Catarina de Áustria – parte VII

Depois disso, a rainha permaneceria como regente por mais dois anos, até que em fins de 1563 ocorreu sua súbita e controversa renúncia após a vitória portuguesa sobre os mouros no cerco da praça de Mazagão. Num movimento bastante incompreensível diante da possibilidade de capitalizar para si o triunfo conquistado, D. Catarina convocou os Três Estados para anunciar sua decisão em ceder o poder para o cunhado. Todos foram tomados pela surpresa, incluindo D. Henrique. Afinal, apesar dela ter sido de fato criticada por sua demora em socorrer os portugueses durante o cerco, a regente ainda contava com apoio de vários e fiéis partidários. A decisão, contudo, era definitiva, e seria mesmo D. Henrique o novo regente, apesar do nome de D. Maria, duquesa de Viseu, ter circulado entre alguns círculos. D. Catarina ainda manteria a curadoria e a tutoria.

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Isabelle Adjani interpretando Margarida de Valois no filme A Rainha Margot (1994)

A partir daí, o poder da rainha viúva se manteria basicamente em procurar continuar influente perante o jovem neto e ajudá-lo em negociações matrimoniais. Principalmente no segundo caso, ela foi com frequência desafiada por D. Henrique. Durante a regência do último, encerrada em 1568, negociações com a França haviam começado para casar o rei português com a princesa Margarida, que era apenas um ano mais velha do que ele. Com o avanço do movimento protestante em França, porém, D. Sebastião mostrava-se reticente; a reputação dissoluta de Margarida também não auxiliou. No final, as conversas permaneceram indefinidas, e, como meio de tentar conter os confrontos religiosos franceses, ela foi casada com Henrique de Navarra em 1572.

Neste contexto de naufrágio do projeto matrimonial francês, D. Catarina insistiria ainda mais na ideia de união entre D. Sebastião e a primogênita de Felipe II de Espanha, a infanta Isabel. Estas núpcias também eram, aliás, muitíssimo do agrado de D. Sebastião. Interpretando hoje a proposta sem levar em conta alguns eventos que não poderiam de fato ser previstos na época, o casamento não era realmente uma má ideia. Embora um casamento francês pudesse colaborar para tornar Portugal mais independente do ponto de vista político, manter o padrão matrimonial com Espanha talvez fosse, além de mais prático, conveniente; até aquele momento, afinal, a infanta Isabel era a herdeira da Coroa espanhola. Mesmo se o rei Felipe conseguisse produzir um herdeiro homem em seu quarto casamento, contudo, a menina ainda seria a filha mais velha do prestigioso monarca e sobrinha do Sacro Imperador Romano Maximiliano II. Em muitos sentidos, se tratavam de núpcias bastante vantajosas para os padrões do século XVI, embora a prospectiva noiva ainda fosse apenas uma criança.

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A infanta Isabel aos 13 anos de idade

De qualquer forma, mesmo se a misteriosa doença de D. Sebastião não fosse já um fator de complicação para negociações matrimoniais, as intenções do próprio rei se dirigiam cada vez mais para a guerra contra os infiéis em África. Até mesmo o pedido da mão da infanta Isabel a Felipe II inscreve-se no sentido de obtenção de ajuda militar para a guerra santa. Catarina se opunha ao projeto do neto de liderar pessoalmente esta empresa militar, mas D. Sebastião não dava ouvidos aos conselhos da avó, de quem se afastava cada vez mais. E foi aflita, cada vez mais doente e com dores. que ela recebeu a confirmação da intenção de seu neto de ir guerrear em África em 5 de fevereiro de 1578.

Em 10 de fevereiro, a rainha viúva passou várias horas em estado comatoso e recebeu a extrema unção. Sabendo do estado da avó, o rei foi ao paço dela, e lá já se encontrava quando D. Catarina recobrou a consciência. Reconhecendo-o, ela lhe deu sua benção. Antes de perder a fala, a rainha viúva teria mais uma vez implorado ao neto que não fosse à guerra. A morte, contudo, só viria no dia 12. Sem pompa, ela seria enterrada junto ao marido no mosteiro de Jerônimos. Depois de manter-se recluso por alguns dias em luto rigoroso, D. Sebastião voltou aos preparativos de sua empresa militar, que ocorreria finalmente alguns meses mais tarde. Com sua morte pouco menos de um mês depois de completar 71 anos de idade, Catarina de Áustria não viu a tão planejada união de todas as Coroas ibéricas por sua família, mas também foi poupada de testemunhar a extinção de sua linha e da Casa de Avis poucos meses depois.

