O Saque de Roma (1527)

Em fins de abril de 1527, Isabel de Portugal, irmã de D. João III e esposa de Carlos V, se encontrava no fim da gestação de sua primeira criança com o imperador e rei de Espanha. Um parto no século XVI costumava ser um evento cuidadosamente preparado; temendo a morte, tão comum em nascimentos do período, grande parte das mães inclusive providenciava seu testamento, para caso o pior viesse de fato a ocorrer imediatamente ou pouco tempo após ela dar à luz.

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Álvaro Cervantes e Blanca Suárez como Carlos V e Isabel de Portugal na série Carlos, Rey Emperador

O marido de Isabel, contudo, provavelmente não se encontrava perto dela em Espanha neste momento difícil. No comando de extensos territórios, não poderia se esperar honestamente que Carlos V pudesse se deter por algumas semanas num só lugar à espera do parto da imperatriz, mesmo em tempos de paz. No caso do primeiro nascimento, contudo, talvez tivesse sido mais provável, mas os exércitos imperiais já se encontravam à beira de outro conflito aberto com as tropas francesas na Itália.

As guerras entre Francisco I e Carlos V já ocorriam desde o início da década de 1520, datando aproximadamente da derrota do primeiro perante o segundo na eleição para Sacro Imperador Romano. Neste sentido, a derrota dos franceses nas primeiras hostilidades preocupou o papado e a República de Veneza, que já procuravam afastar Carlos V dos assuntos italianos. Pouco depois de retornar à França após a esmagadora vitória imperial em Pavia, Francisco I renunciou ao seu tratado de paz com Carlos V e juntou-se a eles, assim como Florença, Milão e uma muito hesitante Inglaterra. Eventualmente, uma aliança anti-Habsburgo – chamada Liga de Cognac – foi formada.

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Francisco I de França

Apesar de ter como objetivo estratégico a diminuição do poder do imperador em Itália, os exércitos do rei francês não foram de muita utilidade no início do conflito. A primeira grande batalha ocorreu em junho de 1526, na Lombardia, onde as forças imperiais tentaram sitiar o castelo do duque de Milão, Francisco Sforza. Tendo como principais comandantes Antonio de Leyva e Alfonso del Guasto, além de serem reforçados pelo maior adversário interno do rei francês, o rebelde duque de Bourbon, o exército imperial não pode ser detido pelas tropas combinadas dos estados papais, Milão e Veneza, mesmo depois da chegada do reforço de mais soldados. Derrotados em Milão em fins de julho, só restou à Liga retirar-se do território e tentar tomar a vizinha Cremona. Mesmo sendo bem-sucedidos neste ponto, o sítio anterior permitiu a Carlos V agrupar mais exércitos vindos da Espanha e dos estados alemães. No começo de 1527, eles já estavam ameaçando militarmente a própria Roma.

Quando o exército do duque de Bourbon chegou à capital da cristandade, no início de maio, as tropas, com poucos suprimentos, já haviam se rebelado e entrado em franca rebelião. Sua indisciplina já se manifestara anteriormente com o saque das cidades de Acquapendente e San Lorenzo alle Grotte, mas a autoridade do duque de Bourbon ainda as mantinha sob controle. A morte do duque durante o cerco de Roma, contudo, acabou com isso. Sem uma restrição considerável, o exército invadiu a cidade depois de derrotar as parcas tropas que a defendiam e instaurou o inferno; o sucessor de Bourbon no comando, Phillibert de Châlon, foi incapaz de deter os soldados depois do massacre dos últimos soldados da Guarda Suíça.

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O saque de Roma em 1527, por Johannes Lingelbach

Grande parte do exército, composto em sua maioria alemã por seguidores de Lutero, enxergava o papa Clemente VII como o próprio anticristo, e, na impossibilidade de invadir o refúgio dele no Castelo São Angelo, nos arredores da cidade, degradaram Roma. Na ausência do papa, religiosos foram os principais alvos:  igrejas seriam depredadas, padres e monges assassinados e freiras estupradas. A destruição artística também seria imensa, com pinturas valiosas destruídas e estátuas clássicas quebradas. O incalculável valor dos livros da Biblioteca do Vaticano só seria poupado porque o comandante Phillibert, talvez num movimento estratégico, instalou seu quartel general ali depois que entrou na cidade. Pouco depois, um inimigo pessoal do papa, cardeal Pompeo Colonna, seguiu as tropas invasoras para dentro da cidade. Apesar de manter seu apoio ao imperador Carlos V, Pompeo apiedou-se das condições miseráveis dos cidadãos romanos e abrigou muitos deles em seu palácio.

