Maria Francisca de Saboia – parte III

Um grupo formado por três autoridades eclesiásticas, quatro desembargadores e quatro cônegos julgaria se o pedido de anulação de Maria Francisca procedia. Para provar a suposta impotência completa do marido, a rainha lançaria mão de nada menos do que 55 testemunhas, das quais no mínimo 14 seriam mulheres entre 15 e 30 anos de idade que supostamente teriam, em algum momento no passado, se deitado com D. Afonso VI; enquanto isso, o rei não tinha nenhuma testemunha a seu favor. Segundo seus depoimentos, a maioria das depoentes femininas teria sido abordada indiretamente e levadas ao paço real por criados. Entretanto, nada ocorria quando elas ficavam prostradas nuas no leito com o rei. Uma delas, Jacinta Monteiro, descreveria como “o membro viril ora derramava semente extravas, sem que nunca nas três noites e três dias o pudesse fazer intravas” – querendo dizer, é claro, que não ocorrera penetração. Ela inclusive diria que deixara o paço ainda como uma donzela.

Outra testemunha, Joana Tomázia, comentaria como a virilidade do rei era diferente dos demais homens que ela já conhecera, descrevendo como quando D. Afonso VI “derramou semente, ficou como o de uma criança, e muito desigual quando estava erecto, por ser muito mais delgado na raiz do que na extremidade”. Outra mulher, Catarina Henriques, que teria partilhado a cama com o monarca por anos, testemunharia como os testículos do rei eram desiguais, dizendo que era “um maior e outro muito mais pequeno”. Outras testemunhas chegariam ao ponto de descrever o sêmen do rei, como Jerónima Pereira, que se espantara com o cheiro do líquido, e Teresa de Jesus, que ficara impressionada com sua quantidade e cor amarelada. Joana de Saldanha, por sua vez, diria que Sua Majestade era muito cansado para o ato, e ele mesmo dizia explicitamente que não podia efetuá-lo porque era um velho – mesmo tendo apenas 24 anos de idade na época. Durante tudo isso, a rainha Maria Francisca não teve sua alegação de virgindade verificada por um exame físico sequer uma vez.

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O duque de Beja, futuro D. Pedro II de Portugal

Em 24 de março, a anulação foi anunciada como sendo de direito. D. Afonso VI foi então exilado numa ilha em Açores, deixando o governo a cargo de seu irmão mais novo, enquanto Maria Francisca ficou livre para se casar novamente após a aprovação pública do procedimento de anulação por parte do papa, que só foi oficialmente liberada em dezembro; a essa altura, porém, ela já estava na reta final de sua primeira gravidez. Ela e D. Pedro haviam se casado em uma cerimônia apressada em dois de abril de 1668, numa união que, embora requisitada pelas Cortes, não provocou muito entusiasmo, e Maria Francisca daria à luz a uma menina – nomeada Isabel Luísa numa provável homenagem conjunta às respectivas mães do casal – em seis de janeiro de 1669. Essa infanta seria jurada herdeira do trono em 1674 e educada pessoalmente por sua mãe, que, apesar de toda a sua dedicação, ainda precisava gerar um menino para o marido; certamente, tentativas neste sentido existiram.

Poucos meses após o nascimento da primogênita, parece que Maria Francisca teve um aborto espontâneo no início da gestação. No ano seguinte, ocorreu uma suspeita de gravidez, que parece ou não ter sido confirmada como real ou também terminado logo em seu início. Em fins de 1670, finalmente, a rainha sofreu seu último aborto quando se dirigira para confrontar o marido com uma suposta amante em Salvaterra. Não houveram mais crianças para se juntar a Isabel Luísa. Eventualmente conhecida como A Sempre Noiva, ela teve aproximadamente 15 pretendentes à sua mão durante variados momentos da vida, sendo os mais notáveis o primogênito do grão-duque da Toscana, o herdeiro de Parma, o delfim francês, o rei de Espanha e o duque de Saboia, este um primo com o qual Isabel Luísa ficaria comprometida. Hesitações por parte de ambos os lados e uma longa doença do duque, porém, impediram um acerto nupcial definitivo.

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Princesa Isabel Luísa

A princesa herdeira jamais se casaria, o que afligiria sua mãe até sua morte precoce em 27 de dezembro de 1683, aos 37 anos, curiosamente poucos meses após D. Afonso VI. Mesmo que seu decaimento por sífilis possa ter sido possibilitado pela transmissão feita por seu marido, o testamento da rainha é amoroso em relação ao agora D. Pedro II de uma maneira pouco habitual para a época, contendo sentenças como “sempre desejei quanto coube na humana fragilidade servir e agradar a el rei meu senhor e marido e porque Sua Majestade é fiel e verdadeira testemunha do muito que sempre o amei”. O caixão contendo o corpo de Maria Francisca de Saboia eventualmente seria depositado no Convento do Santo Crucifixo das Religiosas Francesas. Sua única filha, Isabel Luísa, faleceria após adoecer com varíola em 1690, enquanto seu segundo marido se casaria novamente em 1687 com Maria Sofia de Neuburgo, tendo com ela sete filhos – incluindo seu eventual sucessor, D. João V.

 

Para saber mais:

http://www.sabado.pt/vida/detalhe/os-escandalos-dos-reis-d-afonso-vi-o-impotente-1643-1683

BORGES, Alexandre. “O monarca arruaceiro – Dom Afonso VI”. In: Histórias Secretas de Reis Portugueses. Casa das Letras: Alfragide, 2012.

BRAGA, Isabel M. R. Mendes Drumond. “D. Maria Francisca Isabel de Sabóia (1646-1683), Rainha de Portugal”. In: LOPES, Maria Antónia; RAVIOLA, Blythe Alice (orgs). Portugal e o Piemonte: A Casa Real Portuguesa e os Sabóias. Nove Séculos de Relações Dinásticas e Destinos Políticos (XII-XX). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.

