Indicações de livros sobre história portuguesa

Após alguns pedidos, decidi fazer a lista abaixo, que contém variadas indicações de livros sobre história portuguesa que conheci durante a minha trajetória acadêmica até agora – ou seja, enquanto confeccionava a monografia (2015) e a dissertação (2016-17). Em adição, foram acrescentados alguns dos livros que conheci enquanto pesquisava exclusivamente para o blog Casa de Bragança. Todos estão organizados cronologicamente por tema dinástico. Então, serão apresentados sucessivamente os livros que tratam do período abarcado pela dinastia de Borgonha, pela dinastia de Avis, pela dinastia de Habsburgo e pela dinastia de Bragança. Atenção ao fato que livros sobre membros destas Casas podem ser citados em outros temas dinásticos devido à questão cronológica. Note-se também que a lista não é exaustiva na listagem bibliográfica do tema. A maior presença de livros sobre os Avis deve-se do fato que trabalhei com esta dinastia durante a monografia e a dissertação.

1) Dinastia de Borgonha

MATTOSO, José. D. Afonso Henriques. Lisboa: Temas e Debates, 2007.

PIZARRO, José. D. Dinis. Lisboa: Círculo de Leitores, 2005.

VENTURA, Leontina. D. Afonso III. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006.

PIMENTA, Cristina. D. Pedro I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2005.

BALEIRAS, Isabel de Pina. Uma rainha inesperada: Leonor Teles. Lisboa: Temas e Debates, 2013.

GOMES, Rita Costa. D. Fernando. Círculo de Leitores, 2005.

SERRANO, César Oliveira. Beatriz de Portugal – La pugna dinástica Avís-Trastámara. Santiago de Compostela: Instituto de Estudios Gallegos, 2005.

SARAIVA, Antônio José. O Crepúsculo da Idade Média em Portugal. Lisboa: Gradiva, 1988.

2) Dinastia de Avis

SERRANO, Joana Bouza. As Avis – As Grandes Rainhas que Partilharam o Trono de Portugal na Segunda Dinastia. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009.

COELHO, Maria Helena da Cruz. D. João I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2012.

DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Círculo de Leitores, 2005.

FREITAS, Isabel Vaz de. D. Isabel de Coimbra – Insigne Rainha (1432-1455). Disponível em: http://repositorio.uportu.pt/jspui/bitstream/11328/974/1/D.%20Isabel%20de%20Coimbra.pdf .

FONSECA, Luís Adão de. D. João II. Círculo de Leitores, 2012.

DELURUE, Maria Luisa; OLIVEIRA, Maria Manuela. D. João II – um rei emblemático. Lisboa: Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000.

BRAGA, Paulo Drumond. O Príncipe D. Afonso, filho de D. João II – uma vida entre a guerra e a paz. Lisboa: Edições Colibri, 2008.

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 – Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

BRAGA, Paulo Drumond. D. João III. Lisboa: Hugin Editores, 2002.

BUESCU, Ana Isabel. Catarina de Áustria, Infanta de Tordesilhas, Rainha de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2007.

BUESCU, Ana Isabel. Imagens do Príncipe – Discurso normativo e representação (1525-49). Lisboa: Edições Cosmos, 1996.

CUNHA, Mafalda Soares da. A Casa de Bragança – 1560 – 1640 – Práticas senhoriais e redes clientelares. Lisboa: Editorial Estampa, 2000.

VELLOSO, José Maria de Queiroz. D. Sebastião (1554-1578). Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1935.

BAÑOS-GARCIA, Antonio Villacorta. Don Sebastián, rei de Portugal. Barcelona: Editorial Ariel, 2001.

CRUZ, Maria do Rosário de Sampaio Themudo Barata de Azevedo. As regências na menoridade de D. Sebastião – Elementos para uma história estrutural. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1992.

HERMANN, Jacqueline. No Reino do Desejado: a construção do sebastianismo em Portugal, séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

JOHNSON, Harold. Dois Estudos Polémicos. Tucson: Fenestra Books, 2004.

POLÓNIA, Amélia. D. Henrique. Círculo de Leitores, 2005.

