Luísa de Gusmão – parte IV

Quando se tornou rei de Portugal, em seis de novembro de 1656, D. Afonso VI estava a menos de um ano de completar quatorze anos de idade; tradicionalmente, essa era a idade legal que marcava o início da maioridade. Em princípio, portanto, Luísa de Gusmão teria uma regência curta, e a instabilidade inevitável gerada em tais períodos poderia ser facilmente dominada após o próximo aniversário do rei, quando ele mesmo assumiria as rédeas do poder. Tudo isso, porém, eram apenas pressupostos teóricos, vista a frágil saúde do monarca, além de sua instabilidade mental.

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D. Afonso VI

Desse modo, é plenamente possível que a viúva de D. João IV já se preparasse desde o início de sua regência para uma grande permanência no cargo, como de fato o foi. Escolhendo ministros para governarem sob sua liderança, D. Luísa encarregou-se de uma nova fase da guerra contra Espanha, quando as tropas portuguesas voltaram à ofensiva. O primeiro ano desta etapa marcaria, entretanto, um fracasso militar no longo cerco de Badajoz, onde, embora tendo uma vitória técnica, as tropas de D. Afonso foram destroçadas. O evento, aliás, marcou o início de uma espécie de paralisia na guerra. Enquanto os Habsburgo agora poderiam se dedicar a recuperar Portugal com o fim da revolta na Catalunha em 1653, agora tinham uma ausência crônica de soldados e recursos; os Bragança, por outro lado, estavam politicamente isolados na Europa, fracassando em obter um tratado com a França mediante o proposto casamento de Luís XIV com a infanta D. Catarina. O rei francês acabaria se casando em 1660 com a infanta Maria Teresa.

Após o fim das negociações com França, a regente voltou-se para a mais amigável Inglaterra, com a qual Portugal já assinara um tratado em 1654. De fato, é possível que as negociações francesas tenham sido muito mais uma jogada diplomática portuguesa para atrapalhar o casamento de Luís XIV com a prima espanhola do que uma proposta com intenções verdadeiras. Neste sentido, o começo das conversas visando um matrimônio entre Carlos II e D. Catarina podem ter se iniciado ainda antes da morte de D. João IV. A Restauração Inglesa em inícios de 1660, entretanto, tornou o acerto mais interessante e vantajoso para Portugal, que aceitaria pagar um exorbitante dote e ceder duas colônias à Inglaterra em troca de apoio militar contra Espanha.

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Catarina, rainha de Inglaterra

Em 1662, tendo a paz assegurada com o reino francês, o comando espanhol voltou à ofensiva. João de Áustria, filho ilegítimo de Felipe IV, lideraria uma tropa de milhares de homens para tomar a região do Alentejo, chegando a dominar a cidade de Évora por um curto período até ser forçado a abandonar o local após a grande vitória anglo-portuguesa na batalha de Ameixial. O mesmo ano conheceria o fim da regência de D. Luísa, que se retiraria para um convento após pressão por parte de D. Afonso VI, juntamente com o favorito real, o conde de Castelo Melhor e, a partir do golpe, Secretário de Estado do Reino de Portugal. O ano seguinte testemunharia o recuo definitivo das tropas lideradas por João de Áustria, embora este revés tenha sido compensado no ano seguinte pela ocupação de Vila Viçosa por exércitos do novo comandante dos Habsburgo, o marquês de Caracena.

A campanha do exército português para retomar Vila Viçosa, em 1665, eventualmente levaria à esmagadora vitória na batalha de Montes Claros. Depois disso, Espanha viu-se impossibilitada de tentar uma nova invasão, e ambos os lados começariam as negociações que levariam, em 1668, à assinatura do Tratado de Lisboa, que reconheceria por fim a legitimidade da dinastia de Bragança em Portugal e poria fim definitivo à guerra. A essa altura, porém, Luísa de Gusmão já estava morta, sendo vítima de falha pulmonar. Sepultada em Xabregas, ela eventualmente seria transferida para o Panteão dos Bragança, em Lisboa. Ao falecer em 27 de fevereiro de 1666, ela não testemunhou a anulação do breve casamento de seu primogênito D. Afonso com Maria Francisca de Saboia, o segundo casamento desta com o cunhado, D. Pedro, e o posterior exílio do filho mais velho até o fim da vida.

Para saber mais:

http://asaventurasdemark.blogspot.com.br/2013/08/d-luisa-de-gusmao.html

http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2014/04/mulheres-na-historia-lxvii-margarida-de_3.html

https://guerradarestauracao.wordpress.com

COSTA, Leonor Freire; CUNHA, Mafalda Soares da. D. João IV. Círculo de Leitores, 2012.

