Mafalda de Saboia – parte II

Provavelmente Mafalda não conseguiu muita popularidade enquanto vivia em Portugal, devido ao seu nascimento em local longínquo e aos seus costumes distintos, como ocorria com tantas outras rainhas de origem estrangeira (MATTOSO, 2012, pps. 160-162).  O frequente respeito à posição de rainha de Mafalda, de qualquer forma, torna improvável a veracidade dos boatos de frequente violência conjugal entre o casal real, surgidos já no fim da vida de D. Afonso I (que incluíam até uma irreal tentativa de assassinato da rainha enquanto esta se encontrava grávida), principalmente numa era em que muitas consortes não eram sequer mencionadas em documentos oficiais.

Estátua representando a infanta Urraca, filha de Mafalda e D. Afonso I e futura rainha de Léon
Estátua representando a infanta Urraca, filha de Mafalda e D. Afonso I e futura rainha de Léon

Quando Mafalda chegou à corte portuguesa em 1146, seu marido já tivera pelo menos um filho bastardo, Fernando, nascido por volta de 1140. Existe também registro de outro, Pedro, gerado em época desconhecida; ambos, especialmente o mais velho, ocupariam lugar de destaque na corte portuguesa. Embora mais tarde Fernando tivesse entrado numa breve disputa pela herança paterna, o fato é que os filhos rapidamente nascidos do casamento legítimo de D. Afonso I e Mafalda de Saboia tinham prioridade na sucessão.  O primeiro, chamado Henrique em honra ao avô paterno, nasceu logo no ano seguinte ao casamento, mas morreu ainda na infância. Ele foi seguido por três irmãs: Urraca (nomeada em homenagem à sua tia-avó, Urraca de Castela, nascida em 1148), Teresa (nomeada em homenagem à sua avó, Teresa de Leão, nascida em 1151) e Mafalda (nomeada em homenagem à sua mãe, nascida em 1153). Só em 1154 nasceria aquele que seria o futuro sucessor de D. Afonso I; originalmente chamado de Martinho em homenagem ao santo do dia de seu nascimento, ele foi renomeado com o nome mais régio de Sancho após a morte do irmão mais velho em 1155. A rainha teve ainda mais um menino em 1156, João, que viveu poucos anos, e mais uma menina, Sancha, que faleceu tão nova que praticamente não existem registros históricos a seu respeito.

D. Sancho, filho de Mafalda de D. Afonso I e futuro rei de Portugal
D. Sancho, filho de Mafalda de D. Afonso I e futuro rei de Portugal

Foi o nascimento da caçula, em 24 de novembro de 1157, que provavelmente causou a morte da rainha Mafalda nove dias depois, com 31 ou 32 anos de idade. O viúvo não tornaria a se casar até sua própria morte quase três décadas depois.

Mafalda de Saboia – parte I

Filha primogênita ou secundogênita de Amadeo III, conde de Saboia, e sua esposa Mafalda de Albon, Mafalda de Saboia nasceu aproximadamente em 1125 no condado regido por seu pai. Como inúmeras outras donzelas do período medieval, pouco é conhecido da fase inicial de sua vida; de fato, os primeiros registros de sua existência datam aproximadamente da época de seu casamento com o primeiro rei português, D. Afonso I, em 1146. Com cerca de 21 anos na época de seu matrimônio, a noiva já era considerada velha para os padrões do período; o noivo, porém, aos 37 anos, já deveria ter se casado muito antes para produzir descendência, principalmente considerando-se o seu estado régio. Por que, então, a demora para as núpcias do rei?

D. Afonso I de Portugal
D. Afonso I de Portugal

A chave para entender o intrigante atraso, pouco habitual para um personagem de sua importância, está na legitimidade do reino de Portugal.  Declarado Rei dos Portugueses em 1139 após a vitória contra os mouros na batalha de Ourique, D. Afonso I era filho e herdeiro de Henrique de Borgonha e Teresa de Leão, conde e condessa do Condado Portucalense, dados a eles quando de seu casamento pelo pai de Teresa, o rei Afonso VI de Castela e Leão. Após a morte prematura de Henrique, Teresa comandou o condado na menoridade do filho, intitulando-se rainha de Portugal até ser retirada à força do poder pelo próprio Afonso em 1128 após a batalha de São Mamede. Portanto, mesmo descendendo diretamente de reis, o reinado de D. Afonso I em Portugal era considerado ilegítimo por alguns de seus parentes e mesmo pelo papa. Tal rejeição evidentemente não melhorava as perspectivas do rei português nas cortes europeias, motivo pelo qual o rei teve que ir buscar sua esposa no distante condado de Saboia.

Rainha Mafalda
Rainha Mafalda

Embora sendo descrita em crônicas posteriores como sendo “sensata e firmada na fé”, fazendo jus à qualidade mais importante das consortes reais medievais, a rainha Mafalda parece também ter tido personalidade forte: uma hagiografia de São Teotônio, contemporâneo da rainha, descreve a tentativa dela de entrar no claustro interior, reservado apenas aos homens, e a recusa do santo em permiti-lo, fazendo frente “à presunção da rainha” e sem medo do “ódio da fúria dela” (NASCIMENTO, 1998, p. 179). Além disso, sua posição de rainha era sempre destacada ao lado da de seu marido, o rei, nos documentos da chancelaria real, o que demonstra inegável respeito.