Finalmente, em 6 de junho, Clemente VII rendeu-se e concordou em pagar  400.000 ducados por sua libertação, além de ceder os territórios de Parma, Placenza, Modena e Civitavecchia ao imperador. Veneza também anexaria Cervia e Rovenna. No mínimo 6.000 romanos morreram no saque de Roma, com o total real provavelmente atingindo o dobro deste número. Fragilizado politicamente pela invasão, o papa teve que ceder às vontades de Carlos V até sua morte, incluindo negar os pedidos do rei inglês Henrique VIII para que ele anulasse seu primeiro matrimônio com a tia do imperador, Catarina de Aragão.  A recusa de Clemente VII eventualmente levaria este monarca a romper relações com Roma, o que possibilitaria a criação da Igreja Anglicana.

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Saque de Roma, por Francisco Javier Amérigo Aparicio

Apesar da estrondosa vitória, Carlos V ficaria profundamente constrangido com a falta de controle das tropas, que inclusive permaneceriam em Roma até o fim dos mantimentos e o começo de uma epidemia de peste em fevereiro do ano seguinte. É de se pensar que seu cunhado profundamente religioso, D. João III, tenha ficado consternado com as trágicas notícias, assim com sua esposa, Catarina de Áustria, irmã mais nova do imperador. O embaraço do próprio Carlos V, porém, logo seria amaciado pelo sucesso do parto da imperatriz Isabel: em 21 de maio, com ou sem a presença do imperador, nasceria o esperado herdeiro homem, Felipe. A Era Dourada do Império Espanhol, portanto, literalmente viria à luz em meio ao choque do assassinato e do massacre, o que não deixa de representar uma faceta menos conhecida do império onde o sol nunca se punha.

Para saber mais:

https://www.onwar.com/aced/chrono/c1500s/yr20/leagueofcognac1526.htm

http://www.historyofwar.org/articles/wars_second_hapsburg_valois.html

http://www.historyofinformation.com/expanded.php?id=3958

http://www.encyclopedia.com/topic/Sack_of_Rome.aspx

http://www.seattlecatholic.com/article_20040427.html

Maria de Aragão – parte II

Contando 17 anos na época das negociações, Maria era francamente a única princesa casadoira no raio de influência portuguesa, de modo que seu casamento com D. Manuel – com apenas um filho de frágil saúde – era algo inevitável, principalmente depois que as pretensões da Casa de Habsburgo ao trono português (1) encerraram qualquer ideia de D. Manuel quanto a um possível casamento com a princesa viúva Margarida.  Apesar de tudo, ainda eram os Reis Católicos os maiores interessados na união de Manuel e Maria; afinal, a pretendente derrotada ao trono castelhano, a princesa Joana, ainda estava em idade reprodutiva. Para evitar esta terrível possibilidade, Isabel e Fernando aceleraram as negociações nupciais, com o casamento se concretizando poucos meses depois da morte do neto e herdeiro deles.

Apesar da leve hesitação do rei português quanto à união, hoje é reconhecido que este segundo matrimônio de D. Manuel foi o responsável pelo estabelecimento do mais forte e duradouro laço de afeição e, muito possivelmente, verdadeiro amor, de sua vida, como pode ser entrevisto no grande sofrimento do monarca quando D. Maria faleceu. Logo no início do casamento, o casal real se estabeleceria em Lisboa, onde a rainha rapidamente cultivaria uma reputação discreta e religiosa. Segundo o cronista Damião de Goés, Maria era “muim honesta em todas as suas praticas”, afirmação reforçada por D. Jerônimo Osório quando este afirma que ela era “muito afável e humana em seu trato, e mui comedida em todas as suas falas”.

