Catarina de Áustria – parte VII

Depois disso, a rainha permaneceria como regente por mais dois anos, até que em fins de 1563 ocorreu sua súbita e controversa renúncia após a vitória portuguesa sobre os mouros no cerco da praça de Mazagão. Num movimento bastante incompreensível diante da possibilidade de capitalizar para si o triunfo conquistado, D. Catarina convocou os Três Estados para anunciar sua decisão em ceder o poder para o cunhado. Todos foram tomados pela surpresa, incluindo D. Henrique. Afinal, apesar dela ter sido de fato criticada por sua demora em socorrer os portugueses durante o cerco, a regente ainda contava com apoio de vários e fiéis partidários. A decisão, contudo, era definitiva, e seria mesmo D. Henrique o novo regente, apesar do nome de D. Maria, duquesa de Viseu, ter circulado entre alguns círculos. D. Catarina ainda manteria a curadoria e a tutoria.

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Isabelle Adjani interpretando Margarida de Valois no filme A Rainha Margot (1994)

A partir daí, o poder da rainha viúva se manteria basicamente em procurar continuar influente perante o jovem neto e ajudá-lo em negociações matrimoniais. Principalmente no segundo caso, ela foi com frequência desafiada por D. Henrique. Durante a regência do último, encerrada em 1568, negociações com a França haviam começado para casar o rei português com a princesa Margarida, que era apenas um ano mais velha do que ele. Com o avanço do movimento protestante em França, porém, D. Sebastião mostrava-se reticente; a reputação dissoluta de Margarida também não auxiliou. No final, as conversas permaneceram indefinidas, e, como meio de tentar conter os confrontos religiosos franceses, ela foi casada com Henrique de Navarra em 1572.

Neste contexto de naufrágio do projeto matrimonial francês, D. Catarina insistiria ainda mais na ideia de união entre D. Sebastião e a primogênita de Felipe II de Espanha, a infanta Isabel. Estas núpcias também eram, aliás, muitíssimo do agrado de D. Sebastião. Interpretando hoje a proposta sem levar em conta alguns eventos que não poderiam de fato ser previstos na época, o casamento não era realmente uma má ideia. Embora um casamento francês pudesse colaborar para tornar Portugal mais independente do ponto de vista político, manter o padrão matrimonial com Espanha talvez fosse, além de mais prático, conveniente; até aquele momento, afinal, a infanta Isabel era a herdeira da Coroa espanhola. Mesmo se o rei Felipe conseguisse produzir um herdeiro homem em seu quarto casamento, contudo, a menina ainda seria a filha mais velha do prestigioso monarca e sobrinha do Sacro Imperador Romano Maximiliano II. Em muitos sentidos, se tratavam de núpcias bastante vantajosas para os padrões do século XVI, embora a prospectiva noiva ainda fosse apenas uma criança.

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A infanta Isabel aos 13 anos de idade

De qualquer forma, mesmo se a misteriosa doença de D. Sebastião não fosse já um fator de complicação para negociações matrimoniais, as intenções do próprio rei se dirigiam cada vez mais para a guerra contra os infiéis em África. Até mesmo o pedido da mão da infanta Isabel a Felipe II inscreve-se no sentido de obtenção de ajuda militar para a guerra santa. Catarina se opunha ao projeto do neto de liderar pessoalmente esta empresa militar, mas D. Sebastião não dava ouvidos aos conselhos da avó, de quem se afastava cada vez mais. E foi aflita, cada vez mais doente e com dores. que ela recebeu a confirmação da intenção de seu neto de ir guerrear em África em 5 de fevereiro de 1578.

Em 10 de fevereiro, a rainha viúva passou várias horas em estado comatoso e recebeu a extrema unção. Sabendo do estado da avó, o rei foi ao paço dela, e lá já se encontrava quando D. Catarina recobrou a consciência. Reconhecendo-o, ela lhe deu sua benção. Antes de perder a fala, a rainha viúva teria mais uma vez implorado ao neto que não fosse à guerra. A morte, contudo, só viria no dia 12. Sem pompa, ela seria enterrada junto ao marido no mosteiro de Jerônimos. Depois de manter-se recluso por alguns dias em luto rigoroso, D. Sebastião voltou aos preparativos de sua empresa militar, que ocorreria finalmente alguns meses mais tarde. Com sua morte pouco menos de um mês depois de completar 71 anos de idade, Catarina de Áustria não viu a tão planejada união de todas as Coroas ibéricas por sua família, mas também foi poupada de testemunhar a extinção de sua linha e da Casa de Avis poucos meses depois.

Para saber mais:

Sobre a Revolta das Comunidades de Castela: http://www.tordesillas.net/webs/inicio.php?lang=por&id=105&cont=1

BRAGA, Paulo Drumond. D. João III. Lisboa: Hugin, 2002.

BUESCU, Ana Isabel. Catarina de Áustria, Infanta de Tordesilhas, Rainha de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2007.

PITTA, Larissa de Andrade. D. Catarina de Habsburgo e a política de casamentos dinásticos entre Portugal e Espanha (1540-1554). Monografia (bacharelado em História) – Instituto de História, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2014.

Leonor de Áustria – parte III

Na época de seu casamento com Leonor, D. Manuel I considerara uma união futura do príncipe com a princesa Renata, filha de Luís XII de França, mas as negociações acabaram por falhar. Perto de sua morte, o rei voltou a tratar de um duplo enlace que era muito de seu agrado: no projeto, sua filha D. Isabel se casaria com o imperador Carlos V e seu filho D. João se uniria à irmã do imperador, Catarina, ainda retida em Tordesilhas com sua mãe Joana. O falecimento súbito do monarca português pareceu alterar toda a situação, uma vez que agora parecia que o novo rei se casaria com sua madrasta, por quem, segundo uma fonte inglesa, se encontrava loucamente apaixonado.

