Inês de Castro – parte III

Aproximadamente na época de seu suposto matrimônio, Pedro e Inês passaram a viver em Coimbra no Paço de Santa Clara, construído pela avó do rei, a Rainha Santa. Enquanto isso, na corte portuguesa, a nobreza pressionava cada vez o rei D. Afonso IV para que afastasse definitivamente aquelas influências galegas e cada vez mais pró-castelhanas da convivência de seu herdeiro. Uma vez que a intransigência da recusa de D. Pedro para afastar-se daquela que ele alegava que era sua esposa legítima era absoluta, o monarca teve que ordenar a morte de Inês. Em 07 de janeiro de 1355, três nobres – Diogo Alves Pacheco, Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves – aproveitaram a ausência do príncipe numa excursão de caça e prenderam Inês, executando-a por decapitação quase imediatamente. Segundo algumas versões da história, o próprio rei estava com eles, e Inês teria tentando comovê-lo ao exibir seu filho mais novo perante seus olhos; desta forma, a criança teria testemunhado a inevitável morte de sua mãe.

Inês (ao fundo) tentando comover o rei D. Afonso IV ao exibir seus filhos diante dele no filme Inês de Portugal (1997). No caso, o filme tomou uma liberdade poética ao envelhecer bastante o segundo, que ainda era um bebê na época da execução da mãe
Inês (ao fundo) tentando comover o rei D. Afonso IV ao exibir seus filhos diante dele no filme Inês de Portugal (1997). No caso, o filme tomou uma liberdade poética ao envelhecer bastante o segundo, que ainda era um bebê na época da execução da mãe

Quando foi informado do acontecido, a consternação de D. Pedro transbordou imediatamente para a revolta contra o pai, e ele começou a assaltar militarmente várias cidades ao norte do reino. Apenas a intervenção de sua mãe, a rainha D. Beatriz, conseguiu reconciliar pai e filho alguns meses depois. De qualquer forma, D. Afonso IV morreria em menos de dois anos, tornando Pedro rei de Portugal. Imediatamente, ele prosseguiu a vingança pelo assassinato de Inês: negociou com o rei de Castela – e seu sobrinho – para que os assassinos de sua esposa fossem devidamente extraditados de volta para Portugal em troca de alguns prisioneiros castelhanos retidos no reino. Apenas Diogo Alves Pacheco conseguiria fugir e, assim, ser poupado do destino dos outros dois: é dito que, enquanto o monarca assistia, ambos tiveram seus corações arrancados pelo carrasco.

Depois, D. Pedro I prosseguiu para legitimar Inês como sua rainha. Além de declarar publicamente o seu matrimônio com a ajuda de algumas duvidosas testemunhas, tornando desta forma seus filhos infantes de Portugal, ele ainda teria desenterrado o caixão da esposa, colocado seu cadáver no trono e ordenado então que os nobres prestassem homenagem à sua soberana. Em algumas versões da história, a obrigação iria tão longe até um beijo na mão apodrecida da rainha.

Aclamação póstuma de Inês de Castro
Aclamação póstuma de Inês de Castro

D. Pedro I reinaria por mais dez anos até sua própria morte em 1367, quando seria sucedido pelo filho que tivera com sua primeira esposa Constança, Fernando. Ele seria enterrado, contudo, junto à Inês. Seus caixões ainda hoje estão no mosteiro de Alcobaça, posicionados de frente um para o outro; assim, o rosto do amante seria a primeira visão que cada um teria quando ressuscitarem no Juízo Final. Teriam ficado, desta forma, juntos até o fim do mundo.

Inês de Castro – parte II

Deve-se tomar cuidado, porém, para não tomar retrospectivamente a paixão absoluta e algo obsessiva de D. Pedro por Inês. Casado aos vinte anos por interesse e não por amor (PIMENTA, 2011, p. 168), o príncipe ruivo de olhos negros teria muitas amantes, entre elas Beatriz Dias, Teresa Lourenço, e, se for acreditado nas suspeitas levantadas posteriormente, Afonso Madeira (LOPES, 1986, p. 39). De fato, Inês era apenas uma favorita real bastante beneficiada durante o casamento do príncipe com Constança, principalmente se for observado o fato que a esposa gerava uma criança praticamente atrás da outra (Luís em 1340, Maria em 1343 e Fernando em 1345), e a concubina permanecia estéril.

Heitor Lourenço e Cristina Homem de Mello como os amantes Pedro e Inês no filme Inês de Portugal (1997)
Heitor Lourenço e Cristina Homem de Mello como os amantes Pedro e Inês no filme Inês de Portugal (1997)

Tudo mudaria, contudo, após a morte da princesa em 13 de novembro de 1345, cerca de duas semanas após o nascimento do último filho; logo no ano seguinte, Inês daria à luz seu primeiro filho, Afonso, que apesar de viver pouco, iniciaria uma lista de quatro crianças (Beatriz aproximadamente em 1347, João em 1349 e Dinis em 1354). Nestas circunstâncias, a influência de Inês sobre o príncipe cresceu, assim como a de seus irmãos, que já detinham anteriormente uma amizade com o herdeiro. O rei, que já temia tal ingerência, passou a multiplicar seus esforços para conseguir um novo matrimônio para o filho, principalmente porque após o falecimento precoce de D. Luís, existia apenas um infante, D. Fernando, para separar Portugal de outra possível crise sucessória. Havia um problema, entretanto: D. Pedro insistia que já era casado com Inês.

