Isabel de Aragão, a Rainha Santa – parte IV

Em 1299, o rei nomearia D. Isabel como a principal executora de seu testamento, além de possível regente do Portugal, antes de partir numa campanha contra uma nova revolta de seu irmão mais novo. Nos anos seguintes, contudo, a aliança com Aragão e com o irmão favorito de D. Isabel, o rei Jaime II, perdeu importância com a ascendência cada vez maior da união Portugal-Castela, fazendo cair o capital político da rainha.  Depois, portanto, que o herdeiro D. Afonso se uniu a sua mãe contra a legitimação de seus primos ilegítimos, filhos de seu tio homônimo, D. Dinis virou-se contra a rainha. Logo após, o príncipe e o rei começaram a se chocar politicamente com cada vez maior frequência, com D. Isabel apoiando tão visivelmente o filho que D. Dinis acabou desterrando-a da corte e a destituindo-a de todas as suas rendas.

D. Afonso IV de Portugal
D. Afonso IV de Portugal

Enquanto isso, ressentido pelo favorecimento indevido que o pai dava a um filho ilegítimo, Afonso Sanches, e temeroso que este meio-irmão pudesse ser a escolha de D. Dinis para sucedê-lo no trono, além de estimulado ao confronto por nobres descontentes pela política de controle de poder senhorial exercida por D. Dinis, D. Afonso retirou-se do reino com sua esposa e solicitou publicamente que lhe fosse dado o governo de justiça do reino. O pedido foi negado. Provavelmente vendo nisso uma confirmação de que seria deserdado em benefício do irmão bastardo, D. Afonso iniciou o confronto contra D. Dinis, cercando e conquistando algumas cidades. Em 1323, apenas a intervenção da própria rainha D. Isabel teria impedido um confronto direto entre pai e filho; segundo a lenda, ela teria se posicionado em uma mula em meio aos exércitos das duas partes. Já no ano seguinte, ambos os lados exaustos entrariam em concórdia, e a paz retornaria. A relação entre D. Dinis e D. Isabel, porém, nunca foi mais a mesma. Quando ele morreu em 1325, seria enterrado no convento de São Dinis, em Odivelas. A rainha, simbolicamente, seria enterrada após seu falecimento no convento de Santa Clara, em Coimbra, para onde se retirara em sua viuvez.

Antes disso, contudo, em 1336 ela impediria mais uma vez o derramamento de sangue quando seu filho, ofendido pelos maus-tratos que o genro, o rei Afonso XI de Castela, infringira à sua filha D. Maria, marchou com suas tropas rumo ao reino vizinho. Após cavalgar em encontro a D. Afonso IV, D. Isabel conseguiu convencer o filho a reconsiderar; pouco depois, a doente rainha viúva morreria em sua cama, vítima de uma febre. Após séculos de milagres feitos por sua intervenção terem sido relatados, Isabel de Aragão foi beatificada em 1525. Um século depois, ela viraria oficialmente uma santa da Igreja Católica.

Santa Isabel, Rainha de Portugal
Santa Isabel, Rainha de Portugal

Isabel de Aragão, a Rainha Santa – parte III

Finalmente, em 26 de junho de 1282, na cidade portuguesa de Trancoso, Isabel encontrou o rei com o qual já era casada por procuração há alguns meses. Mesmo tendo apenas 12 anos, ela já era bastante alta para uma mulher medieval; quando adulta, atingiria cerca de 1,75.  Em compensação, D. Dinis, com pouco mais de 20 anos, não tinha sequer 1,70 (CRESPO, 1942, p. 115). Não que isso o tenha impedido de arranjar amantes. Enquanto Isabel de Aragão não atingia a idade adequada para a consumação física, o rei, um homem ruivo com “clara apetência sexual” (PIZARRO, 2005, p. 231) gerava vários filhos bastardos com variadas amantes. Por outro lado, a maioria das infidelidades comprovadas de D. Dinis ocorreu durante o período de extrema juventude da rainha, rareando mais durante o resto do casamento.