Maria Francisca de Saboia – parte II

Talvez possamos explicar melhor a mudança de comportamento de Maria Francisca em relação a D. Afonso VI se forem considerados os atritos da rainha com Luís de Vasconcelos e Sousa, o conde de Castelo Melhor e o nobre mais influente perante o monarca, a ponto de existir uma facção que tramava sua queda do poder – liderada, aliás, pelo irmão de D. Afonso VI, o infante D. Pedro, duque de Beja. Em primeiro lugar, Maria Francisca viu suas esperanças de participar do Conselho de Estado frustradas pelo favorito, que não desejava que ela intervisse na governo.

Pouco depois, a consorte acabou por  se unir à conspiração francesa que desejava derrubar o conde para impedir que a paz com Espanha fosse efetuada, enfraquecendo esta e, assim, beneficiando os interesses de Luís XIV nos conflituosos Países Baixos. Paralelamente, é bastante possível que Maria Francisca fosse se cansando cada vez mais rápido de D. Afonso VI, seu comportamento bizarro e suas amantes; este parece ser um motivo racional para explicar como acabou se dando tão rapidamente a fusão do plano que queria tirar o conde de Castelo Melhor do poder e outro, mais novo em sua elaboração, que consistia em depor o obtuso rei.

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D. Afonso VI de Portugal

Contudo, podemos também considerar a importância crescente da atração que provavelmente se desenvolveu desde então entre D. Pedro, duque de Beja e irmão do rei, e a rainha Maria Francisca. Claro que temos em mente a lógica utilizada por Isabel Mendes Drumond Braga e pensamos que certamente houve um componente de interesse de ambos os lados no que em breve se constituiu em uma aliança marital – casando-se com o futuro regente ou possivelmente rei de Portugal, se a frágil saúde de D. Afonso VI falhasse, ela garantia sua posição e protegia-se contra o possível exílio junto ao monarca deposto, além de poder a vir ser uma regente incontestável para seu filho, como o fora sua sogra Luísa de Gusmão; pelo lado dele, tal matrimônio preservaria a importante aliança francesa.

Vemos aqui, então, que apesar de precisar de uma noiva nascida em França, o duque de Beja não necessariamente precisava contrair o que poderia ser visto como um escandaloso matrimônio com a antiga esposa de seu irmão mais velho. Desta forma, apenas podemos acreditar que uma forte paixão, mesmo que pouco duradoura em sua intensidade, atingiu aos dois em algum ponto de 1667. Paixão não consumada, arriscamos dizer; além do demasiado risco em pôr tudo a perder se um adultério da rainha fosse descoberto, não era o momento de arriscar que Maria Francisca concebesse uma criança de legitimidade duvidosa para suceder ao trono português. De fato, em outubro o embaixador inglês daria como certa a virgindade da rainha.

Pouco depois, em novembro, a acusação de tentativa de envenenamento feita ao conde de Castelo Melhor por parte de D. Pedro foi bem sucedida em afastá-lo do centro do cenário político, deixando D. Afonso VI vulnerável frente aos conspiradores. Finalmente, no dia 22, o infante e seus partidários se apresentaram frente ao rei e solicitaram que este lhes entregasse o governo. Como o monarca resistiu, foi preso. Após convocar as Cortes, reunidas em janeiro seguinte, D. Pedro foi jurado regente de um irmão ao qual ainda jurava lealdade. Ainda antes, porém, Maria Francisca refugiou-se no Convento de Nossa Senhora da Esperança e pediu a anulação de seu casamento com D. Afonso VI com base na não consumação da união. O julgamento a respeito, ocorrido com rapidez pouco habitual, foi meticulosamente registrado em um dos documentos mais extraordinários do período: o Causa de nulidade de matrimónio entre a rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboya e o Rei D. Afonso VI, manuscrito hoje localizado na Torre do Tombo.

Capa da “Causa da nulidade do casamento de D. Afonso VI e Maria Francisca de Sabóia”.1667 1668
Capa do registro do processo de anulação do matrimônio de Maria Francisca e D. Afonso VI

Maria Francisca de Saboia – parte I

Em 21 de junho de 1646, nascia em Paris a segunda filha de Carlos Amadeu, duque de Nemours, de Aumale e Genevois, e Isabel de Bourbon-Vendôme, descendente por via ilegítima de Henrique IV de França, chamada de Maria Francisca Isabel (1). Horas depois, viria ao mundo seu irmão gêmeo, José, que era o primeiro herdeiro homem do duque. O casal já tinha antes do nascimento duplo uma menina, Maria Joana, e viria a ter mais dois filhos depois de Isabel e José: Francisco e Carlos Amadeu. Tragicamente, apenas as meninas sobreviveriam à infância, e ficariam órfãs de pai logo em 1652, na sequência de um duelo dele com o duque de Beaufort, seu próprio cunhado.  Enviuvada, Isabel de Bourbon-Vendôme retirou-se para o convento de Fontevrault levando as filhas consigo. Elas tinham apenas oito e seis anos de idade. Lá, Maria Joana e Maria Francisca receberiam sua educação inicial por parte das religiosas que lá viviam. Anos depois, quando a duquesa sentia sua saúde declinar, levou as filhas já núbeis para Paris, onde as deixou ao cargo do avô materno, o duque de Vendôme, pouco antes de falecer em 1664. Poucos meses depois, contudo, este também morreria, deixando as netas temporariamente recolhidas em variados conventos enquanto se acertavam os detalhes das núpcias delas.