Um pedido de dispensa papal inclusive estaria sendo procurado após o imperador Carlos V concordar com o casamento dos dois e, segundo um boato, D. Leonor já estaria grávida. Apesar de tudo isso, contudo, a rainha viúva retornou para junto do irmão em meados de junho de 1523, deixando para trás a única filha, D. Maria. Os motivos parecem condenados a permanecer envolvidos em mistério. As supostas núpcias seriam só um mexerico gerado por uma corte ansiosa, ou então um dos noivos desistiu do enlace, talvez por motivos religiosos? Não é possível saber ao certo. De qualquer maneira, D. João III acabaria por se casar com Catarina de Áustria, a irmã mais nova de Carlos V por tanto tempo presa com sua mãe instável, em 1525, e cuidaria da irmã caçula D. Maria com carinho paternal até sua morte.

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Catarina de Áustria, irmã mais nova de Leonor e esposa de D. João III, conforme interpretada por Guiomar Puerta na série Carlos, Rey Emperador

Pouco depois de sua volta à Espanha, Leonor ficou comprometida com o duque de Bourbon como parte de um arranjo de seu irmão para lutar contra o rei de França. Em 1525, contudo, tudo seria alterado com a esmagadora vitória imperial em Pavia. Feito prisioneiro, Francisco I teve que fazer amplas concessões no Tratado de Madri, assinado em 1526, onde ele cedeu muitos territórios e pretensões, além de concordar em enviar dois de seus filhos para ficarem como reféns na Espanha, a fim de garantir o cumprimento dos termos. Além disso, Carlos V propôs que o monarca viúvo voltasse a se casar com sua irmã também viúva, Leonor. Sem escolha, Francisco I aceitou.

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Leonor em retrato feito quando era rainha de França

Após deixar a Espanha com seus futuros enteados, Leonor encontrou o rei francês na fronteira antes de ser coroada em Saint-Denis em 31 de maio de 1531. Francisco ignorava a esposa na maior parte do tempo, preferindo a companhia de amantes, especialmente Ana de Pisseleu d’Heilly, a duquesa de Étampes. O casal real não teria filhos antes da morte de Francisco em 1547, embora Leonor tenha cuidado das filhas sobreviventes do primeiro casamento do marido com Cláudia de Valois, as princesas Madalena, futura rainha de Escócia, e Margarida, futura duquesa de Saboia.

Após esta segunda viuvez, Leonor foi viver primeiro em Brussels e depois em Espanha, onde ficou com sua irmã Maria na cidade de Jarandilla de la Vera, perto do monastério onde o irmão passou a viver após sua abdicação em 1555. Em 1558, após a morte de D. João III, sua filha D. Maria saiu de Portugal em direção à cidade de Badajoz, onde encontraria sua mãe pela primeira vez em quase trinta anos. Após algumas semanas juntas, a infanta retornaria ao reino de origem, frustrando o desejo de sua mãe para que fosse viver com ela em Espanha. Pouco depois, Leonor, rainha viúva de França e Portugal, faleceria aos 59 anos de idade, antecipando-se ao irmão Carlos e à irmã Maria por poucos meses.

Para saber mais:

http://www.examiner.com/article/historical-profile-eleanor-of-austria

http://www.mujeresenlahistoria.com/2015/09/la-hermana-fiel-leonor-de-habsburgo.html

BRAGA, Paulo Drumond. D. João III. Lisboa: Hugin Editores, 2002.

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

Leonor de Áustria – parte I

Nascida em 15 de novembro de 1498, a arquiduquesa Leonor era a primogênita da infanta Joana de Castela e de Felipe, duque de Borgonha e herdeiro de Áustria por via de seu pai, o Sacro Imperador Romano Maximiliano I. O matrimônio deles, ocorrido em outubro de 1496, fazia parte de uma aliança maior entre os Trastâmara e os Habsburgo contra o poder francês no continente; para cimentar ainda melhor o acordo entre as Casas, o irmão de Joana, o príncipe João, também se casaria com a irmã de Felipe, Margarida. Apesar de ambas as uniões serem inicialmente bem-sucedidas do ponto de vista amoroso, as núpcias planejadas por Fernando II de Aragão para fortalecer sua dinastia acabaram, ironicamente, por entregar a Espanha aos Habsburgo. Pouco menos de um ano após o casamento de sua irmã Joana com o duque de Borgonha, o príncipe João faleceu, provavelmente de tuberculose, e sua filha com Margarida de Áustria seria natimorta pouco tempo depois. A herança espanhola passaria, então, para a filha mais velha dos Reis Católicos, Isabel, recém-casada com o rei português D. Manuel I. Em agosto seguinte, entretanto, ela também faleceria após o parto de D. Miguel, que foi o herdeiro de Aragão, Castela e Portugal até sua morte precoce em julho de 1500.

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Rainha Joana de Castela (circa 1500)

Pouco tempo depois da pequena Leonor ganhar um irmão, portanto, Joana de Castela tornou-se a herdeira improvável dos reinos de seus pais. Seu ambicioso marido rapidamente procurou aumentar seu próprio poder com a nova posição dela, principalmente depois que a morte de Isabel I em 1504 tornou Joana a nova rainha reinante de Castela. Felipe usaria a depressão da consorte, causada em grande parte pela constante infidelidade dele, para espalhar boatos sobre a suposta loucura dela e, assim, procurar fortalecer sua autoridade. Estas manobras políticas não o impediam em absoluto de procurar carnalmente a esposa, contudo, e quando ele morreu subitamente em setembro de 1506, Joana estava grávida pela sexta vez.

