Leonor de Áustria – parte III

Na época de seu casamento com Leonor, D. Manuel I considerara uma união futura do príncipe com a princesa Renata, filha de Luís XII de França, mas as negociações acabaram por falhar. Perto de sua morte, o rei voltou a tratar de um duplo enlace que era muito de seu agrado: no projeto, sua filha D. Isabel se casaria com o imperador Carlos V e seu filho D. João se uniria à irmã do imperador, Catarina, ainda retida em Tordesilhas com sua mãe Joana. O falecimento súbito do monarca português pareceu alterar toda a situação, uma vez que agora parecia que o novo rei se casaria com sua madrasta, por quem, segundo uma fonte inglesa, se encontrava loucamente apaixonado.

Um pedido de dispensa papal inclusive estaria sendo procurado após o imperador Carlos V concordar com o casamento dos dois e, segundo um boato, D. Leonor já estaria grávida. Apesar de tudo isso, contudo, a rainha viúva retornou para junto do irmão em meados de junho de 1523, deixando para trás a única filha, D. Maria. Os motivos parecem condenados a permanecer envolvidos em mistério. As supostas núpcias seriam só um mexerico gerado por uma corte ansiosa, ou então um dos noivos desistiu do enlace, talvez por motivos religiosos? Não é possível saber ao certo. De qualquer maneira, D. João III acabaria por se casar com Catarina de Áustria, a irmã mais nova de Carlos V por tanto tempo presa com sua mãe instável, em 1525, e cuidaria da irmã caçula D. Maria com carinho paternal até sua morte.

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Catarina de Áustria, irmã mais nova de Leonor e esposa de D. João III, conforme interpretada por Guiomar Puerta na série Carlos, Rey Emperador

Pouco depois de sua volta à Espanha, Leonor ficou comprometida com o duque de Bourbon como parte de um arranjo de seu irmão para lutar contra o rei de França. Em 1525, contudo, tudo seria alterado com a esmagadora vitória imperial em Pavia. Feito prisioneiro, Francisco I teve que fazer amplas concessões no Tratado de Madri, assinado em 1526, onde ele cedeu muitos territórios e pretensões, além de concordar em enviar dois de seus filhos para ficarem como reféns na Espanha, a fim de garantir o cumprimento dos termos. Além disso, Carlos V propôs que o monarca viúvo voltasse a se casar com sua irmã também viúva, Leonor. Sem escolha, Francisco I aceitou.

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Leonor em retrato feito quando era rainha de França

Após deixar a Espanha com seus futuros enteados, Leonor encontrou o rei francês na fronteira antes de ser coroada em Saint-Denis em 31 de maio de 1531. Francisco ignorava a esposa na maior parte do tempo, preferindo a companhia de amantes, especialmente Ana de Pisseleu d’Heilly, a duquesa de Étampes. O casal real não teria filhos antes da morte de Francisco em 1547, embora Leonor tenha cuidado das filhas sobreviventes do primeiro casamento do marido com Cláudia de Valois, as princesas Madalena, futura rainha de Escócia, e Margarida, futura duquesa de Saboia.

Após esta segunda viuvez, Leonor foi viver primeiro em Brussels e depois em Espanha, onde ficou com sua irmã Maria na cidade de Jarandilla de la Vera, perto do monastério onde o irmão passou a viver após sua abdicação em 1555. Em 1558, após a morte de D. João III, sua filha D. Maria saiu de Portugal em direção à cidade de Badajoz, onde encontraria sua mãe pela primeira vez em quase trinta anos. Após algumas semanas juntas, a infanta retornaria ao reino de origem, frustrando o desejo de sua mãe para que fosse viver com ela em Espanha. Pouco depois, Leonor, rainha viúva de França e Portugal, faleceria aos 59 anos de idade, antecipando-se ao irmão Carlos e à irmã Maria por poucos meses.

Para saber mais:

http://www.examiner.com/article/historical-profile-eleanor-of-austria

http://www.mujeresenlahistoria.com/2015/09/la-hermana-fiel-leonor-de-habsburgo.html

BRAGA, Paulo Drumond. D. João III. Lisboa: Hugin Editores, 2002.

