Leonor de Áustria – parte I

Nascida em 15 de novembro de 1498, a arquiduquesa Leonor era a primogênita da infanta Joana de Castela e de Felipe, duque de Borgonha e herdeiro de Áustria por via de seu pai, o Sacro Imperador Romano Maximiliano I. O matrimônio deles, ocorrido em outubro de 1496, fazia parte de uma aliança maior entre os Trastâmara e os Habsburgo contra o poder francês no continente; para cimentar ainda melhor o acordo entre as Casas, o irmão de Joana, o príncipe João, também se casaria com a irmã de Felipe, Margarida. Apesar de ambas as uniões serem inicialmente bem-sucedidas do ponto de vista amoroso, as núpcias planejadas por Fernando II de Aragão para fortalecer sua dinastia acabaram, ironicamente, por entregar a Espanha aos Habsburgo. Pouco menos de um ano após o casamento de sua irmã Joana com o duque de Borgonha, o príncipe João faleceu, provavelmente de tuberculose, e sua filha com Margarida de Áustria seria natimorta pouco tempo depois. A herança espanhola passaria, então, para a filha mais velha dos Reis Católicos, Isabel, recém-casada com o rei português D. Manuel I. Em agosto seguinte, entretanto, ela também faleceria após o parto de D. Miguel, que foi o herdeiro de Aragão, Castela e Portugal até sua morte precoce em julho de 1500.

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Rainha Joana de Castela (circa 1500)

Pouco tempo depois da pequena Leonor ganhar um irmão, portanto, Joana de Castela tornou-se a herdeira improvável dos reinos de seus pais. Seu ambicioso marido rapidamente procurou aumentar seu próprio poder com a nova posição dela, principalmente depois que a morte de Isabel I em 1504 tornou Joana a nova rainha reinante de Castela. Felipe usaria a depressão da consorte, causada em grande parte pela constante infidelidade dele, para espalhar boatos sobre a suposta loucura dela e, assim, procurar fortalecer sua autoridade. Estas manobras políticas não o impediam em absoluto de procurar carnalmente a esposa, contudo, e quando ele morreu subitamente em setembro de 1506, Joana estava grávida pela sexta vez.

Enquanto sua mãe era controlada politicamente e, finalmente, aprisionada em Tordesilhas por seu próprio pai, que procurava manter o poder construído em décadas de reinado conjunto com Isabel I, Leonor crescia junto à maioria de seus irmãos e irmãs em Borgonha, aos cuidados de sua tia Margarida. Durante esta extrema juventude, seu casamento já era uma moeda de troca, com negociações neste sentido ocorrendo com Henrique VII de Inglaterra em nome de seu filho e herdeiro homônimo. Ambos chegariam a ficar noivos, mesmo que o príncipe tivesse sido prometido anteriormente à tia de Leonor, a infanta Catarina. Quando o rei inglês faleceu em 1509, contudo, a arquiduquesa tinha apenas dez anos de idade, e Henrique VIII preferiu casar-se com Catarina, que já era bem mais madura fisicamente e, logo, capaz de gerar filhos. Alguns anos mais tarde, quando o rei francês Luís XII enviuvou, também ocorreriam negociações nupciais envolvendo Leonor, mesmo que este monarca fosse quase quarenta anos mais velho do que a putativa noiva. Novamente, contudo, a juventude da arquiduquesa pareceu ter entrado no caminho para a concretização deste arranjo. Luís XII preferiu se casar com Maria Tudor, a irmã de 18 anos do rei Henrique VIII, em outubro de 1514. Outras negociações frustradas também ocorreriam com o rei de Polônia, Sigismundo, antes que Leonor supostamente tivesse um caso amoroso com Frederico II, Eleitor Palatino.

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Leonor na série ‘Carlos, Rey Emperador’, conforme interpretada por Marina Salas

O matrimônio dos dois, contudo, não interessava ao seu irmão Carlos, duque de Borgonha e rei de Espanha desde a morte de seu avô Fernando em 1516, que teria inclusive feito o casal jurar que não se unira secretamente antes de expulsar Frederico de sua corte. De qualquer forma, os irmãos seguiriam pouco depois para a Espanha, onde encontrariam sua mãe Joana pela primeira vez em vários anos. Lá, a doente rainha, já perturbada mentalmente após uma década de confinamento forçado, deu sua permissão solene para que o filho reinasse em seu lugar em Castela e Aragão. Mesmo assim, Joana não poderia deixar a sua prisão, ficando confinada em Tordesilhas até sua morte, apesar de Leonor ter procurado deixar seus aposentos confortáveis antes de partir novamente com Carlos. Eles seriam acompanhados mais tarde por sua irmã caçula Catarina, que deixara seus aposentos secretamente. Aquela seria a primeira tentativa de incorporar a jovem à vida social da corte, frustrada quando Joana, ao notar a ausência da filha de sua prisão pela primeira vez desde o nascimento da menina, declarou que não mais se alimentaria até que ela lhe fosse devolvida.

