Isabel de Portugal, a ínclita duquesa

Nascida em 21 de fevereiro de 1397, D. Isabel foi a sexta criança a surgir do casamento entre o primeiro rei da dinastia de Avis, D. João I, e sua consorte, a inglesa Philippa de Lancaster, filha de João de Gaunt e neta de Eduardo III. Apesar de ter vindo à luz relativamente tarde na união, a infanta seria a única filha do casal real – uma irmã mais velha, Blanche, morrera na infância. D. Isabel teria, contudo, cinco saudáveis irmãos: D. Duarte, que se tornaria rei depois da morte do pai, D. Pedro, futuro regente do reino, D. Henrique, célebre por suas contribuições às Navegações Portuguesas, D. João, Condestável de Portugal e D. Fernando, o Infante Santo.

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Philippa, a mãe de D. Isabel

Nesta ilustre geração produzida por D. João I e Philippa de Lancaster, a única filha sobrevivente (1) brilharia como a joia da coroa. Possivelmente tendo herdado a beleza de sua avó materna, D. Isabel também se destacava pela inteligência, sendo educada junto com seus irmãos e tendo os mesmos tutores que eles enquanto aprendia matemática, latim, francês, inglês e italiano. Eles também caçavam juntos. Além disso, a jovem D. Isabel era autorizada, em notável contraste com a maioria das donzelas de sua época, a comparecer com os irmãos quando o pai os instruía sobre questões de Estado.

Dificilmente esta bonita e inteligente filha de rei passaria despercebida, e, de fato, não foi o que ocorreu: em 1415, negociações começariam para que D. Isabel se casasse com o rei Henrique V de Inglaterra, que pouco tempo antes subira ao trono. Na verdade, os dois jovens eram primos, uma vez que a mãe da infanta e o pai do monarca, Philippa e Henrique, eram irmãos, sendo ambos filhos de João de Gaunt e Blanche de Lancaster. Apesar disso, contudo, o casamento não era só para reaproximar a família, mas também para conseguir o apoio do reino de Portugal contra a França, com quem a Inglaterra já travava uma longa série de conflitos há vários anos (2). É de se imaginar que a rainha inglesa de Portugal fosse entusiasta do arranjo, mas Philippa não viveria para vê-lo, morrendo subitamente de peste no meio de um quentíssimo verão português. D. Isabel era muito próxima de sua mãe, e ficou arrasada, retirando-se da corte em luto. Neste sentido, o fracasso das negociações nupciais com Henrique V pode ser melhor entendido. Anos depois, ele acabaria se casando com a princesa francesa Catarina de Valois.

Durante os próximos 13 anos, a infanta permaneceria sem outras propostas matrimoniais, focando-se em música e livros e cuidando de suas propriedades legadas pela mãe. É de se pensar que talvez ela tenha recebido propostas menores de casamento, mas optou por preservar a situação privilegiada em que se encontrava: afinal, depois da morte de Philippa, era D. Isabel agora a mulher mais importante da corte portuguesa. Em 1428, quando já tinha 31 anos de idade, ela finalmente aceitou a proposta do Felipe, duque de Borgonha, cognominado como O Bom, após muitas negociações entre os embaixadores deste e o pai e irmãos de D. Isabel. Era muito prestigioso para Portugal se unir ao sofisticado ducado por casamento, e as comemorações ocorridas foram de acordo, durando oito semanas. Apenas depois a infanta partiu para se encontrar com o novo marido, mas a viagem foi difícil e duraria mais 11 semanas. Por fim, ela chegou na cidade de Sluys no dia de Natal. Após uma cerimônia formal de casamento em 7 de janeiro de 1430,  Isabel e Felipe consumaram a união.

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Isabel com seu marido

Ela já era a terceira esposa do duque de Borgonha. A primeira, Michelle de Valois, com quem Felipe fora comprometido ainda na infância, era filha de Carlos VI de França e morreu de doença em 1422. Dois anos depois, o duque voltou a se casar, desta vez com sua tia por casamento, Bonne de Artois, duquesa viúva de Nevers, que já tivera dois filhos homens nas núpcias anteriores. Apesar dela ser jovem, porém, o matrimônio durou apenas pouco mais de um ano antes da morte prematura de Bonne em 1425, deixando o duque novamente viúvo e ainda sem filhos legítimos, ainda que ele já tivesse gerado vários ilegítimos de variadas amantes.