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

Leonor de Áustria – parte II

Após a devolução da infanta, Carlos I de Espanha pode dedicar-se melhor à posse de seu novo território. Neste sentido, uma parte fundamental era garantir a segurança das fronteiras de Aragão e Castela. Isso foi temporariamente alcançado, por um lado, com noivados consecutivos com duas princesas da sempre perigosa França, Luísa e Carlota, filhas de Francisco I e Cláudia de Valois. Pelo outro lado, porém, o rei parecia ter terreno mais seguro em suas negociações com D. Manuel I de Portugal, que já era casado com sua tia, Maria de Aragão. Rapidamente, surgiriam propostas no sentido de uma união entre o herdeiro do trono, D. João, e a irmã mais velha do rei espanhol, Leonor; já nesta ocasião, talvez tenham ocorrido também insinuações não oficiais de uma possibilidade de núpcias entre D. Isabel, irmã de D. João, e o próprio Carlos. De qualquer forma, as negociações do casamento entre D. João e Leonor provavelmente estavam bem avançadas quando a rainha D. Maria faleceu em 7 de março de 1517.

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D. Manuel I

Manuel I, que fora casado com ela por mais de quinze anos e produzira com a rainha oito crianças sobreviventes, ficou arrasado, possivelmente até com um início de depressão, fechando-se por duas semanas num convento próximo à cidade de Sintra e, depois, mais uma semana em Xabregas, onde a consorte estava sepultada. Após este luto profundo, retomou lentamente o governo, mas considerando abdicar em breve em nome do herdeiro D. João. De fato, durante certo tempo, pareceu que este seria o rumo que as coisas seguiriam, mas então, de súbito, D. Manuel I recuperou as energias e a vontade de reger Portugal. Além disso, em outubro de 1517, enviou secretamente à Castela o embaixador Álvaro da Costa para negociar seu terceiro matrimônio com ninguém mais, ninguém menos do que a própria noiva de seu herdeiro, Leonor. O que teria acontecido? Teria o rei português sido tomado pela luxúria ao ouvir falar da beleza da arquiduquesa?

Para o autor de uma recente biografia de D. João III, o cerne do conflito que rapidamente estalou entre D. Manuel I e o príncipe não estava exatamente aí, mas sim em maquinações de D. João e alguns conselheiros próximos, que chegaram até os ouvidos do rei. Conflitos entre monarcas e seus herdeiros eram comuns na história portuguesa, como podem mostrar as trajetórias de D. Dinis, D. Afonso IV e D. Pedro I. Talvez D. Manuel I tenha querido cortar o mal pela raiz ao mandar afastar da corte uma das principais companhias do filho, Luís da Silveira, além de atrasar ainda mais a formação da casa própria de D. João, como já seria o costume para a sua idade, principalmente se – e aí pode encontrar-se a chave para compreender ainda melhor as atitudes de D. Manuel I – o herdeiro contraísse matrimônio. Mantendo-o solteiro, o rei teria impedido a consolidação de uma possível rede de intrigas. Além disso, casando-se ele mesmo com Leonor, D. Manuel I garantia o apoio de Carlos I contra qualquer possível rebelião do príncipe.

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O futuro D. João III conforme interpretado por Tamar Novas na série Carlos, Rey Emperador

Previsivelmente, D. João jamais ficou satisfeito com a situação e, no início, aparentemente nem Leonor. Segundo uma narrativa de época, ela teria que ter sido convencida da troca de noivos por suas damas, que lhe disseram o pior possível do príncipe D. João. Quando ambos se viram pela primeira vez em novembro de 1518, Leonor percebeu visivelmente o engodo, e dirigindo-se para suas damas com ironia e alguma mágoa, perguntou: “Este es el bovo?” (1). Independente das mentiras que lhe haviam sido contadas para que se casasse com um homem quase trinta anos mais velho, entretanto, parece que as núpcias de D. Manuel I com Leonor de Áustria foram satisfatórias para ambas as partes.

