Catarina de Áustria – parte III

Mesmo que no final ela tivesse que retornar à companhia da mãe, o fato é que a vida da infanta Catarina melhorou muitíssimo após a tentativa de fuga frustrada engendrada pelo irmão. Apesar de ter continuado nos aposentos contíguos aos de sua mãe, ocorreram obras para melhorá-lo, que incluíram não só mais janelas como também uma escada que dava acesso ao exterior do palácio. Além disso, a infanta recebeu permissão para passear no campo eventualmente e conviver com mais jovens de sua idade. Carlos também enviava presentes e dinheiro à ela. Ambos, contudo, eram com grande frequência desviados, a ponto de Catarina pedir ao rei que apenas atendesse aos pedidos que ela mesma fazia. A infanta também recepcionaria um novo professor de dança, um português chamado Francisco Dias.

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Um jovem Carlos V

Entretanto, a importância política de Catarina apenas despertaria quando ela se tornou uma jovem casadoira em sequência da Revolta das Comunidades de Castela. Ocorrida entre 1520 e 1522, esta contenda entre a burguesia das cidades e Carlos V, que elevara os impostos e nomeara conselheiros estrangeiros quando se tornara monarca, mostrou ao recém-proclamado imperador que suas bases de poder em Castela não estavam tão fortificadas quanto poderia se imaginar. Afinal, uma das primeiras paradas dos rebeldes fora exatamente Tordesilhas, onde eles haviam declarado apoio à sua legítima soberana, a rainha Joana. Neste contexto, Carlos voltou seu olhar para a irmã solteira de quase 16 anos. Aquelas não seriam, porém, as primeiras negociações matrimoniais em que Catarina se veria envolvida. Ainda no contexto da negociação para sua eleição como Sacro Imperador Romano em junho de 1519, Carlos acertara o casamento da irmã com o sobrinho do eleito do Saxe em troca do apoio deste. Com a vitória assegurada, contudo, o compromisso foi esquecido e devidamente revogado por meio de uma declaração pública da própria infanta retida em Tordesilhas.

Durante a estadia dos revoltosos junto à sua mãe é que seria proposto pela primeira vez um casamento da infanta Catarina em Portugal. A intenção era conseguir o apoio de D. Manuel I ao movimento, o que acabaria não ocorrendo. Provavelmente o rei português jamais tivera intenção de aceitar a infanta em tais termos; afinal, ele era aliado com Carlos V por casamento, com D. Manuel I já tendo se unido com a irmã dele, Leonor, e tendo boas esperanças de casar o imperador com sua filha mais velha, D. Isabel. A morte do rei em dezembro de 1521, de qualquer forma, deixou estas questões matrimoniais em suspenso. O sucessor de D. Manuel I era seu filho, o príncipe D. João, ainda solteiro após a confusa conspiração, anos antes, que resultara no matrimônio de seu próprio pai com sua prometida Leonor.

Agora, acontecia da irmã mais velha do imperador ser uma viúva com direito a um grande dote. Por algum tempo, parte substancial da corte portuguesa, liderados por D. Jaime, duque de Bragança, defendeu a união do novo rei com a viúva de seu pai. A Câmara de Lisboa também era a favor do casamento, inclusive requerendo-o ao rei com uma linguagem inflamada. Apesar de todo este apoio às núpcias, elas não pareciam de fato destinadas a ocorrer, já que em maio de 1523 a rainha viúva retornou para junto do irmão em Castela, deixando para trás a filha D. Maria. Catarina fora a escolhida para casar-se com D. João III num arranjo nupcial duplo que também incluía a irmã do rei português, D. Isabel, que por fim se uniria a Carlos V.

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Catarina representada como sua santa homônima na época de seu casamento

Depois de longas negociações sobre o dote que seria devido à sexta filha de Joana de Castela, o casamento por procuração finalmente ocorreu em 10 de agosto de 1524 em Tordesilhas. Estavam presentes a infanta Catarina, Carlos V e os embaixadores portugueses, e talvez até mesmo a rainha Joana, embora isso seja algo improvável. A partida ocorreria em janeiro de 1525. A infanta não quis despedir-se da mãe, temendo o último encontro e inclusive desmaiando brevemente de emoção antes de finalmente deixar o palácio onde passara sua juventude. Esta fase da sua vida acabara, mas continuaria para a rainha Joana por longos anos, até que finalmente a morte chegasse em 1555.

Catarina de Áustria – parte II

Nos primeiros anos, a jovem infanta viveu esquecida em Tordesilhas. Última das filhas de Joana e Felipe, ela não tinha significado político especial para nenhum dos lados, diferentemente, por exemplo, de seu irmão Fernando; nascido em Espanha, ele não apenas servia como reserva no caso de falecimento precoce de seu austríaco irmão Carlos, mas também como uma possível alternativa a ele, motivo pelo qual seu avô responsabilizou-se por sua criação. Neste contexto, parece evidente o motivo pelo qual detalhes dos anos iniciais de vida de Catarina são pouco conhecidos, ou até mesmo completamente desconhecidos. Não sabemos, por exemplo, o nome de sua ama, que certamente a amamentou no lugar de sua mãe Joana, conforme era o costume da aristocracia. Conhecemos, porém, a identidade de seu mestre: tratava-se de Juan de Ávila, um franciscano de confiança da rainha Joana. Como este é o único nome constante relacionado à educação da infanta, podemos deduzir que Catarina, ao contrário de muitas damas renascentistas, não teve vários instrutores. Neste sentido, ela caminhava para não ser nem de perto tão culta quanto sua mãe Joana e suas tias ainda vivas, Maria e Catarina.