COSTA, Alberto de Sousa. Dona Catarina, Duquesa de Bragança – Rainha de Portugal à face do Direito. Lisboa: Fundação da Casa de Bragança, 1958.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo. Fontes de Direito Para A História da Sucessão de Portugal. Coimbra: Coimbra Editora, 1960.

3) Dinastia de Habsburgo

OLIVAL, Fernanda. D. Filipe II. Círculo de Leitores, 2006.

BOUZA, Fernando. Imagen y Propaganda – Capítulos de Historia Cultural del Reinado de Felipe II. Madrid: Ediciones Akal, 1998.

DÍEZ, Ruth Betegón. Isabel Clara Eugenia – Infanta de España e soberana de Flandes. Barcelona: Plaza Janés, 2004.

SCHAUB, Jean-Frédéric. Portugal na Monarquia Hispânica (1580-1640). Lisboa: Livros Horizonte, 2001.

HABSBURGO-LORENA, Catalina de. Las Austrias – Matrimonio y razón de Estado en la monarquia española. Madrid: La Esfera de los Libros, 2005.

CANTÓ, Pilar Perez et all. Rainhas de Portugal e Espanha – Margarida de Áustria e Isabel de Bourbon. Temas e Debates, 2015.

4) Dinastia de Bragança

COSTA, Fernando Dores. A Guerra da Restauração – 1641-1668. Lisboa: Livros Horizonte, 2004.

COSTA, Leonor Freire; CUNHA, Mafalda Soares da. D. João IV. Círculo de Leitores, 2012.

LOPES, Maria Antónia; RAVIOLA, Blythe Alice (orgs). Portugal e o Piemonte: A Casa Real Portuguesa e os Sabóias. Nove Séculos de Relações Dinásticas e Destinos Políticos (XII-XX). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

SILVA, Maria Beatriz Nizza de. D. João V. Círculo de Leitores, 2012.

A Crise de 1383-85 – parte IV

Pelos dois anos seguintes, D. João I procurou pacificar o reino e garantir a retomada das terras que haviam se rebelado. Apenas em novembro de 1387 um acordo de paz temporário seria feito entre Castela e Portugal. Pouco depois, João I de Castela faleceu, deixando D. Beatriz viúva e sem filhos. Ela nunca se casaria novamente, embora recebesse várias propostas matrimoniais. Apesar que um novo tratado de paz fosse assinado entre os beligerantes pouco após a ascensão ao trono do filho de João I de Castela com a primeira esposa, Henrique III, o tratado definitivo só apareceria em 1411, mostrando que os castelhanos não desistiriam de sua pretensão a Portugal até pouco tempo antes da morte de D. Beatriz.

Representação da cerimônia de casamento de D. João I de Portugal e Philippa de Lancaster. símbolo do tratado anglo-português
Representação da cerimônia de casamento de D. João I de Portugal e Philippa de Lancaster. símbolo do tratado anglo-português

Provavelmente tendo plena consciência da ameaça em suas fronteiras, D. João I de Portugal preocupou-se em garantir uma aliança permanente para o reino; e, apesar dos problemas anteriores durante o reinado de D. Fernando I, a Inglaterra era uma candidata natural para isso depois de sua colaboração para a vitória portuguesa na batalha de Aljubarrota. Ratificado em nove de maio de 1386, o tratado de Windsor previa uma série de circunstâncias em seu enunciado nas quais um aliado poderia requisitar ajuda ao outro, focando-se especialmente em questões comerciais, embora sem esquecer a pretensão inglesa ao trono de Castela.

Neste sentido, pode ser considerado natural que a aliança anglo-portuguesa seria selada justamente com as núpcias da primogênita do duque de Lancaster, Philippa, com D. João I de Portugal. A união aconteceria já no ano seguinte à assinatura do tratado.

Para saber mais:

BALEIRAS, Isabel de Pina. Uma rainha inesperada: Leonor Teles. Lisboa: Temas e Debates, 2013.

MACEDO, Newton de. “Aljubarrota”. IN: História de Portugal – de D. João I aos Filipes. Lisboa: Lello & Irmão, 1936.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo. “O sentimento nacional (1300-1415)”. IN: História de Portugal: volume I – Estado, Pátria e Nação (1080-1415). Lisboa: Editorial Verbo, 1978.

