Maria Sofia de Neuburgo – parte II

Quem o monarca viu quando foi recepcionado por sua nova consorte na câmara do navio? Vestida em rico tecido branco incrustado com diamantes, Maria Sofia era loira de pele alvíssima, correspondendo assim aos padrões de beleza da época. Não há motivos, então, para crer que o rei tenha desgostado de sua escolha marital enquanto ocorria a cerimônia formal de casamento na capela real, pouco tempo após o desembarque. e nem durante as riquíssimas festas em comemoração e a consumação rápida do casamento que se seguiu. Tímida e devota, Maria Sofia trazia consigo a promessa de produção rápida de herdeiros para a necessitada dinastia de Bragança – e de fato, os entregaria com sua disciplina característica. Em 30 de agosto de 1688, exatamente um ano após sua entrada em Lisboa, a rainha daria à luz o príncipe D. João. O novo herdeiro da Coroa portuguesa seria celebrado com festas que durariam três dias; entretanto, o príncipe era notoriamente debilitado desde seu nascimento. Sua morte, ocorrida apenas dezoito dias após o parto de Maria Sofia, foi creditada pelo conde de Povolide como tendo ocorrido devido à forma como as damas alemãs da rainha haviam cuidado dele.

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Maria Sofia de Neuburgo

Provando sua fertilidade, em breve a rainha engravidaria novamente. Tendo-se em vista a morte precoce do última criança, contudo, tomaram-se precauções extras. Quando Maria Sofia entrou em trabalho de parto, nas primeiras horas da manhã do dia 22 de outubro de 1689, o duque de Cadaval enviou pedidos de prece a todos os conventos de Portugal pelo sucesso do nascimento. Além disso, quatro médicos atenderiam Maria Sofia durante o processo, e quando nasceu um menino poucas horas depois, foi lhe dado mel para prevenir certos males. As costumeiras salvas de artilharia foram vetadas no palácio real para não perturbar o recém-nascido, mas este novo príncipe D. João parecia ser mais robusto do que o falecido irmão mais velho. Quando ele foi batizado no novembro seguinte, sua meia-irmã D. Isabel já estava retida no paço do conde de Aveiras após adoecer com varíola. Sempre com saúde frágil, ela jamais se restabeleceria desta doença, falecendo logo no ano seguinte. A inquietação do casal régio com essa nova fragilidade na linha de sucessão portuguesa, porém, seria sanada em maio de 1691, quando nasceria o infante D. Francisco, nomeado com o tradicional título de duque de Beja. À essa altura, porém, já se iniciavam as tensões maritais entre D. Pedro II e Maria Sofia. O rei recaíra em suas costumeiras infidelidades.

Em contraste com a tranquilidade, e mesmo amor mútuo, que caracterizara o casamento com Maria Francisca de Saboia, a união de D. Pedro II com Maria Sofia de Neuburgo foi consideravelmente complicada, sendo bem mais fria e distante. Parte das dificuldades pode ser atribuída à personalidade da segunda rainha, considerada difícil para os padrões do século XVII. Em contraste com Maria Francisca, que costumava fechar os olhos às infidelidades do marido, Maria Sofia tinha tantos ciúmes do rei que o questionava frequentemente a respeito, causando-lhe aberto mau humor com a consorte. Em adição a isso, D. Pedro II censurava severamente certos hábitos de Maria Sofia, que gostava de jogar e de beber vinho, além de negar muitos de seus pedidos.

Em carta escrita a seu pai, Maria Sofia queixava-se abertamente da negligência de seu marido em Portugal e de seu fracasso em estreitar as relações diplomáticas entre seu reino e Neuburgo. Ao contrário do que seria de se esperar, D. Pedro II nunca mandou uma embaixada oficial, mesmo tendo diversas ocasiões para isso, o que indignava uma rainha bem consciente da nobre genealogia da Casa Wittelsbach. Em atitude oposta à que costumava ser dada às rainhas da Europa Central, D. Pedro II também não dava a Maria Sofia qualquer participação em seus negócios políticos, parecendo enxergá-la simplesmente como um meio para gerar filhos para a dinastia de Bragança. O comportamento do monarca mortificava ainda mais a rainha uma vez que ela tudo faria para agradar D. Pedro II, que em retorno só lhe daria profundos desgostos, incluindo diversos casos extraconjugais com damas de seu próprio séquito e mulheres do povo comum.

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D. João V de Portugal

Apesar das dificuldades do relacionamento pessoal do casal, porém, os filhos seriam gerados regularmente. Em março de 1695, nasceu D. Antônio, que viria a ser o irmão predileto do futuro D. João V, seguido logo no ano seguinte pela primeira filha de Maria Sofia, D. Teresa. A rainha teria mais dois filhos, D. Manuel e D. Francisca, antes de falecer devido a uma febre em quatro de agosto de 1699, apenas dois dias antes de seu aniversário de 33 anos. sendo sepultada no majestoso monastério de São Vicente com todas as honras apropriadas. Seu marido, D. Pedro II, morreria ainda viúvo em dezembro de 1706, provavelmente de uma doença do fígado. Nenhum dos dois, portanto, viveria para ver o casamento do herdeiro D. João com sua prima materna Maria Ana de Áustria, e a ascensão política de Portugal durante este rico reinado.

 

Para saber mais:

LOURENÇO, Maria Paula Marçal. D. Pedro II. Círculo de Leitores, 2007.

SILVA, Maria Beatriz Nizza de. D. João V. Círculo de Leitores, 2012.