COSTA, Fernando Dores. A Guerra da Restauração – 1641-1668. Lisboa: Livros Horizonte, 2004.

LIVERMORE, Harold V. A New History of Portugal. Glasgow: Cambridge University Press, 1966.

Luísa de Gusmão – parte III

Embora seja improvável que Luísa de Gusmão tenha realmente pronunciado a sentença pela qual é mais conhecida para incentivar seu marido a aceitar a Coroa antes rainha por um dia do que duquesa por uma vida” -, Felipe IV certamente a tomou rapidamente como a consorte rebelada de um rei traidor, assim como seu valido Olivares. Furioso com a rebelião, este inclusive ordenaria ao irmão de Luísa, o duque de Medina Sidônia, que destruísse todos os registros dela dos livros da Casa, de maneira que não restasse nem rastro de sua memória. Da mesma forma, o pagamento do dote da duquesa de Bragança, ainda incompleto, deveria ser suspenso.

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Conde-duque de Olivares

Apesar de toda a cólera e troca incessante de responsabilidades pela revolta portuguesa que dominaria a corte Habsburgo nas semanas seguintes, a sobrevivência da nova dinastia era considerada improvável. O golpe que depusera a duquesa de Mântua, libertada por D. João IV em pouco tempo, era visto como a obra de poucos homens; logo, teria apoio insuficiente para aguentar por muito tempo. De fato, as várias deserções ocorridas nos primeiros meses deram suporte a tal ideia, assim como uma tentativa de assassinato sofrida pelo rei em agosto de 1641. Apesar disso, Espanha não pôde de fato capitalizar na fragilidade do inimigo e responder adequadamente, devido ao fato de suas forças militares, além de estarem divididas pela Europa, enfrentarem uma revolta particularmente engajada em Catalunha. Apenas nos primeiros meses de 1643 tropas Habsburgo seriam capazes de invadir Portugal, entrando no território pela região do Alentejo.

A situação enfrentada pela nova dinastia de Bragança, contudo, era menos frágil do que o visto pelo depreciativo julgamento do governo Habsburgo. D. João IV partiria para liderar seus exércitos contra os invasores e, assim, incentivar seus vassalos a acompanhá-lo, deixando a regência nas mãos de sua austera e religiosa esposa, grávida na época; em 21 de agosto ela daria à luz ao infante D. Afonso. O rei não estava presente ao parto, embora tenha visitado secretamente sua esposa e o bebê poucos dias depois. Seria aproximadamente neste período que uma amante desconhecida de D. João engravidaria, dando à luz uma menina em fins de abril do ano seguinte, que foi chamada de Maria. Apenas um mês depois deste nascimento, ocorreria a batalha de Montijo em Espanha, que teve um resultado indefinido ou, segundo Fernando Dores Costa, mesmo uma derrota portuguesa, mas foi tão massivamente louvada pela dinastia de Bragança que, até hoje, é considerada por alguns uma grande vitória de D. João IV. Embora tenha tido grande ressonância nas cortes europeias, porém, suas consequências militares foram quase nulas.

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O infante D. Afonso retratado em 1653

Dali por diante, a guerra caracterizou-se por eventuais escaramuças entre as tropas espanholas e portuguesas, causadas por ofensivas do último, até que, em 1647, D. João IV optou por uma mudança militar em relação a uma atitude meramente defensiva, o que descontentaria muitos, incluindo o bélico príncipe D. Teodósio, que seria eventualmente nomeado capitão-general do reino. Enfraquecida, Espanha também optaria por uma diminuição em suas atividades contra o reino vizinho. 1647 também marcaria uma grave doença do infante D. Afonso – possivelmente meningoencefalite – que o deixaria com o lado esquerdo de seu corpo paralisado, além de dificuldades na fala. Talvez foi temendo pela morte daquele que era o herdeiro alternativo ao trono que o casal real apressou-se em gerar outro filho; já em 26 de abril do ano seguinte nasceria o caçula de D. Luísa, o infante D. Pedro.

Depois de seu último parto, a rainha viveria anos tranquilos no Paço da Ribeira até 1653, que parece ter sido um dos piores anos de sua vida, assim como de seu marido. Em maio, morreu de tuberculose o talentoso príncipe D. Teodósio, numa perda lamentada por muitos no reino, uma vez que deixava como herdeiro do trono seu irmão D. Afonso, tido como incapaz devido às sequelas da doença de 1647; em novembro, faleceria a infanta D. Joana. Em novembro de 1656, por problemas nos rins, morreria o rei D. João IV. D. Luísa se tornaria, então, não apenas uma viúva, mas também a regente do reino até a maioridade de seu filho.