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Isabel de Bourbon-Vendôme, mãe de Maria Francisca

Aparentada com reis franceses, incluindo Luís XIV, o soberano na época das negociações, e, juntamente com a irmã, possuidora de um dote valioso, a inteligente Maria Francisca despertava há anos o interesse do mercado matrimonial europeu. Ainda enquanto a mãe dela vivia, houvera conversas sérias sobre um casamento com o duque de Saboia, e a duquesa viúva chegara a viajar para a corte do pretendente com as filhas, mas no final nenhum acordo foi feito. Em 1662, a primogênita Maria Joana se uniria ao duque de Lorena, e pouco depois, ao duque de Saboia. Pensou-se na época em núpcias de Maria Francisca com o conde de Vaudemont, mas nada acabou sendo acertado. Depois da morte da Isabel, a responsabilidade de conseguir um matrimônio para a segunda filha ficou com um primo de seu pai, César d’Estrées, bispo de Laon. Foi quando apareceu a possibilidade de casar a jovem Maria Francisca com D. Afonso VI de Portugal.

Tendo o poder efetivo há pouco tempo, o rei enfrentava dificuldades para efetuar núpcias, uma vez que a Casa de Bragança tinha legitimidade duvidosa enquanto dinastia reinante. Em 1652, enquanto D. João IV e o príncipe herdeiro D. Teodósio estavam vivos, tentou-se um contrato nupcial da deficiente criança com a filha do príncipe de Parma, mas as conversas não foram adiante. Anos depois, num contexto bélico entre Espanha e França, tentou-se uma união com Ana Maria, a filha do duque de Orléans, mas após muita demora a própria noiva – que estaria apaixonada por outro homem – optou por não seguir adiante no projeto matrimonial português. Seria quando o nome de Maria Francisca seria proposto pelo bispo de Laon ao responsável português em França para negociar as núpcias com Orléans, o marquês de Sande. Embora o acordo do matrimônio entre Maria Francisca e Afonso tenha ocorrido relativamente rápido, dois anos quase completos se passariam na discussão de minúcias em relação ao contrato nupcial até que, em fevereiro de 1666, um tratado efetivo fosse assinado. Em fins de junho, ocorreu o matrimônio por procuração, tornando Maria Francisca rainha de Portugal. Pouco depois, ela partiria em direção a Lisboa. Informados de um plano espanhol para sequestrar a rainha, sua comitiva francesa atrasou a partida em alguns dias, mas acabou por enfrentar uma série de calmarias e tempestades antes de, por fim, chegar à Portugal em dois de agosto.

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Maria Francisca de Saboia

Amplamente saudada pela artilharia portuguesa após o desembarque, Maria Francisca foi saudada por grande parte da nobreza e do povo. Seria em Alcântara o primeiro encontro da rainha com seu marido, e seria lá também onde receberiam as bênçãos solenes matrimoniais pelo bispo de Targa. Apesar disso, D. Afonso VI não partilharia o leito com a esposa até depois da entrada formal de ambos em Lisboa, que aconteceu no dia 29. Pouco depois, Maria Francisca escreveria a uma amiga em França que eles haviam consumado o casamento, e, para sua felicidade ser completa, apenas lhe faltava um filho. O embaixador de França em Portugal também deixaria seu testemunho que D. Afonso VI passava horas junto à esposa nos aposentos dela. Pouco depois, houve notícia de uma gestação, embora isso se provasse em pouco tempo apenas um boato. Aparentemente, deficiente ou não, o rei teria sucesso em engravidar de forma bem-sucedida sua rainha muito em breve, como desejado, mesmo que sua falha educação formal e eventual comportamento esdrúxulo provocassem comentários em certos círculos da corte. Neste contexto, como explicar, então, as supostas queixas de Maria Francisca quanto à total inabilidade sexual de seu marido, feitas depois ao seu confessor?

(1) No original francês, Marie-Françoise-Élisabeth.

Luísa de Gusmão – parte III

Embora seja improvável que Luísa de Gusmão tenha realmente pronunciado a sentença pela qual é mais conhecida para incentivar seu marido a aceitar a Coroa antes rainha por um dia do que duquesa por uma vida” -, Felipe IV certamente a tomou rapidamente como a consorte rebelada de um rei traidor, assim como seu valido Olivares. Furioso com a rebelião, este inclusive ordenaria ao irmão de Luísa, o duque de Medina Sidônia, que destruísse todos os registros dela dos livros da Casa, de maneira que não restasse nem rastro de sua memória. Da mesma forma, o pagamento do dote da duquesa de Bragança, ainda incompleto, deveria ser suspenso.

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Conde-duque de Olivares

Apesar de toda a cólera e troca incessante de responsabilidades pela revolta portuguesa que dominaria a corte Habsburgo nas semanas seguintes, a sobrevivência da nova dinastia era considerada improvável. O golpe que depusera a duquesa de Mântua, libertada por D. João IV em pouco tempo, era visto como a obra de poucos homens; logo, teria apoio insuficiente para aguentar por muito tempo. De fato, as várias deserções ocorridas nos primeiros meses deram suporte a tal ideia, assim como uma tentativa de assassinato sofrida pelo rei em agosto de 1641. Apesar disso, Espanha não pôde de fato capitalizar na fragilidade do inimigo e responder adequadamente, devido ao fato de suas forças militares, além de estarem divididas pela Europa, enfrentarem uma revolta particularmente engajada em Catalunha. Apenas nos primeiros meses de 1643 tropas Habsburgo seriam capazes de invadir Portugal, entrando no território pela região do Alentejo.

A situação enfrentada pela nova dinastia de Bragança, contudo, era menos frágil do que o visto pelo depreciativo julgamento do governo Habsburgo. D. João IV partiria para liderar seus exércitos contra os invasores e, assim, incentivar seus vassalos a acompanhá-lo, deixando a regência nas mãos de sua austera e religiosa esposa, grávida na época; em 21 de agosto ela daria à luz ao infante D. Afonso. O rei não estava presente ao parto, embora tenha visitado secretamente sua esposa e o bebê poucos dias depois. Seria aproximadamente neste período que uma amante desconhecida de D. João engravidaria, dando à luz uma menina em fins de abril do ano seguinte, que foi chamada de Maria. Apenas um mês depois deste nascimento, ocorreria a batalha de Montijo em Espanha, que teve um resultado indefinido ou, segundo Fernando Dores Costa, mesmo uma derrota portuguesa, mas foi tão massivamente louvada pela dinastia de Bragança que, até hoje, é considerada por alguns uma grande vitória de D. João IV. Embora tenha tido grande ressonância nas cortes europeias, porém, suas consequências militares foram quase nulas.