Para saber mais:

Sobre a Revolta das Comunidades de Castela: http://www.tordesillas.net/webs/inicio.php?lang=por&id=105&cont=1

BRAGA, Paulo Drumond. D. João III. Lisboa: Hugin, 2002.

BUESCU, Ana Isabel. Catarina de Áustria, Infanta de Tordesilhas, Rainha de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2007.

PITTA, Larissa de Andrade. D. Catarina de Habsburgo e a política de casamentos dinásticos entre Portugal e Espanha (1540-1554). Monografia (bacharelado em História) – Instituto de História, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2014.

Catarina de Áustria – parte VI

A pouca idade de D. Sebastião tornava inevitável que uma regência fosse necessária por alguns anos; como mãe do jovem monarca, D. Joana seria a candidata mais evidente, mas já não se encontrava em Portugal havia muito. Viúva, o destino da princesa dependia novamente dos desejos de seu pai, o poderoso Carlos V, e a vontade dele era que Joana voltasse para Espanha para servir como regente na ausência de seu irmão Felipe, que em breve se casaria com a rainha Maria de Inglaterra. A decisão do imperador causou mal estar na corte portuguesa; pelo lado político, D. João III via frustrados seus próprios planos em casar o irmão D. Luís com a soberana inglesa e sua irmã caçula D. Maria com o príncipe Felipe, e pelo lado sentimental, os monarcas exprimiram sua preocupação em deixar praticamente órfã uma criança tão pequena. De qualquer maneira, a princesa Joana partiu em maio de 1554.

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D. Sebastião enquanto criança

Os anos seguintes trariam mais perdas à rainha D. Catarina: em abril de 1555, faleceu em Tordesilhas a mãe que ela jamais vira novamente em 30 anos, a doente rainha Joana. Em novembro de 1555, morreu seu cunhado, o infante D. Luís, que tinha com Catarina uma relação algo tensa desde as negociações frustradas de matrimônio com sua sobrinha anos antes. Em fevereiro de 1558, falecia sua irmã mais velha e antecessora no posto de rainha de Portugal, Leonor. Em outubro do mesmo ano, morreu outra irmã, Maria, seguida logo no mês seguinte pelo desaparecimento de seu irmão mais amado, Carlos V, com quem Catarina procurara manter uma correspondência constante desde o primeiro encontro de ambos em 1516.

A morte mais importante do ponto de vista político e pessoal, entretanto, já ocorrera em 11 de junho de 1557; após um agravamento súbito de uma doença antiga, faleceu D. João III em Lisboa. Do ponto de vista puramente governamental, o desaparecimento não significou em princípio uma mudança imediata; afinal, a doença do rei, visível desde 1550, apenas tornara mais visível o protagonismo da rainha. A quebra dos escudos do falecido monarca em 14 de junho, contudo, tornou inevitável a tensão – quem seria o regente do jovem D. Sebastião? Pelo costume, o posto pertencia ao parente homem mais próximo do monarca, no caso o infante cardeal D. Henrique, último dos filhos de D. Manuel I que ainda vivia. Regências femininas, embora não uma novidade na história portuguesa – basta lembrar o precedente imediato de Leonor de Aragão, consorte de D. Duarte e mãe de D. Afonso V – não costumavam conseguir o apoio político necessário para serem bem sucedidas. Na reunião do conselho régio que se seguiu imediatamente à quebra dos escudos, a rainha, que já partilhava do governo há vários anos, apresentou uns apontamentos de D. João III que supostamente indicavam o desejo real que D. Catarina assumisse a regência, curadoria e tutoria de D. Sebastião. Após ser pedido para assistir a cunhada na função, D. Henrique concordou.

Em breve, contudo, a princesa Joana, ainda regente em Espanha na ausência do irmão, reivindicou seu direito de sangue de assumir a regência do filho. Era de tal modo forte sua intenção que seu pai, Carlos V, teve que escrever uma carta bastante incisiva, deixando claro que a posição pertencia à sua irmã Catarina. A intenção do imperador era conseguir dela um compromisso no sentido de garantir a sucessão do filho da infanta D. Maria no caso de morte de D. Sebastião; afinal, como ele escreveu ao filho Felipe, “o Príncipe (Carlos) é tanto seu neto como o Rei”. Apesar da concordância de Catarina, a pragmática que reconhecia este direito jamais foi publicada devido ao sentimento anti castelhano presente na corte portuguesa, juntamente com certa impopularidade da regente, inclusive entre seus súditos de nascimento mais baixo.