Luísa de Gusmão – parte II

Depois dos sete dias de festividades em comemoração ao matrimônio do duque, o Paço de Vila Viçosa voltou ao seu cotidiano habitual, e a nova duquesa assumiu suas novas funções. A principal, é claro, constituía na produção de filhos e filhas para o seu marido. D. João, contudo, fosse o quanto dedicado à composição de música sacra fosse, não parece ter se limitado seus desejos carnais ao leito conjugal. Em flagrante contraste com seu pai – e, na verdade, com toda a sua ascendência brigantina -, D. João produziria descendência ilegítima. Nos primeiros meses de seu matrimônio com D. Luísa, a esposa de André Mendes Lobo, rico lavrador e fiel servidor da Casa de Bragança, concebeu sua segunda filha. De acordo com rumores da época, reproduzidos por Felgueiras Gayo, a pequena Maria seria filha de D. Leonor com o duque, assim como a sua irmã mais velha D. Ângela. Toda a família seria muito beneficiada pela forte proximidade com D. João, principalmente as meninas, que efetuariam mais tarde casamentos vantajosos. Além disso, o duque de Bragança tinha frequentes ligações ilícitas com atrizes que trabalhavam em companhias de comédias, casos que eram do pleno conhecimento de sua negligenciada esposa.

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D. Teodósio retratado numa gravura do século XVII

O matrimônio, então, teve um começo atribulado. Mesmo assim, D. Luísa daria à luz ao primeiro filho do casal, Teodósio, em oito de fevereiro de 1634, pouco mais de um ano após o casamento de presente com D. João. A partir daí, vendo a produção regular de crianças, pode-se presumir que a desatenção do duque com sua esposa ficou relegada ao passado: logo no ano seguinte, nasceria Ana, que teve curta vida, seguida no mesmo ano por Joana. Em 1637, a duquesa teria um aborto, mas em 25 de novembro de 1638 teve outra menina, Catarina. D. Luísa teria outro aborto antes de ter mais um menino, Manuel, em setembro de 1640, mas ele viveu pouco.

Paralelamente ao trabalho reprodutivo da duquesa, D. João contemporizava perante as evidentes tentativas do conde-duque de Olivares para que ele participasse mais da política da monarquia hispânica. Enfrentando dificuldades financeiras decorrentes da Guerra dos Trinta Anos, o governo dos Habsburgo espanhóis planejava repartir entre todos os seus reinos ibéricos o custo humano e financeiro da política imperial de Castela. Tal ideia enfrentou evidente resistência da alta nobreza portuguesa, que combateu com afinco o planejado programa fiscal. Então, em 1634, a duquesa de Mântua foi nomeada como vice-rainha, substituindo o conde de Basto.

Primeira filha de Carlos, duque de Saboia, com a infanta Catarina, filha de Felipe II de Espanha, Margarida era parente próxima de Felipe IV. Aconselhada por apoiadores da política espanhola, a duquesa aquiesceu às exigências de Olivares, que foram ficando progressivamente mais duras em relação a Portugal. Nesta conjuntura, ocorreu uma sequência de más colheitas, degradando as condições de vida da população, que acabaria por se rebelar em Évora em 1637. Conhecido como Revolta do Manelinho ou Manuelinho, em referência a seu suposto líder popular, o movimento espalhou-se rapidamente, chegando a atingir Lisboa. Como governador-geral das armas, D. João foi chamado a Madri e ordenado a suprimir o movimento com força militar; contudo, ele dilataria tanto os preparativos que seria a mera ameaça dos exércitos castelhanos nas fronteiras portuguesas que acabaria por dar fim à revolta. Devido à liderança nominal do duque de Bragança destas tropas, porém, Felipe IV convenceu-se que D. João o servia fielmente. O monarca até mesmo teria considerado nomeá-lo como o novo vice-rei de Portugal, em substituição à sua prima Margarida.

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Margarida, duquesa de Mântua

Enquanto isso, a pressão no reino aumentava cada vez mais. Insatisfeitos com o governo Habsburgo, ao qual acusavam de quebrar o acordo efetuado em Tomar em 1581, parte da aristocracia portuguesa acabaria por iniciar preparativos para o golpe contra a Coroa após receber instruções de Espanha para enviar tropas para lutar na campanha contra a revoltosa Catalunha. Depois de muito hesitar, D. João concordou em 17 ou 18 de novembro de 1640 com a sua aclamação como o herdeiro legítimo do trono de Portugal. Foi planejado que a ação que deporia a soberania política Habsburgo ocorreria no dia 1 de dezembro, enquanto o duque aguardava com segurança em Vila Viçosa.