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O infante D. Afonso retratado em 1653

Dali por diante, a guerra caracterizou-se por eventuais escaramuças entre as tropas espanholas e portuguesas, causadas por ofensivas do último, até que, em 1647, D. João IV optou por uma mudança militar em relação a uma atitude meramente defensiva, o que descontentaria muitos, incluindo o bélico príncipe D. Teodósio, que seria eventualmente nomeado capitão-general do reino. Enfraquecida, Espanha também optaria por uma diminuição em suas atividades contra o reino vizinho. 1647 também marcaria uma grave doença do infante D. Afonso – possivelmente meningoencefalite – que o deixaria com o lado esquerdo de seu corpo paralisado, além de dificuldades na fala. Talvez foi temendo pela morte daquele que era o herdeiro alternativo ao trono que o casal real apressou-se em gerar outro filho; já em 26 de abril do ano seguinte nasceria o caçula de D. Luísa, o infante D. Pedro.

Depois de seu último parto, a rainha viveria anos tranquilos no Paço da Ribeira até 1653, que parece ter sido um dos piores anos de sua vida, assim como de seu marido. Em maio, morreu de tuberculose o talentoso príncipe D. Teodósio, numa perda lamentada por muitos no reino, uma vez que deixava como herdeiro do trono seu irmão D. Afonso, tido como incapaz devido às sequelas da doença de 1647; em novembro, faleceria a infanta D. Joana. Em novembro de 1656, por problemas nos rins, morreria o rei D. João IV. D. Luísa se tornaria, então, não apenas uma viúva, mas também a regente do reino até a maioridade de seu filho.

Luísa de Gusmão – parte II

Depois dos sete dias de festividades em comemoração ao matrimônio do duque, o Paço de Vila Viçosa voltou ao seu cotidiano habitual, e a nova duquesa assumiu suas novas funções. A principal, é claro, constituía na produção de filhos e filhas para o seu marido. D. João, contudo, fosse o quanto dedicado à composição de música sacra fosse, não parece ter se limitado seus desejos carnais ao leito conjugal. Em flagrante contraste com seu pai – e, na verdade, com toda a sua ascendência brigantina -, D. João produziria descendência ilegítima. Nos primeiros meses de seu matrimônio com D. Luísa, a esposa de André Mendes Lobo, rico lavrador e fiel servidor da Casa de Bragança, concebeu sua segunda filha. De acordo com rumores da época, reproduzidos por Felgueiras Gayo, a pequena Maria seria filha de D. Leonor com o duque, assim como a sua irmã mais velha D. Ângela. Toda a família seria muito beneficiada pela forte proximidade com D. João, principalmente as meninas, que efetuariam mais tarde casamentos vantajosos. Além disso, o duque de Bragança tinha frequentes ligações ilícitas com atrizes que trabalhavam em companhias de comédias, casos que eram do pleno conhecimento de sua negligenciada esposa.

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D. Teodósio retratado numa gravura do século XVII

O matrimônio, então, teve um começo atribulado. Mesmo assim, D. Luísa daria à luz ao primeiro filho do casal, Teodósio, em oito de fevereiro de 1634, pouco mais de um ano após o casamento de presente com D. João. A partir daí, vendo a produção regular de crianças, pode-se presumir que a desatenção do duque com sua esposa ficou relegada ao passado: logo no ano seguinte, nasceria Ana, que teve curta vida, seguida no mesmo ano por Joana. Em 1637, a duquesa teria um aborto, mas em 25 de novembro de 1638 teve outra menina, Catarina. D. Luísa teria outro aborto antes de ter mais um menino, Manuel, em setembro de 1640, mas ele viveu pouco.

Paralelamente ao trabalho reprodutivo da duquesa, D. João contemporizava perante as evidentes tentativas do conde-duque de Olivares para que ele participasse mais da política da monarquia hispânica. Enfrentando dificuldades financeiras decorrentes da Guerra dos Trinta Anos, o governo dos Habsburgo espanhóis planejava repartir entre todos os seus reinos ibéricos o custo humano e financeiro da política imperial de Castela. Tal ideia enfrentou evidente resistência da alta nobreza portuguesa, que combateu com afinco o planejado programa fiscal. Então, em 1634, a duquesa de Mântua foi nomeada como vice-rainha, substituindo o conde de Basto.

Primeira filha de Carlos, duque de Saboia, com a infanta Catarina, filha de Felipe II de Espanha, Margarida era parente próxima de Felipe IV. Aconselhada por apoiadores da política espanhola, a duquesa aquiesceu às exigências de Olivares, que foram ficando progressivamente mais duras em relação a Portugal. Nesta conjuntura, ocorreu uma sequência de más colheitas, degradando as condições de vida da população, que acabaria por se rebelar em Évora em 1637. Conhecido como Revolta do Manelinho ou Manuelinho, em referência a seu suposto líder popular, o movimento espalhou-se rapidamente, chegando a atingir Lisboa. Como governador-geral das armas, D. João foi chamado a Madri e ordenado a suprimir o movimento com força militar; contudo, ele dilataria tanto os preparativos que seria a mera ameaça dos exércitos castelhanos nas fronteiras portuguesas que acabaria por dar fim à revolta. Devido à liderança nominal do duque de Bragança destas tropas, porém, Felipe IV convenceu-se que D. João o servia fielmente. O monarca até mesmo teria considerado nomeá-lo como o novo vice-rei de Portugal, em substituição à sua prima Margarida.