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Leonor (Marina Salas), Catarina (Guiomar Puerta), Joana (Laia Marull), Chiévres, homem de confiança do rei (Helio Pedregal) e Carlos (Álvaro Cervantes) na série Carlos, Rey Emperador

Quando da morte de seu avô Fernando em janeiro de 1516, as condições de vida em Tordesilhas tornaram-se um pouco menos sufocantes, apesar do fato nunca ser abertamente dito à rainha reclusa. Pela primeira vez, por exemplo, a infanta passou a ter alguma companhia de sua idade, e uma janela foi aberta no quarto daquela menina que mal deixava a companhia de sua mãe desde o nascimento. Pouco depois, ela e Joana receberam a visita do novo rei Carlos, juntamente com a irmã Leonor. Catarina jamais vira os irmãos, deixando-os impressionados com sua figura humilde. Joana, por sua vez, que não via os filhos desde que eram crianças, ficou emocionada, mas desconcertada, tendo até supostamente perguntado se eles eram mesmo os filhos dela antes de abraçá-los. Mesmo com toda a sentimentalidade, contudo, o objetivo de Carlos ali era mesmo a permissão solene da mãe para que ele pudesse governar, teoricamente em nome dela. Joana a concedeu, mas seu cativeiro não seria suspenso.

Quanto à irmã Catarina, contudo, Carlos já tinha outros planos. Ele pretendia que a infanta fosse retirada de Tordesilhas e levada para a corte espanhola, onde viveria e seria educada de acordo com a sua posição. Contudo, os fortíssimos sentimentos da rainha pela última filha que verdadeiramente lhe restava tornavam inevitável que a fuga de Catarina fosse tão secreta quanto possível. Ao anoitecer de outro dia tranquilo no palácio, foi aberto um buraco na parede do quarto da infanta, coberto depois por uma tapeçaria. No meio da madrugada entre 12 e 13 de março de 1517, a jovem foi despertada por uma de suas damas e deparou-se com o mordomo-mor da rainha, Bertrand de Plomont, e avisada de tudo, após o qual foi vestida e levada pelo buraco até o exterior. Na ponte sobre o Douro, encontrou-se com o senhor de Trazegnies, gentil-homem da câmara da infanta Leonor, que com algumas damas e duas centenas de homens a cavalo tinha ordens para levar Catarina até o irmão.

Uma vez na corte espanhola, a infanta despiu-se de suas humildes vestes e colocou um traje violeta de cetim bordado a ouro, vestindo-se assim pela primeira vez de acordo com sua posição como arquiduquesa e irmã do rei de Espanha. Depois, ocorreriam justas e danças em comemoração à chegada de Catarina, que durariam até a chegada das reações da rainha ao sumiço da filha, que ela imaginava ter sido sequestrada. Desnorteada após não encontrar Catarina no palácio, Joana declarou que não mais se alimentaria ou dormiria até que ela retornasse. Sem escolha, Carlos não só consentiu com o desejo da mãe, mas também assumiu toda a responsabilidade pelo ocorrido quando foi a Tordesilhas devolver a irmã.

Catarina de Áustria – parte I

Filha póstuma de Joana de Castela e Felipe, duque de Borgonha, a infanta Catarina nasceu em 14 de janeiro de 1507. Esta última gestação da rainha foi, de fato, dramática: depois de uma estadia algo forçada em Inglaterra, onde o bebê foi concebido, uma fragilizada Joana foi para Castela, apenas para testemunhar a virtual guerra entre seu marido Felipe e seu pai Fernando para controlá-la e, assim, exercer a dignidade real numa Castela dominada pela peste e pela fome. Inesperadamente, em 25 de setembro de 1506, Felipe faleceu, provavelmente de febre tifoide, embora a possibilidade de envenenamento não possa ser eliminada.  Em estado de choque, sua viúva ia com frequência à sepultura beijar os pés do cadáver, o que apenas realçava ao público seu desequilíbrio psicológico, causado provavelmente ou por depressão crônica ou por esquizofrenia. Finalmente, em dezembro, Joana ordenou que se retirasse o caixão do mosteiro onde se encontrava e levou-o consigo em sua comitiva até Granada, onde pretendia enterrar seu marido junto à sua mãe, Isabel I de Castela. Estando com a gravidez muita avançada, contudo, a rainha teve que se deter na humilde casa de um clérigo em Torquemada. Lá, ela deu à luz uma menina saudável, batizada em homenagem à sua irmã mais nova, a princesa viúva de Gales.

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Joana e Felipe em seu conflituoso matrimônio, conforme representado na série Isabel (2011-14)

Por meses, a rainha permaneceu em Torquemada com sua filha recém-nascida e outro filho, o infante D. Fernando, enquanto a peste e a fome se espalhavam cada vez mais. Os boatos diziam que ela fora convencida que seu marido ressuscitaria em breve, mas em abril ela finalmente continuou seu caminho até Granada. Em agosto, o próprio rei Fernando foi encontrar-se com sua filha, revendo-a na província de Burgos em 29 de agosto de 1507, para emoção de ambos. Passariam semanas juntos, participando inclusive das cerimônias religiosas pelo primeiro ano de morte de Felipe. Em breve, contudo, a percepção da instabilidade de sua filha, juntamente com a ameaça da vinda do imperador Maximiliano para Castela, a fim de servir como regente do primogênito de Joana, Carlos, precipitou a decisão de Fernando em transferir a corte da filha para Tordesilhas. Joana, entretanto, resistia a qualquer mudança e ainda encontrava-se em Arcos quando 1507 se tornou 1508, com o corpo de Felipe ainda insepulto. Em julho, Fernando II de Aragão, em tese regente de Castela pelos termos do testamento de sua esposa, ordenou que seu neto homônimo fosse retirado da mãe e levado até ele. A rainha resistiu inicialmente, mas acabou cedendo, para seu grande abatimento. Seria apenas em fevereiro de 1509, porém, que a rainha Joana e a pequena Catarina, acompanhadas pelo rei Fernando, se dirigiram até Tordesilhas.

