A estrela de Velásquez: Margarida Teresa de Habsburgo

Nascida em 12 de julho de 1651, a infanta Margarida Teresa foi a primogênita do casamento do rei Felipe IV de Espanha com Mariana de Áustria, que também era sua sobrinha. Margarida tinha uma meio-irmã mais velha, Maria Teresa, filha da falecida rainha Isabel de França, que seria a herdeira presuntiva do trono espanhol enquanto seu pai não tivesse um novo filho homem com a segunda esposa (1). Neste sentido, pode-se entender o motivo das negociações para casar Maria Teresa com o rei francês, Luís XIV, só engrenarem de verdade após o nascimento de um príncipe em 1657. Apesar disso, os direitos sucessórios da infanta foram oficialmente retirados, embora a validade de tal renúncia dependesse de um dote que jamais foi integralmente pago aos franceses. Assim, a união das coroas de Espanha e França era uma possibilidade real quando Felipe IV faleceu em setembro de 1665; de seus três meninos sobreviventes com Mariana de Áustria – Felipe, Fernando e Carlos -, apenas o último ainda vivia na época, e era uma criança bastante doente que só conseguiria andar aos oito anos de idade.

Neste cenário de crise, é fácil compreender o motivo pelo qual o matrimônio da segunda infanta foi cuidadosamente pensado desde muito cedo. Como forma de garantir uma alternativa genuinamente Habsburgo contra os possíveis pretendentes Bourbon ao trono de Espanha, Margarida Teresa ficou comprometida com o Sacro Imperador Romano, Leopoldo I, que era ao mesmo tempo seu tio materno e primo paterno, além de onze anos mais velho, o que impossibilitava qualquer consumação física enquanto as devidas dispensas papais não fossem providenciadas e a noiva fosse madura. Enquanto o primeiro ponto era relativamente fácil de ser arranjado, nada menos do que tempo poderia resolver o segundo; para acompanhar o crescimento de Margarida, a corte austríaca dependeria de constantes retratos enviados pelos espanhóis, executados pelo pintor Diego Velásquez.

Hoje considerado uma dos principais representantes artísticos da chamada Era Dourada Espanhola, Diego Rodríguez de Silva y Velásquez nascera em Andaluzia em 1599 e ainda jovem se destacara entre seus pares, tornando-se rapidamente um favorito de Felipe IV e o principal responsável pelos retratos de sua família. Quando Margarida nasceu em 1651, ele já estava mais do que consagrado na corte espanhola, e foi nesta posição que ele pintou o que é considerada sua maior obra: Las Meninas (2). Terminada em 1656, a pintura traz em seu centro a infanta Margarida – a esta altura com quatro ou cinco anos de idade -, cercada por suas damas de companhia. Também se encontram no primeiro plano da cena dois anões ricamente vestidos. Ao fundo, do lado direito, aparece uma mulher vestida como freira – possivelmente a governanta da infanta – acompanhada por um homem da corte. Ainda mais ao fundo, outro cavalheiro observa a cena. Não é evidente se ele está entrando ou saindo do aposento.

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Las Meninas

O diferencial do quadro, porém, está do lado esquerdo, onde aparece o próprio Velásquez, que fita o espectador enquanto parece retratar alguém; refletido num espelho ao seu lado, está o casal real, que seria então o assunto da obra em questão. Apesar disso, o ângulo da representação parece algo estranho, o que alimenta a controvérsia que a representada seria mesmo a infanta. Neste caso, qual seria o significado da presença de Felipe IV e Mariana de Áustria na pintura? As incessantes análises da obra mostram que esta e outras questões sobre Las Meninas ainda podem ser discutidas por muito tempo.

Velásquez ainda retrataria a infanta em outras ocasiões, como nas obras Margarida Teresa em Vestido Azul (1659) e Margarida Teresa em Vestido Rosa (1660), este terminado no mesmo ano da morte do pintor. Após poucos anos, Felipe IV também faleceria. Meses depois, ainda enlutada, Margarida viajaria para finalmente casar-se com o tio; as extravagantes comemorações posteriores durariam nada menos do que dois anos. De constituição frágil e aparência pouco atrativa, Leopoldo I era profundamente religioso e bastante culto, sendo fluente em várias línguas e interessado nas artes, principalmente música. Estes eram interesses que ele compartilhava com a jovem esposa, com quem manteve uma relação próxima e um casamento surpreendentemente feliz. Em pouco tempo, Margarida daria à luz seu primeiro filho, que não viveria muito. No mínimo mais três gestações se seguiriam, mas apenas uma filha – Maria Antônia – sobreviveria.

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Margarida Teresa em Vestido Azul

Apesar de sua graciosidade, representada tantas vezes por Velásquez, Margarida também tinha uma saúde frágil, uma infeliz herança de décadas de casamentos consanguíneos entre os Habsburgo. A série de gestações pela qual passou, possivelmente enquanto seu corpo ainda não estava maduro por completo para a maternidade, apenas piorou seu estado. De forma previsível, sua morte ocorreria pouco depois de um aborto ou parto prematuro em 12 de março de 1673. Faltavam poucos meses para que ela completasse 22 anos de idade. Arrasado, mas ainda sem um herdeiro, seu marido se casaria de novo alguns meses depois, mas este segundo matrimônio também não produziria meninos. Seria apenas nas terceiras núpcias de Leopoldo I que ele seria pai dos futuros imperadores José I e Carlos VI, este último pai da ilustre imperatriz Maria Teresa. Sua única filha com Margarida, contudo, teria uma vida breve e infeliz. Herdeira da pretensão de sua mãe ao trono de Espanha, Maria Antônia morreria ainda antes do doente tio Carlos II, cujo falecimento em 1700 seria o gatilho para a Guerra de Sucessão Espanhola.

(1) O único filho homem sobrevivente de Isabel de França com o rei fora Baltasar Carlos, que morrera alguns anos depois de sua mãe.

(2) Expressão de origem portuguesa que designa as acompanhantes reais.

Para saber mais:

http://viola.bz/short-life-of-princess-infanta-margarita/

http://www.habsburger.net/en/persons/habsburg/margarita-teresa-spain?language=en

http://www.sabercultural.com/template/obrasCelebres/AsMeninas.html

http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br/2013/06/as-meninas-de-diego-velasquez-analise.html