(c) The Bowes Museum; Supplied by The Public Catalogue Foundation
D. Catarina em sua época como regente do neto

Esta tensão no relacionamento entre Catarina e algumas grandes Casas, nomeadamente os Aveiro e os Bragança, ganhou seu principal símbolo na noite de 3 de setembro de 1554. D. Teodósio, duque de Bragança, era viúvo desde o ano anterior e manifestou o desejo de voltar a se casar com D. Beatriz de Lencastre, sobrinha de D. João, duque de Aveiro. D. Catarina vetou tal matrimônio. Além do procurar evitar uma união mais íntima entre duas Casas tão poderosas, o movimento muito provavelmente visava proteger o dote devido à sua sobrinha homônima, segunda filha do falecido infante D. Duarte, que em breve se uniria ao herdeiro do duque de Bragança. Apesar da proibição, entretanto, D. Teodósio foi em frente e casou-se com D. Beatriz. Isso causou uma imediata reação da regente, que expulsou tanto ele quanto o duque de Aveiro da corte. Sua autoridade, porém, já fora minada.

E é neste contexto que ocorreu a primeira tentativa de renúncia de D. Catarina em nome de D. Henrique, que acabou aceitando-a após tentar convencer a cunhada a continuar no cargo. Embora este evento seja interpretado por muitos historiadores como uma tentativa bem-sucedida de D. Catarina de desestabilizar politicamente o infante cardeal, não é realmente impossível que a regente tenha considerado, diante das dificuldades políticas, abandonar a corte e ir para um convento, como fizera seu irmão anos antes. Independente da intenção, contudo, a reação da corte foi massiva pela continuidade de D. Catarina no cargo. Apesar de tudo, D. Henrique não era propriamente um nome que despertava entusiasmo.

Catarina de Áustria – parte V

O casamento da primogênita sobrevivente dos monarcas de Portugal, D. Maria, com seu primo, o príncipe Felipe, herdeiro de Espanha, já era discutido desde que ambos eram crianças de colo. Nascidos com poucos meses de diferença, a união deles era de especial desejo de suas mães, Catarina e Isabel. A morte da última em 1539, apesar de tirar algo do ânimo do projeto, ainda não o impediu; mesmo flertando com outras opções de núpcias para o herdeiro, Carlos V ainda cobiçava mais o amplo dote que viria com D. Maria. Neste contexto, as negociações avançariam enquanto os jovens amadureciam. Em Portugal, contudo, a oposição a este projeto se avolumava. Entre as importantes figuras da corte que se mostravam contrárias, incluíam-se o conde de Vimioso e o marquês de Vila Real. Como alternativa, eles sugeriam o casamento da infanta com seu tio ainda solteiro, D. Luís, como forma de preservar a Casa de Avis no trono caso o pior ocorresse com a morte do doente príncipe D. João. O casal real, contudo, opôs-se, principalmente D. Catarina. Embora a historiografia tradicional costume ver tal insistência no casamento espanhol como prova que a rainha já planejava entregar o trono de Portugal à Casa de Habsburgo, não é de fato difícil compreender a vontade de uma mãe, criada em penúria e exílio, de possibilitar o melhor para sua filha. E, na mentalidade do período, isso significava conseguir para ela a melhor união possível.

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A princesa Maria pouco após o nascimento de seu filho, conforme representado na série Carlos, Rey Emperador

