Maria de Aragão – parte II

Contando 17 anos na época das negociações, Maria era francamente a única princesa casadoira no raio de influência portuguesa, de modo que seu casamento com D. Manuel – com apenas um filho de frágil saúde – era algo inevitável, principalmente depois que as pretensões da Casa de Habsburgo ao trono português (1) encerraram qualquer ideia de D. Manuel quanto a um possível casamento com a princesa viúva Margarida.  Apesar de tudo, ainda eram os Reis Católicos os maiores interessados na união de Manuel e Maria; afinal, a pretendente derrotada ao trono castelhano, a princesa Joana, ainda estava em idade reprodutiva. Para evitar esta terrível possibilidade, Isabel e Fernando aceleraram as negociações nupciais, com o casamento se concretizando poucos meses depois da morte do neto e herdeiro deles.

Apesar da leve hesitação do rei português quanto à união, hoje é reconhecido que este segundo matrimônio de D. Manuel foi o responsável pelo estabelecimento do mais forte e duradouro laço de afeição e, muito possivelmente, verdadeiro amor, de sua vida, como pode ser entrevisto no grande sofrimento do monarca quando D. Maria faleceu. Logo no início do casamento, o casal real se estabeleceria em Lisboa, onde a rainha rapidamente cultivaria uma reputação discreta e religiosa. Segundo o cronista Damião de Goés, Maria era “muim honesta em todas as suas praticas”, afirmação reforçada por D. Jerônimo Osório quando este afirma que ela era “muito afável e humana em seu trato, e mui comedida em todas as suas falas”.

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Maria após seu casamento e maternidade

Tudo isto, combinado com a forte influência de sua cunhada e antiga rainha D. Leonor, irmã de D. Manuel e esposa de seu antecessor, D. João II, contribuiu para a eventual fortificação de D. Maria como consorte ideal, desinteressada de quaisquer excessos. Neste ponto de vista, entende-se melhor a notável omissão dos cronistas régios quanto a eventuais intromissões da rainha nas esferas culturais e políticas; enquanto o primeiro é quase certo, lembrando-se a rica educação livresca fornecida à D. Maria, o segundo é mais do que esperado, considerando-se que a rainha portuguesa ainda era a maior representante da aliança com Castela e Aragão. Apesar disto, contudo, a imagem que ficaria fixada seria mesmo de sua exemplaridade feminina, de acordo com o modelo doutrinário que era tão difundido na região ibérica. Neste sentido, o rápido nascimento de ampla descendência apenas aceleraria tal processo de cristalização da imagem de D. Maria como consorte ideal e mãe dedicada à criação de seus filhos.

Quanto à maternidade, D. Maria realmente cumpriu sua função real de maneira mais do que exemplar para a época, sendo inclusive uma das consortes portuguesas mais férteis da história. Numa progressão impressionante, ela daria à luz dez crianças em pouco menos de 15 anos; mesmo que duas falecessem pouco depois do parto, oito conseguiriam sobreviver até a idade adulta, sendo seis meninos. Tratava-se de uma taxa de sobrevivência incomum, que aparentemente afastava o perigo de extinção da dinastia dos Avis. De fato, D. Manuel se veria com tantos filhos homens nas mãos que planejaria mandar a metade deles para a vida religiosa. Dos mais notáveis filhos e filhas de D. Manuel e D. Maria, se destacariam especialmente o primogênito e sucessor do pai, D. João III, a imperatriz de Carlos V, D. Isabel, o ambicioso secundogênito, D. Luís, e o cardeal e futuro rei, D. Henrique, além do caçula e futuro antepassado da dinastia de Bragança, D. Duarte.

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O casal real na série Isabel (2011-14)

O motivo da morte precoce de D. Maria é algo incerto. Embora a maioria das fontes e autores se calem sobre o assunto, apontando na direção de uma morte natural aos 34 anos de idade, uma das principais biografias de D. Manuel defende que o falecimento da rainha ocorreu após complicações no parto do último filho, D. Antônio, que viveria pouco. O fato que se passaram seis meses entre este nascimento e a morte de D. Maria, contudo, pode apontar não para uma complicação súbita, mas sim para um agravamento progressivo de sua condição com as repetidas gestações, o que é colaborado pela falta de surpresa da corte pelo falecimento da consorte. Apesar disso, o  próprio rei ficou bastante arrasado, encerrando-se no convento da Penha Longa em sua dor e cogitando abdicar do trono português em nome do herdeiro, pensamentos engendrados num momento político-militar difícil do império português. Eventualmente, porém, a desilusão abrandaria, principalmente depois que o idoso rei ouvisse falar mais da prometida do príncipe D. João: tratava-se da bela Leonor de Áustria.

(1) O duque Maximiliano era o único filho homem da imperatriz Leonor, filha sobrevivente mais velha do rei português D. Dinis e esposa do imperador alemão Frederico III.  Com a falha da linha sucessória masculina dos Avis, representada apenas por D. Manuel e seu frágil herdeiro, sua pretensão ao trono poderia muito bem ser considerada.

Para saber mais:

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

FERNANDES, Maria de Lurdes Correia. “D. Maria, mulher de D. Manuel I: uma face esquecida da corte do Venturoso”. IN: Língua e Literaturas. Porto, XX, I, 2003.

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