A Crise de 1383-85 – parte III

A guerra civil portuguesa não apenas dividiu o reino de Portugal, mas também as famílias que nele habitavam. Para ficar apenas em um exemplo mais concreto: o irmão mais velho do condestável do Mestre de Avis, Nuno Álvares Pereira – ironicamente, o antigo escudeiro de D. Leonor – era um dos principais comandantes do lado do rei de Castela. Diferentemente do que se possa imaginar, as classes sociais não se confrontaram, mas sim se dividiram entre ambas as facções ou em nome do ideal patriótico representado pelo Mestre de Avis ou então em nome do direito da herdeira do trono D. Beatriz.

Após ter tido a regência cedida para si, João I de Castela rumou para cercar Lisboa por terra e mar, apenas para ter suas tropas dizimadas pela peste e ser forçado a retirar-se, levando sua rainha doente consigo, no início de setembro. Enquanto o rei gastava forças tentando submeter a capital, Nuno Álvares Pereira avançou pelo Alentejo e venceu em nove de abril a Batalha dos Atoleiros, onde estivera em desvantagem numérica. No mar, os navios portugueses atacavam as costas da Galícia, investindo contra as embarcações castelhanas onde estavam ancoradas. No ano seguinte, o Mestre de Avis superou as pretensões superiores dos infantes D. João e D. Dinis – vistos como excessivamente simpáticos ao monarca de Castela – e foi eleito rei de Portugal nas Cortes de Coimbra, reunidas em março.

Representação da batalha de Aljubarrota
Representação da batalha de Aljubarrota

Pouco depois, o agora D. João I de Portugal partiu para tomar algumas cidades que ainda resistiam. Foi bem-sucedido, mas pouco depois chegou a notícia de nova ofensiva castelhana a norte de Lisboa, que procurava conquistar Lisboa e cortar as linhas de abastecimento portuguesas. Após muitas discussões na reunião do conselho e a hesitação do rei de como proceder, Nuno Álvares Pereira retirou-se impulsivamente e partiu para enfrentar o inimigo na famosa batalha de Aljubarrota, em 14 de agosto de 1385. Novamente em inferioridade numérica, apesar de ter um expressivo auxílio de tropas inglesas, os portugueses atacaram com tanto ímpeto que João I de Castela fugiu às pressas para embarcar de volta para o seu reino. Depois da vitória avassaladora, que ficaria marcada como um dos eventos mais marcantes da história de Portugal, as cidades que ainda se aliavam ao rei castelhano renderam-se.

A Crise de 1383-85 – parte II

O motivo do homicídio do favorito de D. Leonor desperta discussão até hoje. Em sua biografia da rainha (2013), Isabel de Pina Baleiras apresenta as várias justificativas de diversos autores.  Segundo o cronista Fernão Lopes, por exemplo, ao assassinar o amante da rainha, o Mestre de Avis apenas estaria seguindo orientações de um plano que já existia no tempo que seu meio-irmão D. Fernando ainda vivia; neste sentido, de acordo com o historiador José Mattoso, a morte do favorito teria sido uma forma do Mestre mostrar sua fidelidade póstuma ao rei. Por outro lado, segundo os estudiosos Horácio Ferreira Alves e Peter Russel, o grande poder político que o conde de Ourém dispunha em várias cortes europeias o tornava um forte apoio de D. Leonor; ao destruí-lo, a rainha viúva perderia seu principal apoio e liberaria o centro do governo para outras facções, como a dos filhos de Inês de Castro ou, como parecia mais provável diante das circunstâncias, o próprio Mestre de Avis.

Morte de João Fernandes de Andeiro, o conde de Ourém
Morte de João Fernandes de Andeiro, o conde de Ourém

De fato, foi o que ocorreu. Após a morte de Andeiro, a rainha deixou Lisboa e foi para a mais protegida vila de Alenquer, enquanto o Mestre ganhava mais influência nos assuntos governamentais, embora de início considerasse o exílio na Inglaterra para fugir da vingança de D. Leonor. A grande pressão popular e o medo de uma invasão castelhana, contudo, o fizeram ficar em Portugal. Foi nesta época, aproximadamente, que conversas sobre um possível matrimônio entre ele e D. Leonor vieram à tona como forma de gerar uma solução de compromisso entre ambas as partes; para evitar a guerra com Castela, ambos seriam regentes de Portugal até o herdeiro de D. Beatriz chegar à maioridade. Embora o Mestre tenha dado seu consentimento, D. Leonor recusaria a proposta.