O contrato de casamento entre o príncipe e a infanta acabou sendo assinado em 1 de dezembro de 1542, e incluiu a previsão de outro matrimônio mais a frente entre o príncipe D. João e a irmã de Felipe, Joana. Depois de serem obtidas as devidas dispensas papais, o casamento por procuração ocorreu em maio de 1543, embora a agora princesa de Astúrias só tenha partido rumo ao seu novo lar em 10 de outubro. Apesar de ser descrita como bela em correspondências oficiais, D. Maria possuía o famoso maxilar da Casa de Habsburgo, o que junto com sua corpulência herdada do pai tornava sua aparência pouco graciosa para os padrões atuais. De qualquer forma, o príncipe Felipe mostrou-se ansioso para conhecer a esposa, disfarçando-se entre os nobres que acompanharam a infanta em sua entrada na cidade de Salamanca, onde se efetuou a segunda cerimônia de matrimônio em 13 de novembro. Pouco tempo após a consumação física da união, porém, ele pareceu perder a animação inicial em relação à D. Maria e iniciou seu longo caso com Isabel de Osório, uma beleza loira que servia como dama de companhia de sua irmã. Apesar disso, ele ainda seria capaz de engravidar a esposa, para a satisfação da rainha D. Catarina, tão ansiosa com o tema que fazia questão de saber a frequência das visitas conjugais de Felipe. Em 8 de julho de 1545, nasceu o bebê, batizado em homenagem ao avô paterno. O parto, contudo, fora difícil e demorado, e a princesa acabou morrendo alguns dias depois do nascimento do príncipe Carlos após sofrer uma série de hemorragias. O choque deste acontecimento pareceu ter atingido especialmente o rei português, que a partir daí passou a delegar cada vez mais responsabilidades à esposa, até o ponto que era D. Catarina a virtual governante do reino.

Seu último filho vivo era o frágil príncipe D. João. Constantemente febril, ele demorara tanto a falar que se pensara por algum tempo que era surdo-mudo. Ao se desenvolver, porém, o príncipe demonstrou ser altamente inteligente, apesar de ter um temperamento difícil, em grande parte decorrente dos cuidados sufocantes a que era submetido. Apenas um ano antes de seu casamento com Joana de Áustria, por exemplo, ele ainda dormia junto à mãe nos aposentos dela, apesar de tradicionalmente já ter direito aos seus próprios aposentos. Mesmo com todas as preocupações com a saúde do príncipe, contudo, as questões sucessórias de Portugal não permitiriam que nova união com Espanha fosse adiada, e ela ocorreu em 11 de janeiro de 1552, apesar da infanta Joana só se reunir ao marido em dezembro – provavelmente por estratégia paterna, que, aliás, usara de novo os bens de sua reclusa mãe para pagar o dote de uma Habsburgo. Depois do encontro, porém, a paixão tomou conta do jovem príncipe D. João, que exercia seus direitos conjugais em toda oportunidade. Não demorou para a princesa engravidar, e para a alegria do reino a gestação transcorreu normalmente mesmo após o príncipe ficar bastante doente em outubro de 1553. Separada do marido por intervenção da rainha D. Catarina, Joana não testemunhou ou mesmo soube – oficialmente, ao menos – do colapso de D. João em seus aposentos em 2 de janeiro de 1554, seguida por sua morte no mesmo dia.

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Joana de Áustria

Apesar do sofrimento inimaginável ao ver partir o último de seus filhos, o casal real de tudo fez para que a nora não soubesse do falecimento. Ao visitá-la, retiravam as vestes de luto e proibiam a todos que as usassem enquanto serviam Joana, embora a princesa chorasse em privado. No dia 19 de janeiro, começaram as dores do parto, que foi acompanhado de perto por D. Catarina. Do lado oposto ao marido nos aposentos de Joana, ela pegava na mão da princesa e confortava-a entre contrações, até que na manhã do dia 20 de janeiro nasceu um menino saudável, para imenso júbilo da corte e da multidão reunida do lado de fora do paço da Ribeira. Em agradecimento à dádiva, a criança recebeu o nome do santo do dia: Sebastião. Três anos depois, quando D. João III faleceu, seria a rainha D. Catarina a regente deste pequeno menino que herdava o trono português.

Catarina de Áustria – parte IV

Após ser conduzida pelo duque de Medina Sidônia e pelo bispo de Siguenza, entre outros nobres da aristocracia castelhana, Catarina foi recebida na vila portuguesa de Elvas pelos infantes D. Luís e D. Fernando, seus cunhados, além do duque de Bragança. Encontrando-se com a nova rainha em meados de fevereiro de 1525, os três beijaram de imediato a mão dela em sinal de respeito, conforme ordenara o irmão em suas instruções detalhadas. Mas quem eles e os populares que saudavam com alegria a consorte viram exatamente sobre o cavalo? A imagem mais famosa de Catarina, onde ela aparece já depois de anos de trágicas experiências, não nos devem enganar para as possibilidades – na juventude, a rainha provavelmente era bela. De cabelos claros e graciosa, era dito inclusive que ela se parecia com o falecido pai Felipe, duque de Borgonha, cognominado O Belo. Considerando-se que sua mãe Joana fora a mais bonita das filhas da Isabel I de Castela, é pelo menos aceitável presumir que a beleza de Catarina pudesse rivalizar com a de sua irmã mais velha Leonor; por outro lado, o silêncio dos cronistas do período sobre a aparência da irmã caçula do imperador pode indicar que, em realidade, ela não se destacava neste quesito.