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Maria após seu casamento e maternidade

Tudo isto, combinado com a forte influência de sua cunhada e antiga rainha D. Leonor, irmã de D. Manuel e esposa de seu antecessor, D. João II, contribuiu para a eventual fortificação de D. Maria como consorte ideal, desinteressada de quaisquer excessos. Neste ponto de vista, entende-se melhor a notável omissão dos cronistas régios quanto a eventuais intromissões da rainha nas esferas culturais e políticas; enquanto o primeiro é quase certo, lembrando-se a rica educação livresca fornecida à D. Maria, o segundo é mais do que esperado, considerando-se que a rainha portuguesa ainda era a maior representante da aliança com Castela e Aragão. Apesar disto, contudo, a imagem que ficaria fixada seria mesmo de sua exemplaridade feminina, de acordo com o modelo doutrinário que era tão difundido na região ibérica. Neste sentido, o rápido nascimento de ampla descendência apenas aceleraria tal processo de cristalização da imagem de D. Maria como consorte ideal e mãe dedicada à criação de seus filhos.

Quanto à maternidade, D. Maria realmente cumpriu sua função real de maneira mais do que exemplar para a época, sendo inclusive uma das consortes portuguesas mais férteis da história. Numa progressão impressionante, ela daria à luz dez crianças em pouco menos de 15 anos; mesmo que duas falecessem pouco depois do parto, oito conseguiriam sobreviver até a idade adulta, sendo seis meninos. Tratava-se de uma taxa de sobrevivência incomum, que aparentemente afastava o perigo de extinção da dinastia dos Avis. De fato, D. Manuel se veria com tantos filhos homens nas mãos que planejaria mandar a metade deles para a vida religiosa. Dos mais notáveis filhos e filhas de D. Manuel e D. Maria, se destacariam especialmente o primogênito e sucessor do pai, D. João III, a imperatriz de Carlos V, D. Isabel, o ambicioso secundogênito, D. Luís, e o cardeal e futuro rei, D. Henrique, além do caçula e futuro antepassado da dinastia de Bragança, D. Duarte.

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O casal real na série Isabel (2011-14)

O motivo da morte precoce de D. Maria é algo incerto. Embora a maioria das fontes e autores se calem sobre o assunto, apontando na direção de uma morte natural aos 34 anos de idade, uma das principais biografias de D. Manuel defende que o falecimento da rainha ocorreu após complicações no parto do último filho, D. Antônio, que viveria pouco. O fato que se passaram seis meses entre este nascimento e a morte de D. Maria, contudo, pode apontar não para uma complicação súbita, mas sim para um agravamento progressivo de sua condição com as repetidas gestações, o que é colaborado pela falta de surpresa da corte pelo falecimento da consorte. Apesar disso, o  próprio rei ficou bastante arrasado, encerrando-se no convento da Penha Longa em sua dor e cogitando abdicar do trono português em nome do herdeiro, pensamentos engendrados num momento político-militar difícil do império português. Eventualmente, porém, a desilusão abrandaria, principalmente depois que o idoso rei ouvisse falar mais da prometida do príncipe D. João: tratava-se da bela Leonor de Áustria.

(1) O duque Maximiliano era o único filho homem da imperatriz Leonor, filha sobrevivente mais velha do rei português D. Dinis e esposa do imperador alemão Frederico III.  Com a falha da linha sucessória masculina dos Avis, representada apenas por D. Manuel e seu frágil herdeiro, sua pretensão ao trono poderia muito bem ser considerada.

Para saber mais:

COSTA, João Paulo Oliveira e. D. Manuel I – 1469-1521 Um príncipe do renascimento. Círculo de Leitores, 2011.

FERNANDES, Maria de Lurdes Correia. “D. Maria, mulher de D. Manuel I: uma face esquecida da corte do Venturoso”. IN: Língua e Literaturas. Porto, XX, I, 2003.

Maria de Aragão – parte I

Terceira filha (quarta criança) nascida do matrimônio entre Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, a infanta Maria veio ao mundo em 29 de junho de 1482. Este parto da rainha, contudo, provou-se bastante problemático num tempo onde ainda não eram habituais medidas hoje comuns de higienação na vida cotidiana, quanto mais numa situação delicada como um nascimento gemelar. Como consequência, o irmão ou irmã de Maria faleceu pouco após o parto, e a mãe das crianças ficou com a saúde abalada, inclusive chegando, segundo a série Isabel, a receber a extrema unção. Ultimamente, ela sobreviveria, mas quatro anos separariam Maria daquela que seria sua última irmã, a infanta Catarina.