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Margarida, duquesa de Mântua

Enquanto isso, a pressão no reino aumentava cada vez mais. Insatisfeitos com o governo Habsburgo, ao qual acusavam de quebrar o acordo efetuado em Tomar em 1581, parte da aristocracia portuguesa acabaria por iniciar preparativos para o golpe contra a Coroa após receber instruções de Espanha para enviar tropas para lutar na campanha contra a revoltosa Catalunha. Depois de muito hesitar, D. João concordou em 17 ou 18 de novembro de 1640 com a sua aclamação como o herdeiro legítimo do trono de Portugal. Foi planejado que a ação que deporia a soberania política Habsburgo ocorreria no dia 1 de dezembro, enquanto o duque aguardava com segurança em Vila Viçosa.

A insurreição ocorreu praticamente sem incidentes, excetuando-se a morte do secretário de Estado e genro de Margarida, Miguel Vasconcelos, que foi atirado pela janela do palácio. As notícias do sucesso chegariam ao conhecimento de D. João no dia seguinte, mas seria apenas no dia 4 que ele seguiu para Lisboa, reunindo-se com os governadores interinos no Paço da Ribeira em meio à concentração da população ao redor. Tantas teriam sido “as vozes alegres do povo”, segundo Ericeira, que o duque teve que aparecer numa das janelas, onde foi aclamado. Agora D. João era o rei de Portugal, e D. Luísa era sua rainha.

Luísa de Gusmão – parte I

Nascida em 13 de outubro de 1613, Luísa Maria Francisca de Gusmão foi a primogênita do casamento entre João Manuel Pérez de Gusmão, duque de Medina Sidônia, com Joana Gomes de Sandoval e Cerdas, filha do duque de Lerma, favorito de Felipe III. Desde sua infância, era evidente que um matrimônio prestigioso a aguardava; não apenas devido ao fato que era a filha mais velha, mas também porque os Medina Sidônia pertenciam à alta nobreza espanhola, sendo quase tão influentes quanto a Casa reinante.

Pensando no fato que Luísa era descendente direta de vários reis de Portugal por via paterna e materna, se poderia concluir hoje que núpcias neste sentido foram consideradas para ela desde cedo. Aparentemente, contudo, este não foi o caso; na verdade, o duque de Medina Sidônia não parecia ter tanta pressa para casar sua filha, visto que Luísa ultrapassou bastante a média de idade de casamento na aristocracia. Talvez isso tenha se devido a possíveis planos que o conde-duque de Olivares, o favorito do novo monarca, alimentava em relação a um hipotético casamento da jovem com o duque de Bragança, D. João, quase dez anos mais velho.

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D. João retratado em 1628

Se Luísa estava demorando a ser casada por seu pai, o mesmo poderia ser dito até fins do ano de 1630 em relação a D. João. Embora parte da tranquilidade do duque D. Teodósio quanto às núpcias do herdeiro possa ser atribuída ao fato que ele tivera outros dois filhos varões com sua esposa espanhola, é defendido por grande parte da historiografia sobre o tema que as negociações envolvendo filhas dos duques de Parma, Saboia, Mântua e Modena foram inviabilizadas por agentes de Felipe IV ou de seu favorito Olivares, com a intenção de impedir alianças matrimoniais possivelmente danosas aos Habsburgo. Entretanto, como apontam as autoras de uma recente biografia de D. João IV, as negociações feitas a mando de D. Teodósio foram discretíssimas, exatamente para evitar que Madri tomasse conhecimento das intenções da Casa de Bragança, o que fragiliza a ideia que o rei ou o valido interferiram na questão do casamento de D. João.

Seja como for, D. Teodósio faleceu em novembro de 1630 sem ver o primogênito casado. Quase que de imediato, o novo duque acionou contatos familiares em Espanha para negociar um matrimônio favorável aos interesses de Felipe IV, e rapidamente ouviu falar da primogênita da poderosa Casa de Medina Sidônia, com a qual um antepassado seu, D. Jaime, já havia se consorciado mais de um século antes. O rei espanhol, por sua lado, julgava que um casamento entre ela e o duque de Bragança estabeleceria firmemente D. João em sua órbita de influência sem necessitar de um casamento desde com alguma parenta Habsburgo, enquanto o duque de Bragança estava interessado em se beneficiar ao agradar seu monarca e o valido deste ao aceder aos seus interesses.

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Luísa de Gusmão em sua juventude

Além de todas as motivações políticas, contudo, devemos considerar a importância dos atributos físicos da formosa Luísa para firmar a decisão do mulherengo D. João em se casar com ela; com quase 18 anos, ela seria descrita como tendo grandes olhos negros e “entremadas partes”. Em pouco tempo, o contrato nupcial seria acertado, com amplas mercês sendo concedidas à Casa de Bragança, e, depois que uma licença papal devido ao parentesco dos noivos foi concedida, Luísa tornou-se a nova duquesa por um casamento por procuração. Pouco depois, ela iniciou sua viagem para o novo lar.

A rainha do Piedoso: Margarida de Áustria – parte I

Nascida no dia de Natal em 1584, Margarida de Áustria era mais uma das muitas meninas que vieram do casamento entre Carlos II, arquiduque de Áustria – terceiro filho de Fernando I, Sacro Imperador Romano e irmão mais novo de Carlos V -, com sua sobrinha Maria Ana de Bavária. Quando Margarida ainda era uma criança, seu pai faleceu, deixando a esposa grávida e mais doze filhos e filhas, incluindo seu herdeiro, Fernando II, que somente tinha doze anos quando sucedeu ao pai. A morte do arquiduque, contudo, não diminuiu o valor de Margarida e suas irmãs no mercado matrimonial europeu; afinal, elas ainda eram primas do Sacro Imperador Romano Rodolfo II, além de pertencentes à poderosa Casa de Habsburgo. Inclusive, quando as negociações para casar a jovem Margarida com o herdeiro do trono espanhol começaram, sua irmã mais velha Ana já era casada com o rei de Polônia, Sigismundo III; depois da morte desta, outra irmã, Constança, a seguiria como rainha.