Mesmo assim, porém, D. Isabel demorou algum tempo antes de gerar filhos. A partir de 1284, quando atingiu a idade para consumação do matrimônio, até o nascimento da infanta Constança (n. 04/01/1290), que seria a primogênita do casal real, não existe nenhum registro de aborto, natimortos ou crianças que faleceram jovens, nem mesmo por fontes secundárias do período, que costumam ser procuradas por historiadores para fornecer informações dessa espécie. Dessa forma, a conclusão mais aparente é que, por algum motivo, ou D. Dinis evitava a cama da esposa ou, o que parece mais provável ao considerar-se que o casal ainda não gerara herdeiros para Portugal, a própria D. Isabel resistia às relações sexuais com certa frequência. Mas por que isso aconteceria?

Os atores Maruchi Fresno e Antonio Vilar como Isabel de Aragão e D. Dinis no filme Rainha Santa (1947)
Os atores Maruchi Fresno e Antonio Vilar como Isabel de Aragão e D. Dinis no filme Rainha Santa (1947)

Pizarro, em sua biografia de D. Dinis (2005), considera que a dificuldade se deu não por incompatibilidade física entre os cônjuges; a rainha Isabel também não teria dificuldades em engravidar, uma vez que, após o nascimento de Constança, em pouquíssimo tempo ela geraria aquele que seria o infante Afonso (n. 08/02/1291). Depois dele, porém, não se seguiria mais nenhuma criança, embora D. Dinis e D. Isabel ainda fossem ter muitas décadas de casamento. Para o autor citado, deve-se procurar nas diferentes personalidades de ambos o motivo da baixa fertilidade. Enquanto o rei era vigoroso, enérgico e bastante atraído pelo sexo oposto, a rainha era marcadamente devota e pouco afeita aos prazeres físicos, preferindo os jejuns e penitências constantes. Nestas circunstâncias, pode ser presumido que o ardor amoroso de D. Dinis não era correspondido por D. Isabel, que evidentemente, em sua espiritualidade, sentia-se enojada pela promiscuidade dele.  Assim, após ela cumprir seu dever como esposa do rei e gerar um herdeiro para D. Dinis, pode-se entender o motivo que ambos decidiram não compartilhar mais do mesmo leito.

A falta de contato físico frequente não significa, é claro, que a rainha não tenha tido o respeito de D. Dinis. Ambos compartilhavam alguns interesses, como poesia e caridade; além disso, D. Isabel foi uma das rainhas portuguesas mais influentes no plano político, até mesmo por ser o símbolo maior de uma importante aliança com o reino de Aragão. Em 1297, a assinatura do Tratado de Alcañices com Castela representou um importante prestígio para a rainha, inclusive presente no momento das negociações. Além de ter sido acertado o casamento de sua filha D. Constança com o príncipe herdeiro Fernando, as fronteiras entre Portugal e Castela foram estabelecidas – fronteiras, aliás, que até hoje separam Portugal de Espanha. O estabelecimento de uma promessa de matrimônio entre seu filho D. Afonso e a irmã do príncipe Fernando, a infanta Beatriz, pareceram neste sentido um acordo definitivo de paz entre ambos os reinos.

Isabel de Aragão, a Rainha Santa – parte II

Mesmo que fosse de certa maneira inevitável, existiam evidentes vantagens numa aliança Portugal-Aragão. Para o primeiro, uma união entre ambos encurralaria a já hegemônica Castela, permitindo um maior equilíbrio de forças, o que era sempre vantajoso para um território  com independência ainda não totalmente consolidada; para o segundo, um cenário político mais homogêneo na Península Ibérica permitiria a maior consolidação do projeto de domínio do Mediterrâneo. Assim, em breve D. Dinis estava procurando convencer o rei de Aragão em concordar com seu casamento com a infanta mais velha, Isabel, auxiliado por um primo francês, o rei Felipe III.

Representação moderna de Pedro III de Aragão
Representação moderna de Pedro III de Aragão

Em setembro de 1280, já era bastante claro que o matrimônio ocorreria em breve, e em fevereiro do ano seguinte ocorreu a primeira cerimônia por procuração em Barcelona. Quando os emissários aragoneses chegaram à Portugal pouco depois para a segunda cerimônia, contudo, encontraram D. Dinis em confronto com o irmão mais novo, D. Afonso, que se rebelara. Mesmo assim, ocorreu a união por procuração entre a infanta e o rei. A vitória de D. Dinis pouco depois e a fuga de D. Afonso para Sevilha consolidaram a situação.