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Fernando II de Aragão

A multidão que os recepcionou e observou uma mulher bela, mas enfraquecida, entrar na bem murada vila régia de Tordesilhas, residência de monarcas de Castela banhada pelo rio Douro, dificilmente poderia prever que seria ali que a rainha passaria a esmagadora parte dos próximos 46 anos como prisioneira (1), enquanto seu pai e seu filho usurpavam seu poder ao aproveitar-se de sua fragilidade psicológica. Durante os primeiros 16 anos, sua caçula seria uma companheira constante. Apegada à filha até o ponto da obsessão após a partida de seu filho Fernando, a rainha ordenou que a menina dormisse num quarto adjacente aos seus próprios aposentos, localizados num canto isolado do palácio. Além disso, Joana exigia que todas as janelas ficassem permanentemente fechadas. Foi, então, no silêncio e no escuro que a pequena Catarina se desenvolveu.

(1) Com exceção do período entre 1533-34, quando a rainha teve que ser retirada de Tordesilhas pela ameaça crescente da peste.

Leonor de Áustria – parte I

Nascida em 15 de novembro de 1498, a arquiduquesa Leonor era a primogênita da infanta Joana de Castela e de Felipe, duque de Borgonha e herdeiro de Áustria por via de seu pai, o Sacro Imperador Romano Maximiliano I. O matrimônio deles, ocorrido em outubro de 1496, fazia parte de uma aliança maior entre os Trastâmara e os Habsburgo contra o poder francês no continente; para cimentar ainda melhor o acordo entre as Casas, o irmão de Joana, o príncipe João, também se casaria com a irmã de Felipe, Margarida. Apesar de ambas as uniões serem inicialmente bem-sucedidas do ponto de vista amoroso, as núpcias planejadas por Fernando II de Aragão para fortalecer sua dinastia acabaram, ironicamente, por entregar a Espanha aos Habsburgo. Pouco menos de um ano após o casamento de sua irmã Joana com o duque de Borgonha, o príncipe João faleceu, provavelmente de tuberculose, e sua filha com Margarida de Áustria seria natimorta pouco tempo depois. A herança espanhola passaria, então, para a filha mais velha dos Reis Católicos, Isabel, recém-casada com o rei português D. Manuel I. Em agosto seguinte, entretanto, ela também faleceria após o parto de D. Miguel, que foi o herdeiro de Aragão, Castela e Portugal até sua morte precoce em julho de 1500.

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Rainha Joana de Castela (circa 1500)

Pouco tempo depois da pequena Leonor ganhar um irmão, portanto, Joana de Castela tornou-se a herdeira improvável dos reinos de seus pais. Seu ambicioso marido rapidamente procurou aumentar seu próprio poder com a nova posição dela, principalmente depois que a morte de Isabel I em 1504 tornou Joana a nova rainha reinante de Castela. Felipe usaria a depressão da consorte, causada em grande parte pela constante infidelidade dele, para espalhar boatos sobre a suposta loucura dela e, assim, procurar fortalecer sua autoridade. Estas manobras políticas não o impediam em absoluto de procurar carnalmente a esposa, contudo, e quando ele morreu subitamente em setembro de 1506, Joana estava grávida pela sexta vez.

Enquanto sua mãe era controlada politicamente e, finalmente, aprisionada em Tordesilhas por seu próprio pai, que procurava manter o poder construído em décadas de reinado conjunto com Isabel I, Leonor crescia junto à maioria de seus irmãos e irmãs em Borgonha, aos cuidados de sua tia Margarida. Durante esta extrema juventude, seu casamento já era uma moeda de troca, com negociações neste sentido ocorrendo com Henrique VII de Inglaterra em nome de seu filho e herdeiro homônimo. Ambos chegariam a ficar noivos, mesmo que o príncipe tivesse sido prometido anteriormente à tia de Leonor, a infanta Catarina. Quando o rei inglês faleceu em 1509, contudo, a arquiduquesa tinha apenas dez anos de idade, e Henrique VIII preferiu casar-se com Catarina, que já era bem mais madura fisicamente e, logo, capaz de gerar filhos. Alguns anos mais tarde, quando o rei francês Luís XII enviuvou, também ocorreriam negociações nupciais envolvendo Leonor, mesmo que este monarca fosse quase quarenta anos mais velho do que a putativa noiva. Novamente, contudo, a juventude da arquiduquesa pareceu ter entrado no caminho para a concretização deste arranjo. Luís XII preferiu se casar com Maria Tudor, a irmã de 18 anos do rei Henrique VIII, em outubro de 1514. Outras negociações frustradas também ocorreriam com o rei de Polônia, Sigismundo, antes que Leonor supostamente tivesse um caso amoroso com Frederico II, Eleitor Palatino.