Selo com as armas reais combinadas de Castela e Portugal
Selo com as armas reais combinadas de Castela e Portugal

Com o avanço progressivo das tropas castelhanas, consequências drásticas tornaram-se inevitáveis no governo português. Em 16 de dezembro de 1383, D. Leonor foi afastada da regência e o cunhado assumiu seu lugar numa ampla aclamação popular. Humilhada, a rainha viúva pediu ajuda ao genro para restaurar sua honra. Em 12 de janeiro de 1384, João I e D. Beatriz encontraram D. Leonor perto da vila de Santarém. Depois de um encontro emocionado da rainha viúva com a filha, o rei castelhano convenceu a sogra a renunciar oficialmente da regência em seu nome para lhe dar a autoridade necessária para submeter os revoltosos liderados pelo Mestre de Avis. Fragilizada, ela concordou, retirando-se depois para um convento em Castela. Munido do poder necessário, João I mandou fazer selos novos onde as armas de Portugal apareciam entrelaçadas com as de Castela, além de cunhar moedas próprias, que passaram a circular nas cidades que o apoiavam. A guerra civil se consumava.

A Crise de 1383-85 – parte I

Após a morte de D. Fernando, D. Leonor tornou-se regente conforme as disposições testamentárias do marido, adotando dali por diante o título de “rainha governadora e regedora de Portugal e Algarves”; assim, abandonava a fórmula tradicional das consortes portuguesas e adotava a dos reis. Talvez tal mudança tenha tido mesmo o objetivo de mostrar maior credibilidade num momento bastante delicado do ponto de vista político. Neste sentido, a rainha viúva esforçava-se para despertar a simpatia dos súditos com a sua perda recente e, assim, neutralizar a fama corrente de que teria sido uma adúltera.

D. Leonor
D. Leonor

De início, ela teve sucesso, conseguindo reunir a sua volta o apoio de importantes membros da nobreza, que concordaram em formar com ela um Conselho de Regência. Contudo, D. Leonor não abdicaria da presença de seu favorito João Fernandes de Andeiro, o que se provaria um ponto fundamental de desgaste em sua regência. Enquanto isso, em Castela, João I soube do falecimento do sogro e imediatamente se dispôs a ir até Portugal em armas para defender os direitos de sua esposa ao trono e ser com ela aclamado como monarca daquele reino; ao mesmo tempo, mandou prender possíveis rivais ao trono, como o exilado infante D. João. Tratava-se de um movimento de anexação, ao contrário do que pretendera o falecido D. Fernando.

D. João, o Mestre de Avis
D. João, o Mestre de Avis

Apesar do descontentamento da maioria, João I de Castela foi apoiado em sua ambição por alguns membros do conselho e talvez até secretamente pela rainha viúva, que poderia estar ansiosa para fortificar sua posição no governo. Seja quais fossem seus sentimentos pessoais a respeito, entretanto, D. Leonor preparou o reino português para a invasão, embora a desconfiança começasse a se tornar palpável. Ela ordenou que seu cunhado, o Mestre de Avis, se afastasse para suas terras para reunir soldados; ao invés disso, o meio-irmão de D. Fernando seria parte ativa do plano para assassinar o suposto amante da rainha, João Fernandes de Andeiro, numa série misteriosa de acontecimentos que culminaria no Mestre golpeando o favorito nos paços da rainha viúva, para o horror e pânico desta.

Leonor Teles de Menezes – parte V

Em plena guerra, D. Leonor ficou grávida, e em julho de 1382 deu à luz um menino que não viveu muito. Pouco depois, cansado dos danos que o exército inglês estava causando em território português, o progressivamente doente D. Fernando aceitou em segredo a proposta castelhana de paz. No mesmo ano, outro tratado seria assinado na vila de Badajoz, e D. Beatriz foi prometida ao seu quarto noivo: desta vez, o secundogênito do rei de Castela, João I, filho de Henrique de Trastámara. Reféns também seriam trocados entre as duas partes para assegurar a paz. Em setembro de 1382, os furiosos ingleses partiriam.

