Maria Francisca de Saboia – parte I

Em 21 de junho de 1646, nascia em Paris a segunda filha de Carlos Amadeu, duque de Nemours, de Aumale e Genevois, e Isabel de Bourbon-Vendôme, descendente por via ilegítima de Henrique IV de França, chamada de Maria Francisca Isabel (1). Horas depois, viria ao mundo seu irmão gêmeo, José, que era o primeiro herdeiro homem do duque. O casal já tinha antes do nascimento duplo uma menina, Maria Joana, e viria a ter mais dois filhos depois de Isabel e José: Francisco e Carlos Amadeu. Tragicamente, apenas as meninas sobreviveriam à infância, e ficariam órfãs de pai logo em 1652, na sequência de um duelo dele com o duque de Beaufort, seu próprio cunhado.  Enviuvada, Isabel de Bourbon-Vendôme retirou-se para o convento de Fontevrault levando as filhas consigo. Elas tinham apenas oito e seis anos de idade. Lá, Maria Joana e Maria Francisca receberiam sua educação inicial por parte das religiosas que lá viviam. Anos depois, quando a duquesa sentia sua saúde declinar, levou as filhas já núbeis para Paris, onde as deixou ao cargo do avô materno, o duque de Vendôme, pouco antes de falecer em 1664. Poucos meses depois, contudo, este também morreria, deixando as netas temporariamente recolhidas em variados conventos enquanto se acertavam os detalhes das núpcias delas.

Élisabeth_de_Vendôme,_duchesse_de_Nemours
Isabel de Bourbon-Vendôme, mãe de Maria Francisca

Aparentada com reis franceses, incluindo Luís XIV, o soberano na época das negociações, e, juntamente com a irmã, possuidora de um dote valioso, a inteligente Maria Francisca despertava há anos o interesse do mercado matrimonial europeu. Ainda enquanto a mãe dela vivia, houvera conversas sérias sobre um casamento com o duque de Saboia, e a duquesa viúva chegara a viajar para a corte do pretendente com as filhas, mas no final nenhum acordo foi feito. Em 1662, a primogênita Maria Joana se uniria ao duque de Lorena, e pouco depois, ao duque de Saboia. Pensou-se na época em núpcias de Maria Francisca com o conde de Vaudemont, mas nada acabou sendo acertado. Depois da morte da Isabel, a responsabilidade de conseguir um matrimônio para a segunda filha ficou com um primo de seu pai, César d’Estrées, bispo de Laon. Foi quando apareceu a possibilidade de casar a jovem Maria Francisca com D. Afonso VI de Portugal.

Tendo o poder efetivo há pouco tempo, o rei enfrentava dificuldades para efetuar núpcias, uma vez que a Casa de Bragança tinha legitimidade duvidosa enquanto dinastia reinante. Em 1652, enquanto D. João IV e o príncipe herdeiro D. Teodósio estavam vivos, tentou-se um contrato nupcial da deficiente criança com a filha do príncipe de Parma, mas as conversas não foram adiante. Anos depois, num contexto bélico entre Espanha e França, tentou-se uma união com Ana Maria, a filha do duque de Orléans, mas após muita demora a própria noiva – que estaria apaixonada por outro homem – optou por não seguir adiante no projeto matrimonial português. Seria quando o nome de Maria Francisca seria proposto pelo bispo de Laon ao responsável português em França para negociar as núpcias com Orléans, o marquês de Sande. Embora o acordo do matrimônio entre Maria Francisca e Afonso tenha ocorrido relativamente rápido, dois anos quase completos se passariam na discussão de minúcias em relação ao contrato nupcial até que, em fevereiro de 1666, um tratado efetivo fosse assinado. Em fins de junho, ocorreu o matrimônio por procuração, tornando Maria Francisca rainha de Portugal. Pouco depois, ela partiria em direção a Lisboa. Informados de um plano espanhol para sequestrar a rainha, sua comitiva francesa atrasou a partida em alguns dias, mas acabou por enfrentar uma série de calmarias e tempestades antes de, por fim, chegar à Portugal em dois de agosto.

Maria_Francisca_de_Saboia,_MNC
Maria Francisca de Saboia

Amplamente saudada pela artilharia portuguesa após o desembarque, Maria Francisca foi saudada por grande parte da nobreza e do povo. Seria em Alcântara o primeiro encontro da rainha com seu marido, e seria lá também onde receberiam as bênçãos solenes matrimoniais pelo bispo de Targa. Apesar disso, D. Afonso VI não partilharia o leito com a esposa até depois da entrada formal de ambos em Lisboa, que aconteceu no dia 29. Pouco depois, Maria Francisca escreveria a uma amiga em França que eles haviam consumado o casamento, e, para sua felicidade ser completa, apenas lhe faltava um filho. O embaixador de França em Portugal também deixaria seu testemunho que D. Afonso VI passava horas junto à esposa nos aposentos dela. Pouco depois, houve notícia de uma gestação, embora isso se provasse em pouco tempo apenas um boato. Aparentemente, deficiente ou não, o rei teria sucesso em engravidar de forma bem-sucedida sua rainha muito em breve, como desejado, mesmo que sua falha educação formal e eventual comportamento esdrúxulo provocassem comentários em certos círculos da corte. Neste contexto, como explicar, então, as supostas queixas de Maria Francisca quanto à total inabilidade sexual de seu marido, feitas depois ao seu confessor?

(1) No original francês, Marie-Françoise-Élisabeth.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s