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Leonor na série ‘Carlos, Rey Emperador’, conforme interpretada por Marina Salas

O matrimônio dos dois, contudo, não interessava ao seu irmão Carlos, duque de Borgonha e rei de Espanha desde a morte de seu avô Fernando em 1516, que teria inclusive feito o casal jurar que não se unira secretamente antes de expulsar Frederico de sua corte. De qualquer forma, os irmãos seguiriam pouco depois para a Espanha, onde encontrariam sua mãe Joana pela primeira vez em vários anos. Lá, a doente rainha, já perturbada mentalmente após uma década de confinamento forçado, deu sua permissão solene para que o filho reinasse em seu lugar em Castela e Aragão. Mesmo assim, Joana não poderia deixar a sua prisão, ficando confinada em Tordesilhas até sua morte, apesar de Leonor ter procurado deixar seus aposentos confortáveis antes de partir novamente com Carlos. Eles seriam acompanhados mais tarde por sua irmã caçula Catarina, que deixara seus aposentos secretamente. Aquela seria a primeira tentativa de incorporar a jovem à vida social da corte, frustrada quando Joana, ao notar a ausência da filha de sua prisão pela primeira vez desde o nascimento da menina, declarou que não mais se alimentaria até que ela lhe fosse devolvida.

Maria de Aragão – parte II

Contando 17 anos na época das negociações, Maria era francamente a única princesa casadoira no raio de influência portuguesa, de modo que seu casamento com D. Manuel – com apenas um filho de frágil saúde – era algo inevitável, principalmente depois que as pretensões da Casa de Habsburgo ao trono português (1) encerraram qualquer ideia de D. Manuel quanto a um possível casamento com a princesa viúva Margarida.  Apesar de tudo, ainda eram os Reis Católicos os maiores interessados na união de Manuel e Maria; afinal, a pretendente derrotada ao trono castelhano, a princesa Joana, ainda estava em idade reprodutiva. Para evitar esta terrível possibilidade, Isabel e Fernando aceleraram as negociações nupciais, com o casamento se concretizando poucos meses depois da morte do neto e herdeiro deles.

Apesar da leve hesitação do rei português quanto à união, hoje é reconhecido que este segundo matrimônio de D. Manuel foi o responsável pelo estabelecimento do mais forte e duradouro laço de afeição e, muito possivelmente, verdadeiro amor, de sua vida, como pode ser entrevisto no grande sofrimento do monarca quando D. Maria faleceu. Logo no início do casamento, o casal real se estabeleceria em Lisboa, onde a rainha rapidamente cultivaria uma reputação discreta e religiosa. Segundo o cronista Damião de Goés, Maria era “muim honesta em todas as suas praticas”, afirmação reforçada por D. Jerônimo Osório quando este afirma que ela era “muito afável e humana em seu trato, e mui comedida em todas as suas falas”.

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Maria após seu casamento e maternidade

Tudo isto, combinado com a forte influência de sua cunhada e antiga rainha D. Leonor, irmã de D. Manuel e esposa de seu antecessor, D. João II, contribuiu para a eventual fortificação de D. Maria como consorte ideal, desinteressada de quaisquer excessos. Neste ponto de vista, entende-se melhor a notável omissão dos cronistas régios quanto a eventuais intromissões da rainha nas esferas culturais e políticas; enquanto o primeiro é quase certo, lembrando-se a rica educação livresca fornecida à D. Maria, o segundo é mais do que esperado, considerando-se que a rainha portuguesa ainda era a maior representante da aliança com Castela e Aragão. Apesar disto, contudo, a imagem que ficaria fixada seria mesmo de sua exemplaridade feminina, de acordo com o modelo doutrinário que era tão difundido na região ibérica. Neste sentido, o rápido nascimento de ampla descendência apenas aceleraria tal processo de cristalização da imagem de D. Maria como consorte ideal e mãe dedicada à criação de seus filhos.

Quanto à maternidade, D. Maria realmente cumpriu sua função real de maneira mais do que exemplar para a época, sendo inclusive uma das consortes portuguesas mais férteis da história. Numa progressão impressionante, ela daria à luz dez crianças em pouco menos de 15 anos; mesmo que duas falecessem pouco depois do parto, oito conseguiriam sobreviver até a idade adulta, sendo seis meninos. Tratava-se de uma taxa de sobrevivência incomum, que aparentemente afastava o perigo de extinção da dinastia dos Avis. De fato, D. Manuel se veria com tantos filhos homens nas mãos que planejaria mandar a metade deles para a vida religiosa. Dos mais notáveis filhos e filhas de D. Manuel e D. Maria, se destacariam especialmente o primogênito e sucessor do pai, D. João III, a imperatriz de Carlos V, D. Isabel, o ambicioso secundogênito, D. Luís, e o cardeal e futuro rei, D. Henrique, além do caçula e futuro antepassado da dinastia de Bragança, D. Duarte.

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O casal real na série Isabel (2011-14)

O motivo da morte precoce de D. Maria é algo incerto. Embora a maioria das fontes e autores se calem sobre o assunto, apontando na direção de uma morte natural aos 34 anos de idade, uma das principais biografias de D. Manuel defende que o falecimento da rainha ocorreu após complicações no parto do último filho, D. Antônio, que viveria pouco. O fato que se passaram seis meses entre este nascimento e a morte de D. Maria, contudo, pode apontar não para uma complicação súbita, mas sim para um agravamento progressivo de sua condição com as repetidas gestações, o que é colaborado pela falta de surpresa da corte pelo falecimento da consorte. Apesar disso, o  próprio rei ficou bastante arrasado, encerrando-se no convento da Penha Longa em sua dor e cogitando abdicar do trono português em nome do herdeiro, pensamentos engendrados num momento político-militar difícil do império português. Eventualmente, porém, a desilusão abrandaria, principalmente depois que o idoso rei ouvisse falar mais da prometida do príncipe D. João: tratava-se da bela Leonor de Áustria.