João I de Castela
João I de Castela

No mesmo mês da partida impetuosa dos ingleses, a rainha de Castela morreu após complicações no parto de sua única filha. Vendo sua morte se aproximar, D. Fernando propôs que D. Beatriz, se casasse agora com o rei viúvo João I, numa negociação em que D. Leonor teve especial participação, uma vez que o rei português já se encontrava tão doente que não conseguia mais sair de sua câmara. Diferentemente dos outros tratados de núpcias de D. Beatriz com noivos castelhanos, contudo, o documento assinalava especialmente que apenas um filho legítimo de D. Fernando ou então um filho legítimo de D. Beatriz poderia herdar o trono português, mas não a própria princesa; aliás, uma cláusula ressaltava que quaisquer filhos ou filhas que D. Beatriz tivesse seriam criados pela regente de Portugal, D. Leonor. Isso deixava bem claro que este quinto noivado da herdeira tinha o projeto de apenas servir para gerar infantes e infantas suplementares para Portugal, e não unificar ambos os reinos. Só se pode especular os motivos desta mudança em relação aos quatro noivados anteriores, mas provavelmente o estado de saúde cada vez mais crítico do rei, junto com o fato que D. João I já tinha dois herdeiros homens para Castela, enquanto D. Fernando por enquanto apenas D. Beatriz para herdar o reino português, tenham sido preponderantes.

João I de Castela não ficou satisfeito com o tratado, mas o aceitou. Após D. Beatriz renunciar aos quatro esponsais anteriores e a dispensa papal para seu casamento com rei de Castela com ter sido providenciada, o casal se uniu no dia 14 de maio de 1383. A noiva tinha dez anos; o noivo, 24. Enquanto isso, a saúde de D. Fernando piorava cada vez mais na vila de Almada enquanto a última gravidez de D. Leonor avançava; em setembro, ela deu à luz a uma menina que viveu pouco. A situação de D. Beatriz como herdeira foi confirmada. Em 22 de outubro de 1383, D. Fernando morreu. D. Leonor tornou-se regente, enquanto seu genro, ignorando seu contrato nupcial, avançou para tomar a Coroa. Murmúrios de descontentamento, entretanto, rapidamente se ergueriam, tomando a forma de franca revolta em questão de poucos meses. Em 1384, a guerra civil explodiria definitivamente naquela que seria a crise sucessória portuguesa de 1383-85, que marcaria a ascensão da dinastia de Avis. Forçada a abdicar da regência, D. Leonor exilou-se em Castela, morrendo pouco depois em um mosteiro em Tordesilhas.

Para saber mais:

BALEIRAS, Isabel de Pina. Uma rainha inesperada: Leonor Teles. Lisboa: Temas e Debates, 2013.

GOMES, Rita Costa. D. Fernando. Círculo de Leitores, 2005.

Leonor Teles de Menezes – parte IV

Por volta de 1377 ou inícios de 1378, D. Fernando sofreu uma misteriosa tentativa de envenenamento. Embora sobrevivesse, sua saúde ficou bastante fragilizada, o que o levou a escrever um testamento. Nele, reiterava seu desejo que sua única filha legítima, D. Beatriz, o sucedesse no trono após sua morte; se ele falecesse antes que a princesa atingisse a maioridade, a rainha D. Leonor deveria ser a tutora e regente até a consumação do casamento de D. Beatriz com o duque de Benavente ou quando ela atingisse 12 anos. Além disso, o rei excluiu da linha sucessória todos os meio-irmãos, filhos de Inês de Castro, já exilados a esta altura; isso mostrava claramente o quão fundo a disputa entre a rainha e os parentes do marido chegara. O único que ainda mantinha razoáveis relações com Leonor era D. João, o Mestre de Avis, que era filho de uma amante de D. Pedro I de Portugal.