A insurreição ocorreu praticamente sem incidentes, excetuando-se a morte do secretário de Estado e genro de Margarida, Miguel Vasconcelos, que foi atirado pela janela do palácio. As notícias do sucesso chegariam ao conhecimento de D. João no dia seguinte, mas seria apenas no dia 4 que ele seguiu para Lisboa, reunindo-se com os governadores interinos no Paço da Ribeira em meio à concentração da população ao redor. Tantas teriam sido “as vozes alegres do povo”, segundo Ericeira, que o duque teve que aparecer numa das janelas, onde foi aclamado. Agora D. João era o rei de Portugal, e D. Luísa era sua rainha.

Luísa de Gusmão – parte I

Nascida em 13 de outubro de 1613, Luísa Maria Francisca de Gusmão foi a primogênita do casamento entre João Manuel Pérez de Gusmão, duque de Medina Sidônia, com Joana Gomes de Sandoval e Cerdas, filha do duque de Lerma, favorito de Felipe III. Desde sua infância, era evidente que um matrimônio prestigioso a aguardava; não apenas devido ao fato que era a filha mais velha, mas também porque os Medina Sidônia pertenciam à alta nobreza espanhola, sendo quase tão influentes quanto a Casa reinante.

Pensando no fato que Luísa era descendente direta de vários reis de Portugal por via paterna e materna, se poderia concluir hoje que núpcias neste sentido foram consideradas para ela desde cedo. Aparentemente, contudo, este não foi o caso; na verdade, o duque de Medina Sidônia não parecia ter tanta pressa para casar sua filha, visto que Luísa ultrapassou bastante a média de idade de casamento na aristocracia. Talvez isso tenha se devido a possíveis planos que o conde-duque de Olivares, o favorito do novo monarca, alimentava em relação a um hipotético casamento da jovem com o duque de Bragança, D. João, quase dez anos mais velho.

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D. João retratado em 1628

Se Luísa estava demorando a ser casada por seu pai, o mesmo poderia ser dito até fins do ano de 1630 em relação a D. João. Embora parte da tranquilidade do duque D. Teodósio quanto às núpcias do herdeiro possa ser atribuída ao fato que ele tivera outros dois filhos varões com sua esposa espanhola, é defendido por grande parte da historiografia sobre o tema que as negociações envolvendo filhas dos duques de Parma, Saboia, Mântua e Modena foram inviabilizadas por agentes de Felipe IV ou de seu favorito Olivares, com a intenção de impedir alianças matrimoniais possivelmente danosas aos Habsburgo. Entretanto, como apontam as autoras de uma recente biografia de D. João IV, as negociações feitas a mando de D. Teodósio foram discretíssimas, exatamente para evitar que Madri tomasse conhecimento das intenções da Casa de Bragança, o que fragiliza a ideia que o rei ou o valido interferiram na questão do casamento de D. João.

Seja como for, D. Teodósio faleceu em novembro de 1630 sem ver o primogênito casado. Quase que de imediato, o novo duque acionou contatos familiares em Espanha para negociar um matrimônio favorável aos interesses de Felipe IV, e rapidamente ouviu falar da primogênita da poderosa Casa de Medina Sidônia, com a qual um antepassado seu, D. Jaime, já havia se consorciado mais de um século antes. O rei espanhol, por sua lado, julgava que um casamento entre ela e o duque de Bragança estabeleceria firmemente D. João em sua órbita de influência sem necessitar de um casamento desde com alguma parenta Habsburgo, enquanto o duque de Bragança estava interessado em se beneficiar ao agradar seu monarca e o valido deste ao aceder aos seus interesses.

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Luísa de Gusmão em sua juventude

Além de todas as motivações políticas, contudo, devemos considerar a importância dos atributos físicos da formosa Luísa para firmar a decisão do mulherengo D. João em se casar com ela; com quase 18 anos, ela seria descrita como tendo grandes olhos negros e “entremadas partes”. Em pouco tempo, o contrato nupcial seria acertado, com amplas mercês sendo concedidas à Casa de Bragança, e, depois que uma licença papal devido ao parentesco dos noivos foi concedida, Luísa tornou-se a nova duquesa por um casamento por procuração. Pouco depois, ela iniciou sua viagem para o novo lar.