Enquanto sua mãe era controlada politicamente e, finalmente, aprisionada em Tordesilhas por seu próprio pai, que procurava manter o poder construído em décadas de reinado conjunto com Isabel I, Leonor crescia junto à maioria de seus irmãos e irmãs em Borgonha, aos cuidados de sua tia Margarida. Durante esta extrema juventude, seu casamento já era uma moeda de troca, com negociações neste sentido ocorrendo com Henrique VII de Inglaterra em nome de seu filho e herdeiro homônimo. Ambos chegariam a ficar noivos, mesmo que o príncipe tivesse sido prometido anteriormente à tia de Leonor, a infanta Catarina. Quando o rei inglês faleceu em 1509, contudo, a arquiduquesa tinha apenas dez anos de idade, e Henrique VIII preferiu casar-se com Catarina, que já era bem mais madura fisicamente e, logo, capaz de gerar filhos. Alguns anos mais tarde, quando o rei francês Luís XII enviuvou, também ocorreriam negociações nupciais envolvendo Leonor, mesmo que este monarca fosse quase quarenta anos mais velho do que a putativa noiva. Novamente, contudo, a juventude da arquiduquesa pareceu ter entrado no caminho para a concretização deste arranjo. Luís XII preferiu se casar com Maria Tudor, a irmã de 18 anos do rei Henrique VIII, em outubro de 1514. Outras negociações frustradas também ocorreriam com o rei de Polônia, Sigismundo, antes que Leonor supostamente tivesse um caso amoroso com Frederico II, Eleitor Palatino.

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Leonor na série ‘Carlos, Rey Emperador’, conforme interpretada por Marina Salas

O matrimônio dos dois, contudo, não interessava ao seu irmão Carlos, duque de Borgonha e rei de Espanha desde a morte de seu avô Fernando em 1516, que teria inclusive feito o casal jurar que não se unira secretamente antes de expulsar Frederico de sua corte. De qualquer forma, os irmãos seguiriam pouco depois para a Espanha, onde encontrariam sua mãe Joana pela primeira vez em vários anos. Lá, a doente rainha, já perturbada mentalmente após uma década de confinamento forçado, deu sua permissão solene para que o filho reinasse em seu lugar em Castela e Aragão. Mesmo assim, Joana não poderia deixar a sua prisão, ficando confinada em Tordesilhas até sua morte, apesar de Leonor ter procurado deixar seus aposentos confortáveis antes de partir novamente com Carlos. Eles seriam acompanhados mais tarde por sua irmã caçula Catarina, que deixara seus aposentos secretamente. Aquela seria a primeira tentativa de incorporar a jovem à vida social da corte, frustrada quando Joana, ao notar a ausência da filha de sua prisão pela primeira vez desde o nascimento da menina, declarou que não mais se alimentaria até que ela lhe fosse devolvida.

O Saque de Roma (1527)

Em fins de abril de 1527, Isabel de Portugal, irmã de D. João III e esposa de Carlos V, se encontrava no fim da gestação de sua primeira criança com o imperador e rei de Espanha. Um parto no século XVI costumava ser um evento cuidadosamente preparado; temendo a morte, tão comum em nascimentos do período, grande parte das mães inclusive providenciava seu testamento, para caso o pior viesse de fato a ocorrer imediatamente ou pouco tempo após ela dar à luz.

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Álvaro Cervantes e Blanca Suárez como Carlos V e Isabel de Portugal na série Carlos, Rey Emperador

O marido de Isabel, contudo, provavelmente não se encontrava perto dela em Espanha neste momento difícil. No comando de extensos territórios, não poderia se esperar honestamente que Carlos V pudesse se deter por algumas semanas num só lugar à espera do parto da imperatriz, mesmo em tempos de paz. No caso do primeiro nascimento, contudo, talvez tivesse sido mais provável, mas os exércitos imperiais já se encontravam à beira de outro conflito aberto com as tropas francesas na Itália.

As guerras entre Francisco I e Carlos V já ocorriam desde o início da década de 1520, datando aproximadamente da derrota do primeiro perante o segundo na eleição para Sacro Imperador Romano. Neste sentido, a derrota dos franceses nas primeiras hostilidades preocupou o papado e a República de Veneza, que já procuravam afastar Carlos V dos assuntos italianos. Pouco depois de retornar à França após a esmagadora vitória imperial em Pavia, Francisco I renunciou ao seu tratado de paz com Carlos V e juntou-se a eles, assim como Florença, Milão e uma muito hesitante Inglaterra. Eventualmente, uma aliança anti-Habsburgo – chamada Liga de Cognac – foi formada.

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Francisco I de França

Apesar de ter como objetivo estratégico a diminuição do poder do imperador em Itália, os exércitos do rei francês não foram de muita utilidade no início do conflito. A primeira grande batalha ocorreu em junho de 1526, na Lombardia, onde as forças imperiais tentaram sitiar o castelo do duque de Milão, Francisco Sforza. Tendo como principais comandantes Antonio de Leyva e Alfonso del Guasto, além de serem reforçados pelo maior adversário interno do rei francês, o rebelde duque de Bourbon, o exército imperial não pode ser detido pelas tropas combinadas dos estados papais, Milão e Veneza, mesmo depois da chegada do reforço de mais soldados. Derrotados em Milão em fins de julho, só restou à Liga retirar-se do território e tentar tomar a vizinha Cremona. Mesmo sendo bem-sucedidos neste ponto, o sítio anterior permitiu a Carlos V agrupar mais exércitos vindos da Espanha e dos estados alemães. No começo de 1527, eles já estavam ameaçando militarmente a própria Roma.