O Mestre de Avis
O Mestre de Avis

Neste contexto, pode-se entender o crescente interesse do rei e da rainha em assegurar a posição de sua herdeira ao propor um novo e mais seguro matrimônio para ela: ao invés do duque de Benavente, o filho recém-nascido do rei de Castela. Esta manobra, que aparentemente prejudicava Portugal, veio dos próprios temores de D. Fernando em relação à morte. Ainda com sequelas do atentado contra a sua vida, ele procurava assegurar-se dos interesses sucessórios da única filha, e, neste sentido, um casamento com o herdeiro do trono castelhano era mais vantajoso do que com seu irmão ilegítimo. Evidentemente, a ideia agradava aos castelhanos, e foi aceita. Um casamento do herdeiro de Castela com a herdeira de Portugal, além de legitimar a nascente dinastia, ampliaria consideravelmente as fronteiras daquele reino, afinal. Um novo tratado foi logo assinado, e em inícios de 1380, D. Beatriz ficou formalmente noiva do príncipe castelhano.

Paralelamente, contudo, as amistosas relações não eram tão evidentes quanto pareciam, uma vez que em breve D. Fernando também negociava as núpcias de sua herdeira com o sobrinho do duque de Lancaster para firmar uma aliança contra Castela, cuja coroa João de Gaunt ainda ambicionava. Esta surpreendente duplicidade de Portugal pode ser atribuída tanto ao rancor do rei português contra o usurpador castelhano devido aos territórios que perdera em conflitos anteriores quanto à forte influência do favorito da rainha, o agente inglês João Fernandes de Andeiro, que também seria um suposto amante de D. Leonor. Em junho de 1381, as tropas inglesas desembarcaram em Portugal, juntamente com o irmão do duque de Lancaster, o conde de Cambridge, sua esposa, Isabel de Castela – também filha do assassinado Pedro I – e o prometido de D. Beatriz, o herdeiro Eduardo. Eles seriam recepcionados e hospedados por D. Fernando e D. Leonor, com quem também trocariam ricos presentes. Pouco depois deste auspicioso começo, as tropas combinadas de Inglaterra e França foram novamente à guerra contra Castela.

Leonor Teles de Menezes – parte III

A primeira criança de Leonor e D. Fernando, D. Beatriz, nasceu em 1º de março de 1373 ainda em meio a um movimento contra o recente casamento real. Segundo Fernão Lopes, cronista do período, o reino como um todo ficou indignado com as núpcias do monarca com uma mulher tão pouco adequada, que claramente o tinha enfeitiçado (LOPES, p. 210): devido ao fato do marido anterior dela ainda viver, a união sequer era legítima. Revoltas contra o matrimônio ocorriam até mesmo em Santarém, no lar da infância de Leonor. Por certo tempo, ainda segundo Lopes, ela até mesmo temeu ser abandonada por D. Fernando. O rei, contudo, reafirmou o casamento numa cerimônia pública na cidade do Porto, num mosteiro da Ordem do Hospital chefiado por Álvaro Gonçalves Pereira, homem da família influente na Península Ibérica e vassalo de confiança de D. Fernando. Além disso, Álvaro era parente por afinidade da rainha por meio da tia desta, Guiomar – poucos anos depois, inclusive, D. Leonor tomaria o filho deste, Nuno, como escudeiro. De qualquer forma, o fato que aquela união precisou ser justificada publicamente mostra bem claramente seu grau de fragilidade perante o público.

Mas simplificaríamos demais a questão se colocarmos a culpa da impopularidade do matrimônio de D. Fernando e D. Leonor apenas sobre a última: segundo a interpretação de Maria José Pimenta Ferro (1983, p. 53), a revolta contra o casamento apenas teria sido uma de várias rebeliões populares contra medidas da Coroa geradas pelos gastos bélicos de D. Fernando num contexto internacional de contestações contra a nobreza. Desta forma, embora as núpcias do rei com Leonor Teles de Menezes provavelmente tenham descontentado alguns, por si só não ocasionou mais revolta do que a carestia de vida, os abusos dos grandes senhores ou a corrupção da corte portuguesa durante o reinado de D. Fernando. Apesar disso, porém, é interessante tomar nota da recusa do infante D. Dinis, meio-irmão de D. Fernando, em se curvar perante D. Leonor na cerimônia de beija-mão que se seguiu à cerimônia matrimonial; isto simbolizava claramente a antipatia dos filhos de Inês de Castro em relação à rainha. O confronto entre as duas facções parecia inevitável.

