Beatriz de Castela, a rainha do bravo rei – parte II

Desta forma, quando subiram ao trono em 1325 seguindo a morte do rei D. Dinis, o casal real ainda era bastante jovem. Mesmo assim, entretanto, D. Beatriz não conseguiu chegar nem perto do destaque historiográfico que sua sogra, D. Isabel, teria, embora tenha realizado feitos notáveis: além de seus diversos atos piedosos, incluindo a fundação de um hospital em 1329, Beatriz de Castela interviu na crise entre Portugal e Castela de 1336 juntamente com a Rainha Santa, impedindo um confronto entre seu marido e seu genro (e sobrinho) Afonso XI. Já no final do reinado de D. Afonso IV, ela teve uma participação fundamental para impedir o confronto entre seu marido e seu filho, o infante Pedro, na atmosfera turbulenta que se seguiu ao assassinato da amante dele – talvez esposa – a notória Inês de Castro. A inexistência de uma autoridade própria com certeza não teria tornado tais eventos possíveis.

Pintura de 1822 que mostra Inês de Castro ajoelhando com seus filhos perante o rei D. Afonso IV
Pintura de 1822 que mostra Inês de Castro ajoelhando com seus filhos diante do rei D. Afonso IV

Ao contrário de outras rainhas, portanto, D. Beatriz não se limitou ao papel de consorte e mãe dos herdeiros do rei de Portugal, estando no centro de acontecimentos notáveis do século XIV e sendo uma figura política ativa. Parte desta força derivava-se de sua influência perante o rei D. Afonso IV. Embora ambos não tenham sido muito bem sucedidos do ponto de vista reprodutivo, produzindo sete crianças com apenas três sobrevivendo além da infância – D. Maria, futura rainha de Castela – n. 1313, f. 1357 -, D. Afonso – n. 1515, f. jovem -, D. Dinis – n. 1317, f. 1318 -, D. Pedro, futuro rei de Portugal – n. 1320, f. 1367 -, D. Isabel – n. 1324, f. 1326 -, D. João – n. 1326, f. 1327 – e D. Leonor, futura rainha de Aragão – n. 1328, f. 1348 – (SERRÃO, 1978, pps. 401-402), o fato é que o casal real tinha uma união nitidamente amorosa, questão provada pelo fato que D. Afonso IV foi o único rei da dinastia portuguesa de Borgonha que comprovadamente jamais teve uma amante até a sua morte em 1357.

Sua esposa morreria apenas dois anos depois. A posição de rainha de Portugal seria ocupada extraoficialmente pela controversa e já falecida Inês de Castro, numa decisão polêmica de D. Pedro I discutida pelos historiadores até hoje.

Beatriz de Castela, a rainha do bravo rei – parte I

Segunda filha mulher (sétima criança) de Sancho IV de Castela e sua consorte María de Molina, a infanta Beatriz foi a caçula do casal real, nascida na cidade de Toro em oito de março de 1293 exatamente dez anos após a primogênita do casal real, Isabel, que seria no futuro rainha de Aragão por um breve tempo por seu casamento com infante Jaime. A união, porém, jamais seria consumada, e após a morte do pai, Sancho IV, o novo rei repudiou o matrimônio com Isabel – e consequentemente a aliança com Portugal – ao optar por uma nova união com uma das filhas de Carlos II de Nápoles.

Dois anos depois, Portugal quebraria oficialmente a aliança com Aragão ao negociar um matrimônio duplo com Castela: o príncipe herdeiro Afonso se uniria com a infanta Beatriz enquanto sua irmã mais velha Constança se casaria com o herdeiro castelhano Fernando. Conforme relembra Sousa (2005, pps. 22-23), embora a doutrina eclesiástica determinasse o consentimento dos presuntivos noivos para a realização do matrimônio, de fato a vontade destes pouco importava num contexto de grande relevância política, o que fica particularmente evidente neste caso da troca de noivas entre Castela e Portugal:  quando as longas negociações pareciam definitivamente firmadas, D. Constança tinha apenas sete anos, sendo a infanta Beatriz ainda mais jovem, com três ou quatro anos de idade.

Beatriz de Castela
Beatriz de Castela

Além do acordo político, contudo, ainda era imprescindível um acordo religioso – devido aos vários matrimônios entre as dinastias de ambos os reinos, os proponentes noivos estavam abaixo do parentesco mínimo de 4º grau para que um matrimônio fosse considerado legítimo sem uma licença especial da Igreja. Mesmo antes, porém, a futura rainha já fora encaminhada para a refinada corte portuguesa provavelmente em 1298, muito embora o casamento em si só tenha ocorrido em 1309. Na época, D. Afonso tinha 18 anos, e D. Beatriz 15 ou 16.