Quando o exército do duque de Bourbon chegou à capital da cristandade, no início de maio, as tropas, com poucos suprimentos, já haviam se rebelado e entrado em franca rebelião. Sua indisciplina já se manifestara anteriormente com o saque das cidades de Acquapendente e San Lorenzo alle Grotte, mas a autoridade do duque de Bourbon ainda as mantinha sob controle. A morte do duque durante o cerco de Roma, contudo, acabou com isso. Sem uma restrição considerável, o exército invadiu a cidade depois de derrotar as parcas tropas que a defendiam e instaurou o inferno; o sucessor de Bourbon no comando, Phillibert de Châlon, foi incapaz de deter os soldados depois do massacre dos últimos soldados da Guarda Suíça.

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O saque de Roma em 1527, por Johannes Lingelbach

Grande parte do exército, composto em sua maioria alemã por seguidores de Lutero, enxergava o papa Clemente VII como o próprio anticristo, e, na impossibilidade de invadir o refúgio dele no Castelo São Angelo, nos arredores da cidade, degradaram Roma. Na ausência do papa, religiosos foram os principais alvos:  igrejas seriam depredadas, padres e monges assassinados e freiras estupradas. A destruição artística também seria imensa, com pinturas valiosas destruídas e estátuas clássicas quebradas. O incalculável valor dos livros da Biblioteca do Vaticano só seria poupado porque o comandante Phillibert, talvez num movimento estratégico, instalou seu quartel general ali depois que entrou na cidade. Pouco depois, um inimigo pessoal do papa, cardeal Pompeo Colonna, seguiu as tropas invasoras para dentro da cidade. Apesar de manter seu apoio ao imperador Carlos V, Pompeo apiedou-se das condições miseráveis dos cidadãos romanos e abrigou muitos deles em seu palácio.

Finalmente, em 6 de junho, Clemente VII rendeu-se e concordou em pagar  400.000 ducados por sua libertação, além de ceder os territórios de Parma, Placenza, Modena e Civitavecchia ao imperador. Veneza também anexaria Cervia e Rovenna. No mínimo 6.000 romanos morreram no saque de Roma, com o total real provavelmente atingindo o dobro deste número. Fragilizado politicamente pela invasão, o papa teve que ceder às vontades de Carlos V até sua morte, incluindo negar os pedidos do rei inglês Henrique VIII para que ele anulasse seu primeiro matrimônio com a tia do imperador, Catarina de Aragão.  A recusa de Clemente VII eventualmente levaria este monarca a romper relações com Roma, o que possibilitaria a criação da Igreja Anglicana.

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Saque de Roma, por Francisco Javier Amérigo Aparicio

Apesar da estrondosa vitória, Carlos V ficaria profundamente constrangido com a falta de controle das tropas, que inclusive permaneceriam em Roma até o fim dos mantimentos e o começo de uma epidemia de peste em fevereiro do ano seguinte. É de se pensar que seu cunhado profundamente religioso, D. João III, tenha ficado consternado com as trágicas notícias, assim com sua esposa, Catarina de Áustria, irmã mais nova do imperador. O embaraço do próprio Carlos V, porém, logo seria amaciado pelo sucesso do parto da imperatriz Isabel: em 21 de maio, com ou sem a presença do imperador, nasceria o esperado herdeiro homem, Felipe. A Era Dourada do Império Espanhol, portanto, literalmente viria à luz em meio ao choque do assassinato e do massacre, o que não deixa de representar uma faceta menos conhecida do império onde o sol nunca se punha.

Para saber mais:

https://www.onwar.com/aced/chrono/c1500s/yr20/leagueofcognac1526.htm

http://www.historyofwar.org/articles/wars_second_hapsburg_valois.html

http://www.historyofinformation.com/expanded.php?id=3958

http://www.encyclopedia.com/topic/Sack_of_Rome.aspx

http://www.seattlecatholic.com/article_20040427.html

A última rainha de Felipe II: Ana de Áustria – parte II

Em 1566, a rainha Isabel finalmente teve uma criança viva, a infanta Isabel, e em 1567 nasceu outra, a infanta Catarina, o que reforçou a descendência de Felipe II. Logo no ano seguinte, entretanto, ocorreria a tragédia: num intervalo de poucas semanas, morreriam tanto o herdeiro Carlos quanto a rainha Isabel, deixando o rei espanhol, quase ao mesmo tempo, viúvo e sem um herdeiro homem.

Ana de Áustria na época de suas negociações nupciais
Ana de Áustria na época de suas negociações nupciais

Na época das duas mortes na corte espanhola, Ana de Áustria já tinha quase 19 anos e se preparava para seu casamento. Como filha mais velha do Sacro Imperador Romano e sobrinha do poderoso Felipe II, ela era uma noiva bastante disputada. Em princípio, ela fez parte de uma aliança matrimonial que uniria os maiores reinos da cristandade – no caso, Espanha, França e Portugal. A ideia era que, enquanto ela se casasse com seu primo, o príncipe espanhol Carlos, sua irmã mais nova Isabel se casaria com o rei francês Carlos IX; a irmã deste, Margarida, seria por sua vez a noiva de D. Sebastião.

Dois fatores, porém, alterariam toda a configuração deste plano de aliança nupcial. Primeiramente, o já naturalmente reticente rei português tinha grande aversão quanto a casar-se com uma princesa de um reino que tinha tão boas relações com hereges protestantes. Apesar do projeto matrimonial ter o apoio de seu tio D. Henrique e do próprio papa, Pio V, nada convenceria D. Sebastião. Então, as noivas foram trocadas por Felipe II: enquanto D. Sebastião ficaria com Isabel de Áustria, Carlos se casaria com Margarida. Isso agradou o rei português.