 

 

Maria Sofia de Neuburgo – parte I

Nascida em um palácio localizado no ducado de Juliers, a poucos quilômetros da cidade imperial de Dusseldorf, a princesa Maria Sofia Isabel de Neuburgo veio ao mundo em seis de agosto de 1666, sendo uma das diversas filhas de Felipe, conde de Neuburgo, com sua esposa Isabel de Hesse-Darmstadt. Uma vez que esse fértil casal geraria nada menos do que 17 crianças sobreviventes durante sua longa união, as meninas daquela geração do ramo secundário da antiga Casa Wittelsbach seriam cobiçadas pelo mercado matrimonial europeu por sua presumida capacidade de gerar herdeiros. Em 1676, de fato, a primogênita do casal, Leonor, seria casada com Leopoldo, Sacro Imperador Romano Germânico, que não conseguira ter um filho homem em seus matrimônios anteriores; posteriormente, três irmãs suas se casariam respectivamente com Carlos II, rei de Espanha, Eduardo, príncipe de Parma e Jaime, príncipe de Polônia, cujas Casas tinham linhas de sucessão instáveis.

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O pai de Maria Sofia, o conde Felipe de Neuburgo

Quando Maria Sofia tinha 17 anos, morreria em Portugal a rainha Maria Francisca de Saboia, esposa do rei D. Pedro II. Embora o monarca tivesse tido vários casos extraconjugais em seus vários anos de casamento, o falecimento de Maria Francisca o deixou em prolongada tristeza. Nem o fato que a sobrevivência da recente dinastia de Bragança encontrava-se ameaçada pela frágil figura da princesa D. Isabel, que ainda sequer se casara, pôde convencer D. Pedro II a acelerar o processo para ter novas núpcias. Apenas em reunião do Conselho Real ocorrida em janeiro de 1685 foi que o monarca seria convencido, em nome da felicidade do reino, a casar-se de novo.

De início, a pressão sobre o rei era forte para que a aliança francesa fosse renovada (1). A principal candidata nesse sentido era a mademoiselle de Blois, filha legitimada do rei francês com sua antiga favorita, a marquesa de Montespan. Também seria proposta uma união com a mais madura mademoiselle de Lillebonne, uma princesa de Lorena, mas nenhuma dessas ideias iria realmente adiante. Enquanto isso, a facção pró-francesa da corte encontrava resistência em alguns nobres que defendiam uma reaproximação política com a Casa Habsburgo, principalmente vendo-se já no horizonte a intervenção política francesa após a morte do doente Carlos II de Espanha (2). Embora essa facção pró-Habsburgo tivesse pouco apoio na corte portuguesa propriamente dita, seus membros utilizaram-se da manipulação da opinião pública exterior ao paço real para vender os perigos que existiam em fortificar a aliança com a monarquia francesa.

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Mademoiselle de Blois, uma das esposas pensadas para D. Pedro II de Portugal

Procurando fugir da influência de França, então, a diplomacia portuguesa passou a procurar em semi-sigilo noivas para D. Pedro II nas diversas cortes imperiais. Na impossibilidade de casar o rei com uma Habsburgo de idade apropriada, ficou decidido definitivamente em meados de 1687 acertar um contrato matrimonial com Maria Sofia, a presumida fértil filha do conde de Neuburgo, que também, aliás, procurava resistir às influências políticas francesas, que ambicionavam anexar o pequeno território. D. Pedro II garantiria rapidamente à futura esposa as rendas e privilégios apropriados, após o qual o embaixador português foi autorizado a pedir a mão da princesa em casamento em nome do rei. Em cinco de  julho de 1687, quando já contava com quase 21 anos de idade, Maria Sofia deixou para sempre o castelo onde fora criada, iniciando seu percurso até Portugal.

Acompanhada por um séquito que contava aproximadamente com 350 pessoas, Maria Sofia percorreu o Reno até chegar à Holanda, onde seria recepcionada pelo príncipe de Orange e diversos nobres ingleses, incluindo um filho ilegítimo do rei Carlos II de Inglaterra, que era casado com a irmã mais velha de D. Pedro II de Portugal. Conduzida por eles, embarcou com sua comitiva nos naus de guerra que a levariam pela maior parte do caminho até Lisboa. Durante a viagem de sua noiva, D. Pedro II perdoaria alguns criminosos presos nas cadeias da capital, como era de costume em tais datas comemorativas, enquanto seu favorito e grande arquiteto das negociações diplomáticas com Neuburgo, o conde de Vilar Maior, distribuiria joias às damas da corte e dinheiro aos criados, demonstrando a generosidade do monarca.

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Pedro II de Portugal

No final de julho, Maria Sofia passaria para um iate inglês, onde seria conduzida em seu percurso pelo rio Tejo e onde testemunharia a salva de tiros dos navios portugueses quando sua frota passou em frente à igreja de São Paulo. Apenas em 11 de setembro, entretanto, Maria Sofia chegaria com a frota no porto de Ribeira. Quase que de imediato, subiram a bordo para recepcioná-la o conde de Santa Cruz, o conde de Vale de Reis, o conde de Ericeira e seu filho. Este faria um discurso em cinco línguas diferentes à nova rainha, ao qual Maria Sofia responderia individualmente sem hesitar, o que é uma prova da cuidadosa educação que apreendera em sua juventude. Como já haviam sido nomeados de antemão os oficiais da rainha, também subiriam a bordo a camareira-mor, o mordomo-mor e o estribeiro-mor antes que chegasse o rico bergantim de ouro e cetim que transportava D. Pedro II.

 

(1) Por via materna, Francisca Maria de Saboia havia sido descendente ilegítima de Henrique IV de França, o que a fazia uma aparentada do presente rei Luís XIV.

(2) Os franceses defendiam que a ausência de pagamento do dote da infanta Maria Teresa quando de seu casamento com Luís XIV, em 1660, tornara inválida a renúncia formal de seus direitos ao trono espanhol. Como ela falecera em 1683, sua pretensão passaria ao primogênito, o delfim Luís de França.