Isabel de França – parte II

Atraente e inteligente, a rainha aparentemente tinha o amor do povo e de seu marido, muito embora Olivares procurasse estimular o que ele chamava de “ardores da pueril sensualidade” de Felipe IV, e, assim, afastar o perigo de uma maior influência de Isabel ao dividir os afetos do jovem rei. A rainha mesma era suspeita de não manter inteiramente seus votos de matrimônio. Em maio de 1622, quando um pequeno incêndio começou no meio da encenação de uma peça do conde de Villamediana, o próprio autor conduziu a rainha para segurança com uma proximidade que despertou suspeitas da corte. Pouco depois, ele foi assassinado, num crime que bem pode ter sido ordenado por Felipe IV em pessoa.

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Isabel de França

De qualquer forma, estes casos extraconjugais não atrapalhavam o casal real em continuar tentando produzir um herdeiro do trono. Em novembro de 1623, nasceria outra filha, seguida por outra menina dois anos depois; entretanto, as infantas Margarida Maria e Maria Eugênia também viveriam pouco. No ano seguinte, uma nova gravidez terminaria num parto prematuro, e em outubro de 1627 viria à luz Isabel Maria, mais uma filha de curta vida. A despeito das frequentes tragédias familiares, porém, o rei não abdicaria de suas várias amantes, e em abril de 1629 uma delas – a atriz Maria Calderón – teve o único filho ilegítimo que Felipe IV reconheceria como seu, chamado de João. Este nascimento colocaria, como era natural no período, grande pressão sobre Isabel, grávida na época; em outubro ela finalmente daria à luz o tão esperado menino, nomeado com o incomum nome de Baltasar.

A década de 1630 testemunharia mais nascimentos reais; em 1634, um menino – Francisco – que viveu pouco, seguido em 1636 por Maria Ana, que também teve falecimento precoce. Em 10 de setembro de 1638, nasceria uma menina que sobreviveu, a infanta Maria Teresa. Apenas cinco dias antes, nascera em França o primeiro filho sobrevivente do irmão de Isabel, Luís XIII, e Ana de Áustria, irmã de Felipe IV; provavelmente uma união entre as duas crianças já então foi considerada pelas Coroas. Nos anos seguintes, a rainha Isabel teria no mínimo dois partos prematuros, e não haveria mais crianças de seu casamento com Felipe IV.

Paralelamente ao processo de fim de sua importância reprodutiva, a rainha Isabel crescia em importância política. De acordo com a mentalidade da época, a produção de dois herdeiros vivos deve ter contribuído para aumentar a confiança do rei na capacidade governamental da consorte, embora também seja certamente provável que a doença progressiva do valido Olivares, junto com seus fracassos recentes em política externa e econômica, tenha ajudado neste processo. De fato, além de forçar a partida de Olivares da corte, ela pôde ser regente de Espanha enquanto seu marido lidava com a revolta catalã no início da década de 1640, mostrando de fato aptidão superior à do marido para lidar com questões burocráticas.

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Felipe IV de Espanha

O excesso de trabalho, contudo, piorou a frágil saúde de Isabel, que já sofria anteriormente de problemas no estômago. Em outubro de 1644, ela ficaria retida à cama. Sangrias foram realizadas, mas o estado da rainha apenas se agravava, e contra os desejos iniciais dela, seu marido foi chamado. Quando Felipe IV chegou à Madri, porém, o corpo de sua esposa já esfriava. Pouco antes de sua morte aos 41 anos de idade, Isabel de França despediu-se do príncipe Baltasar e da infanta Maria Teresa. Com medo de qualquer possível contágio, ela não teria deixado que eles se aproximassem, dizendo: “Rainhas havia muitas para Espanha, mas príncipes muito poucos”.

Suas palavras eram proféticas. Pouco mais de dois anos depois que a rainha foi sepultada vestida em um hábito da ordem de São Francisco, seu filho Baltasar padeceu subitamente. Felipe IV, além de ver o Portugal dos Bragança sair cada vez mais de seu alcance, ainda se encontrava sem herdeiro varão. Para procurar resolver tal questão, ele casou-se contra a vontade com a antiga prometida do príncipe, sua sobrinha Mariana de Áustria, em 1649, numa união que eventualmente lhe traria satisfação e outro príncipe: o futuro Carlos II. Seria com este deformado rei, contudo, que a dinastia dos Habsburgo espanhóis conheceria o seu fim e seria substituída pelo ramo da Casa Bourbon descendente da rainha Isabel por meio de sua filha Maria Teresa, rainha de França.