(1) O duque Maximiliano era o único filho homem da imperatriz Leonor, filha sobrevivente mais velha do rei português D. Dinis e esposa do imperador alemão Frederico III.  Com a falha da linha sucessória masculina dos Avis, representada apenas por D. Manuel e seu frágil herdeiro, sua pretensão ao trono poderia muito bem ser considerada.

Para saber mais:

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

FERNANDES, Maria de Lurdes Correia. “D. Maria, mulher de D. Manuel I: uma face esquecida da corte do Venturoso”. IN: Língua e Literaturas. Porto, XX, I, 2003.

Maria de Aragão – parte I

Terceira filha (quarta criança) nascida do matrimônio entre Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, a infanta Maria veio ao mundo em 29 de junho de 1482. Este parto da rainha, contudo, provou-se bastante problemático num tempo onde ainda não eram habituais medidas hoje comuns de higienação na vida cotidiana, quanto mais numa situação delicada como um nascimento gemelar. Como consequência, o irmão ou irmã de Maria faleceu pouco após o parto, e a mãe das crianças ficou com a saúde abalada, inclusive chegando, segundo a série Isabel, a receber a extrema unção. Ultimamente, ela sobreviveria, mas quatro anos separariam Maria daquela que seria sua última irmã, a infanta Catarina.

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Isabel I de Castela

Interessantemente, os primeiros planos de matrimônio de Maria envolveriam também sua irmã mais nova. Enquanto ambas recebiam, assim como suas duas irmãs mais velhas, as infantas Isabel e Joana, a excelente educação doméstica e intelectual fornecida por seus tutores, escolhidos a dedo pela rainha, Isabel e Fernando já faziam planos para utilizar Maria e Catarina para influenciar as políticas de dois reinos do Norte; enquanto a caçula seguiria com seu planejado casamento com o herdeiro da Inglaterra, o príncipe Artur, a intenção dos Reis Católicos era unir Maria ao rei dos escoceses, James, ainda solteiro mesmo após anos de compromisso com a princesa inglesa Cecily. Mesmo que James fosse pouco menos de dez anos mais velho do que Maria, o planejamento dos monarcas provavelmente ainda tinha um ar bastante agradável para as irmãs, que poderiam estar perto uma da outra enquanto mantinham a paz entre os turbulentos vizinhos, e quem sabe até mesmo visitar uma a outra com frequência.

Infelizmente, este plano matrimonial um tanto humano para o século XVI acabou não se cumprindo. Enquanto as outras irmãs se casavam sucessivamente com o herdeiro de Portugal e o duque de Borgonha, Maria era mantida sem compromissos nupciais sérios enquanto a viagem de Catarina para a Inglaterra era planejada. As desventuras da primogênita Isabel, contudo, mudariam com rapidez o destino de Maria. Após alguns meses de feliz casamento com D. Afonso, a jovem ficaria viúva após um trágico acidente de cavalo envolvendo o marido, e retornaria para Castela, jurando que não mais se casaria. Poucos anos depois, o novo rei de Portugal, D. Manuel, enviou embaixadores ao vizinho para negociar um casamento que fortalecesse a linha sucessória portuguesa. Apesar de sua aparente frágil posição nas negociações, a possibilidade de uma nova ligação com as riquezas coloniais portuguesas mantiveram os Reis Católicos em suspense quando D. Manuel insistiu em casar-se não com a noiva oferecida por estes, a infanta Maria, mas sim com a princesa viúva de Portugal.

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Uma jovem infanta Maria

De início, os monarcas hesitaram, ainda procurando respeitar os desejos da filha de levar uma vida casta e religiosa, mas o rei português manteve-se firme em sua decisão. Se tal insistência decorreu da posição sucessória de Isabel em Castela e Aragão, de sua maturidade física comparada à irmã mais nova ou mesmo de certa admiração pessoal do novo monarca iniciada quando ambos se conheceram em Portugal, ainda em 1490, é algo impossível de saber-se com certeza, mas o fato é que os Reis Católicos acabaram cedendo. A princesa viúva também aceitou a proposta após um compromisso de D. Manuel no sentido de prosseguir a política espanhola de expulsão de todos os judeus, e em 1497 ambos se uniriam, poucos dias antes da morte do único irmão de Isabel, o príncipe João.  A morte da filha póstuma deste no parto poucos meses depois significou que a grávida Isabel era agora a herdeira novamente, e D. Manuel o futuro rei de Aragão, Castela e Portugal.

Novamente, entretanto, o aparente não se cumpriria: a própria Isabel faleceria no parto em agosto de 1498, na cidade aragonesa de Zaragoza, onde ela e o marido haviam sido convocados para serem jurados como os herdeiros de Aragão. Agora, o máximo que D. Manuel poderia ambicionar em relação ao vizinho era uma possível regência em nome do filho D. Miguel, também frustrada quando da morte prematura deste em 1500. Antes mesmo disto, porém, os Reis Católicos já negociavam uma nova forma de manter firmes os laços com o rico Portugal. A nova herdeira de Espanha era a instável infanta Joana, casada com o ambicioso duque de Borgonha, de modo que a única filha disponível era a já madura Maria.