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Felipe II de Espanha

Em verdade, não importava tanto qual das filhas ainda solteiras da arquiduquesa viúva Maria Ana seria a futura rainha de Espanha; afinal, não era como se Felipe II tivesse muitas opções de Casas para casar seu filho. Portugal, que por tanto tempo procurara noivos em Espanha, estava agora fora do jogo, tanto pela disputa dinástica ainda fresca entre os Bragança e os Habsburgo (1) quanto por uma questão financeira de rendimentos, considerada desvantajosa comparada com, por exemplo, Casas italianas ou mesmo castelhanas. Inglaterra, liderada por Isabel I, também não apresentava noivas viáveis, assim como Escócia e França, cujos monarcas não tinham filhas legítimas. Entre os principados italianos, contudo, uma boa opção teórica estava em Saboia; pouco antes do nascimento de Margarida, entretanto, ali fora casada a filha mais nova de Felipe II, a infanta Catarina Micaela. Em contraste, o ramo austríaco dos Habsburgo trazia consigo, além do ideal de fortalecimento dinástico, uma promessa de fertilidade: a mãe de Margarida tivera nada menos do que quinze crianças, das quais boa parte sobrevivera. Num tempo em que os antecedentes familiares eram julgados como fundamentais para prever a capacidade reprodutiva da esposa, Margarida e suas irmãs estavam muito bem situadas.

De fato, ao menos desde 1593 a ideia já passava pela cabeça de Felipe II, uma vez que foi aproximadamente nesta época que negociações da Casa de Bragança para o matrimônio do duque, D. Teodósio, com uma das irmãs de Fernando II foram interrompidas pelo rei espanhol, que anteriormente apoiara a união. O que num primeiro olhar parece uma discordância matrimonial superficial entre Felipe II e a duquesa viúva, D. Catarina, ganha toda uma nova dimensão ao observar-se que, caso o jovem duque tivesse atingido o intento, ele seria em poucos anos o cunhado do rei de Espanha e Portugal. Nesta época, retratos de três das irmãs – Catarina, Gregória e Margarida – chegaram à corte de Felipe II para inspeção; em 1595, o embaixador de Veneza já falava em um casamento do príncipe Felipe com uma das jovens, embora sem especificar qual delas. Como, então, Margarida acabou como a consorte escolhida?

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Maria Ana de Bavária

Em sua biografia de D. Felipe II, a historiadora Fernanda Olival fornece algumas narrativas sobre a questão. Segundo o cronista Gil Dávila, por exemplo, teria sido perguntado ao príncipe qual das donzelas era a mais bonita, ao qual ele respondera que esse julgamento cabia à Sua Majestade; Felipe II, então, selecionou Catarina, a mais velha. Já outra história conta que a escolha teria sido feita primeiramente pela infanta Isabel, irmã mais velha do príncipe, que optou pela mais nova, Margarida. Estes textos, contudo, ignoram que a primeira escolha do rei fora Gregória, com ou sem a anuência do filho (2), muito embora aparentemente esta arquiduquesa fosse considerada deformada. De qualquer maneira, Gregória morreu em setembro de 1597. Quase que de imediato, suas irmãs Leonor e Margarida foram colocadas à disposição de Felipe II para substituí-la. A mãe delas, Maria Ana, estaria tão ansiosa para não perder a oportunidade de encaminhar melhor a vida dos filhos que inclusive se mostrava receptiva à ideia de mandar as duas jovens para a corte de Felipe II para que lá fosse feita a escolha. Embora isso não ocorresse, eventualmente a mais bela das irmãs – Margarida – seria selecionada.

(1) Crise Sucessória Portuguesa de 1580.

(2) Embora Olival argumente que a escolha por Gregória apenas ocorreu devido ao falecimento precoce de Catarina, o fato é que esta arquiduquesa morreu ainda solteira dois anos depois da irmã mais nova, em 1599. Isto aponta para uma escolha mais pessoal do rei (talvez guiado pelos retratos enviados anteriormente) ou, o que parece mais provável, para uma escolha precoce da família em enviá-la para a vida religiosa, como ocorreria mais tarde com sua frágil irmã Leonor.

Catarina de Bragança, rainha da Inglaterra

Nascida em 25 de novembro de 1638, a infanta D. Catarina foi a terceira filha (quarta criança) do matrimônio entre D. João, duque de Bragança, e D. Luísa de Gusmão, uma dama da poderosa Casa espanhola de Medina-Sidônia.  Muito provavelmente nomeada em homenagem à avó paterna, a menina tinha apenas dois anos de idade quando seu pai foi aclamado como D. João IV de Portugal, acabando com a dinastia de Habsburgo e iniciando a de Bragança naquela que foi chamada Guerra de Restauração Portuguesa.

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D. Catarina num retrato pré-nupcial (c. 1660)

Criada com três irmãos – Teodósio, Afonso e Pedro – e uma irmã – Joana – a infanta passou a infância em meio a uma família unida e amorosa. Politicamente, contudo, o recém-independente Portugal estava isolado em sua guerra contra Espanha. O único país europeu que o apoiaria seria a antiga aliada Inglaterra, liderada por Carlos I, que lutava naquele tempo seu próprio confronto interno contra o Parlamento. Para reforçar mais a união, ambos os monarcas concordariam com uma união matrimonial entre o herdeiro inglês, também chamado Carlos, e a secundogênita Catarina, a ser realizada quando ambos tivessem a idade apropriada. A guerra civil inglesa e a posterior execução do rei, contudo, colocariam tais planos em suspenso.