Fazendo jus à fertilidade de sua mãe Joana, a nova rainha portuguesa engravidou rapidamente e, em 18 de fevereiro de 1520, deu à luz ao infante D. Carlos. Tristemente, em 15 de abril do ano seguinte o bebê faleceria, mas logo em 8 de junho nasceria a infanta D. Maria. Provavelmente esta sequência de crianças continuaria caso D. Manuel I não tivesse adoecido, mostrando os primeiros sinais de uma febre em 5 de dezembro e piorando rapidamente. Era a peste, que assolava Lisboa naquele momento. O príncipe e os grandes de Portugal rapidamente foram chamados para testemunhar os últimos momentos do rei, que ditou seu testamento em 11 de dezembro, onde pedia para seu herdeiro proteger a madrasta. No mesmo dia, ela, juntamente com seus enteados, seria afastada da câmara onde o rei agonizava. A morte, contudo, só chegaria no dia 13, com a quebra de escudos ocorrendo no dia 17. Devido a abundante chuva que caía em Lisboa, entretanto, a aclamação de D. João III só foi feita no dia 19. Em breve, surgiriam conversas a respeito do casamento do novo rei.

(1) “É este o bobo?”

 

Leonor de Áustria – parte I

Nascida em 15 de novembro de 1498, a arquiduquesa Leonor era a primogênita da infanta Joana de Castela e de Felipe, duque de Borgonha e herdeiro de Áustria por via de seu pai, o Sacro Imperador Romano Maximiliano I. O matrimônio deles, ocorrido em outubro de 1496, fazia parte de uma aliança maior entre os Trastâmara e os Habsburgo contra o poder francês no continente; para cimentar ainda melhor o acordo entre as Casas, o irmão de Joana, o príncipe João, também se casaria com a irmã de Felipe, Margarida. Apesar de ambas as uniões serem inicialmente bem-sucedidas do ponto de vista amoroso, as núpcias planejadas por Fernando II de Aragão para fortalecer sua dinastia acabaram, ironicamente, por entregar a Espanha aos Habsburgo. Pouco menos de um ano após o casamento de sua irmã Joana com o duque de Borgonha, o príncipe João faleceu, provavelmente de tuberculose, e sua filha com Margarida de Áustria seria natimorta pouco tempo depois. A herança espanhola passaria, então, para a filha mais velha dos Reis Católicos, Isabel, recém-casada com o rei português D. Manuel I. Em agosto seguinte, entretanto, ela também faleceria após o parto de D. Miguel, que foi o herdeiro de Aragão, Castela e Portugal até sua morte precoce em julho de 1500.

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Rainha Joana de Castela (circa 1500)

Pouco tempo depois da pequena Leonor ganhar um irmão, portanto, Joana de Castela tornou-se a herdeira improvável dos reinos de seus pais. Seu ambicioso marido rapidamente procurou aumentar seu próprio poder com a nova posição dela, principalmente depois que a morte de Isabel I em 1504 tornou Joana a nova rainha reinante de Castela. Felipe usaria a depressão da consorte, causada em grande parte pela constante infidelidade dele, para espalhar boatos sobre a suposta loucura dela e, assim, procurar fortalecer sua autoridade. Estas manobras políticas não o impediam em absoluto de procurar carnalmente a esposa, contudo, e quando ele morreu subitamente em setembro de 1506, Joana estava grávida pela sexta vez.

Enquanto sua mãe era controlada politicamente e, finalmente, aprisionada em Tordesilhas por seu próprio pai, que procurava manter o poder construído em décadas de reinado conjunto com Isabel I, Leonor crescia junto à maioria de seus irmãos e irmãs em Borgonha, aos cuidados de sua tia Margarida. Durante esta extrema juventude, seu casamento já era uma moeda de troca, com negociações neste sentido ocorrendo com Henrique VII de Inglaterra em nome de seu filho e herdeiro homônimo. Ambos chegariam a ficar noivos, mesmo que o príncipe tivesse sido prometido anteriormente à tia de Leonor, a infanta Catarina. Quando o rei inglês faleceu em 1509, contudo, a arquiduquesa tinha apenas dez anos de idade, e Henrique VIII preferiu casar-se com Catarina, que já era bem mais madura fisicamente e, logo, capaz de gerar filhos. Alguns anos mais tarde, quando o rei francês Luís XII enviuvou, também ocorreriam negociações nupciais envolvendo Leonor, mesmo que este monarca fosse quase quarenta anos mais velho do que a putativa noiva. Novamente, contudo, a juventude da arquiduquesa pareceu ter entrado no caminho para a concretização deste arranjo. Luís XII preferiu se casar com Maria Tudor, a irmã de 18 anos do rei Henrique VIII, em outubro de 1514. Outras negociações frustradas também ocorreriam com o rei de Polônia, Sigismundo, antes que Leonor supostamente tivesse um caso amoroso com Frederico II, Eleitor Palatino.