Isabel de Aragão, a filha dos Reis Católicos – parte III

Em julho de 1491, a situação dinástica da Casa de Avis não poderia parecer melhor: bem fixado no trono português, D. João II não apenas possuía a alta nobreza sobre controle como também seu único filho com a rainha D. Leonor acabara de se casar com a primogênita dos Reis Católicos numa bem-engendrada ação diplomática. Além do mais, o jovem casal estava satisfeito com a companhia um do outro, com o apaixonado D. Afonso visitando constantemente Isabel em seus aposentos. As chances de concepção para um herdeiro ao trono de Portugal eram, portanto, elevadas. No dia fatídico, o monarca encontraria o filho exatamente nos aposentos de sua nora, onde ele estivera descansando após a caçada da véspera. O príncipe acabaria acompanhando o pai em uma cavalgada até o rio Tejo, onde desafiaria o fidalgo D. João de Meneses para uma competição. No meio do percurso, porém, o cavalo de D. Afonso tropeçou e o herdeiro caiu sob ele, permanecendo inconsciente mesmo após ter sido resgatado.

Temendo uma represália, D. João de Meneses fugiu de imediato da cena, enquanto o príncipe era levado para ser socorrido na casa de um pescador local, onde seria em breve reunido com a mãe e a esposa. Apesar de elas dizerem sobre ele “tantas lastimas, e palauras de tanta dor, e tristeza”, D. João II ordenar a vinda de médicos, procissões e missas serem prometidas e um nobre até se comprometer à ir caminhando até Jerusalém,  D. Afonso logo receberia a extrema-unção. Pouco depois, o duque de Beja chegaria para manifestar sua dor perante o rei. Agora, D. Manuel, irmão mais novo do executado duque de Viseu, era o próximo Avis legítimo na linha sucessória ao trono.

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O segundo casamento de Isabel com D. Manuel I, conforme representado na série Isabel (2011-14)

Presumivelmente em estado de choque, Isabel cortaria seus longos e belos cabelos em honra ao falecido marido antes de manifestar seu desejo de retornar para junto dos pais em Castela, como era seu direito de acordo com o contrato nupcial. Logo de início, ela anunciou que não mais se casaria, passando a ter uma rotina marcantemente religiosa e corporalmente punitiva. O fato que seus pais procuraram respeitar esta vontade está registrado nas negociações nupciais posteriores com D. Manuel após a sucessão deste ao trono, em outubro de 1495; em princípio, os Reis Católicos apenas ofereciam a infanta D. Maria, terceira filha do casal, para as núpcias reais. Os embaixadores portugueses, contudo, deixaram claro que a única proposta que D. Manoel aceitaria estava na princesa viúva Isabel. Se isso decorreu da posição sucessória dela, de sua maturidade física comparada à irmã ou mesmo de uma certa admiração pessoal do novo rei iniciada quando ambos se conheceram, ainda em 1490, é algo impossível de saber-se ao certo.

Eventualmente, D. Manuel atingiria seu objetivo e conseguiria um compromisso dos monarcas no sentido de desposar Isabel, apesar dela permanecer firme em sua resolução de apenas pisar novamente em solo português depois de todos os judeus terem sido de lá expulsos, de acordo com a política religiosa de seus pais. Mesmo com toda a arrecadação que estas comunidades forneciam ao reino, D. Manuel concordaria, o que poderia servir como testemunho da ansiedade dele em casar-se com Isabel.

A roda da fortuna, entrementes, ainda girava; poucos dias após o casamento de Isabel, João, o único irmão da rainha portuguesa, recém-casado com Margarida de Áustria, faleceu. A esposa permaneceu grávida, eventualmente dando à luz uma menina que também morreu pouco depois do parto. Com essa sequência de trágicos eventos, D. Isabel acabou tornando-se novamente a herdeira do trono de Castela, como já o fora antes do nascimento do irmão. A possibilidade de união peninsular ficaria ainda mais definitiva se Isabel, que acabara de se descobrir grávida de D. Manuel após poucos meses de matrimônio, pudesse dar à luz um menino: no caso, o infante também poderia legitimamente herdar Aragão, reino ainda regido pela antiga lei sálica, que, em princípio, era hesitante em admitir possíveis herdeiras na sucessão.

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D. Miguel, príncipe de Portugal, Castela e Aragão, herdeiro das Coroas ibéricas durante sua curta vida. Na série Isabel, assim como na vida real, ele permaneceu sob a guarda de seus avôs maternos, os Reis Católicos, desde a morte de sua mãe

No mesmo ano, como forma de conter as crescentes ambições do duque de Borgonha, marido da infanta Joana, ao trono castelhano, D. Isabel e D. Manuel foram convocados pelas Cortes castelhanas e aragonesas a prestar juramento como herdeiros. A gravidez avançada da rainha era vista com animação pelos nobres e por Fernando, rei de Aragão, que esperava poder legar seu reino a um herdeiro direto homem. De fato, em 23 de agosto de 1498, na cidade aragonesa de Zaragoza, nasceu um saudável menino, D. Miguel. Contudo, enfraquecida com o parto e os constantes jejuns religiosos, feitos desde o falecimento de D. Afonso, Isabel morreu pouco depois nos braços de D. Manuel I. Tinha apenas 27 anos de idade. Viúvo e só contando com um herdeiro homem, o rei de Portugal se casaria novamente anos depois com a noiva antes rejeitada, a infanta Maria, que teria o eventual sucessor ao trono, D. João III.

Para saber mais:

http://obaudahistoria.blogspot.com.br/2013/02/o-tratado-das-tercarias-de-moura.html

BRAGA, Paulo Drumond. O Príncipe D. Afonso, filho de D. João II – uma vida entre a guerra e a paz. Lisboa: Edições Colibri, 2008.