De qualquer forma, o primeiro encontro oficial do casal – já que não é improvável que o rei tivesse se disfarçado entre os demais nobres para testemunhar a entrega da esposa em Elvas, como faria seu sobrinho Felipe anos depois – pareceu já peculiarmente íntimo, com ambos se abraçando antes de D. João III conduzir Catarina pela mão até o estrado. Nada indica, contudo, uma atração física imediata, como aconteceria logo no ano seguinte no primeiro encontro entre Carlos V e D. Isabel. No dia seguinte, uma segunda cerimônia de casamento entre ambos ocorreu na igreja de São Francisco, mas outro dia se passaria antes que, nas palavras do cronista Gaspar Correia, o rei “houve dela a primeira noite”.

Com a consumação do matrimônio, Catarina de Áustria assumia sua mais importante função como rainha: gerar e parir crianças, preferencialmente meninos, que pudessem no futuro continuar a dinastia de Avis. Como filha da fértil rainha Joana e sobrinha da impressionante Maria de Aragão, as possibilidades de Catarina pareciam realmente ótimas numa época em que se acreditava que a mulher era a principal responsável pelo sucesso, ou fracasso, das gestações. Em pouco tempo, a promessa de fertilidade foi cumprida. A rainha daria à luz seu primeiro filho, o príncipe D. Afonso, em 24 de fevereiro de 1526, pouco mais de um ano após o casamento; o bebê, contudo, era pouco saudável, e morreria em junho. Apesar de toda a tristeza, isso não era realmente nada incomum numa era de alta mortalidade infantil; o importante era que a mulher fosse fértil. Logo no ano seguinte, Catarina provou mais uma vez que o era ao ficar grávida novamente.

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A infanta D. Maria na série Carlos, Rey Emperador, interpretada por Itxaso Arana

De acordo com o espírito do início da época moderna em Portugal, esperava-se um novo menino para o casal real, mas quem nasceu em 15 de outubro de 1527 foi uma saudável menina, D. Maria. De qualquer maneira, ocorreriam grandes festas comemorando o evento, embora um varão possivelmente já fosse aguardado com alguma ansiedade. Em 29 de abril de 1529, a rainha teve outra menina, D. Isabel. Ela, contudo, não partilhava da mesma boa saúde de sua irmã mais velha, falecendo em 23 de julho pelo mesmo “postema da cabeça que lhe veo a furo” que vitimara seu irmão. Em 31 de março ou 7 de abril do ano seguinte, viria prematuramente à luz mais uma menina, D. Beatriz. Também de pouca saúde, ela faleceria no primeiro dia de agosto de 1531, vítima de repetidas convulsões. Poucos meses depois, em 1 de novembro, depois de um parto difícil, nasceria o tão esperado menino. A chegada de D. Manuel foi amplamente comemorada, inclusive por seu poderoso tio materno, que deu uma grande festa em Bruxelas em honra ao novo príncipe. Em 25 de maio de 1533, nasceria outro menino, o infante D. Felipe, seguido em 16 de abril de 1535 por mais um varão, D. Dinis. A sucessão portuguesa pareceu assegurada por felizes meses.

Em 1537, contudo, a tragédia novamente atacaria D. João III e D. Catarina: logo em 1 de janeiro, morreria D. Dinis, e em 14 de abril, faleceria o herdeiro do trono D. Manuel, ambos provavelmente vitimados por convulsões, assim como a falecida infanta D. Beatriz. Os monarcas ainda tinham, porém, D. Felipe e D. Maria, e a rainha estava grávida de mais uma criança; vindo à luz em 3 de junho, o menino foi chamado de João. Em 1539, pouco depois de ter nascido o infante D. Antônio em 9 de março, morreria D. Felipe. E, em 20 de janeiro de 1540, falecia o próprio D. Antônio. Das 9 crianças que tivera, Catarina agora só tinha 2 vivas junto a si.