O Saque de Roma (1527)

Em fins de abril de 1527, Isabel de Portugal, irmã de D. João III e esposa de Carlos V, se encontrava no fim da gestação de sua primeira criança com o imperador e rei de Espanha. Um parto no século XVI costumava ser um evento cuidadosamente preparado; temendo a morte, tão comum em nascimentos do período, grande parte das mães inclusive providenciava seu testamento, para caso o pior viesse de fato a ocorrer imediatamente ou pouco tempo após ela dar à luz.

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Álvaro Cervantes e Blanca Suárez como Carlos V e Isabel de Portugal na série Carlos, Rey Emperador

O marido de Isabel, contudo, provavelmente não se encontrava perto dela em Espanha neste momento difícil. No comando de extensos territórios, não poderia se esperar honestamente que Carlos V pudesse se deter por algumas semanas num só lugar à espera do parto da imperatriz, mesmo em tempos de paz. No caso do primeiro nascimento, contudo, talvez tivesse sido mais provável, mas os exércitos imperiais já se encontravam à beira de outro conflito aberto com as tropas francesas na Itália.

As guerras entre Francisco I e Carlos V já ocorriam desde o início da década de 1520, datando aproximadamente da derrota do primeiro perante o segundo na eleição para Sacro Imperador Romano. Neste sentido, a derrota dos franceses nas primeiras hostilidades preocupou o papado e a República de Veneza, que já procuravam afastar Carlos V dos assuntos italianos. Pouco depois de retornar à França após a esmagadora vitória imperial em Pavia, Francisco I renunciou ao seu tratado de paz com Carlos V e juntou-se a eles, assim como Florença, Milão e uma muito hesitante Inglaterra. Eventualmente, uma aliança anti-Habsburgo – chamada Liga de Cognac – foi formada.

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Francisco I de França

Apesar de ter como objetivo estratégico a diminuição do poder do imperador em Itália, os exércitos do rei francês não foram de muita utilidade no início do conflito. A primeira grande batalha ocorreu em junho de 1526, na Lombardia, onde as forças imperiais tentaram sitiar o castelo do duque de Milão, Francisco Sforza. Tendo como principais comandantes Antonio de Leyva e Alfonso del Guasto, além de serem reforçados pelo maior adversário interno do rei francês, o rebelde duque de Bourbon, o exército imperial não pode ser detido pelas tropas combinadas dos estados papais, Milão e Veneza, mesmo depois da chegada do reforço de mais soldados. Derrotados em Milão em fins de julho, só restou à Liga retirar-se do território e tentar tomar a vizinha Cremona. Mesmo sendo bem-sucedidos neste ponto, o sítio anterior permitiu a Carlos V agrupar mais exércitos vindos da Espanha e dos estados alemães. No começo de 1527, eles já estavam ameaçando militarmente a própria Roma.

Quando o exército do duque de Bourbon chegou à capital da cristandade, no início de maio, as tropas, com poucos suprimentos, já haviam se rebelado e entrado em franca rebelião. Sua indisciplina já se manifestara anteriormente com o saque das cidades de Acquapendente e San Lorenzo alle Grotte, mas a autoridade do duque de Bourbon ainda as mantinha sob controle. A morte do duque durante o cerco de Roma, contudo, acabou com isso. Sem uma restrição considerável, o exército invadiu a cidade depois de derrotar as parcas tropas que a defendiam e instaurou o inferno; o sucessor de Bourbon no comando, Phillibert de Châlon, foi incapaz de deter os soldados depois do massacre dos últimos soldados da Guarda Suíça.

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O saque de Roma em 1527, por Johannes Lingelbach

Grande parte do exército, composto em sua maioria alemã por seguidores de Lutero, enxergava o papa Clemente VII como o próprio anticristo, e, na impossibilidade de invadir o refúgio dele no Castelo São Angelo, nos arredores da cidade, degradaram Roma. Na ausência do papa, religiosos foram os principais alvos:  igrejas seriam depredadas, padres e monges assassinados e freiras estupradas. A destruição artística também seria imensa, com pinturas valiosas destruídas e estátuas clássicas quebradas. O incalculável valor dos livros da Biblioteca do Vaticano só seria poupado porque o comandante Phillibert, talvez num movimento estratégico, instalou seu quartel general ali depois que entrou na cidade. Pouco depois, um inimigo pessoal do papa, cardeal Pompeo Colonna, seguiu as tropas invasoras para dentro da cidade. Apesar de manter seu apoio ao imperador Carlos V, Pompeo apiedou-se das condições miseráveis dos cidadãos romanos e abrigou muitos deles em seu palácio.

Finalmente, em 6 de junho, Clemente VII rendeu-se e concordou em pagar  400.000 ducados por sua libertação, além de ceder os territórios de Parma, Placenza, Modena e Civitavecchia ao imperador. Veneza também anexaria Cervia e Rovenna. No mínimo 6.000 romanos morreram no saque de Roma, com o total real provavelmente atingindo o dobro deste número. Fragilizado politicamente pela invasão, o papa teve que ceder às vontades de Carlos V até sua morte, incluindo negar os pedidos do rei inglês Henrique VIII para que ele anulasse seu primeiro matrimônio com a tia do imperador, Catarina de Aragão.  A recusa de Clemente VII eventualmente levaria este monarca a romper relações com Roma, o que possibilitaria a criação da Igreja Anglicana.