Para saber mais:

OLIVEIRA, António de. D. Filipe III. Círculo de Leitores, 2012.

CANTÓ, Pilar Perez et all. Rainhas de Portugal e Espanha – Margarida de Áustria e Isabel de Bourbon. Temas e Debates, 2015.

Isabel de França – parte I

Nascida em 22 de novembro de 1602 no castelo de Fontainebleau, Isabel de França foi a segunda criança (primogênita mulher) do casamento entre o rei Henrique IV e sua segunda esposa, Maria de Médicis. Sendo a filha legítima mais velha do monarca, ela recebeu o título honorífico de Madame Royale, sendo oficialmente desde cedo a dama mais importante da corte francesa depois da rainha. Tendo uma fértil mãe, Isabel cresceria com vários irmãos e irmãs, alguns dos quais desempenhariam importante papel na história europeia do século XVII – como seu irmão mais velho Luís, melhor conhecido como o pai do Rei Sol (1), e sua irmã caçula Henrietta, célebre por seu papel na Guerra Civil Inglesa. A jovem princesa também teria vários irmãos ilegítimos, frutos dos diversos casos extraconjugais paternos.

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A família de Isabel (c. 1607)

Em maio de 1610, quando Isabel ainda não completara oito anos de idade, Henrique IV sucumbiu a mais uma tentativa de assassinato, morrendo apenas um dia após a coroação de Maria de Médicis; em poucas horas, ela seria elevada à condição de regente do jovem rei Luís XIII, e continuaria no cargo até a maioridade do filho em 1617. Neste ano, porém, tanto o jovem monarca quanto sua irmã Isabel já estariam envolvidos em acertos nupciais com a Casa de Habsburgo. De fato, desde 1602 as Coroas de França e Espanha procuravam acertar uma aliança política-militar, a ser efetuada através de contratos nupciais, mas a frequente disputa pela hegemonia da Europa frequentemente atrapalhava tais negociações. A morte do popular rei francês, contudo, possibilitou que a Espanha fizesse sua jogada para procurar neutralizar a rival, propondo um enlace duplo: a ideia era que Luís XIII fosse casado com a infanta Ana e Isabel se unisse ao príncipe Felipe.

Embora as capitulações matrimoniais tenham sido confirmadas em agosto de 1612 e os casamentos fossem previstos para ocorrer logo no ano seguinte, as núpcias apenas seriam efetuadas realmente em outubro de 1615, após o qual as princesas foram devidamente trocadas na fronteira de Bidasoa e seguiram para seus novos reinos. Por que tal atraso ocorreu? Embora, claro, a idade dos jovens em questão com certeza tenha tido impacto no adiamento (2), não se pode subestimar o poder da oposição interna em Espanha em relação às uniões. Ao final, contudo, a razão de Estado acabou por se impor e os casamentos de presente ocorreram. Semanas depois, Isabel fez sua entrada em Madri, guiada por uma comitiva que continha o futuro conde-duque de Olivares e era liderada pelo próprio duque de Lerma, valido de Felipe III.

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A troca das princesas

O novo casal era, na verdade, composto por duas crianças, que tinham a maturidade física cuidadosamente observada à procura do melhor e mais seguro momento para a consumação, ocorrida apenas em fins de 1620, quando Isabel já se transformara numa bela mulher de expressivos olhos negros. A atração do príncipe era evidente, e rapidamente sua esposa estaria grávida, com a primeira filha de ambos nascendo já em agosto de 1621; a infanta Maria Margarida, porém, morreria com poucos dias. Nesta altura, Felipe já ascendera como rei de Espanha e Portugal com o falecimento precoce de seu pai homônimo. No início de seu governo, o novo rei estava às beiras de completar 16 anos, e em sua inexperiência governamental se apoiou fortemente no favorito Olivares, que se tornou também seu valido. Olivares, que aprendera bem as lições das disputas entre seu antecessor e Margarida de Áustria, restringiu o papel da rainha Isabel ao que ele acreditava ser o dever natural das rainhas: parir. E isso ela faria com regularidade nas duas décadas seguintes, embora seu papel mais importante perante o rei – fornecer um herdeiro para Espanha – acabasse tragicamente não sendo cumprido.

(1) Luís XIV.

(2) Durante a maior parte de 1613, Luís XIII e Ana de Áustria tinham 11 anos, Isabel tinha 10 e Felipe 8.