Neste ponto, Isabel de Portugal cumpriu sua tarefa para o marido de maneira exemplar, mesmo que tivesse se casado relativamente tarde para a época; poucos meses após a união, ela já estava grávida. Em 30 de dezembro de 1431, ela deu à luz ao seu primeiro menino, que chamou de Antônio. Já no outono seguinte, ela se encontrava grávida novamente, emulando a famosa fertilidade de sua mãe Philippa. A boa relação do casal ducal, incluindo a confiança que Felipe depositava em Isabel, não significava que ambos estivessem alinhados politicamente; ao contrário. Enquanto o marido tendia a fortalecer seus laços com o vizinho francês, a esposa o incentivava a colaborar com a Inglaterra.

Embora tal diferença de opinião fosse causar discordância entre ambos durante o matrimônio, não diminuiu as responsabilidades governamentais confiadas à Isabel; em janeiro de 1432, quando o duque teve que ir para Dijon, a duquesa recebeu dele a autoridade para governar os territórios em sua ausência. Ainda na ausência de Felipe, o primogênito Antônio, sempre doente, faleceu. Isabel ficou arrasada, mas já em 23 de abril teve um segundo menino, que chamou de José. Mesmo com todos os cuidados, ele também faleceria jovem. Felipe finalmente retornou durante o inverno, quando Isabel engravidou pela terceira e última vez, dando à luz em 10 de novembro de 1433 ao único filho que sobreviveria. Tratava-se de Carlos, o Temerário.

CarlosOTemerário Rogier van der Weyden circa 1460
Carlos, o filho de Isabel e Felipe, circa 1460

Além das tarefas governamentais, a duquesa também se ocupava de assuntos financeiros, sendo responsável por propor um novo sistema monetário para o ducado, influenciado pelos modelos inglês e francês. Em junho de 1433, o duque Felipe partiu para o sul para guerrear contra os franceses e deixou o governo novamente sobre controle de sua esposa. Ele retornaria apenas em abril do ano seguinte. Ao ver como Isabel cuidara eficientemente de tudo, Felipe não lhe retirou o poder, ao contrário do que seria de costume. Desta forma, Isabel permaneceu como uma figura poderosa nas políticas do ducado de Borgonha. Durante as negociações triplas de paz entre Borgonha, França e Inglaterra, em 1435, foi dela o papel preponderante, a ponto do rei Carlos VII lhe conceder uma polpuda renda anual em agradecimento aos “seus serviços na reunião e negociação da paz”. Em 1439, as relações positivas com a França seriam confirmadas com o casamento entre o filho de Isabel, Carlos, e uma das filhas do rei francês, Catarina. Um acordo comercial com a Inglaterra também foi alcançado, embora a desejada paz ainda não ocorresse. De qualquer forma, a atuação diplomática da duquesa de Borgonha, que serviu como intermediária entre Henrique VI de Inglaterra e Carlos VII de França, foi louvada.

A partir de 1443, quando a expansão borgonhesa efetuada pelo duque Felipe se confirmou com a aquisição do território de Luxemburgo, a duquesa Isabel, com posses e rendimentos muito aumentados em relação à época de seu casamento, começou a tornar-se a líder de facto de Borgonha. Foi ela quem arranjou o matrimônio da sobrinha do marido, Maria de Guelders, com o rei escocês Jaime II, efetuado em 1449. Depois, ela começou a negociar com o duque de York a mão da filha deste, Ana, para o seu filho enviuvado desde 1446. Felipe, contudo, queria que o jovem Carlos se casasse com uma prima, Isabel de Bourbon, e interrompeu as negociações da esposa ao providenciar uma rápida e secreta união entre os dois em 30 de outubro de 1454. A duquesa ficaria furiosa com o marido e, inicialmente, até mesmo se recusaria a reconhecer a posição da nova nora. Com a disputa com o duque, que caíra sob a influência da poderosa família De Croy, Isabel perdeu parte de seu poder, já desgastado anteriormente devido ao início do processo de centralização das políticas borgonhesas e à criação de vários órgãos administrativos no ducado, e teve que retirar-se para sua propriedade em La-Motte-au-Bois, onde continuou se dedicando ao seu trabalho de caridade.

IsabeldePortugalporRogier van der Weyden circa1450
Isabel, duquesa de Borgonha, circa 1450

As boas relações entre Isabel e Felipe só seriam retomadas inteiramente após um derrame deste em junho de 1458, quando ela passaria a cuidar pessoalmente da saúde dele, o que se manteria até a morte de Felipe em 1467. A influência de Isabel foi restaurada e ela voltou a trabalhar ativamente na diplomacia, deixando o filho Carlos para cuidar dos assuntos administrativos e militares. Em 1465, este ficou viúvo novamente, e Isabel aproveitou a oportunidade para negociar um matrimônio com a irmã do rei inglês Eduardo VI, Margarida, que foi alcançado e realizou-se em julho de 1468.