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 – Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

Isabel de Aragão, a filha dos Reis Católicos – parte II

Isabel ficaria em Moura por três anos. A partir da morte de D. Afonso V, o novo rei D. João II começou as negociações para desfazer as penosas terçarias, que impediam inclusive que os reis visitassem os herdeiros postos em virtual reclusão. Os Reis Católicos, contudo, não estavam politicamente interessados neste fim, uma vez que uma possível libertação da Beltraneja poderia colocar em xeque o recém-instaurado equilíbrio peninsular; neste sentido, as propostas de casamento que Joana continuava a receber, mesmo num convento, apenas contribuíam para deixar a situação mais tensa. A possibilidade da troca de noiva do príncipe D. Afonso – de Isabel para a segunda filha dos monarcas, também chamada Joana – agiria assim como um peso político compensatório, embora provavelmente a situação hostil que ia se abrindo em Portugal com as disputas entre a Casa real e os Bragança também tenha contribuído para tal tentativa.

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D. João II de Portugal

Em maio de 1483, a primogênita dos Reis Católicos foi finalmente devolvida aos embaixadores castelhanos, saindo de Portugal pouco depois. Fora decidido por fim que, se a infanta Isabel ainda se encontrasse solteira quando o herdeiro português completasse 14 anos, as núpcias originalmente combinadas entre ambos ocorreriam, ficando anuladas as negociações em relação à infanta Joana; como Isabel era quase cinco anos mais velha que D. Afonso, tal situação não parecia provável. Apesar disso, embora seus pais tivessem examinado muitas propostas nupciais para ela durante suas campanhas contra os muçulmanos do sul – Carlos VIII de França, Maximiliano de Áustria, Henrique VII de Inglaterra, entre outros – nenhuma das uniões acabou confirmada e, em 1488, D. João II pediu a mão de Isabel em nome do príncipe. Sobrecarregados pela guerra com Granada, os Reis Católicos não tiveram escolha a não ser conceder o pedido.

Em novembro de 1489, a nobreza portuguesa instalou-se na cidade de Évora como parte dos preparativos para o matrimônio, planejado para ocorrer já no ano seguinte. Depois de uma promessa secreta de D. João II no sentido que não permitiria que a Beltraneja deixasse o  convento onde se localizava, os Reis Católicos nomearam os procuradores para o casamento por procuração, ocorrido em 18 de abril. Seria apenas no novembro seguinte, entretanto, que Isabel reentrou em Portugal para a cerimônia presencial. Na fronteira, ela foi recebida pelos bispos de Évora e de Coimbra, os condes de Monsanto e Cantanhede e o primo de seu jovem marido, o duque de Beja.

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A infanta interpretada pela atriz  María Cantuel na série Isabel (2011-14)

No fim do mês, deu-se a entrada solene da nova princesa de Portugal em Évora, onde foi recebida com grandiosas festas que se prolongariam por semanas – de fato, os empréstimos do evento ainda estavam sendo pagos durante o início do reinado seguinte. Apesar de ser cinco anos mais jovem que a esposa, D. Afonso apressou-se a consumar as núpcias, procedimento que escandalizou alguns na religiosa corte dos Avis. A paixão do herdeiro continuava inalterada meses depois, em julho, quando o casal deslocou-se, juntamente com D. João II e D. Leonor, até Almeirim, onde acabaria por se desenrolar a maior tragédia de Isabel.

Isabel de Aragão, a filha dos Reis Católicos – parte I

Nascida em 02 de outubro de 1470, Isabel de Aragão era a filha primogênita da infanta Isabel, meia-irmã do rei Henrique IV de Castela, e do príncipe Fernando, herdeiro do reino vizinho como filho de João II de Aragão. O próprio casamento de seus pais já ocorrera cercado de polêmica: sua mãe, líder de uma facção contrária aos direitos sucessórios da pretensa princesa Joana, tivera que fugir secretamente da corte para se encontrar com o prometido, que viajara disfarçado como servo até Valladolid, e assim evitar que Henrique IV a forçasse a algum compromisso matrimonial. Sendo primos de segundo grau, ambos necessitariam de uma dispensa papal para se unirem legalmente, mas a suposta bula que foi apresentada era assinada pelo papa Pio II, falecido cinco anos antes do casamento deles, muito embora o papa da época fosse Sisto VI.

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Isabel I de Castela

Embora a consumação física imediata do contrato nupcial entre seus pais anulasse maiores perigos da pequena infanta ser considerada ilegítima, o fato é que o nascimento de Isabel aprofundou as tensões entre sua mãe e seu tio, que ainda procurava restabelecer sua dita filha como herdeira do trono castelhano. Quando, em 1474, Henrique IV faleceu, a guerra civil estourou. Apoiando a sobrinha e noiva, D. Afonso V de Portugal invadiu Castela em maio de 1475 e, com Joana, proclamou-se soberano legítimo de Castela, pretensão igualmente defendida por Fernando de Aragão. A Guerra de Sucessão Castelhana, porém, permaneceria indefinida até a batalha de Toro, em 1º de maio de 1476, onde as tropas portuguesas debandaram. Provando ter uma grande visão política, Isabel aproveitou o momento para convocar as Cortes, onde sua filha e homônima foi jurada como herdeira presuntiva. A verdadeira consolidação da posição da rainha Isabel, contudo, ocorreria apenas em fins de junho de 1478, quando ela daria à luz ao príncipe João, que assumiria a partir daí a posição da irmã mais velha.

