Leonor de Viseu – parte III

A partir da separação do marido, D. Leonor passou a dedicar-se basicamente a uma vida de oração e contemplação, além de cuidados com seu único e adorado filho, o príncipe D. Afonso, e eventuais visitas à corte. Em 29 de novembro de 1490, o herdeiro do trono se casou com sua antiga prometida, Isabel de Aragão. Após grandes festas em Évora, o novo casal foi se estabelecer em Santarém em julho seguinte, sendo acompanhados na viagem pelo rei e pela rainha. Em meio aos entretenimentos, o herdeiro do trono português desafiou o fidalgo D. João de Meneses para uma corrida. Foi quando ocorreu a tragédia: em meio à disputa, o cavalo de D. Afonso tropeçou e caiu, derrubando o príncipe e caindo sobre ele, deixando-o inconsciente. Seu estado foi piorando gradativamente até 13 de julho, quando finalmente morreu, deixando seus pais inconsoláveis e uma jovem viúva arrasada.

Infanta Isabel de Aragão
Infanta Isabel de Aragão

Sem nenhum filho legítimo restante e impossibilitado de qualquer forma de produzir algum com D. Leonor devido à saúde frágil desta, D. João II começou a planejar a legitimação de D. Jorge, seu filho ilegítimo com Ana de Mendonça. Isso provocou a resistência acirrada da rainha. Segundo o costume, os sucessores de direito de D. João II eram os filhos de seu falecido tio D. Fernando, os irmãos da rainha; depois do assassinato jurídico de D. Diego, duque de Viseu, era agora D. Manuel, duque de Beja, que ocupava tal posição. Para evitar este evento, o rei procuraria Roma para legitimar o bastardo, pedido que lhe foi negado por influência desestabilizadora dos Reis Católicos, já de posse da filha Isabel, que para lá retornara depois da morte do marido. Sem escolha e adoecendo cada vez mais, D. João II acabou cedendo e nomeando D. Manuel como seu sucessor no trono. Morreu pouco depois com apenas 40 anos.

Quando ascendeu à Coroa em 1495, o irmão mais novo de D. Leonor já tinha 26 anos, mas ainda não se casara. Neste panorama, a própria rainha era a sua herdeira caso ele falecesse prematuramente, embora ela manifestasse o desejo de abdicar do juramento como sucessora da Coroa em nome de sua irmã D. Isabel, viúva do duque de Bragança, que tinha filhos homens sobreviventes. Pouco tempo depois, de qualquer forma, ficou acertado que D. Manuel se casaria com a antiga nora de Leonor, a infanta Isabel, que acabaria tendo um menino pouco antes de sua falecimento por complicações em seu único parto, em 1498.

Após a morte da primeira esposa e pouco tempo antes do falecimento de D. Miguel, o rei casou-se pela segunda vez com Maria de Aragão, quarta filha dos Reis Católicos, com quem teria ampla descendência. Neste panorama, D. Leonor perdeu gradativamente sua importância sucessória, e passou a dedicar-se cada vez mais à caridade, doando parte de sua imensa fortuna para construir a Santa Casa de Misericórdia e o Hospital Real de Todos os Santos, considerado o melhor da época, além de vários conventos. Em um deles, ela viveria seus últimos anos praticamente como uma freira, falecendo já durante o reinado do sobrinho, D. João III, em 17 de novembro de 1525.

Para saber mais:

FONSECA, Luís Adão de. D. João II.  Círculo de Leitores, 2012.

DELURUE, Maria Luisa; OLIVEIRA, Maria Manuela. D. João II – um rei emblemático. Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000.

Leonor de Viseu – parte II

Nas negociações posteriores para a paz com Castela, D. Afonso V abdicou da esposa Joana, que se recolheu para um convento. Os herdeiros dos tronos foram, neste sentido, utilizados como barganha para assegurar o bom comportamento das partes; quando a infanta Isabel, primogênita dos Reis Católicos, foi enviada para a vila fronteiriça de Moura, encontrou lá o jovem D. Afonso, de apenas cinco anos, único filho legítimo do rei, que fora separado de sua mãe D. Leonor alguns meses antes. Ambos foram criados juntos sobre a guarda de D. Beatriz, duquesa de Viseu. Rapidamente, se efetuaria a negociação de um futuro casamento entre eles.

D. João II de Portugal
D. João II de Portugal

A esta altura, o príncipe D. João já se tornara novamente rei com a morte de D. Afonso V em 28 de agosto de 1481. Com sua ascensão definitiva ao trono, as tensões políticas em Portugal cresceram. Honrado, rígido e avesso às intrigas palacianas, o novo rei era tido em pouca conta pelas poderosas famílias nobres que dominavam Portugal, como os Bragança e os Viseu, seus próprios parentes, que ficaram descontentes com o fortalecimento excessivo da autoridade real patrocinada por D. João II. Visando subordinar tais súditos excessivamente poderosos, o rei determinou que um novo juramento de vassalagem, a ser feito em Évora, que incluiria agora um reconhecimento tácito dos nobres à soberania do rei português. O primeiro que faria o juramento perante o restante da nobreza convocada seria exatamente D. Fernando, terceiro duque de Bragança, como esperado do chefe da maior Casa do reino de Portugal. Mas D. Fernando, em conselho régio, hesitou e protestou consideravelmente antes de assinar o compromisso, possivelmente porque os termos de obediência foram considerados pela nobreza presente como sendo prejudiciais às honras e privilégios que detinham há gerações. Ele seria apoiado nisso pelo seu cunhado, o duque de Viseu.