A partir de 1471, Isabel começou a ficar cada vez mais doente e passou a preparar-se para a morte, presenteando ordens religiosas e parentes mais chegados, como a nora Margarida e sua única neta, Maria, fruto do segundo matrimônio de Carlos com Isabel de Bourbon. Em outubro, ela já não conseguia comer, mas seria apenas em 17 de dezembro que Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha, faleceria nos braços do filho Carlos. Tinha 74 anos de idade. Ela foi enterrada com o marido em Chartreuse de Champmol, em Dijon. Carlos, o único herdeiro do casal, não teria filhos com sua esposa inglesa, sendo sucedido no comando do ducado pela filha Maria, que por sua vez se casaria com Maximiliano de Áustria e teria com ele dois filhos, Felipe e Margarida, antes de sua trágica morte em 1482. Por meio do matrimônio de sua neta, então, Isabel seria a trisavó póstuma de Carlos V, Sacro Imperador Romano, que dominaria grande parte da Europa na primeira metade do século XVI.

(1) Outra infanta chamada Blanche, esta mais jovem do que D. Isabel, morreria com poucas semanas de vida.

(2) Mais conhecida como A Guerra dos Cem Anos.

Para saber mais:

http://thefreelancehistorywriter.com/2013/01/16/isabel-of-portugal-duchess-of-burgundy/

PARISOTO, Felipe. D. Isabel de Portugal, ínclita duquesa de Borgonha (1430-1471), diplomata europeia do século XV. Contributo para uma bibliografia crítica. Disponível em: https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/18532

 

O Tratado de Windsor e a aliança anglo-portuguesa

Estabelecido em 09 de maio de 1386 entre os reinos de Portugal e Inglaterra, o tratado de Windsor estabeleceu um pacto de ajuda mútua entre ambos. Tendo sido reforçado pelo matrimônio do rei D. João I com a nobre inglesa Philippa de Lancaster, ele firmou o primeiro rei da dinastia de Avis definitivamente no trono, afastando a pretensão de sua sobrinha Beatriz, casada com o rei de Castela.

Representação da cerimônia de casamento de D. João I de Portugal e Philippa de Lancaster
Representação da cerimônia de casamento de D. João I de Portugal e Philippa de Lancaster

Anteriormente, em 1373, fora acertado um acordo de cooperação entre ambos os países, mas este não sobrevivera à morte do rei D. Fernando I de Portugal. Seria apenas com o tratado de 1386 que a aliança se consolidaria permanentemente, sendo portanto o tratado mais velho ainda em ativa em toda a história, mesmo considerando-se sua temporária anulação entre 1580 e 1640. Ela seria reforçada durante a Guerra de Restauração portuguesa (1643 e 1654), a Restauração Inglesa (1660 e 1661), a Guerra de Sucessão Espanhola (1703) e as Guerras Napoleônicas (1815), quando as tropas francesas foram detidas na Península Ibérica pelo duque de Wellington. Na Segunda Guerra Mundial (1943), Portugal forneceu apoio naval fundamental aos navios e aeronaves ingleses após ter permanecido neutra por parte do conflito. Durante a Guerra das Malvinas (1982), a aliança também foi usada pela Inglaterra para obter o apoio diplomático português contra a Argentina.

Também existiram negociações matrimoniais entre as duas monarquias, embora nem todas fossem bem-sucedidas. Em 1485, Ricardo III de Inglaterra e D. João II de Portugal iniciaram um projeto de matrimônio duplo: o rei inglês se casaria com a irmã do rei português, D. Joana, e este casaria a alegada sobrinha bastarda do inglês, Isabel de York, com seu primo D. Manoel, duque de Beja (futuro D. Manuel I de Portugal). Porém, com a morte de Ricardo III no mesmo ano, morto na batalha de Bosworth contra os exércitos do futuro Henrique VII de Inglaterra, nada ocorreria. Cerca de meio século depois, entre 1537 e 1540, começaram as negociações para um casamento entre Maria de Inglaterra (futura Maria I), filha mais velha sobrevivente de Henrique VIII, e o irmão de D. João III de Portugal, D. Luís. A ideia foi eventualmente abandonada, provavelmente por problemas com a delicada sucessão real inglesa e a hipótese de que o duque de Beja já tivesse se casado secretamente com a mãe de seu filho bastardo.

D. Luís, duque de Beja
D. Luís, duque de Beja

Finalmente, em 1661, foi assinado um contrato de casamento entre Carlos II de Inglaterra e Catarina de Portugal. Eles se uniriam no ano seguinte, mas a infanta portuguesa jamais seria coroada ou mesmo inteiramente aceita pela nobreza por seu catolicismo num reino fortemente protestante desde a dinastia Tudor. Com apenas três natimortos frutos do casamento, a coroa acabaria sendo herdado pelo irmão de Carlos, James II, cujo catolicismo e eventual nascimento de um herdeiro causariam a Revolução Gloriosa em 1688.

