Leonor de Aragão – parte III

De fato, a guerra pareceu quase desde o começo um desastre consumado, e assim procedeu; nos confrontos com os muçulmanos, os portugueses saíram derrotados, e a retirada de volta ao reino foi um martírio de fome e sede. Além disso, o infante D. Fernando foi capturado, e o preço para o seu resgate era a devolução de Ceuta, conquistada décadas antes por D. João I. Atormentado pela prisão do irmão, D. Duarte tentou fugir com a família da peste que assolava Portugal, mas quando chegou à cidade de Tomar já estava doente, agonizando numa questão de dias. Novamente grávida, a rainha foi afastada dele, juntamente com as crianças do casal. Os irmãos do rei, incluindo o ilegítimo D. Afonso, apressaram-se a ir encontrá-lo quando se percebeu que o quadro de D. Duarte era fatal, mas não conseguiriam chegar a tempo. Ainda grávida, D. Leonor se tornaria uma viúva em 9 de setembro de 1438. O novo rei, D. Afonso V, era seu filho, e tinha apenas seis anos de idade.

D. Afonso V de Portugal
D. Afonso V de Portugal

Depois dos funerais de D. Duarte e da proclamação de seu filho mais velho, D. Afonso, como novo rei de Portugal, o testamento do falecido foi finalmente aberto. Não é sabido exatamente quando o fez, mas provavelmente, devido às suas disposições, foi já perto de sua morte. De qualquer forma, o documento era incendiário; declarava, já de início, que a rainha D. Leonor deveria ser a tutora, curadora e regente dos filhos do casal, incluindo o herdeiro D. Afonso. Além disso, uma determinada quantia era deixada para a negociação da libertação do infante D. Fernando, seu irmão mais novo. Se isso não fosse suficiente, o falecido rei determinava que a colônia de Ceuta fosse cedida de volta aos infiéis como preço pela volta de D. Fernando.

Ambas as questões tinha ferrenhos oponentes. No tocante à segunda, porém, a procrastinação logo se mostrou ser uma arma valiosa. A negociação pela volta do infante foi tão postergada que o mesmo acabaria por morrer ainda em possessão dos inimigos no ano de 1443, cinco anos após a falecimento do rei D. Duarte.  Agora, quanto à regência a situação era mais difícil. Seria a quinta regência pela qual passaria o reino, a terceira chefiada por uma mulher. Considerando-se os antecedentes – Teresa Henriques, expulsa do reino pelo próprio filho, e Leonor Teles, expulsa para o reino do genro – as perspectivas de Leonor de Aragão não pareciam boas.

Alguns meses depois da morte do marido, D. Leonor deu à luz a última filha deles, a infanta D. Joana, futura rainha de Castela. Neste momento, ela já assumira a regência, confirmada pelas Cortes de Torres Novas de 1438, mas as resistências contra ela era muitas. Seu sexo, sua inexperiência política e seu nascimento e criação em Aragão faziam com que sua escolha para regente, na verdade, fosse um mero respeito às vontades do falecido rei D. Duarte enquanto outros candidatos, como o infante D. Pedro, iam reunindo aliados entre a nobreza. A cidade de Lisboa, contudo, rapidamente se rebelou após a escolha das Cortes, e sua insatisfação só foi contida por tropas do irmão de Leonor, o conde de Barcelona.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

A situação marcou a fim da vantagem da rainha. Mesmo apoiada pelo irmão ilegítimo de D. Duarte, D. Afonso, e fazendo múltiplas concessões a D. Pedro na criação de D. Afonso V, ela perdera a vantagem que a vontade póstuma do marido lhe fornecera. Eventualmente, as Cortes de Lisboa escolheram D. Pedro, duque de Coimbra, como o novo regente. A rainha viúva conspiraria até o ano seguinte para recuperar a regência do cunhado, mas sem sucesso; em dezembro de 1440, D. Pedro a forçaria a partir de volta para Castela, onde ela morreria em 1445.

Para saber mais:

DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Círculo de Leitores, 2005.

Leonor de Aragão – parte II

A morte do primeiro rei da dinastia de Avis, D. João I, em 13 ou 14 de agosto de 1433, marcou formalmente o início do reinado de D. Duarte, muito embora ele já partilhasse de alguns deveres reais há vários anos, principalmente depois de superar o choque da morte súbita da mãe em 1415. Diferentemente do que se esperava de um rei, contudo, D. Duarte partilhou e até superou o “espantoso praanto” dos irmãos, precisando inclusive de um confessor para recuperar a calma – embora a morte do doente rei fosse há muito esperada. No dia seguinte, o astrólogo do novo rei alertou-o para atrasar sua aclamação por algumas horas, a fim de evitar uma conjunção infeliz dos astros; D. Duarte agradeceria ao conselho, mas manteria sua decisão inicial. Posteriormente, estes dois eventos seriam usados em crônicas do rei como sinais antecipatórios de seu trágico reinado.

D. Duarte
D. Duarte

Conforme o costume, a nova rainha D. Leonor não participou da cerimônia de aclamação do marido – assim como não participaria oficialmente de seu governo formal. Apesar de ter herdado de seu pai o desejo de guerrear contra os infiéis de África, D. Duarte também foi desde o início um rei muito consciencioso de seus deveres, mantendo uma agenda bastante rígida para os padrões da época e até mesmo para os dias de hoje; em média, trabalhava por doze horas diárias em seis dias por semana, excluindo-se apenas o domingo. Neste sentido, a importância da rainha estava em manter intacto o modelo de família real devota inaugurado por sua falecida sogra, que influenciaria toda a pirâmide social da época.