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Saque de Roma, por Francisco Javier Amérigo Aparicio

Apesar da estrondosa vitória, Carlos V ficaria profundamente constrangido com a falta de controle das tropas, que inclusive permaneceriam em Roma até o fim dos mantimentos e o começo de uma epidemia de peste em fevereiro do ano seguinte. É de se pensar que seu cunhado profundamente religioso, D. João III, tenha ficado consternado com as trágicas notícias, assim com sua esposa, Catarina de Áustria, irmã mais nova do imperador. O embaraço do próprio Carlos V, porém, logo seria amaciado pelo sucesso do parto da imperatriz Isabel: em 21 de maio, com ou sem a presença do imperador, nasceria o esperado herdeiro homem, Felipe. A Era Dourada do Império Espanhol, portanto, literalmente viria à luz em meio ao choque do assassinato e do massacre, o que não deixa de representar uma faceta menos conhecida do império onde o sol nunca se punha.

Para saber mais:

https://www.onwar.com/aced/chrono/c1500s/yr20/leagueofcognac1526.htm

http://www.historyofwar.org/articles/wars_second_hapsburg_valois.html

http://www.historyofinformation.com/expanded.php?id=3958

http://www.encyclopedia.com/topic/Sack_of_Rome.aspx

http://www.seattlecatholic.com/article_20040427.html

A Invencível Armada e a Invasão da Inglaterra – parte IV

Ao alvorecer do dia 8 de agosto, o duque de Medina Sidónia procurou reorganizar a frota, mas a Invencível Armada já se espalhara em pânico por boa parte da costa francesa, embora as chamas tenham de fato provocado pouco dano físico aos navios. Ao perder sua coesão, a frota espanhola perdera seu principal trunfo perante os ingleses, que daí por diante têm a vantagem definitiva na batalha. Ao decorrer da manhã, eles cercaram os galeões portugueses na altura da cidade francesa de Gravelines, tirando-os pouco a pouco de batalha ao atacá-los simultaneamente com dezenas de navios e centenas de tiros. Todos os navios acabam destruídos, com exceção do galeão São Mateus – cuja tripulação rendeu-se – e do galeão São Felipe – cuja tripulação abandonou o navio antes da captura.

Isabel I de Inglaterra recebendo suas vitoriosas tropas em Tilbury
Isabel I de Inglaterra recebendo suas vitoriosas tropas em Tilbury

Com a perda de sua principal força e com o restante da frota em frangalhos, não restou alternativa para o duque de Medina Sidónia senão ordenar o retorno à Espanha, sendo seguidos de perto pelos ingleses que, contudo, não tinham mais munição para atacá-los. Para evitar possíveis emboscadas no Canal da Mancha, o comandante optou por contornar a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda, retornando pelo Mar do Norte numa viagem relativamente tranquila até 26 de agosto, quando um grande temporal se abateu sobre a fragilizada Armada, dispensando-a novamente. Muitos navios desapareceram, presumivelmente tendo sido afundados durante a tormenta. Os poucos sobreviventes apenas alcançariam novamente a Península Ibérica no início de setembro.

Representação moderna do rei Felipe II de Espanha recebendo a notícia da derrota da Invencível Armada
Representação moderna do rei Felipe II de Espanha recebendo a notícia da derrota da Invencível Armada

A derrota da Invencível Armada marcaria o início da supremacia inglesa na Europa, numa era conhecida como sendo a Era Dourada no período Tudor. Além disso, o lento declínio do império espanhol, que já ameaçava colapsar sobre seu próprio peso, tornou-se irreversível, num processo que começaria mais claramente a partir da morte de Felipe II em 1598 e a ascensão de seu filho Felipe III. Quanto ao recém-anexado Portugal, a perda de centenas de soldados e da parte militarmente mais forte de sua marinha marcou-se como um momento difícil na recém-instaurada União Ibérica. Um ano depois, aproveitando-se da fraqueza espanhola, os ingleses apoiariam uma tentativa de invasão do prior de Crato, mas não conseguiram tomar Lisboa e seriam derrotadas. De qualquer forma, aquele seria o mais forte desafio à dominação filipina desde 1580, o que ajudou a fragilizar o domínio espanhol sobre Portugal desde o início da união de ambos.

Para saber mais:

http://torredahistoriaiberica.blogspot.com.br/2011/01/invencivel-armada-espanhola-1588.html

http://www.areamilitar.net/HISTbcr.aspx?N=102

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/historia/30471/hoje+na+historia+1588++invencivel+armada+espanhola+e+arrasada+pelos+ingleses.shtml

A Invencível Armada e a Invasão da Inglaterra – parte III

No dia 31 de julho, ocorreriam os primeiros tiros entre espanhóis e ingleses. Um galeão português, chamado de São João, atrasara-se em relação ao restante da frota e foi atacado por alguns navios ingleses. O São João acabaria sendo socorrido por outro galeão português, o São Mateus, mas não antes que algumas centenas de tiros fossem disparados. No mesmo dia, o navio castelhano San Salvador sofreria uma explosão a bordo que mataria boa parte de sua tripulação e o tornaria vulnerável à captura por parte dos ingleses.

