Joana de Castela, a ‘Beltraneja’ – parte I

Única filha oficialmente resultante do casamento entre Henrique IV de Castela e Joana de Portugal, a princesa Joana nasceu em fins de fevereiro de 1462. Pela via materna, ela era sobrinha do rei D. Afonso V; pela via paterna, ela era a herdeira presuntiva ao trono de Castela na ausência de irmãos homens. Contudo, ela nascera após sete anos de esterilidade matrimonial, quando já se considerava que Henrique IV era de fato impotente – como sua primeira esposa rejeitada, Blanche de Navarra, alegava, com um casamento de mais de uma década sem consumação para apoiá-la.

Joana de Portugal
Joana de Portugal

De qualquer forma, o rei pareceu reconhecer a jovem Joana como sua herdeira desde o seu nascimento, convocando inclusive seus meios-irmãos Isabel e Afonso para testemunhar o parto da rainha. Após o evento bem-sucedido, a primeira foi colocada na equipe de damas de honra que servia Joana de Portugal, enquanto Afonso, o antigo herdeiro presuntivo, começou sua educação oficial com um tutor. Não muito após o nascimento da princesa Joana, entretanto, começariam os rumores que ela não era a filha do rei, mas sim fruto de um relacionamento da rainha com o nobre Beltrán de la Cueva. O nascimento de duas crianças ilegítimas não muito depois, concebidas durante o caso que a rainha Joana teve com o sobrinho de um bispo, prejudicou em muito a posição da princesa; em primeiro lugar, porque o matrimônio de seus pais acabaria dissolvido em decorrência destes eventos escandalosos, e em segundo porque a conduta de sua mãe testemunhava diretamente contra a sua pretensa legitimidade. Agora, uma facção considerável da nobreza defendia que Joana, a Beltraneja (filha de Beltrán) não poderia suceder ao rei e defendiam os direitos do príncipe Afonso na rebelião que fatalmente se seguiu.

Após a Segunda Batalha de Olmedo, em 1467, Henrique IV e Afonso atingiram finalmente um consenso: o último sucederia ao rei se se casasse com a princesa Joana. Afonso, porém, não viveu muito tempo depois de ser reconhecido como o herdeiro do trono castelhano, sendo vítima da praga (ou do veneno, segundo rumores) logo no ano seguinte. Como herdeira de seu irmão, Isabel tornou-se a líder da causa rebelde. A facção da nobreza liderada por ela, porém, não era forte o suficiente para depor o rei. Novamente, então, os dois lados chegaram a um acordo: Henrique IV nomearia Isabel como sua herdeira presuntiva antes de Joana, mas Isabel não se casaria sem a permissão do irmão. Não muito tempo depois, contudo, o rei estava tentando casar Isabel com D. Afonso V de Portugal, ao mesmo tempo em que negociava uma união entre sua filha Joana e o herdeiro de D. Afonso, o príncipe D. João: assim, tia e sobrinha reinariam consecutivamente tanto em Castela quanto Portugal.

Henrique IV de Castela
Henrique IV de Castela

Neste contexto, o casamento secreto entre Isabel de Castela e o herdeiro Fernando de Aragão, já em 1469, precipitou o início da luta pela sucessão do trono castelhano, com Henrique IV procurando restabelecer Joana como sua herdeira. A esta altura, a princesa já tinha sete anos, e negociações matrimoniais para sua mão já haviam começado com alguns príncipes franceses, embora ainda sem um compromisso mais aparente quando, em 1474, Henrique IV faleceu. Quase que imediatamente, as pretensões opostas de tia e sobrinha se chocaram, e a Guerra de Sucessão Castelhana começou.

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