Mecia Lopes de Haro – parte III

A nova rainha foi rapidamente rejeitada pela alta nobreza, que alegava que o rei fora enfeitiçado para se matrimoniar com ela. Ao mesmo tempo, o clero português também se opunha ao casamento, argumentando que a falta de filhos era um sinal que Deus não via a união favoravelmente (ZIERER, 2003, p. 164) até mesmo porque uma dispensa adequada não fora procurada antes do matrimônio. Enquanto isso, a falta de intervenção real nos confrontos entre o clero e os mercadores acirrava os ânimos e tornara a situação ainda mais difícil do ponto de vista político. Por fim, por pressão do clero português, o papa Inocêncio IV declarou o rei deposto por meio de uma bula, indicando que seu irmão mais novo, D. Afonso, deveria tomar o seu direito em Portugal por meio de armas. Quase ao mesmo tempo, ele também declarou nulo o matrimônio entre D. Sancho II e a impopular Mécia devido ao parentesco próximo entre ambos. Este foi o fim simbólico do reinado do quarto rei de Portugal.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal

Foi quando a rainha foi sequestrada no palácio de Coimbra, sendo retirada dos aposentos conjugais por aliados de D. Afonso e levada para o palácio de Vila Nova de Ourém, talvez até mesmo tendo partido por livre vontade após ter tido prometidas algumas vantagens por parte do infante, com quem pode ter se aliado (SERRÃO, 1978, p. 131). O fato que ela estava ausente do testamento de D. Sancho II indica que esta hipótese pode ser verdadeira, ou pelo menos o rei pensava que assim o era. De qualquer forma, ele não conseguiria recuperá-la. Para escapar da humilhação, abdicou e fugiu para Castela, onde morreria poucos anos depois.

A antiga rainha viveu o resto de sua vida no palácio para onde fora levada, embora também tivesse terras e propriedades em outras partes do reino português (FERNANDES, 2006, p. 267). Morreu por volta de 1270. Como seu casamento com D. Sancho II foi anulado, existem historiadores que não a incluem na lista de rainhas de Portugal.

Mécia Lopes de Haro – parte II

Em algum momento entre 1240 e 1242, Mécia conheceu o rei português D. Sancho II e se tornou sua amante. Ainda que já fosse considerado de meia-idade para os padrões da época, ele ainda não se matrimoniara, possivelmente por influência de sua poderosa tia por via materna, a rainha Berengária, que aspirava que seu filho Fernando III acabasse por conseguir anexar Portugal depois da morte do estéril rei D. Sancho e de seus irmãos, o ambicioso D. Afonso e o religioso D. Fernando, que apesar de casados, não tinham descendência legítima. Contrariando a tia, porém, D. Sancho se casou com Mécia em segredo antes de 1245, tendo apenas posteriormente pedido uma dispensa papal para validar a união (FERNANDES, 2006, p. 254).  Sendo uma viúva castelhana de origem ilegítima, Mécia não foi muito bem recebida na corte portuguesa, principalmente porque ela nunca engravidara, mesmo que seu primeiro casamento tenha durado sete anos.

Antes de se casar com Mécia, D. Sancho II já reinara por 20 anos em Portugal, se tornando monarca ainda bem jovem após a morte de seu pai, D. Afonso II. Desde o início, a tarefa de governar se provou difícil para um rei que quase perdera sua herança para seu irmão mais novo, o infante Afonso, pouco antes da morte prematura do pai. Embora viesse a superar a fragilidade da infância e se tornasse um dotado guerreiro, que lideraria a Reconquista portuguesa contra os mouros ao sul do Alentejo (SERRÃO, 1978, p. 124), o mesmo talento não o acompanhava na política e na diplomacia. Pouco antes da morte de seu pai, o papa Honório III excomungara o reino devido às tentativas reais de conter o poder da Igreja no reino. Tal interdito continuou durante o reinado de D. Sancho II, o que prejudicou sensivelmente as relações de Portugal com Roma. Além disso, como no caso de seu antepassado D. Afonso I, a excomunhão significava que o mercado matrimonial se tornara bastante reduzido para D. Sancho II. Neste sentido, podemos compreender melhor seu casamento com uma viúva que, para os padrões do período, já estava deixando a juventude.

D. Sancho II de Portugal
D. Sancho II de Portugal

As ausências de D. Sancho II para suas campanhas militares deixavam efetivamente o poder nas mãos de variados chanceleres. Até mesmo por isso, a autoridade régia não se corroeu muito durante esse período, apesar de todos os problemas. A partir de 1237, contudo, com a subida ao poder do fraco chanceler D. Durando Froiaz, o reino português começou um processo progressivo de esfarelamento de poder, com muita violência e inúmeras conspirações no seio da nobreza, criando no reino um verdadeiro cenário de guerra civil. E foi neste panorama que D. Sancho II se casou com Mécia Lopes de Haro.

Mécia Lopes de Haro – parte I

Nascida aproximadamente em 1215 na cidade castelhana de Biscaia, Mécia Lopes de Haro era filha de Lope Díaz II de Haro, senhor de Biscaia, e sua esposa Urraca de Léon, uma filha ilegítima do rei Afonso IX de Léon. Por meio de sua mãe,  Mécia tinha relações íntimas com a realeza ibérica: além de neta de Afonso IX, ela também era sobrinha de Fernando III de Castela. Em 1234, ela foi casada com o poderoso nobre Álvaro Pérez de Castro. A união dessas duas influentes casas causou a fúria do tio castelhano de Mécia, que chegou a confiscar algumas propriedades de Álvaro. Eventualmente, porém, com a ajuda da mediação da rainha Berengária, mãe de Fernando III, tudo foi resolvido.

Estátua fúnebre de Mécia Lopes de Haro
Estátua fúnebre de Mécia Lopes de Haro

Alguns anos de casamento sem filhos, porém, revelaram que a união era estéril, embora o casal não tenha feito esforço aparente para se separar. Em 1239, Álvaro foi escolhido para comandar a defesa da estratégica fortificação de Martos contra os mouros. A fome gerada pelo prolongado conflito logo fez o marido de Mécia abandonar o local para ir à Corte pedir algum apoio financeiro, deixando-a sozinha com seu inexperiente sobrinho, Tello, e algumas tropas. Algum tempo depois da partida do tio, Tello decidiu fazer uma nova incursão em território inimigo com os soldados.

Sozinha na fortificação com outras mulheres, Mécia testemunhou quando tropas mouras aproveitaram a chance para tentar tomar Martos. Foi quando ela mandou uma mensagem de ajuda para Tello e se vestiu como um soldado, ordenando às outras que fizessem o mesmo. Elas, então, circularam na fortificação, tornando os mouros, que não esperavam encontrar tropas no local, mais defensivos e hesitantes no ataque (LA FIGANIÈRE, 1859, p. 116-117). Isso deu o tempo necessário para que Tello retornasse e dispersasse os soldados inimigos. Pouco depois, Álvaro Pérez de Castro cairia doente e morreria, tornando Mécia uma viúva.