Dois dias depois, ventos inesperados empurrariam a frota espanhola diretamente para cima dos navios ingleses, o que causou uma série de violentos confrontos. Em determinado momento, o galeão português São Martinho se viu sozinho para lutar com vários galeões ingleses. A superioridade da marinha portuguesa nesta batalha é bem evidenciada pelo fato que, sem ajuda, o São Martinho conseguiu evitar que qualquer navio inglês se aproximasse, embora os tiros do adversário tivessem aberto furos no casco.

Representação da batalha do galeão português São Martinho com os navios ingleses
Representação da batalha do galeão português São Martinho contra os navios ingleses

No dia 5 de agosto, a frota espanhola finalmente conseguiu ancorar em Calais enquanto os ingleses, a oeste, reabasteciam-se de pólvora. Lá, o duque de Medina Sidónia foi informado que o duque de Parma só estaria pronto para se juntar a eles duas semanas depois, uma vez que apenas fora informado da aproximação da Armada poucos dias antes. No final do mesmo dia, os ingleses lançaram um ataque com navios incendiários, semeando o terror e a desorganização entre a frota espanhola, que se dispersou. Era o início do fim.

A Invencível Armada e a Invasão da Inglaterra – parte II

As forças combinadas do império Habsburgo, entretanto, não eram tão poderosas quanto seu nome poderia sugerir. Além de nove galeões de guerra portugueses e quatro galeaças napolitanas, a maior parte dos navios que compunham a Invencível Armada não passavam de navios mercantes armados às pressas com canhões. De fato, apenas uma fração bastante reduzida das forças navais de Felipe II estava realmente em condições de combate, em contraste notável com a marinha inglesa. O primeiro comandante nomeado da frota seria o notável almirante Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz. Ele iniciaria os preparativos, mas morreria antes do início da invasão, sendo substituído pelo inexperiente Alonso Pérez de Guzmán, o duque de Medina Sidónia. A frota se reuniria no rio Tejo, em Lisboa, de onde partiria para se encontrar com as forças comandadas por Alexandre Farnese, o duque de Parma, em Flandres. No total, seriam quase 50.000 soldados e 130 navios, que se enfrentariam com 197 navios ingleses e quase 16.000 homens.

Alonso Pérez de Guzmán, duque de Medina Sidónia
Alonso Pérez de Guzmán, duque de Medina Sidónia

Embora o planejamento espanhol fosse bem definido, variadas circunstâncias atrasaram a partida da frota. Primeiramente, um vendaval danificou vários navios enquanto a peste se espalhava por parte da frota ancorada em Lisboa. Quando finalmente partiu, um temporal a empurrou até a parte sul do reino. Apenas em inícios de junho foi possível para parte dos navios – já com provisões apodrecidas – chegar às costas da Galícia. No fim do mês, porém, ainda haviam navios fora do porto, que foram dispersos por uma violenta tempestade, que conseguiu até mesmo empurrar um dos galeões portugueses para perto da costa francesa. Tomando conhecimento da série de infortúnios espanhóis, os ingleses posicionaram alguns navios perto da entrada do Canal da Mancha para melhor observar a movimentação deles a partir de então.

Percurso parcial da Invencível Armada
Percurso parcial da Invencível Armada

A frota espanhola finalmente saiu de Galícia no dia 23 de julho, tendo que deixar para trás alguns navios avariados. A costa inglesa foi avistada seis dias depois, sendo devidamente detectada pelos navios espiões, que se dirigiram à Plymouth para avisar da aproximação espanhola e, assim, poder atacá-los; condições desfavoráveis na maré, contudo, não o permitiram, e a frota adversária conseguiu passar sem danos e se agrupar para combate.

A Invencível Armada e a Invasão da Inglaterra – parte I

Em 1587, o poderio econômico-militar de Felipe II estava no seu auge. Com as colônias portuguesas absorvidas pela Espanha após sua ascensão neste reino como D. Felipe I, seu império agora era tão grande que um pôr-do-sol jamais o atingia inteiramente; além disso, o rei detinha influência sobre boa parte da Península Itálica e nos Países Baixos. O poder de Felipe II era tão grande que o rei inclusive teve dificuldades para achar noivos apropriados para suas duas filhas, as infantas Isabel e Catarina, frutos do casamento com a falecida princesa francesa Isabel de Valois; ou os potenciais maridos eram já seus vassalos, e uma aliança seria desta forma desperdiçada com um matrimônio, ou eles eram seus dedicados inimigos há muito.