D. Sebastião (c. 1570)
D. Sebastião (c. 1570)

Em 1568, contudo, Felipe II ficou subitamente sem herdeiro homem e viúvo. A saída natural parecia ser que ele se casasse com a jovem Margarida no lugar do falecido filho. Contudo, como D. Sebastião antes dele, o rei espanhol resistiu; não pela suposta promiscuidade da princesa francesa, mas pelo simples fato que, devido ao fato de Margarida ser a irmã mais nova de sua terceira esposa, Felipe II tinha um laço de afinidade com ela, o que tornaria sua união incestuosa. Por mais insistente que a mãe de Margarida, a célebre Catarina de Médicis, pudesse ser, nada dobraria a resistência de Felipe II – muito embora, interessantemente, outrora ele tivesse tentado se casar com a irmã mais nova de sua segunda esposa, Maria I de Inglaterra. Assim, o rei espanhol destrocou as noivas e ficou noivo de Ana de Áustria em 1569, para a grande irritação de D. Sebastião, que permaneceu solteiro. Margarida, por sua vez, acabaria se casando em 1572 com o rei de Navarra.

A vida e candidatura de Catarina de Médicis ao trono português – parte III

A candidatura da rainha francesa foi, contudo, amplamente rejeitada, embora seja citada nos pareceres de outros candidatos, como por exemplo no da duquesa de Bragança, homônima de Catarina. Segundo as Allegações de Direito, principal obra de sustentação da defesa da pretensão da duquesa ao trono de Portugal, mesmo que a rainha Catarina fosse de fato a descendente do matrimônio citado – o que ela não prova conclusivamente -, seu parentesco com D. Manuel I de Portugal era distante demais para que pudesse ser considerada seriamente como candidata ao trono (1580, pps. 187-188).

A rainha Catarina após a sua viuvez
A rainha Catarina após a sua viuvez

De qualquer forma, supondo que Catarina de Médicis fosse realmente descendente de D. Afonso III por meio de um suposto filho gerado com Matilda, condessa de Bolonha, esta criança não teria direito à sucessão portuguesa, uma vez que nascera antes de seu pai se tornar rei. Mesmo que a união de seus pais não tivesse sido anulada para que o rei português pudesse se casar com Beatriz de Castela, o fato deste suposto filho não ter perseguido em vida seu direito de sucessão o tornaria de efeito nulo para seus descendentes. A sucessão legítima de Portugal, portanto, recaiu sobre os descendentes de D. Dinis, filho mais velho sobrevivente do segundo casamento de D. Afonso III – de onde descendem todos os demais candidatos à sucessão (1580, pps. 199-200). Dessa forma, é concluído pelos autores das Allegações de Direito que Catarina de Médicis “não te direito, nem auçam algua, em que fe poffa fundar” seu direito ao trono português.

De fato, hoje é conhecido que Catarina de Médicis descendia, na verdade, da prima de Matilda, Adelaide de Brabant, que herdou o condado de Bolonha após a morte de Matilda em 1258, sendo sucedida por sua vez por seu filho Roberto. Três séculos depois, a linhagem terminaria em Catarina de Médicis, que por seu casamento com o príncipe Henrique anexaria Bolonha à coroa francesa. Então, depois da morte de todos os seus descendentes homens, o reino de França passaria para o seu genro, que subiu ao trono francês em 1589, inaugurando a dinastia real dos Bourbon. Pouco antes, porém, a própria Catarina morreria, provavelmente de pleurisia, deixando como legado uma fama nada honrosa de uma mulher amarga e manipuladora. Mas, segundo seu próprio genro, o rei de Navarra, que segundo alguns boatos ela tentara envenenar (BRÂNTOME, 1666, p. 88):

“Eu pergunto, o que uma mulher poderia fazer, deixada após a morte do marido com cinco pequenas crianças em seus braços, e duas famílias da França que estavam pensando em usurpar a coroa – nós mesmos (os Bourbons) e os Guises? Ela não estaria disposta a interpretar estranhos papéis para enganar primeiro um e depois o outro, a fim de proteger, como fez, seus filhos, que reinaram sucessivamente sobre o sábio exemplo desta mulher sagaz? Estou surpreso que ela nunca agiu pior.”

Virna Lisi como Catarina de Médicis no filme A Rainha Margot (1994)
Virna Lisi como Catarina de Médicis no filme A Rainha Margot (1994)

A vida e candidatura de Catarina de Médicis ao trono português – parte II

Depois da noite de núpcias, Henrique não voltou a prestar muita atenção à esposa, uma vez que, apesar da pouca idade, já tinha variadas amantes, como a famosa Diana de Poitiers, uma dama cerca de 20 anos mais velha que detinha grande influência sobre o príncipe. Parenta distante de Catarina, Diana foi a responsável por garantir que Henrique não repudiasse a esposa pouco ameaçadora politicamente, mesmo depois que o falecimento de Clemente VII e a recusa de seu sucessor, Paulo III, em pagar o dote de Catarina tenha estremecido a aliança entre aquele reino e Roma. Em 1536, após a morte de seu irmão mais velho, Henrique tornou-se o herdeiro do trono. Como Catarina ainda não tinha filhos, a pressão da corte para anular o casamento cresceu consideravelmente.

Henrique II de França
Henrique II de França

Mais uma vez, a principal amante real interviu. Além de ensinar truques à Catarina para engravidar, garantiu que Henrique cumprisse seus deveres conjugais ao atiçá-lo sexualmente por algum tempo quando ele a visitava em seus aposentos, apenas para depois expulsá-lo para o quarto da esposa, localizado no andar de cima. Isso, e mais a orientação dos médicos, deram resultado: em 19 de janeiro de 1544, Catarina deu à luz um menino, batizado em homenagem ao rei Francisco. A anulação do casamento não ocorreria, e mais nove crianças se seguiriam. Após a morte de seu sogro em 1547, Catarina se tornaria rainha de França.