Suspeitando de uma conspiração contra ele, D. João II impôs o exame das contas ducais dos envolvidos na questão por corregedores, que eventualmente descobriram correspondência incriminatória entre o duque de Bragança e os reis de Espanha, Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Após um curto julgamento, o duque de Bragança foi executado em Évora. O duque de Viseu, parente direto do monarca português pelo casamento deste com sua irmã, também não foi poupado e logo seria assassinado pessoalmente pelo rei com golpes de punhal, aniquilando assim o último foco de resistência perante seu governo centralizador. Os Bragança restantes tiveram seus bens confiscados pela Casa real e fugiram em exílio para a Espanha.

D. Leonor de Viseu
D. Leonor de Viseu

Segundo o relato de uma fonte da época, quando a rainha D. Leonor tomou conhecimento da morte do irmão pelas mãos do marido, teve um ataque histérico e começou a gritar em desespero. Sabendo disso, D. João II ordenou-lhe que parasse, ou então seria acusada de conivência com a conjura. A esposa o obedeceu. Pouco antes, ela tivera um parto prematuro, com o bebê não sobrevivendo muito tempo após o nascimento; depois disso, foi recomendado que o casal não tentasse mais ter filhos, num contexto em que a amante do rei, Ana de Mendonça, dera à luz um menino saudável, batizado com o nome de Jorge, não muito tempo antes. Somando tudo, é bastante provável que após 1483, D. João II e D. Leonor tenham cessado a maioria de seus contatos conjugais, com a forte afeição que outrora os unira passando a ser apenas uma distante lembrança.

Leonor de Viseu – parte I

Nascida em 2 de maio de 1458, no ducado do pai, o infante D. Fernando, Leonor de Viseu era a primogênita mulher (terceira filha) do casamento deste com sua prima distante, a infanta D. Beatriz. A ascendência dela era, logo, duplamente real, uma vez que seus progenitores eram igualmente descendentes de D. João I de Portugal.  Além disso, seu pai D. Fernando era também filho do rei D. Duarte e irmão do monarca reinante, D. Afonso V, além de tio do herdeiro D. João; em realidade, D. Leonor era pouco mais nova do que este, e ambos passariam grande parte da infância juntos, desenvolvendo uma grande amizade.

D. Afonso V de Portugal
D. Afonso V de Portugal

Neste panorama, um projeto nupcial começou a se desenhar, e o rei D. Afonso V entrou em conversas com o irmão mais novo para casarem os filhos, no que seria outro matrimônio intra-familiar na Casa de Avis. Na década de 1470, não existiam de fato muitas alternativas; as Casas dos demais infantes haviam-se reduzido demais em número, não tendo filhas da idade apropriada, e as relações de Portugal com os demais reinos ibéricos encontravam-se débeis, especialmente com Castela, a única que poderia disponibilizar uma princesa da idade certa, a herdeira Joana.

Assim sendo, o fato de D. João ter estima por sua futura esposa foi, em vários sentidos, um acaso, uma vez que isto estava longe de ocupar a prioridade na questão de casamentos políticos. Na verdade, no labirinto que era as relações entre a nobreza do período, o duque de Viseu casou, ao mesmo tempo, a filha mais velha com a Coroa, e a mais nova – D. Isabel – com aquela família que representava a resistência da aristocracia portuguesa ao centralismo régio, os Bragança. Pondo em termos simplistas, o casamento de D. João foi feito com o principal aliado da Casa real, que ao mesmo tempo flertava com o inimigo. De qualquer maneira, a união do príncipe se realizaria por fim no dia 22 de janeiro de 1470. Leonor tinha apenas 12 anos, e João 15. Pouco mais de cinco anos depois, nasceria o primeiro filho do casal, batizado em homenagem ao rei D. Afonso V, ocasionando festas e manifestações de alegria por todo o reino.

Isabel I de Castela
Isabel I de Castela

O príncipe D. João, contudo, não se encontrava presente ao nascimento do filho, ou mesmo para visitar sua esposa após o parto. Não por frieza aos eventos, mas sim pelo fato de estar liderando exércitos para guerrear contra Castela naquele momento; quando D. Afonso nasceu, em 18 de maio de 1475, seu avô já invadira o reino vizinho para defender os direitos ao trono de sua sobrinha – e futura esposa – Joana, suposta filha de Henrique IV. O príncipe João o acompanharia, deixando D. Leonor em gravidez avançada em Lisboa. Depois de testemunhar o casamento de seu pai com a rainha de Castela, João retornou a Portugal, onde atuou como regente na ausência de D. Afonso V. Pouco depois, contudo, o príncipe se dirigiu apressadamente para socorrer as tropas do pai, cercada pelos aragoneses.

Embora a atuação de D. João tenha sido eficiente, não impediu as tropas portuguesas de serem desbaratadas e derrotadas na batalha de Toro, que marcou a virada castelhana na guerra de sucessão. Após procurar pessoalmente um maior auxílio de França, aliada de Portugal na guerra, um desiludido rei abdicou em nome do príncipe D. João, escrevendo-lhe para que assumisse o trono. Inicialmente, o filho obedeceu e foi jurado monarca numa cerimônia privada, com D. Leonor como sua rainha. Pouco depois, contudo, quando D. Afonso V foi convencido a retornar a Portugal e reassumir o posto, o filho devidamente renunciou e retornou ao seu grau nobiliárquico anterior.