João de Gaunt, duque de Lancaster
João de Gaunt, duque de Lancaster

Em 1371, a curta paz nos reinos ibéricos chegou ao fim quando o nobre inglês João de Gaunt, recém-casado com a filha mais velha sobrevivente de Pedro I de Castela, Constança, reivindicou o trono daquele reino no nome da esposa. Para perseguir tal projeto, o duque de Lancaster necessitava do apoio de alguns vizinhos de Castela. D. Fernando aceitou prontamente a aliança, vendo uma aí uma oportunidade não só de estreitar os laços comerciais e militares entre Portugal e Inglaterra, como também de recuperar alguns territórios capturados por Castela no conflito anterior. Embora esta primeira investida fosse ser um fracasso devido ao atraso dos soldados ingleses, obrigando o rei português a aceitar outro tratado de paz com Castela, pouco tempo depois uma aliança perpétua com a Inglaterra de Eduardo III foi traçada no chamado Tratado de Westminster; este acordo seria o antecessor direto do célebre Tratado de Windsor, assinado poucos anos depois e ainda em vigor nos dias de hoje, constituindo-se na aliança mais antiga ainda em atividade.

Como parte do tratado de paz com Castela, a princesa D. Beatriz, ainda com três anos, foi prometida a um filho bastardo de Henrique II, D. Fradique, duque de Benavente, que mal completara seis anos. Seria apenas o primeiro noivo da herdeira de Portugal. Entretanto, a promessa de matrimônio entre ambos foi ofuscada pelo escândalo da morte da irmã da rainha, Maria, casada há pouco com o meio-irmão do rei, D João. Leonor já se mostrara hostil com ambos após saber do casamento, e boatos registrados pelo cronista Fernão Lopes dão a entender que a rainha, temendo pelo seu futuro após uma doença de seu marido, armou uma trama que levasse o popular infante a assassinar Maria – com quem Leonor há tempos não tinha boas relações – devido ao seu suposto adultério. De fato, após cometer o crime, D. João fugiria para Castela, se reunindo ao irmão D. Dinis, já exilado há alguns anos. Assim, as principais ameaças ao poder de D. Leonor se encontravam anuladas no momento em que a saúde de D. Fernando começava a declinar.

Leonor Teles de Menezes – parte II

Nesta época, D. Pedro I de Portugal já falecera, com seu primogênito o sucedendo no trono com apenas 22 anos de idade. Logo após a sua aclamação, D. Fernando teve que lidar com a crise que ocorria no reino vizinho de Castela: seu primo, Pedro I de Castela, fora aprisionado e assassinado por seu meio-irmão ilegítimo, Henrique de Trastámara, que se declarou rei. Em apoio às pretensões das filhas de seu primo, o monarca português foi à guerra contra o usurpador. Procurando garantir também o apoio do rei de Aragão, D. Fernando comprometeu-se formalmente com a filha deste, a infanta D. Leonor. Em 1370, uma embaixada, liderada por João Afonso Teles, foi enviada à Aragão para entregar ouro de ajuda militar no conflito e presentes para a noiva, além de levá-la para Portugal. Embora bem recebido por Pedro IV de Aragão, o embaixador não conseguiria cumprir seu objetivo; segundo o rei, sua filha não poderia partir sem que a dispensa papal para o matrimônio tivesse sido garantida. O mais provável, porém, é que o monarca não quisesse se comprometer rapidamente com o lado português do conflito, que não estava conseguindo subjugar Castela.

D. Fernando
D. Fernando

De fato, a guerra estava tecnicamente empatada, e quando delegados do papa Gregório XI vieram à Península Ibérica para propor a paz, D. Fernando e Henrique II prontamente a aceitaram. Como parte do acordo de paz de 1371, o rei português teve que abandonar Leonor de Aragão e comprometer-se com a filha do monarca castelhano – outra infanta chamada Leonor. Quando Pedro IV de Aragão soube de tal traição, ordenou que o ouro trazido para uma ajuda que nem se concretizara fosse imediatamente retirado da guarda de um tesoureiro português e colocado no tesouro aragonês. Isso em muito desagradaria D. Fernando, danificando em consequência as relações entre Portugal e Aragão.