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Isabel I de Castela

Interessantemente, os primeiros planos de matrimônio de Maria envolveriam também sua irmã mais nova. Enquanto ambas recebiam, assim como suas duas irmãs mais velhas, as infantas Isabel e Joana, a excelente educação doméstica e intelectual fornecida por seus tutores, escolhidos a dedo pela rainha, Isabel e Fernando já faziam planos para utilizar Maria e Catarina para influenciar as políticas de dois reinos do Norte; enquanto a caçula seguiria com seu planejado casamento com o herdeiro da Inglaterra, o príncipe Artur, a intenção dos Reis Católicos era unir Maria ao rei dos escoceses, James, ainda solteiro mesmo após anos de compromisso com a princesa inglesa Cecily. Mesmo que James fosse pouco menos de dez anos mais velho do que Maria, o planejamento dos monarcas provavelmente ainda tinha um ar bastante agradável para as irmãs, que poderiam estar perto uma da outra enquanto mantinham a paz entre os turbulentos vizinhos, e quem sabe até mesmo visitar uma a outra com frequência.

Infelizmente, este plano matrimonial um tanto humano para o século XVI acabou não se cumprindo. Enquanto as outras irmãs se casavam sucessivamente com o herdeiro de Portugal e o duque de Borgonha, Maria era mantida sem compromissos nupciais sérios enquanto a viagem de Catarina para a Inglaterra era planejada. As desventuras da primogênita Isabel, contudo, mudariam com rapidez o destino de Maria. Após alguns meses de feliz casamento com D. Afonso, a jovem ficaria viúva após um trágico acidente de cavalo envolvendo o marido, e retornaria para Castela, jurando que não mais se casaria. Poucos anos depois, o novo rei de Portugal, D. Manuel, enviou embaixadores ao vizinho para negociar um casamento que fortalecesse a linha sucessória portuguesa. Apesar de sua aparente frágil posição nas negociações, a possibilidade de uma nova ligação com as riquezas coloniais portuguesas mantiveram os Reis Católicos em suspense quando D. Manuel insistiu em casar-se não com a noiva oferecida por estes, a infanta Maria, mas sim com a princesa viúva de Portugal.

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Uma jovem infanta Maria

De início, os monarcas hesitaram, ainda procurando respeitar os desejos da filha de levar uma vida casta e religiosa, mas o rei português manteve-se firme em sua decisão. Se tal insistência decorreu da posição sucessória de Isabel em Castela e Aragão, de sua maturidade física comparada à irmã mais nova ou mesmo de certa admiração pessoal do novo monarca iniciada quando ambos se conheceram em Portugal, ainda em 1490, é algo impossível de saber-se com certeza, mas o fato é que os Reis Católicos acabaram cedendo. A princesa viúva também aceitou a proposta após um compromisso de D. Manuel no sentido de prosseguir a política espanhola de expulsão de todos os judeus, e em 1497 ambos se uniriam, poucos dias antes da morte do único irmão de Isabel, o príncipe João.  A morte da filha póstuma deste no parto poucos meses depois significou que a grávida Isabel era agora a herdeira novamente, e D. Manuel o futuro rei de Aragão, Castela e Portugal.

Novamente, entretanto, o aparente não se cumpriria: a própria Isabel faleceria no parto em agosto de 1498, na cidade aragonesa de Zaragoza, onde ela e o marido haviam sido convocados para serem jurados como os herdeiros de Aragão. Agora, o máximo que D. Manuel poderia ambicionar em relação ao vizinho era uma possível regência em nome do filho D. Miguel, também frustrada quando da morte prematura deste em 1500. Antes mesmo disto, porém, os Reis Católicos já negociavam uma nova forma de manter firmes os laços com o rico Portugal. A nova herdeira de Espanha era a instável infanta Joana, casada com o ambicioso duque de Borgonha, de modo que a única filha disponível era a já madura Maria.