Enquanto isso, a irmã mais velha de Catarina, Joana, faleceria. Com isso, a infanta tornou-se a primogênita mulher sobrevivente, com seu valor no mercado matrimonial europeu subindo de acordo. Em consequência, novos candidatos apareceriam para cortejar sua mão, como João de Áustria, irmão ilegítimo de Felipe IV de Espanha, e o próprio rei francês Luís XIV. Entretanto, a mãe de Catarina, Luísa de Gusmão, regente desde a morte do marido em 1656, prosseguiu com negociações secretas com o herdeiro exilado de Carlos I, que ganharam nova força com a Restauração Inglesa em 1660. Endividado, o recém-proclamado Carlos II tinha todas as razões para casar-se com uma infanta que trazia consigo um vantajoso dote, mesmo que ela fosse católica. Finalmente, em 23 de junho de 1661, o contrato nupcial foi assinado. Pouco depois, Catarina começou a viagem para o país do futuro marido.

Em 20 de maio, Carlos finalmente encontraria a noiva em Portsmouth. No dia seguinte, ambos seriam casados em duas cerimônias distintas – uma católica, secreta, e outra protestante, pública. Embora Catarina não fosse exatamente belíssima, ela agradou ao rei, que considerou o matrimônio muito de seu agrado, conforme escreveu à sua irmã Henrietta. Há razões, portanto, para acreditar-se que o casamento foi consumado quase que de imediato. Catarina apaixonou-se pelo marido, que respeitaria até o fim de sua vida.

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Carlos II da Inglaterra

Porém, ela não era exatamente uma rainha popular. Além de ser católica num país protestante, o que a impediria de ser coroada, ela já tinha 23 anos de idade na época de seu matrimônio. A própria Catarina achou que a união com o rei inglês não ocorreria devido à sua idade, e partiu numa peregrinação de agradecimento em Lisboa quando o casamento foi confirmado. Mesmo assim, a religiosa infanta, que passara grande parte da juventude num convento, não possuía charme suficiente para reter o promíscuo esposo apenas em sua cama. Durante seu reinado de 25 anos, Carlos teria várias amantes e pelo menos 20 filhos; tragicamente, nenhum deles seria legítimo. Catarina ficaria grávida três vezes, mas todas as gestações acabaram prematuramente. Em 1663, durante uma doença grave, ela alucinaria que dera à luz, e seu marido a consolaria, garantindo que ambos tinham três filhos.

Na ausência de herdeiros legítimos de Carlos, seu sucessor natural era o irmão católico, James. Isso colocava a rainha Catarina numa posição bastante delicada. Sendo a esposa do rei, ela tinha óbvia influência cultural; seria seu desejo de prosseguir com o hábito português de tomar chá de tarde, típico entre a nobreza local, que acabaria instaurando o hábito geral na Inglaterra. Politicamente, contudo, ela possuía uma estrutura frágil. Os ataques a ela eram tão frequentes que o próprio rei tinha que intervir para proteger a rainha, resistindo a todas as tentativas para que ambos se divorciassem quando ficou claro, após um aborto ocorrido em junho de 1669, que eles não teriam nenhuma criança. Anos depois, Catarina seria implicada até mesmo numa tentativa de envenenamento do rei. Mesmo que não fosse fiel, portanto, Carlos II a honrava, insistindo que todas as suas amantes agissem em conformidade com a posição da rainha.

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Barbara Villiers, a mais famosa das amantes de Carlos II

O rei faleceu em 6 de fevereiro de 1685, convertendo-se ao catolicismo no leito de morte. Como o novo monarca, James II, era católico, a rainha viúva teve pela primeira vez liberdade para praticar sua fé livremente. A Revolução Gloriosa de 1688, contudo, complicaria a situação, uma vez que restaurou o anglicanismo. Inicialmente em bons termos com a rainha Maria II e o rei Guilherme III, Catarina perdeu o favor após uma série de desentendimentos. Ela retornaria para Portugal em março de 1699, onde acabaria como regente sucessivamente para o sobrinho e o irmão antes de sua própria morte em 31 de dezembro de 1705.

Para saber mais:

https://saintssistersandsluts.wordpress.com/2012/08/30/catherine-of-braganza-queen-of-england/

http://www.marryingcultures.eu/research/catherine-braganza

http://www.queensroyalsurreys.org.uk/queen_of_reg/catherine.html

http://www.britannica.com/biography/Catherine-of-Braganza

http://www.tea.co.uk/catherine-of-braganza

 

Felipe IV de Espanha e a Restauração Portuguesa

Primogênito homem de Felipe III de Espanha e Margarida de Áustria, Felipe IV tornou-se rei com apenas dezesseis anos de idade, assumindo um império que já se encontrava em declínio desde o fim do século anterior. Bem consciente de sua dignidade real, o monarca fora casado aos dez anos de idade com a princesa francesa Isabel, que era três anos mais velha. A união fazia parte de uma aliança cruzada com o reino vizinho; enquanto Felipe casava-se com Isabel, sua irmã Ana era enviada para ser a rainha de Luís XIII. Ambos os matrimônios não foram muito bem-sucedidos; enquanto Ana demorou mais de vinte anos para ter um filho, Isabel não possuía influência sobre o marido, mesmo após dar à luz um herdeiro em 1629, já que o rei era politicamente dominado por seu favorito Gaspar de Guzmán y Pimentel, o conde-duque de Olivares.

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Um jovem príncipe Felipe com sua irmã Ana, futura rainha de França

Os acordos nupciais, porém, não garantiram a paz entre Espanha e França sequer por uma geração. Rivais desde que haviam se consolidado definitivamente enquanto reinos, eles continuaram a competir pelo domínio da Europa central através de seus aliados. Em 1635, quando a França assumiu a primazia daquela que seria futuramente conhecida como A Guerra dos Trinta Anos, a Espanha viu-se subitamente sem condições de financiar uma resposta. Dependente do ouro e prata importados das Américas desde o reinado anterior, o governo espanhol acabou forçado a distribuir os custos do conflito entre os diversos domínios do império. Ambicionando restaurar o império espanhol à sua antiga glória, Felipe IV concordou com o aumento da pressão fiscal-militar proposto por Olivares. O baque seria rapidamente sentido por Portugal, que não muito tempo antes perdera cargas valiosas durante combates com os holandeses, além de ter sido forçado a conceder um empréstimo à Espanha.