A extensa discussão sobre se tal matrimônio realmente ocorreu, ou quanto sua validade do ponto de vista dinástico, permanece até hoje. Existem autores, como Barbosa (1728), Figueiredo (1785) e Araújo (1852), entre muitos outros, que tomam o casamento como certo, localizando-o inclusive como tendo ocorrido na cidade de Bragança provavelmente em 1353, quando D. Afonso IV esforçava-se para retirar Inês da convivência do filho. Antônio Caetano de Sousa (1946), contudo, chama a atenção para o fato que tais autores insistem na ocorrência do casamento, mas não em sua legitimidade – sem a qual as núpcias seriam nulas. De fato, o século XIX é em sua maioria curiosamente reticente na abordagem do fato, como mostra Chagas: “A dar crédito a declarações posteriores D. Pedro terá casado com ela. Se for assim, D. Pedro a ninguém o declarou (…) as pessoas presentes à leitura de todos estes documentos ouviram em silêncio, e o acceitaram tudo quanto o Rei lhes quis fazer acreditar” (CHAGAS, 1867-1874, pp. 173 e 187).

No século XX, a tendência maior é ou duvidar que as núpcias sequer ocorreram, como mostram as abordagens de Peres (1929) Vasconcelos (1928) e Martins (1972) ou então uma adotar um tratamento intermediário da questão, como fazem Sousa (1946), Brásio (1961), Serrão (1978) e Marques (1987): enquanto o julgamento dos dois primeiros pende a favor de uma união morganática, os dois últimos escolhem não pender definitivamente para nenhum lado, mas apenas apontar os fortes indícios que o suposto matrimônio tem muitos pontos obscuros. Num livro mais recente sobre o rei, Pimenta (2011, p. 192) cita um ensinamento de São Paulo para dar seu veredito definitivo sobre a polêmica: “Se alguém, transbordando de paixão, acha que não conseguirá respeitar a noiva, e que as coisas devem seguir o seu curso, faça o que quiser. Não peca; que se casem.”

Inês de Castro – parte I

Nascida em data indefinida em 1325, Inês de Castro era a filha do senhor de Lemos e Sarria, o galego Pedro Fernández de Castro, e sua amante portuguesa, Aldonça Lourenço de Valadares. Ambos tinham importantes laços com a nobreza portuguesa e castelhana, mesmo que por via ilegítima. Por exemplo, a avó materna de Inês era Violante Sánchez de Castela, senhora de Uzero por direito próprio e filha ilegítima de Sancho IV de Castela; em um parentesco mais distante, ela também descendia da própria irmã de D. Afonso I de Portugal, a infanta D. Sancha.

Com estas e outras ligações ainda mais íntimas com as Casas reais mais importantes da Península, não realmente surpreende que desde jovem Inês estivesse envolvida em questões importantes. Em 1340, ela foi escolhida para fazer parte do grupo das damas de companhia que acompanhariam Constança de Castela para seu casamento com o herdeiro do trono português, Pedro. O próprio arranjo deste casamento merece atenção. A filha primogênita do rei português, a infanta D. Maria, casara-se em 1328 com o rei castelhano Afonso XI. O matrimônio, porém, foi infeliz desde o princípio; desde antes das núpcias, o monarca tinha uma amante, Leonor de Guzmán, com a qual tinha uma relação apaixonada e intensa; no decorrer dos anos, a concubina real geraria dez filhos.  O casal acabaria eventualmente isolando a rainha Maria num convento.

Representação de Afonso XI numa iluminura do século XV
Representação de Afonso XI numa iluminura do século XV

Revoltado com tal tratamento fornecido à sua filha, o rei português ameaçaria guerrear contra Castela, mas acabaria não cumprindo tal intento, convencido por sua mãe, a Rainha Santa Isabel de Aragão, e sua esposa, Beatriz de Castela. Apesar disso, D. Afonso IV retaliaria em outro ponto bastante sensível nas relações entre os dois reinos: os arranjos matrimoniais. Em 1339, o rei português acertaria uma união entre seu filho e herdeiro Pedro com a filha do duque de Peñafiel, o maior inimigo do rei de Castela e, por consequência, o seu vassalo mais perigoso, rejeitando no processo a própria prima de Afonso XI, Blanche. O casamento presencial se realizaria logo no ano seguinte, quando Constança chegou a Portugal. Teria sido aproximadamente nesta época, segundo os cronistas, que o príncipe Pedro se apaixonou perdidamente pela dama de companhia muy fermosa de sua esposa.