A maioria de seus filhos e filhas, contudo, era doente e não sobreviveu por muito tempo depois de atingir a idade adulta. Em 1559, após o falecimento de seu marido num insólito acidente de justa – depois do qual Catarina devidamente expulsou a antiga favorita Diana da corte – o primogênito deles subiu ao trono com a regência da mãe, sob uma atmosfera de crescente tensão religiosa no reino, mas morreria em pouco tempo. O segundo filho, durante o reino do qual ocorreria o Massacre de São Bartolomeu (por influência da rainha viúva, que procurava tirar Carlos IX da influência de seus adversários políticos, os Guise), também faleceria sem deixar descendentes. O terceiro filho também morreria sem deixar herdeiros, abrindo espaço para que um parente distante, o rei de Navarra, casado com a princesa Margarida, única das filhas de Catarina a ter sua própria saúde robusta, herdasse o trono francês. Ainda antes disso, porém, Catarina se candidataria à sucessão do trono português.

A base de sua pretensão era sua suposta descendência do primeiro casamento do quinto rei português, D. Afonso III, com Matilda, condessa de Bolonha; ela teria, portanto, precedência sobre todos os demais candidatos, como seu antigo genro Felipe II de Espanha. A prova que sua candidatura foi realmente séria é a quantidade de material jurídico disponível hoje sobre a questão; a exemplo dos outros pretendentes ao trono de Portugal, Catarina mandou preparar diversos pareceres jurídicos que supostamente provavam seu direito de se tornar rainha portuguesa por direito próprio (SERRÃO, 1960, pps. 81 e 82).

Primeira página da "Declaration du droit de legitime succession", um dos pareceres jurídicos feitos para a rainha Catarina em sua disputa pelo reino português
Primeira página da “Declaration du droit de legitime succession”, um dos pareceres jurídicos feitos para a rainha Catarina em sua disputa pelo reino português

A vida e candidatura de Catarina de Médicis ao trono português – parte I

Um dos detalhes mais desconhecidos e estapafúrdios da história portuguesa é a candidatura da rainha francesa Catarina de Médicis ao trono português durante a crise sucessória de 1580. Esposa do falecido Henrique II e mãe dos reis Francisco II, Carlos IX e Henrique III, além da célebre Margarida, rainha de Navarra, a nobre de origem florentina defendeu seus direitos por certo tempo no caos político-jurídico que se seguiu à morte do rei Sebastião em Alcácer-Quibir. Mas quem era ela realmente?

A rainha Catarina (c. 1555)
A rainha Catarina (c. 1555)

Nascida em 13 de abril de 1519, ela era filha de Lourenço de Médicis, duque de Urbino e líder de facto de Florença, e Madalena de La Tour d’ Auvergne, segunda filha de João, conde de Auvergne e Bolonha. Era, portanto, descendente de uma das famílias mais antigas de França, embora suas fortunas já estivessem decaindo há algumas gerações. O casamento entre Lourenço e Madalena foi o resultado final de um pacto entre o rei francês Francisco I e o papa Leão X, posteriormente conhecida como Concordata de Bolonha (ALMEIDA, 2010, p. 27). Enquanto Francisco I se comprometeu a realçar a autoridade da Igreja no reino francês, voltando a entregar à autoridade romana as anatas das igrejas de França (tributo referente a um ano de rendimento), o papa concordava em apoiar a pretensão do rei ao trono de Nápoles.

Para selar o pacto, foi arranjado um casamento, como em muitas manobras políticas entre a nobreza, que foi prontamente aceito pelas partes envolvidas; o extremamente rico, mas ainda plebeu Lourenço, sobrinho de Leão X, foi honrado pela ligação com a realeza francesa (SOMERVILL, 2006, pps. 18-19) e a jovem Madalena e sua família, parentes distantes de Francisco I, foram beneficiados por uma ligação íntima com o próprio papa (KENT, 2004, p. 68).Os dois foram casados em 5 de maio de 1518 numa cerimônia luxuosa, como próprio do estatuto dos nubentes. Pouco mais de um ano depois, Madalena daria à luz a primeira filha do casal; de acordo com uma fonte contemporânea citada por Frieda, autora de uma biografia sobre Catarina de Médicis, seus pais ficaram “satisfeitos como se tivesse nascido um menino” (2006, p. 14). Em pouco tempo, contudo, a tragédia atacaria: em 28 de abril, a mãe morreria ou por complicações no parto ou pela praga que atacava a cidade naquele momento. Poucos dias depois, em 4 de maio, o pai também faleceria, vítima da sífilis.

Orfã, a menina herdou uma fortuna vastíssima, aumentada ainda mais poucos anos depois, quando sua tia por parte de mãe, que fora a herdeira do conde de Auvergne e Bolonha, morreu sem herdeiros direitos, o que tornou Catarina a nova condessa. Isso chamou a atenção do suserano destes condados, o rei Francisco I, que passou a insistir que Catarina fosse criada na corte francesa, provavelmente já com a intenção de casá-la com um de seus filhos e, assim, absorver a imensa fortuna da cobiçada herdeira. O tio-avô de Catarina, porém, planejava casá-la com seu sobrinho Hipólito, embora tenha morrido antes de atingir o intento. Em 1523, outro parente tornou-se papa com o nome de Clemente VII e, após superar uma grande revolta ao domínio dos Médicis em Florença, ocorrida entre 1527 e 1530 (KNECHT, 1998, p. 12), começou a negociar o matrimônio de Catarina. Após descartar uma verdadeira fila de pretendentes, como o rei escocês James V, Clemente concordou com o casamento de Catarina com o secundogênito de Francisco I, o príncipe Henrique. Os dois se uniram em 28 de outubro de 1533 numa extravagante festa na cidade francesa de Marselha. Ainda não tinham completado 15 anos de idade. Quando Catarina e Henrique se retiraram para o quarto para consumar o casamento, é dito que o próprio rei testemunhou a primeira noite do casal (KNECHT, 1998, p. 16), possivelmente para diminuir as chances de que o matrimônio pudesse ser anulado.

