Beatriz de Castela – parte III

Seja por ter cumprido exemplarmente a função da rainha pelo nascimento de várias crianças, seja por uma certa habilidade política, D. Beatriz tornou-se influente na corte portuguesa. Também conquistou a afeição, se não o amor, de seu marido, apesar do casamento ter sido arranjado, ao contrário do que ocorrerá na união dele e da condessa de Bolonha. Em seu testamento, D. Afonso III escreveu que nela era em quem “eu confio mais do que em todas as coisas no mundo”.

D. Dinis, filho mais velho sobrevivente de D. Afonso III e Beatriz de Castela e sucessor de seu pai no trono português
D. Dinis, filho mais velho sobrevivente de D. Afonso III e Beatriz de Castela e sucessor de seu pai no trono português

Doente desde pelo menos o início da década de 1270, o rei preocupou-se em dividir a herança entre os filhos legítimos e fazer doações aos ilegítimos, atentando especialmente ao secundogênito que tivera com D. Beatriz – talvez tendo em mente o que ocorrera em seu próprio caso quando fora privado de patrimônio considerável pelo pai (VENTURA, 2006, p. 156). D. Afonso III faleceu em 16 de fevereiro de 1279. A rainha sobreviveria ao marido por mais de 20 anos, sendo a primeira consorte portuguesa a atingir tal feito.

Em 1282, ela, juntamente com a primogênita D. Branca, iria para Castela por problemas políticos com seu filho e novo rei, D. Dinis, talvez devido as tendências pacifistas deste. De volta ao reino de origem, ela apoiou politicamente seu pai Afonso X nos últimos anos do reinado dele, até a morte do rei em 1284. A própria Beatriz faleceria apenas em 1303, tendo vivido cerca de 60 anos.

Beatriz de Castela – parte II

D. Afonso III e Beatriz de Castela se casaram em 20 de maio de 1253, com o pai dela virtualmente garantindo Algarves como parte do dote, muito embora também se comprometesse a devolver o território quando o primeiro herdeiro homem do casal tivesse sete anos de idade. De qualquer forma, a corte portuguesa considerou os termos do tratado humilhantes para o rei (FERNÁNDEZ, 1999, pps. 908-909). Logo em 1255, a condessa de Bolonha acusou o rei português de bigamia perante o papa Alexandre IV, que condenou D. Afonso III como adúltero e exigiu a devolução do dote de Matilda, convocando-o a comparecer em Roma para julgamento. A primeira esposa rejeitada, porém, morreria mais tarde naquele ano, deixando o processo em suspenso, embora Portugal ainda continuasse em interdito até 1262. Mas, depois da morte de Matilda, D. Afonso III não usaria mais o título de conde de Bolonha.

D. Afonso III de Portugal
D. Afonso III de Portugal

Embora Ventura (2006, p. 222) teorize que o fato de D. Afonso III “consumar o casamento mal ela (Beatriz) teve idade para casar e, de passados nove meses, ter a primeira filha, não revela grande estima pela sexualidade feminina”, o fato é que a menina passou seus primeiros anos na corte portuguesa apenas terminando sua educação e sendo orientada para o seu futuro papel como rainha e mãe dos herdeiros do trono português. A união só seria consumada carnalmente em 1258, quando Beatriz completou 14 anos; como visto anteriormente, esta era a idade tradicional de casamento na Idade Média, quando, segundo Isidoro de Sevilha, iniciava-se a fase conhecida como adulescentia, marcada não só pela chegada à idade da razão, mas também pelo início da capacidade de procriar (VILAR, 2005, pps. 37-38).

Menos de um ano depois, como já adiantado, nasceu a primeira filha do casal, a infanta D. Branca, que seria uma rica herdeira, e, mais tarde, uma relutante freira. Depois, mais seis filhos e filhas se seguiriam: D. Fernando (n. 1260, f. 1262); o herdeiro D. Dinis (n. 1261, f. 1325); D. Afonso (n. 1263, f. 1312), que seria senhor de Pontalegre por casamento com D. Violante, neta do falecido rei Fernando III de Castela; D. Sancha (n. 1264, f. 1302), que levou uma vida pouco documentada; D. Maria (n. 1264, f. 1304), também freira, e D. Vicente (n. 1268, f. em c. 1271).