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O príncipe D. João

Apesar do profundo impacto e tristeza inimaginável pela perda de tantas crianças, a rainha ainda tinha funções reprodutivas a cumprir para os padrões da aristocracia europeia; afinal, com apenas 33 anos, Catarina ainda poderia gerar mais alguns infantes e, assim, garantir que Portugal teria um herdeiro mesmo se o frágil príncipe D. João viesse a falecer, como tantos esperavam. Mas não haveria mais crianças do casamento entre D. João III e Catarina de Áustria. Em uma recente biografia da rainha, é especulado que ela pode ter tido uma obstrução tubária após o nascimento do último filho, motivo pelo qual seus esforços para engravidar novamente não tiveram sucesso. No início da década de 1540, ficou claro que a sucessão de Portugal equilibrava-se entre um príncipe frágil e uma robusta infanta. Neste contexto, o futuro matrimônio de D. Maria passou a ser um assunto de grande interesse.

Catarina de Áustria – parte III

Mesmo que no final ela tivesse que retornar à companhia da mãe, o fato é que a vida da infanta Catarina melhorou muitíssimo após a tentativa de fuga frustrada engendrada pelo irmão. Apesar de ter continuado nos aposentos contíguos aos de sua mãe, ocorreram obras para melhorá-lo, que incluíram não só mais janelas como também uma escada que dava acesso ao exterior do palácio. Além disso, a infanta recebeu permissão para passear no campo eventualmente e conviver com mais jovens de sua idade. Carlos também enviava presentes e dinheiro à ela. Ambos, contudo, eram com grande frequência desviados, a ponto de Catarina pedir ao rei que apenas atendesse aos pedidos que ela mesma fazia. A infanta também recepcionaria um novo professor de dança, um português chamado Francisco Dias.

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Um jovem Carlos V

Entretanto, a importância política de Catarina apenas despertaria quando ela se tornou uma jovem casadoira em sequência da Revolta das Comunidades de Castela. Ocorrida entre 1520 e 1522, esta contenda entre a burguesia das cidades e Carlos V, que elevara os impostos e nomeara conselheiros estrangeiros quando se tornara monarca, mostrou ao recém-proclamado imperador que suas bases de poder em Castela não estavam tão fortificadas quanto poderia se imaginar. Afinal, uma das primeiras paradas dos rebeldes fora exatamente Tordesilhas, onde eles haviam declarado apoio à sua legítima soberana, a rainha Joana. Neste contexto, Carlos voltou seu olhar para a irmã solteira de quase 16 anos. Aquelas não seriam, porém, as primeiras negociações matrimoniais em que Catarina se veria envolvida. Ainda no contexto da negociação para sua eleição como Sacro Imperador Romano em junho de 1519, Carlos acertara o casamento da irmã com o sobrinho do eleito do Saxe em troca do apoio deste. Com a vitória assegurada, contudo, o compromisso foi esquecido e devidamente revogado por meio de uma declaração pública da própria infanta retida em Tordesilhas.

Durante a estadia dos revoltosos junto à sua mãe é que seria proposto pela primeira vez um casamento da infanta Catarina em Portugal. A intenção era conseguir o apoio de D. Manuel I ao movimento, o que acabaria não ocorrendo. Provavelmente o rei português jamais tivera intenção de aceitar a infanta em tais termos; afinal, ele era aliado com Carlos V por casamento, com D. Manuel I já tendo se unido com a irmã dele, Leonor, e tendo boas esperanças de casar o imperador com sua filha mais velha, D. Isabel. A morte do rei em dezembro de 1521, de qualquer forma, deixou estas questões matrimoniais em suspenso. O sucessor de D. Manuel I era seu filho, o príncipe D. João, ainda solteiro após a confusa conspiração, anos antes, que resultara no matrimônio de seu próprio pai com sua prometida Leonor.

Agora, acontecia da irmã mais velha do imperador ser uma viúva com direito a um grande dote. Por algum tempo, parte substancial da corte portuguesa, liderados por D. Jaime, duque de Bragança, defendeu a união do novo rei com a viúva de seu pai. A Câmara de Lisboa também era a favor do casamento, inclusive requerendo-o ao rei com uma linguagem inflamada. Apesar de todo este apoio às núpcias, elas não pareciam de fato destinadas a ocorrer, já que em maio de 1523 a rainha viúva retornou para junto do irmão em Castela, deixando para trás a filha D. Maria. Catarina fora a escolhida para casar-se com D. João III num arranjo nupcial duplo que também incluía a irmã do rei português, D. Isabel, que por fim se uniria a Carlos V.

