, o nascimento de herdeiros homens seria interrompido temporariamente pelo nascimento da infanta D. Isabel, única filha de Philippa que sobreviveria à infância.

D. Afonso
D. Afonso

Paralelamente à produção daquela que seria conhecida futuramente como a “Ínclita Geração”, a rainha providenciava com o marido os matrimônios da descendência ilegítima daquele.  Em 1401, D. Afonso casou-se com a altamente disputada filha e herdeira do Condestável do rei, D. Beatriz Pereira. Inicialmente, na verdade, o rei tentou um matrimônio entre ela e o herdeiro do trono D. Duarte, mas tal ideia foi recusada por Nuno Álvares Pereira, que não desejava que sua Casa terminasse anexada ao patrimônio real. Assim, as núpcias entre sua herdeira e o filho legitimado do rei acabaram negociadas como alternativa, ocorrendo finalmente em Lisboa na presença do rei e dos grandes nobres do reino. Pouco depois, o próprio D. Afonso acompanharia sua irmã à Inglaterra para o casamento desta com um algo relutante conde de Arundel, aparentado próximo da família real inglesa. Uma década depois, ficando viúva do primeiro marido, ela se casaria novamente com o conde de Huntington, sobrinho da rainha de Portugal por meio de sua irmã Isabel. Mais uma vez, o tratado de Windsor era confirmado por influência direta da esposa inglesa de D. João I.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte II

Em fins da década de 1370, João de Gaunt anunciou sua pretensão ao trono de Castela pelo direito de sua esposa, filha e herdeira do falecido Pedro I, e aliou-se a D. Fernando I de Portugal para guerrear contra o inimigo comum de ambos, o usurpador Henrique de Trastámara. Embora nem a pretensão nem a aliança tivessem os resultados esperados, na década de 1380 o duque de Lancaster viu uma nova oportunidade na crise sucessória portuguesa de 1383-85, onde a filha de D. Fernando I e esposa de João I de Castela, a princesa D. Beatriz, lutava pelos seus direitos sucessórios contra o tio ilegítimo, o Mestre de Avis. Em meio a um anti-castelhanismo crescente entre os portugueses, este seria aclamado em março de 1384 como D. João I de Portugal. No ano seguinte, a estrondosa vitória em Aljubarrota – com participação de tropas inglesas – efetivamente sepultou as chances de D. Beatriz ao trono português, ao mesmo tempo em que fortaleceu a proposta nupcial do duque de Lancaster ao novo rei.

Philippa de Lancaster
Philippa de Lancaster

Naquele momento, D. João I tinha à sua escolha duas donzelas, ambas filhas de João de Gaunt: Philippa e Catarina. Enquanto aparentemente a segunda era melhor opção, considerando-se que era a única filha da legítima herdeira castelhana, a infanta Constança, a escolha recairia sobre Philippa, que já tinha um irmão para assumir a herança de sua mãe; a princípio, isso seria um movimento desvantajoso por parte dos portugueses. Por outro lado, porém, Catarina carregava consigo a promessa e o peso da constante guerra; embora Portugal fosse aliado de Inglaterra contra Castela, o fato é que, após um escaramuçado conflito pela garantia da independência, D. João I preferiu estabilizar o reino com a nova dinastia de Avis. Philippa, então, foi a escolhida.

D. João I de Portugal
D. João I de Portugal

Após a liberação formal de seus votos religiosos pelo papa Bonifácio IX, o rei casou-se com a primogênita de João de Gaunt em 14 de fevereiro de 1387, numa cerimônia algo apressada pelo pai da noiva, uma vez que este queria que eles estivessem oficialmente aliados pelo sangue o mais rápido possível para então guerrear contra Castela; isto seria bastante dificultado se o casamento não ocorresse antes da Quaresma. Após a benção nupcial solene pelo bispo e um grande banquete de comemoração, os recém-casados foram ritualmente postos na cama para a consumação. Os noivos eram notavelmente maduros para a época; enquanto D. João I tinha quase 30, Philippa já alcançara os 27, sendo já vários anos mais velha do que sua mãe quando esta morrera. Muitos na corte portuguesa inclusive temiam que a nova rainha já tivesse passado da idade para conceber.

Philippa de Lancaster, a rainha inglesa – parte I

Nascida em 31 de março de 1360, Philippa de Lancaster foi a primogênita de João de Gaunt, quarto filho homem do rei Eduardo III da Inglaterra e sua rainha Philippa de Hainault, com sua prima de 3º grau e esposa, a grande herdeira Blanche de Lancaster. A princesa era, portanto, descendente por ambos os lados da alta nobreza inglesa, fruto de um luxuoso matrimônio realizado em 1359 sob importantes auspícios políticos; apesar disso, contudo, diferentemente de muitas núpcias aristocratas do período, é dito que o duque e a duquesa de Lancaster tiveram um casamento feliz até a morte de Blanche em setembro de 1369, pouco depois do falecimento da avó e homônima de Philippa. Vítima da peste, a duquesa deixaria para trás um viúvo em profundo luto e três crianças sobreviventes das sete que dera à luz – Philippa, sua irmã Isabel (n. 1364, f. 1426) e o caçula Henrique (n. 1367, f. 1413). Após alguns anos de viuvez, João de Gaunt se casaria pela segunda vez com outra herdeira, a infanta castelhana Constança, com quem teria Catarina (n. 1373, f. 1418).

Blanche de Lancaster
Blanche de Lancaster

Paralelamente, contudo, o duque de Lancaster tinha um caso de longa data com Catarina Swynford, cunhada do famoso poeta Geoffrey Chaucer, com que ele tinha uma forte amizade e a quem encomendaria aquela que seria a primeira obra célebre de Chaucer, O Livro da Duquesa, provavelmente feito em homenagem à mãe de Philippa. O relacionamento extraconjugal de ambos, que começaria ainda durante a viuvez de João de Gaunt, entrando pelo matrimônio deste com Constança e culminando num casamento em 1396 e legitimação dos quatro filhos do casal, provocaria uma profunda vergonha em Philippa, potencializada pelo fato que a amante do pai era também sua governanta. Geoffrey Chaucer também seria um de seus tutores, participando daquela que seria uma educação notável para uma mulher no século XIV; além de bem versada em poesia, filosofia e teologia, Philippa também conhecia os escritores clássicos.

João de Gaunt
João de Gaunt

Como um dos principais comandantes militares ingleses, o duque de Lancaster passou significativa parte da década de 1370 liderando as tropas contra os franceses, naquela série de conflitos entre os dois reinos que futuramente seria conhecida como a Guerra dos Cem Anos. Antes de partir, porém, ele instalou a família no castelo de Tutbury, localizado no condado de Staffordshire. E foi naquele lugar que Philippa amadureceria como mulher e se prepararia para o casamento, inevitável para uma donzela em sua posição; assim, teve lições sobre heráldica e etiqueta de corte, além de conviver com os vários trovadores bancados por sua madrasta Constança. Logo os primeiros pretendentes apareceriam para os filhos de Blanche de Lancaster: enquanto a secundogênita Isabel se casaria com o conde de Huntingdon, o jovem Henrique ficaria prometido à jovem herdeira Maria de Bohun. Philippa, porém, não entrou em nenhum compromisso formal, apesar de conversas neste sentido terem ocorrido com o rei de França e o duque de Luxemburgo. Aparentemente, um destino mais solene fora reservado para ela.