Isabel de Coimbra – parte II

Em abril de 1441, temendo a oposição do conde de Barcelos, antigo aliado da rainha D. Leonor, o duque de Coimbra realizou os votos iniciais dos esponsais do rei e de sua prima, que na época ainda não passavam de crianças. Anos depois, mais maduros, ambos seriam encaminhados para a união de fato. Parece extremamente provável que a consumação tenha sido adiada pelo regente até que sua filha estivesse fisicamente madura, diminuindo assim as chances de possíveis complicações no parto. Porém, mesmo depois da união oficial em 1447, o regente demorou a repassar as responsabilidades do governo para o rei, já um homem feito. Isso estimularia as intrigas da corte, chefiadas pelo outro tio do monarca, o recém-elevado duque de Bragança, que começava a desfrutar cada vez mais do favor de D. Afonso V. Neste conflito, a rainha assumiria o papel de mediadora – à semelhança de tantas consortes portuguesas antes dela – procurando evitar consequências trágicas na disputa entre os tios do rei.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

As fortes personalidades dos três homens envolvidos, contudo, dirigiram os eventos para uma rota de colisão. Apesar de se utilizar de palavras suaves para tentar convencer o marido a aceitar o pai de volta à corte, D. Isabel não conseguiu lutar contra as correntes cada vez mais contrárias ao seu pai, enquanto o duque de Coimbra, ao procurar garantir a sua honra, não protegeu a sua integridade física. Entrando em conflito com as forças reais na batalha de Alfarrobeira, em 20 de maio de 1449, D. Pedro morreu. Na sequência do conflito, seus filhos e filhas tiveram que partir para o exílio, e a própria rainha encontrou-se em perigo, com a anulação de seu casamento sendo considerada por uma facção considerável da nobreza, a fim de que D. Afonso V se unisse à uma donzela mais adequada. O rei, porém, recusou a possibilidade e continuou a tratar D. Isabel com toda a consideração adequada à sua posição.

Neste contexto, a vida da rainha correu sério perigo até a descoberta de sua primeira gravidez logo no ano seguinte. O infante nasceria em 29 de janeiro de 1451, sendo batizado em homenagem ao bisavô e fundador da dinastia de Avis, D. João I. Em breve se seguiria mais uma gestação, que daria origem a infanta D. Joana. Depois destes sucessos, a rainha pediu ao rei – e foi atendida – que seu pai fosse devidamente sepultado no mosteiro da Batalha. Pouco depois, o herdeiro João faleceu; não muito tempo após, contudo, nasceu outro menino para o casal, que foi nomeado em homenagem ao irmão morto. Ele seria o futuro rei D. João II.

D. João II de Portugal
D. João II de Portugal

Alguns meses depois deste novo nascimento, D. Isabel ficou severamente doente, sofrendo de hemorragias. Pelo tempo, não se tratava de complicações no parto; problemas relacionados à um aborto ou um nascimento prematuro também não são prováveis, considerando-se que as crônicas nada mencionam a este respeito. Tendo em vista a rapidez da degeneração no estado da rainha, a hipótese de veneno parece ser confirmada. Se os responsáveis esperavam um novo casamento do rei, enganaram-se; apesar de lhe restar apenas um herdeiro homem vivo, D. Afonso V fez um voto de castidade em honra da falecida esposa. Décadas depois, porém, ele o romperia para casar-se com a sobrinha, a infanta Joana, no contexto da guerra de sucessão castelhana.

Para saber mais:

FREITAS, Isabel Vaz de. D. Isabel de Coimbra – Insigne Rainha (1432-1455). Disponível em: http://repositorio.uportu.pt/jspui/bitstream/11328/974/1/D.%20Isabel%20de%20Coimbra.pdf .

Isabel de Coimbra – parte I

Nascida em 1432, Isabel de Coimbra era a primeira filha mulher (terceira criança) do infante D. Pedro, secundogênito sobrevivente de D. João I de Portugal e irmão mais novo do herdeiro D. Duarte, e Isabel, condessa de Urgell. Pouco antes, nascera seu primo, o infante D. Afonso, que seguia diretamente seu pai D. Duarte na sucessão real; quase que de imediato, tanto o duque de Coimbra quanto seu irmão ilegítimo, o conde de Barcelos (1), manifestaram interesse quanto ao futuro matrimônio do infante. Enquanto D. Pedro propunha a filha D. Isabel como noiva, D. Afonso oferecia uma de suas netas, também chamada Isabel. Devido à extrema juventude de todas as crianças envolvidas, entretanto, a questão foi deixada em suspenso.

D. Pedro, duque de Coimbra
D. Pedro, duque de Coimbra

A morte súbita do já rei D. Duarte poucos anos depois, ocorrida pouco depois da catastrófica derrota em Tânger, empurrou o reino para uma crise política; a regente por ele escolhida em seu testamento era sua esposa aragonesa, a rainha D. Leonor, embora por tradição o direito pertencesse ao seu irmão seguinte, D. Pedro. O conflito parecia inevitável. Para procurar diminuir a tensão, a regente revelou ao cunhado a suposta vontade do falecido monarca em casar seu herdeiro D. Afonso com a prima D. Isabel de Coimbra, que ela se propunha a realizar. A decisão pragmática da rainha viúva, que provavelmente tencionava anular um partido de oposição com a união proposta, em muito desagradou o conde de Barcelos.

De qualquer forma, o compromisso entre as duas partes não foi atingido, com D. Leonor tendo que abdicar da função de regente em nome de D. Pedro, que possuía muito mais apoio do que ela. Mesmo assim, porém, o projeto de casamento entre os primos foi mantido, com o novo regente apressando-se em garantir uma dispensa para a união em Roma. D. Leonor e seus parentes aragoneses, por outro lado, pressionavam contra. Eventualmente, a dispensa seria garantida, o que possibilitaria que D. Pedro pudesse, com segurança, forçar a rainha viúva para o exílio, acompanhada por seus partidários.

D. Isabel
D. Isabel

Enquanto estas reviravoltas políticas eram realizadas, D. Isabel era cuidadosamente educada do ducado de seu pai, contando com mestres educadores italianos e a leitura de clássicos, como era esperado para uma futura rainha. Aliás, a jovem infanta foi possivelmente educada junto ao noivo, o rei, que passara a ser criado pelo tio após o exílio de sua mãe. Eventualmente, D. Afonso V se apaixonaria pela discreta prima que, apesar de não ser considerada bela pelos padrões da época, era doce, prudente, honesta, virtuosa e inteligente; de fato, as descrições de D. Isabel nas crônicas do reinado de seu futuro marido aproximam-se bastante do ideal feminino da época. Por seu lado, D. Isabel não deve ter considerado difícil amar seu justo, culto e gentil prometido, mesmo que este não tivesse sido um dever imposto a dedicada filha do duque muitos anos antes, e teria uma sincera amizade com D. Afonso até o fim de sua vida.

(1) Título utilizado prioritariamente por D. Afonso antes de sua ascensão como duque de Bragança.