Você sabia?

A aliança anglo-portuguesa que possibilitou o casamento entre uma neta do rei inglês Eduardo III, Philippa de Lancaster, e D. João I de Portugal não se esgotou quando da união de ambos os nobres em questão. Na verdade, ela iniciou uma longa lista de negociações matrimoniais entre os reinos das ilhas britânicas e as monarquias da Península Ibérica. Entre os mais notáveis exemplos estão:

– Em 1388, a irmã mais nova de Philippa, Catarina, se casou com o rei de Castela, Henrique III, tendo com ele três filhos sobreviventes, incluindo o próximo rei, João II.

– Em 1450, o príncipe herdeiro de Aragão, Carlos, considerou um casamento com a princesa escocesa Isabel, recém-enviuvada do duque da Bretanha. A proposta causou oposição ferrenha da França e não foi adiante.

Carlos de Aragão
Carlos de Aragão

– Em 1468, houveram breves negociações para um casamento entre a irmã do rei de Castela, Isabel (futura Isabel I) e um dos irmãos do rei inglês Eduardo IV, provavelmente Ricardo, duque de Gloucester (futuro Ricardo III), mas parece que a proposta foi rapidamente deixada de lado.

Ricardo III da Inglaterra
Ricardo III da Inglaterra

– Em 1485, Ricardo III de Inglaterra e D. João II de Portugal iniciaram um projeto de matrimônio duplo: o rei inglês se casaria com a irmã do rei português, D. Joana, e este casaria a alegada sobrinha bastarda do inglês, Isabel de York (filha primogênita de Eduardo IV e futura rainha de Inglaterra como esposa de Henrique VII), com seu primo D. Manoel, duque de Beja (futuro D. Manuel I de Portugal). Porém, com a morte de Ricardo III no mesmo ano, morto na batalha de Bosworth contra os exércitos do futuro Henrique VII de Inglaterra, estes planos acabariam em nada.

– Em 1487, começaram as negociações de casamento entre Arthur, filho de Henrique VII e Isabel de York e herdeiro do trono inglês, e Catarina, filha caçula dos Reis Católicos, Isabel e Fernando. Em 1489, a aliança foi confirmada pelo tratado de Medina del Campo. Enquanto isso, o casal real espanhol também considerava um casamento entre a irmã mais velha de Catarina, Maria (futura rainha de Portugal como segunda esposa de D. Manuel I), e James IV de Escócia, mas este projeto não aconteceria de fato. Por outro lado, Catarina se casaria com Arthur em 1501, ficando viúva no mesmo ano, e se casaria novamente com o irmão de Arthur, o rei Henrique VIII, em 1509.

Catarina de Aragão
Catarina de Aragão

– Em data indefinida entre 1537 e 1540, começaram as negociações para um casamento entre Maria de Inglaterra (futura Maria I), única filha sobrevivente de Catarina e Henrique VIII, e o irmão de D. João III de Portugal, D. Luís, duque de Beja. A ideia foi eventualmente abandonada, provavelmente por resistência do pai de Maria ao pagamento do dote, além de problemas com a delicada sucessão real inglesa. A hipótese de que D. Luís também resistisse ao matrimônio por já ter secretamente se casado com a mãe de seu bastardo, D. Antônio, futuro postulante ao trono de Portugal na crise sucessória de 1580, é considerada por alguns historiadores. De qualquer forma, em 1554, Maria I se casaria com o futuro Felipe II de Espanha.

D. Luís, duque de Beja
D. Luís, duque de Beja

– Em 1661, foi assinado um contrato de casamento entre Carlos II de Inglaterra e Catarina de Portugal. Eles se uniriam no ano seguinte, mas a infanta portuguesa jamais seria coroada ou mesmo inteiramente aceita pela nobreza por seu catolicismo num reino fortemente protestante desde a dinastia Tudor. Com apenas três natimortos frutos do casamento, o reino acabaria sendo herdado pelo irmão de Carlos, James II, cujo catolicismo e eventual nascimento de um herdeiro causaria a Revolução Gloriosa em 1688.

– Em 1906, a neta e homônima da rainha Vitória do Reino Unido, sobrinha do rei Eduardo VII, se casou com o monarca espanhol Afonso XIII. Apesar de ter tido vários filhos, incluindo um herdeiro ao trono, este herdou o fatal gene da hemofilia do lado inglês da família, o que prejudicou gravemente as relações entre os monarcas espanhóis, além de contribuir para o temporário fim da monarquia na Espanha em 1931, quando a família real partiu para o exílio. O atual rei espanhol Felipe VI é seu bisneto.