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Catarina representada como sua santa homônima na época de seu casamento

Depois de longas negociações sobre o dote que seria devido à sexta filha de Joana de Castela, o casamento por procuração finalmente ocorreu em 10 de agosto de 1524 em Tordesilhas. Estavam presentes a infanta Catarina, Carlos V e os embaixadores portugueses, e talvez até mesmo a rainha Joana, embora isso seja algo improvável. A partida ocorreria em janeiro de 1525. A infanta não quis despedir-se da mãe, temendo o último encontro e inclusive desmaiando brevemente de emoção antes de finalmente deixar o palácio onde passara sua juventude. Esta fase da sua vida acabara, mas continuaria para a rainha Joana por longos anos, até que finalmente a morte chegasse em 1555.

Catarina de Áustria – parte II

Nos primeiros anos, a jovem infanta viveu esquecida em Tordesilhas. Última das filhas de Joana e Felipe, ela não tinha significado político especial para nenhum dos lados, diferentemente, por exemplo, de seu irmão Fernando; nascido em Espanha, ele não apenas servia como reserva no caso de falecimento precoce de seu austríaco irmão Carlos, mas também como uma possível alternativa a ele, motivo pelo qual seu avô responsabilizou-se por sua criação. Neste contexto, parece evidente o motivo pelo qual detalhes dos anos iniciais de vida de Catarina são pouco conhecidos, ou até mesmo completamente desconhecidos. Não sabemos, por exemplo, o nome de sua ama, que certamente a amamentou no lugar de sua mãe Joana, conforme era o costume da aristocracia. Conhecemos, porém, a identidade de seu mestre: tratava-se de Juan de Ávila, um franciscano de confiança da rainha Joana. Como este é o único nome constante relacionado à educação da infanta, podemos deduzir que Catarina, ao contrário de muitas damas renascentistas, não teve vários instrutores. Neste sentido, ela caminhava para não ser nem de perto tão culta quanto sua mãe Joana e suas tias ainda vivas, Maria e Catarina.

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Leonor (Marina Salas), Catarina (Guiomar Puerta), Joana (Laia Marull), Chiévres, homem de confiança do rei (Helio Pedregal) e Carlos (Álvaro Cervantes) na série Carlos, Rey Emperador

Quando da morte de seu avô Fernando em janeiro de 1516, as condições de vida em Tordesilhas tornaram-se um pouco menos sufocantes, apesar do fato nunca ser abertamente dito à rainha reclusa. Pela primeira vez, por exemplo, a infanta passou a ter alguma companhia de sua idade, e uma janela foi aberta no quarto daquela menina que mal deixava a companhia de sua mãe desde o nascimento. Pouco depois, ela e Joana receberam a visita do novo rei Carlos, juntamente com a irmã Leonor. Catarina jamais vira os irmãos, deixando-os impressionados com sua figura humilde. Joana, por sua vez, que não via os filhos desde que eram crianças, ficou emocionada, mas desconcertada, tendo até supostamente perguntado se eles eram mesmo os filhos dela antes de abraçá-los. Mesmo com toda a sentimentalidade, contudo, o objetivo de Carlos ali era mesmo a permissão solene da mãe para que ele pudesse governar, teoricamente em nome dela. Joana a concedeu, mas seu cativeiro não seria suspenso.

Quanto à irmã Catarina, contudo, Carlos já tinha outros planos. Ele pretendia que a infanta fosse retirada de Tordesilhas e levada para a corte espanhola, onde viveria e seria educada de acordo com a sua posição. Contudo, os fortíssimos sentimentos da rainha pela última filha que verdadeiramente lhe restava tornavam inevitável que a fuga de Catarina fosse tão secreta quanto possível. Ao anoitecer de outro dia tranquilo no palácio, foi aberto um buraco na parede do quarto da infanta, coberto depois por uma tapeçaria. No meio da madrugada entre 12 e 13 de março de 1517, a jovem foi despertada por uma de suas damas e deparou-se com o mordomo-mor da rainha, Bertrand de Plomont, e avisada de tudo, após o qual foi vestida e levada pelo buraco até o exterior. Na ponte sobre o Douro, encontrou-se com o senhor de Trazegnies, gentil-homem da câmara da infanta Leonor, que com algumas damas e duas centenas de homens a cavalo tinha ordens para levar Catarina até o irmão.