Beatriz de Castela – parte I

Nascida entre 1242 e 1244, Beatriz foi a única filha sobrevivente do futuro rei Afonso X de Castela e sua amante Mayor Guillén de Gúzman. Sua situação como filha ilegítima não impediu seu pai, então príncipe, de beneficiá-la. Na verdade, seu ano aproximado de nascimento é conhecido apenas devido à doação de terras aos filhos que Afonso tivera com sua amante de longa data. Desde cedo, porém, a importância política da menina foi ascendente, visto que era a mais velha de todas as filhas que Afonso gerou – por cerca de 10 anos, inclusive, seria a única, até o nascimento de sua irmã legítima Berengária, nascida do matrimônio de seu pai com a infanta Violante de Aragão. E, numa época em que mulheres da nobreza eram usadas desde a infância para selar pactos políticos, o destino da primogênita real não poderia ser diferente. Apesar disso, contudo, dificilmente o noivo escolhido teria uma posição social tão elevada se não fossem questões políticas específicas da época.

Beatriz de Castela
Beatriz de Castela

O rei D. Afonso III, que ascendera ao trono após a deposição de seu irmão D. Sancho II, tinha um duplo problema. Primeiramente, embora fosse casado há quase 10 anos com Matilda, condessa de Bolonha, não tinha herdeiros. Isto era um ponto delicado para a legitimidade de seu reinado, uma vez que a base da conspiração armada pelo na época infante D. Afonso, juntamente com o papa Inocêncio IV, para derrubar o irmão estivera focada no fato que D. Sancho II supostamente tinha um casamento amaldiçoado, e, logo, estéril, com Mécia Lopes de Haro, o que prejudicava Portugal como um todo. Partindo deste ponto de vista, se torna evidente o motivo pelo qual Matilda nunca foi autorizada a viajar para o reino do marido mesmo antes de D. Afonso III declarar unilateralmente o divórcio. Em segundo lugar, o irmão mais velho deposto se exilara em Castela, de onde procurava organizar a retomada do trono. Era essencial que D. Afonso III forjasse uma aliança com Afonso X de Castela para anular a ameaça em seu início, uma vez que o rei castelhano estava inclinado a ajudar o primo.

De fato, em 1252 começaria a invasão castelhana em Portugal, que perdeu o recém-reconquistado território de Algarves, anexado pela primeira vez pelo avô de D. Afonso III e D. Sancho II. Como parte das negociações de paz, o rei castelhano ofereceu ao rei português a mão de sua filha Beatriz em casamento. Na época, ela muito provavelmente sequer atingira a puberdade, embora isto ainda fosse demorar alguns séculos para ser um pré-requisito para negociações matrimoniais. D. Afonso III, por sua vez, já era um homem de mais de 40 anos, que tinha várias amantes e filhos bastardos.

Urraca de Castela – parte I

Segunda filha (quinta criança sobrevivente) de Afonso VIII de Castela e Leonor de Inglaterra, sendo neta por via materna de Leonor de Aquitânia, uma das mulheres mais influentes da Europa no século XII, a infanta Urraca nasceu em data indefinida entre 1186 e 1187. Desde cedo, foi procurado para ela uma união de alta estirpe: primeiramente, ocorreram negociações para um matrimônio com Luís VIII de França, postas de lado em favor de um novo projeto de união com o herdeiro português D. Afonso. O rei francês mais tarde se casaria com a irmã mais nova de Urraca, a infanta Branca.

D. Afonso II de Portugal
D. Afonso II de Portugal

Quando as negociações matrimoniais entre Castela e Portugal tiveram o seu início, tanto a noiva quanto o prospectivo noivo – apenas um ano mais velho – já estavam se aproximando dos 20 anos;  passando em muito, portanto, a idade tradicional de casamento na Idade Média. Ela era estabelecida aos 14 anos, quando, segundo Isidoro de Sevilha, iniciava-se a fase conhecida como adulescentia, marcada não só pela chegada à idade da razão, mas também pelo início da capacidade de procriar (VILAR, 2005, pps. 37-38). Mas, por que, então, a demora? No caso de Urraca, sua condição de filha mais velha ainda donzela do rei de Castela a tornava uma peça valiosa para a política ibérica, principalmente num contexto em que o reino de Castela tornava-se cada vez mais importante; como muitos outros personagens importantes, então, suas negociações matrimoniais levaram certo tempo.

Urraca de Castela
Urraca de Castela

No caso de Portugal, o rei D. Sancho I não parece ter tido pressa em casar os filhos varões (em especial seu herdeiro), seguindo uma tendência das famílias nobres medievais em matrimoniar tardiamente os homens, muito embora não as mulheres (BARTON, 1997, pps. 53-54). Existia a necessidade, porém, de reforçar o relacionamento com os outros reinos peninsulares, dos quais Castela progressivamente emergia como o mais influente. Um casamento entre D. Afonso e a infanta Urraca seria, nesse sentido, especialmente interessante para Portugal. Existia, contudo, um problema: o príncipe português provavelmente tinha lepra.