Agora, a legitimação efetiva do matrimônio apenas dependia da consumação física. Isabel, entretanto, ainda era jovem demais; além disso, a guerra civil em Castela entre o rei Afonso X e seu filho e herdeiro Sancho não permitia uma viagem segura para a jovem rainha de Portugal. Finalmente, em maio ou junho de 1282, a comitiva da infanta iniciou a viagem, com Pedro III despedindo-se emocionado da filha, entre lágrimas de ambos, dizendo (LOPES, 1419, p. 165):

“Filha, Deus, que te chamou para este casamento e Lhe agradou por saíres de minha casa em nome de raynha, Ele te queira guardar neste caminho que não hajas nenhum percalço. Deus, que sempre te amou na terra onde nasceste, acompanhe os teus feitos nessa terra para onde vais, de maneira que estejas sempre a teu prazer e te dê boa ventura com o teu marido.”

Os atores Maruchi Fresno e Antonio Vilar como Isabel de Aragão e D. Dinis no filme Rainha Santa (1947)
Os atores Maruchi Fresno e Antonio Vilar como Isabel de Aragão e D. Dinis no filme Rainha Santa (1947)

Isabel de Aragão, a Rainha Santa – parte I

De todas as rainhas portuguesas, pouquíssimas conseguiram suscitar a mesma admiração que Isabel de Aragão, consorte do rei D. Dinis; nenhuma, porém, conseguiu sequer rivalizar com a veneração popular que esta despertou, coroada quando Isabel foi oficialmente canonizada pelo papa Urbano VIII em 1625. Mas quem era exatamente essa mulher que despertaria tanta devoção?

Isabel de Aragão
Isabel de Aragão

Nascida em data indefinida entre 1269 e 1271, ela era a filha primogênita (terceira criança) de Pedro III de Aragão e Constança de Sicília. Quando Isabel ainda era uma criança, seu pai lutaria pela herança de sua esposa, última herdeira viva de Manfredo, rei de Sicília, após o trágico destino de seus meios-irmãos, presos e cegados após a batalha de Benevento, em 1266. Após a conquista, o reino de Sicília seria anexado ao de Aragão, o que ajudaria Pedro a ser cognominado hoje como O Grande e conhecido como um dos monarcas mais bem-sucedidos da história de Aragão.

Enquanto seu pai lutava batalhas pela herança de sua mãe no outro lado do mar Mediterrâneo, a jovem infanta crescia com mais três irmãos e uma irmã, além de vários meios-irmãos, frutos dos casos extraconjugais paternos. Uma característica, contudo, parece tê-la destacado em meio ao conjunto desde cedo: sua precoce religiosidade. De fato, esta era uma característica comum em sua família, presente por exemplo em sua tia-avó e homônima, Isabel de Hungria, santificada rapidamente após sua morte em 1231.

Quando Isabel tinha quase 10 anos, começou-se a negociar um casamento entre ela e o novo rei de Portugal, D. Dinis. Diferentemente da maioria dos monarcas do período, D. Dinis não foi casado por seu pai e antecessor, D. Afonso III – que não tratou, aliás, do matrimônio de nenhum filho ou filha. Assim sendo, uma das maiores prioridades do rei no começo de seu reinado foi exatamente preencher esta vacância na corte portuguesa. Ironicamente, porém, como aponta Pizarro (2005, p. 74) a liberdade de escolha de D. Dinis foi bastante tolhida desde o começo da empreitada matrimonial: qualquer princesa inglesa ou francesa ou era muito jovem ou já casada, e o Sacro Imperador Romano não tinha interesse em disponibilizar qualquer uma de suas filhas.

D. Dinis, rei de Portugal
D. Dinis, rei de Portugal

A escolha, portanto, acabou por se reduzir às infantas da Península Ibérica. A rainha de Navarra, Joana I, já era casada, e as filhas de Afonso X de Castela eram, em questão de parentesco, perigosamente  próximas do rei português, o que poderia prejudicar a validade de um possível matrimônio. Nestas circunstâncias, D. Dinis voltou-se para Aragão. Neste reino, existiam duas infantas – Isabel e sua irmã mais nova, Violante – que eram afastadas o suficiente para um casamento seguro. Além disso, a infanta mais velha encontrava-se próxima de atingir a idade mínima para o casamento.