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Leonor na série ‘Carlos, Rey Emperador’, conforme interpretada por Marina Salas

O matrimônio dos dois, contudo, não interessava ao seu irmão Carlos, duque de Borgonha e rei de Espanha desde a morte de seu avô Fernando em 1516, que teria inclusive feito o casal jurar que não se unira secretamente antes de expulsar Frederico de sua corte. De qualquer forma, os irmãos seguiriam pouco depois para a Espanha, onde encontrariam sua mãe Joana pela primeira vez em vários anos. Lá, a doente rainha, já perturbada mentalmente após uma década de confinamento forçado, deu sua permissão solene para que o filho reinasse em seu lugar em Castela e Aragão. Mesmo assim, Joana não poderia deixar a sua prisão, ficando confinada em Tordesilhas até sua morte, apesar de Leonor ter procurado deixar seus aposentos confortáveis antes de partir novamente com Carlos. Eles seriam acompanhados mais tarde por sua irmã caçula Catarina, que deixara seus aposentos secretamente. Aquela seria a primeira tentativa de incorporar a jovem à vida social da corte, frustrada quando Joana, ao notar a ausência da filha de sua prisão pela primeira vez desde o nascimento da menina, declarou que não mais se alimentaria até que ela lhe fosse devolvida.

Isabel de Portugal, a ínclita duquesa

Nascida em 21 de fevereiro de 1397, D. Isabel foi a sexta criança a surgir do casamento entre o primeiro rei da dinastia de Avis, D. João I, e sua consorte, a inglesa Philippa de Lancaster, filha de João de Gaunt e neta de Eduardo III. Apesar de ter vindo à luz relativamente tarde na união, a infanta seria a única filha do casal real – uma irmã mais velha, Blanche, morrera na infância. D. Isabel teria, contudo, cinco saudáveis irmãos: D. Duarte, que se tornaria rei depois da morte do pai, D. Pedro, futuro regente do reino, D. Henrique, célebre por suas contribuições às Navegações Portuguesas, D. João, Condestável de Portugal e D. Fernando, o Infante Santo.

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Philippa, a mãe de D. Isabel

Nesta ilustre geração produzida por D. João I e Philippa de Lancaster, a única filha sobrevivente (1) brilharia como a joia da coroa. Possivelmente tendo herdado a beleza de sua avó materna, D. Isabel também se destacava pela inteligência, sendo educada junto com seus irmãos e tendo os mesmos tutores que eles enquanto aprendia matemática, latim, francês, inglês e italiano. Eles também caçavam juntos. Além disso, a jovem D. Isabel era autorizada, em notável contraste com a maioria das donzelas de sua época, a comparecer com os irmãos quando o pai os instruía sobre questões de Estado.

Dificilmente esta bonita e inteligente filha de rei passaria despercebida, e, de fato, não foi o que ocorreu: em 1415, negociações começariam para que D. Isabel se casasse com o rei Henrique V de Inglaterra, que pouco tempo antes subira ao trono. Na verdade, os dois jovens eram primos, uma vez que a mãe da infanta e o pai do monarca, Philippa e Henrique, eram irmãos, sendo ambos filhos de João de Gaunt e Blanche de Lancaster. Apesar disso, contudo, o casamento não era só para reaproximar a família, mas também para conseguir o apoio do reino de Portugal contra a França, com quem a Inglaterra já travava uma longa série de conflitos há vários anos (2). É de se imaginar que a rainha inglesa de Portugal fosse entusiasta do arranjo, mas Philippa não viveria para vê-lo, morrendo subitamente de peste no meio de um quentíssimo verão português. D. Isabel era muito próxima de sua mãe, e ficou arrasada, retirando-se da corte em luto. Neste sentido, o fracasso das negociações nupciais com Henrique V pode ser melhor entendido. Anos depois, ele acabaria se casando com a princesa francesa Catarina de Valois.