Neste contexto, ocorreriam as Alterações de Évora em 1637. Também conhecida como Revolta do Manelinho ou Manuelinho, elas foram um movimento popular que se espalhou em Portugal após surgir em Alentejo, chegando até mesmo em Lisboa, em protesto contra a degradação das condições de vida após o aumento dos impostos. Impotente perante a violência da revolta, a nobreza portuguesa teve que aguardar o socorro de tropas espanholas, que sufocariam a rebelião.

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Felipe IV em sua maturidade

Mesmo que as grandes Casas não tivessem apoiado o movimento, as Alterações marcaram o início da consagração de uma crescente insatisfação de grande parte de aristocracia com os reis Habsburgo, a quem eles acusavam de tirania por descumprir as decisões das Cortes de Tomar, que haviam possibilitado a ascensão de Felipe II ao trono décadas antes. Neste sentido, o pacto entre rei e reino fora rompido quando este começara a desrespeitar a independência de Portugal, indicando para o cargo de vice-rei nobres que não eram seus parentes próximos, o que começara a ocorrer durante o reinado de Felipe III.

O gatilho para o golpe de Estado foi disparado após as tropas portuguesas serem convocadas para lutarem na campanha contra a Catalunha, quando um hesitante D. João, duque de Bragança – neto da duquesa D. Catarina – foi convencido a participar. Em 1º de dezembro de 1640, os chamados 40 Conjurados invadiram o paço onde se encontrava a duquesa de Mântua, vice-rainha de Portugal, e Miguel de Vasconcelos, seu secretário, que durante a luta foi lançado da janela para sua morte perante o olhar horrorizado da duquesa. Ali mesmo, seria aclamado D. João IV, o primeiro rei da dinastia de Bragança.

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Representação da aclamação de D. João IV

Para saber mais:

http://madmonarchist.blogspot.com.br/2010/06/monarch-profile-king-philip-iv-of-spain.html

http://www.jornalmapa.pt/2013/03/26/a-revolta-do-manuelinho/

MACEDO, Newton de. História de Portugal – Volume II: De D. João I aos Filipes. Lisboa: Lello e Irmão, 1936.

COSTA, Fernando Dores. A Guerra da Restauração – 1641-1668. Lisboa: Livros Horizonte, 2004.

Leonor de Viseu – parte II

Nas negociações posteriores para a paz com Castela, D. Afonso V abdicou da esposa Joana, que se recolheu para um convento. Os herdeiros dos tronos foram, neste sentido, utilizados como barganha para assegurar o bom comportamento das partes; quando a infanta Isabel, primogênita dos Reis Católicos, foi enviada para a vila fronteiriça de Moura, encontrou lá o jovem D. Afonso, de apenas cinco anos, único filho legítimo do rei, que fora separado de sua mãe D. Leonor alguns meses antes. Ambos foram criados juntos sobre a guarda de D. Beatriz, duquesa de Viseu. Rapidamente, se efetuaria a negociação de um futuro casamento entre eles.

D. João II de Portugal
D. João II de Portugal

A esta altura, o príncipe D. João já se tornara novamente rei com a morte de D. Afonso V em 28 de agosto de 1481. Com sua ascensão definitiva ao trono, as tensões políticas em Portugal cresceram. Honrado, rígido e avesso às intrigas palacianas, o novo rei era tido em pouca conta pelas poderosas famílias nobres que dominavam Portugal, como os Bragança e os Viseu, seus próprios parentes, que ficaram descontentes com o fortalecimento excessivo da autoridade real patrocinada por D. João II. Visando subordinar tais súditos excessivamente poderosos, o rei determinou que um novo juramento de vassalagem, a ser feito em Évora, que incluiria agora um reconhecimento tácito dos nobres à soberania do rei português. O primeiro que faria o juramento perante o restante da nobreza convocada seria exatamente D. Fernando, terceiro duque de Bragança, como esperado do chefe da maior Casa do reino de Portugal. Mas D. Fernando, em conselho régio, hesitou e protestou consideravelmente antes de assinar o compromisso, possivelmente porque os termos de obediência foram considerados pela nobreza presente como sendo prejudiciais às honras e privilégios que detinham há gerações. Ele seria apoiado nisso pelo seu cunhado, o duque de Viseu.

Suspeitando de uma conspiração contra ele, D. João II impôs o exame das contas ducais dos envolvidos na questão por corregedores, que eventualmente descobriram correspondência incriminatória entre o duque de Bragança e os reis de Espanha, Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Após um curto julgamento, o duque de Bragança foi executado em Évora. O duque de Viseu, parente direto do monarca português pelo casamento deste com sua irmã, também não foi poupado e logo seria assassinado pessoalmente pelo rei com golpes de punhal, aniquilando assim o último foco de resistência perante seu governo centralizador. Os Bragança restantes tiveram seus bens confiscados pela Casa real e fugiram em exílio para a Espanha.

D. Leonor de Viseu
D. Leonor de Viseu

Segundo o relato de uma fonte da época, quando a rainha D. Leonor tomou conhecimento da morte do irmão pelas mãos do marido, teve um ataque histérico e começou a gritar em desespero. Sabendo disso, D. João II ordenou-lhe que parasse, ou então seria acusada de conivência com a conjura. A esposa o obedeceu. Pouco antes, ela tivera um parto prematuro, com o bebê não sobrevivendo muito tempo após o nascimento; depois disso, foi recomendado que o casal não tentasse mais ter filhos, num contexto em que a amante do rei, Ana de Mendonça, dera à luz um menino saudável, batizado com o nome de Jorge, não muito tempo antes. Somando tudo, é bastante provável que após 1483, D. João II e D. Leonor tenham cessado a maioria de seus contatos conjugais, com a forte afeição que outrora os unira passando a ser apenas uma distante lembrança.