Margarida de Valois – filha, irmã e esposa de reis

Nascida em 14 de maio de 1553 como terceira filha (sexta criança) fruto do casamento de Henrique II de França e Catarina de Médicis, a futuramente célebre Margarida de Valois ficou orfã de pai aos seis anos de idade, após o rei falecer num trágico acidente de justa. Daí por diante, sua maior influência seria sua dominadora mãe, que, ao tentar manter o controle de uma França dividida pelas Guerras de Religião, também ensinaria a jovem Margarida grandes lições sobre habilidade política, úteis mais tarde em sua vida. A princesa também foi bem educada, como a maioria das damas renascentistas, e era fluente em vários idiomas.

Margarida enquanto criança
Margarida enquanto criança

À medida que Margarida crescia cada vez mais bela, propostas de casamento fatalmente surgiam. Uma das primeiras foi do jovem rei de Portugal, D. Sebastião, quase exato contemporâneo da princesa. Por um longo tempo, o rei foi pressionado por algumas facções da corte a ir adiante com a união, mas ele acabaria no final rejeitando Margarida pela suposta leniência do irmão dela, o fraco Carlos IX, em relação aos protestantes franceses. Em 1568, após a morte da terceira esposa de Felipe II de Espanha, Isabel de Valois, irmã mais velha de Margarida, Catarina de Médicis propôs que sua última filha ainda solteira se tornasse a quarta esposa do rei espanhol; ele a rejeitou, porém, por considerar que casar-se com a irmã da falecida esposa era contra a lei bíblica – muito embora ele tivesse anteriormente tentado se matrimoniar com a irmã de sua segunda esposa, Isabel I de Inglaterra, após a morte de Maria I em 1558.

Há duas razões principais pelas quais Margarida quase chegou aos 20 anos ainda uma donzela: primeiramente, sua engenhosa mãe não permitia que sua última filha sem marido se casasse, a fim de conservá-la como possível ferramenta para manobras políticas – o que, de fato, mais tarde se provou acertado. Em segundo lugar, os boatos sobre a sua suposta promiscuidade sexual, que ainda hoje ganham espaço em produções fílmicas sobre sua vida, podem a ter prejudicado no mercado matrimonial europeu. Segundo Armour (2004, pps. 15-16), tais histórias foram espalhadas pelo irmão de Margarida, o príncipe Henrique, que se desentendia de forma frequente com ela e que possivelmente desejava impedir um possível matrimônio entre a irmã e Henrique de Navarra, quarto na linha sucessória francesa em razão da lei sálica, que excluía todas as mulheres da sucessão.

Isabelle Adjani e Daniel Auteuil nos papéis de Margarida de Valois e Henrique de Navarra no filme A Rainha Margot (1994)
Isabelle Adjani e Daniel Auteuil nos papéis de Margarida de Valois e Henrique de Navarra no filme A Rainha Margot (1994)

As tentativas do irmão de Margarida para impedir o matrimônio acabaram não atingindo seu objetivo. Ela e o rei Henrique se casaram em 1572, numa tentativa para pôr fim às Guerras de Religião. Seis dias depois das núpcias, contudo, ocorreu o Massacre de São Bartolomeu em Paris por ordem do rei Carlos IX, que vitimou milhares de protestantes que se encontravam na capital para o casamento de um de seus líderes com a princesa francesa. Foi a própria Margarida quem interviu para salvar o marido, insistindo que ele se convertesse ao catolicismo para não ser executado. Ele seguiu seu conselho, embora repudiasse a nova religião após conseguir fugir de volta para Navarra em 1576. Margarida ainda ficaria presa na corte francesa até 1578, quando pôde retornar ao marido. Vivendo juntos por um longo tempo em relativa paz pela primeira vez, ambos discutiam com frequência, com Henrique mantendo muitas amantes. Cansando-se por fim, Margarida retornou à corte francesa em 1582, mas foi rapidamente expulsa pelo novo rei, o detestado irmão Henrique, devido ao único caso amoroso documentado de toda a sua vida com o lorde de Champvallon, além do suposto apoio político indevido dela ao irmão caçula, o príncipe protestante Francisco. Em retaliação, Margarida liderou um exército e capturou a cidade de Agen. O sucesso durou pouco. Henrique a capturou poucos meses depois e a manteria cativa por alguns anos no castelo de Usson, no sul do reino francês.

Margarida em sua velhice
Margarida em sua velhice

Devido aos eventos narrados acima, pode-se compreender como o rei de Navarra e a princesa Margarida de Valois não tiveram filhos em seu casamento. Com a morte do príncipe Francisco em 1584 e de Henrique III em 1589, ambos sem ter tido filhos, o marido protestante da princesa francesa tornou-se subitamente o principal candidato ao trono de França, estourando mais conflitos religiosos. Após muitas dificuldades e uma nova conversão ao catolicismo, o rei de Navarra venceu a guerra, mas precisava de um herdeiro. Assim, um divórcio teria que ser providenciado. Em 1599, após a garantia que ela continuaria a ter o título de Rainha de França, Margarida concordou e cedeu lugar para Maria de Médicis, que teria seis crianças com Henrique IV de França. Apesar disso, a antiga consorte não se retirou por completo da corte francesa, continuando a ser influente e ajudando inclusive a criar os filhos do casal real, especialmente o primogênito. Ela viveria para testemunhar o assassinato de seu ex-marido em 1610 por um radical católico. Benfeitora das artes, após a sua morte por motivos naturais, em 1615, Margarida foi enterrada na capela dos Valois na Basílica de St. Denis. Seus restos mortais, assim como os de outros membros de sua dinastia, provavelmente foram destruídos durante a Revolução Francesa.