Durante os próximos 13 anos, a infanta permaneceria sem outras propostas matrimoniais, focando-se em música e livros e cuidando de suas propriedades legadas pela mãe. É de se pensar que talvez ela tenha recebido propostas menores de casamento, mas optou por preservar a situação privilegiada em que se encontrava: afinal, depois da morte de Philippa, era D. Isabel agora a mulher mais importante da corte portuguesa. Em 1428, quando já tinha 31 anos de idade, ela finalmente aceitou a proposta do Felipe, duque de Borgonha, cognominado como O Bom, após muitas negociações entre os embaixadores deste e o pai e irmãos de D. Isabel. Era muito prestigioso para Portugal se unir ao sofisticado ducado por casamento, e as comemorações ocorridas foram de acordo, durando oito semanas. Apenas depois a infanta partiu para se encontrar com o novo marido, mas a viagem foi difícil e duraria mais 11 semanas. Por fim, ela chegou na cidade de Sluys no dia de Natal. Após uma cerimônia formal de casamento em 7 de janeiro de 1430,  Isabel e Felipe consumaram a união.

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Isabel com seu marido

Ela já era a terceira esposa do duque de Borgonha. A primeira, Michelle de Valois, com quem Felipe fora comprometido ainda na infância, era filha de Carlos VI de França e morreu de doença em 1422. Dois anos depois, o duque voltou a se casar, desta vez com sua tia por casamento, Bonne de Artois, duquesa viúva de Nevers, que já tivera dois filhos homens nas núpcias anteriores. Apesar dela ser jovem, porém, o matrimônio durou apenas pouco mais de um ano antes da morte prematura de Bonne em 1425, deixando o duque novamente viúvo e ainda sem filhos legítimos, ainda que ele já tivesse gerado vários ilegítimos de variadas amantes.

Neste ponto, Isabel de Portugal cumpriu sua tarefa para o marido de maneira exemplar, mesmo que tivesse se casado relativamente tarde para a época; poucos meses após a união, ela já estava grávida. Em 30 de dezembro de 1431, ela deu à luz ao seu primeiro menino, que chamou de Antônio. Já no outono seguinte, ela se encontrava grávida novamente, emulando a famosa fertilidade de sua mãe Philippa. A boa relação do casal ducal, incluindo a confiança que Felipe depositava em Isabel, não significava que ambos estivessem alinhados politicamente; ao contrário. Enquanto o marido tendia a fortalecer seus laços com o vizinho francês, a esposa o incentivava a colaborar com a Inglaterra.

Embora tal diferença de opinião fosse causar discordância entre ambos durante o matrimônio, não diminuiu as responsabilidades governamentais confiadas à Isabel; em janeiro de 1432, quando o duque teve que ir para Dijon, a duquesa recebeu dele a autoridade para governar os territórios em sua ausência. Ainda na ausência de Felipe, o primogênito Antônio, sempre doente, faleceu. Isabel ficou arrasada, mas já em 23 de abril teve um segundo menino, que chamou de José. Mesmo com todos os cuidados, ele também faleceria jovem. Felipe finalmente retornou durante o inverno, quando Isabel engravidou pela terceira e última vez, dando à luz em 10 de novembro de 1433 ao único filho que sobreviveria. Tratava-se de Carlos, o Temerário.

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Carlos, o filho de Isabel e Felipe, circa 1460

