Matilda, condessa de Bolonha – parte II

Ambicioso, o novo conde rapidamente ganhou prestígio na corte francesa, tanto por seus feitos militares quanto pela proteção do casal real. Em 1242, tentou voltar à Península Ibérica pela primeira vez em anos para combater os mouros, numa proposta de Cruzada louvada pelo papa Inocêncio IV, mas a crise política em seu reino de origem interrompeu tais planos. Em 1245, com o matrimônio do rei com a infame Mécia Lopes de Haro, a crise no reino português chegou a seu auge. Clero, nobreza e burguesia se uniram contra D. Sancho II e requisitaram a intervenção do papa, que nomeou o já conhecido conde de Bolonha como rei por direito ao decretar a deposição de D. Sancho II; ao mesmo tempo, Inocêncio IV contou com informações privilegiadas de D. Afonso para poder anular o casamento do rei com Mécia e, assim, acabar por uma potencialmente perigosa aliança entre Portugal e Castela devido ao parentesco da rainha com o soberano daquele reino. O sequestro de Mécia por aliados do conde depôs efetivamente D. Sancho II, que abdicou e fugiu. Seu irmão mais novo voltou ao reino e intitulou-se Protetor do Reino até a morte do primogênito dois anos depois, quando o conde pode ser aclamado como D. Afonso III de Portugal.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal

Enquanto isso, a desprezada condessa continuava em Bolonha, nunca tendo a permissão para viajar até o reino onde seu marido era agora o monarca, muito provavelmente devido ao fato que a união se provara estéril (SERRÃO, 1978, p. 139). Por essa razão, muitos historiadores não consideram Matilda como rainha de Portugal (VENTURA, 2006, p. 201). Em 1253, com a primeira esposa ainda viva, D. Afonso III se casou novamente com Beatriz, filha ilegítima do rei Afonso X de Castela. A furiosa esposa queixou-se ao novo papa, Alexandre IV, que colocou Portugal novamente sobre interdito até que o rei comparecesse à uma audiência em Roma para julgar o pedido de divórcio.

Em 1258, porém, Matilda morreria sem que a ação tivesse sido julgada. Como seus dois filhos tinham falecido antes dela, o condado foi herdado por sua prima Adelaide de Brabant, que foi sucedida por sua vez por seu filho. Roberto. A linhagem continuaria até o século XVI, quando terminaria em Catarina de Médicis. De forma um tanto estapafúrdia, a futura rainha de França tentaria herdar o trono de Portugal na crise sucessória de 1580, alegando exatamente ser a descendente do suposto filho de Matilda e D. Afonso III.

Matilda, condessa de Bolonha – parte I

Nascida aproximadamente em 1202, Matilda, condessa de Bolonha, foi a única filha fruto do controverso casamento de Ida, condessa de Bolonha, e Renaud, conde de Dammartin. Filha primogênita de Maria, condessa de Bolonha, e Mateus de Alsácia, a própria Ida nascera depois que sua mãe, uma freira, foi sequestrada por seu pai e forçada ao matrimônio. Compreensivelmente, a união acabara anulada, mas Ida continuou como a herdeira de seu pai, que continuou a comandar Bolonha depois que Maria retornou ao convento após dar à luz a sua segunda filha.

Quando Ida tinha cerca de 13 anos, seu pai morreu e ela o sucedeu no condado. Sobre a proteção de seu tio Felipe, conde de Flandres, ela não foi obrigada a se casar ainda em juventude extrema, como era comum no caso de tantas grandes herdeiras da época. Apenas em 1181, já com 20 anos, ela contrairia núpcias com Geraldo de Guelders, mas ficaria viúva em poucos meses. No ano seguinte, ela voltou a se casar com Berthold, duque de Zahringen, mas ele também morreria em pouco tempo. Depois de alguns anos de viuvez, ela, a exemplo de sua mãe, foi sequestrada e forçosamente casada com o conde de Dammartin, mesmo tendo sido cortejada na época por Arnaldo de Guînes. Com esse casamento, Bolonha saiu da esfera de influência de Flandres e tornava-se vassala do reino de França.

Matilda, condessa de Bolonha
Matilda, condessa de Bolonha

Ida morreria em 1216, sendo sucedida por Matilda no comando do condado. Novamente, seu matrimônio foi adiado pelo pai, o conde Renaud, ansioso por manter certa influência em Bolonha. Somente alguns anos depois a jovem condessa se casaria com um filho legitimado do rei francês, Felipe, conde de Clermont-en-Beauvois. Juntos, eles produziriam uma filha e um filho sobreviventes antes da morte de Felipe em 1234, talvez assassinado por sua esposa, que a esta altura teria se apaixonado por Florent de Hainaut (VENTURA, 2006, p. 56).  De qualquer forma, estes novos planos matrimoniais não deram em nada.

Com cerca de 33 anos, Matilda era agora uma viúva madura e consideravelmente bela para a idade, com uma fortuna considerável para escolher o marido que desejasse. Em maio de 1238, após negociações com a rainha de França, Branca de Castela, Matilda casou-se com o sobrinho desta, D. Afonso de Portugal, que era o segundo filho do rei D. Afonso II e Urraca de Castela. Como secundogênito, D. Afonso saíra em desvantagem na partilha da herança paterna em relação a seu irmão mais velho, o novo rei D. Sancho II, e concordou com a rica união com a condessa 10 anos mais velha, que em pouco tempo, contudo, se provaria sem amor.