Uma vez na corte espanhola, a infanta despiu-se de suas humildes vestes e colocou um traje violeta de cetim bordado a ouro, vestindo-se assim pela primeira vez de acordo com sua posição como arquiduquesa e irmã do rei de Espanha. Depois, ocorreriam justas e danças em comemoração à chegada de Catarina, que durariam até a chegada das reações da rainha ao sumiço da filha, que ela imaginava ter sido sequestrada. Desnorteada após não encontrar Catarina no palácio, Joana declarou que não mais se alimentaria ou dormiria até que ela retornasse. Sem escolha, Carlos não só consentiu com o desejo da mãe, mas também assumiu toda a responsabilidade pelo ocorrido quando foi a Tordesilhas devolver a irmã.

Catarina de Áustria – parte I

Filha póstuma de Joana de Castela e Felipe, duque de Borgonha, a infanta Catarina nasceu em 14 de janeiro de 1507. Esta última gestação da rainha foi, de fato, dramática: depois de uma estadia algo forçada em Inglaterra, onde o bebê foi concebido, uma fragilizada Joana foi para Castela, apenas para testemunhar a virtual guerra entre seu marido Felipe e seu pai Fernando para controlá-la e, assim, exercer a dignidade real numa Castela dominada pela peste e pela fome. Inesperadamente, em 25 de setembro de 1506, Felipe faleceu, provavelmente de febre tifoide, embora a possibilidade de envenenamento não possa ser eliminada.  Em estado de choque, sua viúva ia com frequência à sepultura beijar os pés do cadáver, o que apenas realçava ao público seu desequilíbrio psicológico, causado provavelmente ou por depressão crônica ou por esquizofrenia. Finalmente, em dezembro, Joana ordenou que se retirasse o caixão do mosteiro onde se encontrava e levou-o consigo em sua comitiva até Granada, onde pretendia enterrar seu marido junto à sua mãe, Isabel I de Castela. Estando com a gravidez muita avançada, contudo, a rainha teve que se deter na humilde casa de um clérigo em Torquemada. Lá, ela deu à luz uma menina saudável, batizada em homenagem à sua irmã mais nova, a princesa viúva de Gales.

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Joana e Felipe em seu conflituoso matrimônio, conforme representado na série Isabel (2011-14)

Por meses, a rainha permaneceu em Torquemada com sua filha recém-nascida e outro filho, o infante D. Fernando, enquanto a peste e a fome se espalhavam cada vez mais. Os boatos diziam que ela fora convencida que seu marido ressuscitaria em breve, mas em abril ela finalmente continuou seu caminho até Granada. Em agosto, o próprio rei Fernando foi encontrar-se com sua filha, revendo-a na província de Burgos em 29 de agosto de 1507, para emoção de ambos. Passariam semanas juntos, participando inclusive das cerimônias religiosas pelo primeiro ano de morte de Felipe. Em breve, contudo, a percepção da instabilidade de sua filha, juntamente com a ameaça da vinda do imperador Maximiliano para Castela, a fim de servir como regente do primogênito de Joana, Carlos, precipitou a decisão de Fernando em transferir a corte da filha para Tordesilhas. Joana, entretanto, resistia a qualquer mudança e ainda encontrava-se em Arcos quando 1507 se tornou 1508, com o corpo de Felipe ainda insepulto. Em julho, Fernando II de Aragão, em tese regente de Castela pelos termos do testamento de sua esposa, ordenou que seu neto homônimo fosse retirado da mãe e levado até ele. A rainha resistiu inicialmente, mas acabou cedendo, para seu grande abatimento. Seria apenas em fevereiro de 1509, porém, que a rainha Joana e a pequena Catarina, acompanhadas pelo rei Fernando, se dirigiram até Tordesilhas.

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Fernando II de Aragão

A multidão que os recepcionou e observou uma mulher bela, mas enfraquecida, entrar na bem murada vila régia de Tordesilhas, residência de monarcas de Castela banhada pelo rio Douro, dificilmente poderia prever que seria ali que a rainha passaria a esmagadora parte dos próximos 46 anos como prisioneira (1), enquanto seu pai e seu filho usurpavam seu poder ao aproveitar-se de sua fragilidade psicológica. Durante os primeiros 16 anos, sua caçula seria uma companheira constante. Apegada à filha até o ponto da obsessão após a partida de seu filho Fernando, a rainha ordenou que a menina dormisse num quarto adjacente aos seus próprios aposentos, localizados num canto isolado do palácio. Além disso, Joana exigia que todas as janelas ficassem permanentemente fechadas. Foi, então, no silêncio e no escuro que a pequena Catarina se desenvolveu.

(1) Com exceção do período entre 1533-34, quando a rainha teve que ser retirada de Tordesilhas pela ameaça crescente da peste.