Além das tarefas governamentais, a duquesa também se ocupava de assuntos financeiros, sendo responsável por propor um novo sistema monetário para o ducado, influenciado pelos modelos inglês e francês. Em junho de 1433, o duque Felipe partiu para o sul para guerrear contra os franceses e deixou o governo novamente sobre controle de sua esposa. Ele retornaria apenas em abril do ano seguinte. Ao ver como Isabel cuidara eficientemente de tudo, Felipe não lhe retirou o poder, ao contrário do que seria de costume. Desta forma, Isabel permaneceu como uma figura poderosa nas políticas do ducado de Borgonha. Durante as negociações triplas de paz entre Borgonha, França e Inglaterra, em 1435, foi dela o papel preponderante, a ponto do rei Carlos VII lhe conceder uma polpuda renda anual em agradecimento aos “seus serviços na reunião e negociação da paz”. Em 1439, as relações positivas com a França seriam confirmadas com o casamento entre o filho de Isabel, Carlos, e uma das filhas do rei francês, Catarina. Um acordo comercial com a Inglaterra também foi alcançado, embora a desejada paz ainda não ocorresse. De qualquer forma, a atuação diplomática da duquesa de Borgonha, que serviu como intermediária entre Henrique VI de Inglaterra e Carlos VII de França, foi louvada.

A partir de 1443, quando a expansão borgonhesa efetuada pelo duque Felipe se confirmou com a aquisição do território de Luxemburgo, a duquesa Isabel, com posses e rendimentos muito aumentados em relação à época de seu casamento, começou a tornar-se a líder de facto de Borgonha. Foi ela quem arranjou o matrimônio da sobrinha do marido, Maria de Guelders, com o rei escocês Jaime II, efetuado em 1449. Depois, ela começou a negociar com o duque de York a mão da filha deste, Ana, para o seu filho enviuvado desde 1446. Felipe, contudo, queria que o jovem Carlos se casasse com uma prima, Isabel de Bourbon, e interrompeu as negociações da esposa ao providenciar uma rápida e secreta união entre os dois em 30 de outubro de 1454. A duquesa ficaria furiosa com o marido e, inicialmente, até mesmo se recusaria a reconhecer a posição da nova nora. Com a disputa com o duque, que caíra sob a influência da poderosa família De Croy, Isabel perdeu parte de seu poder, já desgastado anteriormente devido ao início do processo de centralização das políticas borgonhesas e à criação de vários órgãos administrativos no ducado, e teve que retirar-se para sua propriedade em La-Motte-au-Bois, onde continuou se dedicando ao seu trabalho de caridade.

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Isabel, duquesa de Borgonha, circa 1450

As boas relações entre Isabel e Felipe só seriam retomadas inteiramente após um derrame deste em junho de 1458, quando ela passaria a cuidar pessoalmente da saúde dele, o que se manteria até a morte de Felipe em 1467. A influência de Isabel foi restaurada e ela voltou a trabalhar ativamente na diplomacia, deixando o filho Carlos para cuidar dos assuntos administrativos e militares. Em 1465, este ficou viúvo novamente, e Isabel aproveitou a oportunidade para negociar um matrimônio com a irmã do rei inglês Eduardo VI, Margarida, que foi alcançado e realizou-se em julho de 1468.

A partir de 1471, Isabel começou a ficar cada vez mais doente e passou a preparar-se para a morte, presenteando ordens religiosas e parentes mais chegados, como a nora Margarida e sua única neta, Maria, fruto do segundo matrimônio de Carlos com Isabel de Bourbon. Em outubro, ela já não conseguia comer, mas seria apenas em 17 de dezembro que Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha, faleceria nos braços do filho Carlos. Tinha 74 anos de idade. Ela foi enterrada com o marido em Chartreuse de Champmol, em Dijon. Carlos, o único herdeiro do casal, não teria filhos com sua esposa inglesa, sendo sucedido no comando do ducado pela filha Maria, que por sua vez se casaria com Maximiliano de Áustria e teria com ele dois filhos, Felipe e Margarida, antes de sua trágica morte em 1482. Por meio do matrimônio de sua neta, então, Isabel seria a trisavó póstuma de Carlos V, Sacro Imperador Romano, que dominaria grande parte da Europa na primeira metade do século XVI.

(1) Outra infanta chamada Blanche, esta mais jovem do que D. Isabel, morreria com poucas semanas de vida.

(2) Mais conhecida como A Guerra dos Cem Anos.

Para saber mais:

http://thefreelancehistorywriter.com/2013/01/16/isabel-of-portugal-duchess-of-burgundy/

PARISOTO, Felipe. D. Isabel de Portugal, ínclita duquesa de Borgonha (1430-1471), diplomata europeia do século XV. Contributo para uma bibliografia crítica. Disponível em: https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/18532