Para isso, sua impressionante fertilidade não deixaria de ser crucial. Na época da ascensão de D. Duarte, ele e D. Leonor já haviam tido quatro crianças; os dois mais velhos seriam nomeados como seus avôs paternos durante suas curtas vidas. O segundo menino, por sua vez, receberia o nome tradicional da dinastia de Borgonha, Afonso, e sucederia o irmão mais velho como herdeiro do pai – como, aliás, ocorrera como o próprio secundogênito D. Duarte. Outra menina, D. Maria, nasceria também em 1432, mas viveria pouco; provavelmente o tempo insuficiente entre estas duas gestações de D. Leonor contribuiu para tal resultado. No ano seguinte, a esposa de D. Duarte encontrava-se em gravidez avançada quando o rei faleceu em agosto. Pouco tempo depois, nasceria outro menino, D. Fernando.

D. Fernando
D. Fernando

Portanto, enquanto D. Duarte engendrava a reforma monetária e legislativa do reino – incluindo a célebre Lei Mental – D. Leonor engendrava a próxima geração dos Avis, com as quais o rei poderia manejar sua política externa. Depois da aclamação, nasceriam sucessivamente D. Leonor (1434), D. Duarte (1435) e D. Catarina (1436); após isso, porém, houve uma pausa, provavelmente gerada pela natural exaustão do corpo da rainha. Enquanto isso, D. Duarte planejava com D. Henrique e o irmão caçula D. Fernando a expedição há muito sonhada à Tânger, embora os demais irmãos fossem contra.

Leonor de Aragão – parte I

Nascida em 1º de março de 1402, Leonor de Aragão foi a quinta criança (segunda menina) de Fernando I de Aragão e sua esposa, a condessa castelhana Leonor de Albuquerque. Seu pai fora o segundo filho de uma infanta de Aragão; quando seus tios morreram sem descendência, ele reivindicou sua herança em 1412. Fernando continuaria, contudo, a exercer a regência de Castela, que iniciara juntamente com sua cunhada, a rainha viúva Catarina de Lancaster, após a morte de seu irmão Henrique III em 1406, até sua própria morte prematura em 1416. Ele seria sucedido em Aragão pelo filho primogênito Afonso, que em 1420 casaria a irmã Maria com o jovem rei castelhano João II.

A irmã mais nova de Afonso, Leonor, também seria uma peça no jogo dinástico dos Trastámara para espalhar a descendência de Fernando I pelos tronos ibéricos, e, assim, ajudar a expandir a influência política da Casa. Esta ambição do ramo aragonês dos Trastámara conversava perfeitamente com a resistência da recém-instaurada dinastia portuguesa dos Avis em casar seus membros em Castela – ao menos enquanto a princesa Joana vivesse. Mas não deixavam de existir alternativas a um possível casamento aragonês: é bem possível, por exemplo, que influenciado por sua consorte, D. João I visse com simpatia uma possível união inglesa para seu herdeiro D. Duarte.

Leonor, condessa de Albuquerque
Leonor, condessa de Albuquerque

Por outro lado, as núpcias do herdeiro do trono português precisavam ser negociadas com cuidado. Nesse sentido, a existência de três outros filhos homens do rei – D. Pedro, D. Henrique e D. Fernando – tornavam essas longas negociações não apenas necessárias, mas plenamente possíveis. As primeiras negociações ocorreriam pouco depois da maioridade de D. Duarte, ocorrida em 1409, com a aragonesa Casa de Urgell; os choques de interesses desta com os do novo rei, Fernando I, acabaram destroçando a família, que acabou arruinada. A putativa noiva acabaria num convento. Depois disso, as próximas negociações matrimoniais registradas de D. Duarte ocorreram apenas em 1422, quando D. João I entrou em contato com condessa de Albuquerque para negociar um possível casamento entre seu herdeiro e a filha ainda solteira dela, Leonor.

A esta altura, contudo, os dois ramos da Casa de Trastámara haviam se tornado ferrenhos adversários, e João II de Castela proibiu a condessa de Albuquerque, sua vassala, de liberar a filha para as núpcias portuguesas. Os próximos anos foram uma verdadeira queda de braço entre Aragão e Castela pela posse da infanta Leonor, até que em 1427, finalmente, ela foi liberada para voltar ao seu reino de origem. Por todo o ano, as negociações continuariam, agora tornadas mais urgentes pela posse aragonesa da infanta. Em fevereiro de 1428, grandes festas aconteceriam na cidade de Valhadolid para a despedida de Leonor, depois das quais ela se dirigiria para a fronteira com Portugal.

Leonor de Aragão
Leonor de Aragão

Inicialmente, a cerimônia nupcial ocorreria em Évora, mas devido ao surto de peste que lá havia, foi transferida a mando de D. João I para Coimbra – o que muito enfureceu D. Duarte, que já gastara muito nos preparativos naquela cidade. Não estando disposto a enfrentar o humor do herdeiro, o rei acabou mandando o terceiro filho, D. Henrique, em seu lugar para atuar como mestre-de-cerimônias. A união oficial ocorreu por fim no dia 22 de setembro; antes mesmo disso, contudo, D. Duarte, que estava hospedado no mesmo paço de Leonor, a visitava duas ou três vezes por dia em seus aposentos. Embora o infante D. Henrique tenha assegurado ao pai que ambos não haviam chegado às intimidades, deve-se lembrar que o noivo era um homem enérgico de 37 anos; apesar de ter tendência à depressão, que o abateu pela primeira vez após a morte de sua mãe Philippa em 1415, dificilmente ainda era virgem, como já foi defendido anteriormente por alguns autores. De qualquer forma, os primeiros encontros entre ambos pareceram ser agradáveis; pouco mais de um ano após o casamento, nasceria o primeiro filho, batizado em homenagem ao avô.