Retrato nupcial do príncipe Felipe, herdeiro de Espanha, e de Maria I da Inglaterra
Retrato nupcial do príncipe Felipe, herdeiro de Espanha, e de Maria I da Inglaterra

Entre estes reinos adversários, encontrava-se a Inglaterra. As relações diplomáticas entre este reino e a Espanha eram sabidamente instáveis. No início do século XVI, haviam sido aliadas devido à união matrimonial entre o jovem rei Henrique VIII e a caçula dos Reis Católicos,  Catarina de Aragão. Mais tarde, a proposta de núpcias entre a única filha sobrevivente destes, a princesa Maria, e o monarca de Espanha, Carlos V, fortaleceria os laços políticos entre os reinos. Com a anulação das núpcias de Henrique e Catarina na década de 1530 e a Reforma Anglicana, contudo, Inglaterra e Espanha se distanciaram. Seria apenas com a ascensão da princesa Maria ao trono, já na década de 1550, que eles se reaproximariam com o matrimônio da rainha com o então príncipe Felipe, numa união que não se provaria fértil. A sucessora protestante de Maria, sua meia-irmã Isabel, não se mostraria receptiva aos avanços espanhóis, recusando uma proposta nupcial de seu cunhado recém-enviuvado.

Representação de Isabel I em sua coroação
Representação de Isabel I em sua coroação

A partir de então, as relações entre Espanha e Inglaterra ficariam cada vez mais frias, embora Isabel não concretizasse o principal temor espanhol e se aliasse à França por via matrimonial. Neste contexto de degeneração crescente da diplomacia anglo-espanhola, Felipe II passou a apoiar sub-repticiamente a pretensão ao trono inglês da prima de Isabel, a rainha escocesa Maria, descendente em linha legítima do primeiro rei Tudor, Henrique VII, por meio de sua filha Margarida. Em 1567, Maria foi detida ao fugir para a Inglaterra na sequência de uma revolta dos nobres escoceses, e desde então permaneceu em prisão domiciliar. Então, no contexto europeu da década de 1580 de um catolicismo cada vez mais militante contra a heresia protestante, ela teria planejado o assassinato da prima inglesa que jamais vira em quase vinte anos de prisão. Por isto, seria decapitada no dia 8 de fevereiro de 1587.

Maria, Rainha dos Escoceses
Maria, Rainha dos Escoceses

Quando as notícias da execução da rainha escocesa atravessaram o mar e chegaram à Espanha, Felipe II viu ali uma maneira de deslanchar definitivamente a planejada ofensiva para conter a agressiva expansão comercial inglesa, que já há tempos começava a ameaçar a soberania espanhola com os ataques constantes de seus corsários às possessões ultramarinas do império. Com as forças navais combinadas de Portugal, Espanha e Nápoles, o rei espanhol intencionava derrubar a excomungada rainha Isabel e substituí-la – ao menos nominalmente – no trono inglês, conforme tinha sido a última vontade expressa no testamento da falecida Maria de Escócia.

As filhas do Venturoso – parte III

Conhecida como ”A Sempre-Noiva” por seus vários projetos de casamento frustrados, D. Maria foi a única filha sobrevivente do terceiro casamento de D. Manuel I de Portugal com Eleanor de Áustria. Nascida em 1521, a infanta ficou órfã de pai com menos de um ano de vida. Curiosamente, Eleanor fora em princípio destinada ao herdeiro de D. Manuel I, o príncipe João. Porém, em virtude das relações pouco amistosas entre pai e filho, da viuvez repentina do rei e da atração do monarca português pela atraente noiva de seu herdeiro, que tinha praticamente a mesma idade das infantas, ela acabaria se casando com o rei, com quem teria o infante D. Carlos (n. 1520, f. 1521) e a infanta D. Maria.

Leonor de Áustria, Rainha de Portugal
Leonor de Áustria, Rainha de Portugal

Após a morte do rei e subida ao trono de D. João III, houve rumores que ele se casaria com sua madrasta, por quem seria loucamente apaixonado. Houve até mesmo boatos que a rainha viúva de Portugal já estaria grávida dele. Apesar disso, Eleanor retornaria em 1523 para a Espanha, sendo impedida, contudo, de levar D. Maria consigo pelo próprio rei, que a essa altura já assumira o papel de pai efetivo da irmã caçula, quase vinte anos mais nova do que ele. Por um lado, havia um claro componente afetivo nesta recusa, que seria agravado com o passar dos anos e a morte da maioria dos filhos de D. João III com a irmã mais nova de Eleonor, Catarina de Áustria. Em 1530, Eleanor realizaria um novo matrimônio com o rei da França, Francisco I, e tentaria novamente trazer a filha para junto de si, principalmente depois que ficou viúva pela segunda vez em 1547. O rei português recusaria todos os pedidos.

Por trás desta compreensível negação do ponto de vista sentimental, porém, escondem-se interesses de Estado. Como a única filha sobrevivente de D. Manuel I e Eleonor de Áustria, D. Maria tinha direito a uma considerável herança, proporcional ao dote que sua mãe trouxera para Portugal em 1518. Não era interessante para o reino, do ponto de vista financeiro, que parte de seus recursos fosses esvaído pela saída da bela herdeira, tanto por vontade própria quanto por via de uma negociação matrimonial.