O carrossel matrimonial de D. Sebastião

Desde que D. Sebastião assumiu pessoalmente o governo português, em 1568 – mesmo ano, aliás, da morte de seu primo Carlos – a questão de seu matrimônio foi tornando-se cada vez mais urgente a cada ano que passava. Embora o rei fosse garantir com o tempo uma conhecidíssima fama de misandria, o fato é que um casamento real era imprescindível e não-negociável do ponto de vista político, tanto para a produção de herdeiros do trono quanto para a fortificação de velhas alianças. E, num momento em que o império português abrangia grande parte do mundo conhecido, o jogo político matrimonial abrangia muitos interesses e jogadores distintos.

O próprio papa da época, Pio V, estava interessado no casamento de D. Sebastião, e apoiaria a que foi, na verdade, a primeira noiva oferecida ao rei: a princesa Margarida de Valois, irmã do rei Carlos IX de França, proposta que também era apoiada pelo tio-avô e antigo regente do rei, o cardeal-infante D. Henrique, como meio de conter a ameaça herege naquele reino.  O desenvolvimento de uma crescente conciliação do rei francês com os protestantes, porém, provocou a interrupção das negociações ainda antes de 1570. A princesa Margarida acabaria se casando com o protestante Henrique de Navarra em 1572, poucos meses depois da morte de Pio V.

Aquarela representando a princesa Margarida de Valois (c. 1570)
Aquarela representando a princesa Margarida de Valois (c. 1570)

Outra proeminente noiva foi a infanta Isabel, filha primogênita de Felipe II de Espanha e, por algum tempo, sua herdeira presuntiva. Esse casamento era perseguido avidamente pela avó e primeira regente de D. Sebastião, a rainha viúva D. Catarina: Espanha e Portugal poderiam se aproximar ainda mais politicamente pelo matrimônio dos primos reais. Não há dúvidas de que a união era também do agrado pessoal de D. Sebastião. Em 1576, durante um encontro com seu tio Felipe na cidade castelhana de Guadalupe, ele pediria pessoalmente a mão da infanta em casamento numa tentativa de garantir o auxílio militar de Felipe II na planejada campanha militar em África.

Felipe II, porém, só acedeu parcialmente aos pedidos do sobrinho: embora tenha diplomaticamente concordado com a ajuda militar, hesitou na questão do casamento. Nesta altura, a menina tinha somente oito anos, pretexto que foi utilizado para que nenhum compromisso fosse assumido naquela ocasião, embora tenha sido concordado que o assunto voltaria a ser discutido depois da volta de D. Sebastião de sua campanha em África. Para o historiador Queiroz Velloso, porém, o rei espanhol não levava a sério os propósitos matrimoniais de D. Sebastião, e por isso não prendia a primogênita a um contrato do qual o rei português depois pudesse procurar escapar (1935, p. 185).

IsabelClaraEugenia
A infanta Isabel (c. 1580)

De fato, o desejo belicoso de D. Sebastião era tamanho que, mesmo antes de saber oficialmente que o tio decidira não o apoiar em sua empresa militar, ele já encarregara o embaixador português de prosseguir com as negociações com o grão-duque da Toscana, Francisco de Médicis, para um possível casamento de sua filha mais velha com o rei (CRUZ, 2012, pps. 258-259), visando receber um substancial apoio para a guerra. Nenhum desses casamentos se realizaria: a filha mais velha do duque da Toscana, Leonor, se uniria em 1584 com o duque de Mântua, e a infanta Isabel apenas se casaria com o arquiduque Alberto de Áustria em 1599.

Isabel de Áustria como rainha de França (1570)
Isabel de Áustria como rainha de França (1570)

Àquela altura, outra antiga noiva em potencial, Isabel de Áustria, já não estava mais disponível: em 1570, ela se casara com o rei francês Carlos IX, irmão de outra antiga prometida de D. Sebastião, Margarida de Valois, provando o quão rápido o carrossel matrimonial europeu poderia girar. Embora viúva desde 1574, ela recusaria todas as propostas de casamento até sua própria morte em 1592. Naquelas circunstâncias, D. Sebastião considerou seriamente unir-se a Maximiliana, filha do duque de Baviera, informando inclusive à sua avó que estava decidido a matrimoniar-se dentro de pouco tempo e pedindo à sua mãe, D. Joana de Áustria, que persuadisse o duque a dar a ele a mão de sua filha em casamento.

De fato, a correspondência disponível sobre o assunto indica um consenso inédito quanto às núpcias do rei de Portugal entre o cardeal D. Henrique, a rainha viúva D. Catarina e os demais conselheiros (CRUZ, 2012, p. 221). A avó do rei, contudo, também o incentivava a esperar a maturidade física de sua prima Isabel, ainda pouco mais do que uma criança, para que um casamento com Espanha pudesse se realizar. D. Sebastião também pendia para tal decisão, embora uma união com a filha do duque de Baviera fosse desejada por muitos na corte portuguesa, visto a necessidade urgente de herdeiros para o trono. Antes que quaisquer núpcias fossem possíveis, porém, ocorreu a tragédia em Alcácer-Quibir.