A esta altura, a terceira Leonor, sobrinha de João Afonso Teles, estava casada há alguns anos com João Lourenço da Cunha. Sua irmã Maria, porém, já era uma viúva, sendo uma dama de companhia da meia-irmã do rei, D. Beatriz; ocasionalmente Leonor a visitava. Em uma dessas temporadas na corte, a jovem senhora de Pombeiro atraiu a atenção do rei D. Fernando. Provavelmente a atração real foi correspondida, uma vez que Leonor prolongou tanto sua estada na corte portuguesa que seu marido teve que ordenar que ela retornasse. A esta altura, contudo, D. Fernando já estava tão apaixonado que ordenou à Maria que fingisse uma doença para que Leonor pudesse permanecer na corte. Alarmada com a insistência do rei, Maria procurou o auxílio do tio, que, temendo um escândalo que prejudicasse a família Teles de Menezes e as relações de Portugal com Castela, tentou sem sucesso convencer o rei a devolver Leonor para João Lourenço da Cunha. D. Fernando, porém, que talvez nunca tivesse levado realmente a sério o compromisso matrimonial com Castela, estava decidido em seu propósito com Leonor: entre abril e agosto de 1371, um divórcio entre ela e João foi prontamente arranjado. Humilhado, o marido se retirou do reino. Em breve, sua antiga esposa e o rei se casariam numa cerimônia com poucas testemunhas, consumando o relacionamento apenas após a cerimônia. Em pouco tempo, a nova rainha estava grávida.

Leonor Teles de Menezes – parte I

Nascida por volta de 1350 na província portuguesa de Trás-os-Montes, Leonor Teles de Menezes foi a filha caçula de Martim Afonso Teles de Menezes, um descendente ilegítimo do rei D. Sancho I de Portugal, e Aldonça de Vasconcelos. Seu avô materno, João Mendes de Vasconcelos, foi um membro importante da nobreza portuguesa, servindo como alcaide-mor das vilas de Miranda do Corvo e de Estremoz; além disso, ele foi uma das testemunhas convocadas por D. Pedro I de Portugal para jurar seu casamento secreto com Inês de Castro. Seu pai, contudo, após servir por alguns anos a Coroa de Castela, seria o próprio mordomo-mor da rainha D. Maria de Portugal – talvez até mesmo seu amante – durante o conturbado casamento desta com Afonso XI.

D. Maria de Portugal, rainha de Castela
D. Maria de Portugal, rainha de Castela

O serviço de Martim Afonso Teles de Menezes terminaria bruscamente com seu assassinato em inícios de 1356 por homens do filho de sua senhora, o rei Pedro I de Castela, seguindo uma revolta desta. Sua viúva, Aldonça, sozinha agora com três crianças, possivelmente foi viver com eles junto aos tios paternos, João Afonso Teles, outro influente membro da corte portuguesa, e Guiomar Pacheco, em Santarém. Pouco tempo depois, a mãe de Leonor também morreria, deixando Leonor, a irmã Maria e o primogênito João para serem criados por Guiomar, que era uma aparentada por via ilegítima da realeza castelhana. Vendo todas as ligações com as casas reais ibéricas que a família de Leonor desfrutava, portanto, seria algo surpreendente se ela não tivesse convivido por algum tempo com o herdeiro do trono português D. Fernando, conforme defendido por Alberto Armando Martins (2011). Afinal, o príncipe era apenas cinco anos mais velho, e desde jovem pernoitava em Santarém durante as caçadas que tanto apreciava.

Isto não quer dizer, é claro, que qualquer proposta de matrimônio entre ambos estivesse sendo perseguida pelos Teles de Menezes e os Pacheco. Muito embora Leonor fosse consideravelmente bem nascida para os padrões da aristocracia ibérica, que valorizava mesmo as linhas de descendência ilegítimas, isto não significava que ela poderia ser a esposa do futuro rei português. De qualquer forma, seu primeiro marido seria bastante influente: tratava-se de João Lourenço da Cunha, senhor do Pombeiro e vassalo do infante D. João, filho de D. Pedro I e Inês de Castro. Eles teriam dois filhos juntos: uma menina que faleceu ainda na infância e um menino chamado Álvaro.