D. Maria, duquesa de Viseu
D. Maria, duquesa de Viseu

Desse ponto de vista, podemos entender melhor porque, diferentemente de suas meias-irmãs D. Isabel e D. Beatriz, D. Maria teve uma série de noivados cancelados, muito embora questões políticas externas também tenham desempenhado seu papel na questão: por exemplo, em 1537, depois de D. João III ter rejeitado alguns pretendentes franceses à mão da irmã, D. Maria foi brevemente considerada para ser a quarta esposa do rei inglês Henrique VIII, recém-enviuvado de sua terceira consorte, Joana Seymour, que morrera pouco depois do nascimento do único filho homem sobrevivente do rei, o príncipe Eduardo. Rapidamente, porém, os ingleses ficaram mais interessados na rica prima de D. Maria, Cristina, que além de ser uma bela herdeira, também era a filha do rei deposto de Dinamarca, podendo eventualmente herdar este reino. No final, por interferência de Carlos V, tio de ambas, que tinha uma oposição pessoal ao monarca inglês, nenhum dos casamentos seria realizado; Henrique VIII acabaria se casando com a alemã Ana de Cleves.

Cristina de Dinamarca
Cristina de Dinamarca

Outra união frustrada seria com seu primo, o príncipe espanhol Felipe. Depois que este enviuvou da homônima de D. Maria, filha de D. João III, em 1545, houveram longas negociações para um segundo matrimônio com a dinastia de Avis, materialmente muito vantajoso para os Habsburgo (COSTA, 1958, p. 82). Finalmente, em 1553, D. João III cedeu e emissários espanhóis chegaram a ser enviados para levar a valiosa infanta, já chamada oficialmente de princesa de Castela. Mais uma vez, porém, os planos seriam alterados: poucos meses mais tarde, com a morte do rei inglês Eduardo VI e a sucessão de Maria I, tornou-se mais interessante um casamento de Felipe com esta prima inglesa. A culta infanta portuguesa, que, como outras damas da época renascentista, recebeu ampla educação doméstica e livresca (SANTOS, 2007, p. 21), foi novamente abandonada.

Depois disso, apesar de outras possibilidades de núpcias terem surgido, como um casamento com o enviuvado Sacro Imperador Romano, Fernando I, ou uma união com o duque de Saboia, D. Maria pessoalmente as rejeitou, temendo que tivessem o mesmo fim dos projetos matrimoniais anteriores (BRAGA, 2002, p. 78). Em 1558, depois da morte do irmão mais velho, D. Maria saiu de Portugal para encontrar-se com sua mãe Eleanor de Áustria, pela primeira vez em quase 30 anos. Após algumas semanas juntas, cada uma retornou ao seu reino de origem; ainda no caminho de volta, Eleanor faleceria.

D. Maria passou o restante dos seus dias administrando o ducado de Viseu e agindo como protetora de artistas e escritores, tendo sido supostamente a musa inspiradora de Luís de Camões, autor do poema épico As Lusíadas (PINTO, 1996, p. 152). Durante o período tumultuoso da menoridade do jovem D. Sebastião, foi defendido por uma facção da nobreza portuguesa que ela substituísse sua cunhada D. Catarina como regente, mas estes planos acabaram por não resultar em nada (BUESCU, 2007, p. 347). Ainda donzela, D. Maria morreria apenas em 1577.

O Tratado de Windsor e a aliança anglo-portuguesa

Estabelecido em 09 de maio de 1386 entre os reinos de Portugal e Inglaterra, o tratado de Windsor estabeleceu um pacto de ajuda mútua entre ambos. Tendo sido reforçado pelo matrimônio do rei D. João I com a nobre inglesa Philippa de Lancaster, ele firmou o primeiro rei da dinastia de Avis definitivamente no trono, afastando a pretensão de sua sobrinha Beatriz, casada com o rei de Castela.

Representação da cerimônia de casamento de D. João I de Portugal e Philippa de Lancaster
Representação da cerimônia de casamento de D. João I de Portugal e Philippa de Lancaster

Anteriormente, em 1373, fora acertado um acordo de cooperação entre ambos os países, mas este não sobrevivera à morte do rei D. Fernando I de Portugal. Seria apenas com o tratado de 1386 que a aliança se consolidaria permanentemente, sendo portanto o tratado mais velho ainda em ativa em toda a história, mesmo considerando-se sua temporária anulação entre 1580 e 1640. Ela seria reforçada durante a Guerra de Restauração portuguesa (1643 e 1654), a Restauração Inglesa (1660 e 1661), a Guerra de Sucessão Espanhola (1703) e as Guerras Napoleônicas (1815), quando as tropas francesas foram detidas na Península Ibérica pelo duque de Wellington. Na Segunda Guerra Mundial (1943), Portugal forneceu apoio naval fundamental aos navios e aeronaves ingleses após ter permanecido neutra por parte do conflito. Durante a Guerra das Malvinas (1982), a aliança também foi usada pela Inglaterra para obter o apoio diplomático português contra a Argentina.