Mesmo que tenha perdido a proeminência sucessória, Isabel ainda foi uma peça importante nas negociações de paz entre Castela e Portugal. Durante a duração das chamadas Terçarias de Moura, a infanta foi criada sob os auspícios de D. Beatriz, duquesa de Viseu, servindo simbolicamente como uma garantia do bom comportamento político dos Reis Católicos, que por sua vez procuravam garantir a neutralização da Beltraneja – que, aliás, compartilharia da vigilância feita à infanta. O lado espanhol também não deixaria de estabelecer condições próprias, requisitando um dos filhos da duquesa de Viseu para ser criado em seu território. Como D. Diego, o mais velho, encontrava-se doente, seu irmão D. Manoel o substituiu como refém. O único filho do rei de Portugal, D. Afonso, também teria seu papel a desempenhar nas negociações.

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Fernando II de Aragão

Como elemento de troca diplomática muito bem estabelecido no início da era moderna europeia, os arranjos nupciais também eram parte fundamental em tratados de paz entre os reinos. Além de poder aquietar as disputas dinásticas por uma simples união familiar, um casamento também poderia literalmente unificar as pretensões opostas que motivaram a beligerância. No caso da infanta Isabel, que possuía apenas um irmão criança para herdar as possessões dos pais, um matrimônio com o herdeiro do trono português, embora não necessariamente unificasse os domínios, ainda prometia muitas vantagens diplomáticas. Esta foi uma das razões pela qual a união foi perseguida desde o início da negociação do Tratado de Alcáçovas em 1479, muito embora os Reis Católicos fizessem esforços posteriores para trocar a primogênita pela segunda filha, a infanta Joana, nascida em 1479; de fato, a própria entrega da infanta Isabel teve algumas dificuldades impostas. Eventualmente, contudo, a menina seria entregue, unindo-se ao príncipe D. Afonso na vigilância da duquesa de Viseu. Ela já tinha quase 10 anos; ele apenas completara 5.

Joana de Castela, a ‘Beltraneja’ – parte II

Em princípio, Joana parecia ter ligeira vantagem no confronto. Além do apoio da alta nobreza castelhana, ela ainda contava com importantes membros do clero e algumas Casas de origem portuguesa, sem contar seu poderoso tio, o rei Afonso V, que em breve também oficializaria as negociações nupciais existentes há tempos e se tornaria seu marido em 25 de maio de 1475, seguindo uma invasão bem-sucedida das tropas portuguesas em Castela. Por seu lado, Isabel tinha o apoio de Aragão, de Casas castelhanas menores e de membros do clero, mas também tinha ao seu lado dois importantíssimos trunfos: a poderosa Casa de Medina-Sidônia e o suposto pai biológico de Joana, Beltrán de la Cueva.

Isabel I de Castela em sua maturidade
Isabel I de Castela em sua maturidade

Apesar de sua pouca idade, Joana foi considerada uma líder promissora nas primeiras Cortes que presidiu com seu marido pouco após o matrimônio. O apoio a Isabel, contudo, crescia, embora a guerra ainda estivesse indefinida até 1º de maio de 1476, quando ocorreu a batalha de Toro. Ali, as tropas portuguesas recuaram e debandaram perante as aragonesas, marcando uma grande derrota do partido de Joana, que então partiu para a cidade portuguesa de Abrantes para sua proteção. Provando ter uma grande visão política, Isabel aproveitou o momento da ausência da rival para convocar suas próprias Cortes, onde sua filha primogênita e homônima foi jurada como herdeira, simbolizando a legitimidade da própria Isabel; o nascimento de seu filho João em 1478 a fortaleceria ainda mais.

Depois de repelir os franceses, aliados de Portugal, e garantir o recuo de D. Afonso V e Joana, a Guerra de Sucessão Castelhana basicamente se limitou aos confrontos navais e breves revoltas internas contra o domínio crescente de Isabel, sufocadas com rapidez. Em fevereiro de 1479, Portugal sofreu mais um grave revés quando a dispensa papal que havia garantido o casamento de tio e sobrinha foi anulada, prejudicando em muito a pretensão de D. Afonso V. Sem escolha, o rei teve que concordar com um tratado de paz. Assinado na vila de Alcáçovas em 4 de setembro de 1479 e ratificado por ambos os lados no ano seguinte, ele consistiu basicamente na renúncia de D. Afonso V a qualquer direito ao trono castelhano, assim como a Joana, com quem não tivera filhos ou talvez sequer consumara o casamento.

Joana de Castela, dita a 'Beltraneja', interpretada por Carmen Sánchez na série Isabel (2011-14)
Joana de Castela, dita a ‘Beltraneja’, interpretada por Carmen Sánchez na série Isabel (2011-14)

Após ter renunciado oficialmente à sua pretensão como rainha de Castela e Portugal, o destino de Joana ficou entre duas alternativas oferecidas por Isabel: ou ela se casaria com seu filho João quando este atingisse a maioridade, ou então entraria para um convento e professaria votos de castidade. Joana escolheu a vida religiosa, se juntando ao convento de Santa Clara em Coimbra, embora se recusasse a professar os votos até o fim de sua vida. Até mesmo por isso, sua importância dinástica não padeceu de imediato, e ela recebeu propostas de casamentos até a sua velhice. Em 1504, após a morte de Isabel, Fernando II de Aragão tentou casar-se com ela para fazer frente à pretensão da filha e do genro ao trono castelhano, mas Joana se recusaria, preferindo continuar uma vida religiosa relativamente livre em Portugal, embora não ausente de orgulho. Afinal, quando ela morreu em Lisboa em 1530, ainda assinava como “La Reina”.

Para saber mais:

ELLIOT, J.H. “La unión de las coronas.” In: La España imperial. 1469-1716. Madrid: RBA Collecionables, 2006. (1ª edição 1963).

http://www.arqnet.pt/dicionario/joanad1.html