Também existiram negociações matrimoniais entre as duas monarquias, embora nem todas fossem bem-sucedidas. Em 1485, Ricardo III de Inglaterra e D. João II de Portugal iniciaram um projeto de matrimônio duplo: o rei inglês se casaria com a irmã do rei português, D. Joana, e este casaria a alegada sobrinha bastarda do inglês, Isabel de York, com seu primo D. Manoel, duque de Beja (futuro D. Manuel I de Portugal). Porém, com a morte de Ricardo III no mesmo ano, morto na batalha de Bosworth contra os exércitos do futuro Henrique VII de Inglaterra, nada ocorreria. Cerca de meio século depois, entre 1537 e 1540, começaram as negociações para um casamento entre Maria de Inglaterra (futura Maria I), filha mais velha sobrevivente de Henrique VIII, e o irmão de D. João III de Portugal, D. Luís. A ideia foi eventualmente abandonada, provavelmente por problemas com a delicada sucessão real inglesa e a hipótese de que o duque de Beja já tivesse se casado secretamente com a mãe de seu filho bastardo.

D. Luís, duque de Beja
D. Luís, duque de Beja

Finalmente, em 1661, foi assinado um contrato de casamento entre Carlos II de Inglaterra e Catarina de Portugal. Eles se uniriam no ano seguinte, mas a infanta portuguesa jamais seria coroada ou mesmo inteiramente aceita pela nobreza por seu catolicismo num reino fortemente protestante desde a dinastia Tudor. Com apenas três natimortos frutos do casamento, a coroa acabaria sendo herdado pelo irmão de Carlos, James II, cujo catolicismo e eventual nascimento de um herdeiro causariam a Revolução Gloriosa em 1688.

O casamento de Felipe de Espanha e a partida de D. Joana

Poucos meses após o nascimento de D. Sebastião, seu filho póstumo com o príncipe D. João, D. Joana recebeu ordens de seu pai, o imperador Carlos V, para retornar à Espanha. Esta possibilidade já estava prevista no contrato nupcial para o caso da infanta ficar viúva rapidamente, mas, considerando-se que ela acabara de se tornar a mãe do herdeiro do trono português e uma possível regente, a pressa do imperador pela volta da segunda filha parece algo estranha. Na verdade, o motivo da urgência estava intimamente ligado ao acontecimentos ocorridos no ano anterior ao norte do Canal da Mancha.

Em 6 de julho de 1553, morria o jovem rei inglês Eduardo VI após uma longa doença – provavelmente tuberculose, doença que talvez também vitimaria o herdeiro D. João pouco depois. Fortemente protestante, Eduardo não desejava que o reino voltasse a ficar sobre a autoridade da Igreja, o que fatalmente ocorreria se após sua morte sua herdeira segundo o testamento do pai, a meia-irmã Maria, se tornasse rainha. Para impedir isso, Eduardo tentou passar o trono diretamente para a outra meia-irmã, Isabel, mas foi informado por advogados da corte que não poderia descartar a irmã mais velha para beneficiar a mais jovem na linha sucessória. Então, numa manobra cuja legalidade é ardorosamente disputada até hoje por especialistas no assunto, Eduardo tirou ambas as meio-irmãs da sucessão e declarou em seu testamento, sem requisitar a autorização do Parlamento para tal decisão, que sua prima Jane, anteriormente quarta colocada na linha sucessória inglesa, seria rainha depois de sua morte – e assim foi de fato, mas apenas por nove dias. Ela seria deposta por sua prima Maria, que arregimentaria muito mais apoio entre a alta e baixa nobreza.

Maria I era a única filha sobrevivente de Henrique VIII e sua primeira esposa, Catarina de Aragão, tendo sido declarada ilegítima durante os esforços de seu pai para dissolver o casamento com sua mãe, a fim de produzir um herdeiro legítimo com sua amante Ana Bolena. Finalmente, quando ela já tinha 37 anos de idade, a justiça foi feita e ela seria a primeira rainha reinante da história da Inglaterra. Havia um problema, porém: ela nunca fora casada, e sua herdeira era a protestante Isabel, filha de Ana Bolena. Para evitar o retrocesso em sua reforma católica, Maria precisava, portanto, ter filhos para impedir a sucessão por sua meia-irmã. Depois de descartar alguns pretendentes ingleses, Maria aceitou a proposta de seu primo Carlos V em nome de seu herdeiro Felipe, viúvo há quase dez anos depois da morte de sua primeira esposa, D. Maria de Portugal. Apesar da impopularidade da união, ficou decidido que Felipe dividiria a soberania com Maria.

Retrato nupcial do príncipe Felipe, herdeiro de Espanha, e de Maria I da Inglaterra
Retrato nupcial do príncipe Felipe, herdeiro de Espanha, e de Maria I da Inglaterra

Foi nesse contexto que era necessária a volta de D. Joana à Espanha: na ausência do irmão Felipe, ela deveria ser a regente do reino. Assim foi feito. Deixando o filho aos cuidados da sogra, D. Joana partiu para o seu reino de origem para nunca mais retornar à Portugal, ou mesmo encontrar D. Sebastião novamente, acompanhando o crescimento dele por meio de vários retratos ao longo dos anos.

Na Espanha, ela seria uma regente competente e diligente por vários anos, exatamente como sua tia Maria da Hungria, que comandava os Países Baixos. A infanta Joana não se casaria novamente, optando por uma vida voltada à religião. Depois do fim de sua regência, ela fundaria o convento da Nossa Senhora da Consolação, que atrairia muitas nobres para os seus quadros. Hoje, o convento é um monumento nacional espanhol por sua grande coleção de arte, formada parcialmente pelos retratos de D. Sebastião. Foi lá também que Joana de Áustria seria enterrada seguindo sua morte em 1573.

Joana de Áustria, infanta de Espanha e princesa viúva de Portugal
Joana de Áustria, infanta de Espanha e princesa viúva de Portugal

Você sabia?

A aliança anglo-portuguesa que possibilitou o casamento entre uma neta do rei inglês Eduardo III, Philippa de Lancaster, e D. João I de Portugal não se esgotou quando da união de ambos os nobres em questão. Na verdade, ela iniciou uma longa lista de negociações matrimoniais entre os reinos das ilhas britânicas e as monarquias da Península Ibérica. Entre os mais notáveis exemplos estão:

– Em 1388, a irmã mais nova de Philippa, Catarina, se casou com o rei de Castela, Henrique III, tendo com ele três filhos sobreviventes, incluindo o próximo rei, João II.

– Em 1450, o príncipe herdeiro de Aragão, Carlos, considerou um casamento com a princesa escocesa Isabel, recém-enviuvada do duque da Bretanha. A proposta causou oposição ferrenha da França e não foi adiante.

Carlos de Aragão
Carlos de Aragão

– Em 1468, houveram breves negociações para um casamento entre a irmã do rei de Castela, Isabel (futura Isabel I) e um dos irmãos do rei inglês Eduardo IV, provavelmente Ricardo, duque de Gloucester (futuro Ricardo III), mas parece que a proposta foi rapidamente deixada de lado.

Ricardo III da Inglaterra
Ricardo III da Inglaterra

– Em 1485, Ricardo III de Inglaterra e D. João II de Portugal iniciaram um projeto de matrimônio duplo: o rei inglês se casaria com a irmã do rei português, D. Joana, e este casaria a alegada sobrinha bastarda do inglês, Isabel de York (filha primogênita de Eduardo IV e futura rainha de Inglaterra como esposa de Henrique VII), com seu primo D. Manoel, duque de Beja (futuro D. Manuel I de Portugal). Porém, com a morte de Ricardo III no mesmo ano, morto na batalha de Bosworth contra os exércitos do futuro Henrique VII de Inglaterra, estes planos acabariam em nada.

– Em 1487, começaram as negociações de casamento entre Arthur, filho de Henrique VII e Isabel de York e herdeiro do trono inglês, e Catarina, filha caçula dos Reis Católicos, Isabel e Fernando. Em 1489, a aliança foi confirmada pelo tratado de Medina del Campo. Enquanto isso, o casal real espanhol também considerava um casamento entre a irmã mais velha de Catarina, Maria (futura rainha de Portugal como segunda esposa de D. Manuel I), e James IV de Escócia, mas este projeto não aconteceria de fato. Por outro lado, Catarina se casaria com Arthur em 1501, ficando viúva no mesmo ano, e se casaria novamente com o irmão de Arthur, o rei Henrique VIII, em 1509.

Catarina de Aragão
Catarina de Aragão

– Em data indefinida entre 1537 e 1540, começaram as negociações para um casamento entre Maria de Inglaterra (futura Maria I), única filha sobrevivente de Catarina e Henrique VIII, e o irmão de D. João III de Portugal, D. Luís, duque de Beja. A ideia foi eventualmente abandonada, provavelmente por resistência do pai de Maria ao pagamento do dote, além de problemas com a delicada sucessão real inglesa. A hipótese de que D. Luís também resistisse ao matrimônio por já ter secretamente se casado com a mãe de seu bastardo, D. Antônio, futuro postulante ao trono de Portugal na crise sucessória de 1580, é considerada por alguns historiadores. De qualquer forma, em 1554, Maria I se casaria com o futuro Felipe II de Espanha.

D. Luís, duque de Beja
D. Luís, duque de Beja

– Em 1661, foi assinado um contrato de casamento entre Carlos II de Inglaterra e Catarina de Portugal. Eles se uniriam no ano seguinte, mas a infanta portuguesa jamais seria coroada ou mesmo inteiramente aceita pela nobreza por seu catolicismo num reino fortemente protestante desde a dinastia Tudor. Com apenas três natimortos frutos do casamento, o reino acabaria sendo herdado pelo irmão de Carlos, James II, cujo catolicismo e eventual nascimento de um herdeiro causaria a Revolução Gloriosa em 1688.

– Em 1906, a neta e homônima da rainha Vitória do Reino Unido, sobrinha do rei Eduardo VII, se casou com o monarca espanhol Afonso XIII. Apesar de ter tido vários filhos, incluindo um herdeiro ao trono, este herdou o fatal gene da hemofilia do lado inglês da família, o que prejudicou gravemente as relações entre os monarcas espanhóis, além de contribuir para o temporário fim da monarquia na Espanha em 1931, quando a família real partiu para o exílio. O atual rei espanhol Felipe VI é seu bisneto.